LANÇAMENTO DA BURURU EDITORIAL: HORROR ORIENTAL: CONTOS POPULARES FANTÁSTICOS E SOBRENATURAIS


HORROR ORIENTAL – CONTOS POPULARES FANTÁSTICOS E SOBRENATURAIS

Lua Bueno Cyríaco (organizadora)


HORROR ORIENTAL – CONTOS POPULARES FANTÁSTICOS E SOBRENATURAIS – é uma coletânea ilustrada de contos de autores orientais que datam do século III ao início do século XX. Reúne autores que se valeram da tradição oral popular para escreverem as suas obras.

Nessa edição, terá o leitor traduções inéditas para a língua portuguesa, de autoria de Paulo Soriano e Lua Bueno Cyríaco,   de narrativas tradicionais da China, Japão e Coréia, escritas, dentre outros, por Gan Bao (285-366),  Pu Songling (1640-1715), Koizumi Yakumo (1850-1904) e Im Bang (1640-1722).

Fantasmas que sangram, cadáveres deambulantes que perseguem implacavelmente os vivos, demônios escondidos sob peles humanas, animais fantásticos, monstros hediondos que atacam os viajantes nas estradas, monges que lutam contra o maligno, aparições e vinganças de além-túmulo... Eis o universo sobrenatural e imensamente macabro que permeia a literatura fantástica oriental.


HORROR ORIENTAL – CONTOS POPULARES FANTÁSTICOS E SOBRENATURAIS


Vários autores.
Organização e Apresentação: Lua Bueno Cyríaco.
Tradução: Paulo Soriano e Lua Bueno Cyríaco.
Editora: BuRuru Editorial.
102 páginas.
Edição Ilustrada.
Preço: R$ 26,00 + frete.


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THANATOPIA - Conto Clássico de Terror - Rubén Darío



THANATOPIA
Rubén Darío
(1867 — 1916)
Tradução de Paulo Soriano


Nascido Félix Rubén García Sarmiento, o poeta nicaraguense Rubén Darío é um dos mais importantes nomes da literatura em língua espanhola de todos os tempos. Consagrado mestre do modernismo, sua prosa enveredou no domínio do fantástico e do terror. “Thanatopia”, conto vampírico em que se nota a influência do movimento pré-rafaelita, malgrado escrito em 1893, somente foi publicado em 1925 na antologia “Impressões e Sensações”, quando já falecido o autor.

— Meu pai foi o célebre doutor John Leen, membro da Real Sociedade de Investigações Psíquicas, de Londres, e muito conhecido no mundo científico por seus estudos sobre o hipnotismo e por sua célebre Memória sobre o Old. Morreu não faz muito tempo. Deus o tenha em sua glória.

(James Leen esvaziou no estômago grande parte de sua cerveja e continuou:)

— Vós tendes rido de mim, e do que chamais de minhas preocupações e minhas ridiculezas. Eu vos perdoo porque, francamente, não suspeitais de nenhuma das coisas que não compreende a nossa vã filosofia no céu e na terra, como disse o nosso maravilhoso William. Não sabeis que tenho sofrido muito, que sofro muito, mesmo as mais amargas torturas, à causa de vossos risos... Sim, eu vos repito: não posso dormir sem luz, não posso suportar a solidão de uma casa abandonada, tremo ao ruído misterioso que em horas crepusculares brota dos bosques em uma trilha; não me agrada ver revoar uma coruja ou um morcego; não visito, em cidade alguma, os cemitérios; martirizam-me as conversas sobre assuntos macabros, e quando as tenho, meus olhos esperam para fechar-se, ao amor do sono, e que a luz apareça.

Tenho o horror daquela que — oh, Deus! — terei de nomear: a morte. Jamais me fariam permanecer em uma casa onde houvesse um cadáver, mesmo que este fosse o de meu amigo mais amado. Vedes: essa palavra é a mais fatídica das existentes em qualquer idioma: cadáver. Vós tendes rido; vós ríeis de mim: que o seja. Mas permiti-me que vos diga a verdade de meu segredo. Cheguei à Argentina foragido, depois estar preso por cinco anos, sequestrado miseravelmente pelo doutor Leen, meu pai, que, se era um grande sábio, suspeito que era um grande bandido. Por ordem sua, fui levado para um sanatório; por sua ordem, pois, talvez um dia ele me revelasse o que pretendia manter oculto. O que já sabereis, porque já me é impossível manter o silêncio por mais tempo.

Eu vos advirto que não estou bêbado. Não sou um louco. Ele ordenou o meu sequestro porque... Prestai atenção.

(Magro, louro, nervoso, agitado por um frequente estremecimento, erguia o seu peito James Leen na mesa da cervejaria em que, rodeado de amigos, nos revelava tais ideias. Quem não o conhece em Buenos Aires? Não é ele um excêntrico em sua vida cotidiana. Mas de quando em quando, tem estes repentes. Como professor, é um dos mais queridos em um dos nossos principais colégios, e, como homem do mundo, conquanto um tanto silencioso, é um dos melhores elementos jovens dos famosos cinderela’s dance. Assim, nessa noite, prosseguia ele a estranha narrativa, à qual nos atrevemos de qualificar de fumisterie[1], dado o caráter de nosso amigo. Ao leitor, deixamos a apreciação dos fatos.)

— Desde muito jovem perdi a minha mãe, e fui enviado, por ordem de meu pai, a um colégio de Oxford. Meu pai, que nunca se manifestou carinhoso comigo, saía de Londres para visitar-me, uma vez por ano, no estabelecimento de educação em que eu crescia, solitário em meu espírito, sem afetos, sem agrados. Ali aprendi a ser triste.  Fisicamente, eu era o retrato de minha mãe, segundo me diziam, e suponho que por isto o doutor procurava mimar-me o menos que podia. Não vos direi mais nada sobre isto. Perdoai a maneira de minha narração.

Quando toquei neste tópico, senti-me comovido por uma força reconhecida.Procurai compreender-me. Digo, pois, que vivia solitário em meu espírito, aprendendo tristeza naquele colégio de muros negros, que ainda vejo em minha imaginação em noites de lua. Oh, como aprendi então a ser triste! Vejo ainda, por uma janela de meu quarto, banhados por uma pálida e maléfica luz lunar, os álamos, os ciprestes — por que havia ciprestes no colégio? — e ao longo do parque, velhos Términos[2] carcomidos, leprosos de tempo, onde costumam pousar as corujas criadas pelo abominável septuagenário e encovado reitor — para que criava corujas o reitor?   E ouço, no profundo silêncio da noite, o voo dos animais noturnos e o estalar das mesas e, numa meia-noite, vos juro, uma voz: “James”. Oh, voz!

Ao completar 20 anos, anunciaram-me a visita de meu pai. Alegrei-me, apesar de que instintivamente sentisse repulsa dele: alegrei-me porque necessitava naqueles momentos desabafar com alguém, mesmo que fosse com ele.

Ele chegou mais amável que das outras vezes, e, malgrado não me olhasse frente, sua voz soava grave, com certa amabilidade. Disse-lhe que desejava, por fim, voltar a Londres, que tinha concluído os meus estudos; que se permanecesse mais tempo naquela casa, morreria de tristeza. Sua voz ressoou grave, com certa amabilidade para comigo:

—Pensei seriamente, James, levá-lo comigo hoje mesmo. O reitor me participou que tu não estás bem de saúde, que padeces de insônias, que comes pouco. O excesso de estudos faz mal, como todos os excessos. Além disso, digo-te, tenho outro motivo para levar-te a Londres. Minha idade requer um amparo, e eu o procurei. Tens uma madrasta, que te será apresentada, e que deseja ardentemente conhecer-te. Hoje mesmo virás, pois, comigo.

Uma madrasta! E logo me veio à memória minha doce, branca e loura mãezinha, que tanto me amou quando eu era pequeno, que me mimou tanto, quase abandonada por meu pai, que passava noites e noites em seu laboratório, enquanto aquela pobre e delicada flor se consumia! Uma madrasta! Eu iria, pois, suportar a tirania da nova esposa do doutor Leen, talvez umaterrível blues tocking[3], ou uma cruel sabichona, ou uma bruxa. Perdoai as palavras. Às vezes não sei perfeitamente o que digo, ou se falo demais.

Não respondi uma só palavra a meu pai, e, conforme sua vontade, tomamos o trem que nos conduziu à nossa mansão de Londres.

Desde que chegamos, desde que penetrei pela porta grande e antiga, a que se seguia a uma escada que dava ao andar principal, tive uma desagradável surpresa: não havia em casa um só dos antigos empregados. Quatro ou cinco velhos doentios, com fardamentos frouxos e negros, inclinavam-se a nosso passo, com genuflexões tardias, mudos. Penetramos no grande salão. Tudo havia mudado: os antigos móveis haviam sido substituídos por outros de gosto seco e frio. Tão somente restava no fundo do salão um grande retrato de minha mãe, obra de Dante Gabriel Rossetti[4], coberto por um grande véu de crepe.

Meu pai me conduziu a meus aposentos, que não ficavam distantes de seu laboratório. Deu-me boa-tarde. Por uma inexplicável cortesia, perguntei por minha madrasta. Respondeu-me lentamente, enfatizando as sílabas com uma voz entre carinhosa e temerosa, que então eu não compreendia:

 Depois a verás...  Que hás de vê-la, é certo... James, meu filhinho James, adeus.  Garanto-lhe que a verás depois...

Anjos do Senhor, por que não me levaste contigo?  E tu, mãe, mãezinha minha, my sweet Lily[5], por que não me levaste contigo naqueles instantes? Preferiria ser tragado por um abismo pulverizado por uma rocha, ou reduzido a cinza por uma chama de um relâmpago.

Foi nessa mesma noite, sim. Com uma estranha fadiga de corpo e de espírito, lançara-me ao leito, vestido com a mesma roupa de viagem. Como em um sonho, recordo-me ter ouvido aproximar-se do meu quarto um dos velhos da criadagem, resmungando não sei que palavras e olhando-me vagamente com um par de ocelos estrábicos, que me causavam o efeito de um sonho ruim. Depois vi que e acendeu um candelabro com três velas de cera. Quando, às nove, despertei, as velas ardiam no quarto.

Lave-me. Mudei-me. Depois ouvi passos. Meu pai apareceu. Pela primeira vez —pela primeira vez! — vi seus olhos cravados nos meus. Uns olhos indescritíveis, eu vos asseguro; uns olhos como jamais vistes, nem jamais vereis: uns olhos com uma retina quase vermelha, como olhos de coelho; uns olhos que vos faríeis tremer pela maneira especial com que me mirava.

— Meu filho, vamos. A tua madrasta espera-te. Ela está lá no salão. Vamos.

Lá, numa poltrona de alto respaldo, como uma cadeira de couro, estava sentada uma mulher.
Ela...

E meu pai:

— Aproxima-te, meu pequeno James, aproxima-te.

Aproximei-me maquinalmente. A mulher me estendia a mão. Ouvi, então, como se viesse do grande retrato, do grande retrato envolto em crepe, aquela voz do colégio de Oxford, mas muito triste, muito mais triste: “James!”.

Estendi a mão. O contato com aquela mão gelou-me, horrorizou-me. Senti gelo nos meus ossos. Aquela mão rígida, fria, fria... E a mulher não me olhava. Balbuciei olá, um cumprimento.

E meu pai:

— Minha mulher, aqui tens teu enteado, o nosso muito amado James. Veja-o: aqui o tens; já é o teu filho, também.

E minha madrasta olhou-me. Minhas mandíbulas comprimiram-se uma contra a outra. O espanto tomou conta de mim: aqueles olhos não tinham brilho algum. E uma ideia começou — enlouquecedora, horrível, horrível — a aparecer clara em meu cérebro. De repente, um cheiro, cheiro...esse cheiro, minha mãe! Meu Deus! Esse cheiro... Não vos quero dizer... porque vós já sabeis, e eu vos respondo: discuto-o ainda; eriça-me os cabelos.

E depois brotou daqueles lábios brancos, daquela mulher pálida, pálida, pálida, uma voz, uma voz como se saída de um cântaro gemebundo ou de um subterrâneo:

— James, nosso querido James, filhinho meu, aproxima-te; quero dar-te um beijo na fronte; outro beijo nos olhos, outro beijo na boca...

Não pude mais. Gritei:

— Mãe, socorro! Anjos de Deus, socorro! Potestades celestes todas, socorro! Quero sair daqui agora mesmo! Agora mesmo! Tirem-me daqui!

Ouvi a voz de meu pai:

— Acalma-te, James! Acalma-te, meu filho! Silêncio, meu filho.

— Não! — gritei mais alto, já em luta com os velhos da criadagem. — Sairei daqui e direi a todo mundo que o doutor Leen é um cruel assassino; que sua mulher é um vampiro; que meu pai está casado com uma morta!







[1] Mentira, engodo, brincadeira.
[2] Busto sobre um pedestal, da forma como era representado o Término, o Deus romano dos limites e das fronteiras.
[3] Douta, erudita.
[4] Dante Gabriel Rossetti (1828 – 1882), pintor pré-rafaelita inglês.
[5] Meu doce lírio.

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A HISTÓRIA DE UM HOMEM SUPERSTICIOSO - Conto Clássico de Terror - Thomas Hardy



A HISTÓRIA DE UM HOMEM SUPERSTICIOSO
Thomas Hardy (1840-1928)

As circunstâncias misteriosas do falecimento William Privett estão associadas a uma das velhas superstições rurícolas inglesas - o prenúncio da morte de alguém por indícios ou aparições sobrenaturais -, e são narradas por Thomas Hardy, autor do clássico "Judas, o Obscuro".


— Houve algo de muito estranho na morte de William. Deveras, muito estranho — suspirou com melancolia o homem na parte de trás do vagão. Era o pai do granjeiro, que até agora havia guardado silêncio.

— O que pode haver sido? —perguntou o Sr. Lackland.

— William, como muitos sabem, era um homem singular, calado. Era possível senti-lo quando estava próximo. E se estava em casa ou em outro lugar qualquer, próximo a alguém, algo úmido adensava o ar, como se a porta do porão estivesse aberta de lado a lado. Bem, era domingo. William estava aparentemente em bom estado de saúde. O sino chamava os paroquianos à igreja para o primeiro ofício. O sacristão disse que havia anos não sentia em suas mãos o sino tão pesado e que ele temia que isso significasse uma morte na paróquia. Era domingo, como disse. Na semana anterior, numa noite, a senhora de William estivera até tarde passando roupas, já que havia lavado para o Sr. e para a Sra. Hardcome. O marido havia terminado o jantar e ido para cama, como de costume, há uma ou duas horas. Enquanto passava roupas, ela o ouviu descendo a escada. Ele parou para calçar as botas, que estavam ao pé da escada, onde sempre as deixava, e depois passou pela sala de estar — onde ela continuava trabalhando —, em direção à porta. Esta era a única maneira de passar da escada ao exterior da casa. Nenhum dos dois disse qualquer palavra. William não era homem de falar muito e a mulher estava ocupada com a sua tarefa. Ela não fez caso disso, achando que o marido havia saído para fumar o cachimbo ou para uma breve caminhada noturna. Assim, continuou passando roupas. Pouco depois, concluiu seu trabalho e, dado que seu marido não regressara ainda, o esperou por um tempo, enquanto guardava a tábua e outras coisas, e deixava pronta a mesa para o desjejum matinal.  O marido demorava a voltar, mas supondo que ele logo voltaria, ela decidiu deitar-se, cansada que estava. Deixando a porta sem chave, seguiu em direção à escada, depois de escrever com giz na porta: “Lembre-se de fechar a porta” (já que ele era um homem muito esquecido).

Para a sua grande surpresa — e, digamos, alarme —, ao chegar ao pé da escada, deu-se conta de que as botas de seu marido continuavam ali, onde ele as havia deixado quando subiu para descansar. Tendo subido e chegado ao dormitório, ela encontrou o marido na cama, dormindo como uma pedra. Como poderia ter ele voltado sem que ela não o visse ou escutasse, isto estava além de sua compreensão. Ele deve ter passado, silenciosamente, por suas costas, enquanto guardava a tábua de passar roupas. Mas este pensamento não a deixou satisfeita. Era de todo impossível que ela não o percebesse entrar em uma sala de estar tão pequena. Ela não pôde desenredar este mistério, e isto a perturbava. Todavia, decidiu não incomodar o marido para inquiri-lo, e se deitou de vez.

No dia seguinte, ele se levantou bem mais cedo do que ela e saiu tranquilamente para trabalhar. Portanto, a mulher aguardou o seu retorno para o almoço com grande ansiedade para ouvir a explicação. Meditar sobre o assunto durante toda a manhã a havia deixado ainda mais sobressaltada.  Quando chegou para comer, ele disse, antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa: “Qual é o significado destas palavras escritas com giz na porta?”. Ela lhe contou tudo e lhe perguntou sobre a noite anterior. William declarou que jamais saíra da cama depois de deitar-se, tendo tirado a roupa, deitado e dormido quase instantaneamente, somente se levantando quando o relógio bateu as cinco. Então, partiu para o trabalho.

Betty Privett estava tão segura de que ele havia saído quanto de sua própria existência, e quase certa de que ele não havia retornado. Não gostava de discutir com ele; assim, deixou o assunto como se um equívoco de sua parte. Quando caminhava, mais tarde, por Longpuddle Street, encontrou-se com Nany, filha de Jim Weedle. Disse:

— Bem, Nancy, vejo que está sonolenta hoje!

— Sim, Mrs. Privett — disse Nancy. — Não conte a ninguém, mas ontem, como era a Véspera de Verão, alguns de nós fomos ao pórtico da igreja e só voltamos para casa por volta de uma hora da madrugada.

— Como? — disse Mrs. Privett. — Foi ontem? Deus, não me recordava. Tive muito trabalho. Não posso me lembrar de quando é Véspera de Verão ou quando é Festa de São Miguel. Sempre tenho muito que fazer.

— Sim, e nós nos assustamos bastante com o que vimos.

— O que vocês viram?

— Vocês certamente não se lembrarão, tendo ido para outros lugares ainda tão jovens, mas por aqui se crê que, na Véspera do Verão, as formas pálidas de todas as pessoas da paróquia que estão próximas da morte num prazo de um ano podem ser vistas entrando na igreja. Os que conseguem vencer a doença ou enfermidade saem depois de um momento; os que estão condenados a morrer, não voltam a sair.
— E o que foi que você viu? — perguntou novamente a mulher de William.

— Bem — começou Nancy, retrocedendo —, não preciso dizer o que vimos ou a quem vimos.

— Você viu o meu marido — disse Betty Privett, serenamente.

— Bem, já que você falou — disse Nancy, lentamente —, creio que nós o vimos. Mas estava muito escuro e estávamos assustados, e certamente pode não ter sido ele.

— Nancy, não precisa continuar. Ele nunca saiu da igreja: eu sei tão bem quanto você.

Nancy não disse nem sim nem não àquela firme declaração e se calou. Mas três dias depois, William Privett estava ceifando com John Chiles os campos de Mr. Hardcome. No calor do dia, os homens sentaram-se para comer alguma coisa sob uma árvore, esvaziando uma garrafa de vinho. Depois, ficaram sentados, a dormir. John Chiles foi o primeiro a acordar, e quando olhou o companheiro de trabalho, viu um desses grandes e brancos seres que nós chamamos — por assim dizer — mariposas de moinho, que saiu da boca aberta de William enquanto dormia e ganhou distância, voando. John achou que isto era muito estranho, já que William estivera trabalhando num moinho durante vários anos. Depois olhou o céu e percebeu, pelo andar do Sol, que eles haviam dormido por um longo tempo e, como William não acordava, John o chamou e disse que era hora de voltar ao trabalho. Seu amigo permanecia imóvel, e quando John o tocou, percebeu que ele estava morto.

Mas vejam: neste mesmo dia, o velho Hookhorn desceu ao Longpuddle para buscar um cântaro de água. E, quando regressou, a que pessoa disse haver visto descendo o arroio pela outra margem, senão William, que estava muito pálido e envelhecido? Isto surpreendeu sobremaneira Philip Hookhorn, já que fazia vários anos que o pequeno filho de William — seu único filho — havia se afogado enquanto brincava nesse mesmo lugar... E isto havia atacado o bom juízo de William, eis que nunca mais foi visto próximo do Longpuddle depois desse fato, e todos sabiam que ele tomava um caminho que lhe custava meia milha a mais para evitar esse local. Mais tarde, disse-se que William não poderia ter estado no arroio, já que se encontrava, nesse momento, a duas milhas de distância; isto sem contar o fato de que faleceu no mesmo momento em que foi visto.

— Uma história melancólica — observou o homem, depois de um minuto de silencio.

— Sim, sim. Bem, a vida tem bons e maus momentos — disse o pai do granjeiro.


Versão em português de Paulo Soriano.

Ilustração de Charles Green.



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ANA DE LISBETH - Conto Clássico Fantástico - Hans Christian Andersen


ANA DE LISBETH
Hans Christian Andersen
(1805 – 1875)

        Ana de Lisbeth era uma moça linda. Seu rosto irradiava juvenil alegria. Os dentes pareciam pérolas finas, os olhos brilhavam como diamantes, diamantes risonhos. Na dança, os pés muito breves saltavam com maravilhosa ligeireza. Infelizmente, seus pensamentos eram ainda mais ligeiros. Apesar de inteligente, deixou-se seduzir por um aventureiro, que em breve a abandonou. Nunca mais houve notícias de tal homem.

Ana teve um filho, criança forte e sadia, mas terrivelmente feia; a mãe sentia vergonha do fruto da sua leviandade e encarregou da criação a mulher do coveiro, sua vizinha. Depois, entrou como ama de leite em casa de uma condessa.

No opulento palácio, deram-lhe um quarto elegante. Deram-lhe também vestidos de veludo e de seda. Então, fez-se exigente e embirrenta. Não aceitava observações. A mínima contradição atacava-lhe os nervos.

O pequeno conde era delicado como um príncipe, belo como um anjo. Ela consagrava-lhe todos os seus cuidados e caricias. E o seu filho continuava na casa do coveiro. Lá, poucas vezes assobiavam as chaleiras; em compensação, não faltavam más palavras. O pobre menino estava quase sempre só, ninguém se importava com seus gemidos. Chorava até dormir: quando se dorme, não se sente fome ou sede.

Vaso ruim não quebra, diz o provérbio. O filho de Ana de Lisbeth não o desmentiu. Cresceu, cresceu sem conhecer a mãe. O coveiro recebera dinheiro para guardar segredo.

Terminada a criação do filho da condessa, despediram a ama, que foi morar na cidade, onde se fez passar por burguesa honesta, vivendo de rendas, bem vestida, melhor tratada, donairosa. Abandonara o filho à desgraça, como o pai a havia abandonado.

O coveiro tirava do rapaz todo o partido possível. O filho de Ana de Lisbeth passava uma vida dura, sem vislumbre de esperança. Sempre maltratado, suportando frios e chuvas sem queixume. E, como era feio — muito feio! —, toda a aldeia motejava dele. Ninguém o amava.

 Mais tarde, entrou como grumete numa chalupa miserável, e aí encontrou novos sofrimentos. O capitão embriagava-se frequentemente, e em tais ocasiões o rapaz sofria uma chuva de pancadas. O pequeno Lisbeth parecia ter nascido sob má estrela. Um dia estourou um vendaval. O capitão mal podia aguentar o leme, e, de repente, uma tromba d’água envolveu o pobre barquinho e o fez voltear, já sem governo.

— Jesus! Meu Deus! — gritou o rapaz.

E chalupa, capitão e grumete, tudo mergulhou na voragem.

Ninguém presenciou o terrível acontecimento; só as gaivotas e os peixes poderiam contar alguma coisa.

Nenhum fragmento ficou boiando à tona para indicar onde o filho de Ana de Lisbeth havia perecido. Ademais, a ninguém fazia falta. Ninguém sentia saudades dele.

Ana vivia na cidade. Muita gente a tratava por "minha senhora". Gostava de contar a história da sua mocidade, de quando habitava no palácio da condessa e andava de carro e conversava com baronesas e damas muito distintas. E não faltavam elogios ao filho da condessa; era o seu “ai, Jesus!” —lindo, lindíssimo, um verdadeiro anjo!

—Vou visitar o meu menino e o grande palácio campestre onde passei tantos dias de esplendor — disse ela certo dia. —Ele há de lembrar-se de mim, daquele tempo em que me queria tão ternamente e me rodeava o pescoço com os bracinhos brancos de neve. Sim, hei de voltar a vê-lo.

Partiu, e depois de uma longa jornada, ora em diligência, ora a pé, chegou à nobre residência da condessa. Os criados eram-lhe estranhos, nenhum ouvira falar de Ana de Lisbeth.

Depois de ter esperado por muito tempo na antecâmara, um criado lhe abriu a porta do salão e ela entrou pouco antes da condessa e de seu filho. A dama recebeu-a muito bem e dirigiu-lhe palavras muito amáveis. O condezinho estava alto e delgado, formosos ainda os olhos, a boca, pequena e delicada. Olhou friamente para Ana de Lisbeth. Sem proferir uma palavra, deixou-se abraçar por ela com indiferença, desviando-se logo um pouco, e saindo em seguida. Esse foi o acolhimento que ela teve da sua maior afeição, da criança amada de que se sentia tão vaidosa. Retomou o caminho da cidade, sem poder conter as lágrimas. E, de súbito, um grande corvo negro como azeviche, crocitando em ásperos gritos, veio pousar num ramo à beira da estrada.

 —Ah! Que mau agouro! — murmurou ela. — Parece mesmo que está gritando para mim. Que desgraça teremos?

E pela mente correram-lhe negros pensamentos, e sentiu calafrios por todo o corpo. Pouco depois, passava ela pela casa do coveiro. A mulher, que estava sentada à porta, disse-lhe:

—Como estás sadia e bem conservada, Ana de Lisbeth! Tens passado boa vida, sem cuidados e sem misérias.

—Nem sempre, nem sempre...

—Nunca mais houve notícias da chalupa, nem do grumete — continuou a mulher do coveiro. — Afogaram-se, é o mais certo. E tenho pena, porque o rapaz, continuando naquela vida, podia de vez em quando mandar-me algum dinheiro.

— Ah! Julgas que morreram afogados? — disse Ana de Lisbeth.

E passaram logo para outro assunto. Ana estava ressentida pelo frio acolhimento do condezinho. Nada disse, porém, à mulher do coveiro. Queria que toda a gente julgasse ainda que estava em íntimas relações com o aristocrático palácio. E, de súbito, apareceu outra vez o corvo com o seu crocitar lúgubre.

— Essa ave negra me quer mal, anda hoje a me perseguir — disse Ana, inquieta e nervosa.

A mulher do coveiro preparava o café e Ana, deitando-se no sofá, em breve adormeceu. Viu, então, no sono agitado, pela primeira vez, aquele com quem nunca sonhara: o filho das suas entranhas, que naquela mesma casa havia sofrido fome e pancadas, e que repousava agora no fundo do mar, sabe Deus onde.

Parecia-lhe que um rapaz, alto e robusto, quase tão formoso como o condezinho, abria a porta e dizia:

— Aí vem o fim do mundo, agarra-te bem a mim, tu és minha mãe! No paraíso há um anjo que só quer te salvar. Segura-te bem, para que ele te leve para o céu.

E sentiu-se abraçada pelo jovem. Mas logo ouviu-se um grande ruído, como se o mundo baqueasse, e o anjo elevou-se para o céu, sustentando-a pelas roupagens. Então, começou uma luta tenaz, pois ao mesmo tempo que o anjo tentava levá-la para cima, uma multidão de mulheres a segurava pelo vestido, loucas, desesperadas, clamando em tumulto:

— Nós queremos salvar-nos, também! Seguremo-la bem! Não a larguemos de modo nenhum!

Por fim, rasgaram-se-lhe as roupas e Ana de Lisbeth viu-se abandonada do anjo, despenhada em fundo abismo... e nisso acordou de repente, porque ia caindo do sofá abaixo. De tal modo a perturbaram aquelas ideias que, a dizer a verdade, não poderia contar o extravagante sonho. Todavia, estava cheia de desconsolo, de vagos, inexplicáveis sobressaltos.

Tomou uma chávena de café com a mulher do coveiro e partiu logo, para não perder a diligência. Chegou, porém, atrasada, e só no dia seguinte partiria outra carruagem. Não quis, contudo, passar a noite em casa do coveiro, e, como havia esplêndido luar, resolveu ir a pé pela estrada, à beira-mar.

Na campina, nenhum ruído: nem o coaxar das rãs, nem os assobios das corujas, nem mesmo o brando marulhar das pequenas vagas. Naquele silêncio, havia um certo quê de solene, de lúgubre.

Ana caminhava. Seguia resoluta pela estrada. A princípio, sem pensar em coisa alguma. Os pensamentos, porém, nunca abandonam completamente a mente humana. Às vezes parecem adormecer, mais nada. Há muitas pessoas sempre tranquilas porque sabem que nada têm a temer das leis, da justiça de seu país; não pensam nas contas severas que têm de prestar ao Supremo Juízo das suas ações boas ou más, até das mais ocultas. Ana de Lisbeth era assim: passava por pessoa honesta e boa, e isso era-lhe o suficiente.

De súbito, parou para ver um objeto que se destacava na praia: era um chapéu velho, provavelmente arremessado pelo mar.

Depois de ter examinado o chapéu por um instante, recomeçou a caminhar e estacou de novo ante um objeto mais singular: julgou ver o corpo de um homem estendido sobre uma pedra comprida. Um calafrio de terror lhe percorreu o corpo. Tentou fugir. As pernas tremiam-lhe. E nada havia que temer: era apenas a sombra de uns altos caniços projetada pelo luar.

Pouco a pouco, porém, o pavor se apoderou dela e, agora, os seus pensamentos excitados concorriam para essa impressão. Em criança, ouvira falar em fantasmas do mar, das almas penadas cujos corpos, não tendo sido enterrados, apareciam aos viajantes, agarrando-os para que os levassem ao cemitério e os cobrissem de terra sagrada.

—Segura! Agarra! — gritavam sempre os lúgubres fantasmas.

Essa lembrança recordou-lhe o pesadelo, o grito das mulheres que a tinham segurado, o jovem querendo levantá-la ao momento supremo. Seu filho, a criança que ela nunca amara, que havia esquecido, e que havia perecido tão miseravelmente no naufrágio, não poderia voltar como espectro a bradar também: “Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada?” Esses terríveis pensamentos caíram como marteladas no coração de Ana de Lisbeth. A custo, respirava. Inquieta, olhava o mar. Uma névoa espessa surgia das águas e vinha rodear as árvores e os arbustos, dando-lhes aspectos inesperados.

Olhou para a lua, e o astro melancólico pareceu-lhe agora frio e esquálido como um rosto cadavérico. E no silêncio soturno do mar e na campina surgia, sim, surgia agora, uma voz indefinida, nem grito nem gemido, mas pronunciando rápida e constantemente:

— Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada!

Seria a alma errante de seu filho? Da criança nunca amada que se perdera no mar?

Ana de Lisbeth apertou o passo. Ia nervosa, febril. Resolveu tomar a direção da igreja; ali, talvez, encontraria a paz. Tentou seguir o caminho mais curto, mas sentiu, então, um peso sobre os ombros e a tal voz, agora mesmo próxima do ouvido, a murmurar, como num sopro a repetir sem cessar:

 —Enterra-me, enterra-me!

Ana tropeçou, ajoelhou-se e por um bocado caminhou de rastros. Se o túmulo fosse o esquecimento de tudo, ela mesma teria aberto o seu túmulo. Levantando-se, viu, então, quatro cavalos relinchando e vomitando fogo pelos olhos e ventas. Puxavam um carro fúnebre, e no carro ia sentado um malvado senhor que, havia um século, muitos crimes cometera naquele lugar.

Todas as noites, à hora dos fantasmas, rezava a tradição, ele entrava no velho castelo, e o seu rosto, em vez da palidez da morte, era escuro como carvão.

Passando, acenou a Lisbeth, dizendo-lhe:

—Cautela! Em breve esquecerás do filho e poderás andar como eu nesta carruagem brasonada.

Impelida pela coragem do desespero, Ana desatou a correr e entrou no cemitério. Estava coberto de cruzes e de corvos negros como azeviche, que, ao luar, agora fraco, mal se podiam distinguir.

—A mãe dos corvos! Olhem a madrasta! — crocitaram as aves fúnebres, avistando Ana de Lisbeth.

Um pavor imenso se apoderou da mulher. Temia ser mudada numa daquelas aves, se a sepultura não fosse aberta logo. Deitou-se sobre o solo e começou a abrir a cova. A terra estava dura. Em breve, ficou com as mãos ensanguentadas. O queixume do fantasma continuava a soar nos seus ouvidos. Receava ouvir o cantar do galo ou de ver o primeiro raio do sol, pois, em tal caso, estaria perdida.

Ora, ao cantar do galo, ao romper da aurora, só havia metade da cova; sentiu uma gélida mão pousar-lhe sobre a fronte, e outra no coração.

—Metade de uma sepultura não basta! — gemeu o fantasma, que logo sumiu no fundo do mar.

Ana de Lisbeth caiu sem sentidos, como morta.

Naquela manhã, dois camponeses encontraram-na assim. Não no cemitério, mas na praia junto do mar. Ela abrira um buraco na areia e estava com os dedos feridos pelos seixos.



Ana padeceu prolongada enfermidade. As angústias da consciência despertada pelo temor de Deus transformaram-lhe a cabeça. Acreditava ter só metade da alma. O filho havia-lhe arrebatado a outra metade, levando-a para o fundo do mar. Sem ela, não poderia jamais entrar no Reino da Graça.

A custo, reconheceriam-na agora. Só falava do espectro do mar que devia enterrar em terreno sagrado, para ganhar a sua alma. Muitas vezes, passava a noite à beira-mar, à espera do fantasma. Um dia, desapareceu.

Na tarde desse dia, quando o sineiro entrou na igreja, à hora do Angelus, viu Ana de Lisbeth de joelhos ante o altar. Estava fraca, muito curvada. Mas os olhos luminosos, o rosto risonho e os últimos raios do sol, caindo sobre a Bíblia aberta, fizeram sobressair estas palavras do profeta Joel:

"Rasgai os vossos corações e não as vossas túnicas; lembrai-vos sempre ao senhor".

Foi acaso, dirá alguém; mas há muitos acasos como esse.

Contou ela, depois, que durante a noite lhe aparecera a alma do filho. "É verdade — ouvira ela — que tu só me cavaste metade da sepultura; mas faz agora um ano que me sepultaste inteiro no teu coração, e é aí que as mães guardam bem os filhos".

E, entregando-lhe a outra metade da sua alma, conduzira-a à igreja.

—Agora — acrescentou ela —, agora estou na Casa do Senhor, onde se é sempre feliz.


Quando o sol mergulhou não horizonte, a alma de Ana de Lisbeth subiu morada onde nada temem os que muito se arrependeram e muito padeceram.

Tradução de autor desconhecido.
Fonte: Revista Carioca, edição nº 624, de 18 de setembro de 1947.


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