PARTOS EXTRAORDINÁRIOS E OUTRAS ABERRAÇÕES - Narrativa Classicas Fantásticas e Sobrenaturais - Juan Eusebio Nieremberg

PARTOS EXTRAORDINÁRIOS E OUTRAS ABERRAÇÕES

Juan Eusebio Nieremberg

(1595 – 1658)

Tradução de Paulo Soriano



PARTOS EXTRAORDINÁRIOS


Quando o monstro tem uma aparência distinta da da mãe e do pai, deve-se considerar se o parto é principal e com os ritos conhecidos da natureza; então, mesmo que a sua aparência seja muito diferente, poderá, em alguns casos, ser qualificado como da mesma espécie, porque apenas a aparência não convence totalmente e, ordinariamente, o nascituro terá algumas características do que realmente é. Mas, se o parto não for principal, senão acessório ou acidental, então a criatura seria de distinta espécie e deve-se entender que não foi gerada na mãe pelo vigor seminal, senão pela putrefação, como muitos animais são gerados da terra.

Em Salerno, quando parem, as mulheres expulsam consigo criaturas muito asquerosas — quais ratos — que estavam hospedadas em seus ventes e ali cresciam.

Também uma mulher pariu, em sequência ao parto principal, uma cobra, que se havia entranhado no útero, e que havia destroçado e picado, lá dentro, a criancinha.

Pois, assim como, espontaneamente, geram-se vários animais na terra, em virtude de alguma putrefação, também assim os humores e o alimento no corpo podem ser corrompidos, de molde a criarem-se prodígios na entranha das mães, à semelhança das entranhas de terra.

Como adverte Cornélio Gema1, quase não há cavidade no corpo humano onde não se tenham visto, a reproduzir-se, vermes, sapos, lagartixas, salamandras e outros animais diversos. Estes, muitas vezes, são expelidos pelos esgotos comuns dos nossos corpos, e não é grande coisa que, talvez, encontrando aquela porta aberta, sejam ejetados com a criança. E, se acontecesse que o produto do parto principal não tivesse nenhum vestígio do pai ou da mãe, mas que, em todos os aspectos, fosse distinto de ambos, poder-se-ia dizer que foi engendrado pela corrupção e pelo vício, a menos que, por disposição superior à natureza, como muitas vezes acontece, nascesse o monstro de diversa figura e espécie dos pais, como castigo particular a estes, ou por alguma significação pública, e geralmente se presume algum crime; e, assim, as leis não qualificam tais partos como humanos.


O PEQUENINO MONSTRO DE LISBOA


Acerca do batismo de monstros duvidosos, é necessário muito cuidado ao espargir (em batismo) os que nascem com formas humanas muito estranhas e artificiais, caso se conclua que eles têm, provavelmente, uma alma humana.

Digo isto porque é possível que aquelas feições exteriores não façam parte do monstro, senão apresentem-se como uma cobertura e uma túnica descontínua em que ele está envolto.

Quanto a um monstro que, como já disse, nasceu em Portugal no ano de 1628, armado de muitas placas, houve dúvidas se seria batizado. Resolveu-se, acertadamente, que sim; morreu e foi enterrado.

A notícia chegou ao vice-rei e ao arcebispo, ambos de Lisboa, e, para que fossem informados do incidente, emitiram a ordem de exumação do cadáver.

Abriram o sepulcro, tomaram-lhe a mão coberta de placas para tirá-lo dali, e da criança extraiu-se uma manopla inteira, como se houvessem tirado uma luva, ficando o garotinho com a mão formada e limpa que tinha sob a guante.

Mas, caso a água do batismo tenha caído somente sobre as placas descontínuas, e não sobre a parte do rosto que a criancinha tinha nu, não estaria ela batizada.


NEREIDAS2


As nereidas são peixes com a parte de baixo do corpo feminina. Na época de Augusto, foram vistas na França e, também, em Portugal.

Eliano escreve que são encontradas perto de Taprobana, e Masario atesta que foram vistas por marinheiros.

No rio Cauma, em Moçambique, encontra-se a peixe-mulher, que tem metade do corpo feminino, e é muito trabalhoso aos portugueses obstarem que os seus escravos copulem com esses peixes, porque os cativos vão ao rio, para esse fim, como se fossem a um prostíbulo.

Mas é sobretudo ilustre o testemunho de Alexandre Napolitano, que cita Teodoro Gaza, que as viu com os seus próprios olhos.

Não faz muito tempo que uma nereida foi encontrada na Frísia. Era um monstro marinho — sendo metade peixe e metade figura de uma jovem mulher — que viveu alguns anos e aprendeu a fiar, como afirmavam Cardano, Belonio e nosso Cornélio.


Fonte: “Curiosa Filosofia y Tesoro de Maravillas de la Natureza”, edição de Pedro Lavaleria, Barcelona, 1644.


Ilustração de autor anônimo do séc. XVII (fonte: "Relación verdadera de un monstruoso niño, que en la Ciudad de Lisboa nació a 14 del mes de Abril de1628").


Notas:

1Cornelius Gemma (1535 – 1578), médico e astrônomo flamengo.

2Ou sereias. 

 

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