O OLHO DE APOLO - Conto de Mistério/Policial - Conto Clássico - G. K. Chesterton



O OLHO DE APOLO
G. K. Chesterton
(1874 – 1936)

A neblina que se elevava do Tâmisa ia passando do tom cinza ao luminoso à medida que o sol ascendia. Dois homens atravessaram a ponte de Westminster. O alto era Hércules Flambeau, detetive particular, que se dirigia ao seu novo escritório, próximo da famosa abadia londrina. O outro era o padre Brown.

 O edifício tinha todas as comodidades modernas. Viam-se ainda os andaimes na frente, pois a construção não estava terminada, se bem que algumas peças já se achassem ocupadas: a de Fiambeau, no quarto andar e outros dois. A frente do edifício chamava a atenção: uma figura enorme e dourada que representava um olho rodeado de raios ocupando a área de duas ou três janelas.

—Que será isto? — perguntou, estranhando, o padre Brown.

—Ah — exclamou o amigo, rindo —, é uma nova religião! Dessas que perdoam os pecadores, assegurando que nunca foram cometidos. O professor Kalon alugou o quinto andar. No terceiro, abaixo do meu, há duas mecanógrafas. O professor Kalon é um novo sacerdote de Apolo.

— Mau, mau! — respondeu o padre. O sol sempre foi um Deus cruel. Que significam estes olhos?

— Creio — explicou o outro —  que, segundo a teoria desta gente, um homem de espirito forte pode resistir a qualquer coisa; por exemplo, olhar o sol de frente. Asseguram também que qualquer homem pode curar-se de todos os males físicos.

Mas Flambeau interessava-se mais pelas duas mecanógrafas do terceiro andar. Eram duas irmãs morenas; uma bastante atraente. Tinha olhos brilhante, nariz aquilino e impressionava como uma mulher capaz de abrir o seu caminho na vida. A outra era mais tímida. A primeira, Paulina, sentia-se atraída pela vida intensa e social. Conservava o seu dinheiro para aplicá-lo em fins essencialmente práticos, como a fundação de sociedade para a defesa das mulheres que trabalham. Joana não compartilhava, talvez, deste critério; mas seguiu a irmã em suas iniciativas, como um cãozinho fiel.

Flambeau divertia-se muito com Paulina, com seus ímpetos de mulher que deseja bastar-se a si mesma. Quando visitou os apartamentos pela primeira vez, viu Paulina no vestíbulo. Estava junto ao elevador, esperando o menino encarregado de manejá-lo. Mas logo a moça abriu a porta, declarando que não esperava mala e não precisava de meninos, nem de adultos. E apesar da brevidade do trajeto até o terceiro andar, Paulina teve tempo de explicar ao companheiro as suas ideias gerais sobre e a civilização atual e a existência humana. Antirromântica por temperamento, era partidária apaixonada da técnica moderna.

Flambeau subiu ao quarto andar sorrindo dos ímpetos daquela moça extraordinária e de temperamento excepcional. Um dia, Flambeau entrou no escritório das irmãs para encarregá-las de umas cópias a máquina e surpreendeu uma cena originalíssima: Paulina atirara ao chão os óculos da irmã e os pisava com fúria, ao mesmo tempo que lançava impropérios contra “os estúpidos conselhos de médicos que não sabem nada”. Flambeau perguntou:

—Mas senhorita, pois uns óculos são sinal de debilidade humana e um elevador não? A técnica ajuda os homens em todos os seus aspectos.

—O caso é muito diferente, Sr. Flambeau — protestou Paulina.  — Os acumuladores, os dínamos são sinais da força do homem... e também da força da mulher! Mas estas tolices que se vendem por aí de cumplicidade com os médicos... não, não e não! A gente supõe que necessita de óculos para ver e de muletas para caminhar porque foi educada na escola da covardia. Também as mães dizem aos filhos que não olhem para o sol!  E assim sucede que os homens não o podem olhar sem pestanejar... Eu abro os olhos e encaro o sol de frente, sem sentir nenhum mal-estar.

 —É que seus olhos, senhorita — sorriu Flambeau —, deslumbram como o próprio sol.

Isto impôs silêncio a Paulina. Flambeau, quando voltava para o seu andar, disse melancolicamente: "Esta moça caiu nas garras do charlatão de cima”. Logo o detetive notou que as relações entre os dois andares eram cada vez mais estreitas. O professor Kalon tinha a aparência de uma estátua grega; sua beleza era quase animal, mais que humana, porém suavizada pelo brilho de uma inteligência extraordinária. O que se estranhava naquele personagem, digno de figurar num ambiente de alta espiritualidade, era a sua condição de inquilino de um apartamento moderno. O professor Kalon exercia sobre os seus interlocutores uma influência misteriosa que denunciava uma alma vigorosa e excepcional. Quando se envolvia na túnica branca e colocava na cabeça um aro de ouro para saudar o sol, tinha tal imponência que a gente da rua não se atrevia a rir. Três vezes por dia o sacerdote de Apolo ia render-lhe homenagem: ao amanhecer, às doze horas e ao pôr do sol.

Davam doze horas na torre do Parlamento quando o padre Brown, que chegava com Flambeau, viu o branco sacerdote do Apolo no balcão do quinto andar. Flambeau entrou e o padre ficou mirando o novo profeta. Kalon erguia as mãos para o sol e recitava suas litanias. O extraordinário era que fitava o sol sem pestanejar.

—Oh, Sol!  — dizia. Oh, pai branco de toda brancura! Oh, primitiva pureza em cuja eterna serenidade...

Neste instante, o professor foi interrompido por uma detonação ensurdecedora e uma série de ruídos confusos. Cinco homens entraram precipitadamente no edifício, enquanto outros três saiam. Uma sensação de horror pareceu encher a rua; nesta inesperada comoção, dois homens ficaram impassíveis: o do balcão de cima, o sacerdote de Apolo; o da rua, o padre Brown.

Por fim apareceu à porta a imponente silhueta de Flambeau. Pediu que chamassem um cirurgião e desapareceu em seguida no interior do edifício. O padre Brown correu, então, atrás dele. O padre encontrou Flambeau e outras seis pessoas em volta do espaço retangular cercado de grades do elevador. Este não se achava ali, mas dentro das grades se via um corpo caído.

Flambeau examinou o corpo e observou o formoso rosto da mulher caída. Era Paulina Stacey. O auxílio médico seria inútil. A moça estava morta. O detetive olhava em silêncio para o rosto ensanguentado e pensava. Teria aquele corpo formoso e enérgico se precipitado pelo vazio do elevador, para encontrar a morte? Tratar-se-ia de um suicídio? Não, esta hipótese era absurda, dado o otimismo e a sede de vida da moça. Um assassinato, então.

—Onde está Kalon? — perguntou o detetive com voz rouca e áspera.

 —No balcão, adorando o sol —  respondeu a voz tranquila do padre Brown. Há quinze minutos que lá está.

—Então, quem poderia ter sido?

—Vamos subir e procurar averiguar. Temos meia hora antes da chegada da polícia oficial — disse o padre Brown.

O médico mais próximo chegava. Os dois amigos mostraram-lhe o cadáver e subiram pela escada para o terceiro andar. No escritório não havia ninguém. Subiram ao quarto andar. Flambeau entrou em seu apartamento e saiu.

—Parece que a irmã saiu para dar um passeio — disse gravemente.

Mas o padre Brown, como quem se recorda subitamente de uma coisa, disse:

— Que estupidez a minha! Falaremos do assunto no escritório das moças.

Flambeau desceu com o amigo. Instalaram-se em cadeiras junto da porta e esperaram. Não por muito tempo. No fim de dois minutos, duas pessoas desciam as escadas: Joana e o professor Kalon. Evidentemente, a moça estava no quinto andar quando se deu a catástrofe. Joana vestia de negro e tinha um aspecto severo que impressionava favoravelmente. Encaminhou-se com passo firme para a mesa sem ver os dois homens. O padre Brown observou-a com um sorriso e, sem deixar de mirá-la, perguntou ao professor:

—Senhor, poderia responder a umas perguntas sobre os seus ritos?

A moça voltou-se para eles. Havia em seu rosto uma expressão de angústia profunda.  O padre Brown perguntou à queima-roupa:

— Julga o senhor que o assassinato seja uma má ação?

— Isto é uma acusação?  —perguntou Kalon.  Sei o que pretendem. Mas só direi uma coisa. A mulher que acaba de morrer era minha esposa espiritual. E amava-me tanto que esta mesma manhã escreveu aqui o seu testamento. Lega-me meio milhão. Têm, pois o móvel do crime! Já veem que facilito a acusação!... Que venha a forca! Não me importo: a morte será uma viagem para o reino onde minha esposa me espera!

Flambeau e Joana escutavam-no cheio de admiração. O sacerdote, com a testa franzida num gesto de dor, olhava o solo. Kalon continuou:

— Em poucas frases acabo de dar-lhes os elementos para a acusação, a única possível contra mim. Mas destruirei esta acusação. Não cometi este crime porque Paulina Stacey caiu no buraco do elevador “às doze e cinco minutos”. Cinco pessoas poderiam declarar que a esta hora eu estava no balcão. Estive ali desde um pouco antes das doze até às doze e um quarto. O jovem Clapham, meu empregado, esteve ali toda a manhã e pode atestar do que digo...

 O professor Kalon fez uma pausa e prosseguiu logo com voz serena:

— Julgo adivinhar como morreu Paulina. Minha explicação parecerá um pouco estranha, mas não será menos verídica. É sabido que quem consegue desenvolver as suas faculdades espirituais pode às vezes elevar-se no ar desafiando a lei de gravidade. Este fato é um simples aspecto da conquista da matéria realizada por meios espirituais. A pobre Paulina era presunçosa e empreendedora, julgou ter alcançado o aperfeiçoamento suficiente para manter-se no ar. Muitas vezes, quando descíamos juntos pelo elevador, disse-me que, mediante uma vontade firme, uma pessoa pode descer no ar flutuando como uma pluma. Julgo que, num impulso, quis realizar este milagre. Sua vontade decaiu no momento decisivo... e as leis vingaram-se terrivelmente. Esta, é, meus senhores, no meu ver, a verdadeira história. Pouco me importo que acreditem nela ou não. Os detetives dirão que se trata de um suicídio, mas sei que nos achamos ante um heroico fracasso na luta do domínio da matéria pelo triunfo da espiritualidade.

Daquela vez Flambeau julgou ver o Brown derrotado. Este continuava fitando o solo, como se estivesse envergonhado. Por fim o sacerdote conseguiu dizer:

— Perfeitamente. Sendo assim, o senhor pode tomar o testamento e retirar-se. Onde esta pobre mulher deixou os papéis?

— Devem estar aí, respondeu Kalon. Quando subi pelo elevador para o meu andar, a vi aqui escrevendo.

— A porta estava aberta?

— Estava.

— Bem... E desde então continuou aberta.

Brown continuou olhando o solo. De repente, Joana disse alternadamente:

 —Aqui há um papel.

A jovem aproximara-se da mesa da irmã e tinha na mão uma folha de papel azul. No rosto de Joana havia um estranho sorriso que Flambeau notou.

O professor não mostrou curiosidade pelo papel azul. Flambeau recebeu-o das mãos da jovem e leu-o surpreso. O papel começava com os termos consagrados aos testamentos; mas, de repente, interrompiam-se as letras com traços de tinta onde era impossível ler o nome do donatário. Flambeau, perplexo, mostrou ao amigo o testamento truncado. Este passou-o ao professor.

Pouco depois, o professor atravessava o aposento colocando-se em frente de Joana e, mirando-a com seus enormes olhos azuis, que pareciam querer saltar, disse:

 —Que significa isto? Paulina escreveu algo mais!  — disse num tom de voz que surpreendeu a todos. Mas Joana respondeu serenamente:

—É a única coisa que há no escritório.

E fitou-o com sorriso agressivo.

Subitamente o professor desatou em impropérios:

 —Imagino que veem em mim um aventureiro, mas parece-me que esta senhorita é uma assassina! Sim, uma assassina! Sim, o enigma esclarece-se sem precisar-se recorrer à levitação! A pobre Paulina faz um testamento em meu favor. Chega a pérfida irmã, luta para arrancar-lhe o papel, leva-a para fora e atira-a pelo vazio do elevador. Por isso Paulina não terminou...

Flambeau e o padre olharam para a moça. Esta, calma e digna, retrucou:

—Sr. Kalon, o senhor invocou o testemunho de seu empregado para provar que não pôde cometer o crime. Este mesmo empregado dirá que estive em seu escritório, preparando alguns papéis que devíamos passar à máquina, desde cinco minutos antes da tragédia até cinco minutos depois. E o Sr. Flambeau também sabe que eu não estava aqui.

Fez-se um silêncio. Depois Flambeau explodiu, nervoso:

—Paulina estava só, aqui, no escritório? Trata-se de um suicídio, então?

 —Estava só, mas não se trata de suicídio — disse o padre Brown. Morreu assassinada.

—Mas se estava só! — insistiu o detetive.

—Morreu assassinada quando estava só —  insistiu por sua vez o padre.

Todos olharam espantados para quem fazia aquela curiosa afirmativa. O professor Kalon apoiou:

—Sim, esta assassina matou uma pessoa de seu próprio sangue e roubou-me o meio milhão que Paulina me legara!

—Que importa o dinheiro? — interrompeu Flambeau. No reino do espírito...

 —É que aqui estão em jogo os ideais sagrados de Paulina.. Para Paulina, nossa causa era sagrada. A seus olhos...

O padre Brown ergueu-se na cadeira. Estava pálido como um morto; mas seu rosto parecia iluminado por uma luz de esperança.

 —Isso! Isso!—  gritou com voz alterada. — Temos que começar por aí! Os olhos de Paulina!

—Que quer o senhor dizer? — rugiu o professor.

—Os olhos de Paulina —  repetiu. — Fale. Confesse...

—Confessar o quê? — perguntou o professor, iracundo.

—E este o criminoso? —  perguntou Flambeau.  — Prendo-o?

—Não, deixe-o sair... Que se vá.

O profeta do sol retirou-se efetivamente. Seguiu-se um longo silêncio. Joana ficou triste e pensativa. Por fim Flambeau falou:

—Padre, é meu dever averiguar o crime e quem o cometeu...

—A mim, preocupam-me dois crimes... Dois crimes muito distintos! Dois, sim! Dois crimes foram cometidos aproveitando a mesma fraqueza da vítima. Guiados pelo mesmo móvel: apropriar-se do dinheiro. O autor do crime maior encontrou em seu caminho o do crime menor. E este conseguiu o seu propósito.

—Fale claro — disse Flambeau. — Morreu alguém mais? Não! E então?

Enquanto o sacerdote falava, Joana saíra do aposento, levando o lenço aos olhos chorosos. O padre Brown olhou-a com piedade e continuou:

—A verdade está encerrada nestas palavras, Flambeau: Paulina Stacey estava cega! Estava condenada à cegueira desde o nascimento. Os dados que você me deu a seu respeito são suficientes para decifrar os dois crimes. Joana queria obrigá-la a usar lentes, Paulina não concordava. Por quê? Porque Paulina professava crenças muito estranhas. Sustentava que sua vista não era nebulosa; ou, pelo menos, procurava dominar sua cegueira com um esforço tão admirável quanto era inútil a sua vontade. Os olhos, submetidos a tais experiências, debilitaram-se cada vez mais. Paulina olhava para o sol, como o seu mestre do quinto andar... E a pobre não suspeitava que o olho de Apolo cega e mata!

Uma pausa e o sacerdote prosseguiu:

—Não creio que este homem tenha tido a intenção de deixar a moça cega definitivamente. Não, mas explorou a fraqueza de seus olhos para matar Paulina. Paulina subia e descia no elevador sem auxílio do empregado. Este ascensor moderno desliza sem ruído... pois bem, um dos crimes foi cometido assim: o professor Kalon subiu pelo elevador até este andar e viu que Paulina escrevia o testamento. Veio até aqui e disse à moça que deixava o elevador para que subisse ao quinto andar. Subiu e foi ao balcão para a sua oração. Paulina saíra, abrira a porta do elevador e...

— Não! — gritou o detetive horrorizado.

— Sim — disse o padre. — O professor julgava ganhar assim meio milhão. Seu crime era muito elegante, porque não exigia uma ação direta, um assassinato no sentido rigoroso e brutal da palavra. Mas fracassou com o outro crime.

—Já não era possível um segundo crime! — disse Flambeau.

—Outra pessoa conhecia o detalhe da cegueira — continuou o padre, sem fazer caso da interrupção.  — Viu o testamento incompleto? Mas figuram embaixo a assinatura de duas testemunhas. Uma delas era Joana; a outra, uma das empregadas que trabalham aqui. Joana assinou despreocupada, para que a irmã escrevesse depois o testamento.. Por que assinou Joana o papel?... Porque desejava que, quando Paulina assinasse, não houvesse testemunhas... Quer dizer, que não houvesse testemunhas de outra coisa... De quê? Da impossibilidade em que Paulina se acharia de assinar. Não entende? Paulina era cega. Escrevia valendo-se de uma pena forte, como todos os cegos, para evitar de ter de procurar o tinteiro a todo instante. Joana era a encarregada de encher o depósito das canetas... Notou que a primeira frase do testamento ficou interrompida por alguns traços em seco? A tinta só chegou para esta linha. E foi assim que o professor ficou sem o meio milhão!... Seu crime foi um crime inútil!

 —Para reconstituir o crime em dez minutos, você deve ter feito um grande esforço intelectual — disse Flambeau.

 —Não, maior esforço custou-me esclarecer o crime de Joana Stacey. O roubo de Joana, que se valeu da caneta sem tinta. Joana Stacey, por um meio simplíssimo, despojou o professor de meio milhão de libras esterlinas!

 — Mas a atuação do professor era também misteriosa!

—Nem tanto — sorriu o padre. Antes de saber o que se tinha passado, sabia que o professor tinha a culpa de tudo.

 —Como?

 —Muito simplesmente. O professor demonstrava um excesso de energia que me inspirou desconfiança. Houve alarido, houve estrondo e o professor ficou impassível no balcão, com o rosto para o sol. Isto queria dizer que a profeta de Apolo não se surpreendia com o que estava acontecendo. Vamos. Chegou a polícia.


Tradução de autor desconhecido.
Fonte: Carioca, edição de 4/12/1947

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