O RETORNO - Conto de Ficção Científica - Paulo Soriano



O RETORNO

Paulo Soriano

 

Para Henry Evaristo

 

Meu velho pai sentou-se na poltrona, ao lado da lareira, e me chamou:

— Venha! Venha logo! Quero contar-lhe uma história.

Ah, como eu amava aquela história! Uma história absurda, que eu já sabia de cor, mas que eu escutava com o mesmo prazer dos tempos de minha infância.

— Chegue mais junto. Isso. Quero contar-lhe uma história verdadeira — disse meu pai, sorrindo-me com satisfação.

— Conte-me, pai.

O velho pigarreou. Remexeu-se na poltrona. Uniu os dedos enrugados e, solenemente, desfiou a sua história.

— Um grupo de alpinistas suecos — um grupo desses caras malucos que gostam de arriscar a vida por nada — havia acampado em uma base de apoio, a cerca de quatro mil pés de altura, antes de iniciar a jornada rumo ao cume do monte McKinley. Segundo Anderson, o chefe da equipe, a noite transcorreu tranquilamente.

“Houve um pequeno deslizamento de neve, mas, como se tratava de um acontecimento ordinário, o líder sueco levantou o acampamento antes do amanhecer. Os homens percorreram, sem grandes dificuldades, cinco milhas na direção nordeste, com inexpressiva variação na altitude. Foi quando perceberam que o solo tremia. Fez-se um barulho ensurdecedor. Experiente, o líder Anderson era igualmente um homem de sorte, porque, a poucos metros de onde estavam, a ponta de uma enorme rocha, lisa e esguia como uma espada, elevava-se abruptamente da neve. Embora a rocha fosse plana como a superfície de uma placa de metal, havia, na região onde a pedra irrompia, um nicho estreito, como uma fenda ogival, mas capaz de abrigar a todos. Mal se acomodaram os alpinistas naquela abençoada gruta, uma massa incomensurável de neve precipitou-se vertiginosamente, rápida e uniforme como a lava de um vulcão. A grande rocha, para a felicidade dos aventureiros, elevava-se a cerca de cem metros de altura e deveria ter o dobro de comprimento nas bases laterais. Constituía um grande prisma triangular, cuja aresta, voltada para o cimo da montanha, servira-lhes de providencial anteparo. O caudal de neve, ao deslizar celeremente, deparou-se com uma bifurcação inexorável. Assim, a grande massa de neve se dividiu, talhada pela lâmina afiada da quilha rochosa, ganhando direções adversas. A correnteza, que no seu caminho arrastava árvores e animais, perdeu, aos poucos, o ímpeto e a fúria.

“Quando tudo se acalmou, o grupo verificou que um milagre acontecera. Toda a região frontal à grande rocha estivera indiferente ao tumulto provocado pela avalanche. Uma descida segura à base de apoio estava garantida.

“Por cautela, somente à tardinha o líder Anderson autorizou a descida. Assim, de mochila nas costas, os alpinistas iniciaram o retorno, admirados com a visão que tinham dos flancos devastados.

“Foi a duas milhas de distância que a equipe se deparou com algo muito estranho. Muito estranho mesmo. Sabe o que era?”

Meu pai sempre interrompia ali a narrativa. E jamais deixou de repetir a mesma pergunta. Eu adorava aquilo. Sim, eu amava aquilo tudo. Era maravilhoso aquele ritual doméstico.

— Não, pai. Eu não sei.

— Adivinhe, então.

— Não sei, pai. Diga você.

— Era algo que reluzia. Algo que parecia não ser deste mundo. Assemelhava-se a dois enormes pires unidos pelas bordas, e estava inclinado, meio enterrado na neve revolvida pela avalanche. Era metálico. O que era?

— Uma nave alienígena?

— Com certeza! — respondeu meu pai, cofiando os bigodes de seda. — Por que motivo o governo tomaria tanto cuidado para ocultá-la e transportá-la até o Novo México? Bem, a verdade é que, com o anúncio da descoberta, o exército entrou em cena. E onde há militar, há segredo e burocracia. Mandaram os suecos para casa, mas não sem antes lhes comprar o silêncio a peso de ouro. O que não evitou que um deles, por um montante bem mais generoso, vendesse a história para a NBC. Vou lhe dizer uma coisa: aquela não fora a primeira e nem a última nave alienígena encontrada na Terra. Mas a nave era diferente: estava intacta. É evidente que os militares pretendiam estudá-la. Em vão, é claro. É como se dessem um microcomputador para um neandertalense examinar.

Aqui meu pai abria um sorriso simplesmente encantador.

— Mas o segredo maior estava no interior da nave. Era uma nave pequena, com pouco mais que seis metros de diâmetro por três de altura. Levamos seis meses para decifrar o código de acesso. Eu era o matemático chefe da equipe. Eles não queriam, mas eu ousei: fui o primeiro a entrar na nave. E lá dentro tudo era muito estranho.

— O que havia lá dentro, pai? — eu sempre fazia esta pergunta tola. E o meu pai respondia, com um quê de impaciência:

— O que havia lá dentro? Nada, absolutamente nada. Exceto por uma coisa. Olhe, filho, eu imaginava que veria um painel de controle cheio de botões multicoloridos. Pensava que haveria telas de computador a laser ou coisas semelhantes. E, também, esqueletos de homenzinhos outrora verde-oliva. Mas não havia nada disso. O disco estava completamente vazio, exceto pelo... pelo que imaginei ser uma câmara criogênica ou coisa que o valha. Não estava presa ao chão. Ela flutuava. Provavelmente em razão de algum sistema de levitação baseado no eletromagnetismo. E não houve quem conseguisse removê-la do interior da nave. Os exames de ultrassom foram feitos lá mesmo e revelaram que a câmara, composta por dois compartimentos, tinha algo de muito singular em seu interior. No menor, via-se nitidamente a imagem de um par de sandálias. No outro, a do corpo de um homem. Sim, um ser humano. Nada de homenzinho verde-oliva.

“Consumimos dois anos para decifrar o código numérico que dava acesso ao compartimento menor, aliás, o único que era guarnecido de saliências semelhantes ao teclado de um computador.

“E olhe que tínhamos, à nossa disposição, os computadores mais potentes e avançados do mundo. A abertura do compartimento revelou, além do que nós já sabíamos, algo mais.”

— Não pai, não me peça para adivinhar.

— Não. Desta vez, não. Vou em frente. Além das sandálias, havia um pano de linho dobrado, com aproximadamente trinta centímetros de altura e largura. E um rolo de pergaminho perfeitamente conservado. Escrito em aramaico, meu filho. Aramaico antigo. A partir daí, vieram duas vertentes de investigação. Aos físicos coube a datação das sandálias e do pano; aos linguistas, a tradução do pergaminho. Eu disse duas vertentes? Enganei-me. Os fotógrafos — e não os cientistas — foram os primeiros convocados. Sabe por quê? Porque aquele pano era um pequeno sudário. O lenço que se colocava entre a face do morto e o grande lençol mortuário. Esse pano, quando em negativo, reproduzia, exatamente, a mesma face que está estampada no sudário de Turim. Ambas as imagens coincidiam perfeitamente, ponto a ponto, e evidentemente o pequeno lenço reproduzia a imagem humana com maior nitidez. O teste de carbono 14, de sua feita, estabeleceu que o pano, as sandálias e o pergaminho eram coetâneos. E não é preciso dizer de quando eles datavam, não é mesmo? Ah, e o que o pergaminho dizia? Dizia simplesmente: “Eis o prometido retorno do Filho do Homem”. A câmara criogênica ainda está lá. E, até hoje, ninguém conseguiu devassar o compartimento maior.

Aí terminava a história do meu pai.

Mas, nesse dia, as coisas tomaram um rumo diferente.



— Filho, não há segredo que dure para sempre. Sabíamos que havia uma ranhura na parte lateral do compartimento maior. Uma fresta de um centímetro de comprimento por três milímetros de altura. Era evidente que tínhamos, ali, um sistema mecânico rudimentar. Algo como o mecanismo que aciona uma máquina de refrigerantes. Os engenheiros dedicaram décadas de estudos, encetaram várias tentativas, mas todo esse esforço foi em vão. Creio que ainda hoje tentam abrir o compartimento. Mas não conseguirão. Eles não têm as moedas.

Dizendo isso, meu pai se levantou. Foi ao quarto e retornou com um saquinho de veludo na mão e um livro na outra.

— A imagem tridimensional de ambos os sudários revela, quando ampliada, a impressão das moedas que foram colocadas nas pálpebras do Senhor, conforme o costume da época.

Meu pai abriu o livro. Um livro escrito em italiano e repleto de imagens alusivas ao Santo Sudário. Depois, retirou duas pequenas moedas do saquinho.

— Filho, peço que compare as moedas que tenho na mão com as imagens colhidas do sudário de Turim. Não há dúvida: são as mesmas que cobriram os olhos do Senhor. Trata-se do dilepton lituus, espécie de moeda cunhada por Pilatos entre 29 e 32 d.C. Quando estas moedas me chegaram pelo correio, sem que eu soubesse quem era o remetente, não entendi. Somente depois percebi que alguém depositou em meus ombros uma pesada cruz. A maior responsabilidade que um homem jamais teve em toda a história. O Fim está aqui, em minhas mãos.

Meu pai, com a palma da mão direita aberta, olhou para as moedas.

— Agora, já não posso decidir. Estou velho demais para isso. Eu sempre hesitei em tomar a decisão. Por dois mil anos, o disco voador, que recolheu o corpo do Senhor, após a ascensão, esteve soterrado numa montanha no Alaska. E ali permaneceu até o momento em que o gelo perene derreteu. E por que derreteu? Porque a Terra está superaquecida, como resultado da produção industrial. E o que significa isto? Significa que temos tecnologia suficiente tanto para criar armas atômicas quanto para decifrar códigos extremamente complexos. O retorno do Messias não tinha data certa. Dependeria do desenvolvimento tecnológico do ser humano, cujo preço todos nós sabemos. Filho, chegou o momento em que é possível fazer despertar o sono do Filho do Homem.

— E as moedas, pai, de onde vieram?

— De Ugo Lorenzo, autoridade em numismática e um dos maiores estudioso do sudário de Turim. Ele trabalhou conosco, estudando as fotografias e as análises que foram feitas no pano. Mas não sei como ele as recuperou.

Então meu pai abriu a minha mão e nelas depositou as moedas.

— A cruz está em seus ombros — disse-me, comovido. — Resolva se é hora de pôr a radiola de fichas de dois mil anos para funcionar.

A responsabilidade agora é minha.

Mas amanhã estará tudo resolvido: moedas também servem para fazer cara ou coroa.

 


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ARTIGO DE PAULO SORIANO NO PLG: GUILHOTINA



ARTIGO DE PAULO SORIANO NO PLG: GUILHOTINA 

“Quem nunca ouviu dizer que “Guillotin, o inventor da Guilhotina, morreu guilhotinado”?

Mas há dois equívocos nessa breve assertiva que, de tão disseminada e repetida, parece conter uma verdade inexpugnável.

Em primeiro lugar, não é certo que o médico e político francês Joseph-Ignace Guillotin (1738 – 1814) tenha inventado a máquina de decapitação que, contra a sua vontade, levou o seu nome. O aparelho, largamente usado na época da Revolução Francesa — pano de fundo do maravilhoso “Conto de Duas Cidades”, de Dickens (1812 – 1870) —, já existia há séculos quando o médico, por questões humanitárias, sugeriu o seu uso às autoridades revolucionárias.

Foram percussoras da guilhotina, tal como nós a conhecemos, diversas máquinas de decapitação semelhantes, empregadas desde — pelo menos — o século XVI na Alemanha, Escócia, Irlanda, Inglaterra e  Itália.

Até a Revolução, a grande maioria de franceses sentenciados à pena capital era cruelmente executada. Executava-se a gente da plebe por meio  do estrangulamento, da forca, da roda, do esquartejamento, da fogueira, do cozimento em caldeirão, dentre outros métodos sumamente aflitivos. Supliciavam-se os plebeus, também, pela mais piedosa decapitação, mas com o emprego exclusivo do machado. Não raras vezes, porém, esse instrumento — quer porque não amolado a contento, quer em razão da inabilidade do carrasco — não cumpria o seu mister logo ao primeiro golpe, de molde a prolongar, desnecessariamente, o padecimento do infeliz sentenciado. À nobreza — que até na morte recobria-se de regalias — era reservada a  “prerrogativa” da decapitação pela espada, instrumento considerado mais eficiente que o machado...”

 Em WASHINGTON IRVING, GUILHOTINA E HORROR, artigo publicado no Portal Galego da Língua (PGL), de Santiago de Compostela, Galiza, PAULO SORIANO desmitifica lendas associadas à terrível máquina da morte e brinda o leitor com a tradução de uma obra-prima do terror do grande escritor norte americano.

Para ler o artigo completo, clique AQUI.

 


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O ALQUIMISTA - Conto Clássico de Terror - H. P. Lovecraft



O ALQUIMISTA

H. P. Lovecraft

Tradução de Renato Suttana

 

No alto, coroando o topo gramado de um morro cujos flancos, próximo à base, são guarnecidos pelas árvores de galhos retorcidos da floresta primeva, situa-se o velho chateau de meus ancestrais. Durante séculos, suas ameias altíssimas têm vigiado a paisagem selvagem e irregular à sua volta, servindo de lar e de refúgio para a casa altiva cuja honorável linhagem é mais velha do que as muralhas do castelo que o musgo recobre. Essas torres antigas, batidas durante gerações inteiras pelas tempestades e que aos poucos vão cedendo à lenta mas incoercível pressão do tempo, compuseram na época do feudalismo uma das mais temidas e formidáveis fortalezas de toda a França. Das suas galerias, parapeitos e ameias, barões e condes e mesmo reis foram desafiados, sem que em seus largos vestíbulos jamais tivesse ressoado o som dos passos do invasor.

 Mas, desde aqueles dias gloriosos, tudo mudou. Uma pobreza pouco mais que remediada, somada a um orgulho de casta que proíbe aliviá-la com recurso aos expedientes comerciais, impediu os descendentes de nossa casa de conservarem o antigo esplendor de suas propriedades; e o aspecto decadente dos muros, a vegetação crescida dos parques, o fosso seco e pedregoso, os pátios mal pavimentados, as torres arruinadas, bem como os pisos destruídos, os lambris carcomidos e as tapeçarias gastas, tudo conta a triste história de uma grandeza decadente. Enquanto as épocas passavam, primeiro uma, depois outra das quatro grandes torres desmoronou, até que finalmente restou apenas uma para abrigar os descendentes daqueles que um dia foram os poderosos senhores da propriedade.

Foi numa das câmaras amplas e depressivas dessa torre remanescente que eu, Antoine, o último dos infelizes e malditos condes de C***, vi pela primeira vez a luz do dia, há noventa longos anos. Entre estes muros e em meio às florestas negras e sombrias, às ravinas selvagens e às grutas da encosta abaixo, transcorreram os primeiros anos de minha tormentosa vida. Meus pais, eu nunca os conheci. Meu pai morreu quando tinha trinta e dois anos, um mês antes de eu nascer, atingido por uma pedra que de algum modo se desprendeu dos parapeitos desertos do castelo. E, tendo minha mãe morrido quando nasci, minha educação e minha formação ficaram a cargo do único serviçal que restou, um homem velho e fiel, de considerável inteligência, cujo nome – lembro-me – era Pierre. Sendo filho único, a falta de companhia que isso acarretou para mim foi acrescentada pelo cuidado estranho que meu velho protetor me dedicava, afastando-me dos filhos dos camponeses cujas moradias se espalhavam aqui e ali pelos plainos que rodeiam a base da colina. Naquele tempo, Pierre disse que tal restrição era imposta sobre mim porque minha ascendência nobre me colocava acima das associações com tão plebeia companhia. Agora sei que seu real objetivo era manter distante de meus ouvidos certas histórias acerca da temível maldição que pende sobre nossa linhagem, histórias que eram contadas à noite e aumentadas pela raia miúda, entre sussurros à luz de suas lareiras.

 Assim, isolado e deixado à própria sorte, passava eu as horas de minha infância debruçado sobre os velhos tomos que enchiam a penumbrosa biblioteca do chateau, ou a perambular sem destino e sem propósito através das sombras perpétuas da mata espectral que circunda o lado da colina próximo à base. Foi talvez por um efeito de tais deambulações que minha mente adquiriu, muito cedo, certa tonalidade melancólica. Aqueles estudos e perquirições que se voltam para o que há de escuro e de oculto na natureza atraíram fortemente a minha atenção.

Sobre minha própria raça foi-me permitido aprender bem pouco. No entanto, por menor que fosse, tal conhecimento me oprimiu bastante. Talvez tenha sido no princípio apenas a relutância de meu velho preceptor em discutir comigo sobre minha ascendência paterna que deu origem ao terror que sempre senti à simples menção de minha grande casa, porém à medida que fui crescendo tornei-me capaz de ajuntar fragmentos esparsos de discurso, involuntariamente escapos de uma língua que a senilidade começava a trair, os quais tinham algum tipo de relação com certa circunstância que sempre considerei estranha, mas que logo se tornou sombria e terrível. A circunstância a que aludo é a idade precoce na qual todos os condes de minha linhagem encontraram o seu fim. Enquanto até então considerei isso como sendo apenas o atributo natural de uma família de homens que morriam jovens, ponderei depois, longamente, sobre essas mortes prematuras e comecei a conectá-las com as tresvariações do velho, o qual falava frequentemente de uma maldição que durante séculos fizera com que as vidas daqueles de quem herdei o título não excedessem o prazo dos trinta e dois anos. Quando fiz vinte e um anos, o idoso Pierre me entregou um documento de família que, segundo dizia, ao longo de muitas gerações tinha sido passado de pai para filho, continuando a sê-lo por cada possuidor. Seu conteúdo era de uma natureza absolutamente espantosa, e sua leitura confirmou as minhas mais graves apreensões. Por essa época, minha crença no sobrenatural era firme e bem assentada, caso contrário teria tratado com desdém a narrativa incrível que se desdobrou diante dos meus olhos.

O papel levou-me de volta aos dias do décimo terceiro século, quando o velho castelo onde eu morava fora uma fortaleza temida e inexpugnável. Falava de certo homem, muito velho, que um dia habitara em nossas propriedades, pessoa de não pequenas habilidades, embora se tratasse de pouco mais que um camponês, de nome Michel, comumente designado pelo sobrenome de Mauvais, o Mau, por conta de sua reputação sinistra. Tinha estudos superiores aos da sua casta, buscando tais coisas como a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida Eterna, e sua reputação era grande como conhecedor de Magia Negra e Alquimia. Michel Mauvais tinha um único filho, Charles, um jovem tão hábil quanto o pai nas artes ocultas, e que por isso era chamado de Le Sorcier, ou o Mago. Esse par, evitado por toda a gente honesta, era suspeito das práticas mais infames. Dizia-se que o velho Michel tinha queimado viva a própria esposa, num sacrifício ao Demônio, e o desaparecimento inexplicável de muitos filhos pequenos de camponeses era atribuído aos umbrais temíveis desses dois. No entanto, através da natureza negra do pai e do filho, passava ainda assim um raio redentor de humanidade: o homem mau amava sua cria com enorme intensidade, enquanto o jovem nutria pelo pai uma mais que filial afeição.

Certa noite, o castelo mergulhou em grande confusão, com o desaparecimento do jovem Godfrey, rilho de Henri, o conde. Um grupo de busca, liderado pelo pai em desespero, invadiu a cabana dos feiticeiros e caiu sobre o velho Michel Mauvais, que se achava ocupado em mexer um grande caldeirão fervente. Sem uma causa definida, na loucura desgovernada que vem da fúria e do desespero, o conde deitou as mãos no idoso mago e, antes mesmo que o libertasse, sua vítima já não mais respirava. Entrementes, alegres criados alardeavam que o jovem Godfrey tinha sido encontrado numa câmara distante e pouco utilizada do grande edifício, dizendo tarde demais que o velho Michel fora morto em vão. Enquanto o conde e seus seguidores se retiravam da pobre habitação do alquimista, a figura de Charles Le Sorcier surgiu de entre as árvores. A tagarelice excitada dos caseiros informou-o logo do que ocorrera, mas ele não demonstrou a princípio nenhuma reação frente ao destino do pai. Só então, avançando lentamente para o conde, pronunciou num acento monótono e ao mesmo tempo terrível a maldição que para sempre assombraria a casa de C-:

“Que nobre algum da tua estirpe matadora

Idade venha a ter mais do que tens agora.”

 Assim falou e, de repente, recuando em direção à mata, sacou de sua túnica um frasco contendo um líquido incolor que atirou contra a face do assassino de seu pai, para desaparecer em seguida em meio aos cortinados escuros da noite. O conde morreu sem dizer uma palavra, sendo enterrado no dia seguinte, com pouco mais do que trinta e dois anos contados a partir do seu nascimento. Nenhum vestígio do assassino foi encontrado, conquanto bandos incansáveis de camponeses tivessem batido toda a mata circundante e as campinas ao redor do monte.

Assim o tempo e a falta de algo que a recordasse sopitaram a memória da maldição nas mentes da família do conde, a tal ponto que, quando Godfrey, causa inocente de toda a tragédia e agora portador do título, foi morto por uma flecha, durante uma caçada, com a idade de trinta e dois anos, em nada se pensou a não ser na dor de seu desaparecimento. Porém, quando, anos mais tarde, o jovem conde seguinte, de nome Robert, foi encontrado morto sem causa aparente num campo próximo, os camponeses murmuraram que seu senhor mal tinha completado o trigésimo segundo aniversário quando a morte o surpreendeu. Louis, filho de Robert, se afogou no fosso com a mesma idade fatal, e assim a crônica ominosa prosseguiu ao longo dos séculos: Henris, Roberts, Antoines e Armands, todos arrancados de suas vidas felizes e virtuosas com pouco menos idade que a do seu desafortunado ancestral que cometera o assassinato.

Que me restavam ainda, quando muito, sete anos de existência tornou-se uma certeza para mim quando li tais palavras. Minha vida, que até então tivera pouco valor, tornou-se para mim mais preciosa a cada dia que passava, ao mesmo tempo em que mergulhei mais e mais fundo nos mistérios do mundo oculto da magia negra. Isolado como eu vivia, a ciência moderna não produzira nenhuma impressão em mim, e lidava como se vivesse na Idade Média, tão ávido quanto o velho Michel e o jovem Charles da aquisição do saber demoníaco e alquímico. No entanto, por mais que lesse, não podia atinar com o estranho feitiço que pesava sobre minha linhagem. Em certos momentos de racionalidade incomum, eu poderia ir ao ponto de procurar uma explicação racional, atribuindo as mortes precoces de meus ancestrais ao sinistro Charles Le Sorcier e seus herdeiros. Contudo, tendo descoberto, após cuidadoso inquérito, que não havia descendentes conhecidos do alquimista, eu mergulharia de novo nos estudos ocultos e tentaria de novo encontrar um encantamento que pudesse livrar minha casa de seu terrível fardo. De uma única coisa, porém, estava certo: jamais me casaria, desde que, não havendo mais nenhum ramo vivo de minha família, eu poderia desse modo, em mim mesmo, dar fim à maldição.

Quando me aproximei da idade dos trinta, o velho Pierre partiu desta para a melhor. Sozinho, sepultei-o sob as pedras do pátio ao longo do qual ele amava perambular enquanto vivo. Assim, tomei consciência de ser a única criatura viva que ainda restava na grande fortaleza, e na solidão extrema minha mente começou a esmorecer em seu vão protesto contra o fado iminente, reconciliando-se quase com o destino que tinha sido o de muitos de meus ancestrais. Grande parte do meu tempo era agora empregada na exploração das salas e torres ruinosas e abandonadas do velho chateau, que na juventude o medo me fizera evitar, e algumas das quais o velho Pierre me dissera não tinham sido pisadas por pés humanos por mais de quatro séculos. Estranhos e inquietantes eram muitos dos objetos que encontrei. Mobília coberta pela poeira das eras e desmanchando-se na umidade dos anos caía-me sob os olhos. Teias de aranha numa profusão que eu jamais vira antes se estendiam por toda parte, e enormes morcegos batiam suas asas ossudas e agourentas por todos os cantos naquele sombrio abandono.

De minha idade exata – incluindo-se dias e horas – eu mantinha a mais estrita conta, pois cada movimento do pêndulo do relógio maciço na biblioteca soava como uma intimação em minha existência condenada. Por fim me aproximei daquele dia que tão longamente eu aguardara com apreensão. Desde que muitos de meus ancestrais foram apanhados pouco antes de completarem a idade com a qual o conde Henri encontrara seu fim, eu permanecia a cada instante à espera da morte desconhecida. De que estranha forma a maldição me levaria eu não podia saber. Mas havia decidido que não encontraria em mim uma vítima covarde ou passiva. Com renovado vigor, apliquei-me ao exame do velho chateau e do que havia nele.

Foi durante uma de minhas mais longas excursões de descobrimento pela porção deserta do castelo, menos de uma semana antes da hora fatal que marcaria o limite extremo de minha estada na terra, para além do qual eu não tinha a mais ligeira esperança de continuar a respirar, que me deparei com o evento culminante de toda a minha vida. Tinha passado a melhor parte da manhã subindo e descendo lances de escada semiarruinados numa das torres mais dilapidadas. Quando a tarde avançou, busquei os níveis inferiores, descendo em direção ao que parecia ser um lugar medieval de confinamento ou um depósito para pólvora mais recentemente escavado. Enquanto eu atravessava lentamente o corredor cujas paredes exalavam a nitrato, próximo ao pé da última escada o piso tornou-se bastante úmido, e logo vi, pela luz vacilante de minha tocha, que uma parede nua, manchada pela umidade, impedia a passagem. Voltando sobre meus passos, dei com os olhos num pequeno alçapão com uma argola, o qual jazia bem embaixo dos meus pés. Parando, consegui erguê-lo com certa dificuldade, após o que uma abertura estreita se revelou, da qual exalavam emanações nocivas que fizeram crepitar a chama da tocha, revelando ao clarão mais forte o topo de um lanço de degraus de pedra.

Tão logo a tocha que introduzi nas profunduras repulsivas ardeu livre e vivamente, comecei a descer. Os degraus eram muitos e conduziam a um corredor calçado de pedras que eu sabia devia levar ao subsolo mais embaixo. Esse corredor pareceu-me de grande extensão, terminando numa porta maciça de carvalho, sobre a qual a umidade do lugar escorria em gotas e que resistiu energicamente às minhas tentativas de abri-la. Cessando, depois de algum tempo, meus esforços nesse sentido, recuei alguns passos rumo aos degraus, e então subitamente experimentei um dos mais profundos e enlouquecedores choques que uma mente humana é capaz de receber. Sem nenhum aviso, ouvi ranger a porta atrás de mim, sobre os mancais enferrujados, abrindo-se devagar. Seria impossível analisar as minhas sensações imediatas. Confrontar-me num lugar tão completamente deserto quanto eu supunha ser o velho castelo com a evidência da presença de homem ou espírito produziu em meu cérebro um horror da mais aguda qualidade. Quando, por fim, me voltei e olhei para o local de onde vinha o som, meus olhos devem ter saltado das órbitas frente à imagem do que viram.

Ali, no corredor antigo, gótico, estava uma figura humana. Era a figura de um homem trajando um gorro e uma longa túnica medieval de cor escura. Seus cabelos longos e sua barba ondulante eram de uma tonalidade azul, intensa e terrível, e de uma profusão incrível. Sua testa, muito mais alta do que as dimensões usuais, suas faces, profundas e densamente sulcadas de rugas, e suas mãos longas e retorcidas, em forma de garras, eram de uma brancura marmórea, mortiça, como jamais vi em homem nenhum. Seu vulto, tão delgado quanto um esqueleto, curvava-se e quase se perdia por entre as dobras volumosas de sua peculiar indumentária. Mas o mais estranho eram os seus olhos, duas cavernas de pretume abismal, profundos na expressão do entendimento, porém inumanos no grau da malignidade. Fixavam-se sobre mim, perfurando minha alma com o seu ódio e prendendo-me ao lugar onde eu me encontrava.

Por fim, a figura falou numa voz trovejante cuja monotonia oca e malevolência latente me fizeram gelar. A linguagem em que o discurso se desdobrou era aquela forma deteriorada de latim que foi comum entre os homens instruídos da Idade Média e que se me tornou familiar em minhas pesquisas nas obras dos antigos alquimistas e demonólogos. A aparição falou da maldição que pendia sobre minha casa, falou-me de meu fim próximo, aludiu ao crime perpetrado por meu ancestral contra o velho Michel Mauvais e se demorou em discorrer sobre a vingança de Charles Le Sorcier. Falou-me de como Charles escapara em direção à noite, retornando mais tarde para matar Godfrey, o herdeiro, com uma flecha, quando se aproximou o dia em que este completaria a idade que o seu pai tinha na época do assassinato. Falou de como retornara à propriedade e se estabelecera, incógnito, na câmara subterrânea já naquela época deserta, cujo vestíbulo agora emoldurava o vulto medonho do narrador; falou de como apanhara Robert, filho de Godfrey, num campo, e metera veneno em sua garganta, e o deixara para morrer na idade de trinta e dois, mantendo assim as infames previsões de sua maldição vingativa. Nesse ponto, ficou a meu encargo imaginar a solução do maior de todos os mistérios, isto é, o modo como a maldição tinha sido cumprida desde o tempo em que Charles Le Sorcier, segundo a natureza, deveria ter morrido, já que o homem entrou em digressões acerca dos profundos estudos alquímicos dos dois magos, pai e filho, discorrendo mais particularmente sobre as pesquisas de Charles Le Sorcier quanto ao elixir que garantiria vida e juventude eterna a quem dele bebesse.

Seu entusiasmo pareceu expulsar, por um momento, de seus olhos a negra malevolência que tanto me perturbara no princípio; porém de repente o brilho feérico retornou e, com um som chocante parecido ao cicio de uma serpente, o estranho ergueu um frasco de vidro com o intuito evidente de dar fim à minha vida, tal como Charles Le Sorcier, há seiscentos anos, liquidara com a do meu ancestral. Alertado por algum instinto de autopreservação e autodefesa, quebrei o feitiço que tinha me mantido imóvel desde então e assestei a tocha quase apagada contra a criatura que ameaçava minha existência. Ouvi o frasco quebrar-se de modo inofensivo contra as pedras do corredor, enquanto a túnica do estranho pegava fogo e iluminava a horrível cena com uma radiância fantasmal. O grito de pavor e malícia impotente emitido pelo quase assassino pareceu demais para os meus nervos, já mais que abalados, e tombei de bruços sobre o piso lodoso, num completo desmaio.

Quando, por fim, meus sentidos retornaram, tudo jazia imerso numa escuridão amedrontadora, e minha mente, lembrando-se do ocorrido, recuava frente a ideia de descobrir o que quer que fosse, porém a curiosidade prevaleceu. Quem, perguntei-me, era esse homem do mal, e como teria penetrado no castelo? Por que procuraria vingar a morte de Michel Mauvais e como a maldição teria sido efetivada ao longo de séculos, desde o tempo de Charles Le Sorcier? A ameaça dos anos fora retirada de sobre meus ombros, pois eu sabia que aquele a quem eu tinha vencido era a fonte de todo o perigo que me ameaçava devido à maldição. E, agora que estava livre, ardia no desejo de saber mais acerca da coisa sinistra que tinha assombrado minha linhagem durante séculos e que fizera de minha própria juventude um longo e contínuo pesadelo. Determinado a fazer maiores explorações, saquei do bolso uma pedra e um objeto metálico e acendi a tocha ainda não utilizada que trazia comigo.

Primeiramente, a luz revelou a forma distorcida e negra do estranho misterioso. Os olhos horrendos estavam fechados agora. Fugindo à visão, desviei-me e entrei na câmara que havia para além da porta gótica. Encontrei lá o que parecia ser um laboratório de alquimista. Num dos cantos havia um monte de metal amarelo e reluzente que faiscou fantasticamente à luz da tocha. Talvez fosse ouro, mas não parei para examinar, pois me achava estranhamente afetado por tudo o que me ocorrera. Ao fundo do cômodo havia uma abertura que dava para uma das ravinas selvagens da floresta negra ao pé da colina. Cheio de espanto, mas conhecendo já o modo como o homem obtivera acesso ao chateau, retrocedi. Intentara passar pelo que restou do estranho sem lhe voltar a face, mas, quando me aproximei do corpo, pareceu-me emanar dele um ruído débil, tal como se a vida não se tivesse extinguido de todo. Atônito, voltei-me para examinar a figura carbonizada e encarquilhada que jazia sobre o piso.

Então, de súbito, os horríveis olhos, mais negros até do que a face requeimada em que se incrustavam, abriram-se numa expressão que eu não soube interpretar. Os lábios arruinados tentaram articular palavras incompreensíveis. Em dado momento, captei o nome de Charles Le Sorcier, e novamente tive a impressão de que as palavras “anos” e “maldição” brotavam da boca contorcida. No entanto ainda não havia como atinar com o sentido de seu discurso desconexo. Frente à minha evidente ignorância quanto ao significado, os olhos de breu, mais uma vez, me fuzilaram malignamente, a ponto de que, mesmo reconhecendo a completa impotência de meu oponente, estremeci ao olhar para ele.

De repente, aquele resto, animado por um último ímpeto de força, levantou sua lamentável cabeça do piso úmido e lodoso. Por fim, como eu não me movesse, paralisado de medo, conseguiu falar e, no seu derradeiro sopro, gritou estas palavras que desde então têm assombrado todos os meus dias e as minhas noites. “Tolo!”, berrou, “Não consegue adivinhar meu segredo? Não tem cérebro para reconhecer a vontade que durante séculos levou a cabo a terrível maldição contra a casa? Não lhe falei a respeito do elixir da vida eterna? Não sabe como o segredo da Alquimia foi resolvido? Já lhe digo: fui eu! eu! eu! que vivi por seiscentos anos para conduzir minha vingança – pois sou Charles Le Sorcier!”


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UMA NOITE TERRÍVEL - Conto Humorístico de Terror - Anton Tchekhov



UMA NOITE TERRÍVEL

Anton Tchekhov

(1860 - 1904)

 

Empalidecendo, Iván Ivanovitch Panihidin começou a história com emoção:

 — Uma densa névoa cobria a cidade quando, na noite de Ano Novo de 1883, eu regressava a casa. Passando a noite com um amigo, entretivemo-nos em uma sessão espírita. As ruelas que eu tinha que atravessar estavam escuras e eu tinha que andar quase às apalpadelas. À época, eu vivia em Moscou, em um bairro distante. O caminho era longo; os pensamentos, confusos; tinha o coração oprimido...

“Declina tua existência!... Arrepende-te”, dissera o espírito de Spinoza, que havíamos consultado.

Ao pedir-lhe que me dissesse algo mais, não apenas repetiu a mesma sentença, como acrescentou: “Esta noite.”

Não creio no espiritismo, mas as ideias e mesmo as alusões à morte me impressionam profundamente. Não se pode postergar ou prescindir da morte; mas, apesar de tudo, ela é uma ideia que nossa natureza repele. Então, ao encontrar-me no meio das trevas, enquanto a chuva caía sem cessar e o vento uivava lastimosamente, quando em meu redor não se via um ser vivo, não se ouvia uma voz humana, minha alma estava dominada por um terror incompreensível. Eu, homem sem superstições, corria a toda pressa, temendo olhar para trás. Tinha medo de que, ao voltar-me, a morte aparecesse diante mim sob a forma de um fantasma.

Panuhidin suspirou e, tomando um gole d’água, continuou:

— Aquele medo infundado, mas irreprimível, não me abandonava. Subi quatro andares de meu prédio e abri a porta do meu quarto. Meu modesto cômodo estava escuro. O vento gemia na chaminé, como a queixar-se por ficar lá fora.

A se crer nas palavras de Spinoza, a morte viria esta noite, acompanhada deste gemido: “brrrrr!”... Que horror!... Acendi um fósforo. O vento aumentou, convertendo o gemido num uivo furioso. Os postigos debatiam-se como se alguém os golpeasse.

“Pobre dos desabrigados numa noite desta”, pensei.

Não pude prosseguir em meus pensamentos. À chama amarela do fósforo, que iluminava o quarto, um espetáculo inverossímil e horrendo sucedeu diante dos meus olhos. Infelizmente, uma rajada de vento não alcançou o meu fósforo. Se alcançasse, evitaria a visão que me eriçou os cabelos... Gritei, dei um passo à porta, e, louco de terror, de espanto e de desespero, fechei os olhos.

No meio do quarto havia um ataúde.

Embora o fósforo tivesse permanecido aceso por pouco tempo, o aspecto do ataúde ficou gravado em minha mente. Era de brocado rosa, com galão dourado sobre a tampa. O brocado, as alças e os pés de bronze indicavam que o defunto havia sido rico; a julgar pelo tamanho e cor do ataúde, o defunto devia ser uma jovem de alta estatura.

Sem pensar ou deter-me, saí como um louco e me lancei escadas abaixo. No corredor e na escada, tudo era escuridão. Meus pés se enredavam no sobretudo. Não entendo como não caí e quebrei os ossos. Na rua, apoiei-me a um poste e procurei acalmar-me. Meu coração pulsava. A garganta estava ressequida. Não me assustaria se encontrasse em meu quarto um ladrão, um cão raivoso, um incêndio... Não me assustaria se o teto tivesse desmoronado... Tudo isto é natural e concebível. Mas, como um caixão de defunto foi parar no meu quarto? Um ataúde caro, evidentemente destinado a uma jovem rica. Como havia ido parar no pobre cômodo de um empregado insignificante? Estaria vazio, ou haveria um cadáver em seu interior? E quem seria a infeliz que me fez tão terrível visita? Mistério!

Era um milagre ou um crime. Eu perdia a cabeça com conjecturas. Em minha ausência, a porta estava sempre trancada, e somente sabiam  o lugar onde escondia a chave os meus melhores amigos. Mas eles não iriam enfiar um ataúde em meu quarto. Era possível presumir que o agente funerário o tivesse trazido por equívoco. Mas, em tal caso, não iria fazê-lo sem cobrar o preço, ou, pelo menos, um sinal.

Os espíritos haviam profetizado a minha morte. Acaso haviam me dado o esquife?

Eu não acreditava — e continuo sem crer — no espiritismo. Mas semelhante coincidência era capaz de desconcertar qualquer um. Era impossível. Sou um medroso, um frouxo. Fora uma alucinação. Ao voltar para casa, estava tão sugestionado que acreditei ver o que não existia. Claro! O que mais poderia ser?

A chuva me encharcava; o vento sacudia-me o gorro e rodopiava-me o sobretudo. Eu estava pingando... Sentia frio... Não podia ficar ali. Mas para onde iria? Voltar ao quarto e encontrar-me outra vez em frente do ataúde? Isto era impensável. Enlouqueceria se voltasse a ver aquele féretro, que provavelmente continha um cadáver. Decidi passar a noite na casa de um amigo.

Panihidin, secando a fronte banhada de suor frio, suspirou e continuou a sua narrativa:

 — Meu amigo não estava em casa. Depois de chamar várias vezes, convenci-me de que ele estava ausente. Procurei a chave detrás da viga, abri a porta e entrei. Apressei-me em tirar o sobretudo molhado, lançando-o ao chão. Deixei-me desabar no sofá. As trevas eram completas. O vento rugia com mais força. Na torre do Kremlin soou o toque das duas. Peguei um fósforo e acendi. Mas a luz não me tranquilizou. Ao contrário: o que vi me encheu de horror. Vacilei um momento e fugi como um louco daquele lugar. Na sala de meu amigo, vi um caixão de defunto... Duas vezes maior que o outro.

A cor marrom conferia-lhe um aspecto lúgubre... Por que se encontrava ali? Não havia dúvida: era uma alucinação... Era impossível que em todos os cômodos houvesse ataúdes. Evidentemente, onde quer que eu fosse, a todo lugar eu levaria comigo a visão da última morada.

Pelo visto, eu padecia de uma enfermidade nervosa, em razão da sessão espírita e das palavras de Spinoza.

“Estou ficando louco”, pensava, segurando a cabeça. “Meu Deus, o que posso fazer?”

Sentia vertigem. As pernas dobravam. Chovia a cântaros. Estava molhado até os ossos, sem gorro e sem sobretudo. Impossível voltar para apanhá-los. Estava seguro de que tudo aquilo era uma alucinação. Entretanto, o terror me aprisionava, tinha a face inundada de suor frio, os cabelos em pé...

Eu estava ficando louco e me arriscava a pegar uma pneumonia. Por sorte, recordei que, na mesma rua, vivia um médico conhecido meu, que havia assistido também à sessão espírita. Dirigi-me à sua casa. À época, era solteiro e morava no quinto andar de uma casa grande. Meus nervos tiveram de suportar um novo abalo... Ao subir a escada, ouvi um ruído atroz. Alguém descia correndo, fechando violentamente as portas e gritando com todas as forças: “Socorro, socorro! Porteiro!”.

Momentos depois via aparecer uma figura sombria, que descia quase rolando as escadas.

 — Pagostof! — exclamei, ao reconhecer meu amigo médico. — É você? O que houve?

Detendo-se, Pagastof agarrou-me a mão convulsivamente. Estava lívido, respirava com dificuldade, tremia... e tinha os olhos desfocados, extremamente abertos...

 — É você, Panihidin? — perguntou-me com voz rouca. — É você mesmo? Você está pálido como um morto... Meu Deus! Não é uma alucinação? Você me dá medo!...

 — Mas, o que aconteceu? — perguntei, lívido.

 — Meu amigo, graças a Deus é você realmente! Como estou feliz em vê-lo! A maldita sessão espírita transtornou os meus nervos. Imagine o amigo o que apareceu em meu quarto, quando voltei? Um ataúde!

Não pude crer e lhe pedi que repetisse o que dissera.

 — Um ataúde, um ataúde mesmo! — disse o médico, extenuado, na escada. — Não sou covarde. Mas o próprio diabo se assustaria encontrando um caixão no quarto, depois de uma sessão espírita.

Então, balbuciando e gaguejando, contei ao médico que eu também havia visto dois ataúdes. Por uns instantes, ficamos mudos, olhando-nos fixamente. Depois, para nos convencermos de que tudo aquilo não era um sonho, começamos a nos beliscar.

 — Os beliscões doem em nós — disse finalmente o médico. — Isto significa que não estamos dormindo e que os ataúdes — o meu e os seus — não são fenômenos óticos, mas que existem realmente. O que faremos?

Passamos uma hora entre conjecturas e suposições. Estávamos gelados e, por fim, resolvemos dominar o terror e entrar no quarto do médico. Avisamos ao porteiro, que subiu conosco. Ao entrar, acendemos uma vela e vimos um ataúde de brocado branco com flores e borlas douradas. O porteiro se persignou com devoção.

 — Vamos verificar — disse o médico, tremendo — se o ataúde está vazio ou ocupado.

Depois de muito vacilar, o médico se aproximou e, travando os dentes de medo, levantou a tampa. Lançamos um olhar e vimos que... o ataúde estava vazio. Não havia cadáver, mas apenas uma carta, que dizia:

“Querido amigo:

Sabe você que o negócio do meu sogro vai em bancarrota: tem muitas dívidas. A qualquer dia, virão penhorar-lhe os bens. Isto nos arruinará e desonrará. Assim, decidimos esconder as coisas de maior valor, e como a fortuna de meu sogro consiste em ataúdes — os mais afamados em nossa cidade —, procuramos pôr a salvo os melhores. Estou certo que você, como um bom amigo, me ajudará a defender a honra e a fortuna, e por isto lhe envio um caixão, rogando ao amigo que o guarde até que passe o perigo. Precisamos da ajuda de amigos e conhecidos. Não nos negue este favor.

 

O ataúde ficará apenas uma semana em sua casa. A todos que se consideram amigos meus, mandei caixões como este, contando com nobreza e generosidade de todos vocês.

Seu amigo,

Tchelustin.” 

Depois daquela noite, tive de submeter-me a um tratamento dos nervos por três semanas. Nosso amigo, o genro do fabricante de ataúde, salvou sua fortuna e honra. Agora tem uma funerária e vende mausoléus. Mas seu negócio não prospera, e às noites, ao retornar a casa, temo encontrar junto à minha cama um catafalco ou um mausoléu.

 

 Versão em português (tradução indireta) de Paulo Soriano.

 


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OS ESPECTROS DA MORTE (Tradições Galegas: A Companha) - Conto Clássico de Terror - Juan de Dios de La Rada



OS ESPECTROS DA MORTE

(Tradições Galegas: A Companha)

Juan de Dios de La Rada

(1827 – 1901)

Tradução de Paulo Soriano

 

I

Logo será meia-noite.

A trêmula luz da Lua esparge a sua morna claridade a intervalos regulares, iluminando com  matizes sombrios o fundo do vale.

Uma casa rodeada de ciprestes se destaca lugubremente em meio à parda vegetação do terreno, qual os horrendos fantasmas lendários  que vagam em torno dos escombros ruinosos de um castelo.

A disforme silhueta daquela pobre mansão e dos funéreos arbustos ora se encolhe, ora se prolonga, ora desaparece completamente, conforme a caprichosa viragem das sombrias nuvens que cruzam a atmosfera.

Não há nada que embeleze a escuridão do céu ou o silêncio aterrador da paisagem.

A natureza adormecida parece apenas despertar não para tanger o ouvido com a música harmoniosa da torrente, mas com o surdo murmúrio da água deslizando de pedra em pedra; não com a delicada cautela do rouxinol, mas com o estridente ruflar da cigarra; com aquele desagradável sonido que tantas vezes nos vêm à lembrança quando ouvimos a lenha verde a ranger no fogo.

Os cães lançam uivos tristes e prolongados; e, se o vento agita as flores, assim o faz para produzir  sibilos mais imponentes que os dos monstruosos répteis da América.

Que gênio maléfico repousa em uma morada de tão sombrios arredores?

II

Entre na vivenda dos Ciprestes.

O que o assusta?

Ah! É o pobre Ali, o fiel mastim que insiste em ladrar teimosamente.

Não tenha medo; abra a porta e ele vai cobri-lo de carícias.

Dê-lhe um pedaço de pão. Há tanto tempo que ele não come!

Mas... o que o detém? Suba sem demora. Não ouve um soluço?

É o gemido de uma mulher. Não faça barulho; apenas a escute:

— Meu Deus! Meu Deus! Não o leves ainda. Ainda não é a hora! — exclama uma anciã ajoelhada aos pés de um leito mesquinho, apertando violentamente um tosco crucifixo de madeira contra o peito.

— Sai daqui! Vai embora! — replicou o homem doente, sacudindo convulsivamente com um pé o ombro da anciã lastimosa.

— Lembra-te de Deus! Nicolau, lembra-te do mal que fizeste neste mundo! — insistiu a mulher, lançando gemidos desgarrados.

— Deixa-me! Eu não estou morrendo, não... Eu quero ver o meu filho, o meu Manuel... para lhe dar a chave.

Dizendo isto, Nicolau, pelejando para se erguer da cama, mostrava, com um ignóbil e repugnante sorriso, uma chave que seus dedos descarnados apertavam violentamente.

 — Não pensaste senão em ouro durante tua vida inteira: olvidaste as tuas obrigações, a educação do teu filho, o socorro dos desvalidos, a observância dos deveres religiosos. Agora, os últimos momentos da tua vida se aproximam; e, surdo à voz da tua alma, só tens em vista a riqueza miseramente adquirida.

— Queres me matar? — perguntou o enfermo com uma voz rouca e sufocada, estendendo os punhos num gesto de cólera.

A pobre esposa deixou que deslizassem as lágrimas e beijou fervorosamente a imagem do Crucificado.

Nicolau teria cerca de sessenta anos. Sobre o seu crânio, nu e debastado, flutuavam apenas crespas e sujas mechas brancas; os seus olhos, fundos e brilhantes, estavam rodeados por uma curva roxa; as suas maçãs, salientes e ossudas, destacavam-se ao lado de um nariz fino e aquilino, cuja ponta avançava sobre lábios trêmulos e descoloridos. Rugas profundas sucavam-lhe o rosto e as sobrancelhas arqueadas, unidas pelas extremidades, conferiam àquela fronte comprimida e recuada, àquela fisionomia amarelada, o tom sombrio da mais sórdida avareza. A cama em que ele jazia eram três tábuas sustentadas por dois deletérios cavaletes, e, sobre eles, estendia-se um mesquinho colchão de palha coberto por dois lençóis sujos, além de   um cobertor, em que a agulha se empenhara para fazê-lo triunfar sobre as injúrias do tempo.

Próximo à cabeceira do doente havia um armário aberto e pregado na parede. Em frente à cama, uma porta ligava aos demais cômodos da casa.

III

 Havia, detrás da cama, um gabinete guarnecido de  janela.

Nesta janela, apenas um painel de vidro estabelecia relação entre o exterior e o interior.

Imóvel, e com os lábios quase tocando o vidro gelado, estava um jovem que contava, no máximo, dezessete anos.

Se, aproveitando o fugaz raio de lua, que às vezes iluminava o seu semblante, quiséssemos examiná-lo, nada chamaria a atenção naquela cara gorda, redonda e morena, a não ser o branco esmalte dos dentes, que pareciam de marfim polido.

Este rapaz era o filho do avarento Nicolau. Era Manuel, a quem o moribundo tanto desejava ver. De seu escondido mirante, parecia preocupado com o que descobria lá fora. Falava alto, abria os olhos, e às vezes tremia, revelando sempre agitação e surpresa.

— Estão se aproximando — disse ele —, e já chegam ao nosso curral; um, dois, três... são sete! Virgem Maria, protegei-me!

E o atemorizado jovem, prosseguindo naquele monólogo, embaciava a superfície pálida do vidro com a sua entrecortada respiração.

Mas era em vão que o seu hálito umedecia o vidro transparente, porque a sua mão apressada limpava-o com o lenço; e o camponês, estático, paralisado, acorrentado a seu posto, satisfazia, com os olhos assustados, a anelante curiosidade que o devorava.

Eis o que ele acreditava ver e ouvir:

O vento rugia impetuosamente, trazendo as agudas e intermitentes vibrações de um sino tocando a finados.

Uma nuvem de pássaros, negros e enormes, agitava-se, com aterrorizante voo, em torno dos ciprestes do pátio, lançando, por vezes, dolentes e agudos grasnados, que ressonavam nos ouvidos de Manuel com a mística entoação de um De profundis.

No curral, acabavam de entrar, envolvidos em sudários flutuantes, brancos como flocos de neve, sete fantasmas que levavam nas mãos círios rutilantes, consumidos por pálidas chamas.

Manuel tremia incontrolavelmente: a tétrica dança — que, diante dos seus olhos assombrados, os espectros encetavam — o encheu de estupor, entorpeceu as faculdades da sua alma e concentrou toda a seiva  de sua vida na vista e no ouvido.

Não havia dúvida: diante dos seus olhos estava a Companha[1], aquela sociedade de espectros noturnos que quase todos os camponeses galegos acreditam ter visto, em algum momento da sua vida, ao cruzar um monte, bordejar um rio, sair de casa, atravessar um bosque ou saudar um cemitério.

E, tal qual, nas longas noites de inverno, ouvira descrita a aparição da Companha, aglomeravam-se e se agitavam diante dos seus olhos os sinistros visitantes, cujas luzes lívidas e oscilantes enchiam-no de pavor.

A Companha formou um círculo em cujo centro brilhava uma luz mais exuberante que as outras. Aquela roda girava como uma grinalda de estrelas, e ia-se estreitando de um modo fantástico e misterioso, até quase suprimir a distância entre o centro e a circunferência.

Um bando de corujas, mochos e morcegos revoluteava junto à janela em que estava Manuel.

A luz da Lua ia-se desvanecendo: parecia prestes a extinguir-se.

As aves noturnas apinhavam-se diante da janela com tal tenacidade que só a intervalos permitiam ao jovem vislumbrar a dança dos fantasmas.

De súbito, uma coruja passou voando, roçando com as asas o vidro da janela, e lançou um prolongado crocitar que fez o Manuel recuar de assombro.

A porta do quarto do enfermo abriu-se e a figura da anciã desenhou-se  sob o dintel.

 Manuel cravou-lhe um olhar incerto, quase estúpido.

— Roga a Deus por teu pai! — exclamou a velha, com uma entonação solene, apontando para o alto.

— Ele morreu? — perguntou o rapaz, precipitando-se para a janela como se absorto e fora de si.

Não havia nada no pátio; as aves e as luzes haviam desaparecido; só ao longe se podia ouvir o tilintar de um sino.

Com um rápido olhar, Manuel varreu o fundo da paisagem, e pensou que distinguia, entre névoa e escuridão, seis luzeiros cujo brilho mortiço ia-se dissipando à distância.

— É verdade! É verdade! — repetia o jovem, golpeando-se na fronte. — Sete vieram e só vejo seis! Mataram-no ou lhe puseram a luz negra! Oh, minha mãe! Velemos o meu pai! As portas do céu fecharam-se para ele por toda eternidade!

Mãe e filho caíram de joelhos.

IV

A casa dos Ciprestes — onde o pobre não encontrava a esmola, nem a viúva o amparo, nem o sedento a água, nem o desnudo o abrigo — foi, desde a morte de Nicolau, refúgio dos desvalidos, asilo dos desgraçados, consolo de infortúnios e calamidades.

Dizia-se na aldeia que a Companha viera buscar a alma do falecido; mas o seu filho e a sua viúva, por meio de esmolas e boas obras, fizeram desaparecer a odiosidade que a ambiciosa conduta do usurário havia atraído àquela casa.

 

Fonte: “La Ilustración de Madrid”, ano I nº 14, edição de 27 de julho de 1870.



[1] A Companha, ou mais precisamente Santa Companha, é uma lendária tradição galego-portuguesa descrita como uma procissão de defuntos ou almas penadas.

 


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