MARIA DE VELHE - Conto de Terror - José Manuel Barbosa


MARIA DE VELHE

José Manuel Barbosa


Maria gostava de sair muitas noites quando tinha tempo. Sextas, Sábados e Domingos eram dias de lazer nos que as reuniões com os amigos, as pequenas viagens em grupo, as festas, bailes, rir e sobre tudo amar, eram o normal.

Aquela noite, Maria não combinara com ninguém, mas ia até a sala de festas onde sempre haveria alguém conhecido, ou de não o haver procuraria conhecer gente nova para próximas vezes.

Fazia algo de fresco naquela noite de primavera, polo que optou por levar uma jaquetinha ligeira e uma pequena saca onde levava a sua agenda com telefones por se forem necessários. Saiu da casa quando a obscuridade governava o céu e alegremente decidiu ir caminhando para desfrutar aquele serão que começava a estrelar-se mas com a frescura agradável com a que nos faz gozar a natureza no mês de Junho.

Foi baixando de Velhe até as Lagoas e de ali ao centro de Ourense onde decidiu entrar numa sala cheia de gente. Alguns bailavam, outros com o copo na mão e outros entregados ao romantismo às obscuras ao lado dos seus pares.

Maria dirigiu-se à beira da pista para olhar como se mexia a gente sob aquele forte som musical e aquele violento jogo de luzes que estimulavam os sentidos até pôr a adrenalina nos índices extremos.

A música trespassava o corpo de Maria dum lado para o outro até fazê-la a ela própria parte daquela vaga de ritmo obrigando-a subtilmente a se mexer. Os seus pés, as suas pernas eram levadas pola embriagante força do som. Em nada acabou vendo-se participando da dança de forma instintiva à vez que os seus olhos percorriam todo o campo que alcançava a ver, ainda obstaculizado infinitesimalmente pola fração de segundo de obscuridão entre duas cintiladas de luz de diversas cores que deformavam as figuras daquela massa humana em movimento, tanto mais febril quanto mais monótono e latejante era o ritmo.

Cegada polo mesmo, Maria desfrutou quanto quis durante muito tempo, até que por fim, sentiu a necessidade de recompor as suas forças. Dirigiu-se até o balcão abrindo-se caminho entre a gente, sentindo a suor do pessoal que por ali passava e decidiu beber algo que lhe vencesse a sede que lhe tinha provocado a transpiração cansada pola dança continuada durante as horas que esteve deixando-se levar polo tam-tam impetuoso dos bafles.

Apanhou o copo depois de ter-lho servido o camareiro e foi até um lugar mais tranquilo. Sentou, descansou e respirou. E ali esteve uns minutos.

Ao pouco olhando para a gente como se mexiam descobriu um homem jovem. Ele olhava para ela com um sorriso agradável. Ela, amável, devolveu-lho enquanto ele com graça começou a se dirigir lentamente para ela sem apagar o seu lindo sorriso.

– Posso sentar ao teu lado? – perguntou muito amável.

– Sim, por favor –respondeu ela não menos amável.

–Vim-te sozinha... e como eu também o estou... pensei na solidão compartilhada.

Maria gostava daquele homem de voz cálida e bom humor. Com prazer perguntou:

– Como te chamas?

– José. E tu?

– Maria.

– Bem, falta-nos um Jesus.

– Para quê? – disse Maria com surpresa perante tão estranha resposta.

– Para fazermos um Belém, como no Natal.

Maria perante tão inesperada resposta botou a rir a gargalhadas enquanto José a acompanhava com um não menos intenso riso.


A entrada para uma boa amizade foi boa e por isso após uma longa conversa decidiram bailar a música romântica. Fizeram-no juntinhos, como se levassem muito tempo a se conhecerem.

Continuaram por muito tempo até que acabou a festa e embora se sentissem os dous muito bem juntos, estava sendo tarde e Maria devia ir para a sua morada, pois tinha prometido aos seus pais chegar a uma hora prudente. Àquelas horas já ultrapassavam um bom bocado a prudência da saída noturna e foi por isso polo que determinaram irem embora. Maria pegou na jaquetinha e a saca e foi-se cara a porta acompanhada do José, quem agradavelmente se ofereceu para levá-la na sua moto.

Maria aceitou com um sorriso amplo e brilhante penetrando os olhos verdes do José que sorriu ao ver aquela expressão linda da rapariga.

Apanharam a moto do moço e foram embora, velozmente polas ruas de Ourense rumo da casa da Maria à qual chegaram em poucos minutos embora estivesse nas aforas da cidade.

Ao chegarem, Maria baixou e não pôde evitar se achegar ao rosto do rapaz para lhe dar um beijo que se prolongou no tempo. Depois vieram outros dous, três e mesmo mais quatro beijos celebrados com muito agarimo e abraços entre os dous jovens. Às suas costas o rio Minho e no fundo a Ponte Velha iluminada punha um elemento romântico no seu contorno que fazia que os seus corações acelerassem os seus ritmos unisonicamente.

Quando o José acertou, finalmente, a se ir embora, montou na sua moto e voou até se perder pola estrada perante a atenta olhadela da Maria que viu com um lindo sentimento de felicidade como se lhe mexiam uma coleção de borboletas no estômago que lhe davam a entender que aquilo poderia ser o começo duma bela amizade romântica.

Baixada da nuvem, Maria tomou a consciência de estar na cancela da entrada da sua casa e baixando os seus pensamentos ao nível do comum, mais quotidiano, deu-se conta de ter deixado a jaquetinha na moto do José. Preocupou-se por um momento, mas lembrava que tinha combinado com ele de ali a três dias, polo que entrou na casa mais tranquila e esqueceu o tema até se verem.

Passaram os três dias. Maria, com a combinação na cabecinha vestiu aquela tarde a roupa mais formosa que tinha para se ver com o José como acordaram, no mesmo lugar do que a primeira vez.

Saiu da casa muito alegre e andou com ligeireza todo o caminho que a levava até a sala de festas do centro de Ourense.

Chegou, entrou e foi rumo o lugar acordado onde parecia que não tinha chegado quem ela aguardava. Não havia preocupação. Era ainda cedo.

Sentou e pediu uma bebida para aguardar melhor e combater a impaciência.

O tempo passava e enquanto ela sonhava com os olhos abertos imaginando-se aquele homem sensível e alegre, delicado e generoso, engraçado e sempre com o sorriso nos lábios.

Sonhou desperta uma boa miga e imaginou situações com ele nas que ela era feliz.

Qualquer outra pessoa que olhasse para ela nesses momentos estaria a vê-la com a visom perdida. Sorrindo às vezes... Perguntar-se-ia em que nuvem voaria a rapariga nesses instantes.

Assim se passou o tempo.

Quando voltou à realidade eram as dez e meia, mas o José não estava ali. Que aconteceria?

Pediu outra bebida ligeira para seguir aguardando enquanto olhava para a multidão por se conseguia distinguir o José entre a gente.

O tempo foi passando-se e a felicidade da Maria foi pouco a pouco transformando-se em preocupação.

As onze e meia da noite.

O rapaz já não haveria de vir. Por que tinha combinado com ela se tinha pensado não vir? Ou quiçá lhe acontecesse qualquer cousa...

A preocupação deu passagem a outros sentimentos não tão felizes.


Dali a mais uns minutos já não pude aguentar mais. Ergueu-se da sua cadeira e foi para a saída, subiu as escadas, chegou à porta e botou a última olhadela para ver se conseguir localizar a moto do José.

Nada.

Maria, com vontade de chorar começou a andar lenta e pensativa. Talvez não tinha porque pensar mal, talvez foi que ele não pôde vir por alguma razão importante e não pude avisar por não ter o seu telemóvel... ou talvez aconteceu qualquer outra cousa fora do seu alcance.

Maria seguia caminhando à vez que também os seus pensamentos ferviam na sua cabeça, umas vezes tendo em conta possibilidades inevitáveis, outras que se repartiam entre o não querer, ficando ela zangada, ou alternativas funestas que quase a faziam chorar.

Chegou à casa muito cedo. Dirigiu-se imediatamente ao seu quarto e ali se deixou cair sobre a cama para botar-se a chorar com desesperação.

Assim passou aquela noite.

Ao dia seguinte, Maria foi à academia onde estudava uns exames de Estado. O seu rosto indicava não ter dormido nada. Estava triste e sem vontade de trabalhar. Não sabia bem que lhe doía mais: o possível desprezo ou que lhe pudesse ter acontecido algo mau àquele rapaz que não lhe parecia mentiroso.

Por várias noites seguidas foi à discoteca onde se conheceram com o intuito de se topar com ele, mas sem resultados positivos polo que começou a pensar na possibilidade de que lhe pudesse ter acontecido algo inevitável embora não acertasse a saber se isso era qualquer problema relacionado com uma obriga laboral, familiar ou algo pior que afetasse a sua integridade física. Só pensar nisto último arrepiava-a.

A curiosidade era grande, assim como a incertidão mas para além de tudo isso ele tinha algo dela: a sua jaquetinha. Devia tentar saber do seu paradeiro de qualquer jeito embora não soubesse nenhum telefone de contato, nenhum endereço...

Tentou lembrar algo que se escondesse na sua memória por se tinha comentado qualquer cousa ao respeito e vagamente lembrou que tinha falado duma aldeia chamada Gundiães. Gundiães!!! Onde ficava esse lugar??

Com os nervos de quem descobre algo útil perguntou a algumas pessoas conhecidas dela e conseguiu saber de dous possíveis Gundiães: um pertinho de Alhariz e outro a poucos quilómetros donde ela vivia seguindo a estrada que passava pola sua casa, rumo Nogueira de Ramoim. Bem!!

A sua lógica começou a fiar pequenos pormenores e chegou à conclusão de que a última possibilidade era a mais real.

Ao dia seguinte de se inteirar da proximidade desse Gundiães a poucos quilómetros da sua casa decidiu achegar-se até lá como quem vai dando um pequeno passeio. Vestiu o seu fato de treino e ao serão começou a caminhar como quem faz desporto. Caminhou durante uma boa miga enquanto o sol já baixo e oblíquo ajudava a diminuir o calor que caia desde havia umas horas. Isso facilitava a caminhada da Maria que tomava boa nota de todos os lugares por onde se passava, reconhecendo os seus nomes que por outra parte ela lembrava que foram ditos polo José.

Finalmente dali a uma meia hora de caminho viu o indicativo com o nome de “Gundiães”. Descontraiu a sua marcha e abriu bem os seus sentidos e a sua intuição com a finalidade de reconhecer qualquer cousa que lhe desse um indício relativo ao lugar onde poderia morar aquele rapaz de olhos verdes que tanto a tinha preocupado aqueles últimos dias.

Reparou em todas e em cada uma das casas que ficavam à beira da estrada sem ver nada significativo até que a poucos metros diante de si olhou uma moto conhecida. Esta era preta e com duas finas raias brancas nos guarda-lamas, selim amplo para duas pessoas e um autocolante com um GZ na parte traseira.

Sem qualquer dúvida aquela era a moto do José!!

Maria, prudentemente aguardou uns minutos. Esteve ali parada uns momentos tomando força para decidir-se a entrar enquanto contemplava a moto que se assemelhava em todos os pormenores com a que ela tinha montado e onde deixara a sua jaqueta.


Dirigiu-se até a cancela após ter respirado para poder vencer a sua timidez e premeu a campainha.

Silêncio.

Passaram-se uns segundos e voltou a premer a campainha. A porta da casa abriu e saiu um homem de uns sessenta anos aproximadamente, com traças de não ser precisamente um camponês, mas um homem com uma presença cultivada. Achegou-se à cancela e abriu.

– Boa tarde –respondeu com olhada de curiosidade.

–Boa tarde –respondeu a Maria com amabilidade. – Venho porque creio que alguém da casa tem uma jaquetinha da minha propriedade e venho por ela.

–Uma jaqueta? Pois... não sei. Como é a jaqueta?

–Pois, castanha, de ponto e com desenhos andinos.

–Bom, vamos ver se sabe algo a minha senhora – concluiu o amável senhor. –Emília!!! – berrou chamando pola sua esposa.  – Emília!!!

Emília saiu pola porta com uma cafeteira nas mãos.

– Que é o que se passa? – perguntou.

– Esta rapariga diz que tens uma jaqueta dela – comentou o senhor enquanto a Emília punha expressão de estranheza no rosto.

– Não, não é assim exatamente – interveio a Maria com um sorriso para descontrair a conversa. Não creio que a tenha a senhora. Para ser mais concreta creio que a deve ter o dono dessa moto que está cá arrumada. Esteve com ele há uns dias e quando nos despedimos deixei a jaqueta esquecida e ele foi quem a levou sem se dar conta.

Nesse momento tanto o senhor como a Emília puseram rosto de grande surpresa.

– Como? – disse ele. – Quem dizes?

– Acho que se chama José e combinei com ele há uns dias. Levou-me à minha morada nessa mesma moto.


Os senhores da casa mudaram a sua expressão até a brancura extrema não podendo acreditar no que aquela rapariga estava a dizer.

– Minha nena, estás num erro grave – respondeu o homem-, o dono dessa moto era o nosso filho mas está morto desde há três anos.

O que estava a ouvir Maria deixou-a fria como o gelo. Era ela agora quem mudou a expressão do seu rosto. A surpresa, a incredulidade e o medo se mesclavam nela.

– Bom, aqui deve haver alguma confusão – reafirmou. Eu combinei com alguém que me levou nessa moto há uns dias. Disse que se chamava José e era acastanhado e com os olhos verdes, alto... e estava vivo!!

Emília achegando-se até a cancela confirmou.

– O nosso filho chamava-se José, tinha os olhos verdes, o cabelo castanho era alto... e está morto.

O silêncio governou por um momento aquela tensa situação. Os três ficaram olhando os uns para os outros sem compreenderem absolutamente nada até que o senhor decidiu.

– Quero que venhais comigo.

– Aonde? – perguntou a Maria.

– Vem – cortou ele à vez que saía da cancela para afora e se punha a caminhar.

Maria confusa andou detrás dele sem fazer mais perguntas. Ele caminhava com decisão até que chegou à estrada geral onde estava a igreja de São Miguel do Campo. A Maria não queria imaginar o que queria o senhor e por respeito seguiu-o mas não porque lhe resultasse agradável. Entraram no cemitério e justo a uns passos da entrada a Maria parou levou as mão à boca, abriu os olhos e sentindo um frio arrepio polo seu corpo só pôde dizer...

– Por favor senhor, não me conte mais...

O senhor olhou para onde ela dirigia a vista e viu acima de uma tumba uma jaqueta de ponto, de cor castanho e com desenhos andinos. Acima uma formosa rosa vermelha e na cabeça do túmulo justo onde a cruz uma foto a cor dum formoso rapaz de cabelos quase louros, olhos verdes, sorriso agradável e um nome escrito: José Barreiros Failde.

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O VELHO DA PENA PATELA - Conto de Terror - Adela Figueroa Panisse



O VELHO DA PENA PATELA
Adela Figueroa Panisse

"Com que vamos construir os nossos lares?” O rapaz levantou a vista do chão, olhou para frente e viu-o. Lá ele estava com a vista, de olhos vácuos, dirigida para o infinito. O seu ar solene impressionava-o sempre: Sentado na pedra branca que eles chamavam a “Pena Patela” apoiava-se levemente na bengala – comprida – que, fincada no chão, apontava para ao céu. Uma perna dobrada e a outra estendida sobre a pedra. A mão direita pegando no bordão e a esquerda pousada no joelho. Parecia confundir-se com a paisagem até formar parte dela. De perfil enxuto, queixo proeminente, barba branca e cabelo longo, semelhava um velho druida, como aqueles que o pai lhe tinha ensinado num livro antigo. Ou como aqueles dos que ouvira falar quando ia, pelo verão, à Irlanda à casa dos primos.

O lugar em que se encontrava o ancião era um pequeno outeiro que dominava a parte alta do vale do Minho. A Pena Patela era a atalaia preferida do Gaibor.

A vista podia alargar-se até alcançar as suaves montanhas sagradas das Penas de Rodas quando o tempo era bom e o ar estava limpo como naquela tarde de outono. Lá embaixo o Minho perdia-se nos poços do Piago e acalmava as suas presas entre as ilhas, nos remansos de Marcelhe.

Nos dias úmidos de inverno, depois de chover, ia até a Pena com os seus amigos e deixavam-se escorregar pela superfície da pedra como se esta fosse um tobogã natural, até chegarem ao caminho que a rodeava vindo da beira do rio.

O Gaibor acercou-se ao Velho com precaução. Sentia um misto de medo e de atração fatal por ele.

Ia-o cumprimentar, já quase começara a dizer: “As boas tardes, Sr. Olegar”, mas interrompeu-o um murmúrio que saía da boca do Homem.

                                                                                                                           
"Caminhando, caminhando, caminhando
Vê-la-ai-vai a Santa Companha
A levar pelo Mundo a terrível
Espécie da ‘palavra’.”


O Rapaz ficou paralisado, não se atrevendo a mexer nem para adiante nem para trás. Não teve medo porque sabia – tinha-lho contado a Sr. a Rosália que era a vizinha de mais acima de sua casa –  que a Companha não podia aparecer de dia.

O sol estava ainda alto, não se iria deitar por uma ou duas horas. De maneira que reagiu rapidamente e retomou o cumprimento que tinha iniciado:

– Boas tardes, Sr. Olegar, que é o que está a ver?

– Olá, Gaibor. Sabes bem que eu não vejo as coisas reais. Apenas é que poso enxergar as coisas espirituais.

– Mas, então, que é o que está a cantar? Eu fiquei assustado quando lhe ouvi recitar aquele canto triste.

– E fazes bem em tê-lo. Todas as pessoas deveriam temer a Santa Procissão das Almas. Sabes o que é a Santa “Companha”?

– A Rosália tem-me contado algo, mais não sei muito bem.

– A Santa “Companha” é uma procissão que anda pela terra. Nomeadamente nas noites escuras. Não gostam tanto do luar. E voltou cantar com a sua rouca voz a cantiga monocórdia:


“Destemido exército errante
A dançar pela Terra em redondeza,
– A Música na cabeça –
Uma dança macabra e emigrante.
Com destino a nenhures
Alcança chegar a toda parte
Como mancha de azeite
Como seixos ‘rolantes’.”


O Gaibor sentiu um calafrio que lhe percorreu as costas. Teve que se assegurar algo nos calcanhares para não perder o equilíbrio. Mas a curiosidade podia mais que o medo e sempre quis saber mais alguma coisa. Olhou para o velho com aceno de esperar outra explicação.

– A Santa Companha são as almas do purgatório, que não têm repouso, porque ainda não puderam entrar no Céu e, como estão irrequietas à espera de o puderem fazer, andam pelos caminhos penando. Levam fachos acendidos para se alumiar.

– E então, podem-se ver.

– Ai! Meu amigo, isso é que não convém.

– Por quê? – Quis saber o Gaibor, sentando-se à beira do Sr. Olegar e cada vez mais interessado, enquanto sentia crescer em seu interior aquela mistura de medo e de curiosidade.

– Porque a Santa “Companha” vai envolta num ar frio. É um alento de purgatório que nem é de Inferno nem de Céu. O bafo do Inferno é quente, pode mesmo fazer arder as silveiras se uma fenda diabólica lhe permitisse sair das profundezas da terra. No em tanto, o ar do Céu é como um vento de rosas, suave e rescendente como um perfume. Quando uma pessoa tem a sorte de ser atingida por este último, é como se a felicidade lhe entrasse por todos os poros da sua pele.

Mas, há de quem é abafado pelo ar de purgatório! Essa pessoa já nunca mais vai viver entre os vivos. Mesmo que pareça um vivo, já não o é, porque o seu corpo tornar-se há oco como a casca vazia dum ovo. Pode mesmo andar, e enganar aos que olhem para ele, mas, como está vácuo, torna-se frágil e quebradiço, de maneira que com o menor golpe vai-se esquartejar. Igual que acontecer com uma casca de ovo esvaziada. Eu já tenho visto as cinzas esfareladas dum alguém que, parecendo vivo, partiu, subitamente, em mil pedaços.

 – Ah!

 O Gaibor não entendia muito bem o que o velho queria dizer, mas, como era um rapaz educado, ensinado a respeitar aos anciãos, acenou com a cabeça como se compreendesse.

E continuou sentado à beira do velho, a fazer perguntas.

– E então, que era aquilo que o Senhor cantava há pouco?

– Eu estava apenas a escorrentar a “Companha”. Porque, ainda que seja de dia, hoje à noite pode vir passear por este Outeiro, caminhando pelo carreiro que há ao pé desta Pena Patela. Estou apenas a advertir. Se alguém anda perdido pelos caminhos e lhe alcançasse a dar o ar frio da Santa Procissão, fica prendido em ela e já nunca mais volta para a sua casa. Desta maneira a Companha cresce nas noites escuras de névoa ou de lua nova acrescentando mais um elo na cadeia de fachos que a formam.

O Gaibor escutava com espanto até que já não aguentou mais. Começou logo a sentir um frio que lhe subia desde os pés até as coxas e que já lhe queria ascender pelo vão caminho do coração, embora, sendo ainda novo, não soubesse com precisão onde é que este órgão se encontrava dentro de seu corpo. Um tremor começou a sacudi-lo, primeiro suavemente e depois com algo mais de força. Teve de fazer um esforço grande para se erguer e a seguir descolar os sapatos do chão. Quando se viu com força e capaz de correr, disse ao velho, com voz aflita:

– Adeus, Sr. Olegar. Tenho de ir merendar à minha casa. Meu pai está a minha espera.

Um grito de chamada veio em sua ajuda.

– Gaibor, Gaibor! Entra em casa que já é tarde!

O rapaz virou-se rapidamente lançou um “boas tardes” apressurado e correu para onde seu pai o chamava.

Enquanto corria, ouvia a voz profunda e rouca do Sr. Olegar a cantarolar num tom de monocórdia e de salmodia :


“Lavradores incansáveis de caminhos
A marcar os vieiros com pegadas
De pés, engenhos e palavras".


Essa noite, depois de ter jantado e preparado as tarefas de classe, o Gaibor pôs-se a olhar pela janela de seu quarto, sempre a pensar no Sr. Olegar. Só o fundo preto do Céu era o que se via – ou não se via – da sua atalaia.

No silêncio da noite, quando as luzes vão se apagando e os lares adormecem junto com os seus moradores, o Gaibor ia sentindo como o som surdo e escuro da noite lhe premia o coração, ao mesmo tempo em que o cansaço lhe vencia. Deitou-se cheio de aquela mistura de medo e curiosidade que o tinha invadido quando tivera a conversa com o Velho das barbas brancas que olhava a paisagem da Pena Patela sem a poder ver desde os seus olhos cegos.

Já o sono queria-lhe entrar pela porta dos pensamentos e ainda voltou escutar a voz profunda e rouca do Sr. Olegar que salmodiava:


“Caminhando, caminhando, caminhando
Já lá vem a Santa Companha:
Destino errante sempiterno
A procura do final imaginado
dum caminho entre o Céu e o Inferno
Prendido nas cadeias do seu fado:
Andar sobre a terra e sobre as águas
Com o olhar posto na linha inalcançável
Do horizonte de risos e de ‘bágoas’


O Gaibor tapou-se com o cobertor até cobrir a cabeça. Logo embrulhou-se com os lençóis da cama. Dentro do seu leito ficou encolhido e assim adormeceu e passou a noite inteira sem se mexer dentro da cama.

A luz do sol fê-lo acordar à manhãzinha. Já nada se lembrava do acontecido o dia anterior. O pai tinha saído cedo para o trabalho e ele tomou o pequeno almoço com o avô, que o acompanhou à paragem do bus da escola.

Só foi à tarde, quando voltou para casa, que lembrou ao velho Sr. Olegar. Como ainda era dia e estava sol, pediu para ir brincar e apanhar umas pinhas para o lume da lareira. Foi logo para a Pena Patela, mal dissimulando uma louca ansiedade que lhe apertava no peito até case lhe fazer enjoar.

O Sr. Olegar não estava mais sentado na Pedra. Mas lá estava a bengala branca que o homem tivera pela mão no dia anterior e, na sua beira, pelo chão apareciam inúmeros cascalhos brancos, como de casca de ovo ou de ossos quebrados.

Gaibor sentiu uma rachada de vento vindo do caminho que, desde embaixo da Pena Patela, contornava esta. Teve frio e voltou a correr para sua casa enquanto chamava pelo seu avô para que lhe abrisse a porta.

– E então sempre cansaste de brincar? Sei que não havia pinhas no pinheiral.

– Não, avô, não eram pinhas o que havia. O que lá fica já não dá para fazer fogo. Tem tudo ardido.

O Pai e o avô olharam para o Gaibor de relance. O aspecto de preocupação que transcendia não dava para lhe fazer perguntas. Decidiram deixar o rapaz tranquilo e todos três puseram-se a preparar o jantar.

Gaibor ainda escuta, nas noites nevoentas da invernia uma voz que salmodia:


Caminhando, caminhando, caminhando
Velai vem a Santa Cooompaanhaa.


EPÍLOGO

Agora o Gaibor já nunca mais tem medo de ser apanhado pelo ar frio do purgatório que expelem as almas.

O seu pai e o seu avô disseram-lhe que o purgatório não existia, nem tampouco o inferno. Que o céu aparecia sempre que a gente estava contente e era feliz, o que acontecia com frequência na vida do Gaibor.

O Sr. Olegar está na residência para anciãos. O pai do Gaibor conseguiu-lhe lá um lugar porque, para além de ser ceguinho, não tinha família que o cuidasse.

As enfermeiras ralham com ele todos os dias porque intenta contar-lhes histórias da Santa Companha e pretende meter-lhes medo sob a ameaça de que uma noite de geada e névoa vão ser apanhadas pela procissão das ânimas. E seu corpo converter-se-á numa casca de ovo vazia.

Por enquanto canta os seus versos, como uma ladainha que semelha uma premonição:


Caminhando, caminhando, caminhando
Já lá vai a Santa “Companha”
A levar pelo mundo a terrível,
‘Cruel espécie da palavra.’
Espécie, enfim, a invasora da Terra,
Gente, Seres Humanos."



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O HOMEM MORTO - Conto Clássico de Horror - Horacio Quiroga


O HOMEM MORTO
Horacio Quiroga
(1878 – 1937)
Tradução de Paulo Soriano

O homem e seu facão acabam de limpar a quinta rua do bananal. Ainda lhes faltavam duas ruas. Mas, como nestas abundavam as ervas daninhas e as malvas-silvestres, a tarefa que tinham pela frente era coisa muito pouca. Por conseguinte, o homem lançou um olhar satisfeito aos arbustos roçados e cruzou a cerca de arame para estirar-se um pouco sobre o relvado. Mas, ao baixar a cerca de arame farpado e passar o corpo, seu pé esquerdo resvalou sobre um pedaço de casca de madeira desprendida do poste, enquanto o facão escapulia de sua mão. Quando caía, o homem teve a sumamente longínqua impressão de não ver o facão caído no chão.

Estava já estendido sobre o relvado, deitado sobre flanco direito, como ele queria. A boca, que pouco antes abrira-se  em toda a sua extensão, acabava, também, de fechar-se. Estava como desejava estar: os joelhos dobrados e a mão esquerda sobre o peito. Só que, atrás do antebraço, e imediatamente por debaixo do cinto, surgiam de sua camisa a empunhadura e a metade da folha do facão, mas o restante dele não se via.

O homem tentou, em vão, mover a cabeça. Olhou de esguelha para a empunhadura do facão, ainda úmida do suor de sua mão. Considerou, mentalmente, a extensão e a trajetória do facão dentro de seu ventre e teve a certeza — fria, matemática e inexorável — de que acabava de chegar a termo a sua existência. A morte. No transcurso da vida, pensamos muitas vezes que um dia — após anos, meses, semanas e dias preparatórios — chegaremos por nosso turno ao umbral da morte. É a lei fatal, aceita e prevista. E tanto é assim que costumamos deixar levar-nos prazenteiramente pela imaginação a esse momento — supremo entre todos — em que exalamos o último suspiro. Mas, entre o instante atual e esta expiração futura, quantos não são os sonhos, transtornos, esperanças e dramas que presumimos em nossa vida! O que ainda nos reserva esta existência repleta de vigor, antes de sua eliminação do cenário humano! Este é o consolo, o prazer e a razão de nossas divagações mortuárias: a morte está tão distante, e  é tão imprevisível o que devemos ainda viver! Ainda?

Não se passaram dois segundos: o sol está exatamente na mesma altura. As sombras não avançaram um milímetro. Bruscamente, acabam de resolver-se para o homem estendido as divagações a longo prazo: ele está morrendo. Morto. Pode considerar-se morto em sua cômoda postura. Mas o homem abre os olhos e fita. Quanto tempo passou? Que cataclismo sobreveio no mundo? Que transtorno da natureza transpira o horrível acontecimento?

Vai morrer. Fria, fatal e ineludivelmente, ele vai morrer.

O homem resiste — é tão imprevisto este horror! — e pensa: É um pesadelo. É isto. O que mudou? Nada. E olha. Não é, por acaso, o mesmo bananal? Não vem, todas as manhãs, para limpá-lo? Quem o conhece como ele? Vê perfeitamente o bananal, muito raleado, as largas folhas desnudas ao sol. Ali estão elas, bem próximas, desfiadas pelo vento. Agora, porém, não se movem... É a calma do meio dia.  Mas devem ser doze horas. Por entre as bananeiras, lá adiante, o homem vê, do duro chão, o teto vermelho de sua casa. À esquerda, entrevê a mata e a capoeira de canelas. Não consegue ver mais, mas sabe, muito bem, que às suas costas está o caminho do porto novo; e que, na direção de sua cabeça, lá embaixo, jaz, no fundo do vale, o Paraná, adormecido como um lago. Tudo, tudo exatamente como sempre: o sol de fogo, o ar vibrante e solitário, as bananeiras imóveis, a cerca de estacas muito grossas e altas, que logo terá que trocar...

Morto! Será possível? Não é este um dos tantos dias em que, ao amanhecer, saiu de sua casa empunhando o facão? Não está mesmo ali, a quatro metros dele, o seu cavalo, de cara branca, farejando parcimoniosamente o arame farpado? Mas, ouça! Alguém assovia. Não pode ver quem é, porque está de costas para a estrada. Mas sente o ressoar dos passos do cavalo na pontezinha... É o menino que segue todas as manhãs para o porto novo, às onze e meia. E sempre assoviando. Do poste descascado, que quase toca com as botas, até a cerca viva de mato, que separa o bananal da estrada, são exatos quinze metros. Sabe perfeitamente disto porque ele mesmo, ao levantar a cerca, mediu a distância.

O que está, então, acontecendo? Este é, ou não, um  meio-dia comum, como tantos outros em Misiones,  em sua mata, em seu pasto, em seu bananal raleado? Sem dúvida! Relvado curto, cones de formigas, silêncio, sol a pino... Nada, nada mudou. Somente ele está diferente. Há dois minutos, sua pessoa, sua personalidade vivente, já nada tem a ver nem com o pasto que ele mesmo deu forma com a enxada durante cinco meses consecutivos, nem com o bananal, obras exclusivas de suas mãos. Nem com sua família. Ele foi arrancado bruscamente, naturalmente, por obra de uma casca lustrosa e um facão no ventre. Faz dois minutos: está morrendo.

O homem, muito fatigado e estendido no relvado sobre o flanco direito, reluta sempre a admitir um fenômeno dessa transcendência, ante o aspecto normal e monótono de tudo o quanto vê. Sabe bem a hora: onze e meia... O menino de todos os dias acaba de transpor a ponte.

Mas não é possível que tenha resvalado!... O cabo de seu facão (logo deverá trocá-lo por outro; já tem pouco fio) estava perfeitamente comprimido entre a sua mão esquerda e o arame farpado. Após dez anos de floresta, ele sabe muito bem como se maneja um facão de roça. Está apenas muito fatigado do trabalho desta manhã e descansa um tempinho, como de costume. A prova?... Mas esse relvado, que entra agora pela comissura de sua boca, ele mesmo o plantou em trechos de terra distantes um metro uns  dos outros!  Já este é o seu bananal. E este é o seu cavalo de cara branca, resfolegando cautelosamente ante as farpas do arame! Pode vê-lo perfeitamente. Sabe que ele não se atreve a dobrar a esquina do alambrado, porque o homem está estendido quase ao pé do poste. Distingue-o muito bem. E vê os fios escuros de suor que exsudam do quadril e da garupa. E o sol cai a prumo e a calma é muito grande, pois nem uma franja das bananeiras se move. Todos os dias — como este — ele tem visto as mesmas coisas.

...Muito fatigado, mas ele apenas descansa. Devem ter passado já vários minutos. E às quinze para as doze, de lá de cima, do chalé de teto vermelho,  descerão a sua mulher e seus dois filhos ao bananal, a buscá-lo para almoçar.  Ouve sempre, antes das outras, a voz de seu menino mais novo, que quer soltar-se da mão de sua mãe: “Papai! Papai!”

Não é isso?...  Claro, está ouvindo! É a hora. Ouve efetivamente a voz de seu filho... Que pesadelo!... Mas este é um dia como qualquer outro, trivial como todos, está claro! Luz excessiva, sombras amareladas, calor silencioso de forno sobre a carne, que faz o cavalo suar, imóvel, diante do bananal proibido.

...Muito, muito cansado, mas nada além disto. Quantas vezes, ao meio-dia como agora, cruzou, voltando para casa, esse pasto, que era capoeira quando ele chegou,  e antes havia sido mata virgem? Voltava, então,  também muito fatigado, com o seu facão pendente da mão esquerda, a lentos passos. Pode ainda afastar-se mentalmente, se o desejar. Pode, se quiser, abandonar por um instante seu corpo e ver o dique por ele construído, a trivial paisagem de sempre: o pedregulho vulcânico com gramas rígidas; o bananal e sua areia vermelha, o alambrado apequenado no declive,  que se acotovela com a estrada. E, mais adiante, pode ver ainda o pasto, obra exclusiva de suas mãos. E, ao pé de um poste descascado, deitado sobre o flanco direito e as pernas recolhidas, exatamente como todos os dias, pode ver a si mesmo como um pequeno vulto assoleado sobre o gramado — descansando, porque está muito exausto.

Mas o cavalo, rajado de suor,  e cautelosamente imóvel  diante da esquina do cercado, vê também o homem no chão, e não se atreve a contornar o bananal, como desejaria. Ante as vozes que já estão próximas — Papai! —,  volta  para o vulto  — por um longo, longo momento — as orelhas imóveis. E, por fim tranquilizado, decide passar entre o poste e o homem estendido, que já descansara.




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O LAGO DO DIABO - Conto Clássico de Terror e Mistério - Pierre Zaccone


O LAGO DO DIABO
Pierre Zaccone (1817 – 1895)
Tradução de Lafayette Pereira Tavares (sec. XIX)


Para os fins do mês de abril do ano de 1845,  M. Charles Dumas, rico armador de Saint-Malo, foi com sua família residir em uma deliciosa quinta, situada no vale que fica abaixo da cidade de Dinan.

M. Dumas, tendo ganho muito dinheiro como armador, queria desfrutar alguns anos de repouso antes de sair deste mundo, em que deixava uns poucos de filhos, já todos educados e a abrigo das necessidades, em virtude da bela fortuna que tinha ganho  para eles muito honradamente.  

A quinta que escolheu era conhecida no lugar pela denominação de Sableu, e quando dela tomou posse, havia dois anos que não era habitada.

M. Dumas, portanto, achou-a na mais completa desordem. O capim tinha-se alastrado pelos jardins, as árvores não haviam sido podadas, alguns muros achavam-se caídos pela ação da chuva e do vento; o assoalho e o teto estavam todos podres:  em suma, parecia uma verdadeira tapera. M. Dumas, longe de desanimar, meteu mãos à  obra com o ardor de um velho marinheiro, habituado a lutar com os caprichos e violências dos elementos: em menos de um mês estava tudo direito e parecia um céu aberto. Uma tão completa transformação, feita em tão pouco tempo, produziu no lugar certa impressão.

Os habitantes da circunvizinhança estavam habituados a considerar Sableu como uma espécie de  sepulcro, como um sítio medonho, que não era lícito a  ninguém aproximar-se. E mais de um camponês deu às  vezes uma volta bem grande, quando linha do transitar por acolá de noite, só para não passar por junto do Lago do Diabo.

O Lago do Diabo era uma lagoa que ficava pegada à casa, inteiramente encoberta por um pequeno bosque de choupos, e a respeito da qual corriam pelos  arredores certos boatos assustadores.

A certas horas e em certos dias, principalmente, ouviam-se ali sinistros gemidos: uma barca, com um homem e uma mulher dentro, escorregava-se silenciosamente pela turva água do lago. Quando chegava ao lugar mais fundo, o homem saía da barca o metia-se no lago até a cintura. Depois, a mulher fazia o mesmo, e depois, afinal, um cadáver.

A mulher chorava: era pálida, e os cabelos desgrenhados voavam-lhe ao vento. O cadáver tinha uma grande ferida no peito esquerdo, da qual jorrava sangue em borbotões.

Não se ouvia o menor ruído, a menor palavra... Reinava o mais lúgubre silencio, apenas de quando em quando interrompido pelos soluços da mulher.

Isto durava coisa de meia hora. Depois do quê,  o homem e a mulher tornavam a entrar para a barca, dirigindo-se  para a margem do lago.

Porém, quando apontavam as primeiras barras do dia, os dois fantasmas desvaneciam-se!

M. Charles Dumas sabia desde muito tempo de todas as histórias  ridículas que se contavam a respeito de Sableu. Antes, porém,  de comprar aquela propriedade, tomou a resolução de que devia ir à origem de tais boatos, e o que então soube provou-lhe mais uma vez a facilidade com que a imaginação popular empresta formas de lendas aos acontecimentos mais triviais e mais reais.

Contaremos aos nossos leitores a história que contaram a M. Dumas  a este respeito.

Havia dez anos — portanto, em 1835 — que tinha residido em Sableu um inglês chamado Holder, que ali vivia sozinho com sua mulher.

M. Holder tinha cinquenta anos e Mme. Holder apenas vinte e cinco. Passavam os dois esposos em Dinan os meses de inverno, e o resto do tempo na sua quinta. Tinham  poucas relações, que não excediam de alguns ingleses e de uma ou duas famílias da aristocracia bretã. M. Holder parecia amar apaixonadamente a sua mulher que, pela sua parte, lhe mostrava a mais viva afeição.

Apesar destas aparências que inculcavam a maior harmonia doméstica, não tardou a correr o boato de que M. Holder era homem de gênio irascível, violento e brutal; que seu ciúme tinha arrancos temíveis; que não tinha quase outra paixão senão a caça, e que fazia Hélène a mais infeliz de todas as mulheres. Dizia-se, também, que Mme. Holder não era lá de uma virtude muito irrepreensível e que não queria bem a seu marido; que antes de ir para Dinan, tinha dado escândalos em outro lugar em que morara; e que, enfim, não havia mesmo muita certeza que fosse casada com M. Holder.

Tais eram os falatórios que circulavam, quando chegou a primavera de 1837. M. Holder e Hélène retiram-se de Dinan nos princípios do mês de abril, como tinham por costume, e voltaram para Sableu. M. Holder parecia o mais franco dos homens e Hélène a mais dócil e submissa de todas as mulheres.

A primavera anunciava-se debaixo dos mais felizes auspícios; as árvores brotavam folhas verdes, as flores rebentavam, os passarinhos modulavam os seus primeiros gorjeios de amor. A natureza inteira parecia animar-se e sorrir-se às embalsamadas carícias da primavera.

Hélène levantava-se cedo e, com um grande chapéu de palha na cabeça, corria sozinha, como uma criança, pelas ruas do parque e por baixo de espessas árvores que rodeavam o lago. M. Holder, pela sua parte saía ,também, à mesma hora, de espingarda no ombro e cão de caça atrás. E, assim, andava muitas vezes uma ou duas léguas antes do almoço.

À exceção de um pequeno pavilhão, que estava situado perto da lagoa e conservava-se sempre fechado, a habitação de M. Holder não era limitada de todos os lados senão por campos de trigo e de linho, por córregos pouco fundos e pela estrada de Paris. Nada, portanto, havia que recear, nem dos vadios, nem dos curiosos. Além disto, as visitas que ali se faziam eram raras e curtas. Iam sempre depois do almoço e retiravam-se antes do jantar. M. Holder achava-se, pois, quase sempre sozinho com sua mulher, sem que nem um nem outro se queixasse de tal isolamento.

Hélène era uma das criaturas mais encantadoras com que a imaginação do poeta tenha jamais sonhado.

Seus olhos tinham esse brilho ardente e aveludado que faz cismar e estremecer ao mesmo tempo. Seu nariz desenhava-se em uma linha pura e correta; seus lábios, cor de rosa, formavam nos cantos deliciosas covinhas, e sua fronte, que dominava este todo sedutor, perfeitamente se harmonizava com seus abundantes e voluptuosos cabelos. Hélène não tinha, entretanto, a frieza da maior parte de suas compatriotas. Seu andar pausado, seus movimentos  preguiçosos, suas pálpebras meio caídas tinham um ardor, uma vivacidade, uma chama misteriosa, que davam à sua beleza um atrativo irresistível aos olhos e aos corações.

E, além disto, era ainda tão jovem, tinha ainda vivido tão pouco! Conhecia-se em sua fala, em seus gestos,  em seu olhar um tom de virgindade que admirava e seduzia. Quem a via não podia deixar de perguntar a si mesmo que tesouro ocultaria aquele coração meio entumecido, que vaga tristeza seria aquela que pairava as vezes por essa pálida fronte, que impaciência seria a que de quando em quando fazia encolher o canto dessa úmida boquinha. Percebia-se que, não obstante as suas delicadas formas, tinha Hélène um desses gênios enérgicos, igualmente resignados à dor ou dispostos à luta... Nunca uma lágrima lhe umedecera as pálpebras, nunca um queixume lhe partira dos lábios. Contudo, tinha Hélène medo de M. Holder. Esse homem tinha às vezes um olhar singular que a fazia estremecer. Era alto, robusto, infatigável. Uma ocasião, em um acesso de cólera e de ciúmes, não querendo atracar-se com Hélène, a quem talvez tivesse morto, lançara um dos criados pela janela.

Era, felizmente, uma janela baixa, e o pobre criado escapou só com algumas contusões. Mas, desse dia em diante, todas as vezes em que se  lembrava disto, a pele da moça cobria-se de arrepios.  

Cinco meses se passaram,  até que chegou o verão. Estavam no mês  de agosto, no tempo da caça. M. Holder saía muitas vezes de manhã e não voltava para casa senão à boca da noite. Ceava-se, então, e, depois de levarem uma hora a tomar fresco debaixo das arvores do parque, retiravam-se M. Holder para o seu quarto e Me. Holder para o seu. M. Holder deitava-se imediatamente e ferrava um profundo sono até de manhã. Hélène levava frequentemente acordada até alta noite, ou pelo menos deixava o candeeiro arder, às vezes, até o romper do dia.

Foi nessa época que se propalaram os boatos que fizeram dar à lagoa o nome de Lago do Diabo. Dizia-se que todas as noites um fantasma branco, vestido com uma túnica branca e carregando um fardo, que parecia ter seu peso, passava  furtivamente pelas alamedas do parque e se dirigia misteriosamente para o lago. Havia não longe dali uma pequena porta no muro que deitava para o campo. O fantasma, abrindo essa porta, desaparecia na direção do solitário pavilhão, que era a única habitação que havia nas imediações de M. Holder.

Não foi preciso mais para despertar curiosidade, e por vários dias o pavilhão tornou-se objeto de minuciosa inquisição. Foi, porém, trabalho perdido.

O pavilhão era mudo como um túmulo; as janelas e a porta estavam hermeticamente fechadas; nunca se tinha visto entrar ali viva alma, nem sair quem quer que fosse.

Não tiveram, portanto, os curiosos outro remédio senão contentarem-se com o que já sabiam, que na realidade bem pouco era. Não tardava, porém, a tudo mudar de face. Uma noite—o céu estava escuro e carregado de densas nuvens; grossos pingos de chuva caíam de quando em quando, e ouvia-se ao longe os surdos roncos de uma tempestade—, acabava de dar meia-noite em todos os relógios da quinta. Hélène, levantando-se da poltrona em que estava sentada, deitou negligentemente nos ombros um capote, com cujo capuz tapou a cabeça, e, assim embuçada, desceu para o parque.

Quando foi pondo o pé na alameda, um relâmpago, fendendo as nuvens, a fez estremecer, por lhe parecer ter visto, ao clarão desse relâmpago, o vulto de um homem que caminhava rapidamente a pequena distância dela.

O vento soprava de rijo; o ar estava pesado, os ramos das árvores balançavam-lhe por cima da cabeça, pressagiando próxima tormenta, e a trovoada, que continuava a roncar, despertava-lhe no coração dolorosos ecos.

A pobre mulher esteve em termos de voltar;  porém, um sentimento mais forte do que a sua vontade a impelia para diante, e não tardou a chegar ao lago e, pouco depois, à pequena porta.

Respirava a custo; o coração batia-lhe com violência. Nesse momento, a sombra, que vira um instante antes passar-lhe por junto, ergueu-se de repente diante dela e uma mão de ferro agarrou-lhe o braço. Esta mão era a de M. Holder...

Hélène fechou os olhos para não ver o medonho facho que desferia aquele olhar feroz... As forças abandonaram-na e, caindo de joelhos no úmido chão, pôs as mãos como que para implorar misericórdia.

— Dê-me chave do pavilhão — disse M. Holder, com voz imperiosa.

— O que quer fazer?— balbuciou Hélène, semimorta de terror.

— Você verá.

M. Holder agarrou ambas as mãos da moça, que apertou com as suas.

— A chave. Já lhe disse.

— Aqui está.

Hélène estava transida de dor.

— Está bem. Agora, acompanhe-me.

— Eu... Meu Deus!

— Siga-me.

— Tenha compaixão de mim, senhor. Não vê que estou quase morrendo?

Uma gargalhada foi a resposta a esta súplica, e M. Holder arrastou resolutamente Hélène para o pavilhão.

O pavilhão, que tinha sido o alvo de tantas investigações dos camponeses dos arredores, era, com efeito, habitado. Havia alguns meses que ali residia um homem ainda bastante jovem, tendo apenas  vinte e cinco anos. Encontrando-se com Hélène várias vezes nas partidas de Dinan, apaixonara-se por ela.

Este jovem não tinha neste mundo mais ninguém do que sua mãe, de quem nunca se havia separado e que tinha para com ele a mais terna solicitude. Mas o que pôde a ternura de uma mãe com o amor de uma amante? O Jovem, certo dia, esquecendo-se de tudo, partira.

Era bem afeiçoado, alto, esbelto; pretos e abundantes cabelos davam uma espécie de realce a seu pálido semblante; seu olhar era expressivo e da maior doçura; parecia ainda um menino pela graça juvenil do seu andar e pelos inocentes reflexos de sua fronte.

O que se passaria nessa terrível noite depois do encontro de M. Holder e Hélène? É o que não é possível especificar-se. Só o que se soube foi que, por vários dias, não se viu sair nem M. Holder, nem Hélène, e que duas semanas depois tudo parecia estar esquecido. O pavilhão continuou a ficar desabitado. M. Holder continuou a ir à caça, e Hélène, apesar de mais triste e mais pálida, ia vivendo como dantes. Alguns anos depois, M. Holder retirou-se do lugar, e nunca mais se ouviu falar nem dele, nem de Hélène.

Cessaram, afinal, de ocupar-se com eles.

Entretanto, os reparos empreendidos por M. Charles Dumas, o novo proprietário, prosseguiam com a maior atividade. Tudo tinha mudado de face e a quinta parecia uma nova habitação.

Todavia,  ainda restava uma coisa a se fazer.

M. Dumas tinha feito, à pequena distância do Lago do Diabo, um cercado para vacas de leite, cabras e outras criações, e como os pastos ficavam um tanto longe desse lugar, e além disto a lagoa em certas épocas do ano exalava horríveis miasmas, resolveu M. Dumas mandá-la secar.

Os projetos de M. Dumas eram prontamente executados e, assim, logo no dia seguinte, meteu-se mãos à obra. M. Dumas, com o seu gênio infatigável,  presidia pessoalmente a todos esses trabalhos. Uma manhã, seriam oito horas do dia, acabava ele de chegar à obra, quando veio da casa um criado correndo dar-lhe parte de que uma pessoa desejava falar-lhe.

—E que pessoa é essa?

 —Não sei.

—E não lhe perguntou o nome?

—Disse-me que se chama M. Holder.

M. Dumas estremeceu.

Nunca vira M. Holder. Conquanto não tivesse a menor razão de temer a presença deste homem, ao ouvir  o seu nome, não pôde deixar de sentir uma espécie de repulsa. Entretanto, não querendo fazer M. Holder esperar, deu algumas ordens às pressas e encaminhou-se para casa.

—Espero que me desculpe, senhor — disse M. Holder assim que foi avistando a M. Dumas —, vir atrapalhá-lo, tendo tanto que fazer.

—Seja bem-vindo,  senhor — respondeu M. Dumas fazendo-lhe a sua cortesia.

M. Holder tinha sessenta anos naquela época, porém, pouca ou nenhuma mudança tinha-se operado em sua fisionomia. Continuava o mesmo homem robusto, aristocrata,  elegante, porém enérgico e forte.

— Na verdade — prosseguiu ele —, é uma maravilha e gosto a arte com que o senhor transformou esta pobre quinta num verdadeiro paraíso.

—O senhor já tinha deixado todos os elementos necessários.

—O senhor tem feito uma completa metamorfose.

—Assim foi-me preciso para pôr tudo em ordem.

M. Holder sorriu com tristeza.

 —Deixei-lhe, com efeito —  acrescentou —, muito que fazer.

 —O que,  contudo, não me desanimou.

 —Bem estou vendo. Minha partida foi tão precipitada... Tenho sofrido tantos desgostos...

Assim falando, iam os dois caminhando um para o outro. Quando M. Holmer disse estas últimas palavras, M. Dumas, parando, perguntou:

— Provavelmente Mme. Holder não está passando bem...

— Está morta! — respondeu o velho.

Reinou curto silêncio.

Os dois continuaram a caminhar.

—E teve uma morte bem desgraçada —  prosseguiu M. Holder. — Hélène era de uma natureza impressionável. Eu a  supunha feliz, e ela não o era... Morreu, há alguns meses, em meio dos mais atrozes sofrimentos... Envenenou-se.

—Um suicídio!

—Sim, um suicídio que me deixou sozinho neste mundo, na ocasião em que, mais do que nunca, eu precisava de uma companheira amada. Ah, senhor!  Deus o livre, e a todos que lhe pertencem, de acontecer-lhe o que me aconteceu.

 M. Dumas sentiu-se comovido por esta dor que lhe pareceu tão sincera. Pegando na mão de M. Holder,  apertou-a sem proferir palavra.

—A morte de Hélène —prosseguiu o velho, depois de um instante de silêncio — causou-me um terrível abalo. E, vendo-me assim sozinho, sem amigos, sem família,  veio-me ao pensamento a lembrança de visitar estes lugares onde vivi tão feliz junto com ela.

Neste momento, tinham chegado quase à Lagoa do Diabo. Quando passaram por junto da portinha que havia no muro, M. Holder tornou-se horrivelmente pálido, e lançou involuntariamente os olhos para o pavilhão.

—Então — disse —,  o senhor está mesmo resolvido a secar esta lagoa?
 —Em poucas semanas, pretendo tê-la convertido em um prado. Não considera uma boa ideia?

—Não sei.

—Um prado no meio deste pequeno bosque há de produzir um magnífico efeito.

—O lago era preferível. E, além disto, útil... mesmo para os animais... Em seu lugar, eu o conservaria.

 —Gosto das mudanças.

—Quando começa o serviço?

—Amanhã de manhã.

M. Holder calou-se, abaixou a cabeça, e pareceu meditar. Quando tornou a levantar a cabeça,  estava sumamente pálido e pensativo.

—M. Dumas — disse ele, de repente, e sem transição —, dá-me  licença que lhe faça uma pergunta?

— Por certo, senhor.

—Gosta muito do Sableu?

—Infinitamente. Todas estas obras distraem-me. E,  além disto, acho os ares excelentes.

—Então o senhor não se desfaria desta propriedade?

—Nem falar nisto é bom.

—Mesmo que se oferecesse por ela uma boa soma?

—Nem que me oferecessem o dobro do que me custou.

—Sendo assim, o dito por não dito.

 E M. Holder, apesar de parecer bastante contrariado com este desengano, não insistiu mais. Depois do passear ainda um pouco pelo parque, despediu-se de M. Dumas  e meteu-se na sua carruagem que o esperava junto ao portão da entrada.

Uma hora depois, chegou a Dinan, e nessa mesma noite seguiu para Paris pelo carro postal.

Desde então, nunca mais se ouviu falar nele.

Pelo que toca a M. Dumas, bem que esta visita lhe tivesse a princípio inspirado certa surpresa misturada de desconfiança, as explicações dadas por M. Holder o fizeram voltar a melhores sentimentos.

No dia seguinte, pois, prosseguiu na  direção dos seus trabalhos com novo ardor e, daí  a três dias, estava o Lago do Diabo completamente esgotado.

Mas, no momento em que se foi descobrindo seu úmido o lamacento fundo, avistou-se, no meio do lago, um esqueleto humano, enterrado no lodo. Esta descoberta, como bem se pode ajuizar, produziu grande sensação. E, não tardando a notícia a chegar até Dinan, a Justiça julgou que lhe cumpria devassar do caso.

Examinando-se o esqueleto, os legistas declaram, depois de atenta inspeção do crânio,  que o crime não devia remontar-se a mais de dez anos, e que o homem que dele tinha sido vítima não podia ter mais de vinte e cinco anos.

M. Dumas entendeu, então, qual o fim da visita que ultimamente lhe tinha feito M. Holder.

Tratou-se logo de procurar este último, a quem a voz pública designava como autor do crime. Porém, M. Holder tinha tomado tão bem suas medidas, que não foi possível achá-lo.

Este desfecho talvez não seja do gosto dos dramaturgos modernos, que são incansáveis em provar que o crime é sempre castigado... Mas tem ao menos o merecimento de ser perfeitamente histórico. E em falta de outro,  tenham os leitores paciência de contentarem-se com ele.

Fonte: “Illustração Brasileira”, edição de janeiro de 1855.
Fizeram-se breves adaptações teextuais.




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