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DESTINO - Conto Clássico de Terror - Ítala Gomes Vaz de Carvalho

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DESTINO (Conto de Natal) Ítala Gomes Vaz de Carvalho (1892 – 1948) Certamente aquela mulher já devia estar andando há bastante tempo alguns passos na frente de Maurício, ao longo dos passeios dos bulevares. O barulho da feira era ensurdecedor naquela noite de véspera de Natal. Havia “menèges” imensos e toda espécie e todo o feitio: cavalinhos e porcos cor-de-rosa andando à roda, carrinhos enfeitados de estilo Luís XV, onde se podiam sentar comodamente quatro pessoas, gôndolas venezianas e outras fantasias para seduzir o transeunte a tomar lugar num daqueles instrumentos de tortura para quem fica tonto andando à roda. Toda a calçada do bulevar estava tomada pelas barraquinhas do tiro ao alvo, os circos, as coleções de feras engaioladas, os fenômenos monstruosos, as casinholas dos faquires e a mulher que diz a boa sorte! Os cafés ao longo dos passeios regurgitavam de clientes. Música, “jazz”, luzes e cantores por toda parte. Os vendedores de amêndoas torradas e de castanhas assadas...

O VAMPIRO DE JOINVILLE - Conto de Terror - Rogério Silvério de Farias

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O VAMPIRO DE JOINVILLE Rogério Silvério de Farias A manhã nasceu úmida em Joinville, embalada por uma névoa fina que rastejava pelas ruas como um fantasma. O silêncio parecia mais denso que o habitual, como se a cidade, em sua velha elegância germânica, pressentisse algo que os homens, cegos em sua rotina, jamais perceberiam. Carlos pedalava lentamente sua bicicleta pelo calçamento irregular do centro histórico. O ranger dos pedais, somado ao chiado dos pneus no paralelepípedo molhado, parecia o único som pulsante naquele cenário que beirava o irreal. O vento frio roçava-lhe o rosto, trazendo consigo um cheiro agridoce de folhas mortas e um perfume de coisa antiga — algo que a própria Cidade das Flores parecia querer esquecer. E foi então que “ele” surgiu. Estático. Espectral. Sombrio… Inexplicável. Deslocado no tempo e no espaço. Ali, no meio da praça, um homem — se é que aquilo merecia tal definição — permanecia imóvel. Alto, esguio, envergava um paletó negro de corte antigo,...

UM HOMEM AGRADECIDO - Conto Clássico Insólito - George Auriou

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UM HOMEM AGRADECIDO George Auriou (1863 – 1938) Tradução de autor anônimo do séc. XX Há tempos, tendo necessidade de um secretário, alguém me recomendou um sujeito que tinha uma perna de pau, aconselhando-me que o tomasse a meu serviço, pois que, entre muitas virtudes, possuía a de ser um homem extraordinariamente agradecido. À vista da informação, marquei hora no meu escritório e, no dia seguinte, muito cedo, lá se apresentou o candidato. Era um homem de meia idade, completamente calvo e… perneta. — Sou eu — disse, apresentando-se — a pessoa que lhe foi recomendada. — Muito bem, queira sentar-se. Informaram-me que o senhor tem viajado muito. — É verdade. — Por onde andou? — Em 1893, abandonei Paris para dirigir-me ao Canadá. Mas, ali chegado, tomei logo o rumo do Oeste americano. — E por que ficou calvo? Alguma enfermidade do cabelo? — Não, senhor; um nativo pele-vermelha arrancou-me a pele da cabeça, com cabelo e tudo. — Permaneceu muito tempo no Oeste? — Não. Em...

À PORTA DO CEMITÉRIO - Conto Clássico de Terror - Carlos Leite

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À PORTA DO CEMITÉRIO Carlos Leite (Séc. XX) Não sei que pressentimento me atormentava naquela noite. Boêmio incorrigível, conhecia o Rio como um bom carioca e chegara de uma feita a embarcar pela madrugada, aliás em lugar perigoso do “bas fond”, para correr aventuras numa das ilhas do fundo da Guanabara. “ Seresteiro” impenitente, um nômade dentro da grande área da nossa capital, sentimental como a guitarra do gaúcho, à hora do “milongueio”, jamais quisera um método de vida. Olhava tudo por um prisma tão diferente! Nada de vínculos sociais, nem preconceitos religiosos. Ah, se pudesse ter vivido na época da mitologia, restaurar suas legendas tão suaves, ou seus ritos e as suas festas tão exóticas! Outras vezes, pensava ser um Gorki — o rei dos vagabundos — sem preocupações, a estudar a humanidade como tem que ser analisada. A vida do deserto me sorria — um beduíno tendo como companheiro o camelo inofensivo, longe do homem e mais próximo do chacal, menos perigoso que aquele. Tudo no ...

LANÇAMENTO: RELATOS FANTÁSTICOS – VOL. V – Revista Bilíngue (Português e Espanhol) - Edição Gratuita - Narrativas de terror, horror e ficção científica

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RELATOS FANTÁSTICOS – VOL. V Revista Bilíngue (Português e espanhol) Narrativas de terror, horror e ficção científica.   Nascida de uma parceria entre os sítios “Contos de Terror” (Paulo Soriano) e “Noticias Ciencia-Ficción” (Ricardo Manzanaro), a revista  RELATOS FANTÁSTICOS , cujo volume V publica-se agora,  reúne contos de autores clássicos e de colaboradores modernos de diversas nacionalidades nas línguas portuguesa e espanhola.   Autores Clássicos: Edgar Allan Pöe, Washington Irving, Gustavo Adolfo Bécquer e Horacio Quiroga. ​ Colaboradores e Colaboradoras: Alexandre Brea, Ângelo Brea, Belén Fernández Crespo, Campo Ricardo Burgos López, Carlos Enrique Saldívar, Daniel Frini, Dolo Espinosa, Gaizka Azkarete Saez, Marcelo Medone, Marco Eugenio Sánchez Arrate, Mephisto, Ricardo Manzanaro e Rogério Silvério de Farias. Edição: Free Bookes Editora Virtual. Formato: PDF. Para acessar e baixar ...

COLHEITA - Conto de Ficção Científica - Belén Fernández Crespo

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  COLHEITA Belén Fernández Crespo Tradução de Paulo Soriano “ Yes, there are aliens. No, we shouldn't contact them.” Stephen Hawking 1 O Sol oscila, como uma luz que agoniza ao sopro do vento. Ontem, o dia todo, mal se via um fulgor. Prendi a respiração, rezando para que não se apagasse, para que não fossem aqueles os nossos últimos oito minutos de vida, mas, finalmente, esta manhã, as brasas pareceram avivar-se. Olho pela janela. Vejo o tênue brilho, cinquenta por cento mais suave do que o que refulge durante uma nevasca, e tento capturá-lo na minha mente: recordar o calor, a chama da qual tanto fugi nos dias de verão, incomodada pela sensação asfixiante; preservar aqueles ocasos escarlates, adornados com nuvens azuis-anis. Nunca imaginei seria testemunha deste fenômeno. Presumi que, quando acontecesse, já estaríamos extintos. O fenômeno começou em 11 de novembro, há vinte dias. O Sol crepitava de forma diferente, como se perdesse a sua chama. Talvez devido a um...

SONATA PARA UM MUNDO NOVO - Conto de Ficção Científica - Daniel Frini

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SONATA PARA UM MUNDO NOVO Daniel Frini Tradução de Paulo Soriano A nave desintegrou-se ao cruzar um campo de asteroides enquanto viajava a 33% da velocidade da luz. Anteriormente, quando a IA teve certeza de que a desintegração seria inevitável, ordenou aos instrumentos que ativassem as cápsulas de segurança. Algumas se atomizaram, como a nave. Outras se puseram em direção ao planeta. Elas cruzaram o limite de Kármán a uma velocidade muito superior à de segurança e não conseguiram suportar o atrito e o calor resultante. Estilhaçaram-se na atmosfera, reduzindo-se a milhões de pedaços. A maioria não atingiu a superfície. Todas as cápsulas, exceto uma. No entanto, seu pouso foi violento e descontrolado. O reator quebrou e, em milissegundos, um pulso em forma de radiação ionizante e de nêutrons matou os que a ocupavam. Todos, salvo ele. Os gases neurais tiraram-no do sono da animação suspensa. O caos, ruído dos alarmes — intermináveis —, a fumaça e o cheiro penetrante e ácido o at...