O CORAÇÃO DELATOR. Conto clássico de terror. Edgar Allan Pöe


O CORAÇÃO DELATOR

Edgar Allan Pöe
Tradução de S. de M.

Sim! Sou muito nervoso, terrivelmente nervoso, mesmo ― e sempre o fui; mas por que me supõem louco? A doença tornou mais aguçados os meus sentidos ― não os destruiu, não os embotou. Mais do que os outros, tenho uma audição aguçadíssima. Ouço admiravelmente bem todos os sons produzidos no céu e na terra. Tenho ouvido até muitas coisas do inferno. Como posso, pois, ser um louco? Atenção! Reparem bem com que perfeita lucidez, com que tranquilidade de espírito eu vou contar-lhes toda a história.

Ser-me-ia completamente impossível dizer-lhes como primitivamente a ideia entrou no meu cérebro; mas, uma vez concebida, nunca mais me abandonou, noite e dia. Fim, não tinha algum. A paixão foi estranha ao caso, por completo. Eu estimava deveras o pobre velho, que nunca me fizera o menor mal, que nunca me insultara. Nem mesmo invejava o seu dinheiro. Creio que foi o seu olho! Sim foi isso, decerto! Um dos olhos dele parecia os dum abutre ― um olho azul claro, recoberto por uma película nevoenta. Cada vez que esse olho me fitava, sentia gelar-me o sangue; e assim, lentamente ― por graus ― muito gradualmente ―, introduziu-se na minha mente a ideia de arrancar a vida do velho, para, dessa forma, me livrar para sempre daquele olho.
Agora, este é o ponto. Os senhores supõem-me louco. Os loucos não sabem de nada. Se me vissem! Se vissem com que inteligência eu procedia! Com que precaução, com que prudência, com quanta dissimulação eu meti as mãos à obra! Eu nunca fora mais solícito para o velho do que durante a semana inteira que precedeu o crime. E todas as noites, pela meia-noite, levantava o trinco da porta do quarto dele, e abria-a ― oh, tão devagarinho! E então, depois de suficientemente a entreabrir, introduzia no quarto uma lanterna de furta-fogo, fechada, hermeticamente fechada, que não deixava passar um mínimo raio de luz; em seguida metia a cabeça pela abertura! Oh, se vissem teriam rido da destreza com que eu metia a cabeça! Movia-se lentamente ― muito, muito lentamente ―, de maneira a não perturbar o sono do velho. Levei seguramente mais de uma hora para meter a cabeça pela abertura, muito antes de poder vê-lo deitado no leito! Ah! Um louco seria, porventura, tão prudente? Depois, quando tinha a cabeça dentro do quarto, abria a lanterna com precaução ― oh, com que precaução! ― porque o gonzo rangia. Abria então a lanterna de tal modo que o raio de luz fosse justamente incidir no olho de abutre. E fiz isto durante sete longas noites ― cada noite, à meia-noite ―, mas encontrei sempre o olho fechado, de molde a não poder, portanto, concluir o meu trabalho; foi por isso que disse não odiar eu o velho; o que eu odiava era o seu Olho Maldito! E todas as manhãs, logo que o dia nascia, entrava ousadamente em seu quarto, falava-lhe corajosamente, tratando-o pelo seu nome num tom cordialíssimo, e informando-me de como passara a noite. Bem veem que ele seria possuidor de uma dissimulação rara se desconfiasse que, a cada noite, à meia-noite em ponto, eu o examinava enquanto dormia.
Na oitava noite fui ainda mais prudente: abri a porta com mais precaução. A minha mão não fazia mover a porta com mais rapidez do que se move um ponteiro dum relógio. Nunca, como nessa noite, senti tão perfeitamente o poder das minhas faculdades, da minha sagacidade. A custo continha as sensações que o triunfo produzia em mim. Pensar que eu estava ali, abrindo a porta pouco a pouco, sem que ele pudesse sonhar as minhas ações ou meus pensamentos secretos! Ao ter esta ideia não pude deixar de rir um pouco, abafadamente; ele ouviu-me, talvez porque se voltou pesadamente no leito, como se tivesse acordando. Pensam por acaso que eu me retirei por isso? Não! O quarto, de tão profundas que eram as trevas, estava negro como pez, porque as janelas tinham sido fechadas cuidadosamente, por medo dos ladrões; e, sabendo que ele não podia ver a porta entreaberta, continuei a empurrá-la cada vez mais. Eu já passara a cabeça pela abertura, e estava prestes a abrir a lanterna, quando o meu polegar resvalou pelo fecho de ferro, e o velho sentou-se no leito, gritando:
― Quem está aí?
Eu fiquei completamente imóvel e não disse nada. Durante uma hora inteira não movi um só músculo, mas, também, durante esse tempo, não ouvi o velho deitar-se. Continuava, decerto, sentado na cama, de ouvido à escuta, justamente como eu fizera durante sete noites inteiras, escutando o barulho que fazia o pêndulo do relógio de parede.
Mas, de repente, ouvi um gemido fraco, que reconheci como o gemido resultante de um horror mortal. Não era o gemido de dor ou de pesar. Oh, não! Era o ruído surdo e sufocado que se desprende do fundo de uma alma apavorada. Conhecia bem aquele grito. Muitas noites, à meia-noite exata, quando todo mundo dormia, soltara-se de meu próprio peito um gemido igual àquele, excitando com o seu terrível eco os terrores que me atormentavam. Repito que conhecia aquele ruído. Calculava o que o pobre velho sentia, e eu tinha piedade dele, ainda que interiormente eu sorrisse comigo mesmo. Sabia que ele continuava acordado desde que se voltara no leito ao primeiro ruído que eu fizera. Desde então o seu pavor aumentara sempre de intensidade. Ele tentara persuadir-se de que não tinha razão para assustar-se, mas não pudera consegui-lo. Dissera a si mesmo: “Não foi nada, apenas o ruído do vento entrando pela chaminé, ou algum rato que atravessou o quarto”, ou então: “Talvez um grilo que começou a cantar”. Sim, sim, ele se esforçara por encorajar-se com estas hipóteses; mas tudo fora em vão. Tudo fora em vão porque a Morte, que se aproximava, passava diante dele com a sua grande sombra negra, envolvendo, assim, aquela vítima. Era a influência fúnebre da sombra que ele não percebera, que lhe fazia sentir ― apesar de nada ver nem ouvir ―, que lhe fazia sentir a minha cabeça no seu quarto.
Depois de esperar por muito tempo, impacientemente, que ele se deitasse de novo, resolvi entreabrir um pouco a lanterna, mas muito pouco, um quase nada. Entreabri-a com tanta cautela como dificilmente podem imaginar, até que por fim um pálido raio de luz, como um fio de teia de aranha, subiu da abertura, incidindo sobre o olho de abutre.
O Olho Maldito estava aberto, muito aberto, o que me fez enfurecer logo que o fitei. Vi-o com uma perfeita nitidez ― o azul claro coberto com o hediondo véu que me gelava o sangue nas veias; mas eu nada podia ver do rosto ou do corpo do velho, porque dirigia o raio de luz, como por instinto, sobre o ponto maldito.
Em seguida ― eu não lhes disse que o que os senhores tomavam por loucura era uma grande penetração dos meus sentidos? ―, em seguida ouvi um outro ruído surdo, sufocado, contínuo, semelhante a um ruído que pode fazer o pêndulo dum relógio envolvido em algodão. Eu reconheci esse som. Era o bater do coração do velho. Esse som aumentou o meu furor como o rufar do tambor aumenta a coragem de um soldado.
Mas contive-me ainda, e continuei ali, sem me mexer. Somente respirava, conservando a lanterna imóvel para que o raio de luz saído dela continuasse a iluminar o olho maldito. Entretanto, o infernal bater do coração era cada vez mais forte, a cada instante mais precipitado. O terror do velho devia ser extremo! O bater o coração, eu disse, era cada vez mais forte, de instante para instante! Repararam bem em tudo o que lhes disse? Então devem lembrar-se que lhes declarei ser excessivamente nervoso, e, com efeito, eu o sou. Portanto, em plena noite, no meio do silêncio terrível daquela casa, um tão estranho ruído fez com que se apossasse de mim um irremissível terror. Durante alguns minutos ainda, contive-me e continuei calmo. Mas o ruído era cada vez mais forte, sempre mais forte! Cheguei a supor, até, que o coração ia rebentar. E então apoderou-se de mim uma nova angústia: o ruído poderia ser ouvido por algum vizinho! A hora do velho chegara, pois! Saltando um grande grito, abri bruscamente a lanterna, e entrei no quarto. O velho deu apenas um grito, um só, porque eu o lancei no assoalho, virando-o e jogando-lhe sobre o corpo o pesado leito em que antes dormia tranquilamente. Sorri, então, por ver a minha obra tão adiantada. Mas, durante alguns instantes ainda, o coração batia, produzindo um som abafado, que não me incomodou, porque não podia ser ouvido através duma parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Levantei o leito e examinei o corpo. Sim, estava morto, morto e rígido. Coloquei-lhe a mão sobre o coração, conservando-a ali durante alguns minutos. Nem uma pulsação. Ele estava morto e rígido. O seu olho, portanto, não me atormentaria mais!
Se persistirem ainda em supor-me louco, essa suposição evaporar-se-á ao descrever-lhes as inteligentíssimas precauções que tomei para ocultar o cadáver. A noite avançava; comecei, pois, a trabalhar apressadamente, mas em silêncio. Cortei-lhe a cabeça, depois os braços, depois as pernas. Em seguida, despreguei três taboas do assoalho e meti todas as partes do cadáver pelos buracos que elas tinham deixado. Depois preguei de novo as tábuas tão habilmente, tão desveladamente, que nenhum olho humano ― nem mesmo o dele ― poderia descobrir no assoalho o mínimo sinal de que tinham sido levantadas. Não havia o que limpar ― nem uma mancha, nem um pingo de sangue. Procedera muito prudentemente para deixar qualquer vestígio. A tina em que cortara o cadáver absorvera todo o sangue, ha! ha!
Quando acabei a minha obra, pelas quatro horas da madrugada, a escuridão era tão profunda como à meia-noite. No momento exato em que o relógio dava uma hora da tarde, bateram à porta da rua. Desci para abrir alegremente, porque nada tinha a temer dali em diante. Entraram três homens que com toda delicadeza apresentaram-se como agentes de polícia. Um vizinho ouvira um grito, na noite anterior, o que levantara a suspeitar de que um crime teria sido praticado; como fizera a respectiva denúncia no comissariado de polícia, tinham ordenado àqueles senhores que revistassem a casa.
Ao saber qual o fim dos policiais, sorri ― pois o que eu tinha a temer? Declarei-lhes que sentia um verdadeiro prazer em lhes falar, e disse-lhes que o grito ouvido pelo tal vizinho fora eu que o soltara durante um sonho. O meu velho patrão, acrescentei, partira para uma viagem.
Depois desta explicação, mostrei toda a casa aos policiais, convidando-os a procurarem bem. Por último, eu os conduzi ao quarto dele, e mostrei-lhes todos os tesouros do velho, perfeitamente intactos.
No entusiasmo de minha confiança, instei os policiais para que sentassem, para que descansassem um instante; e, com a louca audácia dum triunfo completo, puxei uma cadeira e sentei-me, depois de tê-la colocado exatamente sobre as tábuas que cobriam o corpo da vítima.
Os agentes de polícia estavam satisfeitíssimos. A forma clara e precisa com que eu fizera as declarações convencera-os. Sentia-me singularmente à vontade. Sentaram-se e começaram a falar coisas triviais, às quais que eu respondia alegremente.
Pouco depois, senti que empalidecia, e só pensei em me livrar deles.
Sentia insuportáveis dores de cabeça, e grandes badaladas nos ouvidos; mas os policiais continuavam sentados, sempre falando. As badaladas não acabavam e, pelo contrário, eram cada vez mais distintas. Comecei a falar mais alto para me livrar daquela sensação; mas as badaladas persistiam, tomando um caráter tão puramente definido que, por fim, percebi não se produzir sem os meus ouvidos.
Eu estava muito pálido, sem dúvida ― mas falava sempre, levantando a voz cada vez mais.
O som aumentava sempre ― o que eu podia fazer? Era um ruído surdo, sufocado, frequente, semelhante ao ruído que pode fazer o pêndulo de um relógio envolvido em algodão. Eu respirava a custo. Os policiais nada tinham ouvido.
Conversei com mais verbosidade ― com mais veemência ―, mas o ruído aumentava incessantemente. Levantei-me e comecei a questionar sobre ninharias, num diapasão elevadíssimo e com uma violenta gesticulação; mas o ruído aumentava, aumentava sempre. Por que eles não queriam ir embora? Eu passeava desesperadamente pelo quarto, a grandes passadas, batendo surdamente com os pés no chão, como que exasperado pelas observações de meus contraditores; mas o ruído crescia regularmente. Oh, Deus! O que podia eu fazer? Enraivecia-me, espumava, praguejava. Movia em todos os sentidos a cadeira em que de novo me sentara, fazendo-a ranger sobre o tabuado; mas o ruído aumentava sempre, crescia indefinidamente, tornava-se de instante para instante mais forte ― mais forte! ―, sempre mais forte. E os policiais, sorrindo e palestrando, sempre prazenteiramente!
Seria possível, por ventura, que eles nada ouvissem? Deus onipotente! Não, não! Eles ouviam! Eles suspeitavam! Eles sabiam! Eles divertiam-se com o meu terror! Foi isto que supus, então. É isto que ainda hoje suponho.
Nada mais intolerável para mim que aquela descarada zombaria! Não podia mais suportar aqueles sorrisos hipócritas! Senti que, para não morrer, precisava gritar! E agora ainda, não ouvem? ― Escutem! Mais alto! Sempre mais alto!
― Sempre mais alto, miseráveis! ― gritei para os policiais. ― Não dissimulem por mais tempo! Confesso o crime! Arranquem essas tábuas! É aí que ele está! É aí! E esse som que ouvem é o bater do seu execrável coração.

*

Texto publicado originalmente na Gazeta da Tarde, Rio de Janeiro, edição de 24 de abril de 1890. Fizeram-se adaptações textuais.
Este conto está disponível em PDF, E-pub e MOBI.:http://freebookseditora.com/index.html
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UM EPISÓDIO INFAME - Narrativa de horror. Narrativa histórica. Autor anônimo do século XX.



UM EPISÓDIO INFAME
Autor anônimo do século XX


Uma manhã, os cossacos de Yaremni receberam a notícia de que os guardas vermelhos avançavam. Como não se sentissem suficientemente fortes para o combate, decidiram abandonar o povo. Temiam ser fuzilados sumariamente como soldados inimigos.

— E as mulheres e as crianças? — perguntava-se.

Ao fim de muitas horas, gastas em deliberações, todas infrutíferas, ficou resolvido que deixariam o povo, as mulheres e as crianças. Todos refletiam que não fariam mal nenhum às pessoas indefesas.

Retiram-se, pois, os cossacos.

Na manhã do dia seguinte, apareceu uma centena de vermelhos, comandados por um homem gordo e imbecil, que era o comissário.

O povo parecia morto. Todas as mulheres e crianças haviam-se recolhido às casas e a cidade não tinha o menor movimento. Os vermelhos esperaram cinco minutos. Como não aparecesse ninguém ao cabo desse tempo, eles deram início ao saque das casas. Nas adegas, embriagavam-se com todo o vinho e a vodca que conseguiam encontrar. Depois de bêbados, foram-se às mulheres.

O comissário escolheu uma jovem formosa e loura; era a esposa do padre. Os seus comandados, cada um deles tomou conta de uma mulher, escolhendo-as sempre dentre as mais belas e jovens. Só se ouviam gritos e prantos que, mesmo de longe, enchiam a atmosfera, como se houvesse ali um inferno.

Algumas mulheres opuseram aos bandidos uma resistência desesperada. Estas, depois de serem violadas várias vezes, eram assassinadas a ponta de lança.
U
ma criancinha, ao ver um vermelho castigar a sua mãe, tentou defendê-la, mordendo a mão do bruto. Então o homem segurou a pobre pelas frágeis perninhas e matou-a rachando-lhe a inocente cabeça de encontro a uma parede…

Uma jovem enlouqueceu, cheia de terror. Gargalhava, no seu delírio, gritando coisas estranhas, coisas incompreensíveis. Os seus gritos e gargalhadas perturbavam a alegria dos soldados.

—Mata essa doida — diziam eles para o companheiro que a tomara para sua amante.

—Oh, não! — respondia ele. — Uma criatura tão bela…

Enfim, cedeu às insistências dos outros. Matou a pobre mulher enlouquecida com um tiro na espádua.
Quando rompeu a manhã do dia seguinte, os vermelhos abandonaram o povo, depois de uma noite inteira de orgia. Cada um deles levava de garupa uma mulher. As que tentavam resistir iam amarradas a cordas.

O bando seguiu tranquilamente, compassada a marcha pelo rumor do trote dos amimais.

De repente, na entrada de um bosque, ouviram-se alguns tiros.

Era uma emboscada preparada por um destacamento dos guardas brancos.

O pânico que se produziu foi indescritível. Os vermelhos, pondo fora os fuzis e deixando os cavalos, fugiram à carreira, embrenhando-se na floresta. Os brancos, porém, conseguiram alcançá-los. Amarrados, desarmados, lívidos, pressentindo a aproximação iminente da morte, punham-se eles de joelhos, implorando perdão.

Mas tudo foi debalde.

—Vingança! Vingança! — gritavam as mulheres.

E se entregaram a martirizar os vermelhos, com um delírio verdadeiramente voluptuoso, arrancando-lhes a pele, cortando-lhes os dedos, decepando-lhes lentamente as orelhas, o nariz, os olhos…

Satisfeita a sede de vingança, foram mortos todos os vermelhos.

Daí por diante o povo de Yaremni foi definitivamente abandonado pelos cossacos. Eles tinham a certeza de que os bolcheviques se vingariam cruelmente. Assim, preferiram abandonar os seus lares.

Yaremni já não existe. No seu lugar há, apenas, um grande, ameaçador deserto…

Quantos povos russos estarão no mesmo caso de Yaremni?


Fonte: Pacotilha (MA), edição de 26 de janeiro de 1921


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CÓPULAS DEMONÍACAS - Conto Clássico - Conto Fantástico - Conto Humorístico - Poggio Bracciolini



CÓPULAS DEMONÍACAS

Poggio Bracciolini
(1380 – 1459)
Tradução (indireta) de Paulo Soriano


I

De um homem que viu o diabo sob a forma de mulher

Cêncio, romano, que era um homem muito sábio, contou-me muitas vezes uma história, que não deve ser tomada por troça, a qual um seu vizinho, que não era nenhum néscio, dissera que sucedera com ele. Ei-la:

Certa feita, levantou-se o vizinho da cama, sob o brilho da lua. E, porque a noite era serena, julgou que já amanhecia. Então, saiu para ir à sua vinha, já que é costume, entre os romanos, cultivá-la com amor.

Ao sair pela porta de Óstia e, para sair, teve que rezar para que os guardiões que a abrissem —, notou uma mulher que seguia à sua frente. Considerou que ela assim seguia por devoção a São Paulo. Então, ardendo de grande desejo, acelerou o passo para alcançá-la. Porque a mulher estava sozinha, concluiu que poderia persuadi-la facilmente. Ao aproximar-se, viu que a mulher, abandonando a via principal, derivava por um outro caminho. O homem correu em seu encalço, evitando perder tão boa ocasião. Avançou mais um pouco, agarrou a mulher numa curva, jogou-a no chão e realizou o seu trabalho. Tanto feito, a mulher desapareceu, deixando no ar um odor de enxofre. O homem, vendo-se sozinho sobre o chão relvoso, levantou-se assustado e voltou para casa. Todos acreditavam que ele fora vítima de uma ilusão do demônio.


II

Outra história contada por Angelotto


Quando Cêncio narrou essa história, fazia-se presente Angelotto, bispo de Anagni, que contou um caso semelhante:

Um parente meu ele disse, nominando a quem se referia —, numa certa noite, perambulava pela cidade deserta, na qual encontrou — conforme cria — uma mulher. Como a dama lhe parecia muito bela, com ela fez o que lhe apetecia. Mas, depois, para assustá-lo, ela se transformou, tomando o aspecto de um homem horrendo.

‘— O que fizeste?" — disse ele ao demônio.

Na verdade, eu, tolo, te enganei — respondeu o diabo.

E ele:

‘— Que sejarespondeu francamente. — Mas eu te penetrei pelo traseiro.



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UM CAVALEIRO NO CÉU - Conto Clássico - Conto Fantástico - Ambrose Bierce



UM CAVALEIRO NO CÉU
Ambrose Bierce
(1842 – 1914?)
Tradução de Renato Suttana

   
1


Por uma tarde ensolarada do outono de 1861, um soldado jazia deitado em meio a uma moita de loureiros junto a certa estrada no oeste de Virgínia. Estava deitado de bruços, as pontas dos pés tocando o chão, a cabeça apoiada no antebraço esquerdo. A mão direita, estendida, segurava frouxamente o rifle. Porém, dada a disposição algo metódica de seus membros, e um vago movimento rítmico da cartucheira no dorso do cinturão, se poderia pensar que estivesse morto. Dormia em seu posto de vigilância. No entanto, se detectado, morreria imediatamente, sendo a morte a penalidade legal para esse crime.

  
A moita de loureiros na qual jazia o criminoso situava-se no ângulo de uma estrada que, após ascender a pino em direção ao sul até aquele ponto, dobrava bruscamente para oeste, correndo sobre a crista por talvez uma centena de jardas. Daí virava para o sul outra vez e ziguezagueava para baixo através da floresta. Na saliência daquele segundo ângulo havia uma grande rocha achatada, que se projetava para o norte por sobre o vale profundo de onde subia a estrada. A rocha coroava um alto precipício: uma pedra atirada de lá cairia por uns bons mil pés antes de atingir o topo dos pinheiros. O ângulo onde se encontrava o soldado ficava na outra ponta do precipício. Se estivesse desperto, teria uma ampla visão não só do curto trecho de estrada e do rochedo eminente, mas também de toda a face do abismo por baixo dele. Poderia ter uma vertigem ao olhar.


Árvores cobriam a paisagem por toda parte, falhando apenas ao pé do vale, ao norte, onde havia um pequeno descampado; através dele fluía um regato que mal se avistaria da orla do vale. Essa área descoberta pareceria pouco maior que um pátio de entrada comum, mas tinha de fato muitos acres de extensão. Seu verde era mais vivo do que o da floresta circundante. Para além dele erguia-se uma linha de gigantescos despenhadeiros, semelhantes àquele em que nos postamos agora para observar essa cena selvagem, e em meio a eles a estrada, de algum modo, conseguia galgar até o cimo. Com efeito, a configuração do vale era tal que, deste ponto de observação, pareceria inteiramente enclausurado; e se poderia perguntar de que maneira a mesma estrada que levava para fora dele penetrava nele, e de onde vinham e para onde iam as águas do regato que atravessavam a campina a mais de mil pés abaixo.

  
Cenário algum seria tão selvagem e difícil, mas os homens farão dele um teatro de guerra. Ocultos na floresta, ao pé daquela ratoeira militar, onde meia centena de homens guarnecendo as saídas teriam obrigado um exército inteiro a se render por inanição, havia cinco regimentos da Infantaria Federal. Tinham marchado durante todo o dia e durante toda a noite anterior e agora descansavam. Ao cair da noite retornariam à estrada, subiriam até o lugar onde sua sentinela irresponsável estava dormindo e, descendo pelo outro lado, se lançariam sobre o acampamento inimigo por volta da meia-noite. Depunham esperança na surpresa, pois a estrada conduzia à retaguarda do acampamento. Em caso de fracasso, sua posição teria sido perigosa em extremo. E certamente falhariam, se algum acidente ou vigilância notificasse o inimigo a respeito desse movimento.


2


A sentinela adormecida na moita de loureiros era um jovem de Virgínia, chamado Carter Druse. Era filho único de pais ricos e tinha desfrutado das facilidades, do cultivo e do alto padrão de vida que a riqueza e o gosto são capazes de proporcionar na região montanhosa a oeste de Virgínia. Sua casa ficava a poucas milhas do local onde ele estava agora. Certa manhã ele se levantou da mesa, após o café, e disse, em tom compenetrado e grave:


 – Pai, um regimento da União chegou a Grafton. Vou me juntar a ele.

  
O pai ergueu a cabeça leonina, olhou em silêncio para o filho durante um momento e respondeu:
  

– Bem, vá, meu senhor. E, aconteça o que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu dever. A Virgínia, para a qual você é um traidor, deve passar sem você. Se vivermos até o fim da guerra, falaremos mais tarde sobre o assunto. Sua mãe, como o médico informou a você, se encontra numa situação bastante crítica. No máximo, poderá estar entre nós por mais algumas semanas, mas esse tempo é precioso. Seria melhor não perturbá-la.


Então Carter Druse, fazendo uma reverência ao pai, que correspondeu à saudação com uma cortesia altiva em que se ocultava um coração partido, deixou o lar de sua infância para se alistar. Pela consciência e pela coragem, por atos de devoção e de audácia, ele logo se tornou respeitado entre os camaradas e os oficiais. E era a essas qualidades e a certo conhecimento da região que devia agora ter sido selecionado para a presente e perigosa tarefa na posição extrema. Entretanto a fadiga foi mais forte que sua resolução, e ele adormeceu. Que bom ou mau anjo veio num sonho despertá-lo de seu estado criminoso, ninguém saberá. Sem o menor movimento, sem um som, no profundo e lânguido silêncio da tarde, algum mensageiro invisível do destino tocou com o dedo os olhos de sua consciência; sussurrou no ouvido de seu espírito a misteriosa palavra do despertar que nenhum lábio humano jamais pronunciou, nenhuma memória humana jamais recordou. Ele levantou devagar a fronte, que se apoiara no braço, e olhou através da camuflagem dos ramos de loureiro, fechando instintivamente a mão sobre a coronha do rifle.

  
Sua primeira sensação foi a de um extremo deleite artístico. Num portentoso pedestal, o precipício – imóvel na extremidade da rocha superior e nitidamente recortado contra o céu –, via-se uma estátua equestre de impressionante dignidade. A figura do homem completava a figura do cavalo, rígida e marcial, mas com o repouso de um deus grego esculpido no mármore que limita a sugestão de atividade. O traje cinzento se harmonizava com o fundo aéreo; o brilho metálico dos equipamentos e dos jaezes era amenizado e suavizado pela sombra; a pele do animal não tinha pontos de luz excessiva. Uma carabina drasticamente amputada estava presa ao cocuruto da sela, segura em seu lugar pela mão direita que a sustinha pelo gatilho; a mão esquerda, segurando a rédea, estava invisível. Silhuetado contra o céu, o perfil do cavalo se recortava com a nitidez de um camafeu; olhava através das alturas em direção aos precipícios lá adiante. O rosto do cavaleiro, voltado para outra banda, deixava entrever apenas um princípio de têmpora e de barba. Olhava para baixo até o fundo do vale. Aumentado pela sua elevação contra o céu e pela sensação patente, que o soldado experimentou, da grandeza de um inimigo próximo, o grupo pareceria de um tamanho heroico, quase colossal.


 Por um instante Druse teve uma sensação estranha, meio indistinta, de ter dormido até o fim da guerra e de estar olhando para um nobre trabalho de arte erguido sobre aquele píncaro para comemorar os feitos de algum passado heróico do qual ele teria sido um participante inglório. A sensação foi dispersada por um sutil movimento do grupo: o cavalo, sem mover as patas, afastara o corpo ligeiramente da borda, sendo que o homem permaneceu imóvel como antes. Cada vez mais desperto e consciente da situação, Druse apertou a coronha de seu rifle contra o queixo e enfiou com cuidado o cano por entre os arbustos. Armou o cão, olhando através da mira, e visou um ponto vital no peito do cavaleiro. Um toque no gatilho, e tudo estaria bem com Carter Druse. Nesse instante, o cavaleiro voltou a cabeça e os olhos na direção de seu adversário oculto – pareceu fitar mesmo em seu rosto, em seus olhos, em seu coração bravo e apaixonado.

  
Será tão difícil matar um inimigo na guerra – um inimigo que surpreendeu um segredo vital à segurança de alguém e de seus camaradas – um inimigo mais formidável pelo que sabe do que todo um exército por seus números? Carter Druse empalideceu: seus membros tremeram, falharam; e ele viu o grupo escultural à sua frente, como figuras negras que subiam, caíam, oscilavam em arcos de círculos sobre um céu de sonho. Sua mão se afastou da arma, sua cabeça caiu lentamente até que o rosto repousou sobre as folhas em meio às quais ele jazia. A intensidade da emoção quase fez desmaiar esse soldado corajoso e robusto.

  
Não durou muito. No momento seguinte seu rosto se ergueu da terra, suas mãos retornaram ao rifle, seu indicador buscou o gatilho. Mente, coração e olhos estavam limpos, conscientes, e a razão era clara. Não havia esperança de capturar aquele inimigo. Alarmá-lo teria sido apenas remetê-lo de imediato ao acampamento com sua notícia fatal. O dever do soldado era estrito: o homem tinha de ser alvejado por emboscada – sem aviso, sem preparação espiritual, quando muito com uma prece tácita, antes de ser liquidado. Mas não – há uma esperança: ele pode não ter descoberto nada, talvez esteja apenas admirando a sublimidade do cenário. Se permitido, daria meia volta e galoparia descuidado em direção ao lugar de onde viera. Com certeza, será possível julgar, no instante de sua retirada, o quanto saberá. Pode até ser que a fixidez de sua atenção – Druse voltou a cabeça e olhou para as profunduras lá embaixo, como quem olha da superfície para o fundo de um mar translúcido. Viu galgar através da campina verdejante uma linha sinuosa de figuras de homens e de cavalos – algum comandante imbecil estaria permitindo aos soldados de sua escolta dar água aos animais à vista aberta e plena de uma dúzia de picos!

  
Druse desviou os olhos do vale e os fixou outra vez sobre o grupo de homem e cavalo no céu, e outra vez através da mira do rifle. Mas desta vez seu alvo estava no cavalo. Em sua memória, como um mandado divino, soaram as palavras de seu pai quando partiu: “Aconteça o que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu dever.” Estava calmo agora. Seus dentes se fecharam com firmeza, mas não rigidamente. Seus nervos estavam tranquilos como os de um bebê que adormeceu; sequer um tremor agitava um único músculo de seu corpo. Sua respiração, suspensa até então no ato de mirar, tornou-se regular e lenta. O dever prevaleceu. O espírito disse ao corpo: “Paz, fique quieto.” Atirou.


3


Um oficial da Força Federal, o qual, num espírito de aventura ou de busca de conhecimento, tinha deixado o bivaque escondido no vale e, um tanto a esmo, abrira caminho até a extremidade mais baixa de um pequeno espaço aberto ao pé do precipício, considerava o que teria a ganhar se levasse mais longe a exploração. À distância de um quarto de milha em frente, mas aparentemente ao alcance de uma pedrada, elevava-se da franja dos pinheiros a gigantesca face da rocha, atingindo uma altura tal que lhe daria vertigem olhar para cima em direção à linha escarpada e aguda que se recortava contra o céu. Seu perfil se apresentava claro e vertical contra o azul do céu, indo até um ponto mais abaixo, acompanhado das colinas distantes, pouco menos azuis, e daí seguia até os topos das árvores na sua base. Levantando os olhos para a estonteante altitude do cimo, o oficial teve uma visão estarrecedora – um homem montado a cavalo descia para o vale através do ar!

  
O cavaleiro mantinha-se a prumo, bem ao modo militar, sentado firme na sela, segurando com força as rédeas para controlar sua montaria num salto tão impetuoso. De sua cabeça desnuda flutuavam longos cabelos, saindo dela como fumaça. As mãos estavam ocultas pela nuvem da crina levantada. O corpo do animal permanecia nivelado, como se as quatro patas encontrassem o apoio da terra. Seus movimentos eram como os de um galope selvagem, mas cessaram enquanto o oficial olhava, todas as patas lançando-se para a frente, como no ato de pousar após um salto. Mas isso era um voo!
  

Cheio de espanto e terror devido à aparição do cavaleiro no céu – e quase se acreditando já o escriba escolhido de algum novo Apocalipse –, o oficial se viu subjugado pela intensidade de suas emoções. Suas pernas falharam, e ele caiu. Quase no mesmo instante, ouviu o ruído dos galhos se partindo – um som que não produziu eco –, e tudo se aquietou.

  
O oficial se levantou, tremendo. A sensação familiar de uma canela esfolada lhe restituiu a faculdades ofuscadas. Recompondo-se, correu para baixo, afastando-se do sopé do penhasco, para um ponto onde esperava encontrar o homem, o que não adiantou. No instante fugidio de sua visão, sua imaginação fora de tal maneira arrebatada pela graça, facilidade e intencionalidade aparente da maravilhosa performance que não lhe ocorreu que a linha de marcha da cavalgada aérea era diretamente para baixo e que os objetos de sua busca poderiam ser encontrados bem ao pé do penhasco. Meia hora depois ele retornou ao acampamento.

  
Esse oficial era um sábio, que conhecia muito bem a hora de não contar uma verdade incrível. Não disse nada sobre o que vira. Mas, quando o comandante lhe perguntou se, em sua batida, descobrira qualquer coisa de vantajosa para a expedição, respondeu:

  
– Sim, senhor, não existe estrada para este vale a partir do sul.

  
O comandante, que bem sabia, sorriu.


4


Depois de atirar, o soldado Carter Druse recarregou o rifle e retomou a vigilância. Mal se passaram dez minutos, e um sargento dos federais engatinhou com cautela até ele. Druse não se voltou, nem olhou para ele, mas permaneceu imóvel, sem dar sinal de reconhecimento.

  
– Você atirou? – murmurou o sargento.

  
– Sim.

  
– Em quê?

  
– Num cavalo. Estava sobre aquela pedra – bem ali. Mas não está mais lá. Voou para o precipício.

  
A cara do homem estava branca, mas ele não mostrava outros sinais de emoção. Tendo respondido, desviou os olhos e não disse mais nada. O sargento não entendeu.

  
– Olhe aqui, Druse – disse, depois de um silêncio –, é melhor não fazer mistério. Ordeno que dê o relato. Havia alguém sobre o cavalo?

  
– Sim.

  
– Então?

  
– Meu pai.

  
O sargento se levantou e se afastou.

  
– Deus do céu! – disse.

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Nota do editor: este conto está disponível em ePUB, MOBI e PDF em http://freebookseditora.com/index.html . 



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O FANTASMA - Conto Fantástico - Mauren Guedes Müller



O FANTASMA

Por Mauren Guedes Müller



Alberto ouviu a voz grave de seu pai dizer, no tom severo a que se acostumara:

– Levante-se!

Abriu os olhos e sentou-se na cama. Olhou em volta. Não havia ninguém com ele no quarto, o que não era surpresa, já que seu pai não poderia ter-lhe falado. Afinal, estava morto há cinco anos. Mas foi surpresa, ao menos por alguns instantes, a percepção do lugar onde se encontrava. Até que concatenou um pouco as ideias e se lembrou de haver-se hospedado naquele motel barato, embora ainda estivesse confuso e não se lembrasse de por que o fizera.

Alberto se levantou e se vestiu. Sentia muita sede. Foi até o banheiro, onde encontrou um copo, encheu-o na torneira e bebeu de um gole só. Repetiu o procedimento mais três vezes.

Saiu do quarto, trancou-o e passou pela portaria do motel, largando a chave sobre o balcão. O atendente estava ao telefone e não lhe dirigiu a palavra, sequer o olhou. Alberto saiu para a rua e consultou o relógio de pulso. Nove horas.

Fez sinal para um ônibus, mas o ônibus não parou. Devia estar lotado. Então, acenou timidamente para um táxi, mas o táxi também não parou. Não deu importância. Talvez fosse mesmo bom caminhar um pouco. Percorreu a pé todo o percurso até o prédio comercial onde tinha um escritório de advocacia. Quando chegou no prédio, entrou sem cumprimentar o porteiro. Tinha o hábito de fazer assim. Alberto passava a impressão de ser um arrogante, mas, na verdade, não passava de um tímido. Não cumprimentava por vergonha de si mesmo. Chamou o elevador, mas o elevador não veio. Suspirou e dirigiu-se à escada. Subiu os quatro andares, devagar. Começou a sentir fome. Mas não deu importância.

Quando chegou diante de seu escritório, a porta se encontrava fechada, com uma placa de “aluga-se”. Embora já esperasse por algo assim, o desagrado o invadiu e Alberto deixou escapar, muito baixinho, quase para dentro, um palavrão. Fazia meses que não pegava um processo novo e os antigos que tinha não andavam. Consequentemente, não pagava o aluguel. Pegou a chave e tentou metê-la na fechadura. O proprietário, aparentemente, estava mesmo disposto a impedir-lhe a entrada, porque trocara o segredo. Pensou em ir atrás dele, em exigir que observasse os prazos e procedimentos legais, mas a lassidão que o caracterizava o fez desistir. Desceu as escadas, derrotado, e caminhou lentamente para casa.

Ia caminhando pela rua, olhando fixamente para o chão, quando se lembrou do fato de ter ouvido a voz de seu pai, pela manhã. Só então começou a pensar se havia sido mais do que um sonho. Ouvira-a tão nitidamente... Seu pai sempre fora um homem severo. Nunca lhe dera dinheiro. Também nunca deixara que lhe faltasse nada – comida, roupa, estudos. Mas jamais lhe entregara uma nota sequer nas mãos, para que gastasse com o que bem entendesse, como seus amigos faziam. Todas as vezes em que o desobedecera, quando criança e mesmo quando adolescente, seu pai havia tirado o cinto e lhe dado uma surra. Lembrava-se dele com mágoa. Sentira um certo alívio quando ele havia morrido, e, embora se culpasse por isso, não conseguira esconder.

Mas agora tinha certeza de uma coisa: já estava acordado quando ouvira a voz de seu pai, no quarto do motel. Acordado, mas sem ânimo, sem forças para se levantar, apesar da sede. E teria ficado deitado naquela cama, talvez até morrer de inanição, se aquela voz rude não o houvesse sobressaltado a ponto de fazê-lo se levantar.

Então, ergueu a cabeça e olhou em volta. As pessoas não reparavam nele. Ninguém parecia notá-lo. Tornou a baixar os olhos e se encolheu ainda mais. Alberto já era franzino, e costumava adotar uma postura que o tornava ainda menor. Um homem esbarrou de leve nele, e seguiu seu caminho, sem nem ao menos pedir desculpas. Mas uma coisa o incomodou bastante. Foi uma sensação estranha, ao mesmo tempo insólita e assustadora.

Parecera a Alberto que, embora ele tivesse sentido o encontrão do homem, o homem não sentira o raspar de seu corpo...

Alberto chegou em casa e meteu a chave na fechadura. Desta vez, a porta se abriu. Entrou, em silêncio. Foi quando ouviu uma risada alegre, espontânea, livre, acompanhada de algumas palavras. Reconheceu a voz de sua esposa. Estremeceu. Há muitos, muitos anos não a ouvia rir daquela maneira. Esgueirou-se até o quarto. A porta estava entreaberta. Olhou pela fresta e teve um choque.

Sua mulher estava na cama, nua, juntamente com outro homem, um amigo dela.

Alberto recuou, devagar, até a sala, e deixou-se cair no sofá.

De repente, lembrou-se de tudo.

Descobrira a traição. Comprara as pílulas para dormir e alugara o quarto de motel, disposto a...

– Estou morto – murmurou, num fio de voz.

Era por isso que as pessoas pareciam não notá-lo. Não o notavam, mesmo, porque ele não era mais do que um fantasma. Era por isso que o senhorio se apressara em pôr seu escritório para alugar e trocara a fechadura. Era por isso que sua mulher estava na cama, com outro homem, em plena luz do dia...

De repente, ergueu a cabeça e deparou-se com uma figura, em pé. Era seu pai. Quando o viu, sua respiração se trancou por um momento. Seu pai cravou-lhe os olhos, penetrantes, numa expressão de censura que lhe dava a impressão de estar nu diante dele, ou de ter sido surpreendido nalgum ato muito vergonhoso. Alberto sentiu o rubor aquecer-lhe o rosto e baixou os olhos.

– Pai – disse.

– Você, hem? –  respondeu-lhe o velho. – Você só me dá vergonha...

Alberto o espiou, de canto de olho.

– O senhor veio me levar? Para... onde?...

– Não vim levar você para lugar nenhum, Alberto. Só vim tentar fazer com que você recupere um pouco do juízo. Fazer com que você tenha um mínimo de vergonha na cara.

Alberto suspirou profundamente e olhou para o chão.

– Agora, é tarde, pai. Eu já fiz...

– Cale essa boca e olhe para mim, moleque!

Alberto obedeceu.

– Passei toda a vida tentando fazer de você um homem – disse ele. – E, no entanto, o que você se tornou? Um frouxo. Um frouxo que pega a vagabunda da sua mulher com outro e, em vez de aguentar o tranco e de reagir como homem, pega uma cartela de remédios e vai se enfiar num canto, como um rato, para se matar!

Alberto voltou a olhar para o chão.

– Pois é, pai, mas agora...

– Agora? Agora você vai se levantar, vai enfrentar essa vadia e tocá-la para fora de sua casa, ela e o amante! E amanhã, você vai procurar o juiz e dizer que, se ele não der andamento nos seus processos, especialmente naquele que está parado há mais de ano, você vai procurar a Corregedoria!

Alberto sentiu o desespero crescer, uma angústia apertar-lhe o peito.

– Agora é tarde, pai! Eu estou morto! Morto, como o senhor...

– Ora, moleque! – berrou o velho. – Eu até posso estar morto, sim. Mas você, hem? Você acha que está morto? Você não foi homem nem para se matar, Alberto! Você é o que, sem-vergonha ou idiota, mesmo? Achou que ia se matar com menos de meia dúzia daqueles comprimidos para dormir?

Alberto sentiu como se um choque elétrico o atravessasse.

– Como? perguntou, quase sem voz.

– Você tomou muito pouco para morrer, Alberto! Diga-se de passagem, ainda bem. Mas agora, pare de agir como se estivesse morto, e seja um homem de verdade!

O jovem o olhou, estático. Talvez tenha piscado os olhos uma vez ou duas, e foi aí que o fantasma desapareceu.

Alberto podia sentir o próprio coração batendo, com uma fúria desesperada. Suas têmporas latejavam. Mas, ao mesmo tempo, sentia como se seu sangue aquecesse. Sentia-se vivo, sim, mais vivo do que nunca...

Levantou-se, decidido, e abriu a porta do quarto. Sua mulher o olhou e deu um grito. O amante arregalou os olhos, pálido.

– Fora daqui os dois – disse, com voz firme, mas calma.

– Mas, Alberto... – começou a dizer ela.

– Fora daqui – repetiu ele. – Antes que você comece a me falar de seus direitos, fique sabendo que eles serão discutidos em juízo. Conversa eu não quero com você. Tenha um mínimo de decência, pegue suas coisas e vá para a casa de seus pais, agora. E você – voltou-se para o amante dela –, dê o fora de minha casa agora mesmo, ou eu chamo a polícia!

O homem agarrou suas roupas, enfiou as calças e saiu, assustado. A mulher de Alberto se vestiu e começou a fazer sua mala, enquanto ele foi até a sala e deixou-se cair novamente, sobre o sofá, cansado, com o coração ainda mais acelerado e a respiração agitada, mas sentindo-se bem melhor.

No dia seguinte, chegou no prédio do escritório e cumprimentou o porteiro em voz bem alta, de maneira que o homem não teve como ignorá-lo, apesar de surpreso por aquela sua mudança de comportamento. Falou com o senhorio. Exigiu que fosse observado um processo de despejo. Falou com o juiz. Deu andamento em seus processos.

Ao cabo de algum tempo, era outro Alberto. Mais dinâmico, mais autoconfiante, parecia até mais alto. Certo dia, voltando do escritório em seu carro – comprara um carro –, parou diante do cemitério da cidade. Estacionou e desceu. Caminhou por entre os túmulos até se deter diante do jazigo de seu pai. Ficou parado, em silêncio, por longos instantes. Finalmente, tocou a pedra com carinho.

– De seu jeito – murmurou –, o senhor sempre me amou.


E voltou para o carro, sentindo-se em paz consigo mesmo e, finalmente, com o seu passado.
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