MORFINA - Conto Clássico de Horror, Loucura e Morte - Humberto de Campos



MORFINA
Humberto de Campos
(1886 – 1934)

Quando o Carvalho Souto, meu companheiro de escritório, sofreu aquele acidente de automóvel em que fraturou duas costelas e o braço esquerdo, eu, ia vê-lo quase diariamente à Casa de Saúde Santa Genoveva, na Tijuca. A solicitude persistente com que velava pelo meu amigo, fez-me, em pouco tempo, íntimo dos médicos do estabelecimento. E de tal maneira que, trinta e quatro dias depois, quando o Souto recebeu o boletim concedendo-lhe "alta", eu contava já um amigo novo, na pessoa amável e mansa do Dr. Augusto de Miranda, que exercia, então, ali, as funções de subdiretor. Filho de médico, e neto de médico, Miranda nascera, pode-se dizer, no quarto ano de medicina. Aos sete anos já utilizava o seu pequenino serrote de fazer gaiolas, serrando, com ele, a perna dos passarinhos que apareciam com alguma unha doente.
Mediano de estatura, robusto de tórax, cabelos alourados e olhos entre o azul e o verde, o subdiretor da Casa de Saúde Santa Genoveva era uma figura grave e simpática. O rosto largo, e escanhoado, transpirava a energia serena e boa das almas fortes e tranqüilas. Daí a confiança que entre nós rapidamente se estabeleceu, a franqueza com que me falou, naquela manhã, de uma das suas doentes que ali se achava, ainda, hospitalizada.
— Quer vê-la? Vamos... — convidou.
A Casa de Saúde Santa Genoveva está situada, como se sabe, na Estrada Velha da Tijuca, em um ponto pitoresco, dominando a cidade. Ensombram-lhe as cercanias de antigo solar, algumas dezenas de mangueiras enormes, e árvores outras, de fronde compacta e agasalhadora. Sob uma dessas mangueiras, estirada em uma espreguiçadeira de pano branco e vermelho, achava-se uma senhora alta, de rosto longo e olhos cavados, mas apresentando na fisionomia cansada e enferma os traços da antiga distinção. Devia ter sido bela, com os seus cabelos negros de ondulação larga. E elegantíssima de porte, a avaliar pela graça do busto posto em relevo na postura em que se encontrava.
— Preste atenção, vamos passando... Depois que você conhecer a história trágica de sua vida, voltaremos... - disse-me o Dr. Miranda.
Entramos por uma estrada de mangueiras vetustas, e, enquanto caminhávamos lentamente na manhã fresca, o subdiretor, a voz tranqüila e pausada, me falava desta maneira:
— Aquela senhora que acaba de ver, foi casada com um dos meus companheiros de turma na Faculdade, e é a heroína de uma das tragédias mais terríveis que vieram ter aqui dentro o seu desfecho...
— O marido morreu? — indaguei.
— Não. Ela, porém, o perdeu sem que ele morresse: está desquitada. As senhoras desquitadas, são, em nossa terra, as viúvas dos maridos vivos.
Apanhou, no chão, um pequeno ramo uma nódoa na estrada limpa, e reatou:
— Filha de um advogado que morreu sem fortuna, esta moça, aos dezessete anos, casou com o colega de que lhe falo, o qual fez um dos mais belos cursos do seu tempo, mas não foi igualmente feliz na vida prática. No primeiro ano de casamento, veio-lhe um filho. Linda criança! Vi-a uma tarde, na rua, em companhia do pai, e não esqueci, jamais, a sua graça infantil... Quatro anos depois de casados, foi esta senhora uma noite atacada de cólica hepática de extraordinária violência. O marido recorreu à terapêutica indicada no caso, mas inutilmente. Compadeceu-se, e aplicou-lhe uma injeção de morfina. A doente sentiu alívio imediato, e dormiu, até à noite. Ao acordar, pôs-se a gemer novamente, e, em seguida, a gritar. Nova injeção. Novo sono. No dia seguinte, à tarde, voltaram os gemidos queixando-se ela dos mesmos padecimentos. Gemia, debatia-se, gritava, reclamando a injeção. Profissional inteligente, o marido certificou-se de que, verdadeira a princípio, a dor, agora, era simplesmente simulada. A morfina havia exercido a sua influência funesta! Por isso, não deu a injeção. Desiludida de alcançar o que pretendia, a esposa calou-se. E a tranqüilidade voltou, de novo, à intimidade do casal.
- E a tragédia?
- Espere, que a história é longa... Ao fim de algumas semanas, começou o meu colega a observar na senhora uns ímpetos de temperamento, uns excessos de paixão que o encantavam, porque ele era homem, mas que o preocupavam porque era médico e o alarmavam porque era marido. Pôs-se vigilante, e descobriu a verdade terrível: a esposa, seduzida pelas sensações das injeções que ele lhe aplicara, era presa, já, da morfinomania, consumindo diversas ampolas por dia! A sua assinatura havia sido falsificada, já, por mais de uma vez, no papel do consultório, em receitas de responsabilidade, pondo em perigo a sua reputação profissional.
O Dr. Miranda parou, por um momento, para acender um cigarro, e tornou:
- Com a sua experiência de clínico, o marido compreendeu a ineficiência do seu esforço individual para salvar a companheira infeliz. Por esse tempo, havia chegado da Europa um colega nosso, o Dr. Stewenson, que se tinha especializado na Alemanha e na Suíça na cura da toxicomania. Era um belo homem e um belo espírito, e o marido daquela senhora foi à sua procura, e expôs lealmente o seu caso doméstico. Pediu-lhe que tomasse sob os seus cuidados a esposa, e levou-a, no dia seguinte, ao consultório. Stewenson marcou o início do tratamento para outro dia. A moça foi, sozinha. O médico fê-la entrar para o seu gabinete, e fechou-o a chave. Em seguida, encheu duas seringas, aplicando uma injeção na cliente, e outra em si mesmo. E rolaram, os dois, abraçados, como dois loucos... Stewenson era morfinômano, e o seu anúncio como especialista contra os entorpecentes não visava senão atrair as senhoras viciadas, conquistando companheiras para os seus delírios...
— Que horror!...
—Ao fim de algumas semanas, o marido da pobre moça descobria a extensão tomada pelo seu infortúnio. A esposa, ela própria, confessou-lhe tudo, fornecendo-lhe os elementos para apurar a verdade. E ele apurou que era duas vezes desgraçado: o Dr. Stewenson era amante de sua mulher!... Diante disso, veio a separação, com o desquite. Não tendo sido judicial, o meu antigo colega de turma passou a dar uma pensão à esposa, que fixou residência apartamento em Copacabana, ficando ele num hotel no centro da cidade. Ele era, porém, um homem de temperamento apaixonado, e não podia esquecer a criatura a quem amara tanto, e que lhe havia dado as horas de paixão mais intensas da vida. Nenhuma outra mulher lhe satisfazia os sentidos e o coração. E ei-lo, na da noite, alta madrugada, abandonando o seu hotel e indo secretamente, bater à porta do apartamento de Copacabana, tornando-se um dos amantes de sua antiga mulher.
— Mas, isso é verdade? — perguntei,
— É verdade, e é ciência — respondeu-me o Dr. Miranda.
Havia rodeando um tronco de mangueira, um banco circular, de pedra. Sentamo-nos. E o subdiretor da Casa de Saúde Santa Genoveva reatou:
— A esposa, agora entregue a si mesma, continuava a tomar morfina, absorvendo doses espantosas. Uma tarde, achando-se em casa, encheu a seringa, e meteu a agulha na parte anterior da coxa. Apertou o sifão. O líquido desapareceu da agulha. No mesmo instante, porém, a pobre rapariga soltou um grito. Uma nódoa vermelha surgira-lhe diante dos olhos. E essa nódoa se transformou em chamas, em labaredas enormes, que a envolviam como se a tivessem precipitado numa fogueira. Um calor intenso, infernal, subia-lhe pelo corpo todo, e tudo era vermelho, tudo era fogo ante os seus olhos horrivelmente abertos. As mãos na cabeça, o pavor estampado na face, a infeliz gritou para a criada, que lhe fazia companhia: "Chamem meu marido, que eu estou morrendo!". Dizia, aos gritos, que estava sendo queimada viva, e rasgava as roupas, correndo pela casa, batendo-se nos móveis, pois que se achava completamente cega, não vendo senão línguas de fogo, chamas que se enroscavam no seu corpo, em furiosos turbilhões. Quando o ex-marido chegou, encontrou-a totalmente nua, o sangue a correr-lhe da testa. E descobriu, logo, a origem daquela crise: a agulha alcançara a artéria, entrando a morfina, diretamente, na circulação... Daí a sensação de incêndio dentro do qual se debatia, e a impressão de labaredas que a envolvessem e as tivesse diante dos olhos... Não podendo detê-la sozinho, chamou o ex-esposo dois empregados do prédio, que a subjugaram, e a amarraram, inteiramente despida, na cama, a fim de receber a única medicação aconselhável no caso, e evitar que se mutilasse na fúria com que se atirava pelo chão, pelos armários, pelas paredes...
- Coitada!
- Afinal, passou a crise. Dias e dias tinha ela permanecido entre a vida e a morte. Após as injeções sedativas desamarraram-na. Mas ficara com os braços feridos, as mãos feridas, o rosto ferido... O ex-esposo foi, então, de uma solicitude acima de todo louvor... Não a abandonou um só instante. Amor ou piedade, o certo é que ficou a seu lado até que a viu fora de perigo... Um dos primeiros cuidados da pobre moça, logo que recobrou os sentidos, foi ver o filhinho, que contava, então, cinco anos, e ficara com o pai, que o internara em um colégio em Botafogo. O desejo era legítimo, e, ao vê-la melhor, o pai foi buscar o menino. A desventurada, chorou muito, beijou muito o garoto, e, como fosse hora do almoço, o meu colega foi para a mesa, com outras pessoas da família que ali se achavam de visita, ficando a mãe e o filho no quarto próximo. De repente as Pessoas que se encontravam à mesa ouviram um grito: "Corram que eu estou matando meu filho! Corram, pelo amor de Deus!". Correram todos, e soltaram, diante do que viam, um grito de terror. A morfinômana tinha as mãos crispadas em torno do pescoço da criança, e estrangulava-a sem querer! Queria retirar as mãos, e não podia! Ao contrário do seu desejo, os dedos cada vez mais se contraíam, comprimindo as carnes do pequenito, que se tornara roxo, e cuja língua saía, já, da boca, com um filete de sangue... "Salvem meu filho!... Matem-me, mas salvem meu filho!...", gritava a pobre. Bateram-lhe nas mãos até lhe ferirem os dedos. Quase lhe quebram os braços, com as pancadas que lhe deram, para libertar a criança. Quando o conseguiram, era tarde. Minutos depois, o pequenino morria...
O subdiretor da Casa de Saúde Santa Genoveva não procurou ver o espanto que se estampava em meu rosto. Acendeu outro cigarro, e pôs-se de pé. Fiz o mesmo.
— Agora — continuou —, a desventurada senhora que ali viu, está boa. Mas a nossa vigilância em torno dela é enorme.
— Para que não volte à morfina?
O Dr. Miranda sacudiu a cabeça, lentamente:
— Não. Para que não corte, como tem tentado, as mãos com que estrangulou o seu filho!
E pusemo-nos a andar, de regresso, a cabeça baixa, em silêncio, um ao lado do outro.

Ilustração: Santiago Rosiñol (1861 – 1931)


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LANÇAMENTO DA EDITORA ESTRONHO: UM GATO NO JARDIM, de Tânia Souza


LANÇAMENTO DA EDITORA ESTRONHO: UM GATO NO JARDIM, 
de Tânia Souza


Conhecida pelos seus contos de terror, a escritora sul-mato-grossense Tânia Souza dedica-se, também, à literatura infantil. Recentemente, Tânia, numa belíssima parceria com o artista plástico paulista Lucas Zavagli, lançou o livro "Um gato no jardim", publicado pela Editora Estronho.

A história de uma história, segundo Tânia Souza: — "Um Gato no Jardim nasceu de um encontro com um gatinho (fofo) na calçada. Naquela tarde, um felino de olhos doces e grandes passeava pela rua, magrinho e com os pelos espantados, era impossível não ver o encanto da criaturinha. Era um gatinho preto. Por acaso, ouvi uma pessoa dizer que gatinhos pretos trazem azar. O tempo foi passando e mais de uma vez, ouvi e vi reações parecidas.

Descobri que muitos gatos pretos sofrem com a rejeição devido a essa má fama. Escrevi esta poesia, li com meus alunos, divulguei e finalmente, encontrei alguém que me ajudou a contá-la com lindas imagens. Este livro nasceu da vontade de mostrar que todos os animais merecem carinho e amor.

Que triste mesmo é não saber como os peludinhos podem ser encantadores.

Permita-se descobrir com a menina do jardim, o fascinante mundo dos miaus e boa leitura."

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NOVAS POSTAGENS DO BLOG LITTERATUS - Contos de Khalil Gibran, Giovanni Boccaccio e Oscar Wilde



NOVAS POSTAGENS DO BLOG LITTERATUS 
 Contos de Khalil Gibran , Giovanni Boccaccio e Oscar Wilde


Confiram no Blog LITERATUS  as novas postagens de clássicos da literatura:


O REI  SÁBIO, de Khalil Gibran, uma fábula maravilhosa sobre sanidade e loucura (ou vice-versa); 



ALIBECH E FREI RÚSTICO, de Givanni Boccaccio, um delicioso e hilariante conto em que uma inocente donzela se torna eremita e, vindo a morar com o Frei Rústico, por ele é ensinada como reenviar o Diabo ao Inferno. Um episódio licencioso do Decamerão, e 


O AMIGO DEVOTADO, de Oscar Wilde, um belíssimo apólogo sobra e a exploração dos inocentes e puros do coração.


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A VOLTA DE IMREY - Conto Clássico de Terror - Rudyard Kipling



A VOLTA DE IMREY
Rudyard Kipling
(1865 – 1936)
Tradução de Alfredo Ferreira
(1865 – 1942)

The doors were wide, the story saith,
Out of the night came the patient wraith.
He might not speak, and he could not stir
A hair of the Baron's miniver.
Speechless and strengthless, a shadow thin,
He roved the castle to find his kin.
And oh! 'twas a piteous sight to see
The dumb ghost follow his enemy !

 The Baron

Imray levara a cabo o impossível. Sem avisar, sem motivo concebível, em plena mocidade, no limiar da carreira, preferira desaparecer do mundo. Quer dizer, da pequena estação indiana onde vivia.

Na véspera, estava vivo, com saúde, feliz e em grande evidência entre as mesas de bilhar de seu clube. Na manhã seguinte, desaparecera e nenhuma busca pôde revelar onde estava. Sumira dos lugares habituais. Não aparecera no escritório na hora costumeira e seu docar[1] não fora visto nas vias públicas. Por isso e porque estava embaraçando, em proporção microscópica, a administração do império indiano. Esse império parou um momento microscópico para investigar o destino de Imray. Dragaram lagoa, sondaram poço, enviaram telegrama em toda a extensão das ferrovias e ao porto marítimo mais próximo, 2000km afastado dali, mas Imray não apareceu no fundo das caçambas de dragagem, nem na extremidade das linhas telegráficas. Desaparecera e ninguém mais o viu no lugar. Então o serviço do grande império indiano seguiu adiante, porque não podia ficar atrasado, e Imray de um homem passou a ser um mistério, uma dessas coisas sobre as quais as pessoas falam durante um mês nas mesas dos clubes e depois esquecem totalmente. Suas espingardas, cavalos e carruagens foram leiloados. O oficial superior escreveu uma carta absurda à mãe dele, dizendo que Imray desaparecera de maneira absoluta, e o bangalô onde ele morava permaneceu vazio.

Depois de se terem passado três ou quatro meses de calor escaldante, meu amigo Strickland, da polícia, fez acordo com o proprietário indiano para alugar o bangalô. Isso foi antes de ficar noivo de senhorita Youghal (história já contada noutra ocasião), e quando se dedicava a investigar a vida nativa. Sua vida era bastante estranha, e os homens se queixavam de sua maneira e costume. Havia sempre comida em casa, mas não havia hora certa para refeição. Comia em pé — e andando de um lado a outro —qualquer coisa que encontrasse no bufê, e isso não é bom para um ser humano. O equipamento doméstico se limitava a seis rifles, três espingardas de caça, cinco selins e uma coleção de varas de pescar, maiores e mais fortes que as de pescar salmão. Tudo isso ocupava a metade do bangalô. A outra metade era reservada a Strickland e a Tietjens, uma enorme cadela da raça rampur, que devorava diariamente a ração de dois homens. Ela se fazia entender por Strickland com linguagem própria e sempre que perambulava fora, e via coisas que poderiam destruir a paz de sua majestade a rainha imperatriz, voltava a junto do dono, levando a informação. Strickland tomava imediatamente providência, e o fim do trabalho significava transtorno, multa e prisão a outras pessoas. Os nativos acreditavam que Tietjens era um espírito familiar e a tratavam com a grande deferência nascida do ódio e do medo. Um quarto do bangalô era reservado para seu uso exclusivo. Tinha um estrado para dormir, um cobertor e uma selha d’água. Quando, à noite, alguém entrava no quarto de Strickland, o seu costume era jogar o intruso ao chão e o segurar, latindo, até alguém chegar com luz. Strickland lhe devia a vida. Estava na fronteira, buscando um assassino local, que veio na madrugada cinzenta para o enviar muito além das ilhas Andamã. Tietjens agarrara o homem quando ele se arrastava a dentro da tenda de Strickland com um punhal entre os dentes. Depois de se provar o propósito assassino aos olhos da lei, foi enforcado. Desde aquela data, Tietjens usara uma coleira de prata maciça e um monograma bordado em seu cobertor, que era de lã de caxemira, porque Tietjens era uma cadela mimada.

Por nada seria capaz de se separar de Strickland. Uma vez, quando ele estava doente com febre, dera muito a fazer aos médicos, porque não sabia como tratar o dono e não queria permitir que alguém o fizesse. Macarnaght, do serviço médico indiano, teve de bater na cabeça da cadela com a coronha do revólver antes de ela compreender que devia dar lugar aos que pretendiam ministrar quinino.

Pouco depois de Strickland alugar o bangalô de Imray, meu serviço me levou até aquele porto e, naturalmente, encontrando os alojamentos do clube cheios, fui me hospedar na casa de Strickland. Era um bangalô confortável, com oito cômodos e cuidadosamente coberto de colmo alcatroado para evitar goteira. Abaixo do alcatrão do telhado corria um forro de pano que parecia um teto de estuque bem caiado. O proprietário o pintara de novo quando Strickland alugara o bangalô. Salvo os que sabem como são construídos os bangalôs indianos, ninguém suspeitaria que acima do tecido do forro havia o escuro vão de três abas de telhado, onde as vigas e a parte inferior do colmo alcatroado abrigavam toda espécie de rato, barata, formiga e outras coisas imundas.

Tietjens me recebeu na varanda com um latido semelhante às badaladas do sino da catedral de São Paulo, pondo as patas em meus ombros para mostrar que estava contente em me ver. Strickland procurara improvisar uma espécie de refeição que chamou de almoço e, imediatamente depois de a engolir, saíra a tratar dos negócios. Fiquei sozinho com Tietjens e meus negócios. O calor sufocante do verão cedera e se transformara no calor úmido da chuva. Não havia viração no ar aquecido, mas a chuva caía grossa sobre a terra e erguia uma névoa azulada ao respingar. Os bambus, abacateiros, sapotizeiros e mangueiras, no jardim, estavam imóveis, enquanto a chuva quente escorria sobre os troncos e as rãs começavam a coaxar entre a sebes de aloés.

Um pouco antes do escurecer, quando a chuva estava mais forte, sentei-me na varanda do fundo, escutando a chuva encachoeirar das biqueiras do telhado. Coçava-me, porque estava cheio de brotoeja. Tietjens veio a mim e pousou a cabeça em meu regaço, parecendo muito triste. Por isso, dei-lhe biscoito quando o chá ficou pronto, e tomei chá na varanda do fundo por causa do ligeiro frescor que se sentia ali. Os cômodos da casa estavam escuros às minhas costas. Podia sentir o cheiro da coleção de arreio de Strickland e do óleo das espingardas, e não tinha vontade de ir me sentar no meio daquelas coisas. Meu criado se aproximou, na luz crepuscular, com a roupa de linho colada ao corpo ensopado e disse que chegara um cavalheiro que desejava falar com alguém. A contragosto, mas somente por causa da escuridão dos quartos, fui à sala de visita vazia, dizendo ao criado para trazer-me uma luz. Com ou sem um visitante esperando, acreditei ver um vulto perto da janela, mas, quando chegou a luz, nada havia além da chuva grossa e do cheiro de terra molhada. Insinuei ao criado que não fora muito esperto, e voltei à varanda para conversar com Tietjens, que saíra à chuva, e a muito custo consegui fazê-la voltar para junto de mim, mesmo oferecendo biscoito e torrão de açúcar. Strickland voltou ensopado até os ossos, quase na hora do jantar. A primeira coisa que disse foi:

— Alguém esteve aqui?

Expliquei, desculpando-me, que meu criado me fizera ir até a sala de visita com rebate falso ou que algum desocupado tentara visitar Strickland, mas depois, mudando de ideia, se retirara sem deixar o nome. Strickland mandou servir o jantar sem fazer comentário, e, visto que era um jantar de verdade, inclusive com toalha branca posta, sentamo-nos à mesa.

Às 9h Strickland quis se deitar e eu também estava cansado. Tietjens, que estivera deitada sob a mesa, se levantou e foi à varanda mais abrigada assim que o dono seguiu para o quarto, que era junto do confortável aposento preparado para Tietjens. Se uma esposa quisesse dormir fora com aquela chuva forte, não teria importância, mas Tietjens era uma cadela, portanto, um animal melhor. Olhei para Strickland, esperando vê-lo chamar a cadela com um assobio. Sorriu de maneira estranha, como um homem sorriria depois de revelar uma tragédia doméstica.

— Ela faz isso desde que me mudei para cá. Deixemo-la aí.

A cadela era de Strickland, por isso nada observei, mas sentia tudo o que Strickland sofria por ser assim desprezado. Tietjens acampou no lado de fora da janela de meu quarto e eu ouvia um trovão após o outro rolar sobre o colmo do telhado e morrer longe. Os relâmpagos se espalhavam no céu como um ovo jogado se espalha numa porta de celeiro, mas a luz era azul-claro e não amarela e, olhando através de minhas cortinas de bambu entreabertas, eu podia ver a grande cadela em pé, desperta, na varanda, com o pelo das costas eriçado e as patas rígidas, tão esticadas como os cabos de aço de suspensão de uma ponte pênsil. Nos intervalos muito curtos da trovoada, eu tentava dormir, mas parecia que alguém precisava de mim urgentemente. Fosse quem fosse, tentava me chamar pelo nome, mas sua voz não era mais que rouco sussurro. A trovoada acabou, e Tietjens foi ao jardim e uivou ao luar nascente. Alguém tentou abrir a minha porta, andou dum lado a outro na casa, e parou, respirando alto, nas varandas. Exatamente quando eu ia adormecendo, pareceu-me ouvir um forte martelar e brados sobre minha cabeça ou à porta.
Corri ao quarto de Strickland e perguntei se estava doente e se me chamara. Estava deitado na cama, meio vestido, com o cachimbo entre os dentes. Disse:

— Imaginei que virias. Esteve caminhando na casa, há pouco?

Expliquei que vagueara na sala de jantar, na sala de fumo e mais dois ou três cômodos. Riu e me disse que voltasse à cama. Voltei e dormi até na manhã, mas, ao longo de todos meus sonhos inquietos, tinha a consciência de que estava fazendo uma injustiça a alguém não acendendo a seu desejo. O que eram esses desejos, não poderia dizer, mas alguém, ondeante, sussurrante, tateante, oculto e vago, me censurava por minha moleza e, meio acordado, eu ouvia o uivo de Tietjens no jardim e o crepitar da chuva.

Vivi naquela casa dois dias. Strickland ia ao escritório diariamente, deixando-me sozinho, durante oito ou dez horas, com Tietjens como única companhia. Enquanto a luz do dia durava, eu me sentia tranquilo e Tietjens também. Mas, no crepúsculo, eu e ela íamos ao terraço do fundo e procurávamos mútua companhia. Estávamos sozinhos na casa, que parecia entregue a um habitante com quem eu não desejava interagir. Nunca o via, mas podia ver as cortinas das portas entre os diversos cômodos se agitarem à sua passagem. Podia ouvir as cadeiras estalarem e os bambus se distenderem como se um peso acabasse de sair de cima. E podia sentir, quando ia buscar um livro na sala de jantar, que alguém estava esperando, na sombra da varanda da frente, eu me retirar. Tietjens tornava o crepúsculo mais excitante, olhando os quartos escuros com os pelos eriçados, e seguindo com o olhar os movimentos de algo que eu não podia ver. Nunca entrava nos quartos, mas os olhos se moviam atentamente. Isso era suficiente. Só quando meu criado vinha espevitar as lâmpadas, e deixar tudo claro e habitável, ela vinha ara junto de mim, e se sentava sobre os quartos traseiros, observando um homem invisível que se movia atrás de meus ombros. Os cachorros são companheiros alegres.

Expliquei a Strickland, com a maior delicadeza possível, que arranjaria alojamento para mim no clube. Apreciava muito sua hospitalidade, gostava de suas espingardas e varas de pescar, mas não me sentia bem com a atmosfera da casa. Ele ouviu calado até o fim e sorriu muito cansadamente, mas sem mofa, porque é um homem que sabe compreender as coisas.

— Fica. Descobre o que significa isso. Tudo o que me disseste eu já sabia desde que aluguei o bangalô. Fica e espera. Tietjens já me abandonou. Queres fazer o mesmo?

Eu já o ajudara num pequeno caso relacionado cum ídolo pagão que me levara às portas dum hospício, e não queria ajuda-lo mais em novas aventuras. Era um homem que procurava as situações desagradáveis com a mesma facilidade com que um homem normal vai a um jantar.

Portanto, expliquei, o mais claramente possível, que gostava muito dele e que teria muito prazer em vê-lo durante o dia, mas que não desejava dormir sob seu teto. Isso era depois do jantar, quando Tietjens saíra para se deitar na varanda.

— Por Deus! Não me admiro! — disse, com os olhos fitos no pano do forro — Olha aquilo!

As caudas de duas serpentes castanhas pendiam entre o forro e a cornija da parede. Lançavam grandes sombras à luz das lâmpadas:

— Se tens medo de víbora — disse ele —, é natural.

Tenho ódio e medo das serpentes porque, fitando-se os olhos duma cobra, ver-se-á que se sabe tudo e mais algo sobre o mistério da queda do homem, e que se sente toda a satisfação que o Diabo sentiu quando Adão foi expulso do Paraíso. Além do mais, a picada é, em geral, fatal, e as víboras costumam enrolar-se nas pernas das calças das pessoas.

— Deveria mandar fazer uma limpeza no colmo. Dá-me um caniço de pesca para derrubá-las. Elas se esconderão entre as vigas do telhado e não posso suportar a ideia de ficar com essas víboras lá em cima. Subirei ao forro. Caso eu as derrube, fica de lado e quebra-lhes a espinha com a vareta de limpar espingarda.

Eu não tinha vontade de ajudar Strickland naquele serviço, mas peguei a vareta e esperei na sala de jantar, enquanto Strickland trazia uma escada de jardineiro da varanda e a encostava à parede do aposento. As caudas das víboras se agitaram e desapareceram. Ouvíamos o ruído seco dos corpos compridos fugindo sobre o pano frouxo do teto. Strickland pegou uma lâmpada, enquanto eu tentava fazê-lo ver claramente o perigo de caçar víbora de telhado entre um pano de forro e a cobertura de colmo, fora a possibilidade de danificar a propriedade alheia rasgando o pano do forro.

— Tolice! Com certeza estarão escondidas junto das paredes, sob o pano. Os tijolos são frios demais para elas e o que lhes agrada é justamente o calor da sala.

Pôs a mão no canto do forro e o desprendeu da cornija. Cedeu com grande barulho de pano rasgado e Strickland meteu a cabeça na abertura, espreitando dentro do vão escuro das vigas do telhado. Apertei os dentes e levantei a vareta, porque não tinha idéia do que viria do alto.

— Hum! — Disse Strickland, cuja voz rolou e ecoou no telhado. — Há espaço para uma série de cômodo aqui no alto e alguém os ocupa!

— Víboras?

— Não. É um búfalo. Dá-me dois pedaços mais grossos de uma vara de pescar que o empurrarei. Está em cima da viga mestra do telhado.

Dei a vareta.

— Que ninho de mocho e serpente! Não admira que as víboras vivam aqui — disse, subindo mais a dentro do forro. Podia ver o ombro manejando a vareta. — Sai daí, sejas lá quem fores! Cuidado em baixo! Vai cair!

Vi o forro de pano, mais ou menos a meio da sala, se esticar com o peso de objeto volumoso, que o forçava a baixo, em direção à lâmpada acesa sobre a mesa. Puxei rapidamente a lâmpada para um lugar mais seguro e recuei um pouco. Então o pano se desprendeu das paredes, rasgou, abriu ao meio e deixou cair sobre a mesa algo ao qual não ousei olhar, até que Strickland desceu a escada e veio para junto de mim.

Não disse grande coisa, porque era homem de poucas palavras, mas pegou a ponta solta da toalha da mesa e a dobrou sobre o despojo caído. Disse, pousando a lâmpada:

— Parece que nosso amigo Imray voltou para casa. Oh! Também vieste. Não foi?

A toalha se agitou de leve e uma pequena víbora escorregou ao chão, onde foi cortada ao meio por uma pancada do caniço. Sentia-me mal demais para comentar algo digno de menção.

Strickland estava meditando e se serviu uma bebida. O que estava sob a toalha não deu mais sinal de vida. Perguntei:

— É Imray?

Levantou a ponta da toalha um instante e olhou.

— É Imray e tem a garganta cortada de orelha a orelha.

Então dissemos, ao mesmo tempo, a nós mesmos:

— Era por isso que andava vagueando na casa!

Tietjens, no jardim, começou a latir furiosamente. Um momento depois abriu, com o focinho, a porta da sala de jantar. Farejou e ficou imóvel. O pano rasgado do forro estava pendurado quase até a altura da mesa, e havia pouco espaço para nos afastarmos do despojo.

Tietjens avançou e se sentou. Os dentes surgiram sob as fuças arreganhadas e as patas da frente ficaram rígidas. Olhou o dono.

— É um caso complicado, minha velha. Um homem não sobe ao forro de seu bangalô para morrer e não conserta o forro depois. Pensemos no caso.

— Pensemos, mas nalgum lugar fora daqui.

— Excelente ideia. Apaga as lâmpadas. Vamos a meu quarto.

Não apaguei as lâmpadas. Fui ao quarto de Strickland na frente e deixei que se encarregasse daquele serviço. Depois me seguiu, acendemos os cachimbos e pensamos. Strickland pensou. Eu fumava desesperadamente porque estava com medo.

— Imray voltou — disse Strickland. — A questão agora é: quem matou Imray? Não fales! Tenho uma ideia. Quando aluguei este bangalô, fiquei com muitos dos criados de Imray, que era franco e inofensivo. Não era?

Concordei, embora o despojo que estava sob a toalha não parecesse uma coisa nem outra.

— Se eu chamar todos os criados, ele se unirão e mentirão como arianos. O que sugeres?

— Chamá-los um a um.

— O primeiro irá correndo contar a novidade a todos os companheiros. Devemos segrega-los. Achas que teu criado sabe algo sobre o caso?

— Pode ser, mas é improvável. Só está aqui há dois ou três dias. Qual é tua ideia?

— Não sei dizer. Como o homem escolheu o lado de cima do forro?

Ouvimos uma tosse forte do lado de fora da porta do quarto de Strickland. Isso significava que Bahadur Khan, seu camareiro, acordara e queria ajudar Strickland a se deitar.

— Então. Está uma noite muito quente. Não é?

Bahadur Khan, um grande maometano com 1,95m de altura, usando turbante verde, disse que estava uma noite muito quente, mas estava a cair muita chuva, a qual, por graça de sua honra, traria alívio à terra. Strickland disse, descalçando as botas:

— Assim será, se deus quiser. Tenho ideia, Bahadur Khan, de que trabalhas para mim, sem merecer censura, há muito tempo, desde que entraste a meu serviço. Quando foi isso?

— O filho dos céus já esqueceu? Foi quando Imray saíbe seguiu secretamente à Europa sem avisar. E até eu entrei ao honrado serviço do protetor dos pobres.

— E Imray saíbe foi à Europa?

— Assim se diz entre os que eram seus criados.

— E aceitarás seu serviço quando voltar?

— Seguramente, saíbe. Era um bom amo e tratava bem os dependentes.

— Isso é verdade. Estou muito cansado, mas caçarei cabrito-montês amanhã. Dá-me o pequeno rifle que costumo usar para cabrito montês. Está naquela caixa.

O homem se curvou sobre a caixa e entregou os canos, a culatra e a coronha a Strickland, que montou a arma, bocejando preguiçosamente. Depois estendeu a mão à caixa de arma, pegou um cartucho grosso e o meteu na culatra da carabina 360.

— E Imray saíbe foi à Europa secretamente! Isso é muito estranho, Bahadur Khan. Não achas?

— O que sei do costume dos homens brancos, filho dos céus?

— Bem pouco, na verdade. Mas ficarás sabendo mais em breve. Eu soube que Imray saíbe voltou da longa jornada e jaz na outra sala, esperando seu servo fiel.

— Saíbe!

A luz da lâmpada brilhou nos longos canos da carabina quando foi erguida à altura do peito largo de Bahadur Khan. Strickland disse:

— Verás! Leva uma lâmpada. O patrão está cansado e precisa de ti. Vai!

O homem segurou uma lâmpada e entrou na sala de jantar, seguido por Strickland, que quase o empurrava com a boca rifle. Olhou um momento o vão escuro do forro acima do pano rasgado.  Depois, a víbora contorcida no chão. E, por último, com o palor de cinza no rosto, o despojo sob a toalha da mesa. Strickland perguntou depois duma pausa:

— Viste?

— Vi. Sou barro nas mãos do homem branco. O que farão os outros?

— Enforcar-te dentro dum mês. O que mais poderiam fazer?

— Por matá-lo? Saíbe, considera. Vivendo entre nós, seus criados, pousou os olhos em meu filho, que tinha quatro anos.  E o enfeitiçou. Em dez dias morreu de febre. Meu filho!

— O que disse Imray saíbe?

— Disse que era um menino bonito, e lhe deu uma palmadinha na cabeça. Por isso meu filho morreu. E por isso matei Imray saíbe, no crepúsculo, quando voltara do escritório e estava dormindo. Depois o arrastei à viga do telhado e recompus tudo atrás. O filho dos céus tudo sabe. Sou um escravo do filho dos céus.

Strickland olhou para mim sobre os canos da arma e falou no mesmo tom empolado:

— És testemunha do que ele disse? Matou.

Bahadur Khan parecia cinzento à luz da única lâmpada: a necessidade de se defender se apresentou logo. Olhou para Tietjens, deitada calmamente em sua frente.

— Fui apanhado, mas o ofensor foi aquele homem. Lançou mau-olhado sobre meu filho e o matei e escondi. Só os que são servidos pelos demônios saberiam o que fiz.

— Foste esperto, mas deverias tê-lo amarrado à viga com corda. Porém, agora és quem ficará pendurado numa corda. Ordenança!

Um policial sonolento acudiu ao chamado de Strickland, seguido doutro. Tietjens se sentou, muito quieta.

— Leva-o ao posto policial. Há um caso contra ele.

— Então serei enforcado? — perguntou Bahadur Khan, sem fazer tentativa para fugir, mantendo os olhos cravados no chão.

— Se há luz solar e água corrente, sim!

Bahadur Khan recuou um grande passo, estremeceu e ficou imóvel. Os dois policiais aguardavam nova ordem.

— Ide!

— Nunca! Mas irei muito depressa. Já sou um homem morto.

Levantou o pé, e ao dedo mindinho, estava aferrada a cabeça da víbora meio morta, firmemente agarrada na agonia da morte.

— Venho duma raça de senhores da terra —Bahadur Khan disse, oscilando. — Seria uma desonra subir ao patíbulo. Portanto, escolho este caminho. Lembrai-vos de que as camisas de saíbe estão em perfeita ordem e que há um sabonete novo na saboneteira. Meu filho foi enfeitiçado e matei o bruxo. Por que seria enforcado? Minha honra está salva, e morro!

Após uma hora, morreu como morrem os que são mordidos pela pequena karait castanha. Os policiais o levaram e, também, o despojo que jazia sob a toalha da mesa, aos competentes destinos. Seria necessário para esclarecer o desaparecimento de Imray.

Strickland disse, muito calmo, ao se enfiar na cama:

— Isto é o século XIX. Ouviste o que aquele homem disse?

— Ouvi. Imray cometeu um erro.

— Apenas por não conhecer a natureza oriental e a coincidência de uma pequena febre palustre. Bahadur Khan estava com ele havia quatro anos.

Estremeci. Meu próprio camareiro estava comigo exatamente há quatro anos. Quando fui ao quarto encontrei meu homem, impassível como a efígie de cobre duma moeda, pronto para descalçar minhas botas, perguntei:

— O que aconteceu a Bahadur Khan?

— Foi mordido por uma víbora e morreu. O resto sabes.

— Quanto sabias a respeito do caso?

— Tanto quanto se pode inferir de alguém que vem no crepúsculo tomar satisfação.

—Devagar, saíbe. Deixa-me puxar essas botas.

Ia justamente adormecendo, exausto, quando ouvi Strickland gritar no outro lado da casa:

— Tietjens voltou ao lugar!

E voltara mesmo. A grande mastim estava majestosamente deitada em seu estrado e em seu cobertor, enquanto, no aposento contíguo, o forro de pano rasgado balançava, roçando a mesa.

Ilustração de William Strang.



[1] Espécie de carruagem de duas rodas.

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A MÃO DO MACACO - Conto Clássico de Terror - W. W. Jacobs




A MÃO DO MACACO

W. W. Jacobs
(1863 - 1943)
Tradução de Paulo Soriano


Romancista e contista inglês, W. W. Jacobs (1863 – 1943), malgrado tenha se dedicado precipuamente ao humor, é conhecido sobretudo pela obra “A Mão do Macaco”. Este conto — uma das mais famosas narrativas de terror já escrita — foi publicado originariamente na coletânea “A Dama da Barca”, de 1892, mas continua a atrair admiradores nos dias atuais, dentre eles o célebre romancista norte americano Stephen King.  Na breve narrativa, uma pata mumificada de macaco constitui-se num amuleto que tem o poder de conceder, a quem a possui, três desejos. Mas, por interferir na ordem natural dos acontecimentos, os desejos são satisfeitos a um alto — e terrível — preço.


Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas, na pequena sala de Laburnam Villa, os postigos estavam cerrados e o fogo ardia intensamente. Pai e filho jogavam xadrez. O primeiro tinha ideias próprias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em tão graves e desnecessários perigos que provocava comentários até mesmo da grisalha senhora que tricotava placidamente junto à lareira.

 – Escute o vento – disse o Sr. White que, percebendo tarde demais que cometera um erro fatal, cuidava benevolamente para que o filho não o percebesse.

 —Estou ouvindo — disse o último, examinado impiedosamente o tabuleiro, ao estender a mão.

 —Xeque.

 —Não creio que ele venha esta noite — disse o pai, com a mão a pousada sobre o tabuleiro.

 —Mate! —replicou o filho.

 —Este é o lado ruim de viver em um lugar tão remoto — o Sr. White vociferou, com uma súbita e inesperada violência. — De todos os lugares terríveis, distantes e lamacentos para se morar, este é o pior. O caminho é um lamaçal e a estrada é uma torrente. Não sei o que essa gente está pensando. Somente porque há apenas duas casas na estrada, eles não encontram motivo por que se importar.

—Não se preocupe, querido — disse, conciliatória, a mulher. — Da próxima vez, talvez você vença a partida.

O Sr. White ergueu os olhos bruscamente, a tempo de interceptar um olhar de cumplicidade entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios e ele escondeu um sorriso de culpa sob a barba fina e grisalha.

—Aí vem ele — disse Herbert White, quando o portão bateu barulhentamente e passos pesados se aproximaram da porta. O velho levantou-se com uma pressa hospitaleira. Ouviram-no cumprimentar o visitante, que retribuiu o cumprimento. A senhora White tossiu delicadamente quando o marido entrou na sala, seguido por um homem alto e corpulento, de olhos pequenos e face avermelhada.

—Major Morris — disse ele, apresentando-o.

O major apertou as mãos e, sentando-se no lugar oferecido, junto à lareira, observou satisfeito o anfitrião trazer uísque e copos, e pôr uma pequena chaleira de cobre no fogo.

Ao terceiro copo, os seus olhos tornaram-se mais brilhantes e ele começou a falar. O pequeno círculo familiar contemplava com vívido interesse este visitante de lugares distantes, enquanto ele empertigava os largos ombros na cadeira e falava de paisagens excêntricas e feitos audazes, de guerras, epidemias e povos estranhos.

—Vinte e um anos nisto — disse o Sr. White, voltando-se para a mulher e o filho. — Quando ele partiu, era um simples moço de armazém. Agora, olhem só para ele.

—Ele não parece ter-se saído mal — disse a Sra. White, educadamente.

 —Eu gostaria de visitar a Índia — disse o velho. — Somente para conhecer um pouco, você sabe.

—Aqui, você estará melhor — disse o Major, sacudindo a cabeça. Deixou o copo vazio sobre a mesa e, suspirando baixinho, sacudiu de novo a cabeça.

—Eu gostaria de ver esses templos antigos. Faquires, malabaristas — disse o velho. — O que foi mesmo que você começou a me contar, certo dia, acerca da mão de um macaco, ou coisa semelhante, Morris?

—Nada — disse abruptamente o militar. — Ao menos nada de que valha a pena ser ouvido.

—Mão de macaco? — indagou a Sra. White, curiosa.

—Bem, é apenas um pouco do que se pode chamar de magia — disse o major, bruscamente.

Os três ouvintes inclinaram-se para frente, interessados. Distraidamente, o visitante levou aos lábios o copo vazio, e, em seguida, baixou-o novamente. O anfitrião tornou a enchê-lo.

—Vejam —disse o major, mexendo no bolso. — É apenas uma pequena mão, comum, mumificada.

Ele tirou algo do bolso e exibiu aos presentes. A Sra. White recuou com um esgar. Seu filho, porém, examinou a mão mumificada com curiosidade.

—Mas o que é que há de especial nela? — perguntou o Sr. White, que a tomou da mão do filho e, depois de examiná-la, deitou-a sobre a mesa.

—Sobre ela, um velho faquir lançou um encanto — disse o major. — Um homem muito santo. Queria ele demonstrar que o destino determina a vida das pessoas e aqueles que nele interferem o fazem para a sua ruína. Ele lançou sobre essa mão um feitiço para que três diferentes pessoas pudessem formular três distintos pedidos.

O major falou de uma maneira tão impressionante que os seus ouvintes sentiram suas risadas soarem um tanto abaladas.

—Bem, então por que o senhor não faz os seus três pedidos? — indagou, astuciosamente, Herbert White.

O militar olhou para ele como as pessoas maduras costumam olhar para a juventude presunçosa.

—Eu já os fiz — disse calmamente o major, e o seu rosto maculado empalideceu.

—E os três pedidos formulados foram realmente atendidos? — perguntou a Sra. White.

—Foram —respondeu o major, e o copo chocou-se contra seus fortes dentes.

—E ninguém mais renovou os pedidos? — perguntou a velha senhora.

 —A primeira pessoa teve, sim, os seus desejos satisfeitos —respondeu. — Eu não sei quais foram os dois primeiros pedidos. Mas o terceiro desejo foi a morte. Foi dessa maneira que eu obtive a mão do macaco.

Sua entonação era tão solene que o silêncio caiu sobre o grupo.

—Se você conseguiu realizar todos os três pedidos, Morris, a mão não lhe serve mais para nada — disse, por fim, velho homem. — Por que, então, a conserva?

O militar abanou a cabeça.

—Por simples capricho, creio eu —disse ele, lentamente.

—Se pudesse fazer mais outros três pedidos — indagou o velho, olhando-o fixamente –, você os faria?

—Eu não sei — disse o outro. — Eu não sei.

O major tomou a mão do macaco, balançou-a entre os dedos polegar e indicador e, subitamente, lançou-a ao fogo. White, com um ligeiro grito, abaixou-se e arrancou-a de lá.

—Melhor seria que a deixasse queimar — disse o militar, solenemente.

—Se você não mais a quer — disse o velho —, dê-a para mim.
—Não —disse obstinadamente o amigo. — Eu a joguei no fogo. Se você quiser ficar com ela, não me culpe pelo que vier a acontecer. Lance-a novamente no fogo, como um homem sensato.

O outro sacudiu a cabeça e examinou de perto a sua nova pertença.

—Como é que se faz o pedido?

—Segure-a em sua mão direita e formule o pedido em voz alta — disse o Major. — Mas eu o advirto quanto às consequências.

—Parece as Mil e uma Noites —disse a Sra. White, levantando-se e começando a pôr à mesa. — Você não acha que poderia pedir quatro pares de mãos para mim?

O marido tirou o talismã do bolso e, em seguida, todos três caíram na gargalhada quando o major, com um olhar assustado no rosto, segurou-o pelo braço.

—Se quer mesmo fazer um pedido — disse ele rispidamente —, deseje algo sensato.

O Sr. White guardou novamente o amuleto no bolso e, arrumando as cadeiras, chamou o amigo à mesa com um aceno. Durante o jantar, o talismã foi, de certo modo, esquecido, e depois os três escutaram, encantados, o segundo capítulo das aventuras do militar na Índia.

—Se a história sobre a mão do macaco não for mais verdadeira do que as que ele nos contou — disse Herbert, quando a porta se fechou atrás do convidado, a tempo de ele apanhar o último trem —, então não devemos dar muito crédito a ela.

—Você deu alguma coisa pela mão? — perguntou a Sra. White, olhando atentamente para o marido.

—Uma bagatela —disse ele, corando levemente. — Ele não queria receber, mas eu o fiz aceitar. E ele insistiu novamente para que eu a jogasse fora.

—Sem dúvida — disse Herbert, com um horror fingido — vamos ser ricos, famosos e felizes. Pai, somente de início, peça para ser um imperador, e o senhor não mais será dominado por mamãe.

Ele correu em volta da mesa, perseguido por uma injuriada Sra. White, armada com uma capa de poltronas.

O Sr. White sacou a mão do macaco do bolso e olhou para ela com um ar de dúvida.

—Eu não sei o que pedir. Isto é um fato — disse ele lentamente. — Parece-me que tenho tudo o quanto quero.

—Se o senhor liquidasse o débito da casa, ficaria muito feliz, não é mesmo? — disse Herbert com a mão pousada no ombro do pai. —Bem, peça então duzentas libras. É justamente o que lhe falta.

O pai, com um sorriso envergonhado da própria credulidade, ergueu o talismã, enquanto o filho, com uma expressão solene, um tanto comprometida pela piscadela dirigida à mãe, sentou-se ao piano e extraiu alguns acordes grandiloquentes.

—Eu desejo duzentas libras — disse o pai em clara voz.

Um belo acode de piano felicitou as palavras, mas essas foram interrompidas por um grito estridente do velho homem. A mulher e o filho correram até ele.

—Ela se mexeu — disse ele, com um olhar de nojo para o objeto, que caíra ao chão. — Quando eu formulei o meu pedido, ela se contorceu em minhas mãos como uma cobra.

—Bem, eu não estou vendo o dinheiro — disse o filho, enquanto a apanhava e a punha sobre a mesa. — E aposto que nunca o verei.

—Deve ter sido imaginação sua, pai — disse a mulher, olhando-o ansiosamente.

—Não faz mal. Não houve nada. Mas, ainda assim, a coisa me abalou.
Sentaram-se perto da lareira novamente, enquanto os homens terminavam de fumar os seus cachimbos. Lá fora, o vento soprava ainda mais vigorosamente. O velho sobressaltou-se ao ouvir o som de uma porta batendo no andar superior. Um silêncio estranho e deprimente abateu-se sobre todos os três, e os envolveu até que o velho casal se levantou para dormir.

 —Espero que o Senhor encontre o dinheiro enrolado em um grande saco, bem no meio da cama — disse Herbert, ao dar-lhe boa noite —, e algo de terrível, agachado em cima do guarda-roupas, o espreite, enquanto o senhor embolsa o seu ganho fácil.

Ele permaneceu sentado, sozinho, na escuridão. Observava o fogo fenecer e via rostos formando-se nas chamas. A última cara era tão horrível, tão simiesca, que ele a contemplou com assombro. A imagem era de uma vivacidade tal que Herbert, com um sorriso inquieto, procurou na mesa um copo d’água para jogar sobre ela. Agarrou a mão do macaco, sentindo um breve calafrio. Então, limpou a própria mão no casaco e retirou-se para a cama.


II


Na manhã seguinte, enquanto tomava o café da manhã sob a luz do sol invernal, que pairava sob a mesa, Herbert riu de seus temores. Havia na sala um ar de prosaica higidez que faltara na noite anterior. E a mão do macaco, enrugada e suja, atirada negligentemente sobre o aparador, não inspirava nenhuma grande crença em suas virtudes.

—Eu creio que todos os velhos militares são iguais — disse a Sra. White. — Que ideia a nossa, de dar ouvidos a estas tolices! Como se pode acreditar, nos dias de hoje, em talismãs que nos concedem desejos? E se as duzentas lhe libras forem concedidas, o que de mau poderá lhe acontecer, pai?

—Será mau se as libras caírem do céu, bem encima da cabeça dele — disse Herbert, frivolamente.

—Segundo Morris, as coisas aconteciam com tanta naturalidade —disse o pai — que você, se o quisesse, poderia considerar uma simples coincidência.

—Bem, não lance mão do dinheiro antes que eu volte — disse Herbert, ao se levantar da mesa. — Temo que o senhor se transforme em um homem mau e avarento, e nós tenhamos que repudiá-lo.

A mãe sorriu, acompanhou-o até a porta e o viu afastar-se pela estrada. De volta à mesa, ela parecia divertir-se com a credulidade do marido. Mas isto não a impediu de correr à porta quando o carteiro bateu, nem de fazer referência a majores reformados beberrões, quando descobriu que o correio trouxera apenas a conta do alfaiate.

—Com certeza, Herbert fará outra observação irônica quando voltar — disse ela, quando se sentaram para jantar.

—Sem dúvida — disse o Sr. White, servindo-se de um pouco de cerveja. — Mas, seja como for, a coisa se contorceu na minha mão. Juro que sim.

—Você imaginou que ela se mexeu — disse a Sra. White, suavemente.

—Eu estou dizendo que ela se mexeu — o outro replicou. — Quanto a isto, não tenho dúvidas. Eu tinha acabado... O que houve?

A mulher não respondeu. Ela estava observando os movimentos misteriosos de um homem do lado de fora que, olhando indeciso para a casa, parecia tentar decidir-se a entrar. Numa conexão mental com as duzentas libras, ela percebeu que o estranho estava bem vestido e usava um reluzente chapéu de seda novo. Por três vezes, ele parou no portão e depois retrocedeu. Na quarta tentativa, pôs a mão sobre ele e, em seguida, com uma súbita resolução, abriu-o e avançou. No mesmo momento, a Sra. White colocou a mão atrás de si, desatou apressadamente o avental e colocou esta útil peça do vestuário sob a almofada de sua cadeira.

Ela conduziu o estranho — que parecia pouco à vontade — à sala. Ele a contemplou furtivamente, e ouviu, com ar preocupado, a velha senhora desculpar-se pela aparência da sala e pelo casaco do marido, uma vestimenta que ele geralmente reservava ao jardim. Ela, então, esperou, tão pacientemente quanto o seu sexo permitia, que ele abordasse o motivo da visita, mas ele permaneceu, a princípio, enigmaticamente calado.

 —Eu... Pediram-me que viesse — disse ele finalmente. Abaixou-se e extraiu um pedaço de algodão da calça. —Eu venho da parte de Maw & Meggins.

A velha senhora teve um sobressalto.

—Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, ofegante. — Aconteceu alguma coisa a Herbert? O que foi? O que foi?

O marido se interpôs:

 —Espere, espere, mãe — disse ele rapidamente. — Sente-se e não tire conclusões precipitadas. Certamente, o senhor não nos trouxe más notícias, não é mesmo? — disse o velho, olhando o outro, ansiosamente.

—Eu sinto muito... — começou o visitante.

—Ele está ferido? — interpelou a mãe.

O visitante inclinou-se, assentindo.

—Gravemente ferido — ele disse em voz baixa. —Mas já não mais sente dor.

—Oh, graças a Deus! — disse a senhora, apertando as mãos. —Graças a Deus! Graças...

Mas estacou subitamente, quando o terrível significado daquela afirmativa desmoronou sobre ela. Ela viu a confirmação de seus temores no rosto esquivo do outro. Então prendeu a respiração e, voltando-se para o pouco arguto marido, pôs a mão trêmula sobre ele. Houve um longo silêncio.

—Ele foi apanhado pela máquina —disse finalmente o visitante, em voz baixa.

—Apanhado pela máquina — repetiu, aturdido, o Sr. White.

Ele se sentou, olhando fixamente pela janela e, tomando a mão da mulher entre as suas, apertou-a, como costumava fazer nos tempos de namorados, há cerca de quarenta anos.

—Ele era o último filho que nos restava — disse ele, voltando-se para o visitante. — É difícil.

O outro tossiu e, levantando-se, caminhou lentamente até a janela.

 —A empresa me pediu que lhes transmitisse os sinceros pêsames pela grande perda — disse ele, sem olhar em volta. —Eu imploro que compreendam que sou apenas um empregado e apenas cumpro ordens.

Não houve resposta. O rosto da senhora estava lívido, os olhos fixos, a respiração inaudível. No rosto do marido havia um olhar que o seu amigo major poderia ter ostentado em seu primeiro conflito armado.

—Quero dizer que a Maw & Meggins se exime de qualquer responsabilidade — prosseguiu o outro. — Eles não admitem qualquer responsabilidade no evento, mas, em consideração aos serviços prestados por seu filho, pretendem ofertar-lhes uma certa quantia, a título de compensação.

O Sr. White largou a mão da mulher e, pondo-se de pé, dirigiu ao visitante um olhar de horror. Seus lábios secos articularam as palavras:

—Quanto?

—Duzentas libras — foi a resposta.

Sem atinar para o grito da esposa, o velho sorriu debilmente, estendeu a mão como um homem cego e caiu desfalecido, como um fardo, no chão.


III


No imenso cemitério novo, a umas duas milhas de distância, os velhos sepultaram o seu morto e voltaram para a casa, mergulhada na sombra e no silêncio. Tudo acabara tão rapidamente que, a princípio, eles mal se davam conta do que ocorrera. Permaneceram em um estado de expectativa, como se algo mais estivesse por acontecer — algo que lhes aliviasse aquele fardo, pesado demais para os seus velhos corações.

Mas os dias se passaram e a expectativa deu lugar à resignação — à resignação sem esperança dos velhos, às vezes tomada erroneamente por apatia. Algumas vezes eles sequer trocavam uma palavra, pois agora não tinham mais sobre o que conversar, e os dias eram longos e tediosos.

Foi cerca de uma semana depois que o velho, acordando subitamente de noite, estendeu a mão e viu que estava sozinho. O quarto estava escuro e o som de um choro lastimoso vinha da janela. Ele sentou-se na cama e ficou a escutar.
—Volte — disse ele, ternamente. — Você vai sentir frio.

—Está mais frio para o meu filho — disse a senhora, que chorou novamente.

Os sons de seus soluços desvaneceram no ouvido do marido. A cama estava quente e os seus olhos pesados de sono. Ele dormitou intermitentemente e depois caiu no sono, até ser acordado, com um sobressalto, pelo grito selvagem da mulher.

—A mão! — ela chorava descontroladamente. — A mão do macaco!

Ele se levantou, alarmado.

—Onde? Onde está? O que aconteceu? Ela transpôs, cambaleante, o quarto, achegando-se a ele.

—Eu quero a mão do macaco — ela disse em voz baixa. — Você a destruiu?

—Ela está na sala de estar, na prateleira — ele respondeu, surpreso. — Por quê?

Ela chorou e riu ao mesmo tempo e, inclinando-se, beijou-lhe o rosto.

—Somente agora pensei nisto — disse ela histericamente. — Por que não pensei nisto antes? Por que você não pensou nisto antes?

—Pensar em quê? — ele inquiriu.

—Nos dois outros desejos — ela respondeu rapidamente. — Nós só fizemos um pedido.

—Não acha que já foi o suficiente? — ele replicou, enraivecido.

—Não! — ela gritou, triunfante. — Faremos mais um. Desça e a pegue logo. Deseje que o nosso garoto viva novamente.

O homem sentou-se na cama e afastou os lençóis de seus membros trêmulos.

—Meu Deus, você está louca! — ele gritou, horrorizado.

—Pegue-a —disse ela, ofegante. Pegue-a depressa e faça o pedido... Oh, meu filho, meu filho!

O marido riscou um fósforo e acendeu uma vela.

—Volte para a cama —disse ele, hesitante. — Você não sabe o que está dizendo.

—Nós tivemos o primeiro desejo satisfeito — disse a senhora, febrilmente. — Por que não o segundo?

—Foi só uma coincidência — gaguejou o velho.

—Vá buscá-la e faça o pedido — gritou a mulher, tremendo de excitação.
O velho virou-se, olhou-se para ela e sua voz tremeu:

—Ele está morto há dez dias e, além disso... eu não queria que você soubesse, mas eu só consegui reconhecê-lo pelas roupas. Se ele estava terrível demais para que você o visse, imagine como não estará agora.

—Traga-o de volta! — gritou a velha senhora, e o arrastou até a porta. — Você acha que tenho medo do filho que criei?

Ele desceu na escuridão e tateou até a sala de estar e, depois, até a lareira. O talismã estava em seu lugar e um medo horrível de que o desejo ainda não formulado pudesse trazer de volta, em sua presença, o filho mutilado, antes que pudesse evadir-se da sala, apoderou-se dele. Prendeu a respiração ao perceber que havia perdido a direção da porta e, com a testa umedecida por um suor frio, deu a volta ao redor da mesa, encontrou a parede e tateou ao longo dela. Então se viu no corredor estreito com aquela coisa hedionda na mão.

Mesmo o rosto de sua mulher parecia mudado quando ele entrou no quarto. Estava pálido e ansioso e, para o seu temor, tinha uma aparência anômala. Sentiu medo dela.

 —Faça o pedido! — ela gritou, imperiosamente.

 —Isto é uma tolice. Uma perversidade — ele disse, hesitante.

—Peça! — repetiu a mulher.

Ele ergueu a mão.

—Desejo que o meu filho viva novamente!

O talismã caiu no chão e ele o olhou, amedrontado. Então afundou numa cadeira, trêmulo, enquanto a velha, com os olhos abrasados, foi até a janela e levantou a persiana. Ele permaneceu sentado até enregelar-se, olhando ocasionalmente para a figura da mulher, que espiava pela janela. O resto de vela, que ardera até a borda do castiçal de porcelana, lançava sombras pulsantes sobre o teto e as paredes até que, com um lampejo mais intenso, se apagou. O velho homem, com uma indescritível sensação de alívio pelo fracasso do talismã, rastejou de volta à cama e, um ou dois minutos depois, a velha senhora, silenciosa e apaticamente, deitou-se ao lado.

Nenhum dos dois falou. Permaneceram em silêncio, ouvindo o tique-taque do relógio. Um degrau rangeu, um rato correu, ruidosamente, a guinchar, pela parede. A escuridão era opressiva e, depois de continuar deitado por algum tempo, tomando coragem, o marido tomou uma caixa de fósforos e, acendendo um, desceu as escadas em busca de outra vela.

Ao pé da escada o fósforo acabou e ele parou outro para acender. No mesmo instante, uma batida, tão silenciosa e furtiva que mal se ouvia, soou na porta da frente.

Os fósforos caíram-lhe da mão. Ele ficou imóvel, com a respiração suspensa, até que a batida se repetiu. Então ele virou e fugiu rapidamente para o quanto, fechando a porta atrás de si. Uma terceira batida ressoou pela casa.
—O que foi isso? — gritou a senhora, levantando-se.

—Um rato — disse o velho, com a voz trêmula. — Um rato. Ele passou por mim na escada.

A mulher sentou-se na cama e ficou escutando. Outra batida — forte — voltou a ressoar.

—É Herbert! — ela gritou. — É Herbert!

Ela correu para a porta, mas o marido se antepôs, e, tomando-a pelo braço, segurou-a firmemente.

—O que você vai fazer? — sussurrou ele, com voz rouca.

—É meu filho! É Herbert! — ela gritou, lutando maquinalmente. — Eu me esqueci de que ele estava a duas milhas de distância. Por que você está me segurando? Solte-me. Preciso abrir a porta.

—Pelo amor de Deus, não o deixe entrar — gritou o velho, tremendo.

—Você está com medo de seu próprio filho! — ela gritou, debatendo-se.

—Largue-me! Estou indo, Herbert! Estou indo!

Houve mais uma batida e mais outra. A velha, com um súbito empurrão, soltou-se e saiu correndo do quarto. O marido seguiu-a até o patamar e, suplicante, chamou por ela, enquanto a mulher, voando, descia as escadas. Ele ouviu a corrente chacoalhar e a tranca de baixo ser deslocada lenta e rigidamente do encaixe. Então a voz da velha mulher soou, tensa e ofegante:
—A tranca! —gritou alto. — Desça. Eu não consigo puxá-la!

Mas o marido estava com as mãos e os joelhos no chão, tateando, procurando desesperadamente a mão do macaco. Se pelo menos ele conseguisse encontrá-la antes que aquela coisa lá fora entrasse! Batidas sucessivas reverberaram pela casa e ele ouviu o arrastar de uma cadeira quando a mulher a colocou no corredor, de encontro à porta. Ele ouviu o ranger da tranca ao ser deslocada lentamente e no mesmo instante encontrou a mão do macaco. Desesperadamente, formulou o seu terceiro e último pedido.

As batidas cessaram subitamente, embora os seus ecos ainda ressoassem pela casa. Ele ouviu a cadeira ser arrastada para trás e a porta se abrir. Um vento frio subiu até a escada e o longo e alto gemido de decepção e tristeza da mulher lhe deu coragem para correr até ela e, em seguida, até o portão. O cintilar do lampião do outro lado da rua alumiava uma estrada calma e deserta.



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