LANÇAMENTO DA FREE BOOKS EDITORA VIRTUAL: O BACILO ROUBADO, DE H. G. WELLS


O BACILO ROUBADO
(Em E-pub, MOBI e PDF)

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A DAMA DA ROSA BRANCA - Conto Clássico de Terror - Anônimo do séc. XX


A DAMA DA ROSA BRANCA
Anônimo do séc. XX


Embora pareça conto, não é, mesmo que o protagonista do caso, quando o narrava, o fizesse cheio de uma funda emoção, recordando a indubitável realidade do acontecimento. Deu-se o fato com um jovem diplomata alemão, que vivia em Madri durante os turbulentos dias em que o conde de São Luiz concitava sobre sua pessoa as iras liberais e preparava um grande movimento revolucionário, que se esperava a todo momento.

Nessa sociedade, de uma aristocracia e distinção sem par, sentia-se encantado o diplomata alemão, porquanto bem recebido e tratado em toda parte. Era amigo das mais esplêndidas belezas; da duquesa Angela de Medinaceli, a morena andaluza; de Maria Bushentai a espirituosa, e de Carolina Coronacio, a insigne poetisa. Osuna e Salamanca tinham para ele um lugar em sua mesa, em sua carruagem e em seu palco.

Uma noite, havia baile de máscaras no Real. O diplomata, a quem a princípio havia divertido o espetáculo do salão cheio de várias elegantes e luxuosas fantasias, acabou por sentir-se entediado e resolveu refugiar-se no palco de Salamanca, onde se sentou junto de uma porta. Estava sozinho e não tardou em ver que a porta se abria e uma gentil mascarada levantava a cortina. Era uma linda figura vestida de preto. Preta era também a máscara. Só as luvas eram brancas. Branca era também uma rosa que tinha em uma das mãos.

Sem que lhe dissesse palavra, a jovem fez-lhe um gesto imperioso, para que a acompanhasse. Dependurou-se- ao braço do cavalheiro, que o acolheu, e desceram ambos ao salão. A mascarada era muito bela, porém muda. Lindas e pequenas eram suas mãos, assim como seus pés. Seu porte, gracioso e esbeltíssimo. Seus olhos, muito negros, brilhavam debaixo da máscara.

Com um orgulho galante, de sobejo justificado, sentia-se satisfeito o cavalheiro por levar pelo braço tão gentil moça, que deveria pertencer, sem dúvida alguma, a uma das principais famílias da corte, pela graça aristocrática de seu porte e pela extraordinária riqueza de seu vestuário. Mas, intrigava-o o mistério da bela desconhecida, que não se lhe acercara com atitude carnavalesca, nem dirigia a quem quer que fosse pilhérias nem palavra alguma. Apenas de quando em quando cravava em seu companheiro o fulgor penetrante de seus formosos olhos negros.

Nenhuma aventura poderia agradar mais ao cavalheiro do que aquela, que tão pouco se assemelhava às que podia esperar no baile. Aguçada, sua curiosidade dizia-lhe de quando em vez quem acreditava que ela pudesse ser, repassando em sua memória os nomes de todas as formosuras aristocratas, da idade e do talhe de sua misteriosa companheira. Porém, a quantos títulos ele citava de duquesitas e marquesitas que lhe acudiam à lembrança, ia ela respondendo que não. E não respondia com a voz, e sim, apenas com um movimento de cabeça, que começava a desconcertar o afortunado rapaz.

Por fim, a mascarada falou:

—Serias capaz de vir comigo aonde eu te quisesse levar?

Finalmente, ouvira a voz da elegante desconhecida e, por felicidade, ela se lhe dirigia com tal convite, que o fazia ditoso.

— Como poderia eu deixar de acompanhar-te? — respondeu. — Irei contigo aonde quiseres.

— Seriamente?

Seriamente!

Saíram para o vestíbulo, e a mascarada arrastou o companheiro para a rua.

Não temos carro — advertiu-lhe ele.

A mim pouco importa —replicou ela. — Amanhã, sim, eu terei uma das mais belas carruagens de Madri.

O cavalheiro saíra como estava, porque a mascarada não o deixara chegar ao vestiário, e ela também não levava abrigo algum. E como ele lhe observasse o frio que fazia, ela lhe respondeu:

— Estou mais fria do que a noite.

O cavalheiro não quis prosseguir e intimou a mascarada, já demasiado misteriosa, a declinar de uma vez seu some e qualidade. Ela, todavia, não lhe atendeu às palavras e continuou arrastando-o a seu lado.




Passaram a rua do Areal e desembocaram na Puerta de Sol. Alguns mascarados dirigiam-se a outros bailes de categoria inferior e rodearam-nos cantando e saltando. Diziam-lhes:

— Divirtam-se muito!

— Não é preciso tanta pressa, que para onde vão dá no mesmo.

— Deixemo-los, porque vão pensando na vida.

— Mas que par triste!

— Ninguém diria que vão de troça!

E entre vaias ao par misterioso e gritos e piruetas, o bando de mascarados alvoroçados torceu para as bandas do Principal, enquanto o intrigado galã e a dama negra da rosa branca seguiam para onde só ela sabia.

Enveredaram pela rua de Alcalá. À porta do teatro do Museu, que ocupava o antigo convento das Vallecas, deteve-os outro bando de gente que entrava para o baile. Um demônio convidava-o a passar.

— Olá! Aonde vais por aí abaixo? Já não são horas de ir ao Prado.

Outros mascarados fizeram-no calar-se. A distinção da negra mascarada, e o porte de seu amigo inspirava-lhes certo respeito. Uma beata gritou-lhes:

— Andai, andai, que ides ficar melhor do que nós!

E entrou no teatro.

O par misterioso prosseguia. Ao passar por diante das Calatravas, ouviu-se o toque do sino conventual que chamava para as orações religiosas.

Aquelas badaladas tinham algo de lúgubre, soando no ambiente da noite alta, e o cavalheiro sentiu que o braço da desconhecida apertava convulsivamente o seu, ao ouvir a voz do sino.

Era por uma dessas claras, frias e diáfanas noites de fevereiro madrileno. O diplomata inquietava-se cada vez mais, observando o caminho que levavam.

Poucas casas havia para aquele lado, embora fossem todas senhoriais, e era natural que se pudesse pensar em que a mascarada tivesse residência em alguma delas. Chegavam já diante da casa dos Heros e da hospedaria de S. Bruno. Não era crível que para ali o conduzisse a dama misteriosa. Em seguida, a casa dos Alfinetes, que Rieza adquirira pouco antes, e depois a casa de Santamarca, a de Alcanices e o Prado. O muro da Boa Vista limitava o extremo do caminho que seguiam, e mais além o Posito de um lado e a fronde do Retiro do outro. Ao centro, no alto, a Porta de Alcalá fechava o quadro, com a infinita elegância de suas linhas.

Terminava Madri. Para onde iriam? Onde ficaria a casa da dama, tão misteriosa como a própria mascarada? Internar-se-iam em demanda de algum palácio do bairro Barquillo?

— Estamos longe? — atreveu-se ele a perguntar, finalmente.

E ela respondeu calmamente:

— Não podemos estar mais perto.  

Encontravam-se, naquele instante, à porta de São José, e ali a dama negra da rosa branca deteve-se.

Vens? — perguntou-lhe, indicando-lhe a igreja.

Ele estremeceu diante daquilo que julgava uma indizível extravagância, e observou a inoportunidade da ocasião. À luz da lua, desenhava-se, estranhamente, sobre a pedra da facha da, a silhueta da negra mascarada, com seu vestido riquíssimo, coberto de vidrilhos que brilhavam com um  raro fulgor de pontos fosforescentes.

O cavalheiro, porém, embora aturdido, não podia demonstrar temores indignos de sua pessoa. Novamente a dama interrogou:

— Vens?

E ele respondeu:

— Vamos. Parece-me, porém, esquisito querer entrar agora na igreja.

A porta principal estava cerrada.

Desceram a escadaria, com certo contentamento da parte dela; ela, porém, tomando-lhe outra vez o braço e disposta a segurá-lo, fê-lo dobrar a esquina da rua das Torres e chegar à porta das dependências do templo que aí vão dar.

Empurraram-na. O postigo cedeu.

Atravessaram o pátio e a perturbação do cavalheiro aumentava, vendo como a dama negra o guiava através de um saguão e de pequenas portas, até o recinto sagrado.

A igreja ostentava grandes panos negros dependurados, e na parte central erguia-se um catafalco iluminado pela luz tíbia e vacilante de uns círios.

— Esta manhã — disse a jovem misteriosa, indicando o catafalco —, trouxeram-me e colocaram-me aqui.  Amanhã tornarão outra vez, e será preciso que me encontrem onde me deixaram.

E fez ao galã estupefato uma larga reverência por sua companhia, dizendo enquanto se inclinava graciosamente:

— Cavalheiro...

Tirou a máscara, e deixou ver, ou antes adivinhar, um lindo rosto pálido, de uma palidez morta! Os lábios assemelhavam-se a uma gota de sangue que começava a secar. Então, ela ofereceu-lhe a rosa branca que levava na mão. Moveram-se os largos panos que rodeavam o alto catafalco; houve um momento em que a luz escassa dos círios pareceu extinguir-se por completo, e a dama encantadora, a morta gentil, desapareceu aos olhos do diplomata.

Febricitante e atônito, temendo ter-se encontrado com uma louca, apressou-se o jovem em procurar a saída da igreja. Andou ao acaso durante muitas horas, preocupado com a sua extraordinária aventura, e, ao amanhecer, dirigiu-se de novo ao templo. Estavam tocando para a primeira missa, e entrou.

Lá estava o catafalco, e sobre ele, sem a menor dúvida, a inquietadora e linda misteriosa que lhe aparecera no palácio de Salamanca. Com a claridade do dia pode recolhê-la perfeitamente. Era uma linda condessinha com a qual havia dançado algumas vezes em casas nobres. Estava morta, com certeza, e à sua cabeceira, havia uma coroa de rosas brancas. O cavalheiro comparou-as à que tinha na não e viu que eram iguais.

Perguntou ao sacristão, que lhe confirmou ser a morta a tal condessinha.


Nota do editor: o presente conto é um excerto de uma narrativa de autoria desconhecida, publicado na revista “Vida Policial” (RJ), edição de 24 de junho de 1926.

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CANIBALISMO SOVIÉTICO - Narrativa Verídica de Horror - Theodore Rée


CANIBALISMO SOVIÉTICO
Theodore Rée
(Séc. XX)

Os refugiados com quem convivi em em Reval tremem ainda de pavor ao relatar cenas trágicas a que assistiram.

A um amigo meu, que vivia em Rostoff, morreu-lhe a irmã, vítima da peste que grassa naquela cidade. Pois tiveram que a esconder em casa até o cadáver apodrecer, porque, senão, a populaça faminta levava-o e devorava-o como chacais!

Em Rostoff, onde as pessoas morrem por dia às centenas, os cadáveres são postos na rua até que os venham buscar para serem esquartejados e repartidos pela população.

Em Petrogrado, há hoje o comércio da carne humana, que é encaixotada e exportada com muito sal para perder o adocicado desagradável que tem. Isto contaram-me vários amigos que tenho naquela cidade. É absolutamente exato. Como a carne de criança é preferível por ser mais tenra, as crianças desaparecem constantemente.

—Vivas, ou os seus corpos depois de terem morrido de doença?

—Vivas! Mataram-na para as comer!


A presente narrativa é excerto de artigo publicado na “Revista da Semana”, edição de 30 de dezembro de 1922.

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A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE - Conto de Terror - Edgar Allan Poe



A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE
Allan Pöe
(1809 – 1849)
Tradução de José Jaeger


Havia muito tempo que a “Morte Escarlate” devastava todo o país. Jamais uma peste fora tão letal e tão terrível. O sangue era a sua encarnação e o seu sinete: o vermelho e o horror do sangue. Começava com dores agudas, com um desvanecimento súbito, e logo os poros se punham a sangrar abundantemente. Sobrevinha, então, a decomposição. Manchas escarlates no corpo e, notadamente, no rosto da vítima, segregavam-na da humanidade e a afastavam de todo socorro e de toda compaixão. O contágio, o progresso e o fim da enfermidade consumiam apenas meia hora.

Mas o Príncipe Próspero era feliz, intrépido e sagaz. Quando os seus domínios minguaram à metade de almas vivas, convocou um milhar de amigos fortes e de corações alegres, escolhidos entre os cavalheiros e damas da sua corte. E, com eles, formou um refúgio recôndito em uma de suas abadias fortificadas. Tratava-se de uma vasta e magnífica construção, criação dele mesmo, o Príncipe, conforme seu gosto excêntrico e majestoso. Rodeava a construção um muro espesso e elevado, guarnecido de portões de ferro. Uma vez transpostos os muros pelos cortesãos, estes se serviram de fornalha e de vigorosos martelos para soldar os ferrolhos. Deliberaram entrincheirar-se contra os súbitos impulsos ou os desesperos provenientes do exterior e lacrar todas as saídas aos frenesis do interior.

A abadia estava amplamente abastecida. Graças a tais cuidados, os cortesãos poderiam enfrentar o contágio. Que o exterior se arranjasse como pudesse. De sua feita, seria uma loucura afligir a alma com meditações sobre a peste. O príncipe havia fornido aquele refúgio com todos os meios prazerosos. Havia bufões, improvisadores, bailarinos, músicos, formosuras de todas as espécies. E havia, também, o vinho. Todas essas belas coisas havia no interior, além da segurança. Lá fora, disseminava-se a “Morte Escarlate”.

Foi ao fim do quinto ou sexto dia em seu refúgio, enquanto a peste fazia grande estragos além das muralhas, que o Príncipe Próspero proporcionou aos convivas um baile de máscaras da mais insólita magnificência.

Que quadro voluptuoso era o baile de máscaras! Permitam-me descrever os salões onde a o festim ocorreu. Havia uma série de sete salões imperiais. Em muitos palácios, esta série de salões forma amplas perspectivas, em linha reta quando as portas se descerram de par em par, de tal forma que a vista penetra até o fundo, sem qualquer obstáculo. Aqui, o caso era assaz diferente, como se era de esperar da parte daquele Duque e de sua inclinação pelo bizarro. Estavam as salas dispostas de forma tão irregular que a vista não poderia compreender senão um salão de cada vez. Ao término de um espaço de vinte ou trinta jardas, via-se uma brusca curva e, a cada esquina, o ambiente assumia um aspecto diferente. À direita e à esquerda, e ao meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica abria-se para um corredor fechado, que seguia a sinuosidade dos cômodos.

Cada janela era guarnecida de vitrais cujas cores harmonizavam-se com a tonalidade dominante da decoração do salão para o qual se abria. O que ocupava a extremidade oeste, por exemplo, era decorado de azul e os vitrais eram de um azul vívido. O segundo dos salões era decorado e guarnecido de cor púrpura e os vitrais eram igualmente purpúreos. O terceiro era completamente verde e verdes eram também as janelas. O quarto, alaranjado, estava iluminado por uma janela de igual cor. O quinto era branco e o sexto, violeta. O sétimo era rigorosamente forrado por tapeçaria de veludo negro, que revestia o teto e as paredes, e que caía em pesadas rugas sobre um tapete do mesmo material e de mesma cor. Mas, neste salão, a cor dos vitrais não correspondia ao da decoração: os vitrais eram escarlates, de uma tonalidade intensa de sangue.

Ora, em nenhuma daquelas salas se viam lâmpadas ou candelabros em meio à profusão de adornos em ouro, que se espalhavam em todos os cantos, ou se dependuravam ao teto. Não havia lâmpadas ou velas. Luz alguma dessa natureza emanava na sequência de salas. Porém, nos corredores que as envolviam, exatamente em frente de cada janela, elevava-se uma pesada trípode com um braseiro, a projetar seus raios através dos vitrais coloridos, iluminando deslumbrantemente a sala. Perfazia-se uma miríade de formas cambiantes e fantásticas. Mas, na sala voltada ao poente, na câmara negra, a claridade do braseiro, que se refletia sobre as negras tapeçarias, através dos vitrais sangrentos, era sobremodo sinistra e incidia sobre as faces dos imprudentes que ali entravam, conferindo-lhes um aspecto de tal forma estranho que muitos poucos dançarinos se sentiam com suficiente coragem para penetrar no recinto.

Também nesse salão se erguia, amparado no muro oriental, um gigantesco carrilhão de ébano. Seu pêndulo oscilava com um tique-taque surdo, pesado, monótono; e quando os ponteiros dos minutos haviam percorrido todo o seu círculo, e a hora se completava, provinha dos pulmões de bronze um som claro, estrepitoso, profundo e extraordinariamente musical, mas de um timbre tão regular que, de hora em hora, os músicos da orquestra eram obrigados a interromper por alguns segundos a execução, para escutar a música das horas; e os dançarinos cessavam, à força, as suas evoluções. Uma momentânea perturbação grassava aquela multidão alegre e, enquanto soava o carrilhão, era possível notar que até os mais arrojados empalideciam e os de maior idade e reflexão passavam a mão à fronte, como se abandonados a uma meditação confusa ou a um devaneio. E, mal se dissipava o eco das horas, circulava no ambiente leves risadas. Os músicos olhavam uns aos outros e se riam dos próprios nervos e da própria loucura; e juravam, em voz baixa, que, da próxima vez em que soasse o carrilhão, não sentiriam o mesmo desconforto. Mas, no entanto, quando decorridos os sessenta minutos da hora desaparecida, que continha os três mil e seiscentos segundos; quando irrompia uma nova batida do relógio fatal, reproduzia-se o mesmo estremecimento, os mesmos calafrios e os mesmos devaneios febris.

Apesar disto, a orgia continuava alegre e magnífica. O gosto do Duque era especialmente singular. Tinha a vista apurada para as cores e aos efeitos que estas produziam. Desdenhava dos gostos da moda. Seus planos eram temerários e selvagens e suas concepções brilhavam com um bárbaro esplendor. Alguns o julgavam louco. Mas os seus cortesãos sabiam que não. Todavia, era preciso vê- lo, tocá-lo, para assegurarem-se de que ele não estava de fato ensandecido.

Para esse baile, havia o príncipe se ocupado, pessoalmente, da decoração do mobiliário das salas e foi o seu gosto pessoal que elegera o estilo das máscaras. Dúvidas não pode haver de que eram concepções grotescas. Tudo era deslumbrante e brilhante. Havia coisas chocantes, fantásticas, muito do que depois foi visto no “Hernani”. Havia figuras arabescas, com membros e adornos desconformes; fantasias delirantes como a loucura. Havia muito de belo, de licencioso, de bizarro; algo de terrível e não pouco do que produzia repugnância.

Era como se uma miríade de sonhos deslizasse de um lado para o outro nas sete salas. E tais sonhos se contorciam em todos os sentidos, tomando a cor dos salões, fazendo com que a estranha música da orquestra parecesse o eco de seus próprios passos. Mas logo soava o relógio de ébano no salão dos veludos. Então, por um momento, tudo se detinha, tudo emudecia, salvo o ecoar do relógio. Tudo se congelava em suas posturas. Mas os ecos do carrilhão se desvaneceram – não duraram senão um momento –, e, mal se extinguiram, as gargalhadas, mal reprimidas, ecoavam por todos os cantos. E a música voltava a tocar, reavivando os sonhos; aqui e ali os dançarinos retomavam as evoluções, mais alegre do que nunca, refletindo a cor dos vitrais atrás dos quais fluíam os raios do braseiro.

Porém, no salão do extremo ocidental, não havia máscara alguma que se atrevesse a penetrar, porque a noite declinava. Ali se descerrava uma luz de um escarlate profundo, através dos vitrais cor de sangue, e a escuridão das cortinas tingidas de negro era aterradora. E, para aqueles que punham os pés sobre os tapetes, brotava do relógio de ébano um clangor ainda mais pesado, mais solenemente enérgico do que o que chegava aos ouvidos dos mascarados que se divertiam nos salões mais distantes.

Mas esses outros salões estavam repletos e o coração da vida ali febrilmente pulsava. E o baile continuava, chegava ao seu ápice, quando do carrilhão soou a meia-noite. Então, como se disse, a música parou; os que dançavam detiveram-se em suas evoluções. E a angustiante imobilidade a tudo dominou. Agora, porém, o carrilhão bateria doze vezes. Desta vez, porque ecoou o mais longamente o carrilhão, inseriram-se nos pensamentos dos que se atiravam à diversão um maior volume de meditações. E talvez, por isso mesmo, muitos do que compunham a multidão, antes de se esgotarem os derradeiros ecos das últimas horas dadas, puderam perceber a presença de um mascarado que, até aquele instante, ninguém notara. E, tendo se espalhado, aos sussurros, a notícia daquela intrusão, insinuou-se na multidão um murmúrio indicativo de surpresa e desaprovação, que evoluiu para o terror, horror e repugnância.

Numa multidão fantasmagórica como a que descrevi, era necessário, sem dúvidas, que fosse a aparição absolutamente extraordinária para ensejar tal sensação. A licenciosidade carnavalesca daquela noite era, realmente, quase sem limites. Mas a personagem em questão havia transcendido à extravagância de um Herodes e ultrapassado os amplos limites do decoro que o Príncipe estabelecera. nos mais temerários corações cordas que não se deixam tocar sem emoções. Até entre os depravados, para quem a vida e a morte são igualmente um brinquedo, coisas com as quais não se pode brincar. Os convivas pareciam sentir, profundamente, a inconveniência dos trajes e da conduta do estranho. Era ele alto e delgado. Estava envolto com uma mortalha funerária da cabeça aos pés. A máscara, que lhe ocultava as faces, reproduzia fielmente o semblante de um rígido cadáver, que um exame apurado teria dificuldades em perceber o engano. Ora, aquela frenética multidão bem poderia tolerar, e mesmo aprovar, aquela desagradável figura, acaso o mascarado não tivesse adotado a representação da “Morte Escarlate”. Suas roupas estavam enodoadas de sangue e a sua ampla testa, assim como as suas feições, salpicadas do horror escarlate.

Quando os olhos do Príncipe Próspero focaram a espectral figura – que,com solenes e enfáticos movimentos, feitos para melhor representar o seu papel, evoluía aqui e ali entre os dançarinos –, caiu numa  violenta comoção e estremecimento, tomado pelo terror e pela repugnância. E, segundos depois, sua fronte turvou-se de ira:

Quem se atreve — perguntou com rouca voz aos cortesãos que o rodeavam -, quem ousa a nos insultar com esta ironia blasfema? Segurem-no e desmascarem-no, para que saibamos a quem iremos enforcar, nos altos das ameias, ao amanhecer!

Encontrava-se o Príncipe Próspero, ao pronunciar estas palavras, no salão oriental, ou câmara azul, e a voz do Príncipe Próspero ressonou potente e clara pelos sete salões, pois o Príncipe era um homem impetuoso e forte, e a música havia cessado a um gesto de sua mão. Estes fatos ocorriam no salão oriental, sendo o Príncipe ladeado por um grupo de pálidos cortesãos. No início, enquanto falava o Príncipe, o grupo se movimentou, levemente, na direção do intruso, que esteve, por um momento, quase ao alcance de suas mãos, mas que agora, com passos firmes e majestosos, se acercava cada vez mais do Príncipe. Mas, em razão do indefinível terror que a audácia do mascarado havia inspirado em todos aqueles que ali se reuniam, ninguém estendeu a mão para agarrá-lo, mesmo quando, sem qualquer obstáculo, passou a dois passos da pessoa do Príncipe. E tanto que a mesma assembleia, como que obediente a um movimento, recuou do centro do salão às paredes. O mascarado seguiu, sem interrupção, o seu caminho, com os mesmos passos solenes e bem medidos, com os quais, desde o início, se distinguira, passando da sala azul à púrpura; da sala verde à alaranjada; e desta à branca; e da branca à violeta, sem que houvesse quem o detivesse.

Então o Príncipe Próspero, tomado de ira e de vergonha pela covardia momentânea, precipitou-se através das seis salas, sem que ninguém o seguisse, porque um temor mortal se apoderara de todos os convivas. Brandiu um punhal e se aproximou a uma distância de três ou quatro passos do fantasma que se retirava, quando este último, ao aproximar-se da sala de veludo, voltou-se bruscamente, afrontando aquele que o perseguia.

Ecoou um grito agudo e o punhal caiu, como um relâmpago, sobre o tapete fúnebre, onde o Príncipe o Príncipe Próspero tombou morto, instantaneamente. Então, invocando a frenética coragem do desespero, a multidão de mascarados precipitou-se à sala negra, e, agarrando-se ao desconhecido, que se mantinha imóvel e ereto como uma grande estátua à sombra do carrilhão, viu-se presa de um terror inominável, ao perceber que não havia forma tangível alguma sob a mortalha e sob a máscara cadavérica. Todos reconheceram, então, que ali estava presente a “Morte Escarlate”. Ela se insinuara como um ladrão noturno.

E todos os convivas tombaram, um a um, nos salões das orgias, manchados de sangue, morrendo na mesma postura desesperada em que desabaram.

E a vida do relógio de ébano se extinguiu com a do último daqueles seres licenciosos. E murcharam as chamas dos braseiros. E as Trevas, e a Ruína e a “Morte Escarlate” deitaram sobre tudo o seu ilimitado domínio.

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