CRIMES PERFEITOS NÃO DEIXAM SUSPEITOS - Conto de Horror - Fernando Ferric



CRIMES PRFEITOS NÃO DEIXAM SUSPEITOS
Fernando Ferric


Já eram quase duas da tarde quando terminei minha entrevista de emprego. Apesar do nervosismo natural que uma oportunidade dessa causa, tinha confiança que havia me saído bem. O sol estava a pino e meu estômago ansiava por comida. Na correria para não me atrasar fiz um rápido desjejum com um copo de leite gelado.

No centro há uma variedade de restaurantes, em poucos metros encontramos desde a requintada comida francesa até a saudável cozinha oriental. Sem contar nas diversas lanchonetes com seus “fast food’s” cada vez mais criativos.

No corre-corre, a multidão se aglomerava em busca de comida. Mesmo nos tempos modernos, nos quais não precisamos caçar para comer (pelo menos nas áreas urbanas), acredito que o homem ainda mantém sua agressividade, ainda somos os mesmos predadores à procura do mais saboroso alimento, dependendo é claro, do bolso de cada um.

O meu estava bem precário, devo admitir. Há algum tempo desempregado, economizava o máximo que podia uma pequena reserva que mal pagava as contas básicas. Pouco a pouco minha esperança por uma boa refeição diminuía. O jeito era apelar para os vendedores ambulantes, onde também havia muitas opções de “fast” (ou “trash food” se atentarmos para tamanha falta de preocupação com higiene de alguns vendedores).

Não sou um daqueles maníacos por limpeza, longe disso! Mas com comida sou bastante exigente.

Após caminhar pouco mais de duas quadras, gastando alguns minutos e a sola do meu sapato, enfim achei um lugar para comer.

Havia satisfação nas pessoas que comiam ali. Que pelos dizeres da placa encostada no carro personalizado de “Hotdog-móvel” degustavam um delicioso cachorro quente, que podia ser com milho, bacon, ervilhas, prensado ou especial com direito ainda a um copo de um refrescante suco de laranja ou limão. Era o que meu estomago precisava, tudo que minha consciência permitia e também tudo que meu dinheiro podia pagar.

O vendedor usava avental, touca no cabelo e pasmem até LUVAS! Um verdadeiro “oásis no deserto” metropolitano!

Ele era um sujeito muito simpático, desses que atraem a clientela com bom humor, brincava com seus clientes enquanto preparava os lanches. Eu, tentando distrair a fome, abri meu jornal à procura de alguma oportunidade de emprego que pudesse ter deixado passar desapercebida nos classificados.

Distraído na busca, só dei conta que minha vez havia chegado quando fui interrompido pelo vendedor, perguntando como eu queria o meu cachorro quente. Brinquei com ele dizendo que na minha infância cachorro quente era: pão, salsicha, maionese, “catchup” e mostarda. Mas com a fome que estava podia ser o especial.

— Cheio de sangue!

— O que disse? — perguntei a ele.

— A foto... A foto da capa! Está cheia de sangue...

— Ah sim! A manchete...

Ele se referia à foto de um homem que fora encontrado morto na madrugada. E que na sua opinião seria provavelmente “mais um crime sem solução”.

Discordei dizendo não acreditar em crimes perfeitos. Ele riu mostrando que sua higiene com a comida não se estendia aos dentes.

— Há muitos crimes perfeitos, meu rapaz. Tem gente muito criativa, com planos mirabolantes, esses jamais serão pegos — filosofou enquanto cortava meu pão.

Voltei à minha busca nos anúncios, mas ele novamente me interrompeu.

— Eu sei de um caso assim. Um crime em que o culpado jamais foi descoberto, aliás não houve ao menos crime perante as autoridades — disse ele enquanto passava a maionese.

Notando que não haveria sequer possibilidade de continuar minha leitura, já que restara apenas eu para o vendedor tagarela papear, dei o empurrãozinho que faltava para o homem me contar o causo.

— É mesmo?

— Sim! Sim! — disse ele empolgado, enquanto recheava meu “hot dog” com milho e ervilhas. — Sabe aqueles casais de quem todo mundo sente inveja? Pois bem, conheci um casal assim. Ele amava aquela mulher mais que a si mesmo. Fazia o que podia e não podia por ela. Quando estavam juntos parecia não haver nada ao redor dos dois. Todos dizem que ela era uma mulher de sorte por ter encontrado um homem tão amável.

Mas talvez ela não pensasse assim, ou pelo menos naquela altura do relacionamento o amor já não era tão intenso. Digo isso por parte dela, pois nele dava para notar facilmente a embriaguez da paixão.

Todos os dias antes de voltar para casa, ele comprava as mais belas flores e a presenteava com um lindo buquê.

Ela o recebia sempre com uma de suas camisolas de seda, a qual caía muito bem em seu corpo levemente torneado.

E assim o romance foi levado até uma típica tarde de verão. Sua mercadoria naquele dia foi toda vendida, ele estava contente, com o bolso cheio de dinheiro e resolveu lhe fazer uma surpresa. Mal sabia que naquele trágico dia a surpresa estava reservada para ele.

Antes de retornar para casa passou numa joalheria, onde sua amada namorava há meses um lindo anel de prata recheado com pequenas pedras ametistas. Ele, em segredo, guardou todos os dias uma parte dos seus ganhos, conquistados com muito trabalho. Fez isso durante semanas, e finalmente podia presenteá-la. Pagou a joia à vista. E pediu para a vendedora o porta-anel mais bonito que houvesse na loja.

Era um lindo presente, não mais belo que os olhos de sua amada. Não via a hora de lhe colocar a joia no dedo, e ver seus olhos reluzirem o brilho prateado do anel.

Ao chegar em casa, abriu a porta com cuidado para surpreendê-la, estava tudo silencioso. Tirou os sapatos e foi até a suíte. No corredor pode ouvir o chuveiro, ela estava no banho preparando-se para ele, pensou. Abriu a porta do quarto devagar e se deparou com a cama desarrumada, lá pôde ouvir melhor o som da água caindo no piso, misturado com pequenas risadas e gemidos. No chão, espalhadas pelo carpete azul, as roupas que para sua surpresa e desgraça não eram apenas de sua mulher.

Suas mãos trêmulas eram quase impossíveis de coordenar, mas o seu ódio o conduzia. A porta do banheiro estava apenas encostada e ele com um toque sutil abriu apenas o suficiente para ver com seus próprios olhos, através do box de vidro transparente, sua mulher, de joelhos. A razão da sua vida, usando todo prazer que sua carícia oral oferecia em outro homem.

A vontade do homem traído era arrebentar os dois naquele momento. Mas não o fez.

— Não o fez? — perguntei nessa altura já com a boca cheia de pão e salsicha.

— Não! Ele se conteve, jogou o anel no chão, saiu do quarto com a mesma discrição que entrou e foi até o quartinho de ferramentas. Ao abrir, imaginou o estrago que cada uma daquelas ferramentas poderia produzir nos amantes. E preferiu o machado. Sua escolha não poderia ter sido melhor, pois afiado como estava, depois de cortar lenhas durante todo o inverno, seria como cortar manteiga com faca quente.

Os gemidos e gritos de prazer invadiam todo o corredor, eles se amavam mais e mais sem ao menos imaginar o terrível destino que os esperava.

Ele voltou ao quarto com o machado em punho, nessa hora sem a preocupação de ser notado. Abriu a porta do banheiro, e se aproximou do box. Sua companheira e o amante nessa altura nem poderia notá-lo devido à posição em que se encontravam.

Com toda sua força, o homem traído desferiu um golpe contra o box, o som do vidro estilhaçado pelo machado envolto ao grito de dor do amante, que sofrera com toda a carga da lamina do machado em suas costas, transformou o ambiente.

Ele sentiu prazer ao ver sua mulher desesperada partir em cima dele, e com um soco violento em seu rosto atirou-a no chão. O amante, caído, tentava se arrastar, cortando sua pele nos estilhaços. Em vão. O algoz se aproximou e prensando as costas da vitima contra o piso, retirou o machado com fúria maior que a usada para cravar-lhe anteriormente. Então com o poder de um carrasco encostou a lamina manchada pelo sangue no pescoço do desventurado. Ele queria que o sujeito sentisse todo o pavor, queria que o sussurro da morte iminente lhe soprasse os ouvidos naquele instante para então desferir o golpe fatal. A cabeça, arrancada do corpo parecia banhar-se no sangue.

Ele então voltou sua atenção para ela, o amor da sua vida, que tentava se levantar. Estava branca como leite, com o lado esquerdo da face inchado pelo golpe que sofrera. E mesmo assim ainda era atraente, sua beleza hipnotizava o pobre homem, e ela sabia disso. Suplicando para que ele poupasse sua vida, ficou de joelhos. Ele não conseguia odiá-la, por mais que quisesse, e como queria... Mas não conseguia. Aproximou-se chorando e deu lhe um beijo suave na testa. Mas fora traído novamente. E sentiu a sua fronte ser cortada por um pedaço pontiagudo de vidro que ela sorrateiramente apanhou do chão.

Ele caiu e ela na tentativa da fuga escorregou no piso molhado de água e sangue. Então ele a pegou novamente, mas dessa vez sem piedade alguma socou sua cabeça no chão, uma, duas, dez vezes, quanto mais batia, mais queria bater, e assim o fez. Até que o barulho das batidas foi ficando cada vez mais abafado pela massa encefálica que recheava o piso, os longos fios louros da amada e seus dedos.

Então ele sentou-se embaixo do chuveiro e ali permaneceu, por horas.

Quando voltou a si, sentiu-se bem por tudo aquilo, tinha lavado sua honra e precisava limpar tudo aquilo. Pensou por um tempo numa maneira de ocultar todo aquele lixo, aqueles dois imensos pedaços de escória que sujavam seu banheiro.

E arrumou uma maneira, digamos... Criativa! Um plano perfeito para que nunca fosse descoberto. E assim o fez. Até hoje ela e o amante, um vendedor de livros, são dados como desaparecidos. E o homem pode assim ter novamente sua vida, com dignidade e honra. Um crime perfeito viu só?

— É isso? E a polícia? Nada descobriu? — perguntei

— Nada! Bom, meu rapaz, vejo que terminou seu lanche, e já está na minha hora — respondeu-me o vendedor tirando suas luvas e o avental.

— Mas o que ele fez com os corpos?

— Desfez-se deles. Ora, use sua imaginação...

— Não, espera! Se fosse um crime perfeito você não saberia. Ao menos que...

Foi então que notei, ao vê-lo sem touca, uma enorme cicatriz em sua face. Isso me gelou a espinha, e me paralisou de tal forma que não consegui dizer mais nada. O homem terminou de guardar suas coisas, entrou no carro e partiu.

Pasmo com tudo aquilo, senti um pequeno incomodo, como se houvesse chupado uma manga e um fiapo tivesse preso entre os dentes, cutuquei com o dedo e retirei um pequeno fio de cabelo louro. E aquilo me trouxe a última coisa que o vendedor me disse quando o questionei sobre os corpos...


“Use sua imaginação...”
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