A COISA NA PORTA - Conto de Terror - Jorge Vieira



A COISA NA PORTA

(Jorge Vieira, classificado no Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror)


         Poucas pessoas são realmente capazes de apreciar a beleza da ignorância. Invejo os que sorriem tranquilos e que, obviamente, não passaram pelo que passei ou viram as coisas terríveis que vi. Nas horas vazias, quando meu pensamento voa livre, sou transportado para aquela casa onde vivi os momentos de mais puro terror. Ainda estremeço ao lembrar daquele som rítmico e abafado de batidas na porta.

         Dezenove anos se passaram desde o incidente no número 85 da Rua Oak e ainda tenho visões horrendas daquele lugar maldito.
         O inverno de 1966 foi particularmente severo com a população da pacata Pine Heights, uma cidadezinha no norte de New Hampshire, onde havia morado minha vida inteira e onde nunca mais pisaria. Na primeira semana de dezembro a neve já começava a forrar meu quintal com uma fofa camada de brancura imaculada. O noticiário na rádio prometia vinte e dois graus abaixo de zero, o que significava que estava na hora de abastecer a despensa para não ser pego desprevenido quando as ruas e estradas já estivessem fechadas devido ao clima.

         As lojas do centro da cidade estavam apinhadas de pessoas que tiveram a mesma brilhante ideia que eu, e uma viagem que duraria não mais que uma hora já se arrastava pela terceira. Após ficar esperando uma pequena eternidade naquela imensa fila do caixa, estava finalmente saindo do supermercado, já com tudo empacotado.

         Aproveitei a viagem para colocar as correntes nos pneus da minha caminhonete, cuja lataria já apresentava todos os sinais de idade avançada. Um pedaço da tintura alaranjada já havia se desprendido da lateral dando espaço para a ferrugem que se espalhava como ervas daninhas.

         O vento uivou durante todo o trajeto da volta. Embora o branco que pintava o topo dos pinheiros ao longo da rodovia conferisse a eles uma aparência serena, algo pesava no ar frio de dezembro. Mais de uma vez os pelos de minha nuca se eriçaram como se reagissem a algo hediondo e hostil, uma presença que quase podia ser vista.

         Cheguei algumas horas antes de escurecer e vi os Thompsons, meus vizinhos do lado, carregando suas malas até o carro. Eric e Lilly formavam com seus dois filhos a típica família americana, daquelas que vemos em anúncios de jornal e ouvimos nas radionovelas. Quando me mudei para Pine Heights, alguns anos após a guerra, eles foram os primeiros a me darem as boas-vindas. Pouco tempo depois de minha chegada, vieram seus filhos. Primeiro Edgar e, três anos depois, a Hannah. Trocamos acenos breves enquanto Eric contava sobre a visita que faria a sua sogra na Florida.

         — Ela nos chamou para passar o Natal por lá — disse entusiasmado, enquanto eu descarregava minhas compras da caminhonete. Não parecia muito contente de estar indo, porém eu estava muito mais interessado no que eu estava fazendo do que em escutar mais uma ladainha de Eric.

         Depois de uma série de “uhums” e “entendos” me despedi e entrei. Uma torrente de vento polar se esgueirou pelas minhas costas, levantando todos os pelos dos meus braços e nuca no momento em que cruzei a porta de entrada. O meu estômago afundou num mergulho suicida enquanto uma injeção de adrenalina corria alucinada por minhas veias. Uma respiração inquieta e errática se materializou em algum ponto atrás de mim. Respirei fundo e tentei reunir o pouco de coragem que me sobrara. Virei de uma vez.

         Nada.

         A porta ainda aberta enquadrava a varanda dos Fergusson à frente, onde uma rena de madeira posava solene, parcialmente escondida embaixo de uma generosa camada de neve. Que merda é essa?

         Saí e olhei ao redor, mas não havia nada para ser visto ali. A respiração sumira. Voltei para dentro e guardei todas as coisas na despensa. Finalmente estava preparado para o inverno. O dia não tardou a escurecer, e logo minha mente tratou-se de esquecer daquele calafrio de mais cedo, ocupando-se com assuntos mais mundanos e corriqueiros.

         Os dias estavam progressivamente mais frios e a neve começara a se acumular mais rápido do que eu podia retirá-la. Algumas crianças brincavam a algumas casas de distância. Construíram um boneco de neve de aspecto brincalhão mas o abandonaram para dar vazão à energia numa divertida guerra de bolas de neve.

         O Natal chegara solitário como sempre havia sido. Eu parti para a guerra muito cedo sem deixar mulher ou filhos para trás, e estes também não vieram quando tudo terminou. Na rádio finalmente anunciaram o fechamento das estradas após uma longa sessão de temas natalinos. A previsão de reabertura era março. Filhos da mãe! Ainda bem que me estoquei até as tampas de comida e água. A tão prometida nevasca parecia cada vez mais próxima. Para quem vive em Pine Heights, invernos intensos não são surpresa, mas aquele ano trazia consigo algo diferente, algo vil.

         A tempestade veio durante a noite do dia vinte e nove de dezembro. Os ventos violentos ameaçavam dobrar as janelas e portas em suas dobradiças. Eu cochilava sob o fogo da lareira quando o uivo da ventania me acordou. A casa rangia e relinchava como se a qualquer momento fosse ser arrancada de sua fundação. A temperatura caíra uns dez graus e nem mesmo a lareira e as diversas camadas de cobertores conseguiam me proteger do frio penetrante. A contragosto levantei e fui até a cozinha. Acendi o fogão e coloquei uma boa quantidade de água para ferver. Chá e uma bolsa de água quente eram as únicas coisas das quais eu precisava naquele momento. O vapor que exalava da panela desenhava estranhas formas no ar gélido. Um baque surdo veio de algum ponto no outro cômodo. A janela da sala se abrira com uma lufada impetuosa. Corri e fechei-a. Os pelos do meu braço se levantaram num só arrepio. Novamente, aquela respiração invisível começou em algum ponto logo atrás de mim. Fiquei imóvel. A respiração continuou. Eu era o único naquela casa, tinha que ser! Forcei minhas pernas a funcionar e voltei a cozinha, terminei de encher a bolsa e despejei o chá já pronto numa xícara. Subi apressado em direção ao meu quarto. Estava já no penúltimo degrau, ao topo da escada, já mais tranquilo…

         TUM ... TUM ... TUM …

         Cada músculo do meu corpo se enrijecera. O coração tentava ruidosamente abrir um buraco contra as costelas, quase sobrepujando a cacofonia que se alastrava lá fora. O horror mantinha cada pelo do meu corpo em pé. Os sons vinham da porta de entrada. Mas nesta tempestade?! Quem se atreveria a aventurar por aí?! Os pensamentos corriam pela minha cabeça num frenesi insano. Os segundos se transformaram em uma eternidade enquanto eu encarava a escuridão à minha frente. Ouvi a tempestade contra as janelas e as árvores da rua e, durante muito tempo, foi só isso que ouvi.

         Foi apenas o vento, menti. Estou enlouquecendo, contemplei com horror a possibilidade. Aos vinte e um anos me alistara para servir o país na segunda grande guerra. Vi de perto os horrores dos campos de concentração e desde cedo tive que me acostumar com a morte e com a crueldade do ser humano. Muitos morreram ao meu lado, das piores e mais grotescas formas imagináveis. Ainda assim, sempre mantive minha cabeça no lugar. Nunca permiti que os horrores inenarráveis que vivi durante aqueles fatídicos anos influenciassem minha sanidade. Mas ali, parado no penúltimo degrau da escada com os olhos cravados nas trevas, parecia que a qualquer momento minha mente sucumbiria, escorregaria para fora de alcance e se renderia. Me agachei e sentei no último degrau, abraçando os joelhos e ouvindo atentamente em busca daquelas batidas.

         Não sei dizer quanto tempo havia passado, mas os primeiros raios da manhã já se esgueiravam para dentro da casa. Um lampejo de vergonha iluminou meu rosto. Havia passado a noite acuado pelo medo, medo de quê?

         A borrasca continuava lá fora mas diminuíra de intensidade. Subi ao quarto e deitei, mas não dormi. Levantei não muito depois, ainda moído de cansaço. O resto do dia foi uma sucessão de estranhezas. No rádio estática, interrompida apenas pela ocasional transmissão de Santa Claus is coming to town (traduzindo, Papai Noel está vindo para a cidade), que já se impregnara em minha cabeça. Depois de ouvi-la por uma quinta vez desliguei o aparelho num acesso de raiva. Mais de uma vez pude jurar ter escutado sons estranhos atrás de mim, como vozes cochichando algo nefasto, porém sempre que virava para confrontar os intrusos não havia ninguém lá exceto a sensação de vergonha por estar tão paranoico.

         O temporal enfim havia dado trégua. Passei a tarde toda desobstruindo as portas e janelas da neve que já se acumulava a um metro e meio de altura. O risco de confinamento e o medo do isolamento eram ótimos motivadores. A tarde já estava no fim, assim como meu trabalho. Terminara todas as janelas e já havia começado a limpar a porta da frente. Mas ... que diabos é isso? Conforme apartava a neve, estranhas marcas surgiam recobrindo boa extensão do batente. As batidas da noite anterior soaram em minha cabeça em resposta à nova descoberta. Nenhuma criatura viva conhecida pelo ser humano era capaz de produzir tais marcas. Um padrão frenético, demente, conferia àqueles arranhões uma natureza macabra. Algo hediondo esteve na minha porta ontem à noite e queria desesperadamente entrar.

         A noite chegou pesada. O rádio voltara a transmitir sua programação regular. Aparentemente o tempo instável retornaria no dia seguinte. Entre as notícias e as radionovelas, colocavam os maiores sucessos musicais do natal. Dormi em algum ponto da reprise de Baby it’s cold outside...

         Estava num corredor que se estendia para além do alcance da vista. Andava trôpego, errante. As paredes sustentadas em ângulos impossíveis se contorciam ao meu redor num furor demente. Uma voz rouca feito trovão me dizia coisas ininteligíveis, mas sabia que me chamava. Me atraía e me mantinha caminhando. Após uma eternidade cambaleando, o corredor começava a alargar. A voz cada vez mais alta em minha cabeça, resmungava palavras atrozes num idioma que eu não era capaz de compreender. Meus pés me levavam em direção a uma bocarra nojenta a qual não via, mas ouvia claramente. Murmúrios infestavam meus ouvidos. Agouros de morte e destruição que se esgueiravam por entre os rugidos demoníacos que emanavam da coisa.

         O rádio ligara abruptamente me arrancando daquele sonho perverso. “Ele vê quando está dormindo. Ele sabe quando está acordado …” Aquela maldita música outra vez. A camiseta estava pressionada contra a pele ensopada em um suor gelado. “É melhor tomar cuidado. É melhor não chorar … Papai Noel está vindo para a cidade …” O rádio continuava regurgitando versos da canção. O frio lancinante emanava ondas de dor a todas as minhas extremidades. Sentei-me no sofá ainda atordoado do pesadelo enquanto o relógio marcava pouco mais de três da madrugada.


         TUM … TUM … TUM …


         A música parara. Merda! Num pulo me pus de pé enquanto encarava as sombras difusas lançadas contra o hall de entrada. Nada se ouvia exceto o vento lá fora.


         TUM … TUM … TUM …


         Desta vez a luz se apagara, me lançando nas trevas mais profundas. Levei alguns longos segundos para me acostumar a ausência de iluminação. Meu coração batia tão forte que tenho certeza de que podia ser ouvido à distância. Aquilo podia sentir o medo exalando de cada um dos meus poros. Aquilo gostava disso. Com passos inseguros tracei meu caminho até o hall, parando de frente para a porta de entrada de onde vinham os baques surdos. Tremia da cabeça aos pés.

         Uma respiração arfante vinha do outro lado da porta de madeira maciça. Parecia vir de algo titânico. Não soava humano.


         TUM … TUM … TUM …


         A terceira leva de batidas estremeceu toda a estrutura da casa. “Ele vê quando está dormindo. Ele sabe quando está acordado …” o rádio voltara a resmungar ao fundo. A casa inteira tremia, instável. Os pratos na cozinha eram lançados contra o chão de dentro de seus armários cujas portas abriam e fechavam freneticamente a cada solavanco da casa. O som úmido das conservas se despedaçando junto com as prateleiras da despensa. Panelas se chocavam umas contra as outras, juntando-se à sinfonia infernal. As janelas explodiram, espalhando cacos de vidro para todos os lados e dando passagem às violentas rajadas de vento e neve. Um brilho funesto emanava das frestas da porta, intensificando-se cada vez mais ao ponto de me fazer levar as mãos ao rosto para evitar que fosse ofuscado. Uma voz blasfema trovejava comandos numa língua esquecida de algum lugar ancestral além daquela porta. Eu não entendia o que dizia, mas sentia. Queria que eu abrisse a porta, que eu o deixasse entrar.


         — QUEM É VOCÊ? — tentei me sobrepor ao caos que se alastrava na casa. — QUE DIABOS VOCÊ QUER?


         Os ventos cessaram. Tudo ficou em silêncio. A casa parecia uma zona de guerra. Os móveis e louças jaziam em pedaços pela casa, revirados e forrados por uma camada espessa de cacos de vidro e neve. A única coisa que permanecia era aquele brilho fantasmagórico que emanava das frestas e iluminava feito holofote, lançando sombras desfiguradas sobre as paredes. Com um rangido macabro a porta se abriu. Fiquei momentaneamente cego com toda aquela luz que saia de dentro do portal. Quando ela finalmente dissipou pude abrir os olhos. Acreditei por um segundo ter visto a pomposa rena de madeira dos Fergusson exibindo-se graciosamente na varanda da casa à frente. Minha mente demorou a entender o que acontecia diante dos meus olhos. O terror veio como um soco no estômago. Não havia rena, nem casa, nem rua e nem nada.

         Estrelas morriam em explosões silenciosas espalhando nuvens de poeira espacial para todos os cantos, enquanto outras se formavam numa dança ancestral. Planetas distantes e desconhecidos desenhavam órbitas concêntricas ao redor de enormes buracos negros. O cosmos descortinava adiante. Com terror percebi que boa parte do que via estava sendo aos poucos consumido por uma entidade disforme, uma massa negra de bocas, dentes e olhos que se formavam e desapareciam. Tentar entender o que eu via era desafiar a própria sanidade. Eu só viria notar que havia urinado mais tarde. E então, senti. A imensidão de olhos e bocas e dentes olhava para mim. Aquilo sentia que eu estava ali. Ele, ou isso, sabia! A voz de trovão ecoou nos confins do universo.

         — EU SOU O DEVORADOR DE MUNDOS! … SOU O CAOS PRIMORDIAL … ESTAVA NO COMEÇO DE TUDO E SEREI O FIM DE TUDO!

         Aquelas palavras vibraram em minha mente. Num movimento desajeitado venci o medo e a distância até a porta. Batendo-a num estrondo. Escorei-me contra a madeira e me deixei escorregar até estar sentado. A respiração ofegante se acalmava dando espaço à estranha sensação de alívio que percorrera minhas veias. Ali permaneci até o amanhecer, quando recolheria minhas coisas e sumiria. Na manhã seguinte o jornal local exibia sua manchete em letras garrafais:


1966 Termina com desaparecimento estranho
         Damien Royce, 48 anos, continua desaparecido desde a noite do 30 de dezembro. A polícia ainda investiga o caso. Não há sinais de entrada forçada mas a casa do ex-soldado havia sido revirada e seus pertences levados. Há possibilidade de fuga voluntária, embora os motivos ainda sejam um mistério.


         O clima lá fora já é de festa. Ainda é dia trinta mas as celebrações sempre começam cedo com os franceses. 1985 foi um ano até que bom, não tenho muito do que reclamar. Todos estão querendo dar as boas-vindas ao ‘86. Mas não consigo evitar esse calafrio que sempre me dá nessa época do ano. Não importa quanto tempo passe aquilo que vi sempre irá me acompanhar. Que estranho?! Achei que tivesse fechado as janelas.

         Dezenove anos não são suficientes para apagar tudo da memória. Que barulho é esse? …

         Alguém aí? — Deve ser apenas um rato. O universo tem suas próprias maneiras de … “É melhor tomar cuidado. É melhor não chorar … Papai Noel está vindo para a cidade ...”, a música vem do rádio na sala. A respiração errática vem de algum ponto atrás.

         — Que brincadeira é essa? Quem está aí?


         TUM … TUM … TUM …


Nascido em 3 de dezembro de 1994, Jorge Vieira foi criado por sua mãe que sempre fez de tudo para colocar a educação em primeiro lugar para seu filho. Aos 6 anos mudou-se para A Coruña, uma cidadezinha localizada na Galiza (Norte da Espanha). Lá ele começou a desenvolver seu ávido interesse pela leitura. Numa cidade estranha e ainda tão novo, descobriu nos livros os amigos que não fizera na escola. Aos 8 retornou ao Brasil, onde se destacou nas aulas de português e inglês. Conviveu durante um período com sua avó, de quem herdou o gosto pelo horror. Agora, aos 23, Jorge cursa Letras e é professor de idiomas em uma escola especializada, na zona leste de São Paulo. Mantém a escrita como paixão desde sempre, escrevendo diversos contos de horror ainda não publicados e em processo de terminar o manuscrito de seu primeiro romance.

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