PERDIDO - Conto de Terror - Fernando Ferric







PERDIDO
Fernando Ferric


Carlos estava caminhando entre os túmulos, olhava lápide por lápide, era um dia cinzento e frio. Ele admirava a beleza daquele cemitério, o silêncio, o aroma das flores, a arte dos túmulos perfilados. Poderia permanecer horas naquele local; sentia uma paz absoluta, que só foi quebrada quando um velhinho estabanado se aproximou por trás dele.

"Meu filho... meu filho... Por favor, me ajude!"

O coração de Carlos quase saltou pela boca. Virou, assustado, e avistou aquele senhor magro, grisalho, com um rosto sofrido, já marcado pelo tempo. Seu susto e sua raiva se transformaram em dó, em vontade de ajudar o frágil senhor.

"O que o senhor deseja?"

"Meu filho... Estou perdido", respondeu o senhor retirando do casaco um cartão azul. "Já não consigo enxergar essas letras tão pequenas, preciso encontrar este local."

Carlos pegou o cartão, era do próprio cemitério, indicava o lote e a quadra da pessoa falecida. Carlos ficou sensibilizado com o velhinho e resolveu ajudá-lo.

"Tudo bem, vamos encontrar a quadra, e depois fica fácil. Não estamos muito longe.”

"Muito obrigado meu filho, mas não vou te atrapalhar?"- perguntou o velhinho.

"Claro que não, trabalho algum”.

Os dois seguiram para a tal quadra. Enquanto andavam, conversavam sobre vários assuntos. O velhinho andava lentamente e Carlos fazia o possível para não deixá-lo para trás.

"Que bom que você está me ajudando, meu filho. Eu estou procurando esta quadra há um tempo já. E o pior é que estou atrasado”, disse o velhinho.

"Atrasado?”, perguntou Carlos.

"Sim, meu filho. Estou atrasado para o enterro. Já estão todos lá, só que não consigo encontrar”, resmungou o velhinho olhando para o papel.

"Entendo... Desculpe a curiosidade, é parente do senhor?”

"Olha, meu filho, me desculpa viu? Mas, não quero falar disso agora”, retrucou o velhinho com um ar triste.

Ele ficou sem graça, não teve a intenção de chatear o velho.

Os dois continuaram andando. Quadra por quadra, lápide por lápide, Carlos observava cada túmulo, as fotos das pessoas falecidas, crianças, jovens, velhos. Enquanto se aproximava, Carlos avistou algumas pessoas reunidas.

"Olha lá! Acho que encontramos o lote, senhor. Está acontecendo um enterro", disse Carlos, apontando para o grupo de pessoas.

O velhinho parou, ficou observando alguns segundos, e disse:

"É, são eles mesmo. Minha família... Chegamos bem na hora."

"O senhor está se sentindo bem?", perguntou Carlos.

Os dois se aproximaram do enterro. O velhinho parou colocou a mão no ombro de Carlos.

"Sim, meu filho, estou bem. Muito obrigado pela ajuda.  Eu não poderia chegar atrasado nesse enterro. Não poderia deixar de estar aqui, de me despedir de todos”.

"Como assim de todos?"

"Da minha família, hoje é meu enterro. É hora da minha despedida. Muito obrigado”.


Carlos não podia acreditar que estava falando com um morto. Saiu correndo em disparada e nem ao menos olhou para trás. Enquanto corria, jurava para si mesmo que nunca mais ia voltar em um cemitério para... Carlos parou. Sua pulsação ficou mais forte, estava ofegante. Ele não conseguia lembrar o que estava fazendo ali. Qual o motivo de estar naquele cemitério. Só lembrava que antes do velho aparecer, ele estava olhando túmulo por túmulo. Percebeu que tinha algo em seu bolso. Colocou a mão e retirou um cartão azul. No cartão estava seu nome e o local onde seria enterrado.
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