A FERA DE CASTRO LABOREIRO - Narrativa verídica - Narrativa clássica - Pinho Leal



A FERA DE CASTRO LABOREIRO
Pinho Leal
(1816 – 1884)

Em 1861 foram devastadas as povoações galegas de Padrenda, Monte Redondo e Gazgoa, por uma fera, que uns diziam ser lobo; outros, tigre; outros, javali etc.

Dali passou a Portugal e encheu de terror as povoações de Castro Laboreiro e imediatas, fazendo muitas vítimas.

Só em um dia, matou duas crianças de 11 anos, em Castro Laboreiro, devorando uma e despedaçando outra. Não era raro encontrar aqui um braço, acolá uma perna, além um crânio; principalmente nas freguesias galegas.

Tudo andava horrorizado. Ninguém saía de noite, e, mesmo de dia, só bem armado e nunca só.

O povo, sempre propenso ao maravilhoso, ligou várias histórias sobrenaturais a este acontecimento. Segundo uns, era a fera — um filho indigno, amaldiçoado por seus pais. Segundo outros, era um Caim que tinha assassinado um seu irmão. Outros pretendiam que era uma alma do outro mundo. Os mais espertos sustentavam que era um lobisomem — e os mais sérios teimavam que era, nem mais nem menos, o diabo em pessoa.

Combinaram-se todos os povos destes sítios para fazerem uma grande montaria ao animal feroz, qualquer que fosse a espécie a que pertencesse.

Reuniu-se grande número de povo no terreiro da capela d'Alcobaça, limites de Fiães e Castro Laboreiro, e mais de 300 homens investiram com a floresta das Ramalheiras. Não apareceu a fera, mas achou-se um rapaz, de 14 anos, horrorosamente ferido por ela, e salvo por umas vacas, que andava guardando, as quais se atiraram resoluta mente ao animal feroz, e o fizeram fugir. O rapaz escapou. Esta fera apareceu nestes sítios por duas vezes, com intervalo de dois anos, demorando-se de cada uma alguns meses. Desapareceu sem se saber como, nem para onde. Também nunca se chegou a saber positivamente que espécie de animal era. Pelos sinais que davam os que tiveram a infelicidade de o ver, supõe-se ser um grande tigre, fugido da jaula de qualquer domador de feras.

Fonte: Portugal Antigo e Moderno, Vol. III, 1874, p. 184.

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