A VELHA DO DIABO - Conto de Terror - Bruno Oliveira




A VELHA DO DIABO
(Bruno Oliveira, classificado no Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror)


Nunca acreditei nessas coisas do além. Pra mim, espírito, assombração eram coisas da imaginação, da mente criativa demais ou da debilitada de menos. Pra mim, quem me dizia acreditar e ver essas coisas, era doida, gente de pouca fé, falastrona. O imaterial, pra mim, sempre foi algo de cunho filosófico, ou seja, era papo-cabeça, assunto trivial e descompromissado no campo das ideias; uma especulação gratuita sem o rigor acadêmico de estudos probatórios e sérios. Era uma diversão apenas, nada mais ou menos do que isso. Eu achava ridículo, sinceramente, quem me dizia sentir medo dessas coisas. Até entendia o motivo disso, afinal, quem crê, medo tem. O medo é essencial, para nós, seres vivos. É ele que nos mantém alertas, espertos, ou não, diante do perigo, do desconhecido. Tenho medo, admito, como todo o mundo têm, porém, não tenho medo dessas coisas, ou melhor, eu não tinha... Deveras, após a minha última contenda, comecei a temer essas coisas, pois eu vi o próprio diabo no corpo constipado da tia-avó da minha mulher! Ex-mulher, melhor dizendo. Depois do ocorrido, a separação foi inevitável. Legalmente ainda somos cônjuges, porém considero a lei dos homens inútil diante do fato que me sucedeu. Sou sozinho, mais uma vez. Naquela época, eu também o era quando conheci a minha ex-mulher. Nos conhecemos por meio de amigos em comum. Logo que fomos apresentados, nossos olhos se fixaram. A atração foi mútua e, até começarmos a trocar mais do que sorrisos e piscadelas, um bocado de meses se passou. Isso foi bom. Antes de engrenarmos em algo mais sério, nos tornamos amigos sinceros. Nosso papo era agradável. Falávamos de tudo um pouco. Tínhamos divergências em alguns assuntos, mas isso não diminuía o respeito entre a gente, ao contrário, de minha parte, eu a admirava mais por causa disso. Acho que todo relacionamento, pra durar, pra ser feliz, tem que se basear no papo, naquilo que um tem pra complementar no outro que não tem. Diálogo é tudo. Por isso, agora, entendo um detalhe curioso. Nas conversas que travávamos, ela, a minha ex-mulher, sempre desconversava quando o assunto era a sua tia-avó. Elas moravam juntas e, sempre que eu a interpelava sobre isso, ela era vaga, não entrava em detalhes. Eu não insistia muito no assunto por não ver, na época, nada demais. Também nunca fiquei encucado com isso. Eu achava a atitude dela até normal, afinal, aborrecimentos: quem é são, evita-os. Contudo, hoje entendo tudo. Havia ali uma mazela, uma dor escondida com carinho no coração. A tia-avó dela era o cão! Só me dei conta quando, depois de nos enlaçarmos, fomos morar na casa dela, com a tia-avó dela. Antes, eu já tinha conhecido a velha e, nesses poucos encontros, não notei nada demais na senhora. Ela parecia “fora da caixinha”, isto é, quando conversávamos com ela, ela dizia umas coisas meio sem sentido, coisas que nada tinham a ver com o assunto da conversa. A tia-avó dela falava muito da condição física dela. Ela sempre reclamava que estava muito doente e que sentia muita falta dos tempos de antigamente... Tudo para ela era dor. Aliás, ela vivia se queixando de horríveis dores pelo corpo. A velha tinha dor de cabeça, nas costas, na bacia e nas pernas. Doença, dizia ter várias. Só me lembro da osteoporose e do enfisema. Desse último, lembro bem porque, mesmo se dizendo enferma, ela ainda teimava em fumar um maço de cigarros todo santo dia. No mais, era apenas uma senhora idosa com suas manias e necessidades naturais. Mas tudo mudou quando eu e minha ex-mulher fomos morar junto dela. A velha se tornou outra quando começamos a dividir o mesmo teto. Se antes tudo era tolerável, a velha fez tudo ficar insuportável. Ela era teimosa demais! Não ouvia nada do que a gente lhe dizia, só falava, falava e discutia, não existia, na casa, harmonia. Tudo que fazíamos era um problema grave para a velha. Se comprávamos mantimentos para a casa com o dinheiro dela, ela reclamava, achava que tudo era muito caro, criava caso e gritava na nossa cara “seus burros!”. Porém, se gastássemos o nosso dinheiro, ela não falava nada, ficava quieta, fingia um agradecimento sincero. Comprar remédios para ela também era por aí. Só queria os de certos laboratórios e dizia que os outros de outros não prestavam. Várias vezes voltávamos na farmácia para trocar os emplastos, as pílulas e as ampolas que ela usava diariamente. Eu e minha ex fazíamos tudo isso para contribuir com a vida na casa, afinal, a residência era dela, da velha, e, como éramos recém-casados, pousar ali era o melhor a ser feito financeiramente, até que a minha ex e eu conseguíssemos uma morada própria. A vida na casa com a velha era um inferno! Entretanto, minha ex e eu fomos levando, aguentando tudo juntos, pois não tínhamos para onde ir. A velha, durante o dia, era irritante, inconveniente e má, contudo, o pior mesmo era à noite. Na casa, só havia um quarto. Esse era dela, somente da velha. Eu e minha ex dormíamos num sofá-cama maltrapilho na sala, que era ao lado do quarto da velha. Essa ia dormir cedo e, quando ia, trancava-se sozinha. E lá, só consigo mesma, exercitava o desagradável hábito de falar sozinha em voz alta. Da sala, dava para ouvi-la reclamar do dia e da gente. Era muito incômodo ouvi-la assim no seu monólogo. Parecia até uma confissão com alguém invisível ou uma forma de desabafo consigo mesma. Minha ex já estava acostumada, mas eu não achava normal aquilo. Quando a velha enfim se rendia ao sono, o nosso sossego durava pouco: a velha falava também durante os roncos! E falava muito. Falava em nosso idioma e em um que nunca ouvira. Geralmente esse bate-papo noturno era sobre o seu passado. A velha falava uns nomes, uns lugares e umas situações que não condiziam com o tempo presente. Minha ex me explicou depois sobre esses fatos passados. No entanto, sobre o idioma estrangeiro desconhecido, desconversou. Disse-me que eram só uns sons indistinguíveis que a tia-avó dela, e a gente também, emitimos quando dormimos profundamente. Não me satisfiz com a sua resposta, mas a acatei. Todas as noites eram essa tortura sonora. Após alguns meses, acabei me acostumando com essas coisas. Quem ama, consente. Porém, teve uma noite em que acordei de sobressalto. Estava eu quase me entregando de vez ao sono, quando os barulhos noturnos se tornaram mais graves e estranhos... Parecia até que havia um homem no quarto da velha! E essa gemia e balbuciava aquele idioma estrangeiro. Levantei do sofá-cama num salto. Minha ex ainda dormitava. Abri a porta do quarto, imaginando algo tipo assalto, mas vi algo absurdamente pavoroso: vi uma criatura escura toda escamada, de caninos inferiores salientes e de cabelos desgrenhados sobre uma velha pálida e sorridente! Fique paralisado. De medo, óbvio, e de horror. Só de lembrar, tremo todo. Diante do coito grotesco, congelei. Logo em seguida, uma força, vinda de sei lá onde, me empurrou pra fora do quarto. A porta se fechou num estrondo. Caí no chão da sala e, ainda ali, vi, na penumbra, a minha ex-mulher sentada encurvada na beirada do sofá-cama, salivando abundantemente algo negro e viscoso pela boca escancarada de forma anormal... Não sei bem como, de onde tirei forças, mas fui me afastando da cena asquerosa e insana. Fui me arrastando de costas até uma janela próxima enquanto aquela coisa me encarava torta e pulei. Desembestei nu pela rua e nunca mais voltei a ver aquelas mulheres. Quem ouve a minha história, não me acredita e ainda me diz que sou de ladainha. Mas é real. O tinhoso é real. Eu conheci a mulher dele!


Paulistano de Itaquera, Bruno Oliveira é formado em Letras, com pós em História da Arte pela Universidade Cruzeiro do Sul – UNICSUL. Publica seus textos no blog ALCOVA CRANIANA há quase nove anos.

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