O VEREDICTO - Conto de Terror - Mephisto




O VERDEDICTO

Por Mephisto


O fato de haver condenado à morte um homem que sabia inocente em nada perturbava a consciência tranquila e arejada do juiz Maastricht. Como sou Mephisto, e posso perfeitamente devassar a consciência de quem quer que seja, garanto-vos que, ao assinar a sentença, o nobre magistrado ainda mais se encantava e exultava com o peso de sua pena, expressão magnífica de seu imenso poder.

Pode parecer estranho, mas as execuções — sobretudo as demoradas — não me fascinam. Em nada se comparam aos momentos que antecedem ao golpe do cutelo. Aí, sim, pode-se experimentar alguma sensação prazerosa. Digo-vos que o medo da morte mais que iminente sepulta toda e qualquer emoção de um condenado, salvo, nos espíritos mais elevados, o arrependimento. Mas, quando se é inocente, é o ódio contra os seus algozes o que verdadeiramente dignifica o imolado e o fazer merecer a própria pena.

Mas o juiz Maastricht deliciava-se em ver as execuções de suas rudes penas. Pouco lhe importava o que ia na mente dos que atirava nos patíbulos e calabouços. Mais que isso, exigia do verdugo que amputasse um bocado do executado.

Dispostos numa ampla prateleira, que ocupava uma das paredes da tenebrosa sala de audiência, havia frascos de salmoura. Narizes, olhos e orelhas — e, bem assim, diversas outras macabras reminiscências — mergulhados em conserva, flutuavam pachorrentamente, para o horror dos réus e regalo do magistrado.

E já eram tantos os frascos a atormentar os olhos e as almas dos interrogados, e tantos mais ainda eram os que seriam enforcados, que o nobre magistrado cuidara, com muita previdência, de encomendar uma nova prateleira de madeira de lei, destinada a ocupar a parede que ficava à sua retaguarda, mesmo que – sejamos sinceros – lhe fosse desagradável desalojar a sacrossanta imagem do crucificado.

Porém, no dia mesmo em que a nova prateleira chegou, o magistrado Maastricht não compareceu à audiência. O escrivão acorreu à casa do juiz e o encontrou em delírio. Estava sentado à mesa de jantar, na posição em que, nos tribunais, costumam ficar os réus. Olhava para a cabeceira vazia e jurava inocência. Pedia clemência a um magistrado bem mais poderoso que ele próprio e cujo nome não me é permitido pronunciar, dada a minha condição de demônio de superior hierarquia.

O magistrado não passou um dia, sequer, no manicômio. Eu bem ouvi os seus pensamentos. Mas não os direi. Este é um deleite que não compartilho com ninguém. Direi, apenas, que o veredicto foi implacável. Porque, mal os sinos da catedral soaram as vésperas, a cabeça do magistrado estalou, como se alçada por uma corda bem ajustada ao seu pescoço; e o seu corpo, imediatamente, entrou em convulsão. Os pés de Maastricht tremiam em pleno ar, varridos por fluxos contínuos de espasmos violentos. Mas somente eu fui testemunha de sua longa agonia. Somente eu, mais ninguém.

Daí por que ninguém pôde explicar as marcas profundas fincadas no pescoço do nobre homem. E muito menos a mutilação que, admirados e confusos, verificaram os médicos no corpo do magistrado. Sabe-se apenas que dentro nova prateleira, justamente no lugar onde o crucificado deveria estar, havia um enorme frasco de salmoura. E que no interior do imenso e translúcido pote de conserva flutuava um dedo cruelmente decepado, adornado por um anel de magistrado.

Se eu pudesse jurar, diria claramente que nada tive a ver com isso tudo.

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