OS ANÕES DE BERGEN - Conto Clássico Fantástico - Anônimo do séc. XIX



 

OS ANÕES DE BERGEN

Anônimo do séc. XIX

 

Existe na ilha de Bergen, Noruega, segundo a opinião do povo, uma multidão de pequenos espíritos que habitam o interior das montanhas. Uns são luminosos e de natureza benévola; outros, sombrios e muito maus. Têm uma morada resplandecente de prata e de cristal e passam a vida alegremente.

Às vezes, abrem a porta da montanha e vão correr pelos campos. Se, nessas excursões, um anão perde algum dos objetos de que usa diariamente — como, por exemplo, um pequeno boné com guiso ou um dos seus sapatos de vidro —, cumpre resgatá-lo, custe o que custar.

Um camponês, chamado Johannes Wilde, resolveu surpreender um desses pequenos entes de que podia esperar uma fortuna inteira. Saiu à meia noite, levando um frasco de aguardente, e deitou-se no declive da montanha habitada pelos anões. Ali, ficou em perfeita imobilidade, fingindo estar ébrio. Um momento depois, chegam os anões, que, vendo aquele homem estendido no chão, passam sem receio diante dele e vão dançar ao luar.

Mas Johannes Wilde avista um que acabava de deixar cair um sapato, arremessa-se logo para o precioso calçado, toma-o e foge.

No dia seguinte, o anão disfarça-se de mascate e vai à casa de Johannes Wilde para comprar-lhe o seu sapato. O astuto camponês o reconhece, despreza os preços oferecidos pelo falso mascate, e finge que quer ficar com o sapato.

Enfim, o desgraçado anão, desesperado, pergunta-lhe quanto quer pelo sapato, e João Wilde o restitui com a condição de achar um ducado de ouro em cada sulco que fizer com o arado.

O ajuste está feito. O anão volta para a sua montanha; o camponês corre a seus campos. Guia com mão trêmula de alegria a relha do arado, e no fim do primeiro sulco vê brilhar — ó felicidade!  — um belo e novo ducado de ouro.

Todo o dia lavra o seu terreno e todo o dia colhe um ducado. Volta nos dias seguintes e trabalha desde o alvorecer até a noite. Compra os mais vigorosos cavalos e os excita sem cessar.  Quanto mais ducados tem, mais quer ter. E anda, cava e lavra continuadamente. Nada de descanso, de paz, de alegria: um único pensamento o ocupa, o desejo de ter ouro, sempre ouro e mais ouro.

Enfim, tanto trabalhou que, um dia, caio morto de fome e de fadiga, e achou-se o seu quarto cheio de ducados dourados.

 

Fonte: “Museo Universal”, edição de  23 de julho de 1842.

 

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