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A CORDA - Conto Clássico Cruel - Charles Baudelaire

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A CORDA Charles Baudelaire (1821 – 1867) Tradução de autor anônimo do séc. XX   A Édouard Manet.   — As ilusões — dizia-me um amigo — são talvez tão inumeráveis quanto as relações dos homens entre si, ou dos homens com as coisas. E quando a ilusão desaparece, isto é, quando vemos o ser ou o fato tal como ele existe fora de nós, experimentamos um estranho sentimento, misto de saudade do fantasma desaparecido e de agradável surpresa ante a novidade, ante o fato real. Se existe um fenômeno evidente, trivial, sempre semelhante, e sobre cuja natureza seja impossível a gente enganar-se, é o amor materno. Mãe sem amor materno é coisa tão difícil de imaginar, como luz sem calor; não é, portanto, inteiramente legítimo atribuir ao amor materno todas as ações e as palavras de uma mãe, relativas a seu filho? Entretanto, escutem esta pequena história, em que fui singularmente mistificado pela ilusão mais natural. Minha profissão de pintor leva-me a fitar atentamente os rostos, as fisionomi...

OS ABISMOS DO CORAÇÃO - Narrativa Clássica Cruel - Humberto de Campos

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OS ABISMOS DO CORAÇÃO Humberto de Campos (1886 – 1934)   “Uma colaboração de Shakespeare e de Victorien Sardou teria sido capaz, apenas, de conceber, para a cena, o assombroso drama passional, que terminou recentemente, em Bruxelas, perante a Corte Militar, com a absolvição do major de artilharia Scouvemont, assassino da sua mulher. Os autores de ‘Otelo’ e da ‘Tosca’, eles próprios, teriam hesitado, talvez, ante a inverossimilhança de detalhes desta horrível história de amor, de crime e. de sangue". É com essas palavras de homem abalado ainda pelas particularidades da tragédia, que Gérard Harry procede, em uma correspondência da Bélgica para a imprensa parisiense, o formidável romance humano, ou desumano, que é objeto de comentários e discussões ainda hoje ali, nos jornais e na tribuna parlamentar. Ao rebentar a guerra, em 1914, o tenente Scouvemont, que contava então trinta e quatro anos, foi dos primeiros a correr à fronteira, para deter o inimigo. Nenhum outro oficial da sua ar...

O HOMEM QUE VIU O DIABO - Conto Clássico Sobrenatural - Lucília

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O HOMEM QUE VIU O DIABO Lucília (Séc. XX)   Apesar de gostar imensamente de ler livros de aventuras e contos, nunca pensei em fazer literatura, pelo menos nunca ousei tal; fiquem, portanto, os leitores convencidos que relato simplesmente o que ouvi da própria pessoa com quem se passou o caso, e que, ao contá-lo, não pensava absolutamente em “épater” [1] , como dizem os franceses; verifiquei, depois, que a referida pessoa merecia todo o crédito. Viajávamos pelo interior brasileiro e hospedamo-nos numa fazenda em Minas, onde deveríamos permanecer algum tempo. Gente simples e boa — porém, de instrução rudimentar e supersticiosa —, falava muito em Saci Pererê, lobisomem, fantasmas etc. , o que muito me divertia em falta de outras distrações. A casa estava situada num outeiro e era rodeada de um pátio onde os peões, de vez em quando, experimentavam os potros bravios que vinham do mato com as crinas emaranhadas e cheios de carrapichos; estes espetáculos tinham para nós, da cidade, um sab...

AGNUS DEI - Conto de Horror - Danilo Seraphim

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AGNUS DEI Danilo Seraphim   Um Chevrolet Opala 2.5 Especial azul roncando forte cruzava a Avenida XV de março em Caveiras ao Norte do Paraná. O carro de lataria amassada, com bancos rasgados e de aparência horrível saíra da Colina dos Monges em direção à cidade. Era mais uma noite sem nada de novo na rotina de pequena “Província”. Alguns jovens estudantes, após as aulas ou até mesmo dando uma escapada no meio delas, observavam atentamente a movimentação, sentados nas cadeiras das pequenas mesas do trailer de lanches “Monaum”. Ali, era o ponto de encontro e era pra lá que alguns deles iam à época, para conversar um pouco, sempre na esperança de pintar algum “lance” de paquera ou namoro. Naquela noite, o opala azul, chamou a atenção, porque ia e voltava constantemente rumo a uma estrada de chão batido que sumia em direção à Colina dos Monges. Eles estranharam um pouco, trocaram olhares, mas voltaram a falar dos assuntos que rolavam na época. Zélia Barros era uma moça bonita, filha d...

O STRIGOI DE SANTO AMARO - Conto de Terror - Paulo Alexandre Filho

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O STRIGOI DE SANTO AMARO Paulo Alexandre Filho   O cheiro de cânfora e sangue seco impregnava o consultório do Doutor Victor Ionescu, escondido em um sobrado antigo da Rua da Aurora. À luz bruxuleante dos lampiões a gás, sua silhueta estrangeira — alta, pálida, vestida sempre de preto — parecia mais uma sombra saída dos contos que assustavam as crianças do que um médico de reputação. Mas em Recife, onde a febre amarela deixou tantos lares em luto, até um homem de hábitos suspeitos era tolerado… enquanto curasse. O Doutor era romeno de nascimento e havia escolhido a capital pernambucana como seu novo lar, atraído por uma estranha semelhança que só ele enxergava entre Recife e sua Bucareste natal. Chegou por volta da época da coroação de D. Pedro II — ou talvez antes — e se estabeleceu aos poucos até conseguir obter alguma estabilidade e seu próprio imóvel para viver e trabalhar. Cirurgião de formação erudita — fruto de estudos em universidades europeias de nomes impronunciáveis —, I...