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UM HOMICÍDIO PERFEITO - Conto de Horror - Paulo Soriano

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UM HOMICÍDIO PERFEITO Paulo Soriano A deformidade de meu caráter jamais me envergonhou. Espírito astuto e dissimulado, nunca me expunha a quem quer que seja. A minha alma exsudava humores peçonhentos, malgrado imperceptíveis, mas eu bem sabia como, sorrateiramente, inocular o meu veneno. Era eu um predador cauteloso. Como uma serpente astuta e insidiosa, mergulhava e recolhia, no átimo de um único segundo, as presas precisas — profundas e aguçadas —, sem que a vítima o percebesse. Isto mesmo: só ensaiava o meu bote certeiro quando se menos esperava. Sempre fui assim. As memórias mais distantes e profundas de minha infância conduzem a cenas incrivelmente nítidas em minha mente, que se movimentam com agilidade e perfeição, como se tivessem vida própria. Nelas, eu me ponho a furtar as guloseimas de um colega abastado somente para enfiá-las na mochila de um menino pobretão, com o único escopo de denunciá-lo e vê-lo espancado furiosamente pelo senhor diretor. É evidente que nunca fu

O GUARDIÃO DO DEFUNTO - Narrativa Clássica Sobrenatural - Lúcio Apuleio

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  O GUARDIÃO DO DEFUNTO L úcio Apuleio (c. 125 – c. 170) “— Sendo órfão de pai e mãe, e tomando conhecimento da grande fama de Olimpo — disse Télifron —, parti de Mileto àquela província, já que morria de vontade de conhecê-la. Caminhando pela Tessália, cheguei à cidade de Larissa, imbuído de maus presságios. E, enquanto passeava, olhando tudo à minha frente, vi que a minha bolsa escasseava; então, procurei um remédio para a minha pobreza. Assim andando, vi um ancião, de boa estatura, no meio da praça, exclamando: — Se alguém quiser guardar um morto, ajuste comigo o preço. Perguntei a um dos que passavam: — O que é isso? Por aqui se costuma guardar os mortos? Ele me respondeu: — Calma, irmão, que bem me pareces um estrangeiro, e justamente por isso não sabes que estás em plena Tessália, onde as feiticeiras cortam o nariz e as orelhas dos mortos, e os empregam em suas artes e encantamentos. — Diga-me — disse-lhe —, por tua vida, como é essa vigilância que rendem aos defun

O LOBISOMEM DA BRETANHA - Conto Clássico de Terror - Amélie Bosquet

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  O LOBISOMEM DA BRETANHA Amélie Bosquet (1815 – 1904) Tradução de Paulo Soriano Havia na Bretanha um nobre senhor, tão belo e bondoso que era uma maravilha; era amado e respeitado por seus vizinhos e gozava da consideração de seu príncipe. Ele havia se casado com uma nobre senhora, que parecia amá-lo profundamente. A senhora teria, de fato, extraído imensa felicidade daquela união, mas havia uma circunstância que a preocupava: o seu senhor tinha o hábito de se ausentar três dias por semana, e ninguém sabia de seu destino à época. Certo dia, porém, quando ele voltava para casa com ternura e alegria, a senhora, depois de muitas circunlocuções, aventurou-se a interrogá-lo sobre o ponto que tanto fazia questão de esclarecer. Tocado pelos modos graciosos da esposa, o senhor concordou em satisfazê-la: confessou-lhe que, durante os três dias em que a deixava, tornara-se lobisomem. A senhora, pressionando-o com novas perguntas, quis saber se, quando da transformação, ele continua

NÃO EXISTE TAL LUGAR - Conto de Ficção Científica - Luiz Poleto

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  NÃO EXISTE TAL LUGAR Luiz Poleto Para Ricardo Luiz À minha frente, o deserto estendia-se vertiginosamente por milhares de parsecs . Os sóis brilhavam imponentes no céu, despejando um tom alaranjado àquela paisagem populada abundantemente com o nada em estado bruto. Sob meus pés, a areia cinzenta parecia tentar acompanhar-me qualquer que fosse a direção que eu rumasse, mas não sei se posso dar qualquer crédito a esta afirmação, já que o sol escaldante pode ter afetado profundamente a minha capacidade de distinguir a realidade da fantasia. Ou não. Por quantas horas eu caminhei, não faço ideia; a direção para a qual rumei também me é totalmente desconhecida, mas ao longe, não muito distante, avistei uma imensa muralha, que parecia estender-se por todo o horizonte. Por cima dos muros, imponentes edifícios erguiam-se quase tão colossais quanto a própria muralha. Apesar do tamanho, suas formas eram tranquilizantes, construídos com uma arquitetura envolvente, a qual eu nunca

UM ASTUTO TOQUE - Conto Clássico de Mistério - Charles Dickens

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UM ASTUTO TOQUE Charles Dickens (1812 – 1870) — Algo realmente formidável — disse o inspetor Wield, enfatizando o adjetivo, e preparando-nos não a algo meramente interessante, mas a um exemplo de pura habilidade ou engenhosidade — foi o trabalho do Sargento Witchem. Teve ele uma esplêndida ideia! “ Witchem e eu estávamos em Epsom, em um dia de corrida de cavalos, vigiando os batedores de carteira na estação. Como mencionei, vamos sempre à estação quando há corridas ou feira agrícola — ou quando um reitor de universidade chega para tomar posse, ou quando vem à cidade Jenny Lind 1 ou algo do gênero —, e, assim que aparecem os punguistas, nós os detemos e os levamos no próximo trem. Por ocasião da corrida a que me referi, alguns larápios nos enganaram. Para tanto, alugaram um cavalo e uma sela. Então, seguiram de Londres a Whitechapel e, fazendo um desvio de várias milhas, entraram Epsom pela direção oposta à esperada; puseram-se a furtar, aqui e acolá, enquanto ainda esperáva