O TAXIDERMISTA - Conto de Terror - Mauro Bartolomeu



O TAXIDERMISTA

 (Mauro Bartolomeu - 3º Lugar no Concurso Bran Stoker de Contos de Terror)


Há duas versões dessa história, e para não ser acusado de parcialidade, deixarei o leitor decidir qual delas é a mais verossímil ou, ao menos, a mais edificante.
Na primeira delas, você é um detetive envolvido no caso do escultor paulistano Lúcido Haldol, nascido Lúcio Santos, ex-presidiário que atualmente faz sucesso pelas galerias de arte da Europa com suas estátuas em tamanho real de meninas desaparecidas. Entre seus detratores circula a acusação de que ele rapta as meninas e as empalha, mas seus admiradores estão certos de que isso não passa de lenda urbana, motivada em parte pelos seus antecedentes criminais. É sabido que ele fazia esculturas em pedra sabão antes de furar uma dúzia de meninas na região de Ribeirão Preto e se tornar Lúcido Haldol no hospital psiquiátrico Santa Tereza. Na verdade, ele é apenas um hiper-realista que esculpe em cera reproduzindo fielmente as fotos das desaparecidas publicadas nos jornais. Em favor da primeira tese pesa ainda o fato de ele nunca fazer mais de um exemplar da mesma escultura, e se recusar terminantemente a vender qualquer uma delas, mas os curadores e críticos de arte têm interpretações bem diversas. Para uns, isso não passa de estratégia publicitária. Outros buscam explicações na história da arte ou na psicanálise, enquanto que para o público em geral tudo não passa de mera excentricidade. E, como ele mesmo diz, pra que fazer cópias dos seus trabalhos, se não pretende comercializá-los? Mas você não acredita na inocência dele. Mesmo depois que, graças a suas investigações, os especialistas atestaram tratar-se de esculturas em cera, e não trabalho de taxidermia, você não se deixou convencer. Você viu como eles foram desleixados e apenas rasparam a superfície do material, e nada impede que ele apenas recubra a pele das meninas com cera.
Apesar do descrédito em que você caiu depois disso, você conseguiu recolher novos indícios que o ligam aos raptos, mas enquanto aguarda a morosa justiça brasileira aprovar seu pedido de uma análise das obras por raios X, você recebe a notícia de que sua filha sofreu um terrível acidente de trânsito e veio a óbito. Pois que desgraça pouca é bobagem, sua neta, que deveria estar com ela, não foi encontrada. Como sempre acontece nessas situações, quando parece que você vai enlouquecer, uma das suas pálpebras começa a tremer e você sente uma gota gelada de suor escorrer pelas têmporas. A esperança de que ela tenha sobrevivido se mistura ao desespero da sua busca, a ponto de você negligenciar por um tempo sua investigação. Porém não demora a que sua neta reapareça na forma de estátua de cera, e você não tem dúvida de que tudo aquilo foi propositado. Sua filha foi assassinada, apesar do laudo policial atestando o contrário, e sua neta foi empalhada por aquele monstro. Você não pode esperar mais. Agora é ódio, e não mais raciocínio, o que te move em direção ao ateliê do desgraçado, no meio da geometria caótica da periferia de São Paulo, já que, a despeito da fama, nosso artista também se recusa a deixar sua biboca no Valo Velho. Mas ao encontrar o lugar no meio daquele labirinto de vielas, você se desarma. Lá estão, pela primeira vez na história de Lúcido, duas esculturas idênticas. Diante do seu embaraço, ele chega a te oferecer uma delas, mas você, é claro, não poderia aceitar. Curiosamente, ao deixar o ateliê, sua pálpebra havia parado de tremer.
O final da história transcorre anos depois de você ter abandonado o caso sem dar maiores explicações, e Lúcido ter desaparecido completamente dos holofotes. Você está aposentado, sua neta nunca apareceu, e sua esposa, à beira da morte, decide lhe revelar um segredo ocultado por longos anos. Ironia desses tempos em que todo mundo está conectado 24 horas por dia mas não deixa ninguém encostar a mão no seu celular. Você até entende, porque afinal passou a vida inteira escondendo detalhes dos casos que investigava, para poupar as pessoas que você amava. Entender, você entende, mas não consegue aceitar que tenham escondido algo assim de você. Você se lembra de que quando sua filha morava no interior e ficou grávida, não revelou logo; preferiu lhes fazer uma surpresa, foi o que ela disse. Mesmo que ela tenha mentido sobre o motivo, e na verdade apenas tenha ficado com medo da sua reação, você ainda consegue entender. Por que diabos você tinha de ser sempre tão linha dura com todo mundo? Isso, porém, é imperdoável. Confessar esse detalhe mais tarde só para a mãe, e ambas o guardarem a tantas chaves por todo esse tempo? Ela na verdade tinha tido gêmeas, mas havia doado uma das meninas para a esposa de um artesão local.
Na segunda versão, você vai em suas investigações se aproximando passo a passo daquele demônio, até notar na sua determinação de assassiná-lo aquilo mesmo que te move e que ainda dá algum sentido pra sua vida de merda. Então você acaba por se reconhecer nele: o assassino, afinal, é teu duplo. Quando está a ponto de estrangulá-lo, você implora entre dentes: me ensina a tua arte. Me ensina, e eu te deixo vivo. É claro que você está mentindo, tudo o que você quer é fazê-lo sentir o terror que as pobres crianças sentiram. Mas, para sua surpresa, a descrição inclui toda uma preocupação em fazer com que a vítima não sofra. A morte era sempre rápida e indolor. Tudo o mais era pura arte, uma arte de uma sutileza que você tem de admitir que nunca te passara pela cabeça, e cujo objetivo era preservar a beleza e a pureza daquelas crianças antes que este mundo de merda as corrompesse. Você sabe que está diante de um doente, mas de um doente dotado de uma perspectiva que ninguém nunca poderá entender. Ou, pior ainda, de uma perspectiva que talvez só você possa entender ― e isso te faz titubear. Que direito você tem de matar um gênio como ele, logo você que sempre se soube um bosta como todo mundo, vivendo num mundo de merda como todo mundo?
O final dessa história é completamente diferente do da primeira versão, embora tudo se passe exatamente da mesma forma. Ao descobrir finalmente o segredo, você esbugalha os olhos, passa a mão na testa, sente um leve tremor na pálpebra, e de repente desata a rir. A rir um riso louco e convulsivo.


Mauro Bartolomeu é graduado em Letras (Grego Clássico/Inglês) pela Unesp, mestre em Estudos Literários (Teorias e Crítica da Poesia) pela mesma instituição, com a dissertação O Neologismo e a Categoria do ‘Novo’ no Catatau, de Paulo Leminski, e autor de Poemas em preto & branco (edição do autor, 1997), Last Seller Series Orgulhosamente Apresenta Nossa Senhora da Eutanásia ou a Arte é Longa, a Vida é Breve, o Barato é Louco, o Processo é Lento e o Buraco é Mais Embaixo (Florianópolis: Bookess, 2010), do Manifesto Onigâmico (Rio de Janeiro: Torre, 2011) e da sátira A Torre (Florianópolis, Bookess, 2014), além de administrar o blog Antenna Paranoica, onde vem publicando alguns dos seus poemas.


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