A CIMITARRA - Conto Clássico Insólito - Conto de Horror Sarcástico - Ambrose Bierce


A CIMITARRA
Ambrose Bierce
(1842- 1914?)
Tradução de Paulo Soriano

Quando o grande Gichi-Muktai era Mikado[1], condenou Jijiji Ri, alto funcionário da corte, à decapitação. Pouco depois da hora assinalada para a realização do ritual, qual não foi a surpresa de Sua Majestade ao ver aproximar-se tranquilamente do trono o homem que deveria estar morto há dez minutos!
— Por setecentos mil impossíveis dragões! — exclamou, enfurecido, o monarca. — Eu não te condenei a comparecer à praça do mercado, para que o executor público te cortasse a cabeça às três horas?  E, agora, não são três de dez?
— Filho de mil deidades ilustres — respondeu o ministro condenado —, tudo o que dizes é tão verdadeiro que, em comparação com tuas palavras, a verdade é mentira. Mas os solares e vivificantes desejos de Vossa Majestade Celestial foram pestilentamente ignorados. Com alegria, corri e expus o meu corpo indigno na praça do mercado. O carrasco apareceu com a cimitarra nua, ostensivamente a girou no ar e, depois, tocando-me levemente o pescoço, foi-se embora, hostilizado pela turba, de quem sempre fora um favorito.  Venho reclamar por que caia a justiça sobre sua desonrada e traidora cabeça.
— A que regimento de verdugos pertence esse patife de negras entranhas?
— Ao galante Nove Mil Oitocentos e Trinta e Sete.  Eu o conheço. Seu nome é Sakko-Samshi.
— Que seja ele trazido diante de mim — disse o Mikado a um ajudante, e meia hora depois o culpado estava em sua Presença.
— Oh, bastardo filho de um corcunda de três pernas sem polegares! — rugiu o soberano. — Por que deste apenas um suave toque no pescoço que deverias ter o prazer de decepar?
— Senhor dos Grous e das Flores de Cerejas — respondeu, impassível, o carrasco. — Ordena ao ministro que assoe o nariz com os dedos.
Acatando à ordem do soberano, Jijiji Ri segurou o nariz e expirou como um elefante. Todos esperavam ver tombar a cabeça decepada, desgarrada violentamente do corpo. Mas nada disto aconteceu. O desempenho perdurou pacificamente até o fim. Todos os olhos voltaram-se ao executor, que ficara tão branco quanto as neves no cume do Fujiyama. Suas pernas tremiam e sua respiração exalava o terror.
— Por mil leões de latão espinhoso! — gritou. — Sou um arruinado e desonrado espadachim!  Golpeei tenuemente o vilão porque, ao florear a cimitarra, a fiz atravessar acidentalmente o meu próprio pescoço. Pai da Lua, renuncio ao meu cargo.
Tendo dito isto, agarrou-se pelo o rabicho, ergueu a própria cabeça e, avançando em direção ao trono, a depositou humildemente aos pés do Mikado.





[1] Imperador.
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O CORPO DE UMA MULHER - Conto Clássico Insólito - Ryunosuke Akutagawa



O CORPO DE UMA MULHER
Ryunosuke Akutagawa
(1892- 1927)
Tradução (indireta) de Paulo Soriano
Ilustração de Liu Yaming


Certa noite de verão, um chinês chamado Wang despertou, de repente, por causa do calor insuportável. Deitada de bruços, a cabeça entre as mãos, ele começou a tecer fantasias ardentes, quando percebeu que uma pulga, num lado da cama, avançava em sua direção. Na penumbra de seu quarto, ele a viu a arrastar o seu diminuto corpo, brilhante como pó de prata, na direção do ombro da mulher, que dormia a seu lado. Deitada e nua, ela estava profundamente adormecida, e ele a ouviu respirar docemente, com a cabeça e o corpo voltados para ele.
Observando o indolente avançar da pulga, Yang refletiu sobre a existência dessas criaturas. Uma pulga precisa de uma hora para chegar a um ponto que está a apenas dois ou três passos de nós. "Minha vida seria muito tediosa se eu fosse uma pulga."
Dominada por esses pensamentos, a sua consciência começou a esmorecer lentamente e, sem dar-se conta, acabou mergulhando num estranho transe que não era nem sonho nem realidade. Imperceptivelmente, justamente quando se sentiu acordado, viu, com assombro, que sua alma havia penetrado no corpo da pulga que, durante todo esse tempo, avançava lentamente na cama, guiada pelo cheiro acre de suor. Isto, no entanto, não foi a única coisa que que o confundiu, embora aquela fosse uma situação tão misteriosa que ele não conseguia sair de seu espanto inicial.
Em seu caminho, erguia-se uma alta montanha, de forma mais ou menos arredondada, que subia para além do espectro de sua visão, e descia até a cama onde se encontrava. A base meio arredondada da montanha, contígua à cama, tinha a aparência de uma romã tão brilhante que parecia conter uma chama ígnea em seu interior.  Exceto por essa base, o resto desta montanha harmoniosa era esbranquiçada, composto por uma massa nívea de substância adiposa, macia e polida. A vasta superfície da montanha, banhada pela luz, emitia um leve brilho ambarino, que se curvava em direção ao céu como um arco de beleza requintada, enquanto o lado escuro refulgia como a neve azulada à luz da lua.
Com os olhos bem abertos, Yang fixou o olhar atônito naquela montanha de inusitada beleza. Mas o que realmente o chocou foi descobrir que a montanha era um dos seios de sua esposa. Ao pôr de lado o amor, o ódio e o desejo carnal, Yang contemplou aquele seio enorme, que parecia uma montanha de mármore. No auge de sua admiração, ele permaneceu, por um longo tempo, petrificado e aturdido por aquela visão irresistível, alheio por completo ao acre cheiro de suor. Antes de se tornar uma pulga, ele não tinha notado a beleza de sua esposa. Um homem de temperamento artístico não pode se limitar a contemplar a beleza aparente de uma mulher, e deve vê-la através do olhar espantado de uma pulga.


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O FANTASMA MORDIDO - Conto Clássico de Terror - Pu Songling


O FANTASMA MORDIDO
Pu Songling
(1640 – 1715)
Tradução (indireta) de Paulo Soriano

Eis a história que me contou Chen Li-Cheng:
Certo amigo seu, já idoso, estava deitado, à hora da sesta de um dia de verão, quando viu, meio adormecido, a vaga figura de uma mulher que, eludindo a porteira, introduzia-se na casa vestida de luto: touca branca, túnica e saia de cânhamo. Dirigiu-se aos cômodos interiores e o velho, a princípio, pensou que era uma vizinha que lhe vazia uma visita.  Então, ele pensou: “como alguém se atreveria a entrar na casa alheia com semelhante indumentária?”
Enquanto permanecia imerso na perplexidade, a mulher voltou sobre os próprios passos e penetrou no quarto.  O velho homem a examinou atentamente: teria a mulher uns trinta anos. O tom amarelado de sua pele, o seu rosto intumescido e o seu olhar sombrio conferiam-lhe um aspecto terrível. Ia e vinha pelo quarto, aparentemente sem qualquer intenção de abandoná-lo. Aproximou-se da cama. Ele fingia dormir para melhor observar os seus movimentos.
De repente, ela levantou um pouco a saia e saltou para a cama, sentando-se no ventre do ancião.  Parecia pesar três mil libras. O velho homem conservava por completo a lucidez, mas, quando tentou erguer a mão, encontrou-a como que agrilhoada. Tentou mover um pé, mas este estava paralisado. Abrumado de terror, tratou de gritar, mas, infelizmente, não era dono da própria voz. A mulher, entretanto, fuçava-lhe o rosto, as bochechas, o nariz, as sobrancelhas, a testa. Por todo o rosto, o ancião sentia o seu hálito, cujo sopro gelado penetrava-lhe até os ossos. Imaginou, então, um estratagema para livrar-se daquela angústia: quando ela chegasse ao queixo, ele tentaria mordê-la. Pouco depois a mulher, de fato, inclinou-se para farejar-lhe o queixo. E o velho a mordeu com todas as suas forças, tanto que os dentes penetram na carne.
Sob o impacto da dor, a mulher atirou-se ao chão, debatendo-se e chorando, enquanto ele apertava as mandíbulas com mais energia. O sangue escorria por seu queixo e inundava o travesseiro. Em meio a esta luta encarniçada, o velho ouviu, vinda do pátio, a voz de sua mulher.
— Um fantasma! — ele gritou imediatamente.
Mas, assim que abriu a boca, a entidade monstruosa desapareceu como um suspiro.
A mulher correu à cabeceira do marido. Não viu nada e zombou da ilusão causada — pensou ela — por um pesadelo.  Mas o velho insistiu em sua narrativa e, como prova evidente, lhe mostrou a mancha de sangue: parecia água que penetrara por uma fissura do teto e empapara o travesseiro e o tapete.  O velho aproximou o rosto da mancha e respirou uma emanação pútrida. Sentiu-se dominado por um violento acesso de vômitos e, durante muitos dias, permaneceu com a boca empesteada, donde fluía um hálito nauseabundo.


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MESTRE ZACHARIUS - Novela Fantástica - Júlio Verne



 MESTRE ZACHARIUS
Júlio Verne (1828 – 1905)

Tradução de António Manuel da Cunha e Sá (1854-1909)
Ilustrações de Jules Théophile Shuler (1821 – 1878)
Adaptação textual: Paulo Soriano

I — Uma Noite de Inverno


A cidade de Genebra está situada na extremidade ocidental do lago a que deu o nome. O Ródano, que a atravessa ao sair do lago, divide-a em dois bairros distintos, e ele mesmo é dividido, no centro da cidade, por uma ilha situada entre as duas margens. Esta disposição topográfica reproduz-se muitas vezes nos grandes centros do comércio ou da indústria. Decerto que os primeiros nativos se sentiram tentados pela facilidade de transporte que lhes ofereciam as rápidas correntes dos rios, essas estradas que caminham por si mesmas, segundo a expressão de Pascal[1]. Com o Ródano, as tais estradas não caminham, correm.
No tempo em que as construções regulares e ao gosto moderno não se elevavam ainda nesta ilha, ancorada como uma galeota holandesa a meio do rio, a admirável acumulação das suas casas empoleiradas umas sobre as outras oferecia à vista um quadro a um tempo confuso e encantador. A limitada extensão da ilha tinha feito com que algumas dessas construções se elevassem sobre estacas e se metessem pelas águas revoltas do Ródano. Aqueles grossos madeiros, enegrecidos pelo tempo, gastos pelas águas, pareciam as pernas de imenso caranguejo e produziam fantástico efeito. Algumas linhas de pesca, amarelecidas pelo uso, verdadeiras teias de aranha estendidas no seio deste alicerce secular, agitavam-se na sombra, semelhando a folhagem daqueles velhos troncos de carvalho, e o rio, engolfando-se no meio daquela floresta de estacas, escumava, mugindo de modo lúgubre.
Uma das habitações da ilha impressionava pelo seu aspecto de estranha vetustez. Era a casa do velho relojoeiro, mestre Zacharius, de sua filha Gérande, de Aubert Thun, seu aprendiz, e da sua velha criada Scholastique.
Que homem extraordinário não era aquele Zacharius! A sua idade parecia indecifrável. O velho mais idoso de Genebra não poderia dizer há quanto tempo a sua cabeça magra e afilada lhe vacilava sobre os ombros, nem qual fora o dia em que pela primeira vez o tinham visto andar pelas ruas da cidade, deixando flutuar ao vento a sua longa cabeleira branca. Este homem não vivia. Oscilava à maneira do pêndulo dos seus relógios. O seu todo, magro e cadavérico, tinha toques sombrios. Como os quadros de Leonardo da Vinci, enegrecera com o tempo.
Gérande habitava o mais belo aposento da velha casa, donde, passando por uma janela estreita, o seu olhar ia melancólico demorar-se sobre os cumes nevados do Jura. Porém, o quarto de dormir e oficina do velho ocupavam uma espécie de subterrâneo, que tocava quase na superfície do rio e cujo sobrado se apoiava sobre as próprias estacas. Desde tempos imemoriais, mestre Zacharius só de lá saía às horas de comer ou quando ia regular os relógios da cidade. O resto do tempo passava-o junto de uma mesa coberta de numerosos instrumentos de relojoaria, que ele havia, na sua maior parte, inventado.
Porque ele era um homem hábil, em toda a França e Alemanha as suas obras eram muito estimadas. Os mais peritos operários de Genebra reconheciam francamente a sua superioridade, o que era uma honra para esta cidade, cujos habitantes o apontavam dizendo:
— A ele cabe a glória de ter inventado o scapo!
Efetivamente, desta invenção, que os trabalhos de Zacharius mais tarde farão compreender, data a origem da verdadeira relojoaria.
Depois de trabalhar habilmente e por muito tempo, Zacharius arrumava vagarosamente a ferramenta, cobria com leves mangas de vidro as peças que acabava de ajustar, e fazia descansar a roda ativa do torno; em seguida, levantava uma espécie de alçapão aberto no sobrado do seu reduto, e, debruçado horas inteiras, enquanto o Ródano se precipitava ruidosamente por baixo dele, embriagava-se aspirando-lhe os caliginosos vapores.
Certa noite de inverno, a velha Scholastique serviu a ceia, da qual, segundo costume velho, participava o moço aprendiz. Apesar dos manjares cuidadosamente preparados que tinha diante de si em bonita louça azul e branca, mestre Zacharius não comeu. Mal respondeu às palavras meigas de Gérande, a quem a taciturnidade mais sombria de seu pai preocupava visivelmente, e a própria tagarelice de Scholastique passou-lhe tão despercebida como os bramidos da torrente, a que já não prestava atenção. Depois desta refeição silenciosa, o velho relojoeiro levantou-se da mesa sem abraçar a filha, sem dar a todos as boas-noites do costume. Desapareceu pela porta estreita que ia ter ao seu aposento, e, sob os seus passos pesados, a escada soltou profundos gemidos.
Gérande, Aubert e Scholastique ficaram por alguns momentos sem falar. Naquela noite, o tempo estava sombrio: as nuvens arrastavam-se com dificuldade ao longo dos Alpes e ameaçavam desfazer-se em chuva; a temperatura inclemente da Suíça enchia a alma de tristeza, e os ventos do sul vagueavam nos arredores e soltavam agudos silvos.
— Sabe, minha querida menina — disse por fim Scholastique —, que o nosso mestre anda há uns dias muito introspectivo? Valha-me Nossa Senhora! Não me admira que ele não tivesse fome, porque as palavras ficaram-lhe no ventre, e muito esperto havia de ser o diabo para lhe apanhar alguma!
— Meu pai tem algum pesar secreto que não posso sequer imaginar — redarguiu Gérande, ao mesmo tempo que uma dolorosa inquietação manifestava-se em seu rosto.
— Menina, não se entregue à tristeza. Conhece os singulares costumes de mestre Zacharius. Quem pode ler-lhe na fronte os seus pensamentos secretos? Teve decerto algum motivo de aborrecimento, mas amanhã não se lembrará disso, e se arrependerá deveras de ter causado algum desgosto à sua filha.
Era Aubert quem assim falava, fitando os formosos olhos de Gérande. Auber era o único empregado que mestre Zacharius admitiu à intimidade dos seus trabalhos, porque lhe conhecera a inteligência, a discrição e a bondade natural. Aubert afeiçoara-se a Gérande com a fé misteriosa que preside à dedicação heroica.
Gérande tinha dezoito anos. O oval do seu rosto lembrava o das cândidas madonas que a veneração suspende ainda nos cantos das ruas das velhas cidades da Bretanha. Em seus olhos manifestava-se uma infinita ingenuidade. Inspirava amor, como a mais suave realização de um sonho de poeta. Nos vestidos ostentava cores pouco vistosas e o alvo corpete, que lhe velava o seio, tinha o tom e o cheiro próprios das vestimentas de igreja. Gérande passava a existência mística naquela cidade de Genebra, que ainda não se entregara naquele tempo à aridez do calvanismo.
Ao mesmo tempo que lia de manhã e de tarde as orações latinas no seu missal com fechos de ferro, Gérande lera também o sentimento que se abrigava no coração de Aubert Thun, e adivinhara a profunda dedicação que o mecânico lhe votava. Efetivamente, aos olhos do jovem homem, o mundo todo resumia-se na velha casa do relojoeiro, e, quando, acabado o trabalho, largava a oficina de mestre Zacharius, ia passar o resto do tempo junto da jovem.
A velha Scholastique via isto, mas não dizia palavra. A sua loquacidade exercia-se de preferência sobre as desgraças do tempo e as pequenas misérias do lar doméstico. Ninguém procurava fazê-la calar. Sucedia com ela o mesmo que sucedia com as caixas de música que se fabricavam em Genebra: depois de lhe dar corda, seria preciso quebrá-la para não tocar todas as suas árias.
Vendo Gérande mergulhada numa dolorosa taciturnidade, Scholastique levantou-se da velha cadeira de pau, pôs uma vela num castiçal, acendeu-a e colocou-a diante de uma pequena imagem da Virgem abrigada no seu nicho de pedra. Era costume ajoelharem-se diante desta madona padroeira do lar doméstico, pedindo-lhe a sua graça protetora para a noite que se seguia; mas naquela noite Gérande permaneceu silenciosa no seu lugar.
— Ora bem, minha querida menina — observou Scholastique, com admiração —, a ceia acabou e são horas de dar as boas-noites. Quererá cansar a vista com prolongadas vigílias?... Valha-me Nossa Senhora! É tempo de dormir e de procurar alguma alegria em sonhos agradáveis! Nestes tempos malditos em que vivemos, quem pode contar com um dia feliz?
— Não será preciso mandar chamar algum médico para meu pai? — perguntou Gérande.
— Um médico! — exclamou a velha criada. — Mestre Zacharius deu alguma vez ouvidos às suas invenções e sentenças? Para os relógios pode haver remédios, mas não para o corpo!
— Que se há de então fazer? — murmurou Gérande. — Ele iria trabalhar? Iria descansar?
— Gérande — acudiu Aubert com doçura —, alguma contrariedade moral magoa mestre Zacharius; não é mais nada.
— E conhece essa contrariedade?
— Talvez, Gérande.
— Conte-nos isso — acudiu Scholastique com vivacidade, apagando a vela por economia.
— Há alguns dias, Gérande — começou o jovem operário —, que se dá um fato absolutamente incompreensível. Todos os relógios que seu pai tem feito e vendido param de repente. Têm-lhe trazido um grande número deles. Desmanchou-os com cuidado: as molas estavam em bom estado e as rodas perfeitamente colocadas. Tornou a montá-los com mais cuidado, mas, apesar da sua habilidade, os relógios conservaram-se parados.
— Isso é coisa do diabo! — exclamou Scholastique.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Gérande. — O fato parece-me natural. Tudo na Terra tem um limite, e o infinito não pode ser obra dos homens.
— Entretanto, nem por isso deixa de ser verdade que anda nisto o que quer que seja de extraordinário, misterioso — redarguiu Aubert. — Eu mesmo ajudei mestre Zacharius a procurar a causa do desarranjo dos seus relógios. Não a pude achar, e, mais de uma vez, desesperado, os instrumentos me caíram das mãos.
— Também — replicou Scholastique — para que se entregar a um trabalho de réprobos? Pois é natural que um pequeno instrumento de cobre possa caminhar sozinho e marcar precisamente as horas? Deviam ter-se contentado com o quadrante solar.
— Não há de falar desse modo, Scholastique, quando souber que o quadrante solar foi invenção de Caim. — Meu Deus! O que está me dizendo?
— Parece-lhe — perguntou Gérande com ingenuidade — que se pode pedir a Deus que restitua a vida aos relógios de meu pai?
— Sem dúvida alguma — respondeu o jovem operário.
— Bom, aí temos rezas inúteis — resmungou a velha —, mas Deus há de perdoar em vista da intenção.
Tornou-se a acender a vela. Scholastique, Gérande e Aubert ajoelharam-se sobre as lajes do quarto, e a jovem rezou pela alma de sua mãe, pela santificação da noite, pelos presos e os viajantes, pelos maus e pelos bons, e, principalmente, pelos desconhecidos pesares de seu pai.
Em seguida, estas três devotas criaturas levantaram-se com alguma confiança no coração, porque tinham depositado as suas mágoas no seio de Deus.
Aubert recolheu-se ao seu quarto, Gérande sentou-se, muito pensativa, ao pé da janela, ao tempo que a última claridade do dia de todo se apagava na cidade de Genebra, e Scholastique, depois de ter deitado um pouco d’água sobre os tições e corrido os dois enormes ferrolhos da porta, meteu-se na cama, onde não tardou a sonhar que morria de medo.
Entretanto, o horror dessa noite de inverno aumentava. De quando em quando, de envolta com os vagalhões do rio, o vento engolfava-se por entre a estacaria, e a casa tremia toda. Mas a jovem, absorta na sua tristeza, só pensava em seu pai. Depois das palavras que ouvira a Aubert Thun, a doença de mestre Zacharius tomara a seus olhos proporções fantásticas, e parecia-lhe que aquela existência tão querida, tendo-se tornado puramente mecânica, só com dificuldade se movia nos eixos já gastos.
De repente o guarda-vento, violentamente impelido pela ventania, bateu na janela do quarto. Gérande estremeceu e levantou-se sobressaltada, sem compreender a causa do ruído que a fazia sair do seu torpor.
Depois de se tranquilizar um pouco, abriu a vidraça. As nuvens tinham rebentado, e uma chuva torrencial ressaltava sobre os telhados vizinhos. A jovem debruçou-se para agarrar o postigo balouçado pelo vento, mas teve medo. Pareceu-lhe que as águas do rio e do céu, confundindo-se tumultuosamente, submergiam aquela frágil casa, cujo vigamento rangia por todos os lados. Quis fugir do seu quarto, mas notou por baixo dele a reverberação de uma luz que devia vir do quarto de mestre Zacharius, e, num momento em que os elementos se calavam, chegaram-lhe aos ouvidos alguns queixumes. Tentou fechar a janela, mas não pôde. O vento empurrava-a com violência, como um malfeitor que se introduz numa casa.
Gérande julgou que enlouquecia de terror! Que estaria seu pai a fazer? Abriu a porta, que lhe escapou das mãos e bateu ruidosamente, impelida pela tempestade. Gérande achou-se então na sala onde havia ceado, que estava às escuras, e, conseguindo às apalpadelas chegar à escada que ia dar à oficina de mestre Zacharius, desceu por ela, pálida e meio morta de susto.
O velho relojoeiro estava em pé no meio daquele aposento onde ecoavam os mugidos do rio. Os cabelos eriçados davam-lhe um aspeto sinistro. Falava, gesticulava sem ver, sem ouvir! Gérande ficou junto do limiar da porta.
— É a morte! — dizia mestre Zacharius com voz cava. — É a morte!... Que tempo me resta agora de vida, depois de haver dispersado a minha existência pelo mundo? Porque eu, mestre Zacharius, sou na verdade o criador de todos os relógios que fabriquei! Foi uma parte da minha alma que encerrei nessas caixas de ferro, de prata ou de ouro! De cada vez que para um desses relógios malditos, conheço que o meu coração cessa de bater, porque eu os regulei pelas minhas pulsações!
E, falando deste modo estranho, o velho dirigiu a vista para a sua mesa de trabalho. Achavam-se ali todas as peças de um relógio que ele tinha cuidadosamente desmanchado. Pegou um cilindro oco, chamado tambor, no qual está metida a mola, e tirou para fora a espiral de aço, que, em vez de se desenrolar, segundo as leis da elasticidade, ficou enrolada como uma víbora adormecida. Parecia paralisada, como esses velhos impotentes cujo sangue afinal se enregelou. Em vão o mestre Zacharius procurou distendê-la com os seus dedos emagrecidos, cuja sombra se alongava desmedidamente sobre a parede, mas não o conseguiu, e, instantes depois, soltando uma imprecação terrível, arremessou-a pelo alçapão aos vagalhões do Ródano.
Gérande, como que pregada no chão, estava sem fôlego, sem movimento. Queria e não podia aproximar-se de seu pai. Apoderava-se dela uma alucinação vertiginosa. De súbito ouviu uma voz na escuridão murmurar-lhe ao ouvido:
— Gérande, minha cara Gérande! A dor ainda a conserva de pé? Recolha-se. A noite está fria.
— Aubert! — murmurou a jovem, a meia voz. — Aqui?
— Não devia inquietar-me com o mesmo que a inquieta? — redarguiu Aubert.
Estas meigas palavras fizeram reviver a jovem. Encostou-se ao braço do mecânico e disse-lhe:
— Meu pai está bastante doente, Aubert! Só o senhor o poderá curar, porque aquela doença da alma não cederá às consolações da filha. Tem o espíro afetado por um acidente muito natural, e o senhor, trabalhando com ele no conserto dos seus relógios, conseguirá restituir-lhe a razão. Aubert, não é verdade — ajuntou ainda impressionada pelo que vira —, não é verdade que a vida de meu pai se confunde com a dos seus relógios?
Aubert não respondeu.
— Mas a ocupação que meu pai exerce não será condenada pelo céu? — exclamou Gérande, estremecendo.
— Não sei — respondeu o artífice, aquecendo com as suas mãos as mãos geladas da jovem. — Mas volte para o seu quarto, minha pobre Gérande, e com o repouso recupere alguma esperança!

Gérande voltou vagarosamente para o seu quarto e aí permaneceu até ao romper do dia, sem que o sono lhe fizesse cerrar as pálpebras, enquanto mestre Zacharius, mudo e imóvel, via o rio correndo ruidosamente a seus pés.


II — O Orgulho da Ciência


É proverbial a severidade do mercador genebrês em matéria de negócio. É um mercador de rígida probidade e excessiva retidão. Qual não foi, pois, a vergonha de mestre Zacharius quando viu os relógios, que ele tinha fabricado com tamanha solicitude, serem-lhe devolvidos de todos os lados!
Ora, ele estava certo de que aqueles relógios paravam de súbito, sem nenhuma razão aparente. As rodas achavam-se em bom estado e perfeitamente colocadas, mas as molas haviam perdido toda a elasticidade. O relojoeiro debalde procurou substituí-las. As rodas conservaram-se imóveis. Estes transtornos inexplicáveis fizeram um mal imenso a mestre Zacharius. As suas magníficas invenções tinham levantado contra ele suspeitas de bruxaria, que então tomaram corpo. O boato chegou até ao conhecimento de Gérande, e muitas vezes ela receou pela sorte de seu pai, quando olhares mal-intencionados se fixavam nele.
Entretanto, no dia que se seguiu a esta noite de angústias, mestre Zacharius pôde entregar-se ao trabalho com alguma confiança. O Sol matutino restituiu-lhe em parte a coragem. Aubert não tardou a reunir-se a ele na oficina e recebeu dele um bom-dia cheio de afabilidade.
— Estou melhor — declarou o velho relojoeiro. — Não sei que esquisitas dores de cabeça ontem me molestavam, mas o Sol afugentou-as juntamente com as nuvens da noite.
— Palavra, mestre — redarguiu Aubert —, nem por mim nem pelo senhor eu gosto da noite!
— E tens razão, Aubert. Se vieres a ser um homem superior, compreenderás que o dia te é tão necessário como o sustento! Um sábio de grande mérito deve-se às homenagens do resto dos homens.
— Mestre, olhe o pecado do orgulho que está consigo outra vez.
— Do orgulho, Aubert! Destrói o meu passado, aniquila o meu presente, dissipa o meu futuro, e então me será permitido viver na obscuridade! Pobre rapaz, que não compreende as coisas sublimes a que a minha arte se liga intimamente. Não serás tu, então, mais do que um instrumento nas minhas mãos?
— Entretanto, mestre Zacharius, mais de uma vez tenho merecido os seus cumprimentos pela forma como ajusto as peças mais delicadas dos seus relógios e pêndulas.
— Sem dúvida alguma, Aubert — volveu mestre Zacharius —, tu és um bom operário a quem eu estimo. Mas, quando trabalhas, não julgas ter entre os dedos senão cobre, ouro, prata, e não sentes estes metais, que o meu gênio anima, palpitarem como carne viva! Por isso hás de morrer da morte das tuas obras!
Mestre Zacharius ficou silencioso após estas palavras; mas Aubert procurou reatar a conversa.
— Por minha fé, mestre — continuou ele —, gosto de vê-lo trabalhar assim sem descanso! O mestre há de estar preparado para a festa da nossa corporação, porque vejo que o trabalho deste relógio de cristal avança rapidamente.
— Certamente, Aubert — exclamou o velho relojoeiro —, e não será para mim pequena honra o ter podido cortar e talhar esta matéria que tem a dureza do diamante! Ah! Louis Berghem[2] fez bem em aperfeiçoar a arte dos lapidários, que me permitiu polir e furar as pedras mais duras!
Mestre Zacharius tinha neste momento na mão pequenas peças de relojoaria feitas de cristal e delicadamente trabalhadas. As rodas, os eixos, a caixa deste relógio eram da mesma matéria, e neste artefato da maior dificuldade tinha manifestado um talento incrível.
— Não é verdade — acrescentou ele, ao mesmo tempo que as suas faces se faziam purpúreas — que será belo ver palpitar este relógio através do seu invólucro transparente, e poder contar as palpitações do seu coração!
— Aposto, mestre, que ele não há de variar um segundo por ano!
— E hás de ganhar a aposta, decerto! Não empreguei eu nele a mais pura essência de mim mesmo? Por acaso o meu coração varia?
Aubert não se atreveu a levantar os olhos para o mestre.
— Fala-me francamente — tornou o velho com melancolia. — Nunca me tomaste por um louco? Não me julgas entregue às vezes a deploráveis alucinações? É verdade, não é? Nos teus olhos e nos de minha filha tenho muitas vezes lido a minha condenação. Oh — exclamou ele com mágoa —, não ser mesmo compreendido dos entes a quem mais se ama no mundo! Mas, diante de ti, Aubert, provarei que tenho razão! Não abanes a cabeça, rapaz, porque vais ficar estupefato! No dia em que souberes escutar-me e compreender-me, verás que descobri os segredos da existência, os segredos da misteriosa união da alma e do corpo!
Assim falando, mestre Zacharius mostrava-se sublime de orgulho. Seus olhos brilhavam com um fogo sobrenatural, e a soberba fazia-lhe tumultuar o sangue. E na verdade, se alguma vez a vaidade tivesse justificação, seria a do mestre Zacharius a mais respeitável de todas.
De fato, até o seu tempo, a relojoaria permanecera na infância da arte. Desde o dia em que Platão, quatrocentos anos antes da era cristã, inventou o relógio noturno, espécie de clepsidra que indicava as horas da noite pelo toque duma flauta, a ciência ficou quase estacionária. Os mestres cuidaram mais da arte do que da mecânica, e foi então a época dos belos relógios de ferro, de cobre, de madeira, de prata, delicadamente esculpidos como um gomil de Cellini[3]. Obtinha-se uma obra-prima de lavor que media o tempo de um modo muito imperfeito, mas era uma obra-prima. Quando a imaginação do artista se desviou do lado da perfeição plástica, aplicou-se a fabricar relógios com personagens que mexiam ao som de toques melodiosos, e cuja apresentação em cena era regulada de um modo muito divertido. Além do mais, quem se inquietava nessa época em regular a marcha do tempo? As delongas em questões judiciais não se tinham ainda inventado. As ciências físicas e astronômicas não estabeleciam os seus cálculos sobre medidas de tempo escrupulosamente exatas. Não havia nem estabelecimentos que fechassem a uma hora certa, nem trens que partissem com uma exatidão levada até os segundos. Ao cair da noite, tocava-se o sino de correr, e depois diziam-se as horas em altos gritos no meio do silêncio. Se a existência se regula pela quantidade de negócios realizados, com certeza que se vivia menos tempo, mas vivia-se melhor. O espírito enriquecia-se com os nobres sentimentos, filhos da contemplação das obras-primas, e a arte não se fazia de carreira. Edificava-se uma igreja em dois séculos. Um pintor só fazia alguns quadros na sua vida, um poeta só compunha uma obra sublime, mas eram outras tantas obras-primas que os séculos se encarregavam de apreciar.
Quando, finalmente, as ciências exatas fizeram progressos, a relojoaria seguiu o seu impulso, se bem que sempre sopeada por uma dificuldade que parecia invencível: a medida contínua e regular do tempo.
Ora, foi no meio desta estagnação que mestre Zacharius inventou o scapo, que lhe permitiu obter uma regularidade matemática, submetendo o movimento do pêndulo a uma força constante. Esta invenção transtornara, porém, a cabeça do velho relojoeiro. O orgulho, subindo-lhe no coração, como o mercúrio sobe no termômetro, atingira a temperatura das loucuras transcendentes. Por analogia, deduzira consequências materialistas, e, fabricando os seus relógios, imaginava ter surpreendido o segredo da união da alma com o corpo.
Por isso, naquele dia, vendo que Aubert o escutava com atenção, disse-lhe num tom simples e convicto:
— Sabes o que é a vida, meu filho? Compreendeste já a ação dessas molas que produzem a existência? Olhaste já para dentro de ti mesmo? Não. Todavia, com os olhos da ciência, podias ter visto a íntima relação que existe entre a obra de Deus e a minha, porque foi da sua criação que eu copiei a combinação das rodas dos meus relógios.
— Mestre — replicou Aubert com vivacidade —, pode porventura comparar-se uma máquina de cobre e aço com esse sopro de Deus chamado alma, que anima os corpos como a brisa comunica o movimento às flores? Podem acaso existir rodas imperceptíveis que façam mover as nossas pernas e os nossos braços? Que peças, por bem combinadas que fossem, podiam gerar pensamentos em nós?
— A questão não está nisso — redarguiu Zacharius com doçura, mas ao mesmo tempo com a teimosia do cego que caminha para o abismo. — Para me compreenderes, lembra-te do destino do scapo que inventei. Quando vi a irregularidade da marcha de um relógio, compreendi que o movimento encerrado nele não bastava e que era preciso submetê-lo à regularidade de uma outra força independente. Entendi por isso que o pêndulo podia prestar-me esse serviço, se chegasse a regular-lhe as oscilações! Ora não foi uma ideia sublime, a que eu tive, de lhe restituir a sua força perdida pelo próprio movimento do relógio que ele estava encarregado de regular?
Aubert fez um sinal de aprovação.
— Agora, Aubert — continuou o velho relojoeiro, animando-se —, lança um olhar sobre ti mesmo! Não compreendes que há duas forças diferentes em nós: a da alma e a do corpo, isto é, um movimento e um regulador? A alma é o princípio da vida, logo é o movimento. Quer seja produzido por um peso, por uma simples mola, ou por uma influência material, não deixa por isso de residir no coração. Mas, sem o corpo, esse movimento seria desigual, irregular, impossível! Por isso, o corpo serve de regulador da alma, e, como o pêndulo, está submetido a oscilações certas. E é tão verdade isto que a gente passa mal quando o beber, o comer e o dormir —numa palavra, as funções do corpo — não são convenientemente reguladas! Também nos meus relógios, a alma restitui ao corpo a força perdida pelas suas oscilações. Ora bem, quem produz então essa união íntima da alma e do corpo senão um scapo maravilhoso, por meio do qual as rodas de um vêm endentar-se nas rodas do outro? Eis aí o que eu adivinhei e apliquei, e já para mim não há segredos nesta vida, que não passa, afinal, de uma engenhosa mecânica!
Mestre Zacharius estava sublime nesta alucinação, que o transportava até aos mais profundos mistérios do infinito! Porém, sua filha Gérande, parada no limiar da porta, tudo ouvira. Precipitou-se nos braços do pai, que a apertou convulsivamente contra o peito.
— Que tens, minha filha? — perguntou mestre Zacharius.
— Se eu só tivesse aqui uma simples mola — afirmou ela, levando a mão ao coração —, não o amaria tanto, meu pai!
Mestre Zacharius fitou a filha e não respondeu.
De repente, soltou um grito, levou precipitadamente a mão ao coração e caiu desfalecido sobre a sua velha poltrona de couro.
— Que tem, meu pai?
— Socorro! — bradou Aubert. — Scholastique!
Mas Scholastique não apareceu logo. Tinham batido à porta. Fora abrir e quando voltou para a oficina, antes de abrir a boca, o velho relojoeiro, que tornara a si, dizia-lhe:
— Adivinho, minha velha Scholastique. Trazes-me mais um desses malditos relógios que param!
— Jesus! É verdade — confirmou Scholastique, entregando um relógio a Aubert.
— O meu coração não podia se enganar! — disse o velho, soltando um suspiro.
Aubert tornara a dar corda ao relógio, mas este continuou imóvel.


III — Uma Estranha Visita


 Se não fosse a afeição por Aubert, que a prendia ao mundo, a vida de Gérande extinguir-se-ia ao mesmo tempo que a de seu pai.
O velho relojoeiro definhava gradualmente. As suas faculdades tendiam evidentemente a enfraquecer, concentrando-se num só pensamento. Por uma funesta associação de ideias, tudo relacionara com a sua monomania, e a vida terrestre parecia tê-lo abandonado para dar lugar à existência extranatural das potências intermediárias. Por isso alguns rivais mal-intencionados fizeram reviver os boatos diabólicos que tinham corrido a respeito dos trabalhos de mestre Zacharius.
A confirmação dos inexplicáveis desarranjos que se deram nos seus relógios fez prodigioso efeito entre os próprios relojoeiros de Genebra.
O que significava aquela súbita inércia das suas rodas, e qual a razão das extraordinárias relações que elas pareciam ter com a vida de Zacharius? Eram mistérios desses que nunca se encaram sem um particular terror. Nas diversas classes da cidade, desde o humilde aprendiz até ao fidalgo, que se serviam dos relógios do velho relojoeiro, não houve ninguém que não pudesse ajuizar por si mesmo da singularidade do fato. Quiseram, mas debalde, aproximar-se de mestre Zacharius. O relojoeiro caiu gravemente doente — o que permitiu à filha subtraí-lo às incessantes visitas que degeneravam em censuras e recriminações.
Os médicos e os remédios nada puderam contra aquele definhamento orgânico, cuja causa não descobriram. Parecia por vezes que o coração do velho cessava de bater e, em seguida, as suas palpitações tornavam a começar com inquietadora irregularidade.
Estabelecera-se por aquele tempo o costume de submeter as obras dos mestres à apreciação do populacho. Os mestres dos diferentes ofícios procuravam distinguir-se pela novidade ou pela perfeição das suas obras, e foi entre eles que o estado de mestre Zacharius encontrou a mais ruidosa piedade, mas piedade interessada. Os seus rivais lastimavam-no tanto mais quanto menos o temiam. Lembravam-se ainda dos triunfos do velho relojoeiro, quando ele expunha aqueles magníficos relógios com figuras que se moviam, aqueles relógios com música que causavam geral admiração e obtinham preços tão elevados nas cidades da França, da Suíça e da Alemanha.
Entretanto, graças aos cuidados constantes de Gérande e de Aubert, a saúde de mestre Zacharius pareceu restabelecer-se um pouco, e, no meio do sossego que lhe dava a convalescença, conseguiu subtrair-se aos pensamentos que o absorviam. Assim que pôde andar, a filha o fez sair de casa, à qual os fregueses descontentes afluíam continuamente. Aubert, esse ficava na oficina, desmanchando e armando inutilmente aqueles relógios rebeldes, e o pobre rapaz, nada compreendendo, apoiava muitas vezes a fronte nas mãos com receio de enlouquecer como seu mestre.
Gérande dirigia sempre os passos do pai para os lugares mais aprazíveis da cidade. Amparando mestre Zacharius pelo braço, encaminhava-se para Santo Antônio, de onde a vista se alonga pela colina de Coligne e pelo lago, e de onde às vezes, nas manhãs puras, se chegam a distinguir os gigantescos morros do monte Buet erguendo-se no horizonte. Gérande indicava pelos seus nomes todos estes lugares quase esquecidos de seu pai, cuja memória parecia apagada, e o relojoeiro achava um prazer infantil em reaprender todas estas coisas, cuja lembrança se obliterara no seu cérebro.
Mestre Zacharius encostava-se à filha, e aquelas duas frontes, uma branca e outra loura, confundiam-se banhadas pelo mesmo raio do Sol.
Sucedeu também que afinal o velho relojoeiro notou que não estava só no mundo. Vendo a filha tão jovem e formosa, ele, velho e alquebrado, lembrou-se de que depois da sua morte ela ficaria só, sem proteção, e olhou em volta de ambos. Muitos e jovens mecânicos de Genebra tinham já feito a corte a Gérande, porém nenhum tivera admissão no retiro impenetrável onde vivia a família do relojoeiro.
Foi natural, portanto, que, neste momento lúcido do seu cérebro, a escolha do velho recaísse em Aubert Thun. Logo que esta ideia se apoderou dele, notou que os dois jovens tinham sido educados nas mesmas crenças e nas mesmas ideias, e as oscilações daqueles dois corações pareciam-lhe “isócronas”, como disse um dia a Scholastique.
A velha criada, seduzida com a palavra, que aliás não compreendia, jurou pela santa da sua devoção que a cidade em peso o havia de saber em menos de quinze minutos. Mestre Zacharius encontrou grande dificuldade em detê-la, e obteve dela afinal a promessa de guardar segredo sobre o assunto, promessa que ela não cumpriu.
De modo que, sem Aubert e Gérande saberem coisa alguma, em toda a Genebra não se falava de outra coisa senão da sua próxima união. Mas sucedeu também que, durante estas conversações, se ouvia muitas vezes uma singular exclamação de rancor, e uma voz que asseverava:
 — Gérande não casará com Aubert.
Se os conversadores se voltavam, achavam-se em presença de um velho que não conheciam.
Que idade teria esta singular criatura? Ninguém o poderia dizer. Adivinhava-se apenas que poderia existir havia grande número de séculos. A sua grande cabeça achatada descansava nuns ombros cuja largura igualava a altura do corpo, que não passava de três pés. Esta personagem faria boa figura sobre a caixa de um relógio de pêndulo, porque o mostrador acomodar-se-ia perfeitamente no seu rosto e o pêndulo oscilaria à vontade na vastidão do seu peito. Facilmente se tomaria o nariz daquele homem pelo ponteiro de um quadrante solar, tão delgado e agudo ele era; os dentes, ralos e de superfície epicicloide, lembravam o dentado de uma roda e rangiam-lhe sob os lábios; a voz tinha o som metálico de uma campainha, e era possível sentir-lhe o coração bater como o tique-taque de um relógio. Tinha uns braços que se moviam à maneira de ponteiros, e caminhava de um modo incerto, sem nunca olhar para trás. Se seguiam aquele homem, observavam que fazia uma légua por hora e que a sua marcha era quase circular.
Havia pouco tempo que esta extraordinária criatura assim vagueava ou antes girava circularmente pela cidade; mas tinha-se podido já observar que todos os dias, no momento em que o relógio passava pelo meridiano, parava em frente da Catedral de S. Pedro, e, depois de darem as doze badaladas do meio-dia, continuava o seu caminho. Afora este momento exato, parecia surgir no meio de todas as conversas em que se tratava do velho relojoeiro, e todos perguntavam com terror que relação podia existir entre ele e mestre Zacharius. Além disso, notava-se que não perdia de vista o velho e a filha durante os seus passeios.
Um dia, na Treille, Gérande reparou naquele monstro que olhava para ela. Chegou-se muito para o pai, assaltada pelo terror.
— Que tens, minha Gérande? — perguntou mestre Zacharius.
— Não sei — respondeu a jovem. — Acho-te mudada, minha filha! — observou o velho relojoeiro. — Irás também agora adoecer? Ora bem — acrescentou, sorrindo com tristeza —, será preciso que eu cuide de ti, e hei de cuidar bem.
— Oh! meu pai, não, isto não há de ser nada. Tenho frio, e parece-me que é...
— O quê, Gérande?
— A presença deste homem que nos segue constantemente — respondeu ela em voz baixa.
Mestre Zacharius voltou-se para o velho.
— Palavra, regula bem — disse ele, com ar de satisfação —, porque são exatamente quatro horas. Nada receies, minha filha: não é um homem, é um relógio!
Gérande olhou para o pai com terror. Como é que mestre Zacharius tinha podido ler as horas no rosto daquela singular criatura?
— A propósito — prosseguiu o velho relojoeiro, sem se ocupar mais daquele incidente —, não vejo Aubert há alguns dias.
— Mas ele não nos abandonou, meu pai — redarguiu Gérande, cujos pensamentos tomaram uma direção mais agradável.
— O que está fazendo ele, então?
— Está trabalhando, meu pai.
— Ah — exclamou o velho —, anda se ocupando no conserto dos meus relógios, não é verdade? Mas nunca os conseguirá nunca pôr em ordem, porque não é uma reparação de que eles precisam, mas de uma ressurreição!
Gérande ficou silenciosa.
— É preciso que eu saiba — acrescentou o velho — se não trouxeram mais alguns desses malditos relógios entre os quais o Diabo espalhou uma epidemia.
Em seguida, mestre Zacharius recaiu num silêncio absoluto. Por fim, bateu à porta de casa e, pela primeira vez depois da sua convalescença, enquanto Gérande se dirigia para o seu quarto, desceu à oficina.
No momento em que ali entrava, um dos numerosos relógios suspensos na parede deu cinco horas. Ordinariamente, os diferentes toques daquelas máquinas, admiravelmente reguladas, faziam-se ouvir simultaneamente e o seu acorde regozijava o coração do velho; mas, naquele dia, tocaram todos uns depois dos outros, de modo que durante um quarto de hora os seus sons sucessivos foram de ensurdecer.
Mestre Zacharius padecia de um modo horrível; não podia estar quieto, andava de uns relógios para os outros, e batia-lhes o compasso como um diretor de orquestra que já não pudesse ser senhor dos seus músicos.
Quando o último som se extinguiu, a porta da oficina abriu-se, e mestre Zacharius estremeceu dos pés até à cabeça ao ver diante de si o velho baixo que, fitando-o, lhe perguntou:
— Mestre, poderei conversar alguns instantes com o senhor?
— Quem é você? — perguntou o relojoeiro com modo sacudido.
— Um companheiro de trabalho. Sou eu que estou encarregado de regular o Sol.
— Ah, é quem regula o Sol? — volveu mestre Zacharius com vivacidade. — Pois não lhe dou os meus parabéns por isso! O seu Sol regula mal e, para nos pormos de acordo com ele, somos obrigados ora a adiantar os nossos relógios, ora a atrasá-los.
— E pela pata caprina do Diabo — exclamou a monstruosa personagem —, tem razão, mestre! O meu Sol não indica sempre meio-dia, no mesmo momento em que o indicam os seus relógios. Mas um dia virá a saber-se que isso provém da desigualdade do movimento de translação da Terra, e será inventado um meio-dia médio que porá em ordem essa irregularidade!
— Viverei ainda nessa época? — perguntou o velho relojoeiro, cujos olhos se animaram.
— Decerto — replicou o velhinho, rindo. — Pois pode imaginar que está morrendo?
— Ai, em todo o caso estou bem doente!
— A propósito, falemos disso. Por Belzebu! Conduzir-nos-á ao assunto de que lhe quero falar.
E assim dizendo, aquela estranha criatura saltou sem cerimónia para a velha poltrona de couro e cruzou as pernas, à maneira dos ossos descarnados que os pintores de telas funéreas traçam por baixo das caveiras. Em seguida, redarguiu num tom irônico:
— Ora, vejamos, mestre Zacharius, que é que se passa nesta boa cidade de Genebra? Dizem que a sua saúde se altera, que os seus relógios têm bastante necessidade de médicos.
— Ah, julga que há uma relação íntima entre a existência deles e a minha? — exclamou mestre Zacharius.
— Eu imagino que esses relógios têm defeitos, vícios até. Se esses maganões não procedem de um modo muito regular, é justo que sofram o castigo do seu desregramento.
— A que o senhor chama defeitos? — replicou mestre Zacharius, corando em vista do tom sarcástico com que aquelas palavras tinham sido proferidas. — Não têm eles direito de se mostrarem ufanos da sua procedência?
— Muito, muito, não! — redarguiu o velhinho. — Têm, é verdade, nome célebre. Sobre o seu mostrador acha-se gravada uma assinatura ilustre, e gozam do privilégio exclusivo de se introduzirem no seio das mais nobres famílias. Mas há um tempo para cá, não regulam, mestre Zacharius não lhes dá remédio, e o mais insignificante dos aprendizes de Genebra acha-lhes defeitos!
— A mim, a mim, mestre Zacharius! — exclamou o velho com um terrível movimento de orgulho.
— Sim, a si, mestre Zacharius, que não pode restituir a vida aos seus relógios!
— Mas é porque eu tenho febre e eles também a têm! — redarguiu o velho relojoeiro, ao mesmo tempo que um suor frio lhe corria por todos os membros.
— Bem, então morrerão com o senhor, visto que o mestre se vê impossibilitado de restituir um pouco de elasticidade às suas molas!
— Morrer! Não! — da sua própria boca o ouvi. — Não posso morrer, eu, o primeiro relojoeiro do mundo; eu que, por meio dessas peças e dessas rodas diversas, soube sujeitar o tempo a leis exatas e não posso dispor dele como soberano? Antes de vir um gênio sublime regularizar essas horas desordenadas, em que imensa indecisão não estava mergulhado o destino humano? Por que momento determinado se podiam regular os atos da vida? Mas tu, homem ou Diabo, quem quer que sejas, tu não refletiste na magnificência da minha arte, que chama todas as ciências em seu auxílio? Não! Não! Eu, mestre Zacharius, eu não posso morrer, visto que, tendo regulado o tempo, o tempo morreria comigo! Voltaria a esse infinito de que o meu gênio o soube arrancar, e perder-se-ia irreparavelmente no abismo do nada! Não, é tão impossível eu morrer como o Criador deste universo submetido às suas leis. Tornei-me seu igual e partilhei do seu poder! Se Deus criou a eternidade, mestre Zacharius criou o tempo.
O velho relojoeiro parecia então o anjo caído, erguendo-se contra o Criador. O velhinho afagava-o com o olhar e parecia inspirar-lhe toda aquela cólera ímpia.
— Bem falado, mestre! — replicou. — Belzebu tinha menos direitos do que o mestre de se comparar com Deus! Convém que a sua glória não pereça! Por essa razão, o seu servo quer dar-lhe o meio de dominar esses relógios rebeldes.
— Qual é, qual é esse meio? — exclamou mestre Zacharius.
— Irá sabê-lo no dia seguinte àquele em que me houver concedido a mão de sua filha.
— Da minha Gérande?
— Dela mesma!
— O coração de minha filha não é livre — respondeu mestre Zacharius àquela proposta, que não pareceu nem admirá-lo nem impressioná-lo.
 — Ora... não é o menos formoso dos seus relógios, mas há de por fim parar também.
— Minha filha, a minha Gérande!... Não!...
— Pois bem, mestre Zacharius! Volte para os seus relógios! Arranje-os e desmanche-os! Prepare o casamento de sua filha e do seu oficial! Tempere as molas feitas do seu melhor aço! Abençoe Aubert e a formosa Gérande, mas lembre-se bem de que Gérande não casará com Aubert!
E, dito isto, o velho saiu, mas não tão depressa que mestre Zacharius não pudesse ouvir dar-lhe seis horas no peito.



IV — A Igreja de S. Pedro

Entretanto, o espírito e o corpo de mestre Zacharius enfraqueciam de dia para dia, com a diferença apenas de que uma sobre-excitação extraordinária o fez aplicar-se mais profundamente que nunca aos seus trabalhos de relojoaria, dos quais a filha não conseguiu distraí-lo.
O orgulho criara nele novos alentos, depois daquela crise à qual o seu estranho visitante o havia traiçoeiramente levado, e resolveu dominar, à força de gênio, a influência maldita que pesava sobre ele e as suas obras. Visitou primeiramente os diferentes relógios da cidade confiados ao seu cuidado. Certificou-se com escrupulosa atenção de que as rodas se achavam em bom estado, os eixos sólidos, os contrapesos exatamente equilibrados. Nem mesmo os sinos e mais instrumentos de dar horas deixaram de ser auscultados, o que mestre Zacharius efetuou com o reconhecimento de um médico examinando o peito de um doente. Nada indicava que aqueles relógios estivessem em vésperas de ser atacados de inércia.
Gérande e Aubert acompanhavam muitas vezes o velho relojoeiro nestas visitas. O mestre devia ter encontrado prazer em vê-los tão interessados em segui-lo e, por certo, ele não se preocuparia tanto com o seu próximo fim se refletisse que a sua existência devia ser prolongada pela daqueles entes queridos, se compreendesse que nos filhos fica sempre alguma coisa da vida de um pai!
Voltando para casa, o velho relojoeiro prosseguia os seus trabalhos com febril assiduidade. Apesar de muito convencido de que nada podia conseguir, parecia-lhe impossível que assim devesse ser, e armava e tornava a desarmar os relógios que lhe levavam à oficina.
Por sua parte, Aubert se esforçava, em vão, por descobrir as causas do mal.
— Mestre — sugeriu ele —, isto não pode ser senão de estarem já gastos os eixos e as rodas dentadas!
— Achas então prazer em me matar a fogo lento? — redarguiu-lhe violentamente mestre Zacharius. — Estes relógios são obra de alguma criança? Por acaso, com receio de ferir os dedos, modelei ao torno as peças de cobre de que eles se compõem? Não fui eu mesmo que as forjei para obter maior dureza? Não são essas molas temperadas com rara perfeição? Pode alguém empregar óleos mais finos para as umedecer? Tu mesmo concordas em que é impossível, e confessas afinal que o Diabo anda metido nisto!
E depois, desde pela manhã até à meia-noite, os fregueses descontentes afluíam cada vez em maior número à oficina, e conseguiam chegar até ao velho relojoeiro, que não sabia a quem dar ouvidos.
— Este relógio atrasa-se sem que eu possa acertá-lo! — queixava-se um.
— Este outro — prosseguia uma voz diferente — é de uma teimosia incrível, e parou nada mais nada menos como o Sol de Josué!
— Se é verdade que a sua saúde — repetia a maior parte dos descontentes — influi na dos seus relógios, mestre Zacharius, cure-se quanto antes!
O velho punha-se a olhar para toda aquela gente com ar espantado e só respondia meneando a cabeça ou proferindo tristes palavras.
— Esperem pelos primeiros dias bonitos, meus amigos! É a estação em que a existência revive nos corpos fatigados! É preciso que o Sol nos venha aquecer a todos nós.
— Que grande vantagem, se os nossos relógios têm de estar doentes todo o inverno! — retorquiu-lhe um dos mais desesperados. — Sabe, mestre Zacharius, que o seu nome está inscrito com todas as letras no mostrador? Valha-o Deus! O mestre não honra a assinatura!
Afinal, aconteceu que o velho, envergonhado daquelas censuras, tirou algumas peças de ouro do seu velho cofre e começou a comprar os relógios estragados. A esta notícia, os fregueses acudiram em grande número e o dinheiro daquela pobre casa consumiu-se bem depressa; porém, a probidade do relojoeiro ficou ilibada. Gérande aplaudiu calorosamente aquela delicadeza de sentimentos, que irremediavelmente a arruinava, e não tardou que Aubert tivesse de oferecer as suas economias a mestre Zacharius.
— Que será da minha filha? — suspirava o velho relojoeiro, agarrando-se, por vezes, neste naufrágio ao sentimento do amor paternal.
Aubert não se atreveu a responder que sentia bastante coragem para o futuro e grande dedicação por Gérande. Naquele dia mestre Zacharius ter-lhe-ia dado o nome de genro, desmentindo as funestas palavras que ainda lhe zumbiam aos ouvidos: “Gérande não desposará Aubert”.
Entretanto, com este sistema, o velho relojoeiro chegou a empobrecer-se completamente. Os seus velhos vasos, curiosos pela antiguidade, passaram para mãos estranhas e desfez-se das magníficas almofadas de carvalho, delicadamente esculpidas, que lhe revestiam as paredes da casa. Algumas singelas pinturas dos primeiros pintores flamengos deixaram bem depressa de recrear a vista de sua filha, e tudo, inclusive as preciosas peças de ferramenta que o seu gênio tinha inventado, foi vendido para indenizar os reclamantes.
Só Scholastique não queria conformar-se com aquele modo de proceder. Os seus esforços, porém, não podiam impedir que os importunos se aproximassem de seu amo e saíssem depois com algum objeto precioso. Então a sua tagarelice fazia-se ouvir em todas as ruas do seu bairro, onde há muito a conheciam. Ocupava-se em desmentir os boatos de bruxaria e magia que corriam a respeito de Zacharius. Mas, como no fundo estava convencida da verdade desses boatos, fartava-se de rezar grande número de orações para que lhe fossem perdoadas aquelas piedosas mentiras.
Notara-se, havia algum tempo, que o relojoeiro deixara de cumprir os seus deveres religiosos. Antigamente, acompanhava sempre Gérande às solenidades da igreja, e parecia achar na oração o encanto intelectual que esta derrama nas inteligências elevadas, dado que é o mais sublime exercício da imaginação. Este afastamento voluntário do velho quanto às práticas religiosas, coincidindo com o proceder particular da sua vida, justificava até certo ponto as acusações de sortilégio levantadas contra o seu trabalho. Por esta razão, com o duplo fim de reconduzir o pai para a graça de Deus e para a graça do mundo, Gérande resolveu chamar a religião em seu socorro. Pensou que o catolicismo podia de algum modo restituir a vitalidade àquela alma moribunda. Mas os dogmas da fé e da humildade tinham de lutar na alma de mestre Zacharius com uma soberba invencível, e tropeçavam naquele orgulho da ciência que tudo atribui a si, sem remontar à origem infinita donde derivam os primeiros princípios.
Foi nestas circunstâncias que Gérande empreendeu a conversão de seu pai, e teve tanta influência que o velho relojoeiro prometeu ir no domingo próximo assistir à missa cantada da catedral. A jovem teve um momento de êxtase, como se o céu se entreabrisse diante dela. A velha Scholastique não pôde conter a alegria e achou afinal argumentos irreplicáveis contra as más-línguas que acusavam o amo de impiedade. Falou nisto às suas vizinhas, às suas amigas e inimigas, tanto a quem a conhecia como a quem não a conhecia.
— Palavra, não acreditamos, senhora Scholastique, no que está para aí a anunciar — responderam-lhe todos. — Mestre Zacharius procedeu sempre de combinação com o Diabo!
— Vocês não metem em conta — tornava a boa mulher — os belos campanários onde dão horas os relógios de meu amo. Quantas vezes não têm feito tocar a hora da oração e a da missa.
— Decerto — respondiam-lhe todos. — Mas não inventou ele as máquinas que andam sozinhas e que chegam a fazer o que parece feito por um homem verdadeiro?
Mas a senhora Scholastique replicava, cheia de cólera:
— Também o demônio teria podido fabricar aquele belo relógio de ferro do Castelo de Andernatt, que a cidade de Genebra não teve meios bastantes para comprar? A cada hora que dava aparecia uma bela sentença, e qualquer cristão que se conformasse com todas elas iria direitinho para o paraíso. Pois isso é trabalho do Diabo?
Esta obra-prima, fabricada havia vinte anos, tinha certamente levado às nuvens a glória de mestre Zacharius. Mas mesmo naquela ocasião as acusações de bruxo haviam sido gerais. Entretanto, a volta de mestre Zacharius à Igreja de S. Pedro devia reduzir as más-línguas ao silêncio.
Sem se lembrar decerto da promessa feita à filha, mestre Zacharius voltara para a oficina. Depois de ter visto a sua impotência quando procurara restituir a vida aos relógios, resolveu ver se poderia fabricar novas máquinas.
Abandonou todos aqueles corpos inertes e entregou-se ao acabamento do relógio de cristal que devia ser a sua grande obra. Mas debalde se cansou, debalde se serviu da sua ferramenta mais perfeita e empregou o rubi e o diamante próprios para resistirem às fricções: o relógio estalou-lhe nas mãos à primeira vez que quis dar-lhe corda!
O velho ocultou aquele acontecimento a toda a gente, até à filha. Mas desde então a sua vida começou a declinar rapidamente.
Já não eram as oscilações derradeiras de um pêndulo que vão diminuindo quando nada lhes restitui o movimento primitivo. Parecia que as leis da gravitação, atuando diretamente sobre o velho relojoeiro, irresistivelmente o arrastavam para o túmulo.
O domingo tão ardentemente desejado por Gérande chegou afinal.
O tempo estava muito belo e a temperatura vivificante.
Os habitantes de Genebra caminhavam tranquilamente pelas ruas da cidade, discursando alegremente a respeito da volta da primavera. Gérande, tomando carinhosamente o braço do velho, dirigiu-se para os lados de S. Pedro, seguidos ambos de Scholastique, que levava o livro das orações. Viram-nos passar com curiosidade. O ancião deixava-se conduzir como uma criança, ou antes como um cego. Foi quase com um sentimento de terror que os fiéis de S. Pedro o viram transpor a limiar da igreja, e fingiram até que se retiravam quando ele se aproximou.
Os cânticos da missa solene já se ouviam. Gérande dirigiu-se para o seu banco do costume e ajoelhou-se no mais profundo recolhimento. Mestre Zacharius ficou junto dela, em pé.
As cerimônias da missa decorreram com a solenidade majestosa daquelas épocas de crença, mas o velho em nada cria.
Não implorou a piedade do céu com os gritos de dor do Kyrie; com o Gloria in Excelsis não cantou as magnificências das alturas celestes; a leitura do Evangelho não o tirou das suas meditações materialistas, e esqueceu-se de se associar às homenagens católicas do Credo.
Aquele velho orgulhoso permanecia imóvel, insensível e mudo como uma estátua. E até no momento solene em que a campainha anunciou o milagre da transubstanciação, não se curvou, e olhou arrogantemente para a hóstia consagrada que o padre elevava acima dos fiéis.
Gérande fitou o pai, e lágrimas copiosas molharam o seu livro de missa.
Naquele momento, o relógio de S. Pedro deu onze horas e meia. Mestre Zacharius voltou-se com vivacidade para o velho campanário que ainda falava. Pareceu-lhe que o mostrador da banda de dentro o fitava, que os algarismos das horas brilhavam como se tivessem sido gravados com traços de fogo e que os ponteiros dardejavam faíscas pelas agudas extremidades.
A missa acabou. Era costume rezar-se o Angelus ao meio-dia. Antes de sair da capela-mor, os celebrantes esperavam que desse a hora no relógio do campanário. Mais alguns instantes, e aquela oração ia subir aos pés da Virgem.
Mas, de repente, um ruído estridente fez-se ouvir. Mestre Zacharius soltou um grito...
O ponteiro grande do mostrador, ao chegar ao meio-dia, parara de súbito, e não se ouviram as doze badaladas.
Gérande correu em socorro de seu pai, que caíra sem sentidos e fora transportado para fora da igreja.
— É o golpe da morte! — disse Gérande, soluçando.
Levado para casa, mestre Zacharius foi deitado no leito, em completo estado de aniquilamento. A vida só nele existia à superfície do corpo, como as últimas nuvens de fumo que vagueiam em redor de uma lâmpada apagada há pouco.

Quando tornou a si, Aubert e Gérande curvaram-se sobre ele. Naquele momento supremo, o futuro tomou a seus olhos a forma do presente. Viu a filha, só, sem apoio.
— Meu filho — disse ele a Aubert —, dou-te minha filha — e estendeu a mão para os dois jovens, que foram assim unidos junto daquele leito de morte.
Mas, no mesmo instante, mestre Zacharius levantou-se num impulso de raiva. Acudiram-lhe à mente as palavras do velho.
— Não quero morrer! — exclamou ele. — Não quero morrer! Eu, mestre Zacharius, não devo morrer... Os meus livros... as minhas contas!...
E, dizendo isto, saltou para fora da cama, dirigindo-se a um livro onde se achavam inscritos os nomes dos seus fregueses, assim como o objeto que lhes tinha vendido.
Folheou-o com avidez e pousou o dedo descarnado numa das folhas.
— Eis aqui!... — disse ele. — O velho relógio de ferro vendido àquele Pittonaccio! É o único que ainda não me trouxeram. Existe! Anda! Vive ainda! Ah... Eu o quero! hei de encontrá-lo outra vez! Cuidarei dele tão bem que a morte não terá poder sobre mim.
E perdeu os sentidos.
Aubert e Gérande ajoelharam diante do velho e oraram.


 V — A Hora da Morte


Decorreram alguns dias, e mestre Zacharius, aquele homem quase morto, levantou-se da cama e voltou à vida graças a uma excitação sobrenatural. Vivia do orgulho. Mas Gérande não se iludiu. A alma e o corpo de seu pai estavam para sempre perdidos.
Viram, então, o velho ocupado em reunir os seus últimos recursos, sem se importar com a família. Desenvolvia uma energia incrível, caminhando, esquadrinhando e murmurando misteriosas palavras.
Certa manhã, Gérande desceu à sua oficina. Mestre Zacharius não se achava ali.
Esperou-o todo o dia. Mestre Zacharius não voltou.
Gérande chorou o mais que se pode chorar, mas seu pai não tornou a aparecer.
Aubert correu a cidade e obteve a certeza de que o velho saíra para fora do seu recinto.
— Tratemos de encontrar nosso pai! — exclamou Gérande quando o jovem lhe trouxe estas dolorosíssimas notícias.
— Onde ele poderá estar? — perguntou Aubert.
Uma inspiração iluminou-lhe subitamente o espírito.
Lembrou-se das últimas palavras do mestre Zacharius. O relojoeiro só vivia da lembrança daquele velho relógio de ferro que não lhe tinham restituído! Mestre Zacharius devia ter-se posto à procura dele.
Aubert comunicou este pensamento a Gérande.
— Vejamos o livro de meu pai — propôs ela.
Ambos desceram à oficina. O livro estava aberto sobre a mesa de trabalho. Todos os relógios feitos pelo velho relojoeiro, e que lhe tinham sido restituídos em razão do seu desarranjo, estavam riscados, menos um.
“Vendido ao Sr. Pittonaccio um relógio de ferro, com música e personagens moventes, depositado no seu Castelo de Andernatt”.
Era o relógio “moral”, de que a velha Scholastique falara com tantos elogios.
— Meu pai deve lá estar! — exclamou Gérande.
— Corramos — decidiu Aubert. — Podemos ainda salvá-lo!...
— Não nesta vida — murmurou Gérande —, mas ao menos na outra!
— Com o auxílio de Deus, Gérande! O Castelo de Andernatt está situado nos desfiladeiros dos Dents-du-Midi, a vinte horas de distância de Genebra. Partamos!
Naquela mesma tarde, Aubert e Gérande, seguidos da velha criada, caminhavam a pé pela estrada que costeia o lago de Genebra. Andaram cinco léguas naquela noite, não se tendo demorado nem em Bessinge, nem em Ermance, onde se eleva o célebre Castelo dos Mayor. Atravessaram a vau, não sem alguma dificuldade, a torrente do Dranse. Em todos os lugares perguntavam com inquietação por mestre Zacharius, e bem depressa obtiveram a certeza de que lhe seguiam o rastro.
No dia seguinte, ao entardecer, depois de passarem o Thonon, chegaram a Elvian, de onde se avista território suíço numa extensão de doze léguas. Mas os dois enamorados nem sequer notaram aqueles lugares encantadores. Caminhavam impelidos por uma força sobrenatural. Aubert, encostado a um bordão nodoso, oferecia o braço, ora a Gérande, ora à velha Scholastique, e procurava no coração uma energia suprema para amparar as suas companheiras.
Falavam todos três dos seus pesares, das suas esperanças, e seguiam a formosa estrada à beira de água, sobre a estreita planura que liga as margens do lago às elevadas montanhas do Chalois. Bem depressa se acharam em Bouveret, no ponto em que o Ródano desagua no lago de Genebra.
A partir desta cidade deixaram o lago, e então, no meio daquela região montanhosa, a jornada tornou-se mais fatigante. Vionnaz, Chesset, Colombay, aldeias meio perdidas naquelas solidões, bem depressa lhes ficaram para trás. Entretanto os joelhos dos viajantes dobravam, os pés rasgavam-se nas agudas arestas de que o solo se eriça como de silvestre e rasteira vegetação de granito, e nem um só vestígio de mestre Zacharius!
E era preciso encontrá-lo. Por isso, os dois jovens não perderam um momento a repousar nas cabanas isoladas, nem no Castelo de Monthey, o qual, com as suas dependências, constituía o apanágio de Margarida de Saboia. Finalmente, quase no fim do dia, alcançaram, meio mortos de fadiga, o Eremitério de Nossa Senhora du Sex, situado na base dos Dents-du-Midi, seiscentos passos acima do Ródano.
O eremita recebeu-os ao cair da noite. Não podiam dar nem mais um passo, e tiveram forçosamente de descansar ali um pouco.
O religioso não lhes deu notícia de mestre Zacharius. Mal o podiam esperar vivo no meio daquelas tristes solidões.

A noite estava tenebrosa, o vendaval assobiava na montanha e os turbilhões de neve precipitavam-se do cume das rochas abaladas pelo choque.
Os dois jovens, agachados diante da lareira do eremita, contavam-lhe a sua dolorosa história. Os mantos, impregnados de neve, enxugavam a um canto, e do lado de fora o cão do eremitério soltava uivos lúgubres que se confundiam com os uivos da tormenta.
— O orgulho — disse o eremita aos seus hóspedes — perdeu um anjo criado para o bem. É o obstáculo onde tropeçam os destinos do homem. Ao orgulho, origem de todos os vícios, não se podem opor raciocínio algum, pois que, por sua própria natureza, o orgulho não lhes dá ouvidos... Nada mais resta do que orarem por vosso pai!
Ajoelharam-se todos quatro, quando os latidos aumentaram e alguém bateu à porta do eremitério.
— Abram, em nome do Diabo!
A porta cedeu após violentos esforços e apareceu um homem desgrenhado, de faces cavadas e meio nu.
— Meu pai! — exclamou Gérande.
Era mestre Zacharius.
— Onde estou eu? — exclamou. — Na eternidade!... O tempo acabou... Já não soam as horas... os ponteiros param!
— Meu pai! — repetiu Gérande, com uma comoção tão dilacerante que o velho pareceu voltar ao mundo dos vivos.
— Tu aqui, minha Gérande! — exclamou ele. — E tu, Aubert!... Ah, meus queridos filhos, vêm casar-se na nossa velha igreja!
— Meu pai — pediu Gérande, agarrando-o pelo braço —, volte para a sua casa de Genebra, volte conosco!
O velho soltou-se dos braços da filha e correu para a porta, no limiar da qual a neve se acumulava em montões.
— Não abandone seus filhos! — exclamou Aubert.
— Por que — redargiu com tristeza o velho relojoeiro —, por que hei de voltar a esses lugares que a minha vida já abandonou ou onde uma parte de mim mesmo está para sempre enterrada?
— A sua alma não morreu! — exclamou o eremita com voz grave.
— A minha alma!... Oh... não!... As suas rodas são boas!... Sinto-a bater a tempos iguais...
— A sua alma é imaterial! A sua alma é imortal! — replicou o eremita com energia.
— Sim... como a minha glória! Mas está encerrada no Castelo de Andernatt e quero vê-la!
O eremita persignou-se. Scholastique estava inanimada. Aubert amparava a sua futura noiva nos braços robustos.
— O Castelo de Andernatt é habitado por um condenado — observou o eremita —, um condenado que não se descobre diante da cruz do meu eremitério!
— Meu pai, não vá lá!
— Quero a minha alma, porque a minha alma pertence-me!...
— Detenham-no, detenham meu pai! — suplicou Gérande, no auge da aflição.
Mas o ancião transpusera o limiar da porta e deitara a correr no meio das trevas, bradando:
— A mim, a mim, a minha alma!...
Gérande, Aubert e Scholastique precipitaram-se atrás dele. Caminharam por atalhos intransponíveis, sobre os quais mestre Zacharius deslizava como a tempestade, impelido por força irresistível. A neve redemoinhava em torno deles e misturava os seus alvos flocos com a escuma das torrentes que transbordavam dos leitos.
Ao passarem diante da capela levantada em memória da carnificina da legião tebana, Gérande, Aubert e Scholastique persignaram-se precipitadamente. Mestre Zacharius não se descobriu.
Finalmente, a aldeia de Evionaz apareceu no meio daquela região inculta. O coração mais insensível ficaria comovido ao ver a aldeia assim perdida em tão horrível solidão.
O velho continuou o seu caminho. Dirigiu-se para a esquerda e internou-se no mais profundo dos desfiladeiros dos Dents-du-Midi, que parecem morder no céu contra os seus agudos picos.
Dentro em pouco, umas ruínas, vetustas e sombrias como os rochedos que lhes serviam de base, ergueram-se diante dele.
— É ali... ali! — exclamou, precipitando-se novamente na sua carreira desatinada.
Naquela época, o Castelo de Andernatt era apenas uma ruína. Uma grande torre, derruída, meio desmantelada, dominava-o e parecia ameaçar com a sua queda os velhos telhados acoruchados que se erguiam aos seus pés. Aqueles imensos montões de pedras infundiam horror. Pressentia-se, no meio de tais destroços, a existência de salas sombrias com tetos arrombados, e de imensos receptáculos de peçonhentas víboras.
Um postigo baixo e estreito, que deitava para um fosso cheio de entulho, dava acesso ao Castelo de Andernatt.
Dizia a lenda que, nas noites de inverno, Satanás vinha dirigir as suas tradicionais sarabandas à beira dos profundos desfiladeiros onde mergulhava a sombra daquelas ruínas!
Mestre Zacharius não se aterrou com o seu aspecto sinistro. Chegou ao postigo. Ninguém lhe impediu a entrada. Achou-se num pátio grande e tenebroso. Ninguém obstou que o atravessasse. Trepou por uma espécie de plano inclinado, que ia ter num dos extensos corredores, cujas arcadas pareciam esmagar a claridade do dia sob as suas pesadas abóbadas. Ninguém se opôs à sua passagem.
Gérande, Aubert e Scholastique continuavam a segui-lo.
Como se o guiasse mão invisível, mestre Zacharius parecia muito seguro do seu caminho e andava com passo rápido. Chegou a uma porta velha e carunchosa que cedeu, sacudida por ele, ao mesmo tempo que os morcegos descreviam círculos oblíquos em redor da sua cabeça.
Achou-se numa sala mais bem conservada que as outras. As paredes estavam revestidas de espaçosas almofadas esculpidas, sobre as quais larvas de diferentes espécies pareciam agitar-se confusamente.
Algumas janelas, altas e estreitas, semelhantes a seteiras, estremeciam sob a violência da tempestade.
Chegando ao meio da sala, mestre Zacharius soltou um grito de alegria.
Sobre um pedestal de ferro, encostado à parede, achava-se o relógio onde presentemente residia toda a sua vida. Aquela obra sem igual representava uma velha igreja romana, com os seus botaréus de ferro forjado e o seu pesado campanário, onde havia um mecanismo que tocava a antífona do dia, a Ave-Maria, a missa, as vésperas completas e o Salve. Por cima da porta da igreja, que se abria à hora dos ofícios divinos, via-se um florão, no centro do qual se moviam dois ponteiros, e cuja arquivolta ostentava as doze horas do mostrador em relevo. Entre a porta e o florão, como contara a velha Scholastique, aparecia numa moldura de cobre, uma máxima relativa ao emprego de cada hora do dia. Mestre Zacharius regulara outrora esta sucessão de divisões com solicitude inteiramente cristã. As horas de reza, de trabalho, de refeição, de recreio, de repouso, sucediam-se segundo a disciplina religiosa e deviam infalivelmente fazer a salvação de um observador escrupuloso no cumprimento das suas recomendações.
Ébrio de alegria, mestre Zacharius ia apoderar-se do relógio, quando ouviu detrás de si uma risada horrível.
Voltou-se, e, à luz de uma lâmpada fumegante, reconheceu o velhinho de Genebra.
— Aqui! — exclamou ele.
Gérande teve medo e chegou-se muito para o seu prometido esposo.
— Bom dia, mestre Zacharius — bradou o monstro.
— Quem é que vejo?
— O senhor Pittonaccio, para o servir! Vem dar-me a sua filha? Lembrou-se das minhas palavras: “Gérande não casará com Aubert?”
O moço operário lançou-se sobre Pittonaccio, que lhe escapou como uma sombra.
— Suspende, Aubert! — exclamou mestre Zacharius.
— Boa-noite — bradou Pittonaccio, que desapareceu.
— Meu pai — exclamou Gérande —, fujamos destes lugares malditos!... Meu pai!...
Mestre Zacharius já não se achava ali. Perseguia, subindo pelos andares arruinados, o fantasma de Pittonaccio. Scholastique, Aubert e Gérande ficaram como que aniquilados naquela sala imensa. A jovem caíra numa cadeira de pedra. A velha criada ajoelhou junto dela e pôs-se a rezar. Aubert ficou em pé, a velar pela sua prometida. Pálidos clarões rasgavam as sombras, e o silêncio era apenas interrompido pelo labor daqueles animaizinhos que roíam as madeiras antigas e cujo ruído marca o tempo do “relógio da morte”.
Aos primeiros raios do dia, aventuraram-se todos três pelas intermináveis escadas que circulavam sob aquele montão de pedras. Durante duas horas, vaguearam assim sem encontrar ninguém e só ouvindo o eco longínquo responder aos seus gritos. Ora se achavam cem pés abaixo do chão, ora dominavam aquelas agrestes montanhas.
O acaso reconduziu-os afinal à vasta sala que os abrigara durante aquela noite de angústias. Já não estava deserta. Mestre Zacharius e Pittonaccio ali conversavam juntos, um de pé e rígido como um cadáver, o outro acocorado sobre uma mesa de mármore.
Avistando Gérande, mestre Zacharius foi buscá-la pela mão e conduziu-a para junto de Pittonaccio, dizendo:
— Eis o teu mestre e senhor, minha filha! Gérande, eis o teu esposo!
Gérande estremeceu da cabeça até aos pés.
— Nunca! — exclamou Aubert —, porque ela é a minha prometida esposa.
— Nunca! — redarguiu Gérande, como um eco plangente.
Pittonaccio pôs-se a rir.
— Querem a minha morte? — exclamou o velho. — Ali, naquele relógio, de todos os que saíram das minhas mãos o único que ainda anda, está encerrada a minha vida, e este homem disse-me: “Quando eu possuir a tua filha, possuirás tu este relógio”. E aquele homem não quer dar-lhe corda! Pode despedaçá-lo e arremessar-me ao nada. Ah, minha filha, já não me amas!
— Meu pai! — murmurou Gérande, recuperando os sentidos.
— Se tu soubesses quanto tenho sofrido longe do princípio da minha existência! — volveu o velho. — Talvez não tratassem deste relógio! Talvez deixassem gastar as suas molas, embaraçarem-se as suas rodas! Mas agora, com as minhas próprias mãos, vou sustentar aquela saúde tão cara, porque é preciso que eu não morra, eu, o grande relojoeiro de Genebra! Olha, minha filha, como os ponteiros avançam com firmeza! Olha, aí vão dar cinco horas! Escuta bem, e repara na bela máxima que te vai aparecer.
Soaram cinco horas no campanário do relógio com um estrondo que dolorosamente ecoou na alma de Gérande e apareceram estas palavras em letras vermelhas:

É preciso comer os frutos da árvore da ciência.

Aubert e Gérande olharam um para o outro estupefatos. Já não eram as ortodoxas sentenças do relojoeiro católico! O bafo maldito de Satanás devia por ali ter passado. Mas mestre Zacharius não prestava nenhuma atenção àquilo e prosseguiu:
— Ouves, minha Gérande? Eu vivo, vivo ainda!... Não! Tu não havias de querer matar teu pai: aceitarás este homem para esposo, a fim de que eu me torne imortal e alcance o poder de Deus!
A estas ímpias palavras a velha Scholastique benzeu-se, e Pittonaccio soltou um grito de alegria.
— E depois, Gérande, serás feliz com ele! Vês este homem? É o tempo! A tua existência será regulada com uma exatidão absoluta! Gérande! Visto que te dei a vida, restitui a vida a teu pai!
— Gérande — recordou Aubert —, eu sou teu prometido esposo!
—É meu pai! — redarguiu Gérande, caindo sem forças.
— Pertence-te! — disse mestre Zacharius. — Pittonaccio, cumprirás a tua promessa!
— Eis a chave do relógio — volveu a horrível personagem.
Mestre Zacharius apoderou-se da comprida chave, que semelhava uma cobra desenrolada, e, correndo para o relógio, começou a dar-lhe corda com fantástica rapidez. O ranger da mola incomodava os nervos. O velho relojoeiro girava, girava sem cessar com a chave, sem que o braço parasse, e parecia que aquele movimento de rotação era independente da sua vontade. Girou com ela cada vez mais depressa e fazendo estranhas contorções até que caiu de cansaço.
— Tem corda para um século! — exclamou.
Aubert fugiu da sala como um doido. Depois de longos rodeios, achou a saída daquela morada maldita, e correu para o campo. Voltou à Ermida de Nossa Senhora du Sex e falou ao santo homem com palavras tão desesperadas que este consentiu em acompanhá-lo ao Castelo de Andernatt.
Se durante estas horas de angústia Gérande não chorou é porque não tinha lágrimas para chorar.
Mestre Zacharius não abandonara a imensa sala. A cada minuto vinha escutar o bater regular do velho relógio.
Entretanto, deram dez horas, e, com grande espanto de Scholastique, apareceram no mostrador de prata estas palavras:

O homem pode tornar-se igual a Deus.

Não só o velho não se ofendia com tão ímpias palavras, como as lia com delírio e se deleitava com estes pensamentos orgulhosos, enquanto Pittonaccio girava em torno dele.
À meia-noite devia assinar-se o contrato do casamento. Gérande, quase inanimada, não via nem ouvia nada. O silêncio era apenas interrompido pelas palavras do velho e os rugidos de Pittonaccio.
Deram onze horas. Mestre Zacharius estremeceu e com voz vibrante leu esta blasfêmia:

O homem deve ser o escravo da ciência e por ela sacrificar a família.

— Sim! — exclamou ele—, neste mundo só há a ciência! Os ponteiros giravam sobre o mostrador de ferro, assobiando como víboras, e o movimento do relógio era precipitado.
Mestre Zacharius não falava! Caíra por terra, agonizava, e do seu peito oprimido só saíam estas palavras entrecortadas:
— A vida! A ciência!
Esta cena tinha então duas novas testemunhas: o eremita e Aubert. Gérande, mais morta do que viva, junto do pai, rezava...
De repente ouviu-se o ruído que precede o som das horas.
Mestre Zacharius ergueu-se.
— Meia-noite! — exclamou ele.
Mas o eremita estendeu a mão para o velho relógio... e a meia-noite não soou.
Mestre Zacharius soltou então um grito, que se deve ter ouvido no inferno, quando estas palavras apareceram:

Aquele que tentar ser igual a Deus ficará condenado para toda a eternidade.

O velho relógio rebentou com o ruído de um raio, a mola desprendeu-se, fugiu pela porta fora, saltando com mil contorções fantásticas. O velho correu atrás dela, pretendendo debalde apanhá-la, gritando:
— A minha alma! A minha alma!
A mola saltava diante dele, de um lado para o outro, sem se deixar apanhar.
Afinal, Pittonaccio agarrou-a e, proferindo uma horrível blasfêmia, desapareceu nas profundezas da Terra.
Mestre Zacharius caiu de costas. Estava morto.

*

O corpo do relojoeiro foi enterrado no meio dos picos de Andernatt. Em seguida, Aubert e Gérande voltaram para Genebra e, durante os muitos anos que Deus lhes concedeu, diligenciaram remir pela oração a alma do réprobo da ciência.



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[1] Blaise Pascal (1623 – 1662), filósofo e matemático francês.
[2] Louis Berghem, de Brugues, teria descoberto a arte de cortar diamantes em 1476.
[3] Benevuto Cellini (1500 – 1571), escultor, ourives e escritor italiano.
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