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ESCUTANDO NAS TREVAS - Conto Clássico Sobrenatural - Maurice Renard

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ESCUTANDO NAS TREVAS Maurice Renard (1875 – 1939) Tradução de autor anônimo do séc. XX Na outra noite, estávamos sós, eu e Chamarais, na sala pequena do clube. Eu repousava simplesmente, sem preocupações. Chamarais desaparecera por trás de um jornal, que só lhe deixava as pernas a descoberto. De súbito, deixou cair o jornal e voltou para mim o rosto, com uma expressão insólita, no qual o espanto e perplexidade se estampavam fortemente. Nicolau de Clamarais é um homem de trinta e cinco anos, finamente educado e que revela em tudo uma extrema sensibilidade. Nenhuma massa adiposa se interpõe entre o mundo e ele. Conhecia-o havia apenas alguns meses, mas já uma intensa simpatia nos ligara. Por vezes, seu olhar, vibrante de inteligência, porém vagamente inquieto, intrigava-me, mas eu atribuía essa singularidade ao que ele havia sofrido durante a guerra. Sendo sua família residente em Reims, e tendo sido, ele próprio, gravemente ferido em combate para voltar e encontrar sua casa reduz...

UMA ESTRANHA EXPERIÊNCIA ONÍRICA - Narrativa Clássica de Horror - Ambrose Bierce

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UMA ESTRANHA EXPERIÊNCIA ONÍRICA Ambrose Bierce Tradução de Paulo Soriano (1842 – 1914?) Eu caminhava ao entardecer por uma vasta floresta de árvores desconhecidas. Ignorava de onde vinha e para onde ia. Sentia a imensidão da mata e tinha consciência de que eu era, ali, o único ser vivente. Enquanto caminhava contra o sol nascente, eu tinha a vaga sensação de que estava preso a algum feitiço, em expiação por um crime já esquecido, há muito tempo cometido. Mecanicamente e sem esperança, eu me movia sob os galhos das árvores gigantescas por uma estreita trilha que penetrava a solidão assombrada da floresta. Cheguei, enfim, a um riacho, que sombria e lentamente corria à minha frente, e vi que o caudal era um fluxo de sangue. Virando à direita, segui o seu curso por uma distância considerável, e logo cheguei a uma pequena clareira circular na floresta, esfumada por uma luz tênue e irreal, que me permitiu o vislumbre de um tanque profundo, de mármore branco, no centro dela. O tanque...

A CIDADE PARALISADA - Conto de Horror - Finn Audenaert

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A CIDADE PARALISADA 1 Finn Audenaert Quando a doença irrompe inesperadamente, não há como escapar. Primeiro partem as crianças, o seu choro agonizante uma coda da existência de todos. Cadáveres de crianças pequenas enchem as ruas gemebundas, onde ainda há pouco brincavam. As mães ficam horrorizadas à janela, arrancando-se os cabelos. Os pais, com o rosto pálido como um pano, agarram os seus entes queridos por trás. Braços tensos que têm de salvar ou, pelo menos, preservar. Tudo fica completamente fechado, como da última vez. Lamentar. Só. À distância. Ó, o horror está de volta! Em breve, enxameando e fervilhando sobre os mortos: moscas, ratos, baratas. Groningen congela. A morte escarlate vagueia alegremente pela poça de sangue e pinta as fachadas com padrões de gotas. O nobre senhor Roodvonk 2 aterrou pela nona vez. Tentaram afogá-lo em águas turvas, queimá-lo na fogueira, tirar-lhe a vida com cordas ásperas. Com dificuldade, dissecaram-no e, por fim, diagnosticaram-no como mort...

O SEPULCRO VAMPÍRICO - Conto Tradicional Chinês de Terror

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  O SEPULCRO VAMPÍRICO Conto tradicional chinês Um certo Tchōu, de Hâng-tcheou (Tchée-kang), vivia da pilhagem de sepulturas. Com seis ou sete companheiros, aventurava-se pelos cemitérios nas noites mais escuras. Os túmulos eram abertos com picaretas. Contudo, como eram achados mais ossos do que ouro e prata, o bando recorreu à evocações de espíritos para que lhe fossem indicados os melhores sepulcros a pilhar. Certa feita, o espírito Yáowang desceu sobre o altar dos ladrões e escreveu: — Se continuarem com este ofício, que é pior do que o de meros salteadores, irão todos acabar decapitados. Bastante aterrorizados, os saqueadores permaneceram em inatividade por mais de um ano. Finalmente, sem nada mais ter para viver, voltaram a consultar os espíritos. Um deles, descendo a eles, se identificou como a entidade do lago Sī-hou. — Perto da estupa 1 Pào-chou-t’a — escreveu o espírito —, vocês encontrarão um poço de pedras talhadas. Este leva ao túmulo de uma personalidade impor...

ATAQUE VAMPÍRICO - Conto Tradicional Chinês de Terror

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ATAQUE VAMPÍRICO Conto tradicional chinês C erta feita, um vendedor de tecidos chamado Lì-kiou, de Sû-tcheou (Nân-hoei), passando por Hoùo-chan, encontrou todas as hospedarias lotadas. Em busca de refúgio para passar a noite , recolheu-se num pagode 1 . Já dormia profundamente quando Wêi-t'ouo, o Protetor, lhe apareceu num sonho. Acordou-o com umas palmadas nas costas e lhe disse: — Rápido, rápido, uma grande desgraça te ameaça! Refugia-te atrás de mim. Nosso homem, deveras atordoado, ainda perguntava-se sobre o que estaria acontecendo, quando um caixão, ali depositado, se abriu rangendo. De dentro dele escapuliu um vampiro, coberto de pelos brancos, com olhos encovados e brilhantes, que saltou sobre Lì. Este mal teve tempo de se refugiar atrás da estátua do Protetor. Os braços do vampiro abraçaram a estátua, enquanto os seus dentes cravavam-se no cajado da imagem. Tendo ouvido os gritos de terror de Lì, os monges correram com lanternas. O vampiro recuou para dentro de s...

A MORTA-VIVA DA ALDEIA - Conto Tradicional Chinês de Terror

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  A MORTA-VIVA DA ALDEIA Conto tradicional chinês O contador Lì-niensien de Chêumenn-hien (Tchée-kiang), encarregado da cobrança de impostos, tinha ido ao campo. Ao cair da noite, estando perto de uma aldeia, procurou uma hospedaria para passar a noite. Não havia nenhuma. Vendo uma luz numa cabana, aproximou-se. Na cabana, um homem acamado gemia. — Posso passar a noite aqui? — perguntou Lì-niensien. — A minha família inteira acabou de morrer de tifo — ​​disse o homem. — Eu mesmo estou doente. Se quiseres, podes ficar. Exausto, Lì-niensien aceitou a oferta. — Poderias me trazer um pouco de vinho? — Lì-niensien perguntou ao homem. — Aqui estão duzentas moedas. O troco é teu. O homem fez um esforço, levantou-se e saiu. Enquanto esperava o seu retorno, Lì-niensien deitou-se sobre um dos feixes de arroz cortado espalhados no pátio. Um sopro frio e um leve ruído chamaram-lhe a atenção. Tangendo o isqueiro, um brilho fugaz permitiu-lhe o vislumbre de uma mulher desg...

AS SEREIAS - Narrativa Clássica Sobrenatural - Homero

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AS SEREIAS Homero (Sec. VIII a.C.) As sereias encantam todos os homens que delas se aproximam. Quem, inadvertidamente, navegar próximo a elas e ouvir o seu canto, nunca mais se verá rodeado pela mulher e filhos transbordando de alegria pelo regresso a casa. Em vez disso, elas encantam-no com o seu sonoro canto, sentadas num prado e cercadas por um grande pilha de ossos humanos apodrecidos, cobertos de pele ressecada. Faz, Ulisses, com que o teu navio navegue ao largo delas e, derretendo cera suave como o mel, unta os ouvidos dos teus companheiros para que nenhum deles as escute. Mas, se quiseres ouvi-las, faz com que te amarrem, firmemente, com cordas, de pés e mãos atadas, ao mastro, para que ouças prazerosamente a voz das sereias; e, se suplicares aos teus companheiros ou lhes ordenares que te desamarrem, que eles te prendam ao mastro com mais cordas ainda. Versão em português de Paulo Soriano.  

O CEMITÉRIO DE AHRENSBURG - Narrativa Verídica Fúnebre Sobrenatural - Robert Owen

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O CEMITÉRIO DE AHRENSBURG Perturbações numa capela mortuária na ilha de Ösel em 1844 Robert Owen (1771 – 1858) Tradução de Paulo Soriano Nas imediações de Ahrensburg — que é a única cidade da ilha de Ösel — encontra-se um cemitério público. De bom gosto e cuidadosamente conservado, com árvores plantadas e parcialmente cercado por um bosque de coníferas, é um local de passeio predileto dos habitantes. Além dos túmulos — de todos os tipos, dos mais humildes aos mais elaborados —, o cemitério abriga diversas capelas particulares, locais de sepultamento de famílias ilustres. Sob cada uma das capelas há um jazigo, pavimentado com madeira, ao qual se desce por uma escada interna, fechada por uma porta. Os caixões dos membros da família recentemente falecidos permanecem, como de costume, algum tempo na capela. Posteriormente, são transferidos para os jazigos, onde são dispostos lado a lado, elevados sobre barras de ferro. Os caixões são de carvalho maciço, muito pesados ​​e robusto...

O VAMPIRO DE CÁRPOLES - Conto de Terror - Danilo Seraphim

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  O VAMPIRO DE CÁRPOLES Danilo Seraphim Quando eu morrer minhas músicas continuarão tocando por aí e fazendo sucesso, bradou com empolgação Reinaldo Bole, e ainda soltou uma da Cassia Eller dizendo que era poeta e não sabia amar. Ele morreu e suas músicas não tocaram em porra de lugar nenhum. Mas Juliete tinha um segredo sobre Reinaldo Bole que ela guardava escondido no coração, depois que ele se atirou na lagoa de Cárpoles, ao norte do Estado do Paraná, e morreu afogado. Reinaldo Bole partiu desta vida como nela vivera: em silêncio, sem aplausos, sem um único violão a chorar sua despedida. A água escura da lagoa de Cárpoles engoliu seu corpo magro numa noite sem testemunhas — ou assim todos pensavam. Juliete soube antes de qualquer um. Sentiu arfar no peito um aperto frio na madrugada em que ele se afogou, como se um fio invisível que a ligava ao rapaz tivesse sido cortado a tesoura. Chorou em segredo, trancada no quarto dos fundos da pensão onde trabalhava. Não foi ...