O TESTEMUNHO DO CADÁVER - Narrativa Clássica de Terror - Augustin Calmet



O TESTEMUNHO DO CADÁVER
Augustin Calmet
(1672 – 1757)

O bispo Santo Estanislau[1] comprou a um gentil-homem, chamado Pedro, uma propriedade situada às margens do rio Vístula, no território de Lublin, em proveito de sua igreja em Cracóvia. Pagou o preço ao vendedor, solenemente, na presença de testemunhas, como era o costume naquele país, mas sem reduzir a termo a compra e venda, pois, naquela época, não se escrituravam tais negócios, senão muito raramente, na Polônia. Estanislau tomou posse dessa propriedade pela autoridade do rei, e sua igreja dela desfrutou pacificamente por cerca de três anos.

Nesse meio tempo, Pedro, que havia vendido a propriedade, faleceu. O rei da Polônia, Boleslau[2], que havia concebido um ódio implacável contra o santo bispo, porque ele o repreendeu livremente por seus excessos, procurando uma ocasião para causar prejudicá-lo, instou três filhos de Pedro, seus herdeiros, a reivindicar a propriedade que seu pai havia vendido, sob o pretexto de não ter sido paga. Prometeu-lhes apoiá-los no litígio, e fazer com que recobrassem a terra. Assim, os três fidalgos citaram o bispo a comparecer perante o rei, que estava então em Solec, ocupado em distribuir justiça em sua tenda de campanha, conforme o antigo costume do país, na assembleia-geral da nação.

O bispo, citado perante o rei, sustentou que havia comprado e pago pela propriedade em questão. O dia estava começando se pôr, e o bispo corria grande risco de ser condenado pelo rei e seus conselheiros. De repente, como se inspirado pelo Espírito Divino, prometeu ao rei trazer, em três dias, Pedro, de quem havia adquirido a terra, à sua presença, e a promessa foi aceita com zombaria, como algo impossível de ser realizado.

O santo bispo se dirigiu a Pictravin,  onde permaneceu em oração e jejum, com os seus familiares, por três dias. No terceiro dia, ostentando as vestes pontifícias, acompanhado por seu clero e uma multidão de pessoas, seguiu ao sepulcro de Pedro e ordenou que a pedra tumular fosse levantada. Escavando o lugar, encontraram o cadáver descarnado e corrompido. O santo ordenou ao cadáver que comparecesse perante o tribunal do rei e prestasse testemunho da verdade. O defunto se levantou e foi coberto com uma capa. O santo o segurou pela mão e o levou redivivo aos pés do rei. Ninguém teve a ousadia de interrogá-lo. Mas ele tomou a palavra e declarou que, de boa-fé, havia vendido a propriedade ao prelado, e que havia recebido o pagamento por ela. Após o quê, ele repreendeu severamente seus filhos, que haviam acusado tão maliciosamente o santo bispo.

Estanislau perguntou a Pedro se desejaria permanecer vivo para fazer penitência. Ele agradeceu e disse que não se exporia novamente ao perigo de pecar. Estanislau reconduziu-o ao seu túmulo e, lá chegando, Pedro novamente adormeceu no Senhor.

Pode-se supor que tal cena tenha um número infinito de testemunhas e que toda a Polônia tenha sido rapidamente informada do sucedido.  Mas o rei ainda mais se irritou contra o santo. Algum tempo depois, matou-o com as próprias mãos, quando o santo saía do altar. O bispo teve o corpo cortado em setenta e duas partes, a fim de que nunca mais fosse reunido para dar-lhe o culto que lhe era devido, como ao corpo de mártir da verdade e da liberdade pastoral.


Versão em português: Paulo Soriano.
Narrativa constante do Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenants de Hongrie, de Moravie, etc. (Tratado sobre as aparições dos espíritos e sobre os vampiros ou redivivos da Hungria, da Morária etc.), de 1751.





[1] Estanislau de Szczepanów (1030 – 1079), bispo de Cracóvia, foi canonizado em 1253 pelo papa Inocêncio IV.
[2] Boselau II (c. 1041 – 1081) foi rei da Polônia entre 1076 e 1079. Conta-se que, excomungado por Estanislau, em razão de relações ilícitas que mantinha com uma dama nobre, assassinou pessoalmente o prelado enquanto este celebrava a missa. No mesmo ano do incidente, o rei foi deposto e exilado.

Share:

MORTOS DA HUNGRIA QUE SUGAM O SANGUE DOS VIVOS - Conto Clássico de Terror - Augustin Calmet


MORTOS DA HUNGRIA QUE SUGAM O SANGUE DOS VIVOS
Augustin Calmet
(1672 – 1757)

Certo dia, há cerca de quinze anos, estava um soldado alojado na casa de um camponês de Haidamagne, na fronteira da Hungria, quando, sentado à mesa com o anfitrião, entrou um desconhecido e sentou-se à mesa também com eles.

O dono da casa ficou estranhamente assustado com isso, assim como os demais presentes. O soldado não sabia o que pensar, ignorando o assunto em questão. Porém, tendo sido o dono da casa encontrado morto no dia seguinte, o soldado se informou sobre o que acontecera. Disseram-lhe que fora o corpo do pai de seu anfitrião, morto e enterrado há dez anos, que se sentara ao lado dele, anunciando e causando a sua morte.

O soldado comunicou, primeiramente, o fato ao regimento que, de sua feita, notificou o quartel-general. Este enviou o conde de Cabreras, capitão do regimento da infantaria de Alandetti, para obter informações sobre o acontecimento. Chegando ao local, com alguns outros oficiais, um cirurgião e um auditor, ouviu os depoimentos de todas as pessoas da casa, que unanimemente confirmaram que o morto-vivo era o dono da casa, e que tudo o que o soldado havia dito e relatado era exatamente a verdade, confirmada por todos os habitantes da vila.

Em decorrência disso, exumaram o cadáver do redivivo, e encontraram o corpo como o de um homem que acabara de expirar, cujo sangue era como o de um homem vivo. O conde de Cabreras fez com que lhe cortassem a cabeça e o devolveu à sepultura.

O conde colheu informações sobre outros mortos-vivos, um dos quais um homem morto há mais de trinta anos, que havia retornado ao lar em três ocasiões, e sempre na hora da refeição. Na primeira vez, ele sugou o sangue do pescoço de seu próprio irmão; na segunda, o de um de seus filhos e, na terceira, o de um dos servos da casa. E todos os três morreram, instantaneamente, no local. Com lastro nestas informações, o comissário fez exumar o homem. Descobriu que, como o primeiro, o seu sangue estava em um estado fluido, como o de uma pessoa viva. Então ordenou que lhe atravessassem a têmpora com um grande prego e, depois, o colocaram de volta na sepultura.

Mandou, ainda, queimar um terceiro morto-vivo, enterrado há mais de dezesseis anos, que sugara o sangue e causara a morte de dois de seus filhos. O comissário, que fez o seu relatório ao quartel-general, foi encaminhado à corte do imperador, e este ordenou que alguns oficiais, tanto de guerra como da justiça, alguns médicos e cirurgiões, e alguns homens instruídos fossem enviados para examinar as causas de esses eventos extraordinários. A pessoa que nos relatou esses detalhes os ouvira do senhor conde de Cabreras, em Fribourg en Brigau, em 1730.

Versão em português: Paulo Soriano.
Narrativa constante do Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenants de Hongrie, de Moravie, etc. (Tratado sobre as aparições dos espíritos e sobre os vampiros ou redivivos da Hungria, da Morária etc.), de 1751.





Share:

O VAMPIRO BLAS FERRAGE - Narrativa Verídica de Horror - Anônimo do séc. XIX


O VAMPIRO BLAS FERRAGE
Anônimo do séc. XIX

Já falamos da prisão de um rapaz de 15 anos que atentara contra a vida da mãe, irmã e muitos companheiros, com o fim de lhes beber o sangue.

Submetido à análise dos médicos, declararam eles que o jovem se achava possuído de uma mania terrível pela antropofagia, e que, graças à sua pouca idade, seria possível corrigir esta perversão da inteligência de que a história médica oferece mais de um exemplo.

Dizem que de noite saía, furtivamente, de casa para entrar nos cemitérios, de onde desenterrava os cadáveres, recentemente sepultados, para lhes devorar as entranhas.

Este vampiro, que está hoje completamente curado, ainda não tem trinta anos, e os episódios da sua vida passada apresentam-se à memória como recordações confusas de um sonho.

Antigamente, julgara-se impossível combater esta terrível enfermidade. Em 1779 um rapaz, chamado Blas Ferrage, no qual se havia deixado desenvolver aquela predisposição à antropofagia, fugiu de repente da sociedade para entregar-se livremente a sua sanguinária inclinação. Escolheu para residência a concavidade de um rochedo, situado na serra de uma das montanhas do Aure. Na obscuridade da noite, descia daquela caverna e, como uma fera, nas suas excursões pelos campos roubava as mulheres e as crianças que encontrava, ou podia surpreender, matava-as e bebia-lhes o sangue até ficar saciado. Acostumara-se a não tomar outro alimento que não o sangue humano.

Às vezes, era visto agachado à entrada da sua habitação, esperando, com o ouvido alerta, numa completa imobilidade, a ocasião de assassinar alguém. Ia sempre armado com duas espingardas, pistola e um punhal. Era tal o terror que infundia, que se apresentava frequentemente nas povoações para renovar as munições, e ninguém se atrevia a recusá-las e,  nem mesmo, a prendê-lo.

Um dia, suspeitando que um lavrador procurara descobrir o seu esconderijo, deitou-lhe fogo. Aos moleiros solitários, que se extraviavam pelas montanhas, apresentava-se a eles como queria, levava-os para a sua caverna, e degolava-os. Debalde oferecera a autoridade uma grande recompensa à pessoa que conseguisse entregar este monstro à justiça. Ferrage, sempre em guarda, escapava a todas as investigações. Finalmente, um homem da região, fingindo que queria passar uma vida selvagem, retirou-se, como ele, ao ponto mais elevado dos rochedos, e se encontraram.

O antropófago apartava-se, ameaçando o seu companheiro de solidão, e respondia aos seus cumprimentos metendo-lhe a espingarda na cara, mas o intrépido camponês sabia evitar as balas. Gritava-lhe que era sem razão que desconfiava dele e que, associando-se, melhor escapariam à perseguição de que eram alvo.

Com o tempo, Ferrage deixou-se persuadir. Numa noite, enquanto dormia, o companheiro desarmou-o e o entregou aos munícipes que o perseguiam. Levado à cadeia de Toulouse, foi julgado pelo tribunal daquela cidade e condenado a ser esquartejado vivo.  A sentença foi executada em 12 de dezembro de 1792.  Ferrage acabava de completar 25 anos e havia quatro que se alimentava unicamente de carne humana.


Fonte: “Periódico dos Pobres” (RJ), edição de 22 de julho de 1852.



Share:

UMA MULHER ARRANCADA VIVA DA SEPULTURA - Narrativa Clássica de Horror - Augustin Calmet


UMA MULHER ARRANCADA VIVA DA SEPULTURA
Augustin Calmet
(1672 – 1757)


Um comerciante da Rua Santo Honorato, em Paris, havia prometido sua filha a um de seus amigos, um comerciante como ele estabelecido na mesma rua.

Tendo um banqueiro se apresentado como como pretendente da jovem filha, este foi aceito como noivo em detrimento do rapaz a quem ela já havia sido prometida. 

Realizado o casamento, a jovem noiva adoeceu. Foi dada como morta, envolta em mortalha e enterrada.

O primeiro prometido, supondo que ela em verdade caíra em simples letargia, ou padecera de uma síncope, desenterrou-a durante a noite, fê-la recuperar a consciência e casou-se com elas.  Atravessaram o Canal da Mancha e viveram tranquilamente na Inglaterra por alguns anos.  Ao cabo de dez anos, retornaram a Paris, onde o primeiro marido, tendo reconhecido a sua mulher em um passeio público, reivindicou-a em uma corte de justiça. E este fato rendeu ensejo a um grande processo judicial.

A esposa e seu (segundo) marido se defenderam com o argumento de que a morte havia rompido os laços do primeiro casamento. Até acusaram o primeiro marido de a haver sepultado a esposa de um modo demasiadamente precipitado.  Os amantes, todavia, prevendo que poderiam sucumbir, retiraram-se novamente para uma terra estrangeira, onde terminaram seus dias. 

Esse episódio é tão singular que nossos leitores terão alguma dificuldade em dar-lhe. Eu apenas conto o que foi dito. Cabe aos que a expõem garanti-lo e prová-lo.


Versão em português: Paulo Soriano.
Narrativa constante do Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenants de Hongrie, de Moravie, etc. (Tratado sobre as aparições dos espíritos e sobre os vampiros ou redivivos da Hungria, da Morária etc.), de 1751.




Share:

O RECIBO IGNORADO - Narrativa Verídica Sobrenatural - Santo Agostinho


O RECIBO IGNORADO
Aurélio Agostinho Hiponense (Santo Agostinho)
(354 – 430)

Eis a narrativa de um fato que ouvi em Milão.

Um certo credor, exibindo o documento representativo de seu crédito, assinado por um senhor recentemente falecido, exigia o pagamento de uma dívida ao filho deste.

Este jovem ignorava que o pai, em vida, já havia feito o pagamento do empréstimo que tomara ao dito credor.

Deveras aborrecido, o jovem estranhava que o seu pai nada lhe houvesse participado quanto à existência de tal débito, malgrado este tenha deixado testamento.

Em sua extrema aflição, recebeu, em sinhôs, a visita de seu pai, e este lhe indicou o lugar onde se encontrava o recibo que ilidia a eficácia do documento apresentado pelo credor.

Tendo encontrado o recibo, o jovem exibiu-o ao credor.  Recuperando a quitação assinada pelo credor, que não fora entregue ao seu pai na oportunidade do pagamento da dívida, o jovem refutou aquela exigência falaciosa.

Eis aqui um acontecimento em que se supõe que a alma do falecido, preocupada com o filho, veio ao seu encontro enquanto este dormia, para lhe revelar o que ele ignorava, deste modo livrando-o de um grave desassossego.

(Versão em português de Paulo Soriano)

Share:

A INSOLAÇÃO - Conto Fantástico Sobrenatural - Horacio Quiroga



A INSOLAÇÃO
Horacio Quiroga
(1878 – 1937)

O cachorro Old saiu pela porta e atravessou o pátio, com passo direito e preguiçoso. Deteve-se no limite do pasto, voltou-se para o monte, entrecerrando os olhos, o nariz vibrátil, e sentou-se tranquilo. Via a monótona planura do Chaco, com suas alternativas de campo e monte, monte e campo, sem outra cor que o creme do pasto e o negro do monte. Este cerrava o horizonte, a duzentos metros, por três lados da chácara. Para o oeste, o campo se alargava e se estendia em enseada, mas a iniludível linha sombria se destacava ao longe.

A essa hora matinal, o confim, ofuscante de luz, ao meio dia, adquiria repousada nitidez. Não havia uma nuvem, nem um sopro de vento. Sob a calma do céu prateado, o campo emanava tônica frescura, que trazia a alma pensativa, ante a certeza de outro dia de seca, melancolias de mais bem recompensado trabalho.

Milk, o pai do cachorro, cruzou por sua vez o pátio e sentou-se ao lado daquele, com preguiçoso queixume de bem-estar. Permaneciam imóveis, pois ainda não havia moscas.

Old, que mirava, havia pouco, a beira do monte, observou:

—A manhã está fresca.

Milk seguiu o olhar do cachorro e quedou com a vista fixa, pestanejando, distraindo.

Disse, após um momento:

—Naquela arvore ha dois falcões. Volveram a vista indiferente a um boi que passara, e, por hábito, continuaram mirando as coisas.

Entretanto, o oriente começava a purpurear-se em leque, e o horizonte havia perdido já sua matinal precisão. Milk cruzou as patas dianteiras e sentiu leve dor. Olhou seus dedos, sem se mover, decidindo por fim a cheirá-los. No dia anterior havia tirado um pique, e, recordando-se do que havia sofrido, lambeu longamente o dedo enfermo.

 —Não podia caminhar — exclamou, em conclusão.

Old não entendeu a que se referia.

Milk acrescentou:

—Há muitos bichos do pé.

Desta vez o cachorro compreendeu. E respondeu por sua conta, depois de largo tempo:

—Há muitos bichos do pé.

Calaram-se de novo, convencidos.

O sol saiu, e ao primeiro banho de luz, as pavas del mato lançaram ao ar puro o tumultuoso trombetear de sua charanga. Os cães, dourados ao sol oblíquo, baixaram os olhos, ducificando sua moleza em beato pestanejar. Pouco a pouco, a parelha aumentou com a chegada de outros companheiros: Dick, o taciturno preferido; Prince, cujo lábio superior, partido por um quati, deixava ver dois dentes, e Isondu, de nome indígena. Os cinco fox-terriers, estendidos e mortos de bem-estar, dormiram.

Ao cabo de uma hora ergueram a cabeça; pelo lado oposto do bizarro rancho de dois andares — o inferior de barro e o alto de madeira, com corredores e varanda de chalé — haviam percebido os passos de seu dono, que descia a escada. Mr. Jones, de toalha ao ombro, deteve-se um momento, ao canto do rancho, e mirou o sol, alto já. Tinha ainda o olhar morto e o lábio pendente, devido à sua vigília de whisky, mais prolongada que as habituais.

Enquanto se lavava, os cães se acercavam e lhe cheiravam as botas, meneando o rabo com preguiça. Como as feras amestradas, os cães conhecem o menor indicio de borracheira em seu amo. Afastaram-se com lentidão, a deitar de novo ao sol. Porém, o calor crescente os fez logo abandonar aquela sombra pela dos corredores.

O dia avançava como os precedentes de todo esse mês: seco, límpido, com quatorze horas de sol calcinante, que parecia manter o céu em fusão, e que em um instante quebrava a terra molhada em crostas esbranquiçadas. Mr. Jones foi à chácara, olhou o trabalho do dia anterior e retornou ao rancho. Em toda essa manhã não fez nada. Almoçou e subiu, para dormir a sesta.

Os trabalhadores voltaram, às duas, à carpição, não obstante a hora de fogo, pois os joios não deixavam o algodoal. Atrás deles foram os cães, muito amigos da cultura, desde que, no inverno passado, aprenderam a disputar aos falcões os insetos brancos que levantava o arado. Cada um se deitou sob um algodoeiro, acompanhando com seu ofego os golpes surdos da enxada.

No entanto, o calor crescia. Na paisagem silenciosa e cegadora do sol, o ar vibrava por todos os lados, ferindo a vista. A terra removida exalava um bafo de forno, que eles, com o mutismo de seus trabalhos, suportavam sobre a cabeça, envolta até a orelhas num lenço esvoaçante. Os cães mudavam a cada instante de planta, em procura de sombra mais fresca. Estendiam-se de comprido, mas a fadiga obrigava-os, para respirar melhor, a sentar-se sobre as patas traseiras.

Reverbera agora diante deles um pedaço pequeno de greda, que nem sequer se havia tentado arar. Ali o cachorro viu de pronto Mr. Jones, que o mirava fixamente, sentado sobre um tronco. Old se pôs em pé, meneando o rabo. Os outros também se levantaram, porém eriçados.

—É o patrão! — exclamou o cachorro, surpreendido pela atitude daqueles.
—Não, não é ele — replicou Dick.

Os quatro cães estavam juntos, grunhindo surdamente, sem tirar os olhos de Mr. Jones, que continuava imóvel, mirando-os.

O cachorro, incrédulo, ia avançar, mas Prince lhe mostrou os dentes:

 —Não é ele, é a morte.

O cachorro eriçou-se de medo e retrocedeu ao grupo.

—É o patrão morto? — perguntou ansiosamente.

Os outros, sem responder, romperam a ladrar com fúria, sempre em atitude de medroso ataque. Sem se mover, Mr. Jones se desvaneceu no ar ondulante.

Ao ouvir os alaridos, os trabalhadores haviam levantado os olhos, sem nada distinguir. Giraram a cabeça, para ver se tinha entrado algum cavalo na chácara, e de novo se dobraram.

Os fox-terriers volveram a passo ao rancho. O cachorro, eriçado ainda, adiantava-se e retrocedia com curtos trotes nervosos, e soube, pela experiência de seus companheiros, que quando uma coisa vai morrer, aparece antes.

—E como sabem que esse que vimos não era o patrão vivo? — perguntou.

—Porque não era ele — responderam displicentes.

 Logo a Morte — e com ela a mudança de dono, as misérias, as patadas — caia sobre eles! Passaram o resto da tarde ao lado de seu patrão, sombrios e alertas. Ao menor ruído, grunhiam. Mr. Jones sentia-se satisfeito pela sua vigilante inquietude.

Por fim, o sol se fundiu atrás do negro palmar do arroio, e na calma da noite prateada, os cães estacionaram em redor do rancho, em cujo andar superior Mr. Jones recomeçava sua vigília de whisky. À meia-noite ouviram seus passos, logo a dupla queda das botas no soalho de taboas, e a luz se apagou. Então os cães sentiram mais próxima a mudança de dono, e sós, a pretexto de que a casa dormia, começaram a chorar. Choravam em coro, transformando seus soluços convulsos e seco, como mastigados, num uivo de desolação, que a voz caçadora de Prince sustinha, enquanto os outros voltavam de novo ao soluço. O cachorro ladrava. A noite avançava, e os quatro cães de idade, agrupados à luz da lua, o focinho estendido e inchado de lamentos — bem alimentados e acariciados pelo dono que iam perder — continuavam chorando sua miséria doméstica.

Na manhã seguinte, Mr. Jones foi em pessoa buscar as mulas e as atrelar na carpideira, trabalhando até as nove. Não estava, no entanto, satisfeito. Além de nunca ter sido a terra bem rasteada, os discos não tinham fio, e com o passo rápido dias mulas, a carpideira soltava. Volveu com esta e afiou suas relhas; mas, um parafuso, em que, ao comprar sua máquina já havia notado uma falha, quebrou-se ao armá-la. Mandou um camarada a uma oficina próxima, recomendando-lhe o cavalo, um bom animal, porém ensolado. Alçou a cabeça ao sol incandescente do meio dia e insistiu para que não galopasse um momento. Almoçou em seguida e subiu. Os cães, que pela manhã não haviam deixado por um segundo a seu patrão, ficaram nos corredores.

A sesta pesava, abatida de luz e silencio. Todo o contorno estava brumoso, devido à cremação. Em redor do rancho, a terra branca do pátio, deslumbrada pelo sol a pino, parecia deformar-se em trêmulo fervor, que adormecia os olhos pestanejantes dos fox-terries.

—Não tem aparecido mais — disse Milk.

Old, ao ouvir aparecido, levantou as orelhas sobre os olhos. Desta vez, o cachorro, incitado pela evocação, pôs-se em pé e ladrou, pro- curando. Calou-se logo, com o grupo, entregue à sua defensiva caça de moscas.

 —Não venho mais — juntou Isondu.

—Havia uma lagartixa sob a raiz-grande — recordou Prince pela primeira vez.

Uma galinha, o bico aberto e as asas apartadas do corpo, cruzou o pátio incandescente, com seu pesado trote de calor. Prince seguiu-a preguiçosamente com a vista e saltou num repente:

— Vem outra vez! — gritou.

Pelo norte do pátio avançou só o cavalo em que o empregado havia ido. Os cães arquearam sobre as patas, ladrando com prudente fúria à Morte, que se acercava. O animal caminhava com a cabeça baixa, aparentemente indeciso sobre o rumo que ia seguir. Ao passar em frente ao rancho, deu uns tantos passos em direção ao poço, diminuindo progressivamente na crua luz.

Mr. Jones desceu; não tinha sono. Dispunha-se a prosseguir a montagem da carpideira, quando viu o camarada chegar inesperadamente a cavalo. Apesar de sua ordem, havia de ter galopado, para chegar a essa hora. Culpou-o, com toda sua lógica nacional, ao que o outro respondia com evasivas. Apenas livre e concluída sua missão, o pobre cavalo, em cujo arquear era impossível contar a pulsação, tremeu, baixando a cabeça, e caiu de costas. Mr. Jones mandou o camarada à chácara, com o rebenque ainda à mão, para não o expulsar, se continuasse ouvindo suas jesuíticas desculpas.

Os cães, porém, estavam contentes. A morte, que procurava seu patrão, havia se conformado com o cavalo. Sentiam-se alegres, livres de preocupação, e, em consequência, dispunham-se a ir para a chácara, atrás do camarada, quando ouviram Mr. Jones gritar por este, já longe, pedindo-lhe o parafuso. Não havia parafuso: o armazém estava fechado, o encarregado dormia etc. Mr. Jones, sem replicar, dependurou seu capacete e saiu em pessoa, em busca do utensílio. Resistia ao sol como um trabalhador, e o passeio era maravilhoso contra seu mau humor.

Os cães acompanharam-no, mas se detiveram à sombra da primeira alfarrobeira; fazia demasiado calor. Daí, firmes nas patas, o cenho contraindo e atento, viram-no afastar-se. Por fim, o medo da solidão pôde mais, e, com abatido trote, seguiram atrás dele.

Mr. Jones obteve seu parafuso e voltou. Para encurtar a distância, desde logo, evitando a poeirenta curva do caminho, marchou em linha reta para a chácara. Chegou ao riacho e se internou pelo sapezal, o diluviano sapezal do Saladito, que tem crescido, secado e abrolhado desde que há sapé no mundo, sem conhecer fogo. Os arbustos, arqueados em abobadas à altura do peito, entrelaçavam-se em blocos maciços. A tarefa de o atravessar, séria já em dia fresco, era muito dura a essa hora. Mr. Jones atravessou-o, não obstante, bracejando entre a falha estalante e poeirenta pelo barro que deixavam as enchentes, afogado de fadiga e acres exalações de nitrato. Saiu por fim e deteve-se na linde; porém, era impossível permanecer quieto sob esse sol e com esse cansaço. Marchou de novo. Ao calor crescente, que aumentava sem cessar, desde três dias atrás, agregava-se agora o sufocamento do tempo desfeito. O céu estava branco e não se sentia um sopro de vento. Faltava ar, com angustia cardíaca, que não permitia concluir a respiração.

Mr. Jones convenceu-se que havia passado o limite de sua resistência. Desde havia momentos, feria-lhe os ouvidos o pulsar das carótidas. Sentia-se no ar, como se dentro da cabeça lhe puxassem o crânio para cima.  Sentia vertigem ao mirar o pasto. Apressurou a marcha para acabar com isso de uma vez... e de pronto voltou a si e se encontrou em paragem distinta: havia caminhado meia quadra sem se dar conta de nada. Olhou para trás e a cabeça se lhe foi em nova vertigem. Entretanto, os cães seguiam atrás dele, trotando com a língua toda de fora. Às vezes, asfixiados, detinham-se à sombra de um esparto; sentavam-se precipitando seu arquejo, mas volviam ao tormento do sol. Afinal, como a casa estava próxima, apressaram o trote. Foi nesse momento que Old, que ia na frente, viu, atrás da rede de arame da chácara, Mr. Jones, vestido de branco, que caminhava para eles. O cachorro, com súbita lembrança, volveu a cabeça a seu patrão, e comparou.

—A morte! A morte! — uivou.

Os outros o haviam visto também, e ladravam eriçados. Viram que atravessara a rede de arame, e um instante julgaram que ia enganar-se; porém, ao chegar a cem metros, deteve-se, mirou o grupo com seus olhes celestes, e marchou para a frente.

—Que não caminhe depressa o patrão! — exclamou Prince.

 —Vai tropeçar com ele! — uivaram todos.

Com efeito, o outro, após breve hesitação, havia avançado, porém, não diretamente sobre eles como antes, senão em linha oblíqua e na aparência errônea, mas que devia levá-lo certo ao encontro de Mr. Jones. Os cães compreenderam que desta vez tudo se acabava, porque seu patrão continuava caminhando a passo igual, como um autômato, sem se ligar a nada. O outro chegava já juntaram o rabo e correram de costas, uivando. Passou um segundo e deu-se o encontro. Mr. Jones deteve-se, girou sobre si mesmo e caiu.

Os trabalhadores, que o viram cair, levaram-no às pressas ao rancho, mas tudo foi inútil; morreu sem ter voltado a si. Mister Moore, seu irmão materno, veio de Buenos Aires, esteve uma hora na fazenda, e em quatro dias liquidou tudo, voltando em seguida para o Sul. Os índios repartiram entre si os cães, que viveram desde então fracos e sarnentos, e iam todas as noites, com faminto segredo, roubar espigas de milho nas plantações alheias.

Tradução de autor desconhecido.
Fonte: “Ilustração Brasileira”, edição de 24 de fevereiro de 1922.

Share:

CRIATURA DO MAR - História de Terror em Quadrinhos - Rogério Silvério de Farias, Marilin Vans e Paulo Soriano



CRIATURA DO MAR
Argumento: Paulo Soriano
Roteiro: Rogério Silvério de Faria
Desenho: Marilin Vans







História originalmente publicada em “Stigma” nº 01 – Inkblood Comics. Editora Cultural e Quadrinhos.

Share:

A TORTURA POR ESPERANÇA - Conto de Horror - Villiers de L’Isle Adam





A TORTURA POR ESPERANÇA
Villiers de L’Isle Adam
(1838 – 1889)
Tradução de Paulo Soriano

Oh! Uma voz, uma voz para gritar!…
Edgar A. Pöe. “O Poço e o Pêndulo”

Há muitos anos, ao cair da noite, sob as abóbadas do Tribunal de Saragoça, o venerável Pedro Arbués de Espila[1], sexto prior dos dominicanos de Segóvia e Grande Inquisidor da Espanha, seguido de um frade redentor (mestre torturador), e precedido de dois familiares do Santo Ofício[2], que levavam os lampiões, desceu a um calabouço recôndito. A fechadura de uma pesada porta rangeu. Entraram num mefítico in pace[3], onde a luz proveniente de alto de uma janela gradeada deixava entrever, entre as argolas engastadas nas paredes, um cavalete enegrecido pelo sangue, uma fornalha e um cântaro. Sobre um leito de palhas, preso por grilhões, com uma golilha de ferro a cingir-lhe pescoço, permanecia sentado, desfigurado, aos farrapos, um homem de idade incerta.

O prisioneiro não era outro senão o rabino Aser Abarbanel, judeu aragonês que, acusado de usura e desumano desprezo aos pobres, havia sido submetido, há mais de um ano, a torturas. Entretanto, com uma “cegueira tão dura quanto o seu couro”, negara-se ele a abjurar.

Envaidecido por uma ascendência mais que milenar, orgulhoso por seus antigos ancestrais — pois todos judeus dignos desse nome são ciosos de seu sangue —, o rabino descendia, talmudicamente, de Otoniel e, por conseguinte, de Ipsiboë, mulher do último juiz de Israel, circunstância que também sustentara a sua coragem em meio a suplício incessantes.

Foi com lágrimas nos olhos que o venerando Pedro Arbués de Espila, pensando nesta alma que, tão obstinadamente, se esquivava da salvação, aproximou-se do trêmulo rabino e lhe disse as seguintes palavras:

— Meu filho, regozija-te. Os teus sofrimentos neste mundo estão prestes a acabar. Se, diante de tanta obstinação, tive de permitir, com pesar, que usassem de extrema severidade para contigo, o meu dever de fraterna correção tem os seus limites. És a recalcitrante figueira[4] que, passado tanto tempo sem render frutos, termina por mirrar… Mas só Deus pode decidir sobre a tua alma. Talvez a infinita Misericórdia brilhe para ti no instante supremo! Devemos esperar! Exemplos têm ocorrido… Amém! Descansa, pois, em paz esta noite. Amanhã, integrarás o auto de fé. Isto significa que tu serás exposto à fogueira, braseiro premonitório da Chama Eterna. Bem sabes, meu filho, que ela queima à distância e a Morte leva ao menos duas horas (às vezes três) para advir, por causa dos panos molhados e gelados com os quais procuramos proteger a fronte e os corações dos holocaustos. Apenas quarenta e três serão os supliciados. Considera que, sendo o último da fila, tereis suficiente tempo para invocar Deus, para que te oferte esse batismo de fogo, que é o do Espírito Santo. Tem, pois, esperança na Luz e dorme.

Terminando este discurso, dom Arbués, havendo feito um sinal para que desacorrentassem o desgraçado, abraçou-o com ternura. Depois, foi a vez do frade redentor que, em voz muito baixa, pediu ao judeu perdão pelo que lhe havia feito sofrer em prol de sua redenção. Em seguida, achegaram-se os dois agentes do Santo Ofício, cujos beijos, dados através dos capuzes, foram silenciosos. Acabada a cerimônia, o prisioneiro ficou — sozinho e atônito — entre as trevas.

O rabino Aser Abarbanel, de boca seca e rosto aturdido pelo sofrimento, passou a fitar, primeiro sem grandes atenções, a porta cerrada. “Cerrada?” Esta palavra despertou, no fundo de seu ser, entre confusos pensamentos, um devaneio. Por um instante, entrevira a luz débil dos lampiões entre porta e os umbrais. Uma mórbida ideia de esperança, devido à debilidade de seu cérebro, convulsionou-lhe todo o ser. Arrastou-se para a insólita coisa que vira! E, muito suavemente, deslizando um dedo, com meticulosa precaução, pela nesga, puxou a porta para si. Oh, que assombro! Por um acaso extraordinário, o agente, que a havia fechado, girara a pesada chave um pouco antes da hora, chocando-a contra a coluna de pedra. Por isto, a lingueta enferrujada não penetrara o engate, e a porta resvalou para dentro.

O rabino arriscou-se a olhar para fora.

Graças a uma espécie de lívida escuridão, distinguiu primeiramente um semicírculo de muros terrosos, em que se abria uma escada em espiral; e, à sua frente, sobrepondo-se a cinco ou seis degraus de pedra, uma espécie de pórtico negro, que se abria a um amplo corredor, do qual somente se podia enxergar, no fundo, as primeiras arcadas.

Então, estirando-se, rastejou ao rés desse limiar. Sim, era realmente um corredor, mas de um cumprimento desmesurado! Uma pálida claridade, um fulgor de sonho o iluminava: lamparinas, penduradas nas abóbadas, azulavam, a intervalos, a turva cor do ar. O fundo distante era somente treva. Em toda aquela extensão não havia sequer uma porta lateral! Em apenas um dos lados, à sua esquerda, abertas nas paredes, as seteiras de grelhas cruzadas permitiam o escoar de um crepúsculo — que devia ser o da tarde, já que raios vermelhos, de trecho em trecho, riscavam o lajeado. E que silêncio aterrador! No entanto, adiante, nas profundezas dessas brumas, uma saída podia franquear a liberdade. A vacilante esperança do judeu era tenaz, pois era a última.

Assim, pois, sem hesitar, avançou sobre o lajeado, bordeando a parede das seteiras e tentando confundir-se com as sombras sinistras dos longos muros. Avançou lentamente, rastejando sobre o peito, reprimindo os gritos quando uma chaga, reaberta recentemente, lancinava.

De súbito, da galeria de pedra, chegou-lhe o eco de sandálias que se aproximavam. Um estremecimento sacudiu-o. A ansiedade sufocava-o. A visão escureceu. Vamos! Sem dúvida, era o fim! Agachou-se numa depressão da laje e, quase morto, esperou.

Era um familiar que caminhava pressuroso. Passou rapidamente com alicates na mão. De capuz rebaixado, com seu terrível aspecto, desapareceu. A terrível sensação que, num átimo, o oprimiu, deixou-o como se privado das funções vitais, razão por que passou quase uma hora incapaz de realizar um mínimo movimento. Ante o temor de redobrarem-se os tormentos caso fosse capturado, veio-lhe a ideia de retornar ao calabouço. Mas a velha esperança lhe sussurrava na alma esse divino “talvez”, que consola nos momentos da mais profunda angústia. Um milagre acontecera! Não havia dúvida! Continuou, pois, rastejando para a possível fuga. Esgotado pela dor e pela fome, avançou. E esse corredor sepulcral parecia alongar-se misteriosamente! E ele, avançando sem parar, olhava constantemente a sombra distante, onde haveria de estar a saída para a salvação.

Oh! Oh! Eis que os passos voltaram a soar, mas desta vez mais lentos e inquietantes. Assomando no ar, surgiram as figuras brancas e negras dos inquisidores, com seus compridos chapéus de abas arredondadas. Falavam em voz baixa e pareciam, pelos gestos que faziam, discutir algo importante.

Ante aquela visão, o rabino fechou os olhos. Seu coração batia intensamente a ponto de sufocá-lo. Seus andrajos se empaparam de um frio suor de agonia. Permaneceu boquiaberto, imóvel, estendido ao longo da parede sob a luz de uma lamparina, rogando ao Deus de Davi.

 Quando chegaram diante dele, os inquisidores detiveram-se, por acaso, em meio à discussão, sob a luz da lamparina. Um deles, ouvindo o seu interlocutor, ficou a olhar para o rabino. E, sob este olhar, cuja expressão distraída não podia perscrutar, julgou sentir ainda os incandescentes alicates mordendo a sua carne lacerada. Voltaria a ser novamente um lamento e uma chaga! Desfalecendo, sem poder respirar, as pálpebras trêmulas, estremecia sob o roçar da roupa. Mas — coisa estranha, conquanto natural —, os olhos do inquisidor, que eram, sem dúvida, os de um homem imensamente preocupado na resposta que iria dar, absorto naquilo que ouvia, fixavam-se no judeu, mas pareciam não o enxergar.

Efetivamente, depois de alguns minutos, os dois sinistros debatedores, falando constantemente em voz baixa, seguiram o seu caminho, a passo lento, até o cômpito de onde havia saído o preso. Não o haviam visto!… De sorte que, em meio ao terrível tumulto de suas sensações, perpassou-lhe o cérebro a seguinte ideia: “Será que não me veem porque já estou morto?”

Uma impressão terrível o arrancou da letargia: ao fixar o olhar no muro, colado ao seu rosto, julgou ver, bem próximos aos seus, dois olhos cruéis, que o observavam… Jogou para trás a cabeça num movimento atirado e brusco, os cabelos eriçados. Mas não! Sua mão, apalpando as pedras, descobriu que aquilo era o reflexo dos olhos do inquisidor que ainda tinha impresso em suas pupilas, e que ele havia projetado sobre duas manchas do muro.

Adiante! Era preciso apressar-se para a meta que ele, sem dúvida absurdamente, imaginava ser a liberdade; correr em direção às sombras que estavam a apenas, mais ou menos, trinta passos de distância. Assim, retomou mais rapidamente a sua via dolorosa, arrastando-se sobre os joelhos, as mãos e o ventre.

Pouco depois, entrou no trecho tenebroso do pavoroso corredor.

De repente, o miserável sentiu um frio nas mãos que apoiava sobre as lousas. Era uma violenta lufada que passava por sob a porta na qual terminavam as duas paredes. Oh, meu Deus! Se esta porta se abrisse para o lado de fora! O pobre fugitivo sentiu a vertigem da esperança dominar todo o seu ser. Examinou a porta de cima a baixo, sem poder distingui-la bem, porque estava mergulhada nas trevas. Tateando, constatou que não havia ferrolho ou fechadura. Uma maçaneta! Ergueu-se. A fechadura obedeceu aos movimentos de seu polegar e a porta girou, silenciosa, abrindo-se à sua frente.

— Aleluia! — murmurou, com um imenso suspiro de ação de graças, o rabino, agora de pé sob os umbrais, contemplando o que adiante se lhe revelava.

A porta se abria para os jardins, sob uma noite de estrelas! Para a primavera, a liberdade e a vida! O jardim dava para um campo, que se estendia em direção às montanhas, cujos ondulantes contornos azuis pairavam no horizonte. Ali estava a salvação! Oh! Fugir! Correria a noite toda sob esses limoeiros, cujos aromas chegavam até ele. Uma vez nas montanhas, ele estaria salvo! Respirou ar salubre e bendito. O vento o reanimava e seus pulmões ressuscitavam! Escutava, em seu coração dilatado, o veni fora de Lázaro![5] E, para bendizer o Deus que lhe concedera essa misericórdia, estendeu os braços diante dele, abrindo os olhos para o firmamento. Foi um êxtase.
Julgou, então, que a sombra de seus braços se voltava sobre si mesma — imaginou que esses braços de sombra o cercavam e o enlaçavam — e que era ternamente apertado contra um peito. Uma alta figura estava, de fato, junto a ele. Confiante, ele abaixou o olhar para esse vulto — e ficou ofegante, perturbado, com os olhos aterrorizados, vacilantes, inflando as bochechas e salivando de terror.

Horror! Ele estava nos braços do próprio Grande Inquisidor, do venerável Pedro Arbuez d’Espila, que o olhava com grandes lágrimas nos olhos e o ar de um bom pastor que encontra sua ovelha perdida!

O tenebroso sacerdote pressionou, contra o seu coração, com tão fervoroso impulso de caridade, o infeliz judeu, que as pontas do cilício monacal, traspassando as vestes do dominicano, espetaram-lhe o peito.

E, enquanto Rabi Aser Abarbanel, com os olhos revirados sob as pálpebras, convulsionava de angústia entre os braços do ascético Dom Arbuez, e compreendia, confusamente, que todas as etapas da noite fatal eram apenas fases de uma tortura planejada — o da esperança! —, o Grande Inquisidor, com um pungente tom de recriminação e o olhar consternado, murmurava-lhe ao ouvido, com o hálito abrasador, afetado pelos jejuns:

— Mas o que é isto, meu filho?! Na véspera, talvez, da salvação… tu querias, então, nos deixar?




[1] Pedro Arbués (c. 1441 – 1485) foi um oficial da Inquisição Espanhola canonizado, como mártir de uma alegada conspiração judia, em 1867.
[2] Auxiliares dos inquisidores, os familiares eram oficiais que desempenhavam diversas funções de apoio aos prelados do Santo Ofício, como a prisão dos suspeitos de heresias e o sequestro de bens dos condenados, além de outras diligências executórias.
[3] Cela inquisitorial.
[4] Referência ao incidente da figueira, narrada pelos Evangelhos de Marcos (11:12-14; 20-21) e Mateus (21:18-22). Sentindo fome, Jesus viu ao longe uma figueira. Mas, chegando a ela, não encontrou frutos. Jesus, então, amaldiçoou a árvore: “Ninguém jamais coma fruto algum de ti”. A figueira mirrou desde as raízes.
[5] Alusão à célebre passagem do Evangelho de João (11: 43), na qual Jesus de Nazaré ressuscita o amigo Lázaro, morto há quatro dias, com estas palavras: “Lázaro, vem para fora!”.

Share: