LANÇAMENTO DA BURURU EDITORIAL: HORROR ORIENTAL: CONTOS POPULARES FANTÁSTICOS E SOBRENATURAIS


HORROR ORIENTAL – CONTOS POPULARES FANTÁSTICOS E SOBRENATURAIS

Lua Bueno Cyríaco (organizadora)


HORROR ORIENTAL – CONTOS POPULARES FANTÁSTICOS E SOBRENATURAIS – é uma coletânea ilustrada de contos de autores orientais que datam do século III ao início do século XX. Reúne autores que se valeram da tradição oral popular para escreverem as suas obras.

Nessa edição, terá o leitor traduções inéditas para a língua portuguesa, de autoria de Paulo Soriano e Lua Bueno Cyríaco,   de narrativas tradicionais da China, Japão e Coréia, escritas, dentre outros, por Gan Bao (285-366),  Pu Songling (1640-1715), Koizumi Yakumo (1850-1904) e Im Bang (1640-1722).

Fantasmas que sangram, cadáveres deambulantes que perseguem implacavelmente os vivos, demônios escondidos sob peles humanas, animais fantásticos, monstros hediondos que atacam os viajantes nas estradas, monges que lutam contra o maligno, aparições e vinganças de além-túmulo... Eis o universo sobrenatural e imensamente macabro que permeia a literatura fantástica oriental.


HORROR ORIENTAL – CONTOS POPULARES FANTÁSTICOS E SOBRENATURAIS


Vários autores.
Organização e Apresentação: Lua Bueno Cyríaco.
Tradução: Paulo Soriano e Lua Bueno Cyríaco.
Editora: BuRuru Editorial.
102 páginas.
Edição Ilustrada.
Preço: R$ 26,00 + frete.


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ANA DE LISBETH - Conto Clássico Fantástico - Hans Christian Andersen


ANA DE LISBETH
Hans Christian Andersen
(1805 – 1875)

        Ana de Lisbeth era uma moça linda. Seu rosto irradiava juvenil alegria. Os dentes pareciam pérolas finas, os olhos brilhavam como diamantes, diamantes risonhos. Na dança, os pés muito breves saltavam com maravilhosa ligeireza. Infelizmente, seus pensamentos eram ainda mais ligeiros. Apesar de inteligente, deixou-se seduzir por um aventureiro, que em breve a abandonou. Nunca mais houve notícias de tal homem.

Ana teve um filho, criança forte e sadia, mas terrivelmente feia; a mãe sentia vergonha do fruto da sua leviandade e encarregou da criação a mulher do coveiro, sua vizinha. Depois, entrou como ama de leite em casa de uma condessa.

No opulento palácio, deram-lhe um quarto elegante. Deram-lhe também vestidos de veludo e de seda. Então, fez-se exigente e embirrenta. Não aceitava observações. A mínima contradição atacava-lhe os nervos.

O pequeno conde era delicado como um príncipe, belo como um anjo. Ela consagrava-lhe todos os seus cuidados e caricias. E o seu filho continuava na casa do coveiro. Lá, poucas vezes assobiavam as chaleiras; em compensação, não faltavam más palavras. O pobre menino estava quase sempre só, ninguém se importava com seus gemidos. Chorava até dormir: quando se dorme, não se sente fome ou sede.

Vaso ruim não quebra, diz o provérbio. O filho de Ana de Lisbeth não o desmentiu. Cresceu, cresceu sem conhecer a mãe. O coveiro recebera dinheiro para guardar segredo.

Terminada a criação do filho da condessa, despediram a ama, que foi morar na cidade, onde se fez passar por burguesa honesta, vivendo de rendas, bem vestida, melhor tratada, donairosa. Abandonara o filho à desgraça, como o pai a havia abandonado.

O coveiro tirava do rapaz todo o partido possível. O filho de Ana de Lisbeth passava uma vida dura, sem vislumbre de esperança. Sempre maltratado, suportando frios e chuvas sem queixume. E, como era feio — muito feio! —, toda a aldeia motejava dele. Ninguém o amava.

 Mais tarde, entrou como grumete numa chalupa miserável, e aí encontrou novos sofrimentos. O capitão embriagava-se frequentemente, e em tais ocasiões o rapaz sofria uma chuva de pancadas. O pequeno Lisbeth parecia ter nascido sob má estrela. Um dia estourou um vendaval. O capitão mal podia aguentar o leme, e, de repente, uma tromba d’água envolveu o pobre barquinho e o fez voltear, já sem governo.

— Jesus! Meu Deus! — gritou o rapaz.

E chalupa, capitão e grumete, tudo mergulhou na voragem.

Ninguém presenciou o terrível acontecimento; só as gaivotas e os peixes poderiam contar alguma coisa.

Nenhum fragmento ficou boiando à tona para indicar onde o filho de Ana de Lisbeth havia perecido. Ademais, a ninguém fazia falta. Ninguém sentia saudades dele.

Ana vivia na cidade. Muita gente a tratava por "minha senhora". Gostava de contar a história da sua mocidade, de quando habitava no palácio da condessa e andava de carro e conversava com baronesas e damas muito distintas. E não faltavam elogios ao filho da condessa; era o seu “ai, Jesus!” —lindo, lindíssimo, um verdadeiro anjo!

—Vou visitar o meu menino e o grande palácio campestre onde passei tantos dias de esplendor — disse ela certo dia. —Ele há de lembrar-se de mim, daquele tempo em que me queria tão ternamente e me rodeava o pescoço com os bracinhos brancos de neve. Sim, hei de voltar a vê-lo.

Partiu, e depois de uma longa jornada, ora em diligência, ora a pé, chegou à nobre residência da condessa. Os criados eram-lhe estranhos, nenhum ouvira falar de Ana de Lisbeth.

Depois de ter esperado por muito tempo na antecâmara, um criado lhe abriu a porta do salão e ela entrou pouco antes da condessa e de seu filho. A dama recebeu-a muito bem e dirigiu-lhe palavras muito amáveis. O condezinho estava alto e delgado, formosos ainda os olhos, a boca, pequena e delicada. Olhou friamente para Ana de Lisbeth. Sem proferir uma palavra, deixou-se abraçar por ela com indiferença, desviando-se logo um pouco, e saindo em seguida. Esse foi o acolhimento que ela teve da sua maior afeição, da criança amada de que se sentia tão vaidosa. Retomou o caminho da cidade, sem poder conter as lágrimas. E, de súbito, um grande corvo negro como azeviche, crocitando em ásperos gritos, veio pousar num ramo à beira da estrada.

 —Ah! Que mau agouro! — murmurou ela. — Parece mesmo que está gritando para mim. Que desgraça teremos?

E pela mente correram-lhe negros pensamentos, e sentiu calafrios por todo o corpo. Pouco depois, passava ela pela casa do coveiro. A mulher, que estava sentada à porta, disse-lhe:

—Como estás sadia e bem conservada, Ana de Lisbeth! Tens passado boa vida, sem cuidados e sem misérias.

—Nem sempre, nem sempre...

—Nunca mais houve notícias da chalupa, nem do grumete — continuou a mulher do coveiro. — Afogaram-se, é o mais certo. E tenho pena, porque o rapaz, continuando naquela vida, podia de vez em quando mandar-me algum dinheiro.

— Ah! Julgas que morreram afogados? — disse Ana de Lisbeth.

E passaram logo para outro assunto. Ana estava ressentida pelo frio acolhimento do condezinho. Nada disse, porém, à mulher do coveiro. Queria que toda a gente julgasse ainda que estava em íntimas relações com o aristocrático palácio. E, de súbito, apareceu outra vez o corvo com o seu crocitar lúgubre.

— Essa ave negra me quer mal, anda hoje a me perseguir — disse Ana, inquieta e nervosa.

A mulher do coveiro preparava o café e Ana, deitando-se no sofá, em breve adormeceu. Viu, então, no sono agitado, pela primeira vez, aquele com quem nunca sonhara: o filho das suas entranhas, que naquela mesma casa havia sofrido fome e pancadas, e que repousava agora no fundo do mar, sabe Deus onde.

Parecia-lhe que um rapaz, alto e robusto, quase tão formoso como o condezinho, abria a porta e dizia:

— Aí vem o fim do mundo, agarra-te bem a mim, tu és minha mãe! No paraíso há um anjo que só quer te salvar. Segura-te bem, para que ele te leve para o céu.

E sentiu-se abraçada pelo jovem. Mas logo ouviu-se um grande ruído, como se o mundo baqueasse, e o anjo elevou-se para o céu, sustentando-a pelas roupagens. Então, começou uma luta tenaz, pois ao mesmo tempo que o anjo tentava levá-la para cima, uma multidão de mulheres a segurava pelo vestido, loucas, desesperadas, clamando em tumulto:

— Nós queremos salvar-nos, também! Seguremo-la bem! Não a larguemos de modo nenhum!

Por fim, rasgaram-se-lhe as roupas e Ana de Lisbeth viu-se abandonada do anjo, despenhada em fundo abismo... e nisso acordou de repente, porque ia caindo do sofá abaixo. De tal modo a perturbaram aquelas ideias que, a dizer a verdade, não poderia contar o extravagante sonho. Todavia, estava cheia de desconsolo, de vagos, inexplicáveis sobressaltos.

Tomou uma chávena de café com a mulher do coveiro e partiu logo, para não perder a diligência. Chegou, porém, atrasada, e só no dia seguinte partiria outra carruagem. Não quis, contudo, passar a noite em casa do coveiro, e, como havia esplêndido luar, resolveu ir a pé pela estrada, à beira-mar.

Na campina, nenhum ruído: nem o coaxar das rãs, nem os assobios das corujas, nem mesmo o brando marulhar das pequenas vagas. Naquele silêncio, havia um certo quê de solene, de lúgubre.

Ana caminhava. Seguia resoluta pela estrada. A princípio, sem pensar em coisa alguma. Os pensamentos, porém, nunca abandonam completamente a mente humana. Às vezes parecem adormecer, mais nada. Há muitas pessoas sempre tranquilas porque sabem que nada têm a temer das leis, da justiça de seu país; não pensam nas contas severas que têm de prestar ao Supremo Juízo das suas ações boas ou más, até das mais ocultas. Ana de Lisbeth era assim: passava por pessoa honesta e boa, e isso era-lhe o suficiente.

De súbito, parou para ver um objeto que se destacava na praia: era um chapéu velho, provavelmente arremessado pelo mar.

Depois de ter examinado o chapéu por um instante, recomeçou a caminhar e estacou de novo ante um objeto mais singular: julgou ver o corpo de um homem estendido sobre uma pedra comprida. Um calafrio de terror lhe percorreu o corpo. Tentou fugir. As pernas tremiam-lhe. E nada havia que temer: era apenas a sombra de uns altos caniços projetada pelo luar.

Pouco a pouco, porém, o pavor se apoderou dela e, agora, os seus pensamentos excitados concorriam para essa impressão. Em criança, ouvira falar em fantasmas do mar, das almas penadas cujos corpos, não tendo sido enterrados, apareciam aos viajantes, agarrando-os para que os levassem ao cemitério e os cobrissem de terra sagrada.

—Segura! Agarra! — gritavam sempre os lúgubres fantasmas.

Essa lembrança recordou-lhe o pesadelo, o grito das mulheres que a tinham segurado, o jovem querendo levantá-la ao momento supremo. Seu filho, a criança que ela nunca amara, que havia esquecido, e que havia perecido tão miseravelmente no naufrágio, não poderia voltar como espectro a bradar também: “Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada?” Esses terríveis pensamentos caíram como marteladas no coração de Ana de Lisbeth. A custo, respirava. Inquieta, olhava o mar. Uma névoa espessa surgia das águas e vinha rodear as árvores e os arbustos, dando-lhes aspectos inesperados.

Olhou para a lua, e o astro melancólico pareceu-lhe agora frio e esquálido como um rosto cadavérico. E no silêncio soturno do mar e na campina surgia, sim, surgia agora, uma voz indefinida, nem grito nem gemido, mas pronunciando rápida e constantemente:

— Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada!

Seria a alma errante de seu filho? Da criança nunca amada que se perdera no mar?

Ana de Lisbeth apertou o passo. Ia nervosa, febril. Resolveu tomar a direção da igreja; ali, talvez, encontraria a paz. Tentou seguir o caminho mais curto, mas sentiu, então, um peso sobre os ombros e a tal voz, agora mesmo próxima do ouvido, a murmurar, como num sopro a repetir sem cessar:

 —Enterra-me, enterra-me!

Ana tropeçou, ajoelhou-se e por um bocado caminhou de rastros. Se o túmulo fosse o esquecimento de tudo, ela mesma teria aberto o seu túmulo. Levantando-se, viu, então, quatro cavalos relinchando e vomitando fogo pelos olhos e ventas. Puxavam um carro fúnebre, e no carro ia sentado um malvado senhor que, havia um século, muitos crimes cometera naquele lugar.

Todas as noites, à hora dos fantasmas, rezava a tradição, ele entrava no velho castelo, e o seu rosto, em vez da palidez da morte, era escuro como carvão.

Passando, acenou a Lisbeth, dizendo-lhe:

—Cautela! Em breve esquecerás do filho e poderás andar como eu nesta carruagem brasonada.

Impelida pela coragem do desespero, Ana desatou a correr e entrou no cemitério. Estava coberto de cruzes e de corvos negros como azeviche, que, ao luar, agora fraco, mal se podiam distinguir.

—A mãe dos corvos! Olhem a madrasta! — crocitaram as aves fúnebres, avistando Ana de Lisbeth.

Um pavor imenso se apoderou da mulher. Temia ser mudada numa daquelas aves, se a sepultura não fosse aberta logo. Deitou-se sobre o solo e começou a abrir a cova. A terra estava dura. Em breve, ficou com as mãos ensanguentadas. O queixume do fantasma continuava a soar nos seus ouvidos. Receava ouvir o cantar do galo ou de ver o primeiro raio do sol, pois, em tal caso, estaria perdida.

Ora, ao cantar do galo, ao romper da aurora, só havia metade da cova; sentiu uma gélida mão pousar-lhe sobre a fronte, e outra no coração.

—Metade de uma sepultura não basta! — gemeu o fantasma, que logo sumiu no fundo do mar.

Ana de Lisbeth caiu sem sentidos, como morta.

Naquela manhã, dois camponeses encontraram-na assim. Não no cemitério, mas na praia junto do mar. Ela abrira um buraco na areia e estava com os dedos feridos pelos seixos.



Ana padeceu prolongada enfermidade. As angústias da consciência despertada pelo temor de Deus transformaram-lhe a cabeça. Acreditava ter só metade da alma. O filho havia-lhe arrebatado a outra metade, levando-a para o fundo do mar. Sem ela, não poderia jamais entrar no Reino da Graça.

A custo, reconheceriam-na agora. Só falava do espectro do mar que devia enterrar em terreno sagrado, para ganhar a sua alma. Muitas vezes, passava a noite à beira-mar, à espera do fantasma. Um dia, desapareceu.

Na tarde desse dia, quando o sineiro entrou na igreja, à hora do Angelus, viu Ana de Lisbeth de joelhos ante o altar. Estava fraca, muito curvada. Mas os olhos luminosos, o rosto risonho e os últimos raios do sol, caindo sobre a Bíblia aberta, fizeram sobressair estas palavras do profeta Joel:

"Rasgai os vossos corações e não as vossas túnicas; lembrai-vos sempre ao senhor".

Foi acaso, dirá alguém; mas há muitos acasos como esse.

Contou ela, depois, que durante a noite lhe aparecera a alma do filho. "É verdade — ouvira ela — que tu só me cavaste metade da sepultura; mas faz agora um ano que me sepultaste inteiro no teu coração, e é aí que as mães guardam bem os filhos".

E, entregando-lhe a outra metade da sua alma, conduzira-a à igreja.

—Agora — acrescentou ela —, agora estou na Casa do Senhor, onde se é sempre feliz.


Quando o sol mergulhou não horizonte, a alma de Ana de Lisbeth subiu morada onde nada temem os que muito se arrependeram e muito padeceram.

Tradução de autor desconhecido.
Fonte: Revista Carioca, edição nº 624, de 18 de setembro de 1947.


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LÚCIFER - Conto Clássico Fantástico - Anatole France


LÚCIFER
Anatole France
(1844 – 1924)

Andrea Tafi, pintor e mosaísta florentino, tinha muito medo dos diabos, sobretudo nessas horas da noite em que é permitido às potências malignas imperar na obscuridade. E os temores do Tafi não deixavam de ser fundados, porque os demônios tinham então motivos para odiar os pintores que lhes arrebatavam com um só quadro mais almas que um fradezinho com trinta sermões. Com efeito, o frade, para inspirar aos fiéis um terror saudável, lhes descrevia, o melhor possível, o dia de cólera que deve reduzir os séculos a cinza, segundo o testemunho de Davi e da Sibila; enrouquecia sua voz e punha as mãos diante da boca para imitar a trombeta do Anjo, porém, tudo era levado pelo vento. Entretanto, uma pintura estendida no muro de uma capela ou de um claustro, na qual se apresentava Jesus Cristo sentado para julgar os vivos e os mortos, falava sem cessar à mirada dos pecadores e corrigia pelos olhos os que haviam pecado pelos olhos e de outras maneiras. Era a época em que mestres hábeis pintavam em Santa Cruz de Florença e no Sampo Santo de Pisa os mistérios da Justiça Eterna. Tais obras eram traçadas conforme o relato poético e rimado que Dante Alighieri, homem muito sábio em Teologia e em Direito Canônico, havia escrito da sua viagem aos Infernos, ao Purgatório e ao Paraiso, aonde, pelos méritos extraordinários de sua amada, entrou em vida; por este motivo, naquelas pinturas tudo era instrutivo e verdadeiro, e se pode assegurar que não era mais proveitoso ler uma crônica muito extensa do que contemplar aquelas figuras. Os mestres florentinos tratavam de pintar à sombra das laranjeiras, sobre a erva esmaltada de flores, damas e cavaleiros aos quais a Morte espreitava com seu gadanho enquanto eles viam só o Amor ao compasso de suas laudes e de suas violas. Nada mais oportuno para converter os pecadores carnais que bebem o esquecimento de Deus entre os lábios das mulheres. Para escarmento dos avaros, o pintor representava, ao natural, demônios que vertiam ouro derretido na boca do bispo ou da abadessa que havia pago mal as obras encomendadas. Por isto, eram, então, os demônios inimigos dos pintores e especialmente dos pintores de Florença, que excediam a todos os demais era engenho e sutileza. Principalmente reprovavam que os representassem sob um aspecto odioso, com cabeça de pássaro ou de peixe, corpo de serpente e asas de morcego. Seu desgosto se manifesta claramente na história de Spinello.

Spinello Spinelli[1], de Arezzo, era descendente de uma nobre família de fiorentinos desterrados. A nobreza de sua inteligência igualava a de seu nascimento, porque foi o pintor mais hábil de sua época. Realizou em Florença importantes trabalhos. Pisa encarregou-o de ornar, em continuação a Giotto, os muros do claustro bendito, onde os mortos descansam sob roseirais em uma terra trazida de Jerusalém. Porém, depois de haver trabalhado muito tempo nas cidades e depois de ganhar muito dinheiro, quis voltar a sua amável Arezzo, sua cidade natal. Os aretinos não haviam esquecido que Spinello, inscrito desde a sua juventude na confraria de Santa Maria da Misericórdia, durante a peste de 1383, havia visitado os enfermos e enterrado os mortos. Agradeciam-lhe, também, suas obras, que estenderam a glória de Arezzo em toda a Toscana; por isso, receberam-no com muita pompa. Enérgico, ainda e firme em sua idade madura, encarregou-se de importantes empresas. Sua mulher lhe dizia:

— És rico; descansa e deixa que os jovens pintem o que tu pensas pintar. O repouso é necessário para os velhos. Devemos acabar nossa vida em uma calma suave e piedosa. Imaginar ansiosamente obras profanas, como novas torres de Babel, é tentar a Deus. Spinello, se te obstinas em prosseguir com tuas pinturas e tuas cores, perderás a paz da alma.

Assim falava a boa mulher; ele, porém, não lhe deu atenção porque só queria, em sua inquietude, aumentar sua fortuna e sua glória. Em vez de procurar descanso, contratou, com os mordomos de Santo Agnolo, pintar uma história de São Miguel, que devia cobrir todo o coro da igreja e conter uma infinidade de personagens. Lançou-se a esta empresa com maravilhoso ardor. Relendo os lugares da Escritura em que devia inspirar-se, estudou profundamente cada linha e cada palavra. Não satisfeito com desenhar durante todo o dia em seu atelier, trabalhava no leito e na mesa. E pela tarde, enquanto passeava ao pé da colina, sobre a qual se eleva Arezzo, orgulhosa de seus muros e de suas torres, meditava também sobre seus trabalhos. Poder-se-ia dizer que a história do Arcanjo estava pintada por completo em seu cérebro, quando começou a esboçar os assuntos com lápis vermelho. Andou ligeiro traçando os perfis; logo começou a pintar sobre o altar-mor a cena que devia ter mais relevo que as outras, pois nela se glorificava o chefe das milícias celestes pela vitória que alcançou antes do princípio dos tempos. Spinello representou ali são Miguel combatendo no ar com a serpente de sete cabeças e dez cornos e se deleitou representando, na parte inferior do quadro, o príncipe dos demônios, Lúcifer, sob a aparência de um monstro espantoso. As figuras brotavam espontaneamente de sua mão, e conseguiu muito mais do que havia prometido a si próprio; o rosto de Lúcifer se mostrava tão odioso que era impossível subtrair-se ao conjuro de sua fealdade. Aquele rosto perseguiu o pintor na rua e o acompanhou até sua casa. À noite, Spinello se deitou no leito junto de sua mulher e adormeceu. Durante o sono apresentou-se a ele um anjo, tão formoso como São Miguel, porém com o rosto sombrio e lhe disse:

— Spinello: eu sou Lúcifer. Onde me viste para pintar-me, como o fizeste com aspecto ignominioso?

O velho lhe respondeu, trêmulo, que não o havia visto nunca, porque não nunca fora aos infernos como Dante Alighieri, porém, que ao representá-lo daquele modo, quis expressar, de uma maneira sensível, a fealdade do pecado.

Lúcifer deu de ombros. Poder-se-ia dizer que, de repente, a colina de São Germiniano se agitava:

— Spinello — perguntou — queres fazer-me o obséquio de raciocinar um pouco comigo? Eu sou um bom raciocinador e Aquele a quem tu rezas não o ignora.

Como Spinello não o contentasse, Lúcifer prosseguiu do seguinte modo:

—Spinello, tu leste os livros que tratam de mim; tu conheces minha aventura e de que modo saí do Céu para converter-me em príncipe do Mundo. Ilustre empresa a minha, única no gênero, se os gigantes não houvessem atacado, também, a seu deus Júpiter, segundo o viste, Spinello, em uma velha tumba onde se acha esculpida, sobre mármore, aquela guerra.

—É certo — disse Spinello. — Eu vi essa tumba em Santa Reparata de Fiorença. É uma formosa obra dos romanos.

— Pois já sabes — replicou Lúcifer, sorridente — que os gigantes não estão representados ali em forma de rãs nem de camaleões.

— Porque não haviam atacado o verdadeiro Deus — replicou o pintor — e sim  um ídolo dos pagãos. Isto é muito digno de ter-se em conta. E vós, Lúcifer, erguestes a bandeira de rebelião contra o verdadeiro Rei do Céu e da Terra.

— Não te poso negar isto — respondeu Lúcifer —, mas quantas classes de pecados me atribuis por esse motivo?

— Podem vos ser atribuído sete — respondeu o pintor — e todos capitais.

— Sete — disse o Anjo das trevas —é o número da Teologia; tudo que acontece em minha história, estritamente unida à do Outro, tem relação com o número sete. Spinello, tu me consideras orgulhoso, colérico e invejoso. Conformo-me com a condição de que me concedas que somente invejo a glória. Supões-me avaro? Consinto ainda; a avareza é uma virtude de príncipe. Quanto à gula e à luxúria, se as atribuis a mim, não me ofenderei. Falta a preguiça.

E ao pronunciar essa frase, Lúcifer cruzou seus braços sobre a couraça e, movendo sua cabeça entristecida, agitou sua cabeleira inflamada.

— Spinello, é verdade que me supões preguiçoso? É verdade que me supões covarde? Consideras, Spinello, que minha rebelião é obra de um preguiçoso? Não. Era, pois, justo que me atribuísses rosto enérgico e audaz; não se deve prejudicar ninguém falsamente, nem sequer o Diabo. Não vês que ofendes àquele ante a quem rezas quando lhe dás por adversário um sapo monstruoso? Spinello, és demasiado ignorante para tua idade; tenho vontade de puxar-te as telhas como a um tolo.

Ante aquela ameaça, e ao ver estendido para ele um braço de Lúcifer, Spinello levou as mãos à cabeça e começou a rugir com terror. Sua bondosa mulher despertou sobressaltada e lhe perguntou de que mal padecia. Spinello respondeu-lhe, batendo os dentes, que acabava de ver Lúcifer e temia que lhe arrancasse as orelhas.

— Já te havia dito — respondeu a bondosa mulher — que todas as figuras que te obstinas em pintar nos muros acabanam por te enlouquecer.

— Não — estou louco — disse o pintor. Ele me apareceu; é formoso, ainda que triste e soberbo.  Amanhã mesmo apagarei a horrível figura que lhe atribui, sem motivo, e em seu lugar pintarei a que acabo de ver em sonhos, porque não se deve ser injusto nem mesmo com o Diabo.

— Melhor será que durmas — replicou a mulher. — Tuas razões me parecem absurdas e não são tão cristãs como deveriam ser.

Spinello tratou de levantar-se, porém lhe faltaram as forças. Caiu desacordado sobre o travesseiro. Durante alguns, dias ardeu de febre; depois, morreu.


Tradução de autor desconhecido.
Fonte: Revista Carioca, edição nº 624, de 18 de setembro de 1947.



[1] Dito Spinello Arentino (c. 1350 – 1410) foi um pintor italiano.

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O POÇO E O PÊNDULO - Conto Clássico de Horror - Edgar Allan Poe


O POÇO E O PÊNDULO
Edgar Allan Pöe
(1809 – 1849)

Eu estava alquebrado pelas torturas materiais e morais suportadas durante o longuíssimo interrogatório e o ainda mais longo processo. Por isso, quando afinal me soltaram da polé a que estivera pendurado pelos polegares, deixei-me cair sobre o banco de pedra e tive a impressão de que todos os sentidos me abandonavam.

A sentença — a terrível sentença de morte — foi a última frase que ouvi distintamente. Depois, o som da voz dos inquisidores diluiu-se para mim em um zumbido confuso, que produzia em meus ouvidos o efeito de uma rotação, porquanto a única ideia que trazia a meu cérebro era a de estar ouvindo a roda de um moinho.

Mas isso pouco durou, porque ao fim de alguns instantes nada mais ouvi.

O último sentido que conservei até o fim foi o da visão, mas com horrendas deformações! Via os lábios dos frades-juízes, mas via-os brancos, mais brancos do que o papel sobre o qual estou escrevendo. E finos... finos como esse mesmo papel, afinados pela expressão de dureza, de crueldade implacável e de infinito desprezo pela dor humana. Eu via os decretos do Destino escoar em por esses lábios: via esses lábios contorcidos pela palavra "morte", e pelas sílabas de meu nome.

E estremeci porque o som não acompanhava o movimento desses lábios. Vi, também, em alguns instantes de delírio, a mole e quase imperceptível ondulação das cortinas negras que revestiam as paredes da sala.

Então, como a vibração de uma nota musical rica e sonora, insinuou-se em meu espírito a ideia do repouso delicioso que nos espera no túmulo Essa ideia me veio tão doce e furtivamente que precisei de algum tempo para ter dela uma apreciação completa. Mas, no momento em que ela começava a me embalar o espírito, as figuras dos juízes desvaneceram-se, as trevas me cercaram e todas as minhas sensações desapareceram como se houvessem mergulhado subitamente no Hades. E, então, o silêncio, a calma e a escuridão resumiram todo o universo para mim.

Eu desmaiara, mas, nem assim, perdera completamente os sentidos. E o pouco que conservava em vão tentarei definir.

Em meus esforços desesperados e teimosos para reavivar a memória, em minha ardente aplicação para reunir as migalhas desse estado de aniquilamento em que minha alma naufragara, lembro-me, apenas, em sombras de recordações sem nitidez alguma, de que grandes e frios vultos me ergueram e transportaram, silenciosamente, para baixo — para baixo, mais para baixo ainda e sempre para mais baixo, até que horrível vertigem apagou toda luz de meu pensamento, à só ideia da perpetuidade dessa descida. Depois — muito mais tarde, por certo —, tive uma primeira sensação, a de bolor e umidade; além disso, tudo era demência — a demência de uma memória que se debatia entre horrores.

Bruscamente, recobrei a consciência do movimento e do ruído, o movimento tumultuoso de meu coração e, em meus ouvidos, o ruído de suas pancadas. Depois, a simples consciência da existência — mas sem pensamento. E esse estado durou horas.  Enfim, repentinamente, o pensamento... um terror arrepiante e uma enérgica tentativa para compreender minha situação. Depois, um violento desejo de recair na completa insensibilidade e um despertar impetuoso de minha consciência. Esforço-me para me mover e consigo-o. Então, recordo-me do processo, dos juízes, das cortinas sombrias, da sentença, do mal-estar, do desfalecimento...

Até então, eu não abrira os olhos. Tinha a impressão de estar deitado de costas, e sem laços que me prendessem. Estendi a mão e ela caiu, pesadamente, sobre qualquer cousa úmida e dura. Deixei-a ficar assim, esforçando-me por imaginar onde poderia estar e o que de mim fora feito.

Estava ansioso por fazer uso de meus olhos, mas não o ousava. Temia meu primeiro olhar sobre os objetos, que podiam estar em torno de mim: não que receasse ver coisas terríveis, mas é que estava obcecado pela ideia de que não havia nada a ver.

Finalmente, com o coração estrangulado por uma selvagem angústia, abri rapidamente os olhos. Confirmava-se o que eu conjecturara de pior. As trevas da noite eterna cercavam-me. Foi-me necessário grande esforço para respirar. Sentia a intensidade das trevas pesarem sobre mim, sufocando-me. A atmosfera estava insuportavelmente pesada.

Fiquei estendido, sem ousar outro movimento e apelei para todas as forças de meu raciocínio. Rememorei os modos de agir da Inquisição e, desse ponto de partida, tratei de deduzir qual podia ser minha situação presente. Deveria ter decorrido muito tempo desde que a sentença fora pronunciada. Todavia, não me veio ao espírito, um só instante, que eu pudesse estar efetivamente morto. Uma tal suposição, malgrado tudo o que pretendem as obras de imaginação, é absolutamente inconciliável com a existência real. Mas onde estava eu e em que situação?

Sabia que os condenados à morte pela Inquisição pereciam, habitualmente, nas fogueiras e que uma dessas cerimônias teria lugar na própria noite de meu julgamento. Teria eu sido, novamente, recolhido ao meu calabouço, para nele esperar o sacrifício, que só seria celebrado ao fim de alguns meses? Compreendi, imediatamente, que isso era inverossímil. As vítimas disponíveis tinham sido requisitadas imediatamente.

Além do mais, meu antigo calabouço, como das as celas dos condenados, em Toledo, tinham selo de pedra e a luz não era totalmente exilada dele.

Bruscamente, um pensamento atroz atacou meu espírito, fazendo refluir o sangue, em ondas quentes, a meu coração e por algum tempo mergulhei mais uma vez na insensibilidade.

Logo que recuperei os sentidos, pus-me de pé num salto, enquanto um tremor convulsivo sacudia todo o meu corpo. Estendi precipitadamente os braços acima e abaixo de mim, em todas as direções. Nada encontrei. Entretanto, não ousei dar um passo, temendo esbarrar nas paredes de um túmulo. O suor escorria de todos os meus poros e juntava-se em minha fronte em enormes gotas geladas.

Mas acabei por não mais suportar essa agonia de dúvida. Dei um passo à frente, com grande precaução, braços estendidos e olhos desmesuradamente abertos, procurando captar o menor raio de luz. Dei vários passos, porém tudo era trevas.... Respirei mais livremente, porque me pareceu evidente que, pelo menos, a sorte mais horrenda entre todas não me fora reservada.

 Então, enquanto continuava em minha marcha circunspecta, vieram-me em tumulto, à memória, os mil beatos vagos que tinham curso sobre as atrocidades da Inquisição em Toledo. A respeito de seus calabouços, circulavam estranhas narrações — que eu sempre considerara — de fábulas tão estranhas... e tão horríveis, que eram contadas em voz baixa. Estaria eu destinado a morrer de fome no mundo das trevas subterrâneas? Ou qual outra sorte, talvez mais terrível ainda, me esperava? Que o termo fosse a morte e que essa morte fosse de uma atrocidade fora do comum, eu o imaginava, posto que tivera tempo bastante para estudar o caráter de meus juízes. O modo e hora dessa morte eram minha única preocupação, todo o meu tormento.

Finalmente, minhas mãos estendidas se chocaram com um obstáculo resistente.

Era uma parede, que parecia feita com grandes pedras. Seguia-a de perto, com as desconfiadas precauções, que me eram sugeridas pela recapitulação das estranhas narrativas. Esse processo, no entanto, não me permitia de forma alguma avaliar as dimensões de meu calabouço, porque eu podia dar uma volta completa e chegar de novo ao ponto de partida, sem o perceber, tanta uniformidade apresentava a muralha.

Procurei a faca, que se encontrava em meu bolso, no momento em que me introduziram na sala dos inquisidores. Não a possuía mais: tinham substituído toda a minha roupa por um burel de sarja grosseira. Meu primeiro pensamento fora o de enterrar a lâmina em alguma fissura da parede para marcar meu ponto de partida. Acabei resolvendo rasgar uma tira de meu burel e depositei-a no sentido de seu comprimento, perpendicularmente à muralha.

Tateando para procurar meu caminho ao longo da muralha, eu devia, inevitavelmente, ao terminar a volta, encontrar essa tira de fazenda. Era, pelo menos, o que eu pensava; mas não contara com a vastidão de minha cela e com a extrema fraqueza de meu corpo. O solo era úmido e escorregadio. Caminhei por algum tempo, titubeando, depois tropecei e caí.

Minha fadiga excessiva fez com que eu ficasse prostrado e não tardei a adormecer nessa posição.

Ao despertar, estendendo o braço, encontrei do meu lado um pão relativamente macio e um cântaro cheio de água. Com o corpo demasiadamente dolorido para poder refletir sobre esse fato, bebi e comi avidamente. Pouco depois, recomecei a caminhar e, não sem grande esforço, cheguei, finalmente, à tira de sarja. No mento de minha queda, eu já havia contado cinquenta e dois passos e, depois que recomecei a marcha lenta e difícil, contei ainda quarenta e oito, até encontrar o ponto de partida. Isso fazia um total de cem passos. À razão de dois passos para um metro, concluí que o calabouço tinha uma circunferência de cinquenta metros. No entanto, como eu encontrava muitos ângulos, não podia fazer uma ideia exata da sua configuração.

Deixei de me interessar por essas investigações. Mas uma curiosidade confusa incitava-me a prossegui-las. Abandonando a muralha, resolvi fazer a travessia da superfície circunscrita. A princípio, caminhei com prudência extrema, porque o solo, embora parecesse feito de matéria consistente, era recoberto por um pérfido lençol de água. Ganhei, entretanto, alguma coragem, conseguindo caminhar com algum desembaraço, esforçando-me por avançar em linha reta. Dei, desse modo, dez ou doze passos para a frente, quando o incômodo burel, entravando meus pés, provocou minha queda. Caí rudemente, batendo com o queixo no chão.

Na confusão que se formou em meu espírito, não notei logo um detalhe interessante. Porém, alguns segundos depois, tive minha atenção voltada para ele. Foi, o seguinte: meu queixo repousava sobre o solo de minha prisão, mas os meus lábios e a parte superior de meu rosto não tinham contato com coisa alguma. Ao mesmo tempo, minha fronte parecia banhada exalações nauseabundas, e um cheiro característico de cogumelos podres quase me sufocou. Estendi os braços e estremeci ao verificar que era sobre o rebordo de um poço circular que eu tinha caído! Naturalmente, eu não podia, no momento, determinar as dimensões desse poço. Mas, tateando suas bordas, pude destacar uma pedra de regular dimensões e deixei-a cair.

Durante alguns segundos, prestei ouvidos ao ruído de seus choques reiterados contra as paredes do poço, e ela acabou por mergulhar na água com um ruído sinistro, seguido de ecos ressonantes. Quase ao mesmo tempo, ouvi, acima de minha cabeça, um ruído de porta, que abriam rapidamente para tornarem a fechá-la, no mesmo instante, enquanto um frágil raio de luz perfurava as trevas para morrer logo em seguida.

Compreendi, então, qual era aquela a sorte, que me fora preparada, e felicitei-me pelo acidente que me salvara.

Se tivesse dado mais um passo antes de cair, minha queda teria sido mortal. Entretanto, a morte da qual eu me livrara apresentava esse caráter que me levara a taxar de imaginárias as narrações que faziam da Inquisição.

Tremendo fortemente, voltei a me encostar à parede, decidido a morrer preso e ela e não mais afrontar o terrível poço. Em outra disposição de espírito, eu teria acabado de uma vez com tais tormentos, atirando-me ao abismo. Mas, naquele momento, eu era o último dos covardes. Não podia esquecer, também, o que me fora dado ler a respeito desse poço, a saber: que a extinção repentina da vida era uma eventualidade que os Inquisidores não podiam admitir em suas horríveis concepções. A agitação de meu espírito manteve-me alerta por longas horas, depois adormeci novamente. Despertando encontrei junto de mim, como da primeira vez, um pão e um novo cântaro cheio de água. Minha sede era ardente e traguei logo toda a água. Esta devia conter narcótico violento, pois, apenas a engoli, fui tomado de invencível necessidade de dormir. Um sono profundo pesou sobre mim, semelhante ao sono da morte. Qual foi sua duração? Não posso dizer. Mas, ao despertar, verifiquei que os objetos que me cercavam eram agora visíveis. Um brilho estranho, sulfuroso, cuja origem foi-me impossível determinar no primeiro momento, permitia-me limitar a extensão e aspecto de minha prisão. Enganara-me e muito a respeito de suas dimensões O circuito total das paredes não podia exceder vinte e cinco jardas. Isso lançou-me em grande confusão — confusão bem vã, porque entre as terríveis conjecturas de que me via cercado, nenhum outro detalhe poder ter menor importância do que este. Mas meu espírito fica profundamente impressionado por esse fato e tentei descobrir o que me levara a errar tanto! Finalmente a verdade surgiu. Em meu primeiro esforço de exploração do recinto, eu fizera cinquenta e dois passos, até minha primeira queda. Eu devia estar, então, a um ou dois passos da tira de sarja e, na verdade, já dera uma volta completa ao longo da muralha. Mas foi então, que, vencido pela fadiga, adormeci e, ao despertar, voltei, sem dúvida, sobre meus passos, o que me fez contar duplamente a extensão do circuito real. A desordem de meu cérebro impedira-me de observar que a parede ficava à esquerda, ao iniciar a marcha e, à direita, quando a terminei.

Errara, igualmente, quanto à forma do recinto. Era quase quadrado e suas paredes pareciam ser de ferro ou qualquer outro metal, em vastas placas, ostentando pinturas que representavam símbolos medonhos, figuras demoníacas. E notei que essas monstruosidades ofereciam contornos bastante nítidos, mas que as cores pareciam antigas e apagadas pela umidade ou pelo tempo. No meio do solo, o poço escancarava sua horrível boca! Tudo isso eu vi de modo impreciso e não sem esforços, porque, enquanto dormira, eu fora amarrado, de costas, sobre um estrado muito baixo. Braços e pernas estavam atados por meio de uma longa correia. Esta se enrolava em torno de meus membros e de meu busto, deixando livres apenas minha cabeça e meu braço esquerdo. Mesmo assim, eu tinha de fazer penosos esforços para alcançar os alimentos colocados em um prato de barro, no chão, junto do estrado. Olhei para cima e considerei o teto de minha prisão. Ficava dez a quinze metros acima de minha cabeça e dele pendia um pêndulo formidável, como os dos antigos relógios. O aspecto desse instrumento oferecia, entretanto, uma particularidade, que fez com que eu o examinasse com mais atenção: pareceu-me estar em movimento.

Pouco depois, essa aparência se transformou em certeza. Sua oscilação era curta e naturalmente lenta; observei-o durante alguns segundos com certa apreensão, mas, principalmente, com surpresa.

Afinal, cansado de seguir seu movimento monótono, observei os outros objetos da cela.

Um frágil ruído despertou minha atenção e, olhando para baixo, vi vários e grandes ratos correndo de um para outro lado. Enquanto eu assim os observava, eles se aproximavam em fileiras cerradas, precipitadamente, olhinhos ávidos, atraídos pelo cheiro de carne.

Foram-me precisos, para afugentá-los, muitos esforços e atenta vigilância.

Havia passado uma meia hora ou uma hora no máximo (porque eu tinha do tempo noção muito imperfeita), quando dirigi novamente meus olhos para o alto.

O que vi, então, fez saltar meu coração. A oscilação do pêndulo aumentara cerca de uma jarda. Naturalmente, sua velocidade aumentara também.

Porém, o que mais me perturbou foi verificar que ele “descera sensivelmente”! Notei então — é inútil dizer com que terror — que sua extremidade inferior era constituída por uma espécie de meia lua de aço luzente, com cerca de trinta centímetros de comprimento, de uma a outra ponta. Essas pontas estavam voltadas para cima e o rebordo inferior aparecia cuidadosamente afiado como uma navalha; e, como uma navalha, parecia maciço e pesado, engrossando acima do fio até a parte superior, que era larga e sólida. Estava suspenso por uma sólida corrente e assobiava em seu rápido movimento oscilatório.

Não duvidei por mais tempo do destino que me fora preparado pelo engenho cruel dos monges. Os agentes da Inquisição, certamente, sabiam que eu descobrira a existência do poço. E já que eu não me precipitara nele, tinham me preparado uma morte diferente.

De que servirá descrever as longas, longuíssimas horas de angústia mais que mortal, passadas com os olhos desmesuradamente abertos, contando as oscilações da lâmina de aço? Polegada a polegada, linha a linha, sua descida só era sensível a intervalos que a mim pareciam séculos. Mas sua aproximação era contínua. Mais baixo! Sempre mais baixo! Horas se passaram, muitas horas talvez, antes que ele me ameaçasse de muito perto a ponto de me secar o suor com sua ventilação. Implorei aos céus, importunei-os com minhas preces, rogando que a lâmina descesse mais depressa.

Depois, tive um novo período de completa insensibilidade. Foi breve, porque, ao recuperar os sentidos, não notei progresso apreciável na descida do pêndulo. Mas talvez tenha sido longa, porque havia, sem dúvida, algum demônio que espionava meus desfalecimentos e, para que eu não perdesse um só instante o espetáculo da sinistra oscilação, esse mesmo demônio talvez tenha detido o movimento do pêndulo durante meu desmaio. Recuperando os sentidos, minha primeira sensação foi de fraqueza intensa, causada por uma longa inanição.

No meio daquela agonia atual, a humana natureza reclamava alimento. Com grande trabalho, esforcei-me por estender o braço esquerdo tão longe quanto me permitiam as voltas da correia e apoderei-me das poucas migalhas abandonadas pelos ratos. Quando levava um pedaço à boca, uma ideia brilhou em meu cérebro, uma ideia louca talvez, mas alegre e cheia de esperança.

Mas era uma ideia imperfeita... Em vão tentei completá-la... A longa duração de meu sofrimento quase aniquilara os recursos ordinários de minha inteligência. Eu estava como que idiotizado.

A oscilação do pendulo efetuava-se em um plano perpendicular ao comprimento de meu corpo. Verifiquei que a meia lua afiada estava disposta de modo a atravessar a região do coração. Roçaria pela sarja de meu burel, depois voltaria ao mesmo lugar e, outra vez e outra mais...

Nos primeiros minutos, não poderia contar senão meu burel. Depois... Não ousei refletir mais... Não quis pensar no contato da lâmina atravessando minha roupa e depois...

Tive, então, um acesso de delírio. Alternativamente ria e urrava, segundo a ideia predominante na desordem de meu cérebro.

Mais baixo, regularmente, inexoravelmente mais baixo! Ele oscilava agora a menos de três polegadas de meu peito.

Mais baixo... mais baixo ainda! Eu arquejava e me debatia a cada oscilação. Convulsivamente, a cada passagem do pêndulo eu me encolhia todo.

E eis que, no meio desse desespero, a ideia inteira se me oferecia fraca, apenas constituída, entretanto... já completa! Sem tardar, com a nervosa energia do desespero, comecei a tentar sua realização.

Havia já mais de uma hora, as imediações da plataforma sobre a qual eu estava estendido formigavam de ratos. Turbulentos, atrevidos, vorazes, fixavam sobre mim seus olhinhos rubros, como se esperassem apelas minha imobilização para fazer de meu corpo sua presa. A que alimento estarão habituados neste poço! — pensei.

 Malgrado todos os meus esforços para os impedir, eles haviam devorado o conteúdo do prato, fora algumas migalhas. Para mantê-los à distância, eu balançara maquinalmente minha mão, em um movimento de vaivém, acima do prato. Mas a inconsciente uniformidade desse movimento acabara por torná-lo ineficaz. Com o que me restava ainda de carne gordurosa, untei todos os laços que me prendiam, até onde minha mão pôde alcançar. Depois, ergui a mão acima do solo e fiquei quieto, contendo a respiração.

Primeiramente, os ferozes animais ficaram assustados com a cessação do movimento... e fugiram! Mas foi só por alguns instantes. Eu não contara em vão com sua voracidade. Vendo que eu não me mexia mais, um ou dois entre os mais audaciosos escalaram a plataforma e farejaram a correia. Foi como um sinal para o assalto geral. Reforços surgiram do poço. Treparam sobre mim, às centenas...

O movimento regular do pêndulo não os atrapalhava. Desviavam-se dele e atacavam em massa cerrada a correia engordurada. Empurravam-se, saltavam sobre mim, em número cada vez maior. Pisaram meu rosto, seus lábios frios procuravam os meus. Eu estava quase esmagado sob essa multidão.

Um minuto ainda e verifiquei que meu suplício ia terminar. Senti nitidamente o afrouxar da correia. Sabia que em mais de dez pontos estava estraçalhada. E com firmeza sobre-humana mantive-me imóvel.

Minhas previsões não me haviam enganado; eu nada sofrera. Senti que estava livre. A correia caía ao longo de meu corpo...

Mas já o pêndulo roçava por meu peito. Cotara a sarja de meu burel: atravessara o tecido de linho, que o forrava... Duas vezes mais tornou a passar e uma sensação atroz percorreu todos os meus nervos. Mas o momento de me libertar chegara.

A um gesto brusco de minha mão, meus libertadores se dispersaram em tumulto. Com movimento seguro e prudente, esgueirei-me de lado, lentamente.

Mal deixei a minha horrível cama de madeira e pisei sobre as lajes, o movimento diabólico do instrumento se deteve e eu o vi atraído por alguma força invisível teto a dentro.

Quase no mesmo instante houve lá fora uma confusão de ruídos e vozes fortes de homens.

Uma porta se abriu e um braço estendido me amparou no momento em que eu tombava, desfalecido de emoção.

Era o braço do general Lassalle. As tropas francesas tinham entrado em Toledo. Agora era a Inquisição que estava em poder de seus inimigos.


Tradução de autor desconhecido do século XIX. Texto publicado originalmente em Eu Sei Tudo, Rio de Janeiro, edição de novembro de 1929. Fizeram-se breves adaptações textuais.


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