UMA VINGANÇA CRUEL - Conto Cássico Cruel - Honoré de Balzac.



UMA VINGANÇA CRUEL

Honoré de Balzac (1799 – 1850)

(Texto adaptado)


A cem passos de distância da pequena vila de Vendôme, jaz, sobre as margens do Loire, uma casa antiga e arruinada, coroada de altos tetos, solitária, sem asquerosos cortumes, sem péssimas estalagens por vizinhos.

Em frente a essa habitação há um jardim que olha para o rio, mas o buxo, que no passado desenhava as a aleias, cresce ali hoje a seu bel-prazer; os salgueiros que o Loire alimenta, elevaram-se rapidamente; as plantas parasitas enfeitam com a sua bela vegetação o talude da ribanceira, e as recortadas árvores frutíferas de há muito que não são podadas.

Contudo, fácil é perceber, do alto da montanha, onde jazem as ruínas do vetusto castelo dos duques de Vendôme, que essa habitação fizera, em tempos muito remotos, as delicias de algum gentil-homem de velhos pergaminhos, admirador de rosas, de dálias e de jasmins, e, por ventura, de boas frutas também. E, na verdade, vê-se ainda os restos de um caramanchão e uma mesa que a mão do tempo não destruiu inteiramente...

O aspecto desse jardim, que já não existe, vos revela as delicias da vida campestre, como o epitáfio do seu túmulo nos revela a existência do abastado comerciante; e, para completar as tristes e suaves ideias que da alma se apoderam, há em um dos ângulos do muro um relógio de sol, com a seguinte comezinha inscrição:


FUGIT HORA BREVIS


Os tetos da morada ameaçam ruína; as gelosias nunca se abrem; as andorinhas cobriram de ninhos todos os balcões; as portas sempre estão fechadas; as ervas rebentaram pelas fendas dos bancos; as fechaduras estão comidas de ferrugem; o sol, a lua, o inverno, o estio, a neve, carcomeram as traves, empenaram os pavimentos, destruíram as pinturas. O silêncio desta triste habitação somente é perturbado pelos pássaros, gatos, ratos e doninhas que aí vivem em plena liberdade. Uma mão invisível escreveu por toda a parte a palavra mistério nessa morada, que outrora fora um feudo, e a que chamam agora Forteza.

Todo o tempo que durou o meu desterro em Vendôme, a vista romântica desta casa singular era um de meus maiores prazeres. Era mais que uma ruína, porque a uma ruina ligam-se recordações históricas, fatos conhecidos, de cuja autenticidade não é permitido duvidar; mas, nesta habitação ainda em pé, e que por si mesmo se demolia, havia um segredo, um pensamento ignoto, ou pelo menos um capricho.

Muitas vezes, ao cair da noite, eu me aproximava da sebe que protegia esta tapada, e, afrontando os arranhões, entrava nesse jardim sem dono, nessa propriedade que nem era pública nem particular, e passava horas inteiras contemplando a desordem que aí reinava.

De tudo havia neste asilo: um ar de claustro, e a paz dos túmulos sem os mortos que nos falam a sua linguagem epitáfica. Muitas vezes aí chorei, e nem uma só aí ri, porque tudo era melancólico. O solo é úmido, e os lagartos, as cobras e as rãs aí passeiam em perfeita liberdade. Aquele que recear o frio, dê-se pressa em sair, que um manto de neve lhe pesará em breve sobre as espáduas, como a mão do comendador no pescoço de D. Juan... Uma noite estremeci. O vento tinha feito voltear um velho e ferruginoso cata-vento, cujos sons agudos se assemelhavam a gemidos, no momento em que eu acabava de compor um drama sobre a sorte desta lúgubre habitação.

Voltei, pois, à pousada triste e pensativo.

Quando acabei de cear, entrou a estalajadeira no meu quarto com certo ar de mistério, e disse-me:

—O Sr. Regnault quer falar-vos.

—Quem é o Sr. Regnault?

—Então não conheceis o Sr. Regnault?... Que dizeis!

E se foi.

E vi logo entrar um homem alto e magro, pálido, vestido de preto e com o chapéu na mão. A casaca era velha e ruça nos cotovelos, mas o desconhecido trazia ao peito um alfinete de brilhantes e brincos de ouro nas orelhas.

—Senhor, dizei-me a quem tenho a honrado falar —disse-lhe.

Sentou-se em uma cadeira, pôs o chapéu sobre uma mesa e respondeu-me ,esfregando as mãos.

—Senhor, chamo-me Regnault.... sou o notário de Vendôme.

—Muito bem, Sr. Regnault, que mais?

 —Devagar, senhor, lá chegaremos... — ele respondeu, levantando a mão como para impor-me silêncio. Soube que tendes por costume passear no jardim da Fortaleza.

—Sim, senhor, passeio por lá.

 —Devagar, devagar — tornou ele, repetindo o mesmo gesto. — Isso constitui uma verdadeira transgressão. Mas não sou eu um turco para disso fazer um crime. Venho somente, em nome e como testamenteiro da finada condessa de Merret, pedir-vos que não continueis vossas visitas.... Sois forasteiro, e, portanto, ignorais os motivos que tenho para deixar arruinar-se o mais belo palácio de Vendôme. Se dependesse isso de mim, eu vos deixaria entrar e sair livremente dessa casa. Mas, como testamenteiro da condessa, sou obrigado a fazer cumprir suas vontades e a pedir-vos que não torneis a entrar nesse jardim. Eu mesmo, depois que abri o testamento, não pus mais pé na Fortaleza. Ah, senhor, esse testamento fez muito barulho nesta boa vila de Vendôme.

E aqui o bom do homem calou-se para limpar o pingo que lhe caía do nariz.

Eu respeitava a sua loquacidade, porque compreendia que a herança de Madame de Merret era o acontecimento mais importante da sua vida. Já que me cumpria dizer adeus a meus belos sonhos, a meus romances, queria ouvira verdade por canal oficial.

 —Senhor — disse-lhe —, será indiscrição perguntar-vos as razões que...

 —Senhor — replicou ele, após uma pequena pausa—, três meses depois de ser despachado pelo ministro da justiça—eu ainda era solteiro —foram chamar-me, no momento em que ia deitar-me, da parte de madame de Merret. A sua criada, airosa moça que hoje serve nesta estalagem, estava à minha porta com a carruagem da senhora condessa. Cumpre dizer-vos, senhor, que o conde de Merret tinha morrido em Paris dois meses antes, por se entregar a excessos de toda espécie, e que, no dia da sua partida, a condessa saiu da Fortaleza, depois de mandar queimar todos os móveis.

“A minha curiosidade, senhor, tocou a meta quando eu soube que a condessa necessitava do meu ministério; mas não era eu o único que tomava interesse nesta história, e nessa mesma noite, embora fosse tarde, toda a vila soube que o notário ia ao palácio. Às onze horas, cheguei à Fortaleza. Dando crédito aos boatos que corriam, eu esperava encontrar uma dama formosa e presunçosa... porém, qual! Custou-me muito entrevê-la no enorme leito em que estava deitada. À força de olhar e de aproximar-me ao leito, vi, finalmente, madame de Merret. Seus olhos negros, abatidos pela febre, apenas se moviam sob suas profundas arcadas. A testa estava úmida, as mãos descarnadas, as veias e os músculos desenhavam-se perfeitamente em todo o braço. Os seus lábios estavam pálidos e, quando me falava, mal os movia.

“Ainda que estivesse habituado a espetáculos como este, confesso que o pranto das famílias, as agonias e tudo quanto tenho visto, nada eram diante desta mulher só e silenciosa neste vasto castelo. Não ouvia o menor rumor, não via mesmo o movimento que a respiração da doente devia dar à roupa que a cobria, e fiquei imóvel contemplando-a, sem saber o que diria ou o que faria.... Por fim, os seus olhos azuis se moveram. Ela tentou levantar a mão direita, e da sua boca saíram as seguintes palavras, como um sopro:

“—Esperava-vos com muita impaciência

“—Senhora... disse-lhe.

“—Eu vos confio o meu testamento — respondeu ela.

“Pegou o crucifixo, levou aos lábios e morreu.

“Quando abri o testamento, vi que a condessa me tinha nomeado seu testamenteiro. Deixou a totalidade de seus bens ao hospital de Vendôme, e fez as disposições acerca da Fortaleza. Recomendou-me que deixasse essa casa por espaço de cinquenta anos no estado em que se achava no momento da sua morte e proibiu a entrada nos quartos a quem quer que fosse. Expirando esse termo, pertence-me a casa a mim ou a meus herdeiros, se tiver sido cumprida a vontade da testadora. Eis, senhor, as razões que me moveram a vir pedir-vos que cesseis as vossas visitas.”

O notário levantou-se, fez-me uma profunda reverência e partiu.

Mal tinha saído, entrou a estalajadeira.

—Então, senhor — disse-me ela—, Regnault contou, sem dúvida, a história da Fortaleza? O que disse?

 Narrei-lhe em poucas palavras a tenebrosa história da condessa.

—Minha boa patroa — disse eu ao acabar —, parece-me que sabeis mais do que eu...

—Ah! Eu vos juro...

— Não jureis, porque os vossos olhos vos estão traindo... Conhecestes o conde?

—Se conheci! Ele tinha seis pés de altura. Não era possível vê-lo de uma vez: era fidalgo antigo, oriundo da Picardia... E a condessa.... Oh, era bela como um anjo, e tinha quarenta mil francos de renda!

—Eram felizes?

— Creio que sim. O conde era assomado, porém era fidalgo, e como tal tinha direito de o ser...

— Vamos à historia.

—Da história nada sei. Porém, como vos tenho por homem lido, subi para consultar-vos acerca de um assunto que nem ao vigário quis confiar. Quando o imperador mandou para cá alguns prisioneiros de guerra, tocou-me alojar, por conta do governo, um jovem espanhol. Era um grande da Espanha!... Não me recordo do seu nome. Só me lembro que acabava em os e em dia. Era muito formoso para espanhol que, como sabeis, são quase todos feios. Era-lhe muito afeiçoada, se bem que ele nem duas palavras proferisse por dia: lia o seu breviário como num padre, ia à missa todos os dias, e ficava sempre ao lado da condessa de Merret, mas não havia nisso intenção má, pois que nunca ninguém o viu levantar os olhos do livro.

“À noite, ia passear nas ruínas do castelo. Era o seu maior divertimento, porque essa montanha lhe recordava o seu país. Dizem que há tantas montanhas na Espanha! Algumas vezes, recolhia-se muito tarde. Inquietava-me vendo-o voltar à meia noite, mas habituamo-nos à sua fantasia, e como ele tinha a chave da porta, não nos incomodava. Enfim, um dia de manhã não o achamos no quarto. À força de procurar, encontrei na gaveta de sua mesa uma bolsa que continha cinco mil francos em ouro, e uma caixinha com brilhantes, que valeriam dez mil. Na bolsa havia um bilhetinho que dizia o seguinte:

“’No caso de eu não voltar, pertence o que eu possuo à minha boa patroa.’

“O Espanhol não apareceu mais. Alguns julgaram que morrera afogado. Eu, porém, tenho para mim que ficou na Fortaleza, pois que Rosália me disse tê-lo visto lá algumas vezes. Dizei-me, agora, senhor, não é verdade que o dinheiro do Espanhol me pertence de direito, e que não devo ter remorsos de o haver guardado?”

—Não há dúvida. Porém, dizei-me: nunca questionastes Rosália? — perguntei.

—Oh, muitas vezes! Mas essa moça não diz nada. Sabe por certo alguma coisa, mas não há como fazê-la falar.

A patroa retirou-se, deixando-me entregue a mil pensamentos vagos e tenebrosos, a uma curiosidade romântica, a um terror religioso, semelhante ao sentimento profundo que de nós se apodera quando entramos de noite em uma igreja sombria.

Rosália era, a meus olhos, o ente mais interessante de Vendôme. Quando, ao cessar a causa do meu desterro, me trouxe ela mesma a carta que me restituía à liberdade, encarei-a com olhos tão interrogadores que a rapariga corou e empalideceu sucessivamente.

—Rosália? — disse-lhe.

—Senhor?

—Não sois casada ?

Corou até os olhos, e estremeceu
.
— Oh, não me faltarão homens quando me der na cabeça fazer-me desgraçada! — respondeu ela.

—A vossa formosura vos dará por certo mais de um amante.... Porém, dizei-me por que razão viestes para esta pousada, saindo da casa da condessa?

—Porque é a melhor casa em que eu podia estar.

—Contai-me, eu vos suplico, tudo que sabeis acerca da condessa.

—Oh— respondeu-me ela, toda tremula —, não me pergunteis por isso!

—Dou-vos palavra de guardar segredo.

—Bem, já que assim o quereis... Mas lembrai-vos que deveis guardar segredo.
Se quisesse reproduzir fielmente a difusa eloquência de Rosália, um volume inteiro não me bastaria. E como o acontecimento que ela me referiu se acha colocado entre a bacharelice do notário e a loquacidade da patroa, do mesmo modo por que os termos médios de uma proporção aritmética se acham entre os seus dois extremos, preciso é que seja formulado singelamente.

Portanto, irei resumi-lo. A câmara que madame de Merret ocupava na Fortaleza era situada ao rés do chão. Na parede havia um pequeno gabinete, de quatro pés de cumprimento, que servia de guarda-roupa. Três meses antes da noite em que ocorreu o fato que vou narrar, madame de Merret adoeceu, e seu marido, a fim de não incomodá-la, mudou a sua cama para o primeiro andar.

Por um desses acasos impossíveis de prever, voltou ele, essa noite, duas horas mais cedo que de costume, do salão onde ia ler os jornais e falar sobre política com os burgueses de Vendôme. A invasão da França tinha sido objeto de muita animada discussão. A partida de bilhar fora muito disputada e o conde perdeu quarenta francos, soma enorme para Vendôme, onde todo o mundo entesoura. Ainda que, de há muito, o conde se contentasse de perguntar a Rosália, ao entrar, se a condessa estava deitada, e que, ao ouvir a resposta sempre afirmativa, subisse imediatamente para o seu quarto, com essa bonomia criada pelo hábito e pela confiança, deu-lhe na cabeça entrar essa noite na câmara da condessa para contar-lhe o seu infortúnio e talvez também para que ela o consolasse.

Em vez de chamar Rosália, que, neste momento, conversava na cozinha com a cozinheira e o cocheiro, dirigiu-se o conde para a câmara de sua mulher. Na ocasião de dar volta à chave do quarto, pareceu-lhe ouvir fechar-se a porta do gabinete: quando entrou, madame de Merret estava em pé perto da lareira.

Então disse ele com os seus botões que Rosália estava no gabinete, mas uma suspeita que lhe zuniu ao ouvido o fez desconfiar, e, fitando os olhos na condessa, notou nas suas feições tal ou qual inquietação.

—Vieste tarde! — disse-lhe ela com voz um pouco trêmula.

O conde não lhe deu resposta, porque nesse momento entrava Rosália. A sua aparição foi como um raio que o assombrou. Sem dizer palavra, pôs-se a passear com os braços cruzados.

—Tivestes alguma notícia triste? Estais incomodado? — perguntou-lhe a condessa.

O conde não respondeu.

—Retirai-vos —disse a condessa à criada.

Adivinhando sem dúvida alguma tormenta, quis ficar só com seu marido.

Mal Rosália saiu, aproximou-se o conde de sua mulher e disse-lhe com indiferença, porém com os lábios trêmulos e o rosto pálido:

—Senhora, há alguém no vosso gabinete...

A condessa olhou para o marido com ar tranquilo, e respondeu-lhe com simplicidade:

 —Não, senhor!

Este não cortou-lhe o coração, porque não lhe dava crédito e nunca sua mulher lhe parecera mais pura e mais religiosa.

Levantou-se para abrir o gabinete, mas madame de Merret pegou-lhe na mão, deteve-o, e, contemplando-o com ar tocante e melancólico, disse-lhe com voz sumida:

—Se aí ninguém encontrardes... lembrai-vos que nos separaremos para sempre...

A incrível dignidade da condessa fez vacilar o conde, e inspirou-lhe uma dessas resoluções que passaria por sublime se em mais vasto teatro fosse praticada.

-- Sim, Josefina, tendes razão, não abrirei o gabinete. Em qualquer dos casos nossa separação seria infalível. Escutai: conheço a pureza do vosso coração, e sei que a vossa vida é a de uma santa. Não quere- réis, por certo, cometer um pecado mortal que vos custaria a vida. Eis o vosso crucifixo... Jurai-me, perante Deus, que ninguém está no vosso gabinete... Eu vos darei credito e nunca abrirei essa porta.

Madame de Merret pegou no crucifixo... e disse:

 —Assim o juro.

 —Mais alto —tornou o marido — e repete: juro, perante Deus, que não há ninguém nesse gabinete.

A condessa repetiu a frase sem se perturbar.

—Muito bem! —respondeu com indiferença o conde e depois, após um momento de silencio:

—Tendes aí um belo traste que eu ainda não tinha visto...

E examinou curiosamente esse crucifixo que era de ébano guarnecido de prata e de primoroso lavor.

 —Comprei-o a Duvivier, que o obteve de um religioso espanhol.

 —Ah !... — disse o conde.

E, pondo o crucifixo sobre a pedra da chaminé, tocou a campainha. Rosália entrou logo. O conde foi ao seu encontro e, levando-a para a janela, disse-lhe em voz baixa:

—Sei que Gorenflot quer desposar-te, e que o único obstáculo à vossa união é a vossa mutua pobreza. Tu lhe disseste que não casarias com ele em quanto o não visse mestre pedreiro... Pois bem, vai chamá-lo. Diz-lhe que venha aqui com as suas ferramentas. A sua fortuna excederá vossos desejos; sai sem proferir uma palavra, senão...

E franziu as sobrancelhas. Rosália saiu.

—João! — bradou o conde com voz estridente.

João, que era ao mesmo tempo cocheiro e criado confidente, não se fez esperar.
 —Ide deitar-vos todos... disse o conde.

E, depois, fazendo-lhe um gesto, aproximou-se João, e o amo acrescentou em voz baixa:

— Quando todos estiverem dormindo — dormindo, entendes-me? — desce e vem dizer-me.

O conde, que não perdera de vista sua mulher, veio sentar-se junto dela. Foi então, sem dúvida, que lhe contou os acontecimentos da partida de bilhar e as discussões do clube, pois que, voltando Rosália, deu com eles conversando muito amigavelmente. O conde tinha mandado estucar, poucos dias antes, todos os quartos que ficavam no térreo. Ora, como o gesso é deveras raro em Vendôme, mandou ele vir de Paris grande quantidade. Em casa tinha ainda uma barrica cheia, e essa circunstância lhe inspirou o desígnio que pôs em execução.

 —Já chegou o Sr. Gorenflot — disse Rosália.

—Mandai-o entrar!

Madame de Merret empalideceu quando viu o pedreiro.

—Gorenflot — disse o conde —, ide buscar alguns tijolos na cocheira para murar a porta desse gabinete... No quarto imediato achareis uma barrica de gesso e com ele emboçareis o muro...

E chegando-se a Rosália e ao pedreiro, disse, em voz baixa:

—Escuta, Gorenflot, tu dormirás aqui esta noite. Amanhã eu te darei um passaporte para país estrangeiro, e te entregarei seis mil francos para as despesas da jornada. Passarás por Paris, onde irás esperar-me, e aí te assinarei uma promissória para pagar-te mais seis mil francos daqui a dez anos, se antes desse período não voltares à França. Por este preço deveras guardar o mais profundo silencio sobre tudo o que aqui fizeres esta noite. Quanto ti, Rosália, eu te darei dez mil francos que somente te serão pagos no dia do teu casamento, mas cumpre-te guardar silencio... Senão, adeus dote...

—Rosália — disse a condessa —, vinde pentear-me...

O conde passeava de uma extremidade à outra da câmara, vigiando a porta, o pedreiro e sua mulher, sem, contudo, dar sinal da menor desconfiança.

Gorenflot foi obrigado a fazer algum barulho. Então Madame de Merret, aproveitando o momento em que o pedreiro descarregava alguns tijolos e em que seu marido se achava do outro lado da câmara, disse a Rosália:

—Cem escudos de renda, minha amiga, se puderes dizer-lhe que deixe uma abertura embaixo.

E depois disse-lhe em voz alta com horrível sangue-frio:

—Ide ajudá-lo !

O conde e a condessa conservaram-se silenciosos, enquanto Gorenflot murava a porta. Este silencio era cálculo no marido, que não queria dar à condessa o menor pretexto de proferir palavras equívocas, e da parte de Madame de Merret era talvez prudência ou altivez.

Quando o muro estava em metade da sua altura, o astuto pedreiro, aproveitando o momento em que o conde tinha as costas voltadas, quebrou um dos vidros da porta. Esta ação fez conhecer a Madame de Merret que Rosália tinha falado com Gorenflot. Então ela e o pedreiro viram, não sem profunda emoção, uma figura de homem moreno, de cabelos negros, olhos de fogo...

Antes de seu marido se voltar,  a condessa pôde  fazer-lhe um gesto dizia: “Esperai...”

Às quatro horas da manhã, estava concluída a obra.

O pedreiro foi entregue à guarda de João, e o conde deitou-se na câmara de sua mulher.

Quando se levantou, disse:

—Ah! Esquecia-me que tinha de ir à casa do maire buscar o passaporte.

Pegou o chapéu e encaminhou-se para a porta; porém, voltando atrás, tomou o crucifixo.

Vendo isto, pulou a condessa de contente.

—Irá à casa de Duvivier! —disse ela.

Mal saiu o conde, chamou a condessa pela criada, e com voz terrível, bradou:

— A alavanca! A alavanca! E mãos à obra!... Teremos tempo de abrir um buraco e tapá-lo.

Em um abrir e fechar de olhos, Rosália trouxe uma espécie de alavanca, e a condessa começou a trabalhar com o maior ardor.

Tinha feito já cair alguns tijolos, quando, voltando, viu o conde junto dela, pálido e em altitude ameaçadora.

Madame de Merret desmaiou...

—Deitai a condessa no leito! — disse o conde.

Prevendo o que deveria acontecer durante a sua ausência, tinha armado um laço para a sua mulher. Tinha escrito ao maire e mandado chamar o Sr. Duvivier.

O ourives chegou no momento em que deitavam a condessa na cama. —Duvivier, perguntou-lhe o conde, comprastes algum crucifixo a um religioso espanhol?

—Não, Sr. conde.

— É quanto desejo saber. Fico-vos obrigado. — João —acrescentou ele voltando-se para o criado —, a Sra. condessa está doente e não sairei do seu lado em quanto a não vir restabelecida.

O cruel fidalgo ficou por espaço de quinze dias ao lado de sua mulher. Durante os seis primeiros dias, quando havia algum rumor no gabinete, e que ela queria implorar a sua clemência em favor do desconhecido, respondia-lhe ele sem lhe deixar proferir nenhuma palavra:

—Vós jurastes que ninguém existia naquele gabinete!

  


Tradução/adptação de autor(es) desconhecido (s) do séc. XIX (fizeram-se breves e novas adaptações textuais).

Fontes: Museo Universal, 1838 / The United States Democratic Review, Volume 13, p. 34.



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