UMA VISÃO MACABRA - Narrativa Clássica Fúnebre - Tomás de Torquemada


UMA VISÃO MACABRA
Tomás de Torquemada
(1420 – 1489)
Tradução: Luiz de Castro
 (sec. XIX).

(Os mais graves escritos da idade média, tanto eclesiásticos como profanos, estão cheios de visões. Ouçamos uma de Torquemada.)

Um cavaleiro espanhol, namorado duma freira, empraza-a para um encontro na igreja do convento, tendo-se previamente munido duma chave falsa.

Soa meia noite na torre ao transpor ele os umbrais do santuário. A igreja está iluminada e armada de preto. Diante duma essa[1] cercada de tochas acesas, reza-se o ofício dos finados.

De repente, vê-se enfileirar uma procissão de monges a cantar o Dies irae. Gelado de terror, acerca-se o cavaleiro a um padre e pergunta-lhe quem era o defunto cujos funerais se celebram. Em resposta, ouve o seu próprio nome. Dirige igual pergunta a segundo frade e depois a terceiro: a resposta é sempre a mesma.

Tomado de vertigem, foge ele da igreja espavorido e monta a cavalo. Dois enormes mastins negros o acompanham, correndo cada um do seu lado.

Ao chegar ao castelo, entram juntamente com o cavaleiro os dois mastins, e os cães o estrangulam à vista dos servos, que o não podem socorrer, senão com o sinal da cruz.

Fonte: Revista Popular/RJ, ano I, tomo III, 1859.



[1] Estrado onde se coloca o caixão do defunto durante o velório ou cerimônia fúnebre.

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