A NOITE - Conto Clássico Fantástico - Guy de Maupassant


A NOITE
(Um Pesadelo)
Guy de Maupassant
(1850 – 1893)

Tenho paixão pela noite. Adoro-a como se adora a terra natal ou a amante, com amor instintivo, profundo, invencível. Amo-a com todos os meus sentidos, com os olhos que a veem, com o olfato que a respira, com os ouvidos que lhe escutam o silêncio, com toda a carne acariciada pelas trevas. As andorinhas cantam ao sol, no ar azul, no ar quente, no ar leve das manhãs claras. O mocho voa nas trevas; é mancha negra que passa no espaço aéreo, e alegre, embriagado pela imensidade negra, ergue seu grito vibrante e sinistro.

O dia me cansa e aborrece. É brutal e ruidoso. Levanto-me com dificuldade, visto-me devagar, saio pesaroso. E cada passo, cada movimento, cada gesto, cada palavra, cada pensamento me fatiga como se suspendesse um peso enorme.

Porém, quando o sol transmonta, uma alegria vaga, uma alegria em todo o corpo me invade. Desperto e me animo. As trevas aumentam e me sinto outro, mais, moço, mais forte, mais vivo, mais feliz. Vejo cerrar-se a grande sombra descida do céu: ela, onda intangível e impenetrável, inunda a cidade, oculta, apaga, destrói as cores e as formas, enlaça as casas, os seres, os monumentos, com seus braços imperceptíveis.

Vêm-me, então, desejos de gritar de prazer, como as corujas, de correr pelos telhados como os gatos; penetra-me nas veias uma vontade impetuosa, invencível, de amar.

Ando, caminho, ora pelos arrabaldes escuros, ora pelos bosques próximos, onde ouço o desfilar das minhas irmãs, as feras, e de meus irmãos, os caçadores.

Sempre nos mata tudo o que amarmos violentamente. Como hei de explicar, porém, o que me acontece? Até mesmo, como fazer compreender o que possa contar? Não sei, não sei mais; sei unicamente isto:

Ontem — teria sido ontem? Sim, por certo, a menos que não tivesse sido antes, em outro dia, em outro mês, em outro ano—não sei. Contudo, deve ter sido ontem, pois o dia não tornou a amanhecer, pois o Sol não apareceu novamente. Desde quando, porém, dura a noite? Desde quando? Quem o dirá? Quem jamais o saberá?

Ontem, portanto, saí, como faço todas as noites, depois do jantar. Fazia um tempo esplêndido, suave, quente. Descendo para além, via por cima de minha cabeça o rio escuro e cheio de estrelas, cavado no céu pelos telhados da rua, que se curvava e fazia ondular como um verdadeiro rio, este regato movediço dos astros.

Tudo era claridade no ar leve, desde os planetas até os bicos de gás. Tantas luzes brilhavam nas alturas e na cidade, que as trevas pareciam luminosas.  As noites fulgentes têm mais alegrias do que os dias de sol.

Na rua, os cafés flamejavam; ria se, passava-se, bebia-se. Por alguns instantes, entrei no teatro, não sei mais em qual. Estava tão claro lá dentro, que fiquei triste e saí com o coração um tanto em trevas por este choque de luz: brutal nas pinturas dos camarotes, pela cintilação a espaços do lustre enorme de cristal, pela cerca de fogo do palco, pela melancolia desta claridade falsa e intensa. Caminhei ainda, e os grandes faróis pareciam-me focos de incêndio. As árvores, ao contato da luz amarela, tinham aparência de pintadas fosforescentes, e os globos elétricos — quais luas brilhantes e pálidas, semelhando ovos de lua caídos do céu, semelhantes a pérolas monstruosas, vivas — faziam empalidecer em sua luz nacarada, misteriosa e real os renques de lampiões de gás, do estúpido gás sujo, e os ramalhetes dos vidros de cor.

Parei debaixo do Arco do Triunfo para fitar a avenida, a longa e admirável avenida estreitada, dirigindo-se para a capital entre duas linhas de fogos! E os astros! Os astros, no céu, os astros desconhecidos, lançados a esmo na imensidade e aí desenhando aquelas figuras esquisitas, que tanto fazem cismar, que tanto fazem pensar!

Entrei no bosque e aí me demorei muito tempo, muito tempo. Senti um tremor singular, uma comoção imprevista e poderosa, uma exaltação no pensamento que se aproximava da loucura.

Caminhei muito tempo, muito tempo. Depois voltei. Que horas eram, quando passei da novo debaixo do Arco do Triunfo? Não sei. A cidade adormecia e nuvens — grandes nuvens negras — estendiam-se lentamente pelo céu. Foi então que senti penetrar-me qualquer coisa estranha, nova. Pareceu-me que fazia frio, que o ar se condensava, que a noite, a minha noite adorada, pesava em meu coração. A avenida naquele momento estava deserta. Somente dois policiais caminhavam junto a uma estação de carros; e na calçada apenas iluminada pelos bicos de gás, que pareciam morrer, passavam carroças de legumes em direção ao mercado. Elas rodavam lentamente, cheias de batatas, rabanetes e couves. Os cocheiros dormiam, invisíveis; os cavalos caminhavam sempre no mesmo passo, puxando a carroça sem rumor na calçada de madeira.  Em frente a cada luz do passeio, as batatas coloriam-se de branco, os rabanetes de vermelho, as couves de verde.  E passavam, umas atrás das outras, estas carroças vermelhas, de um rubro de incêndio, brancas da alvura da prata, verdes da cor da esmeralda. Acompanhei-as; depois, tomei a rua Real e voltei para os boulevards. Nunca tinha visto Paris tão morta, tão deserta. Puxei o relógio. Eram duas horas.

Impelia-me uma força, um desejo de andar. Fui então até a Bastilha. Aí, notei que nunca tinha visto uma noite tão escura, pois nem sequer distinguia a Coluna de Julho, cujo gênio de ouro perdia-se nas trevas impenetráveis. Uma abóbada de nuvens, densas como a imensidade, afogara as estrelas e parecia descer para a terra, afim de esmagá-la.

Voltei. Ninguém mais me rodeava. Contudo, na praça do Chateau d'Eau, um bêbado quase me deu um encontrão e depois desapareceu. Por algum tempo, ouvi o seu passo incerto e sonoro. Eu caminhava. Nas proximidades do arrabalde de Montmartre, passou um carro que descia para o Sena. Chamei. O cocheiro não respondeu. Uma mulher passeava perto da rua Drouot:

—Escute uma coisa, senhor...

Apressei o passo para evitar-lhe a mão que me estendia. E depois, nada mais. Em frente ao Vaudeville, um trabalhador examinava o rio. A lanterninha dele flutuava no chão. Perguntei-lhe:

—Que horas são, meu velho?

Respondeu:

—Sei lá. Não tenho relógio.

Então observei que tinham sido apagados os bicos de gás.  Sei que, por economia, são suprimidos cedo, antes da madrugada; porém, o dia ainda vinha longe, ainda tardaria a aparecer.

—Vamos ao mercado — pensei. — Ao menos ali encontrarei vida.

Caminhei; porém, não via coisa alguma e não podia orientar-me. Anda ia lentamente, como se estivesse num bosque, reconhecendo as ruas, contando-as.

Diante do Crédito Lionês, um cão ladrou. Tomei a rua de Grammont e me perdi. Errei; depois reconheci a Bolsa, pelo gradil de ferro que a cerca; Paris dormia; um sono profundo, horrível. Entretanto, ao longe, rodava um carro, um único, carro, talvez o mesmo que passara perto de mim, pouco antes. Procurei alcançá-lo dirigindo-me para o ruído de suas rodas, ao longo das ruas solitárias e escuras, negras como a morte.

Perdi-me, ainda. Onde estava eu? Que loucura apagar o gás tão cedo! Nem um transeunte; nem um retardatário, nem um gatuno, nem um raiado de gato apaixonado. Nada!

Onde estaria então a polícia? Disse intimamente:

—Vou dar um grito e eles aparecerão.

Gritei. Ninguém me respondeu. Gritei com mais força. Minha voz voou, sem eco, fraca, abafada, esmagada pela noite, por esta noite impenetrável.

Berrei:

—Socorro! Socorro! Socorro!

Ficou sem resposta esta exclamação de desespero. Que horas seriam? Tirei o relógio, porém não trazia fósforos. Ouvi o tique-taque leve do pequeno mecanismo com alegria desconhecida, extravagante. Parecia viver. Estava menos só. Que mistério! Continuei a caminhar como um cego, apalpando as paredes com a bengala. Levantava a todo instante os olhos para o céu, esperando ver enfim surgir o dia. Porém, o espaço continuava negro, negro, mais profundamente negro do que a cidade.

Que horas podiam ser? Parecia-me que caminhava havia um tempo infinito, porque minhas pernas se dobravam, meu peito arquejava, e sentia uma fome desesperada. Decidi bater no primeiro portão. Calquei no botão de cobre e o tímpano retiniu na casa, sonoro; retiniu extravagante, como se este ruído estivasse sozinho dentro de casa.

Esperei. Não responderam. Ninguém abriu a porta. Calquei outra vez. Esperei ainda. Nada!

Tive medo! Corri para a casa imediata e ainda vinte vezes fiz soar o tímpano no corredor escuro, onde devia dormir o porteiro. Ele não acordou. Fui mais longe, puxando com toda a força os anéis, os botões, batendo com os pés, com a bengala, com as mãos, as portas obstinadamente fechadas.

Súbito, notei que chegara ao mercado. Estava deserto, sem um rumor, sem um movimento, sem um carro, sem um homem, sem uma moita de legumes ou flores. Estava vazio, imóvel, abandonado, morto!

Fiquei horrivelmente aterrorizado. O que se passava? Oh, meu Deus, que se passava?

Parti de novo. E a hora? A hora? Quem me diria que horas eram? Nenhum relógio soava nas torres ou nos monumentos. Pensei:

—Vou abrir o vidro do meu relógio e procurar a agulha com os dedos.

Puxei o relógio... já não batia...estava parado. Nada mais, nada mais, nem um estremecimento na cidade; nem uma luz, nem uma ondulação no ar. Nada. Nada mais! Nem mesmo o rodar distante de um carro. Nada mais!

Estava no cais: subia do rio um frio glacial. Ainda correria o Sena? Quis sabê-lo. E encontrei a escada. Desci... não ouvia a corrente fervilhar debaixo dos arcos da ponte... Ainda mais degraus... areia... lama... água... mergulhei o braço... corria... corria... fria... fria ...fria... quase gelada... quase congelada... quase morta. E sentia que não tinha forças para subir de novo... e que ia morrer naquele lugar...de fome...de cansaço... e de frio.


Tradutor desconhecido do séc. XIX.
Fonte: "Pacotilha" (MA), edição de 16 de agosto


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HISTÓRIA DE UM MARIDO ASSASSINADO - Conto Clássico de Terror - Charles Nodier


HISTÓRIA DE UM MARIDO ASSASSINADO
Que retornou da morte em busca de vingança.
Por Charles Nodier
(1780 – 1844)
Tradução de Paulo Soriano


O Sr. de la Courtinière, um fidalgo bretão, passava a maior parte de seu tempo caçando em seus bosques e visitando os amigos.  Certa feita, acolheu em seu castelo vários senhores, vizinhos e parentes, e os tratou magnificamente por três ou quatro dias. Quando os convivas partiram, travou-se uma pequena discussão entre o Sr.  de la Courtinière e sua esposa: considerava o cavalheiro que a sua consorte não tratara cortesmente os convidados. Ele, todavia, admoestou-a com palavras gentis e sinceras, que não deveriam tê-la irritado. Mas esta senhora, sendo de arrogante índole, não respondeu. Resolveu, contudo, intimamente, partir para a vingança.

Naquela noite, o Sr. de la Courtinière, muito cansado, recolheu-se duas horas antes do habitual. Adormeceu profundamente. Chegando a hora em que costumava deitar-se, a dama percebeu que o marido estava mergulhado num sono profundo. Considerou, pois, que o momento era favorável à vingança que vinha elucubrando, tanto em razão disputa que acabara de ter com o marido, como, talvez, por conta de alguma antiga hostilidade. Empregou, assim, todos os esforços na sedução de uma doméstica e de uma serva, sabendo que ambas eram fáceis de corromper por meio de generosas recompensas.

Depois de extrair das serviçais, mediante ameaças e terríveis sermões, a garantia de que manteriam segredo, a senhora lhes anunciou suas intenções criminosas. E para fazê-las condescender, deu a cada uma a soma de seiscentos francos, que a aceitaram. Feito isso, as três — primeiro a senhora — entraram no cômodo onde o marido descansava. E como na casa todos dormiam, abateram a vítima sem serem escutadas. Então, levaram o corpo a um dos porões do castelo, cavaram uma cova e lá sepultaram o senhor. E para evitar qualquer sinal de terra recentemente revolvida, colocaram um barril cheio de carne de porco salgada sobre a tumba. Depois disso, foram para a cama.

No dia seguinte, os demais servos, dando falta de seu amo, perguntaram se ele estava doente. A senhora disse-lhes que um de seus amigos viera buscá-lo, na noite anterior, para levá-lo, às pressas, para fazer as pazes de dois gentis-homens que estavam prestes a duelarem. Este subterfúgio funcionou por um tempo. Mas, transcorridos quinze dias sem que o Sr. de la Courtinière retornasse ao castelo, começaram a ficar preocupados. A viúva espalhou o boato de que soubera que seu marido havia sido surpreendido, ao atravessar um bosque, por salteadores, sendo por eles assassinado. Depois, vestiu-se de luto, manifestou lamentos fingidos, e ordenou que se fizessem, nas paróquias de seus domínios, serviços fúnebres e orações pelo repouso da alma do falecido senhor.

Todos os parentes e vizinhos vieram confortá-la, e ela tão bem fingiu o sofrimento, que ninguém jamais teria descoberto o seu crime, se o céu não permitisse que ele fosse revelado.

O falecido tinha um irmão que ocasionalmente vinha ver sua cunhada, tanto para distraí-la de suas supostas dores, quanto para cuidar dos assuntos e os interesses dos quatro filhos menores do falecido. Um dia, por volta das quatro ou cinco horas da tarde, passeava ele pelo jardim do castelo, quando, estando a contemplar um canteiro de flores adornado com lindas tulipas e outras flores raras que seu irmão em vida tanto amara, experimentou um súbito sangramento do nariz. Isto o surpreendeu sobremaneira, porque nunca havia acontecido antes. Naquele momento, ele pensou intensamente em seu irmão. Pareceu-lhe ver a sombra do Sr. de la Courtinière a lhe fazer um gesto com a mão, como se o chamasse. Não sentiu medo. Seguiu o espectro até o porão da casa, e o viu desaparecer precisamente na cova onde havia sido enterrado. Este prodígio despertou-lhe suspeitas do crime cometido. Para ter certeza disto, contou o que acabara de ver à cunhada. A dama empalideceu, o rosto transfigurou-se e ela pôs-se a balbuciar palavras de todo desconexas. As suspeitas do irmão ampliaram-se com aquela perturbação de espírito. Então, ele pediu para que cavassem no lugar onde vira desaparecer o fantasma. A viúva, de repente aterrorizada por essa súbita resolução, esforçou-se por se controlar. Forjou um semblante firme, zombou da aparição e tentou apaziguar a ansiedade do cunhado. Disse-lhe que, se ele se vangloriasse de semelhante visão, todos ririam dele, e ele se tornaria motivo de chacota geral.

Mas todos esses discursos não lograram desviá-lo de seu propósito. Ele ordenou que escavassem o porão na presença de testemunhas. O cadáver de seu irmão, semicorrompido, foi encontrado. O corpo foi exumado e o juiz de Quimper-Corentin o reconheceu. A viúva foi presa juntamente com as serviçais e as três criminosas foram condenadas à morte na fogueira. Todos os bens da senhora foram confiscados e empregadas em obras piedosas.

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O MAJOR E OS FALSOS FANTASMAS - Conto Clássico de Mistério - Walter Scott


O MAJOR E OS FALSOS FANTASMAS
Walter Scott
(1771 – 1832)

O fidalgo proprietário de certo palácio antigo, nos confins da Hungria, quis dar uma festa digna da sua qualidade e da grandeza do antigo solar em que habitava.

Os hóspedes necessariamente foram muitos, e entre eles se achou um oficial de hussardos conhecido pela sua bravura e coragem.

Tendo-se feito todos os arranjos necessários para que os convidados passassem ali a noite, disseram ao oficial, que, com dificuldade, se poderia acomodar toda a gente no palácio, a não haver alguém que quisesse dormir em um quarto habitado por fantasmas. E, sabendo-se que ele não era medroso, lhe propuseram ocupar o quarto enquanto se demorasse no palácio, como a pessoa que ali menos incomodada seria. O major agradeceu a preferência que dele se fazia, e, tendo-se demorado até alta noite nos divertimentos da companhia, se retirou depois ao seu quarto, jurando vingar-se de todo aquele que se atrevesse a incomodá-lo, ameaça que todos sabiam que ele era capaz de pôr em prática.

O major deitou-se, deixando a luz acesa e metendo um par de pistolas carregadas debaixo do travesseiro.

Ainda não tinha bem adormecido, quando foi acordado ao som de uma música solene e lúgubre. Olhou para todos os lados, e viu no fundo do quarto três senhoras fantasticamente vestidas de verde, as quais, juntas, cantavam um réquiem. O major ouviu com prazer a música por algum tempo.  Mas, afinal cansado, e querendo dormir, gritou:

— Senhoras, tudo isto é magnifico. Mas nem sempre deve ser a mesma coisa. Peço-vos que canteis outra peça.

As senhoras continuaram sem atender ao que se lhe dizia.

 O major começou a enfadar-se, e, afinal, sentando-se na cama, disse:

 —Senhoras, devo considerar o que vejo, e o que ouço, como feito de propósito para me meter medo, e, como isso me não parece bem, procurarei acabar a festa por um medo pouco agradável.

E começou a preparar as pistolas.

As senhoras continuaram sem atender a coisa alguma, e o major, cada vez mais aborrecido, lhes declarou que apenas lhes dava mais cinco minutos para se calarem, e que no fim deste espaço infalivelmente abriria fogo.

Nem assim o canto foi interrompido. Passaram-se os cinco minutos.

— Ainda vos dou tempo para vos arrependerdes: contarei até vinte.

Nem mesmo esta determinação produziu efeito. O major contou um, dois, três, e à medida que ia chegando ao fim, repetiu mais de uma vez que abriria fogo. Os últimos números — dezessete, dezoito, dezenove — foram ditos com grande pausa, assegurando com voz alta que as pistolas estavam engatilhadas.

As senhoras continuaram.

E o major, ao dar a voz de vinte, disparou ambas as pistolas contra as cantoras.  Mas estas, como se nada ouvissem, continuaram, e o major, vencido pela pouca eficácia da sua violência, adoeceu seriamente, e foi obrigado a estar de cama por três semanas.

O caso todo reduzia-se a que as senhoras estavam num quarto próximo, e que as balas se dirigiam só às suas imagens, que um espelho côncavo refletia no quarto em que ele dormia.

(Nota: Esta história pode explicar-se pelas leis da reflexão, mas, supomos que o engano, se não houvesse sido explicado, quem poderia fazer persuadir o major que no quarto não havia almas do outro mundo? E bem depressa se espalharia uma história, como a das bruxas com que nos embalam. Se o major tivesse tido o trabalho de levantar- e, como deveria, em breve ficaria satisfeito, que nada havia de sobrenatural, e se pouparia à mortificação de se terem rido à sua custa.)

Tradução e nota de autor desconhecido do século XIX.
Fonte: “O Archivo Popular” (PT), edição de 6 de janeiro de 1838.

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A DAMA DA ROSA BRANCA - Conto Clássico de Terror - Anônimo do séc. XX


A DAMA DA ROSA BRANCA
Anônimo do séc. XX


Embora pareça conto, não é, mesmo que o protagonista do caso, quando o narrava, o fizesse cheio de uma funda emoção, recordando a indubitável realidade do acontecimento. Deu-se o fato com um jovem diplomata alemão, que vivia em Madri durante os turbulentos dias em que o conde de São Luiz concitava sobre sua pessoa as iras liberais e preparava um grande movimento revolucionário, que se esperava a todo momento.

Nessa sociedade, de uma aristocracia e distinção sem par, sentia-se encantado o diplomata alemão, porquanto bem recebido e tratado em toda parte. Era amigo das mais esplêndidas belezas; da duquesa Angela de Medinaceli, a morena andaluza; de Maria Bushentai a espirituosa, e de Carolina Coronacio, a insigne poetisa. Osuna e Salamanca tinham para ele um lugar em sua mesa, em sua carruagem e em seu palco.

Uma noite, havia baile de máscaras no Real. O diplomata, a quem a princípio havia divertido o espetáculo do salão cheio de várias elegantes e luxuosas fantasias, acabou por sentir-se entediado e resolveu refugiar-se no palco de Salamanca, onde se sentou junto de uma porta. Estava sozinho e não tardou em ver que a porta se abria e uma gentil mascarada levantava a cortina. Era uma linda figura vestida de preto. Preta era também a máscara. Só as luvas eram brancas. Branca era também uma rosa que tinha em uma das mãos.

Sem que lhe dissesse palavra, a jovem fez-lhe um gesto imperioso, para que a acompanhasse. Dependurou-se ao braço do cavalheiro, que o acolheu, e desceram ambos ao salão. A mascarada era muito bela, porém muda. Lindas e pequenas eram suas mãos, assim como seus pés. Seu porte, gracioso e esbeltíssimo. Seus olhos, muito negros, brilhavam debaixo da máscara.

Com um orgulho galante, de sobejo justificado, sentia-se satisfeito o cavalheiro por levar pelo braço tão gentil moça, que deveria pertencer, sem dúvida alguma, a uma das principais famílias da corte, pela graça aristocrática de seu porte e pela extraordinária riqueza de seu vestuário. Mas, intrigava-o o mistério da bela desconhecida, que não se lhe acercara com atitude carnavalesca, nem dirigia a quem quer que fosse pilhérias nem palavra alguma. Apenas de quando em quando cravava em seu companheiro o fulgor penetrante de seus formosos olhos negros.

Nenhuma aventura poderia agradar mais ao cavalheiro do que aquela, que tão pouco se assemelhava às que podia esperar no baile. Aguçada, sua curiosidade dizia-lhe de quando em vez quem acreditava que ela pudesse ser, repassando em sua memória os nomes de todas as formosuras aristocratas, da idade e do talhe de sua misteriosa companheira. Porém, a quantos títulos ele citava de duquesitas e marquesitas que lhe acudiam à lembrança, ia ela respondendo que não. E não respondia com a voz, e sim, apenas com um movimento de cabeça, que começava a desconcertar o afortunado rapaz.

Por fim, a mascarada falou:

—Serias capaz de vir comigo aonde eu te quisesse levar?

Finalmente, ouvira a voz da elegante desconhecida e, por felicidade, ela se lhe dirigia com tal convite, que o fazia ditoso.

— Como poderia eu deixar de acompanhar-te? — respondeu. — Irei contigo aonde quiseres.

— Seriamente?

Seriamente!

Saíram para o vestíbulo, e a mascarada arrastou o companheiro para a rua.

Não temos carro — advertiu-lhe ele.

A mim pouco importa —replicou ela. — Amanhã, sim, eu terei uma das mais belas carruagens de Madri.

O cavalheiro saíra como estava, porque a mascarada não o deixara chegar ao vestiário, e ela também não levava abrigo algum. E como ele lhe observasse o frio que fazia, ela lhe respondeu:

— Estou mais fria do que a noite.

O cavalheiro não quis prosseguir e intimou a mascarada, já demasiado misteriosa, a declinar de uma vez seu some e qualidade. Ela, todavia, não lhe atendeu às palavras e continuou arrastando-o a seu lado.




Passaram a rua do Areal e desembocaram na Puerta de Sol. Alguns mascarados dirigiam-se a outros bailes de categoria inferior e rodearam-nos cantando e saltando. Diziam-lhes:

— Divirtam-se muito!

— Não é preciso tanta pressa, que para onde vão dá no mesmo.

— Deixemo-los, porque vão pensando na vida.

— Mas que par triste!

— Ninguém diria que vão de troça!

E entre vaias ao par misterioso e gritos e piruetas, o bando de mascarados alvoroçados torceu para as bandas do Principal, enquanto o intrigado galã e a dama negra da rosa branca seguiam para onde só ela sabia.

Enveredaram pela rua de Alcalá. À porta do teatro do Museu, que ocupava o antigo convento das Vallecas, deteve-os outro bando de gente que entrava para o baile. Um demônio convidava-o a passar.

— Olá! Aonde vais por aí abaixo? Já não são horas de ir ao Prado.

Outros mascarados fizeram-no calar-se. A distinção da negra mascarada, e o porte de seu amigo inspirava-lhes certo respeito. Uma beata gritou-lhes:

— Andai, andai, que ides ficar melhor do que nós!

E entrou no teatro.

O par misterioso prosseguia. Ao passar por diante das Calatravas, ouviu-se o toque do sino conventual que chamava para as orações religiosas.

Aquelas badaladas tinham algo de lúgubre, soando no ambiente da noite alta, e o cavalheiro sentiu que o braço da desconhecida apertava convulsivamente o seu, ao ouvir a voz do sino.

Era por uma dessas claras, frias e diáfanas noites de fevereiro madrileno. O diplomata inquietava-se cada vez mais, observando o caminho que levavam.

Poucas casas havia para aquele lado, embora fossem todas senhoriais, e era natural que se pudesse pensar em que a mascarada tivesse residência em alguma delas. Chegavam já diante da casa dos Heros e da hospedaria de S. Bruno. Não era crível que para ali o conduzisse a dama misteriosa. Em seguida, a casa dos Alfinetes, que Rieza adquirira pouco antes, e depois a casa de Santamarca, a de Alcanices e o Prado. O muro da Boa Vista limitava o extremo do caminho que seguiam, e mais além o Posito de um lado e a fronde do Retiro do outro. Ao centro, no alto, a Porta de Alcalá fechava o quadro, com a infinita elegância de suas linhas.

Terminava Madri. Para onde iriam? Onde ficaria a casa da dama, tão misteriosa como a própria mascarada? Internar-se-iam em demanda de algum palácio do bairro Barquillo?

— Estamos longe? — atreveu-se ele a perguntar, finalmente.

E ela respondeu calmamente:

— Não podemos estar mais perto.  

Encontravam-se, naquele instante, à porta de São José, e ali a dama negra da rosa branca deteve-se.

Vens? — perguntou-lhe, indicando-lhe a igreja.

Ele estremeceu diante daquilo que julgava uma indizível extravagância, e observou a inoportunidade da ocasião. À luz da lua, desenhava-se, estranhamente, sobre a pedra da facha da, a silhueta da negra mascarada, com seu vestido riquíssimo, coberto de vidrilhos que brilhavam com um  raro fulgor de pontos fosforescentes.

O cavalheiro, porém, embora aturdido, não podia demonstrar temores indignos de sua pessoa. Novamente a dama interrogou:

— Vens?

E ele respondeu:

— Vamos. Parece-me, porém, esquisito querer entrar agora na igreja.

A porta principal estava cerrada.

Desceram a escadaria, com certo contentamento da parte dela; ela, porém, tomando-lhe outra vez o braço e disposta a segurá-lo, fê-lo dobrar a esquina da rua das Torres e chegar à porta das dependências do templo que aí vão dar.

Empurraram-na. O postigo cedeu.

Atravessaram o pátio e a perturbação do cavalheiro aumentava, vendo como a dama negra o guiava através de um saguão e de pequenas portas, até o recinto sagrado.

A igreja ostentava grandes panos negros dependurados, e na parte central erguia-se um catafalco iluminado pela luz tíbia e vacilante de uns círios.

— Esta manhã — disse a jovem misteriosa, indicando o catafalco —, trouxeram-me e colocaram-me aqui.  Amanhã tornarão outra vez, e será preciso que me encontrem onde me deixaram.

E fez ao galã estupefato uma larga reverência por sua companhia, dizendo enquanto se inclinava graciosamente:

— Cavalheiro...

Tirou a máscara, e deixou ver, ou antes adivinhar, um lindo rosto pálido, de uma palidez morta! Os lábios assemelhavam-se a uma gota de sangue que começava a secar. Então, ela ofereceu-lhe a rosa branca que levava na mão. Moveram-se os largos panos que rodeavam o alto catafalco; houve um momento em que a luz escassa dos círios pareceu extinguir-se por completo, e a dama encantadora, a morta gentil, desapareceu aos olhos do diplomata.

Febricitante e atônito, temendo ter-se encontrado com uma louca, apressou-se o jovem em procurar a saída da igreja. Andou ao acaso durante muitas horas, preocupado com a sua extraordinária aventura, e, ao amanhecer, dirigiu-se de novo ao templo. Estavam tocando para a primeira missa, e entrou.

Lá estava o catafalco, e sobre ele, sem a menor dúvida, a inquietadora e linda misteriosa que lhe aparecera no palácio de Salamanca. Com a claridade do dia pode recolhê-la perfeitamente. Era uma linda condessinha com a qual havia dançado algumas vezes em casas nobres. Estava morta, com certeza, e à sua cabeceira, havia uma coroa de rosas brancas. O cavalheiro comparou-as à que tinha na não e viu que eram iguais.

Perguntou ao sacristão, que lhe confirmou ser a morta a tal condessinha.


Nota do editor: o presente conto é um excerto de uma narrativa de autoria desconhecida, publicado na revista “Vida Policial” (RJ), edição de 24 de junho de 1926.

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