A EXECUÇÃO DE DAMIENS - Narrativa Histórica Cruel - Adrien-Hippolyte-Augustin Thoisnier-Desplaces



A EXECUÇÃO DE DAMIENS
Adrien-Hippolyte-Augustin Thoisnier-Desplaces, ed.
(1798-1878)


No dia 5 de janeiro de 1757, às seis horas da tarde, Luís XV ia entrar na carruagem para regressar de Versailles ao Trianon, quando um homem, rompendo a ala dos guardas do corpo e dos Cem Suíços, e empurrando o duque de Ayen e o Delfim, chegou-se ao rei e deu-lhe uma canivetada no lado direito.

— Deram-me um terrível murro — gritou Luís XV.

Depois, passando a mão por debaixo do colete e, tirando-a ensanguentada, acrescentou:

 — Estou ferido.

Virou-se imediatamente e viu perto de si um homem que se conservava imóvel e com o chapéu na cabeça.

— Foi este o homem que me feriu. Prendam-no, mas não lhe façam mal.

A folha do canivete não tinha penetrado além da carne e reconheceu-se que o rei não corria o menor perigo.

O criminoso, que foi preso imediatamente, chamava-se Robert-François Damiens. Era natural da diocese de Arras e de baixa condição. Nascido com inclinações viciosas que lhe valeram, desde a infância, a alcunha de Roberto Diabo, tinha passado uma existência escura e miserável, desonrada por roubos e outras ações vergonhosas. Expelido de diversas casas por bêbado e ladrão, de gênio arrogante e rixoso, vegetava sem emprego e, no momento em que tentou contra a vida do monarca, o seu único meio de existência era uma soma bastante considerável, que roubara do último amo a quem servira. Cometendo um crime político, parecia que um tal homem deveria ser um instrumento, um agente. Algumas palavras que lhe escaparam, algumas declarações que fez nos primeiros momentos, fizeram pensar, com efeito, que tinha cúmplices. Mas os interrogatórios e o resultado definitivo do processo mostraram que tinha sido o único a meditar e executar o atentado. Não se pôde mesmo verificar se foi a influência dos sentimentos políticos que lhe armaram o braço, nem o partido a que quis servir ou vingar. Nas suas respostas e em uma carta que escreveu ao rei, na qual se mostra inteiramente preocupado por questões políticas, parece ora ligado à causa do clero, ora aos interesses do parlamento. O atentado de Damiens não foi, pois, direta ou indiretamente, o crime de um partido. Foi unicamente, como há numerosos exemplos na história, o crime de um homem cuja cabeça fora escandecida pelos clamores que se ouviam em todas as partes e pelo contato do descontentamento geral. O seu espírito, contínua e e fortemente aplicado a essas matérias irritantes e confusas, exaltou-se a ponto de conceber a ideia de um grande atentado. Damiens, por sua organização física, era particularmente próprio para receber essas disposições fatais, para nutri-las e desenvolvê-las por meio da meditação e para cair, aprofundando-as, em uma espécie de loucura. Era de caráter sombrio, ardente, audaz, de tal modo — diz Voltaire — que seu gênio se assemelhara sempre à demência. E, depois, a sua condição miserável tinha dado entrada em seu coração a um ódio profundo contra a sociedade. Algumas vezes, o sangue afluía-lhe ao cérebro e lançava-o a acessos de frenesi, e, então, era obrigado a recorrer a sangrias largas para acalmar os sentidos e recobrar o uso da razão. Na véspera do mesmo dia em que cometeu o crime, pediu várias vezes a um médico que o sangrasse e, no interrogatório, declarou estar convencido de que não se teria tornado regicida se lhe houvessem tirado algum sangue. Declarou mais que a sua intenção não fora de matar o rei, que quisera apenas feri-lo para que, tocado por este anúncio, pusesse todas as coisas no seu lugar e restabelecesse a tranquilidade nos seus estados. Esta declaração — que se pode, por muitas circunstâncias, julgar verídica — é um indício do desarranjo das faculdades mentais deste infeliz, que de há muito era atormentado pelo pensamento daquele crime, e também por algumas ideias de celebridade. Estando em Flandres no mês de novembro de 1756, dizia:

— Se eu voltar à França, lá morrerei, e o maior da terra também morrerá, e ouvireis falar de mim.

Neste estado de exaltação, procurou muitas vezes envenenar-se e muitas vezes foi ouvido lastimar a sua família pelas desgraças que ia acarretar sobre ela.

Damiens, logo depois que foi preso, sofreu os horrores da tortura em presença do chanceler. Apertaram-lhe as pernas com tenazes incandescentes. Mas a força da dor só lhe arrancou declarações pouco precisas, que depois negou. De Versailles foi transferido para Paris, com as maiores precauções e extraordinário aparato de força militar. Proibiu-se, mesmo, que o povo chegasse à janela para ver passar o cortejo. O processo foi entregue ao parlamento, e a sua instrução confiada aos presidentes Maupeou e Molé, a Servert e ao conselheiro Pasquier. O criminoso, despedaçado pela tortura, tinha sido transportado sobre um colchão numa carruagem puxada por quatro cavalos, e levado para a Conciergerie, onde teve o mesmo quarto em que estivera encerrado Ravaillac, assassino de Henrique IV. Como se receava que o prisioneiro tentasse contra os seus dias, amarraram-no com correias que iam prender-se em argolas de ferro pregadas na parede. Forrou-se o quarto de colchões e quatro guardas-franceses o vigavam dia e noite o seu leito, onde as feridas o detiveram por mais de dois meses. É neste estado que representa a nossa gravura, copiada de uma estampa que se acha na biblioteca real de Paris. O palácio estava convertido em quartel. O médico do rei ia três vezes por dia visitar o enfermo e um cirurgião analisava todos os seus alimentos para que não fossem envenenados. Foi somente no dia 26 de março que Damiens compareceu perante o tribunal que devia julgá-lo. O rei entendeu que se devia proceder com o maior aparato: cinco príncipes de sangue e vinte e dois pares da França se reuniram aos membros do parlamento. O criminoso mostrou muita firmeza e tranquilidade. O suplício que sofrera Ravaillac foi pronunciado contra ele, com todas as suas refinadas crueldades.

— O dia será trabalhoso — disse Damiens, depois da leitura da sentença que ouviu de joelhos, como de costume.

A imaginação se horroriza ao lembrar-se das dores atrozes que sofreu o condenado. Depois de grande discussão acerca do gênero de tortura que seria preferível, decidiram-se pela chamada borzeguim, espécie de tortura ou tratos que se fazem às pernas do criminoso por ser aquela que menos ameaçava a vida do réu. Damiens deu grandes gritos e pediu um copo de vinho, dizendo:

— Aqui, é preciso muita força.

Os tormentos continuaram até o momento em que os médicos declararam que ele não poderia suportá-los por mais tempo sem morrer. Levaram-no, então, acompanhado por dois doutores da Soubonne, um molinista e outro jansenista, à porta principal da catedral para confessar o seu crime e pedir perdão publicamente, e transportaram-no depois para a Praça de Greve. Quando chegou ao pé do cadafalso, despiram-no. Damiens olhou para todos os seus membros com atenção e olhou tranquilo para multidão prodigiosa que cobria a praça, enchia todas as janelas e coroava os telhados. Os algozes queimaram primeiro, em um braseiro de enxofre, a mão direita do criminoso, que segurava uma faca. O condenado deu um só grito e depois pareceu ver queimar a mão com um ânimo sereno e em silêncio. Deu, porém, gritos horríveis quando lhe atenazaram as pernas, as coxas, os braços e o peito, e lhe lançaram chumbo derretido e azeite fervente nas chagas vivas. Contemplava, contudo, com curiosa atenção o odioso aparelho de seu suplício. O corpo e a vida de Damiens lutaram por muito tempo contra estas atrozes dores. Quatro cavalos que deviam esquartejá-lo faziam esforços, havia meia hora, sem poder arrancar-lhe os membros, quando os comissários da execução ordenaram que lhe cortassem os músculos principais. O tronco, separado dos seus membros, vivia ainda quando foi lançado, assim como os seus fragmentos, na fogueira que se acendera junto ao cadafalso.

Este horroroso suplício é a vergonha do século que o presenciou, bem como o é também a perseguição que sofreu a família inocente de Damiens. Esta foi banida da França e decretou-se que seria castigado com pena de morte aquele de seus membros que ali voltasse. Seus irmãos e irmãs tiveram que mudar de nome e a casa em que nasceu o criminoso foi arrasada. Muitas vítimas foram envolvidas na sua ruína, por leves suspeitas e denúncias vagas, mas nunca se pode estabelecer entre elas e o assassino uma cumplicidade real.


Tradução de autor desconhecido do séc. XIX. - Fizeram-se breves adaptações textuais. - Narrativa publicada originariamente em Museo Universal, edição de junho de 1838.
Ilustração de Beneworth.





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