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O HABITANTE DE CARCOSA - Conto Clássico de Terror - Ambrose Bierce

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O HABITANTE DE CARCOSA Ambrose Bierce (1842 – 1914?) Tradução de Paulo Soriano “ Pois há diversas espécies de morte. Em algumas, o corpo é preservado; noutras, desaparece por completo, juntamente com o espírito. Isto acontece, geralmente, em solidão (conforme a vontade de Deus), e, não sendo visto este final por ninguém, dizemos que o homem se perdeu para sempre ou que partiu numa grande viagem, o que é de fato verdade. Mas, às vezes, este fato acontece na presença de muitos, cujo testemunho é a prova. Em uma espécie de morte, o espírito também morre, e se sabe de casos em que tal ocorreu quando o corpo continuou vivo por muitos anos. E, às vezes, como verdadeiramente testificado, o espírito morre ao mesmo tempo em que o corpo, mas, depois de algum tempo, ergue-se novamente no mesmo lugar em que o corpo se decompôs.” Meditando sobre estas palavras de Hali (que Deus o tenha), e perguntando-me qual seria o seu verdadeiro significado, como quem domina certos indícios, mas receia qu...

NUM DOMINGO À NOITE - Conto Clássico de Horror - Rafael Barrett

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NUM DOMINGO À NOITE Rafael Barrett (1876 – 1910) Tradução de Paulo Soriano — E você, não nos conta nenhuma aventura amorosa, Sr. Martinez? O famoso financista sacudiu, com o dedo mindinho adornado de brilhantes, as cinzas do magnífico charuto, sorriu com aquele desdém que confere ao seu rosto engordurado uma expressão de desencanto petulante, e nos disse: — Vou contar-lhes sobre a minha primeira aventura. Eu era então estudante, e a minha família me mandava, de Madri, uma mesada de cem pesetas. Mas eu já tinha todas as despesas pagas. As contas de alojamento, roupa, livros e matrículas eram cobertas por lá. As cem pesetas iam para o meu bolso. Não havia como aumentá-las, porque o meu pai entendia tanto de negócios quanto eu. O meu orçamento era dividido assim: quatro reais por dia para o café, com a gorjeta incluída; dois para o bilhar, entretenimento imprescindível; um para o bonde, quantia módica; três para o teatro, divertimento partilhado pela rapaziada. O resto era consagr...

YEI - Conto de Terror - Diony Scandela

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YEI Diony Scandela Mateo continuava ajoelhado diante do túmulo de sua esposa. O reverendo Fullerton lia algumas linhas do Salmo 121; ambas as figuras, como dois cactos no deserto, pareciam combinar com aquele cemitério do Arizona. A tarde trouxe as lembranças de uma vida passada cheia de violência, na qual Mateo Estévez cumpriu seu papel de fora da lei do Velho Oeste; junto a Bartolo “Apolion” Beans, líder de um bando perigoso que estuprou, assassinou e exterminou condados em nome do Mal. Foram anos sangrentos nos quais o homem branco e os peles-vermelhas sofreram por igual. Com a morte de sua esposa (pelas mãos de Bartolo), Mateo Estévez buscou refúgio em Deus, aproximando-se da Igreja Batista do reverendo Horace Fullerton. O pastor, com alguma influência nos tribunais, reduziu a pena de Mateo a dois anos de serviço social. Varrer as ruas, limpar os escritórios de alguns deputados e cuidar das terras do governador era melhor do que apodrecer em uma prisão do Arizona. Fullerton,...

O PARRICIDA - Conto Clássico Fúnebre - J. H. Rosny

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O PARRICIDA J. H. Rosny [Joseph-Henri-Honoré Boex (1856 – 1940) e Séraphin-Justin-François Boex (1859 – 1948)] Tradução de autor anônimo do início séc. XX Estávamos todos em silêncio. A noite estava maviosa. Divisava-se uma ligeira névoa sobre o rio. As faias encarnadas, as acácias os sicômoros do parque cochichavam baixinho. Erguia-se do roseiral um aroma tão suave que apetecia viver uma eternidade. As estrelas subitamente se tornaram pálidas, um clarão cor de cobre se foi elevando cada vez mais, pouco depois surgiu a lua enorme e cor de coral na chanfradura das colinas. Então Carlos teve um prolongado calafrio e encobriu com as mãos o rosto. Eu o ouvi suspirar. — Que é isso? —disse eu, estupefato. — Tudo isto me faz lembrar uma noite horrível da minha infância — balbuciou elo sem levantar a cabeça — e sinto o coração confrangido… Ele quase nunca falava da sua infância e, quando o fazia, era sempre com pronunciada melancolia. Eu disse, mecanicamente: — A tua infância, ao qu...

A CORUJA - Conto de Terror - Danilo Seraphim

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A CORUJA Danilo Seraphim O que queres de mim a essa altura da madrugada a chirriar triste em minha janela como mau agouro do meu destino, bicho que desaparece ao dia e voltas a atormentar nas noites sombrias como esta. Levantei-me assustado e combalido de uma noite maldormida e o som da coruja carregado de mistérios denunciava um presságio da minha desgraça e mais uma vez me despertou ao lado da minha janela. Entre copos e garrafas de mais uma noite tormentosa, nos grilhões dos pensamentos que me prendiam e me torturavam, cambaleante fui até a cama e adormeci um pouco. O cheiro de Alice ainda estava lá, permeava o quarto e dilacerava minha alma como uma flecha impiedosa. Ela se foi… despareceu com fome, fraca e adoecida. Certamente, a falta de recursos em um casebre parco e quase tombando dever ser o motivo desse abandono. Procurei por todos, procurei com todos, gritei em desespero, jurei que aceitava tudo, menos perdê-la; mas o meu brado foi em vão. Ela se foi talv...