CONCURSO LITERÁRIO BRAM STOKER DE CONTOS DE TERROR - ALTERAÇÃO DO EDITAL










RESOLUÇÃO DE 19 DE JANEIRO DE 2018

Altera dispositivos do Regulamento do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror.

Blog CONTOS DE TERROR (www.contosdeterror.site)FREE BOOKS EDITORA VIRTUAL (www.freebookseditora.com), considerando:

a) A grande quantidade de contos inscritos até a presente data, que superou largamente a previsão exordial dos sítios organizadores;
b) a necessidade de ajustar o calendário à quantidade de contos já inscritos e os que ainda serão objeto de inscrição;
c) a necessidade de tempo superior ao inicialmente previsto, destinado à criteriosa análise das obras concorrentes, e, posteriormente, aos trabalhos de diagramação e publicação;
d) a boa qualidade dos contos até o presente momento inscritos,

RESOLVEM:

ITEM 1 -  Os subitens 2 e 3 do item 6 do Regulamento do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror passam a viger com a seguinte redação:

“2. Serão selecionados e classificados 20 (vinte) contos entre os inscritos e habilitados no certame. Este número poderá ser superior, caso haja empate entre participantes na mesma classificação.  O organizador do certame reserva-se a faculdade de agregar, aos contos selecionados e classificados, menções honrosas.
3.  O organizador reserva-se a faculdade de redimensionar a quantidade de obras participantes da antologia decorrente deste concurso.”

ITEM 2 – O item 9 do Regulamento do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror passa a viger com a seguinte redação:

“Considerar-se-ão vencedores do certame os 20 (vinte) primeiros colocados entre os autores habilitados, observado o disposto no item 6.2 do presente edital.”

ITEM 3 – O item 11 do Regulamento do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror passa a viger com a seguinte redação:

“O resultado do concurso será divulgado no Blog Contos de Terror (www.contosdeterror.site) até a data de 31 de março de 2018.”

ITEM 4 - O subitem 12.1 do Regulamento do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror passa a viger com a seguinte redação:

“As obras vencedoras do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror serão publicadas até o dia 31 de maio de 2018 no Blog Contos de Terror e na página eletrônica de Free Books Editora Virtual.”

ITEM 5 – As alterações introduzidas por esta Resolução serão incorporadas ao Regulamento na página http://www.contosdeterror.site/p/blog-page_22.html.

ITEM 6 – Revoga-se o item 8 do  Regulamento do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror.


ITEM 7 - A presente Resolução entra em vigor na data de 20 de janeiro de 2018.

Salvador, 19 de janeiro de 2018

PAULO SORIANO
Organizador 
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UM CAVALEIRO NO CÉU - Conto Clássico - Conto Fantástico - Ambrose Bierce



UM CAVALEIRO NO CÉU
Ambrose Bierce
(1842 – 1914?)
Tradução de Renato Suttana

   
1


Por uma tarde ensolarada do outono de 1861, um soldado jazia deitado em meio a uma moita de loureiros junto a certa estrada no oeste de Virgínia. Estava deitado de bruços, as pontas dos pés tocando o chão, a cabeça apoiada no antebraço esquerdo. A mão direita, estendida, segurava frouxamente o rifle. Porém, dada a disposição algo metódica de seus membros, e um vago movimento rítmico da cartucheira no dorso do cinturão, se poderia pensar que estivesse morto. Dormia em seu posto de vigilância. No entanto, se detectado, morreria imediatamente, sendo a morte a penalidade legal para esse crime.

  
A moita de loureiros na qual jazia o criminoso situava-se no ângulo de uma estrada que, após ascender a pino em direção ao sul até aquele ponto, dobrava bruscamente para oeste, correndo sobre a crista por talvez uma centena de jardas. Daí virava para o sul outra vez e ziguezagueava para baixo através da floresta. Na saliência daquele segundo ângulo havia uma grande rocha achatada, que se projetava para o norte por sobre o vale profundo de onde subia a estrada. A rocha coroava um alto precipício: uma pedra atirada de lá cairia por uns bons mil pés antes de atingir o topo dos pinheiros. O ângulo onde se encontrava o soldado ficava na outra ponta do precipício. Se estivesse desperto, teria uma ampla visão não só do curto trecho de estrada e do rochedo eminente, mas também de toda a face do abismo por baixo dele. Poderia ter uma vertigem ao olhar.


Árvores cobriam a paisagem por toda parte, falhando apenas ao pé do vale, ao norte, onde havia um pequeno descampado; através dele fluía um regato que mal se avistaria da orla do vale. Essa área descoberta pareceria pouco maior que um pátio de entrada comum, mas tinha de fato muitos acres de extensão. Seu verde era mais vivo do que o da floresta circundante. Para além dele erguia-se uma linha de gigantescos despenhadeiros, semelhantes àquele em que nos postamos agora para observar essa cena selvagem, e em meio a eles a estrada, de algum modo, conseguia galgar até o cimo. Com efeito, a configuração do vale era tal que, deste ponto de observação, pareceria inteiramente enclausurado; e se poderia perguntar de que maneira a mesma estrada que levava para fora dele penetrava nele, e de onde vinham e para onde iam as águas do regato que atravessavam a campina a mais de mil pés abaixo.

  
Cenário algum seria tão selvagem e difícil, mas os homens farão dele um teatro de guerra. Ocultos na floresta, ao pé daquela ratoeira militar, onde meia centena de homens guarnecendo as saídas teriam obrigado um exército inteiro a se render por inanição, havia cinco regimentos da Infantaria Federal. Tinham marchado durante todo o dia e durante toda a noite anterior e agora descansavam. Ao cair da noite retornariam à estrada, subiriam até o lugar onde sua sentinela irresponsável estava dormindo e, descendo pelo outro lado, se lançariam sobre o acampamento inimigo por volta da meia-noite. Depunham esperança na surpresa, pois a estrada conduzia à retaguarda do acampamento. Em caso de fracasso, sua posição teria sido perigosa em extremo. E certamente falhariam, se algum acidente ou vigilância notificasse o inimigo a respeito desse movimento.


2


A sentinela adormecida na moita de loureiros era um jovem de Virgínia, chamado Carter Druse. Era filho único de pais ricos e tinha desfrutado das facilidades, do cultivo e do alto padrão de vida que a riqueza e o gosto são capazes de proporcionar na região montanhosa a oeste de Virgínia. Sua casa ficava a poucas milhas do local onde ele estava agora. Certa manhã ele se levantou da mesa, após o café, e disse, em tom compenetrado e grave:


 – Pai, um regimento da União chegou a Grafton. Vou me juntar a ele.

  
O pai ergueu a cabeça leonina, olhou em silêncio para o filho durante um momento e respondeu:
  

– Bem, vá, meu senhor. E, aconteça o que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu dever. A Virgínia, para a qual você é um traidor, deve passar sem você. Se vivermos até o fim da guerra, falaremos mais tarde sobre o assunto. Sua mãe, como o médico informou a você, se encontra numa situação bastante crítica. No máximo, poderá estar entre nós por mais algumas semanas, mas esse tempo é precioso. Seria melhor não perturbá-la.


Então Carter Druse, fazendo uma reverência ao pai, que correspondeu à saudação com uma cortesia altiva em que se ocultava um coração partido, deixou o lar de sua infância para se alistar. Pela consciência e pela coragem, por atos de devoção e de audácia, ele logo se tornou respeitado entre os camaradas e os oficiais. E era a essas qualidades e a certo conhecimento da região que devia agora ter sido selecionado para a presente e perigosa tarefa na posição extrema. Entretanto a fadiga foi mais forte que sua resolução, e ele adormeceu. Que bom ou mau anjo veio num sonho despertá-lo de seu estado criminoso, ninguém saberá. Sem o menor movimento, sem um som, no profundo e lânguido silêncio da tarde, algum mensageiro invisível do destino tocou com o dedo os olhos de sua consciência; sussurrou no ouvido de seu espírito a misteriosa palavra do despertar que nenhum lábio humano jamais pronunciou, nenhuma memória humana jamais recordou. Ele levantou devagar a fronte, que se apoiara no braço, e olhou através da camuflagem dos ramos de loureiro, fechando instintivamente a mão sobre a coronha do rifle.

  
Sua primeira sensação foi a de um extremo deleite artístico. Num portentoso pedestal, o precipício – imóvel na extremidade da rocha superior e nitidamente recortado contra o céu –, via-se uma estátua equestre de impressionante dignidade. A figura do homem completava a figura do cavalo, rígida e marcial, mas com o repouso de um deus grego esculpido no mármore que limita a sugestão de atividade. O traje cinzento se harmonizava com o fundo aéreo; o brilho metálico dos equipamentos e dos jaezes era amenizado e suavizado pela sombra; a pele do animal não tinha pontos de luz excessiva. Uma carabina drasticamente amputada estava presa ao cocuruto da sela, segura em seu lugar pela mão direita que a sustinha pelo gatilho; a mão esquerda, segurando a rédea, estava invisível. Silhuetado contra o céu, o perfil do cavalo se recortava com a nitidez de um camafeu; olhava através das alturas em direção aos precipícios lá adiante. O rosto do cavaleiro, voltado para outra banda, deixava entrever apenas um princípio de têmpora e de barba. Olhava para baixo até o fundo do vale. Aumentado pela sua elevação contra o céu e pela sensação patente, que o soldado experimentou, da grandeza de um inimigo próximo, o grupo pareceria de um tamanho heroico, quase colossal.


 Por um instante Druse teve uma sensação estranha, meio indistinta, de ter dormido até o fim da guerra e de estar olhando para um nobre trabalho de arte erguido sobre aquele píncaro para comemorar os feitos de algum passado heróico do qual ele teria sido um participante inglório. A sensação foi dispersada por um sutil movimento do grupo: o cavalo, sem mover as patas, afastara o corpo ligeiramente da borda, sendo que o homem permaneceu imóvel como antes. Cada vez mais desperto e consciente da situação, Druse apertou a coronha de seu rifle contra o queixo e enfiou com cuidado o cano por entre os arbustos. Armou o cão, olhando através da mira, e visou um ponto vital no peito do cavaleiro. Um toque no gatilho, e tudo estaria bem com Carter Druse. Nesse instante, o cavaleiro voltou a cabeça e os olhos na direção de seu adversário oculto – pareceu fitar mesmo em seu rosto, em seus olhos, em seu coração bravo e apaixonado.

  
Será tão difícil matar um inimigo na guerra – um inimigo que surpreendeu um segredo vital à segurança de alguém e de seus camaradas – um inimigo mais formidável pelo que sabe do que todo um exército por seus números? Carter Druse empalideceu: seus membros tremeram, falharam; e ele viu o grupo escultural à sua frente, como figuras negras que subiam, caíam, oscilavam em arcos de círculos sobre um céu de sonho. Sua mão se afastou da arma, sua cabeça caiu lentamente até que o rosto repousou sobre as folhas em meio às quais ele jazia. A intensidade da emoção quase fez desmaiar esse soldado corajoso e robusto.

  
Não durou muito. No momento seguinte seu rosto se ergueu da terra, suas mãos retornaram ao rifle, seu indicador buscou o gatilho. Mente, coração e olhos estavam limpos, conscientes, e a razão era clara. Não havia esperança de capturar aquele inimigo. Alarmá-lo teria sido apenas remetê-lo de imediato ao acampamento com sua notícia fatal. O dever do soldado era estrito: o homem tinha de ser alvejado por emboscada – sem aviso, sem preparação espiritual, quando muito com uma prece tácita, antes de ser liquidado. Mas não – há uma esperança: ele pode não ter descoberto nada, talvez esteja apenas admirando a sublimidade do cenário. Se permitido, daria meia volta e galoparia descuidado em direção ao lugar de onde viera. Com certeza, será possível julgar, no instante de sua retirada, o quanto saberá. Pode até ser que a fixidez de sua atenção – Druse voltou a cabeça e olhou para as profunduras lá embaixo, como quem olha da superfície para o fundo de um mar translúcido. Viu galgar através da campina verdejante uma linha sinuosa de figuras de homens e de cavalos – algum comandante imbecil estaria permitindo aos soldados de sua escolta dar água aos animais à vista aberta e plena de uma dúzia de picos!

  
Druse desviou os olhos do vale e os fixou outra vez sobre o grupo de homem e cavalo no céu, e outra vez através da mira do rifle. Mas desta vez seu alvo estava no cavalo. Em sua memória, como um mandado divino, soaram as palavras de seu pai quando partiu: “Aconteça o que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu dever.” Estava calmo agora. Seus dentes se fecharam com firmeza, mas não rigidamente. Seus nervos estavam tranquilos como os de um bebê que adormeceu; sequer um tremor agitava um único músculo de seu corpo. Sua respiração, suspensa até então no ato de mirar, tornou-se regular e lenta. O dever prevaleceu. O espírito disse ao corpo: “Paz, fique quieto.” Atirou.


3


Um oficial da Força Federal, o qual, num espírito de aventura ou de busca de conhecimento, tinha deixado o bivaque escondido no vale e, um tanto a esmo, abrira caminho até a extremidade mais baixa de um pequeno espaço aberto ao pé do precipício, considerava o que teria a ganhar se levasse mais longe a exploração. À distância de um quarto de milha em frente, mas aparentemente ao alcance de uma pedrada, elevava-se da franja dos pinheiros a gigantesca face da rocha, atingindo uma altura tal que lhe daria vertigem olhar para cima em direção à linha escarpada e aguda que se recortava contra o céu. Seu perfil se apresentava claro e vertical contra o azul do céu, indo até um ponto mais abaixo, acompanhado das colinas distantes, pouco menos azuis, e daí seguia até os topos das árvores na sua base. Levantando os olhos para a estonteante altitude do cimo, o oficial teve uma visão estarrecedora – um homem montado a cavalo descia para o vale através do ar!

  
O cavaleiro mantinha-se a prumo, bem ao modo militar, sentado firme na sela, segurando com força as rédeas para controlar sua montaria num salto tão impetuoso. De sua cabeça desnuda flutuavam longos cabelos, saindo dela como fumaça. As mãos estavam ocultas pela nuvem da crina levantada. O corpo do animal permanecia nivelado, como se as quatro patas encontrassem o apoio da terra. Seus movimentos eram como os de um galope selvagem, mas cessaram enquanto o oficial olhava, todas as patas lançando-se para a frente, como no ato de pousar após um salto. Mas isso era um voo!
  

Cheio de espanto e terror devido à aparição do cavaleiro no céu – e quase se acreditando já o escriba escolhido de algum novo Apocalipse –, o oficial se viu subjugado pela intensidade de suas emoções. Suas pernas falharam, e ele caiu. Quase no mesmo instante, ouviu o ruído dos galhos se partindo – um som que não produziu eco –, e tudo se aquietou.

  
O oficial se levantou, tremendo. A sensação familiar de uma canela esfolada lhe restituiu a faculdades ofuscadas. Recompondo-se, correu para baixo, afastando-se do sopé do penhasco, para um ponto onde esperava encontrar o homem, o que não adiantou. No instante fugidio de sua visão, sua imaginação fora de tal maneira arrebatada pela graça, facilidade e intencionalidade aparente da maravilhosa performance que não lhe ocorreu que a linha de marcha da cavalgada aérea era diretamente para baixo e que os objetos de sua busca poderiam ser encontrados bem ao pé do penhasco. Meia hora depois ele retornou ao acampamento.

  
Esse oficial era um sábio, que conhecia muito bem a hora de não contar uma verdade incrível. Não disse nada sobre o que vira. Mas, quando o comandante lhe perguntou se, em sua batida, descobrira qualquer coisa de vantajosa para a expedição, respondeu:

  
– Sim, senhor, não existe estrada para este vale a partir do sul.

  
O comandante, que bem sabia, sorriu.


4


Depois de atirar, o soldado Carter Druse recarregou o rifle e retomou a vigilância. Mal se passaram dez minutos, e um sargento dos federais engatinhou com cautela até ele. Druse não se voltou, nem olhou para ele, mas permaneceu imóvel, sem dar sinal de reconhecimento.

  
– Você atirou? – murmurou o sargento.

  
– Sim.

  
– Em quê?

  
– Num cavalo. Estava sobre aquela pedra – bem ali. Mas não está mais lá. Voou para o precipício.

  
A cara do homem estava branca, mas ele não mostrava outros sinais de emoção. Tendo respondido, desviou os olhos e não disse mais nada. O sargento não entendeu.

  
– Olhe aqui, Druse – disse, depois de um silêncio –, é melhor não fazer mistério. Ordeno que dê o relato. Havia alguém sobre o cavalo?

  
– Sim.

  
– Então?

  
– Meu pai.

  
O sargento se levantou e se afastou.

  
– Deus do céu! – disse.

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Nota do editor: este conto está disponível em ePUB, MOBI e PDF em http://freebookseditora.com/index.html . 



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O FANTASMA - Conto Fantástico - Mauren Guedes Müller



O FANTASMA

Por Mauren Guedes Müller



Alberto ouviu a voz grave de seu pai dizer, no tom severo a que se acostumara:

– Levante-se!

Abriu os olhos e sentou-se na cama. Olhou em volta. Não havia ninguém com ele no quarto, o que não era surpresa, já que seu pai não poderia ter-lhe falado. Afinal, estava morto há cinco anos. Mas foi surpresa, ao menos por alguns instantes, a percepção do lugar onde se encontrava. Até que concatenou um pouco as ideias e se lembrou de haver-se hospedado naquele motel barato, embora ainda estivesse confuso e não se lembrasse de por que o fizera.

Alberto se levantou e se vestiu. Sentia muita sede. Foi até o banheiro, onde encontrou um copo, encheu-o na torneira e bebeu de um gole só. Repetiu o procedimento mais três vezes.

Saiu do quarto, trancou-o e passou pela portaria do motel, largando a chave sobre o balcão. O atendente estava ao telefone e não lhe dirigiu a palavra, sequer o olhou. Alberto saiu para a rua e consultou o relógio de pulso. Nove horas.

Fez sinal para um ônibus, mas o ônibus não parou. Devia estar lotado. Então, acenou timidamente para um táxi, mas o táxi também não parou. Não deu importância. Talvez fosse mesmo bom caminhar um pouco. Percorreu a pé todo o percurso até o prédio comercial onde tinha um escritório de advocacia. Quando chegou no prédio, entrou sem cumprimentar o porteiro. Tinha o hábito de fazer assim. Alberto passava a impressão de ser um arrogante, mas, na verdade, não passava de um tímido. Não cumprimentava por vergonha de si mesmo. Chamou o elevador, mas o elevador não veio. Suspirou e dirigiu-se à escada. Subiu os quatro andares, devagar. Começou a sentir fome. Mas não deu importância.

Quando chegou diante de seu escritório, a porta se encontrava fechada, com uma placa de “aluga-se”. Embora já esperasse por algo assim, o desagrado o invadiu e Alberto deixou escapar, muito baixinho, quase para dentro, um palavrão. Fazia meses que não pegava um processo novo e os antigos que tinha não andavam. Consequentemente, não pagava o aluguel. Pegou a chave e tentou metê-la na fechadura. O proprietário, aparentemente, estava mesmo disposto a impedir-lhe a entrada, porque trocara o segredo. Pensou em ir atrás dele, em exigir que observasse os prazos e procedimentos legais, mas a lassidão que o caracterizava o fez desistir. Desceu as escadas, derrotado, e caminhou lentamente para casa.

Ia caminhando pela rua, olhando fixamente para o chão, quando se lembrou do fato de ter ouvido a voz de seu pai, pela manhã. Só então começou a pensar se havia sido mais do que um sonho. Ouvira-a tão nitidamente... Seu pai sempre fora um homem severo. Nunca lhe dera dinheiro. Também nunca deixara que lhe faltasse nada – comida, roupa, estudos. Mas jamais lhe entregara uma nota sequer nas mãos, para que gastasse com o que bem entendesse, como seus amigos faziam. Todas as vezes em que o desobedecera, quando criança e mesmo quando adolescente, seu pai havia tirado o cinto e lhe dado uma surra. Lembrava-se dele com mágoa. Sentira um certo alívio quando ele havia morrido, e, embora se culpasse por isso, não conseguira esconder.

Mas agora tinha certeza de uma coisa: já estava acordado quando ouvira a voz de seu pai, no quarto do motel. Acordado, mas sem ânimo, sem forças para se levantar, apesar da sede. E teria ficado deitado naquela cama, talvez até morrer de inanição, se aquela voz rude não o houvesse sobressaltado a ponto de fazê-lo se levantar.

Então, ergueu a cabeça e olhou em volta. As pessoas não reparavam nele. Ninguém parecia notá-lo. Tornou a baixar os olhos e se encolheu ainda mais. Alberto já era franzino, e costumava adotar uma postura que o tornava ainda menor. Um homem esbarrou de leve nele, e seguiu seu caminho, sem nem ao menos pedir desculpas. Mas uma coisa o incomodou bastante. Foi uma sensação estranha, ao mesmo tempo insólita e assustadora.

Parecera a Alberto que, embora ele tivesse sentido o encontrão do homem, o homem não sentira o raspar de seu corpo...

Alberto chegou em casa e meteu a chave na fechadura. Desta vez, a porta se abriu. Entrou, em silêncio. Foi quando ouviu uma risada alegre, espontânea, livre, acompanhada de algumas palavras. Reconheceu a voz de sua esposa. Estremeceu. Há muitos, muitos anos não a ouvia rir daquela maneira. Esgueirou-se até o quarto. A porta estava entreaberta. Olhou pela fresta e teve um choque.

Sua mulher estava na cama, nua, juntamente com outro homem, um amigo dela.

Alberto recuou, devagar, até a sala, e deixou-se cair no sofá.

De repente, lembrou-se de tudo.

Descobrira a traição. Comprara as pílulas para dormir e alugara o quarto de motel, disposto a...

– Estou morto – murmurou, num fio de voz.

Era por isso que as pessoas pareciam não notá-lo. Não o notavam, mesmo, porque ele não era mais do que um fantasma. Era por isso que o senhorio se apressara em pôr seu escritório para alugar e trocara a fechadura. Era por isso que sua mulher estava na cama, com outro homem, em plena luz do dia...

De repente, ergueu a cabeça e deparou-se com uma figura, em pé. Era seu pai. Quando o viu, sua respiração se trancou por um momento. Seu pai cravou-lhe os olhos, penetrantes, numa expressão de censura que lhe dava a impressão de estar nu diante dele, ou de ter sido surpreendido nalgum ato muito vergonhoso. Alberto sentiu o rubor aquecer-lhe o rosto e baixou os olhos.

– Pai – disse.

– Você, hem? –  respondeu-lhe o velho. – Você só me dá vergonha...

Alberto o espiou, de canto de olho.

– O senhor veio me levar? Para... onde?...

– Não vim levar você para lugar nenhum, Alberto. Só vim tentar fazer com que você recupere um pouco do juízo. Fazer com que você tenha um mínimo de vergonha na cara.

Alberto suspirou profundamente e olhou para o chão.

– Agora, é tarde, pai. Eu já fiz...

– Cale essa boca e olhe para mim, moleque!

Alberto obedeceu.

– Passei toda a vida tentando fazer de você um homem – disse ele. – E, no entanto, o que você se tornou? Um frouxo. Um frouxo que pega a vagabunda da sua mulher com outro e, em vez de aguentar o tranco e de reagir como homem, pega uma cartela de remédios e vai se enfiar num canto, como um rato, para se matar!

Alberto voltou a olhar para o chão.

– Pois é, pai, mas agora...

– Agora? Agora você vai se levantar, vai enfrentar essa vadia e tocá-la para fora de sua casa, ela e o amante! E amanhã, você vai procurar o juiz e dizer que, se ele não der andamento nos seus processos, especialmente naquele que está parado há mais de ano, você vai procurar a Corregedoria!

Alberto sentiu o desespero crescer, uma angústia apertar-lhe o peito.

– Agora é tarde, pai! Eu estou morto! Morto, como o senhor...

– Ora, moleque! – berrou o velho. – Eu até posso estar morto, sim. Mas você, hem? Você acha que está morto? Você não foi homem nem para se matar, Alberto! Você é o que, sem-vergonha ou idiota, mesmo? Achou que ia se matar com menos de meia dúzia daqueles comprimidos para dormir?

Alberto sentiu como se um choque elétrico o atravessasse.

– Como? perguntou, quase sem voz.

– Você tomou muito pouco para morrer, Alberto! Diga-se de passagem, ainda bem. Mas agora, pare de agir como se estivesse morto, e seja um homem de verdade!

O jovem o olhou, estático. Talvez tenha piscado os olhos uma vez ou duas, e foi aí que o fantasma desapareceu.

Alberto podia sentir o próprio coração batendo, com uma fúria desesperada. Suas têmporas latejavam. Mas, ao mesmo tempo, sentia como se seu sangue aquecesse. Sentia-se vivo, sim, mais vivo do que nunca...

Levantou-se, decidido, e abriu a porta do quarto. Sua mulher o olhou e deu um grito. O amante arregalou os olhos, pálido.

– Fora daqui os dois – disse, com voz firme, mas calma.

– Mas, Alberto... – começou a dizer ela.

– Fora daqui – repetiu ele. – Antes que você comece a me falar de seus direitos, fique sabendo que eles serão discutidos em juízo. Conversa eu não quero com você. Tenha um mínimo de decência, pegue suas coisas e vá para a casa de seus pais, agora. E você – voltou-se para o amante dela –, dê o fora de minha casa agora mesmo, ou eu chamo a polícia!

O homem agarrou suas roupas, enfiou as calças e saiu, assustado. A mulher de Alberto se vestiu e começou a fazer sua mala, enquanto ele foi até a sala e deixou-se cair novamente, sobre o sofá, cansado, com o coração ainda mais acelerado e a respiração agitada, mas sentindo-se bem melhor.

No dia seguinte, chegou no prédio do escritório e cumprimentou o porteiro em voz bem alta, de maneira que o homem não teve como ignorá-lo, apesar de surpreso por aquela sua mudança de comportamento. Falou com o senhorio. Exigiu que fosse observado um processo de despejo. Falou com o juiz. Deu andamento em seus processos.

Ao cabo de algum tempo, era outro Alberto. Mais dinâmico, mais autoconfiante, parecia até mais alto. Certo dia, voltando do escritório em seu carro – comprara um carro –, parou diante do cemitério da cidade. Estacionou e desceu. Caminhou por entre os túmulos até se deter diante do jazigo de seu pai. Ficou parado, em silêncio, por longos instantes. Finalmente, tocou a pedra com carinho.

– De seu jeito – murmurou –, o senhor sempre me amou.


E voltou para o carro, sentindo-se em paz consigo mesmo e, finalmente, com o seu passado.
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UMA DESCIDA NO MAELSTRÖM - Conto Fantástico - Edgar Allan Pöe


UMA DESCIDA NO MAELSTRÖM
Por Edgar Allan Pöe
 Tradução de Silveira de Souza


Os caminhos de Deus na Natureza, assim como na ordem da Providência, não são os nossos caminhos; nem são os modelos que estruturamos de modo algum comensuráveis com a imensidão, profundidade e inescrutabilidade de Suas obras, que têm em si um fundo maior que o poço de Demócrito.
— Joseph Glanville



Havíamos atingido agora o cume do rochedo mais elevado. Por alguns minutos o velho demonstrou estar cansado demais para falar.

“Não faz muito tempo”, disse por fim, “eu podia ter guiado o senhor por este caminho tão bem quanto o mais novo de meus filhos; mas, cerca de três anos atrás, aconteceu comigo um fato como nunca ocorreu antes a nenhum ser mortal – pelo menos a alguém que tenha sobrevivido para contá-lo – e as seis horas de implacável terror que enfrentei na ocasião me abalaram o corpo e o espírito. O senhor deve imaginar que eu seja... muito velho – mas não sou. Menos de um dia foi o suficiente para que os meus cabelos mudassem do negro para o branco, as pernas e os braços enfraquecessem e meus nervos se afrouxassem, a tal ponto que fico trêmulo ao menor esforço e assustado só em ver uma sombra. Acredita que mal posso olhar de cima deste pequeno penhasco sem ficar tonto?

O “pequeno penhasco”, à borda do qual ele tão despreocupadamente se jogara para descansar, de um jeito que o corpo, pela sua parte mais pesada, ficava pendente e só não caía devido à sustentação que lhe dava o cotovelo, apoiado com firmeza sobre a aresta extrema e escorregadia da borda – este “pequeno penhasco” elevava-se – verdadeiro precipício de rocha negra e brilhante – cerca de mil e quinhentos ou mil e seiscentos pés sobre um mundo de penhascos abaixo de nós. Nada me teria tentado a ir além de meia dúzia de jardas antes de sua beira. Na verdade, tão perturbado me sentia ante a arriscada posição de meu companheiro, que me deixei cair de comprido sobre o chão, agarrei os arbustos ao meu redor e não ousei nem mesmo olhar para o alto – enquanto lutava em vão para afastar a ideia de que a própria base da montanha estava em perigo com a fúria dos ventos. Foi preciso algum tempo para que eu pudesse voltar a raciocinar e adquirir a coragem suficiente para sentar e olhar os pontos distantes.

“O senhor deve aprender a enfrentar essas dificuldades”, disse o guia, “pois eu o trouxe aqui para que pudesse ter a melhor visão possível do cenário daquele fato que mencionei – e contar-lhe a história toda com o próprio lugar sob a vista.”

“Estamos agora”, continuou, com aquele modo de falar minucioso que o caracterizava – “estamos agora sobre a costa norueguesa – a sessenta e oito graus de latitude – na grande província de Nordland – e no lúgubre distrito de Lofoden. A montanha em cujo cume nos sentamos é Helseggen, a Nublada. Agora levante-se um pouquinho mais – se sentir tontura, agarre-se na grama – assim – e olhe para o mar, para além daquela cinta de vapor abaixo de nós.”

Olhei aturdido, e vi uma larga extensão de oceano, cujas águas exibiam um matiz de tinta tão carregado que me lembrou de imediato a descrição do Mare Tenebrarum, do geógrafo Nubian. A imaginação humana não pode conceber um panorama mais deploravelmente desolado. À direita e à esquerda, tão distantes quanto o olho podia alcançar, estendiam-se, como as muralhas do mundo, as linhas de um rochedo horrivelmente negro e saliente, cujo caráter de melancolia não seria com maior vigor melhor ilustrado senão pela ressaca, que se atirava para o alto contra sua branca e medonha crista, permanentemente uivando e soltando urros estridentes. Bem defronte ao promontório, sobre cujo ápice nos encontrávamos, e numa distância de mais ou menos cinco ou seis milhas ao largo, avistava-se uma ilhota que parecia desértica; ou, melhor dizendo, deduzia-se a sua existência através das vagas em tumulto que a envolviam. Mais próxima da terra cerca de duas milhas, via-se outra de tamanho ainda menor, pavorosamente árida e escarpada, rodeada a intervalos diversos por grupos de rochas negras.

A aparência do oceano, no espaço entre a ilha mais distante e a costa, tinha alguma coisa de insólita. Ainda que, naquele momento, estivesse soprando da terra um vento tão forte que um brigue, a uma enorme distância, mantinha-se à capa, com dois rizes na carangueja, e mergulhava para fora da vista todo seu casco, mesmo assim nada existia ali que se assemelhasse a vagalhões constantes, mas apenas um curto, rápido, furioso arremesso cruzado de águas para todas as direções, – como se, em outras palavras, desafiassem o vento. Havia pouca espuma, exceto na vizinhança imediata das rochas.

“A ilha mais distante”, recomeçou o velho, “é chamada Vurrgh pelos noruegueses. A que fica a meio caminho é Moskoe. Aquela a uma milha para o norte é Ambaaren. Mais além estão Islesen, Hothholm, Keildhelm, Suarven, e Buckholm. Ainda mais longe – entre Moskoe e Vurrgh – estão Otterholm, Flimen, Sandflessen, e Stockholm. Esses são os nomes verdadeiros desses lugares – mas a razão porque se achou necessário dar nomes a eles todos, isto é mais do que o senhor ou eu podemos entender. O senhor ouve alguma coisa? Vê alguma mudança na água?”

Fazia quase dez minutos que estávamos sobre o cume de Helseggen, ao qual havíamos subido vindos do interior de Lofoden, de modo que não havíamos tido nenhum vislumbre do mar, até que ele surgiu de repente ao chegarmos lá em cima. Enquanto o velho falava, tomei consciência de um som ruidoso, forte e gradualmente crescente, como mugidos de uma vasta manada de búfalos numa pradaria da América; e, no mesmo instante, percebi que aquilo que os marinheiros denominam o aspecto encrespado do oceano, lá em baixo estava rapidamente se transformando numa corrente que se dirigia para leste. Mesmo enquanto a olhava, essa corrente adquiria inacreditável velocidade. Cada momento aumentava a impetuosidade das águas – num movimento sempre mais vertiginoso. Em cinco minutos todo o mar, tão longe quanto Vurrgh, era fustigado por fúria ingovernável; mas entre Moskoe e a costa é que o tumulto se tornava dominante. Ali, o vasto leito das águas retalhava-se e cerzia-se em mil sulcos em conflito, explodia de súbito em convulsões frenéticas – arfando, fervendo, sibilando – revoluteava em vórtices gigantescos e inumeráveis, e tudo ia girando e submergindo na direção leste com uma rapidez que nunca se vê nas águas em outros lugares, exceto quando despenham por precipícios.

Alguns minutos depois recaiu sobre a cena uma outra radical transformação. A superfície geral ficou um pouco mais homogênea, e os vórtices, um a um, desapareceram, enquanto enormes faixas de espuma foram surgindo onde nada havia sido visto anteriormente. Essas faixas, por fim, estendendo-se a uma grande distância, e combinando-se uma às outras, acrescentaram a si o movimento giratório dos vórtices submersos, e pareciam formar o gérmen de um outro vórtice mais vasto. Repentinamente – muito repentinamente – este assumiu distinta e definida existência, num círculo de diâmetro maior que uma milha.

O rebordo do redemoinho era representado por um cinturão de espuma luminosa; mas nenhuma partícula deslizava para a boca do espantoso funil, cujo interior, tão longo quanto o olhar podia alcançar, era uma parede de água, jato negro, polido e brilhante, inclinado para o horizonte num ângulo de aproximadamente quarenta e cinco graus, girando e girando numa entontecedora velocidade, em oscilante e opressivo movimento, e que lançava aos ventos uma voz aterradora, meio grito, meio rugido, tal que nem mesmo a poderosa catarata de Niágara, nos seus tormentos, alguma vez lançou aos céus.

A montanha estremecia na própria base e rochedo parecia abalar-se. Atirei-me de rosto sobre o chão e agarrei as escassas ervas num excesso de agitação nervosa.

“Isto”, disse eu finalmente ao velho – “isto não pode ser outra coisa senão o grande redemoinho do Maesltröm.”

“Às vezes é assim denominado”, disse ele. “Nós, os noruegueses, o chamamos Moskoe-ström, por causa da ilha de Moskoe, a meio caminho.”

As narrativas conhecidas a respeito desse vórtice de modo algum prepararam o meu espírito para o que vi. Aquela de Jonas Ramus, que é talvez a mais circunstancial de todas, não oferece a menor noção seja da grandiosidade, seja do horror da cena – ou do violento e perturbador sentido de “algo novo” que confunde o espectador. Não estou certo de que ponto de vista o escritor em questão o abordou, nem em que época; mas não deve ter sido do cume do Helseggen, nem durante uma tempestade. Há certas passagens de sua descrição, não obstante, que podem ser citadas pelos pormenores que apresentam, ainda que de efeito bastante fraco para transmitir uma impressão do espetáculo.

“Entre Lofoden e Moskoe”, diz ele, “a profundidade da água é entre trinta e seis e quarenta braças; mas, do outro lado, na direção de Ver (Vurrgh) essa profundidade decresce de modo a não permitir uma passagem favorável a um navio sem o risco de espatifar-se nas rochas, o que pode acontecer mesmo com o tempo mais calmo.

Quando há maré, a corrente percorre a região entre Lofoden e Moskoe com turbulenta rapidez; mas o fragor de seu impetuoso refluxo para o mar é insuficientemente comparado ao da mais alta e terrível das cataratas. O bramido pode ser ouvido a várias léguas de distância, e os vórtices ou poços possuem tal extensão e profundidade que, se um barco está em seu campo de atração, inevitavelmente é sorvido e atirado para o fundo, fazendo-se em pedaços no embate contra os rochedos; e quando as águas se acalmam, os fragmentos dele são de novo atirados à tona. Entretanto, esses intervalos de tranquilidade acontecem somente entre o fluxo e o refluxo, e em tempo calmo, e não duram mais que um quarto de hora, recomeçando então gradualmente a sua violência. Quando a corrente giratória se torna mais impetuosa, e sua fúria é aumentada por uma tempestade, é perigoso aproximar-se dela a menos de uma milha norueguesa. Barcaças, iates e navios têm sido arrastados por não se haverem precavido contra ela , evitando passar dentro de sua zona de alcance. Acontece com frequência, de modo semelhante, que baleias ficam muito próximas da corrente e são dominadas pela sua força; então, é impossível descrever seus mugidos e bramidos devido aos esforços inúteis que fazem para se libertarem. Certa vez um urso, ao tentar nadar de Lofoden a Moskoe, foi apanhado pela corrente e puxado para o fundo, enquanto ele urrava tão terrivelmente que se podia ouvir da praia. Toras de abetos e pinheiros, de enorme volume, após serem sugadas pela corrente, retornam à superfície de tal modo quebradas e despedaçadas, que se diria haver nascido cerdas sobre elas. Isso vem mostrar claramente que o fundo do abismo consiste de rochas pontiagudas, de encontro as quais as toras são atiradas num giro aleatório. Tal corrente é regulada pelo fluxo e refluxo do mar – que se alternam a cada seis horas. No ano de 1645, na manhã do domingo da Sexagésima, ela se enfureceu com tamanho estrondo e impetuosidade que mesmo as pedras das casas, na costa, vieram abaixo.”

Quanto à profundidade das águas, eu não via como ela poderia ser determinada com certeza na imediata vizinhança do vórtice. As “quarenta braças” devem referir-se somente às partes do canal próximas da costa ou de Moskoe ou de Lofoden. A profundidade no centro do Moskoe-ström deve ser incomensuravelmente maior, e não existe melhor prova desse fato do que a obtida só em olhar, mesmo de esguelha, sobre o abismo do vórtice que se vislumbra do ponto mais alto do rochedo de Helseggen. Olhando desse pico lá para baixo, por cima do uivante Phlegethon, não pude reter um sorriso ante a singeleza com que o honesto Jonas Ramus registra, como casos difíceis de acreditar, as anedotas de baleias e de ursos, pois sem dúvida me pareceu uma coisa evidente por si mesma que o maior navio de linha que possa existir, ao cair sob a influência daquela atração letal, podia resistir-lhe tão pouco quanto uma pena a um furacão, e devia desaparecer súbita e completamente.

As tentativas de explicação do fenômeno – algumas das quais, recordo, pareceram-me suficientemente plausíveis à leitura – agora assumiam um aspecto muito diferente e insatisfatório. A ideia geralmente acolhida é que este, assim como três vórtices menores entre as ilhas Ferroe, “não têm outra causa senão a colisão de vagas que se levantam e caem, no fluxo e no refluxo, contra uma cadeia de rochedos e bancos de rocha que confinam as águas, pressionando-as de tal modo que elas se precipitam como uma catarata; e assim, quanto mais alto se levanta a torrente, mais profunda deve ser a queda, e o resultado natural disso tudo é um redemoinho ou vórtice, cuja prodigiosa força de sucção é suficientemente conhecida por exemplos menores.” É o que diz a Enciclopédia Britânica. Kircher e outros supõem que no centro do canal do Maelström há um abismo que atravessa o globo e vai sair em alguma parte muito remota – tendo sido o Golfo de Botnia nomeado certa vez um tanto arbitrariamente. Essa opinião, por si mesma trivial, era a que, enquanto eu olhava, minha imaginação mais prontamente aceitou; e, ao mencioná-la para o guia, fiquei surpreso ao ouvi-lo dizer que, conquanto fosse essa a opinião quase universalmente aceita pelos noruegueses sobre tal assunto, contudo não era a dele próprio. Quanto à primeira opinião, confessou sua incapacidade para compreendê-la; e aqui devo concordar com ele – pois, ainda que concludente no papel, ela se torna inteiramente ininteligível, e mesmo absurda, ante os estrondos do abismo.

“O senhor deu agora uma boa olhada no redemoinho”, disse o velho, “e se o senhor quiser arrastar-se em torno desta rocha, de modo a abrigar-se do vento e amortecer o ruído das águas, poderei contar-lhe uma história que o convencerá de que devo conhecer algo do Moskoe-ström.”

Coloquei-me no local desejado por ele, e o velho prosseguiu:

“Eu e meus dois irmãos certa vez possuímos uma sumaca, aparelhada em escuna, de cerca de 70 toneladas, com a qual tínhamos o hábito de pescar entre as ilhas além de Moskoe, perto de Vurrgh. Todos os remoinhos violentos do mar oferecem boa pesca, em ocasiões favoráveis, bastando para isso somente a coragem para a tentativa; mas entre todos os homens da costa de Lofoden, nós três éramos os únicos, como lhe disse, que fazíamos o trabalho regular de ir até as ilhas. Os locais usuais de pesca ficam a uma grande distância mais abaixo, na direção sul. Lá o peixe pode ser colhido a qualquer hora, sem muito risco, e por isso tais locais são os preferidos. No entanto, pontos especiais aqui para cima entre as rochas não apenas oferecem as variedades mais raras, como em quantidade bem maior; de modo que muitas vezes, num único dia, nós apanhávamos o que os mais tímidos no ofício não apanhariam juntos numa semana. Na verdade, fazíamos disso um assunto de especulação desesperada: – o risco de vida sobrepujando o trabalho, e a coragem respondendo pelo capital.

Abrigávamos a sumaca numa enseada cerca de cinco milhas mais ao norte da costa, em relação a esta; e era uma prática nossa, quando fazia bom tempo, tirar vantagem dos quinze minutos de calma para aventurarmo-nos através do canal principal do Moskoe-ström, bem acima da cavidade, e então fundear em algum lugar próximo de Otterholm, ou Sandflesen, onde os remoinhos não são tão violentos como em outros lugares. Permanecíamos ali mais ou menos o tempo entre uma calmaria e outra, quando então levantávamos âncora e retornávamos. Nunca iniciávamos essa expedição sem que houvesse vento firme para ir e voltar – um vento do qual nos sentíssemos seguros de que não mudaria antes do nosso retorno – e sobre este ponto raramente nos enganávamos. Duas vezes, durante seis anos, fomos obrigados a passar a noite inteira ancorados devido a uma longa calmaria, que era de fato uma coisa rara naquelas imediações; e uma vez tivemos de ficar ali fundeados aproximadamente uma semana, morrendo de fome, pois uma rajada nos surpreendeu pouco depois que chegamos, fazendo o canal tormentoso demais para se pensar em atravessá-lo. Nessa ocasião teríamos sido impelidos mar afora a despeito de tudo (pois a força dos remoinhos nos projetava em círculos tão violentamente que, por fim, tivemos de enredar nossa âncora e arrastá-la), se não tivesse acontecido de cairmos numa dessas inumeráveis correntes cruzadas que – hoje aqui, amanhã ali – nos conduziu a sotavento de Flimen, onde, por sorte, conseguimos fundear.

Não poderia contar-lhe a vigésima parte das dificuldades que encontramos “nos pesqueiros” – que eram locais perigosos para se ficar, mesmo quando fazia bom tempo – mas sempre conseguíamos driblar as garras do próprio Moskoe-ström sem acidentes, embora às vezes o meu coração viesse à boca quando acontecia de estarmos um minuto adiantado ou atrasado em relação à maré. Às vezes o vento não era tão forte como imaginávamos de início, e então fazíamos um percurso menor que o desejado, enquanto a corrente tornava a sumaca ingovernável. Meu irmão mais velho tinha um filho de dezoito anos, e eu tinha dois filhos robustos. Eles teriam sido de grande utilidade nessas saídas, tanto para o uso dos remos, como pescando à popa – mas, seja como for, ainda que nós próprios corrêssemos os riscos, não tínhamos coragem para permitir que os jovens passassem por tais perigos – porque, a despeito de tudo que se pudesse dizer ou fazer, era um horrível perigo, e essa é a verdade.

Dentro de poucos dias vai fazer três anos que ocorreu o fato que estou começando a contar-lhe. Foi no décimo dia de julho de 18..., um dia que o povo desta parte do mundo nunca vai esquecer – pois foi quando soprou o mais terrível furacão já vindo dos céus. E, no entanto, durante toda a manhã, e na verdade até à tardinha, havia uma brisa constante e leve do sudoeste, enquanto o sol brilhava firme, de modo que os homens do mar mais experimentados dentre nós não podiam prever o que se seguiu.

Os três – meus dois irmãos e eu – cruzamos na direção das ilhas por volta das duas horas da tarde, e logo quase abarrotamos a sumaca com os melhores peixes, os quais, observamos, vieram naquele dia em quantidade nunca vista antes. Exatamente às sete horas – pelo meu relógio – levantamos âncora e iniciamos o retorno para casa, no intento de atravessar a pior parte do Ström com a maré calma, que, sabíamos, poderia ser feita até às oito horas.

Partimos com vento novo, no quarto de estibordo, e durante algum tempo seguimos com boa velocidade, sem imaginar qualquer perigo, pois na verdade não víamos razão alguma para apreensões. Mas de súbito fomos surpreendidos por uma brisa vinda de Helseggen. Isso era extremamente raro – algo que nunca antes nos sucedera – e comecei a sentir-me um tanto inquieto sem saber exatamente porquê. Pusemos o barco a favor do vento mas não pudemos avançar por causa dos remoinhos, e eu já estava a ponto de propor retornarmos ao ancoradouro quando, olhando para trás, vimos o horizonte inteiro encoberto por uma estranha nuvem cor de cobre, que se alçava com a mais espantosa velocidade.

Nesse meio tempo a brisa que nos interceptara caiu, ficamos em completa calmaria, o barco à deriva, girando para todas as direções. Tal estado de coisas, contudo, não demorou o suficiente para nos dar tempo de pensar sobre ele. Em menos de um minuto a tempestade desabava sobre nós – em menos de dois, o céu se achava inteiramente toldado – além dessas coisas e mais o borrifar de espumas pelo vento, tudo ficou subitamente tão escuro que não podíamos ver um ao outro na sumaca.

Quando sobrevêm tais furações é loucura tentar descrevê-los. O mais velho marujo na Noruega nunca experimentou algo semelhante. Havíamo-nos desfeito das velas antes de sermos atingidos pela ventania; mas, à primeira lufada, nossos dois mastros saltaram pela borda como se tivessem sido serrados – e o mastro principal levou consigo o meu irmão mais novo, que se amarrara nele por segurança.

Nosso barco era uma pluma mais leve que qualquer outra coisa que alguma vez já balançou sobre o mar. O convés, inteiramente plano, tinha apenas uma pequena escotilha perto da proa, e era sempre costume nosso trancar essa escotilha quando estávamos nas imediações do Ström, por precaução contra a fúria do mar. Contudo, nas circunstâncias atuais, teríamos afundado de imediato – porque, por alguns instantes, ficamos totalmente enterrados sob as águas. Como meu irmão mais velho escapou à destruição eu não sei dizer, pois nunca mais tive uma oportunidade para verificar esse fato. Da minha parte, assim que cortei o traquete, lancei-me de comprido no convés, com os pés pressionando a estreita amurada da proa, e as mãos agarrando firme o anel de ferro de uma cavilha próxima do pé do mastro dianteiro. Foi unicamente o instinto que me levou a fazer isso – sem dúvida a melhor coisa que poderia ter feito – pois eu estava por demais atordoado para pensar.

Por alguns momentos ficamos completamente submersos, como falei, e durante esse tempo prendi o fôlego, agarrado à cavilha.

Quando não podia mais suster a respiração, apoiava-me sobre os joelhos, ainda com as mãos seguras, e assim podia levantar a cabeça. Nesse instante nossa pequena embarcação deu rápidas sacudidelas, assim como faz um cachorro quando sai da água, e dessa forma, em certa medida, pôde erguer-se acima dos mares. Eu agora buscava vencer o estado de depressão que me dominara e recobrar a presença de espírito necessária para saber o que fazer, quando senti alguém segurar com força o meu braço. Era o meu irmão mais velho, e meu coração pulsou mais forte de alegria, pois eu estava certo que ele havia caído do barco – no entanto, logo em seguida, a alegria se transformou em puro horror, porque ele aproximou a boca de minha orelha e gritou a palavra “Moskoe-ström!

Ninguém saberá dos meus sentimentos naquele momento. Tremia da cabeça aos pés como se acometido da mais violenta convulsão febril. Eu sabia suficientemente bem o que ele queria dizer com aquela única palavra – sabia o que desejava fazer-me entender.

Com o vento que agora nos dirigia, estávamos presos à força do torvelinho do Ström, e nada poderia salvar-nos!

O senhor deve ter percebido que ao atravessar o canal do Ström, seguíamos sempre um longo caminho acima do torvelinho, mesmo no tempo mais calmo, e então esperávamos e, com cuidado, ficávamos à espreita do repouso da maré. – Mas agora estávamos sendo arrastados para o próprio remoinho, e sob um furação como aquele! “Com certeza”, pensei, “chegaremos ali no exato momento do repouso – há ainda uma diminuta esperança nisso” – no momento seguinte, porém, amaldiçoei a mim mesmo pelo fato de pensar semelhante tolice e sonhar com uma esperança impossível. Sabia muito bem que estávamos condenados, mesmo que estivéssemos num navio de novecentos canhões.

Nesse tempo o primeiro ímpeto da tempestade havia passado, ou talvez não o tivéssemos sentido muito, pois corríamos a favor do vento, mas, de qualquer modo, as águas do mar que à princípio se mantiveram baixas pelo vento, e permanciam planas e espumosas, levantavam-se agora como montanhas. Singular transformação, também, afetava os céus. Em todas as direções, ao redor, estava ainda escuro como breu, mas aproximadamente acima de nossas cabeças, de repente, abriu-se uma fenda circular de claro céu – tão claro como nunca o vi assim, de um profundo azul brilhante – e através dele resplandecia a lua cheia com um fulgor tal que nunca antes eu imaginara que aquele astro pudesse ter. Iluminava tudo a nossa volta com a maior nitidez – no entanto, ó Deus, que espetáculo estava ela a iluminar!

Tentei em seguida por uma ou duas vezes falar com meu irmão – mas, não sei como, o barulho aumentara tanto que não consegui fazê-lo entender uma única palavra, mesmo gritando o mais alto possível em seu ouvido. Pouco depois, ele sacudiu a cabeça, voltando para mim um rosto pálido como a morte, e ergueu um de seus dedos, como se quisesse dizer: escuta!.

Não pude entender a princípio o significado daquilo – mas em breve fui tomado por um horrendo pensamento. Puxei o relógio da algibeira. Estava parado. Examinei o seu mostrador à luz da lua e então rebentei em lágrimas enquanto atirava o relógio para longe sobre o mar. Ele havia parado às sete horas! Deixáramos passar o tempo de repouso da maré e o remoinho do Ström estava no auge da fúria!

Quando um barco é bem construído, convenientemente equipado e sem excessiva carga, as ondas sob forte ventania, se o barco navega ao largo, parecem sempre deslizar por debaixo dele – o que aparenta muito estranho para alguém em terra – e isso é o que se chama flutuar, na linguagem de bordo. Pois bem, até então havíamos flutuado com habilidade; mas logo depois uma onda gigantesca apanhou-nos em sentido contrário, e levou-nos com ela enquanto levantava – para o alto – para o alto – como para o céu. Nunca teria acreditado que qualquer onda pudesse erguer-se tão alto. Em seguida começamos a descer numa varredura curva, deslizando e mergulhando, o que me fez sentir nauseado e tonto, como se estivesse despencando, num sonho, do cume de uma montanha. Mas enquanto estivemos no alto da onda, olhei em volta de relance – e essa única e rápida visão foi totalmente suficiente. Vi a nossa exata posição naquele instante. O vórtice do Moskoe-Ström estava a um quarto de milha a nossa frente – mas não mais semelhante ao Moskoe-ström de todos os dias; o turbilhão que você via agora era como uma levada de moinho. Se eu não tivesse certeza de onde estávamos, e o que nos esperava, não teria reconhecido aquele local. Ao vê-lo, fechei horrorizado e involuntariamente os olhos. Colavam-se as pálpebras como num espasmo.

Não havia ainda passado dois minutos até sentirmos, de repente, que as ondas baixavam e estávamos envoltos em espuma. O barco dera violenta meia volta para bombordo, e então precipitara-se como um raio para a nova direção. Nesse instante o ruidoso estrépito das águas foi completamente abafado por um guinchar estridente – um som que você poderia imaginar dado pelas válvulas de muitos milhares de navios, que deixassem escapar ao mesmo tempo seu vapor. Estávamos agora no cinturão de corrente que circula sempre o vórtice; e eu naturalmente pensava que a qualquer momento ele iria nos atirar ao fundo abismo - o qual podíamos apenas vislumbrar em virtude da espantosa velocidade com que éramos projetados. O barco não parecia de fato afundar na água, mas deslizar como uma bolha de ar sobre a superfície. Seu lado de estibordo voltado para o turbilhão, e à bombordo levantava-se o mundo do oceano que havíamos deixado. Erguia-se como uma gigantesca parede retorcida entre o horizonte e nós.

Pode parecer estranho, mas agora, quando estávamos justamente nas mandíbulas do abismo, sentia-me menos agitado do que quando estávamos somente nas proximidades. Entranhada na mente a falta de esperança, livrei-me em grande parte do terror que de início me abatia. Suponho ter sido o desespero que deixara os meus nervos tensos.

Pode ser tomado por bravata – mas o que digo ao senhor é verdadeiro – comecei a refletir sobre a coisa grandiosa que seria morrer em tais circunstâncias, e quanta tolice existira da minha parte em atribuir tamanha consideração a algo insignificante como minha existência individual, diante daquela maravilhosa manifestação do poder de Deus. Devo admitir haver corado de vergonha quando tal ideia atravessou o meu espírito. Após alguns momentos apossou-se de mim a mais aguda curiosidade relacionada com o próprio vórtice. Sentia explicitamente um desejo de explorar suas profundezas, mesmo tendo certeza do custo desse sacrifício; e o pesar que mais me atribulava era o de nunca poder contar aos velhos companheiros em terra sobre os mistérios que iria ver. Essas, sem dúvida, eram fantasias singulares para ocupar a mente de um homem em situação de tal extremidade – e desde então muitas vezes tenho pensado que as revoluções do barco em torno do abismo devem me ter deixado um tanto zonzo.

Houve outra circunstância que facilitou o restabelecimento de meu autocontrole: foi o cessar do vento, que não nos podia alcançar na presente situação – pois, como o senhor pode ver por si mesmo, o cinturão de corrente é consideravelmente mais baixo que o nível geral do oceano, e esse de que falo agora erguia-se como uma torre acima de nós, um negro, alto, montanhoso espinhaço. Se o senhor nunca esteve no mar por ocasião de uma forte tempestade, não pode formar uma ideia da confusão da mente ocasionada pela ação conjunta do vento e de jatos de espuma. Eles cegam, ensurdecem, e asfixiam você, e anulam toda capacidade de ação e reflexão. Mas, em grande medida, estávamos livres agora desses incômodos – assim como a criminosos condenados à morte numa prisão são permitidas pequenas indulgências, recusadas a eles enquanto a condição é ainda incerta.

Quantas vezes fizemos o circuito em volta do cinturão é impossível dizer. Giramos e giramos por talvez uma hora, voando antes que flutuando, penetrando gradualmente mais e mais o centro do remoinho, e ficando sempre mais próximo e mais próximo de sua terrível borda interior. Durante todo esse tempo nunca deixei de segurar com firmeza a cavilha de ferro. Meu irmão estava na popa, agarrado a uma pequena barrica vazia que, com toda certeza, havia sido fortemente amarrada a um gradeado na curva de ré, e era a única coisa de bordo que não fora varrida para o mar quando, logo na primeira investida, a tempestade se abateu sobre nós. Ao chegarmos na proximidade da orla do abismo, ele se desprendeu da barrica e veio na direção da cavilha, da qual, na agonia de seu terror, tentou afastar as minhas mãos, como se o anel de ferro não fosse largo o suficiente para permitir que ambos nos agarrássemos com segurança. Nunca senti desgosto mais profundo do que quando o vi praticar tal ação – ainda que soubesse que ele estava louco quando fez aquilo – um louco delirante cheio de pavor. Não me preocupei, contudo, em disputar o lugar com ele. Fosse ele ou eu quem agarrava o anel de ferro, eu sabia não fazer nenhuma diferença; assim, deixei-o onde estava e fui para a popa agarrar-me ao barril. Não houve grande dificuldade nisso, pois a sumaca circulava de modo bastante regular e sobre uma quilha nivelada – apenas balançando para lá e para cá entre as imensas convulsões e efervescências do vórtice. Mal me firmara na nova posição, quando sentimos uma formidável guinada para boreste, e despenhamos a prumo no abismo. Murmurei uma prece rápida a Deus, e pensei que tudo havia acabado.

Enquanto sentia a nauseante vertigem da descida, instintivamente me agarrei com mais força ao barril, e fechei os olhos.

Por alguns segundos não ousei abri-los – enquanto esperava a destruição instantânea e conjeturava por que não estava já em luta mortal com as águas. Porém, decorreram instante após instante e eu continuava vivo. A sensação de queda cessara; e o movimento do barco mais se parecia como havia sido antes, quando circulávamos no cinturão de espumas, exceto que agora dava a impressão de navegar em linha reta. Enchi-me de coragem e olhei uma vez mais para o espetáculo.

Não vou esquecer nunca as sensações de medo, horror, e admiração pelo que pude olhar a minha volta. O barco parecia estar suspenso, como por mágica, a meio caminho para baixo, na superfície interior de um funil de enorme circunferência, prodigioso em profundidade, e cujos lados perfeitamente brunidos poderiam dar a ilusão de ébano, não fosse a estonteante rapidez de seu giro, e o vislumbre e pálida radiância que, como os raios da lua cheia, eram emitidos daquela fenda circular entre nuvens, da qual já falei, e que se espraiavam num fluxo de áurea beleza ao longo das paredes negras, e iam desfalecer lá longe, embaixo, no desvão mais íntimo do abismo.

De início estava muito confuso para observar qualquer coisa com exatidão. Tudo o que eu podia ver era a geral explosão de terrificante esplendor. Quando me recuperei um pouco, no entanto, meu olhar dirigiu-se instintivamente para baixo. Nessa direção eu conseguia obter um raio de visão desimpedido da maneira como a sumaca assemelhava pendurar-se na superfície inclinada do poço. A quilha permanecia completamente nivelada – ou seja, o convés do barco se achava em plano paralelo com o plano da água – mas este último inclinava-se num ângulo maior que quarenta e cinco graus, de modo que parecíamos navegar pendendo sobre um dos bordos Não pude deixar de observar, apesar disso, que não tinha maior dificuldade de agarrar ou ficar de pé nessa situação do que se tivesse num plano horizontal; e isso, suponho, se devia à velocidade com que circulávamos.

Os raios da lua pareciam buscar a base mesma do profundo abismo; mas eu nada podia ver distintamente, por causa de um denso nevoeiro que envolvia tudo, e sobre o qual pairava um magnífico arco-íris, como aquela estreita e vacilante ponte que os muçulmanos dizem ser a única senda entre o Tempo e a Eternidade. Esse nevoeiro, ou poeira de espuma, era sem dúvida ocasionado pela colisão estrepitosa das grandes paredes do funil, ao se encontrarem todas lá em baixo – mas não ousarei tentar descrever o estrondo que subia aos céus, vindo dali.

Nosso primeiro deslizamento para o abismo propriamente dito, vindos do cinturão de espuma acima, havia nos conduzido a uma grande distância para baixo na vertente; mas a descida ulterior não teve absolutamente a mesma proporção. Varrendo em círculos – com movimento não-uniforme – mas em estonteantes oscilações e sacudidelas, que às vezes nos enviavam somente a umas poucas centenas de jardas - e de outras vezes faziam-nos correr quase que o circuito completo do vórtice. A cada revolução, o avanço que fazíamos para baixo era vagaroso, mas bastante sensível.

Olhando em torno sobre o vasto deserto líquido de ébano na superfície do qual éramos transportados, percebi que a nossa embarcação não era o único objeto no abraço do vórtice. Tanto acima como abaixo de nós eram visíveis fragmentos de navios, volumosos blocos de traves e troncos de árvores, com muitos objetos bem menores, tais como peças de mobiliário, caixotes quebrados, barris e aduelas. Já descrevi a curiosidade não-natural que substituíra os meus primitivos terrores. Esta parecia aumentar à medida em que me aproximava mais e mais de meu horrível destino. Agora comecei a espiar, com um estranho interesse, as inumeráveis coisas que flutuavam em nossa companhia. Devia estar delirando – pois encontrava mesmo motivo de divertimento especular sobre as velocidades relativas dessas coisas em suas várias descidas na direção da espuma lá embaixo. “Este abeto”, lembro ter dito a mim mesmo certa ocasião, “será com certeza a próxima coisa a dar o terrificante mergulho e desaparecer” – e ficava desapontado ao verificar que os destroços de um navio mercante holandês ultrapassava-o e afundavam antes. Por fim, após diversas estimativas dessa natureza, e ficando decepcionado em todas – esse fato – o fato dos invariáveis erros de cálculo – levou-me a um conjunto de reflexões que fizeram minhas pernas tremerem de novo e meu coração bater pesadamente uma vez mais.

Não era um novo terror que me afetava dessa forma, mas o despontar mais excitante de uma esperança. Tal esperança surgiu parcialmente da memória, e parcialmente da observação atual. Lembrei-me da grande variedade de coisas espalhadas pela costa de Lofoden, que tinham sido absorvidas e depois atiradas de volta pelo Moskoe-ström. Sem a menor dúvida, a maioria dos objetos havia sido despedaçada da maneira mais extraordinária – tão esfolados e encarquilhados eram eles que pareciam estar cheios de pontas e lascas – mas então, distintamente, recordei que havia alguns que não se mostravam em absoluto desfigurados. Ora, eu não podia explicar tal diferença, a não ser pela suposição de que os fragmentos esmagados eram os únicos que tinham sido completamente absorvidos – que os outros haviam entrado no vórtice num período mais tardio da maré, ou, por alguma razão, haviam descido tão lentamente depois de entrarem, que não alcançaram o fundo antes do regresso do fluxo, ou do refluxo, conforme o caso. Imaginei a possibilidade, nas duas situações, que eles de novo, em giros, tivessem sido arremessados para cima, à superfície do oceano, sem sofrer o destino daqueles que afundaram mais cedo, ou foram absorvidos com maior rapidez.

Fiz, também, três importantes observações. A primeira foi que, em regra geral, quanto maiores os corpos, mais rápida era a descida; a segunda, que entre duas massas de igual extensão, uma esférica, e a outra de qualquer outra forma, a superioridade na velocidade da descida ficava com a esférica; a terceira, que entre duas massas de igual tamanho, uma cilíndrica, e a outra de qualquer outra forma, a cilíndrica era absorvida mais lentamente. Desde que escapei, mantive várias conversas a respeito desse assunto com um velho mestre-escola do distrito; e foi com ele que aprendi o significado das palavras “cilindro” e “esfera”. Ele me explicou – embora eu tenha esquecido a explanação – como aquilo que eu observara era, de fato, consequência natural das formas dos fragmentos flutuantes – e mostrou-me porque acontecia que um cilindro, flutuando num remoinho, oferecia maior resistência à sucção, e era arrastado com maior dificuldade do que um corpo igualmente volumoso, mas de outra forma qualquer[1].

Havia uma circunstância surpreendente que ofereceu grande reforço a essas observações, tornando-me ansioso para conhecer-lhe a razão, e era que, a cada revolução, passávamos por algo semelhante a um barril, ou mesmo uma verga ou o mastro de um navio, enquanto muitas outras coisas, que estavam no nosso nível quando abri pela primeira vez os olhos para ver os prodígios do vórtice, agora estavam acima de nós, e pareciam haver-se movido muito pouco da sua posição original.

Não hesitei por mais tempo sobre o que fazer. Decidi amarrar-me com firmeza ao barril de água sobre o qual eu me agarrava, cortar o cabo que o prendia à quilha, e atirar-me com ele no mar. Tentei atrair a atenção de meu irmão por sinais, apontei para o barril que vinha flutuando próximo de nós, e fiz o que estava em meu poder para que ele entendesse o que eu pretendia realizar. Imaginei finalmente que ele havia compreendido o meu plano – mas, se foi este o caso ou não, ele sacudiu a cabeça desesperadamente, e recusou mover-se da sua posição junto à cavilha de ferro. Era impossível alcançá-lo; a situação de emergência não admitia atraso; e assim, num esforço doloroso, resignei-me deixá-lo ao seu destino, amarrei-me ao barril com as cordas que o prendiam à quilha, e precipitei-me com ele para o mar, sem outro momento de hesitação.

O resultado foi precisamente o que eu esperava que fosse... Como eu mesmo é quem agora conto essa história ao senhor – o senhor pode ver que de fato escapei – e como o senhor já tem conhecimento da maneira como tal fuga foi efetivada, e deve, portanto, saber por antecipação tudo o que direi em seguida – vou levar a narrativa rapidamente à conclusão. Transcorrera aproximadamente uma hora, após haver abandonado a sumaca, quando esta, tendo descido uma grande distância abaixo de mim, deu três ou quatro violentos giros em rápida sucessão, e, carregando com ela meu querido irmão, afundou verticalmente, de uma só vez e para sempre, no caos de espuma lá em baixo. O barril ao qual eu estava amarrado afundara muito pouco, mais ou menos a metade da distância entre o fundo do vórtice e o ponto do qual saltei de bordo, antes de acontecer a grande mudança que se deu no caráter do turbilhão. A inclinação dos lados do imenso funil foi se tornando a cada momento menos íngreme. Os giros do remoinho eram gradualmente menos violentos. Aos poucos, a espuma e o arco-íris desapareceram, e o fundo do abismo parecia elevar-se lentamente. O céu estava claro, os ventos amainaram, e a lua cheia mostrava-se resplandecente a oeste, quando me encontrei na superfície do oceano, à plena vista das praias de Lofoden, e por cima do lugar onde estivera o abismo do Moskoe-ström. Era a hora da calmaria – mas o mar se elevava com ondas gigantescas, ainda sob os efeitos deixados pelo furacão. Fui sendo carregado violentamente para o canal do Ström e, em poucos minutos, precipitado costa abaixo até os “pesqueiros” dos pescadores. Um bote me recolheu – esgotado de fadiga – e (agora que o perigo já passara) sem palavras ante a lembrança do horror vivido. Os que me puxaram para bordo eram velhos camaradas e companheiros diários – mas não me conheceram melhor do que conheceriam um viajante do mundo dos espíritos. O meu cabelo, que tinha sido negro como um corvo no dia anterior, estava tão branco como o senhor o vê agora. Disseram também que a expressão de meu rosto havia mudado. Contei-lhes minha história – não acreditaram nela. Conto-a agora ao senhor – e mal posso esperar que o senhor ponha nela um crédito maior que os pescadores folgazões de Lofoden.








[1] Archimedes, De incidentibus in fluido. (Nota do autor.)

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