NO PÁTIO DO DRAGÃO - Conto Clássico de Terror - Robert William Chambers


NO PÁTIO DO DRAGÃO

Robert William Chambers
 (1865 – 1933)

Abalado com a leitura do maldito livro O Rei de Amarelo, um homem busca refúgio na igreja de São Barnabé, em Paris. Durante o ofício sagrado, ele é surpreendido pela música sinistra e perturbadora que irrompe do órgão. Mais tarde, ao passar por ele, o misterioso organista lança-lhe um olhar de ódio intenso e mortal. Magro e de face lívida, vestido de preto, este homem passa a persegui-lo insidiosamente pelas ruas de Paris, prenunciando um confronto macabro e aniquilador. “No Pátio do Dragão” é um dos contos que integram a antologia O Rei de Amarelo”, do escritor norte-americano Robert William Chambers (1865 – 1933), uma das mais importantes obras da literatura fantástica e de terror do século XIX.


Oh, Tu, que te queimas no coração pelos que estão a queimar
No inferno, cujas chamas tu irás, a tua vez, alimentar;
Quando, aos prantos, gritarás: “Deus, tende piedade deles!”?
Ora, quem és tu para ensinar e Ele para aprender?[1]


Na igreja de São Barnabé, as vésperas haviam terminado. O clérigo deixou o altar. Os meninos do coro atravessaram o presbitério e se instalaram em seus bancos. Um guarda suíço de rico uniforme avançou pela nave sul fazendo ressoar o seu bastão a cada quatro passos sobre o chão de pedras. Atrás dele vinha aquele eloquente pregador e bom homem, Monsenhor C...

Meu assento situava-se próximo da balaustrada do altar. Voltei-me em direção à extremidade oeste da igreja. As outras pessoas, que estavam entre o altar e o púlpito, também se voltaram. Houve algum arrastar de pés e farfalhar de roupas enquanto a congregação se sentava novamente. O pregador subiu as escadas do púlpito e o som do órgão foi voluntariamente interrompido.

Eu sempre achei a música do órgão de São Barnabé sumamente interessante. Era erudita e científica demais para os meus pobres conhecimentos, mas expressava uma inteligência vívida, malgrado um tanto fria. Além disto, tinha a qualidade francesa do gosto. O gosto reinava supremo, autocontrolado, digno e reticente.

Hoje, no entanto, desde o primeiro acorde, eu senti uma mudança para pior, uma mudança sinistra. Durante as vésperas, fora principalmente o órgão do presbitério que havia sustentado o belo coro, mas, de vez em quando, de uma maneira bem caprichosa, a partir da galeria oeste, onde ficava o grande órgão, uma pesada mão irrompia na igreja, maculando a paz serena dessas claras vozes. Era algo mais que áspero e dissonante e não traía qualquer falta de habilidade. À medida que se repetia, eu me recordava o que os meus livros de arquitetura diziam acerca do antigo costume de consagrar o coro assim que este era construído, e que a nave, concluída às vezes meio século depois, muitas vezes não recebia bênção alguma: futilmente, eu me perguntei se não seria este o caso de São Barnabé e se algo que normalmente não deveria estar num templo cristão poderia ter entrado, sem ser percebido, e tomado posse de sua galeria oeste. Eu tinha lido sobre ocorrências desta natureza, mas não em obras sobre arquitetura.

Lembrei-me, então, de que São Barnabé não tinha muito mais que cem anos, e sorri ante a incongruente associação das superstições medievais com essa animada peça do rococó do século XVIII.

Meu incômodo nervoso transformou-se em raiva. Quem estaria fazendo aquilo? Como se atrevia a tocar assim em pleno serviço divino? Olhei para as pessoas que me rodeavam: ninguém parecia incomodar-se. As plácidas frontes das freiras ajoelhadas, ainda voltadas para o altar, nada perdiam de sua devota abstração sob a pálida sombra de seus brancos véus. A elegante senhora ao meu lado mirava esperançosa para o Monsenhor C... Pelo que o seu rosto delatava, o órgão poderia estar tocando uma Ave-Maria.

Mas, agora, as vésperas haviam terminado e em seguida deveriam ter soado alguns acordes tranquilos, adequados a acompanhar a meditação, enquanto aguardávamos o sermão. Em vez disto, a discórdia no extremo inferior da igreja irrompeu com a partida do clérigo, como se agora nada pudesse controlá-la.
Sou filho de uma geração mais velha e simples, que não gosta de buscar na arte sutilezas psicológicas. Sempre me recusei a encontrar na música algo mais que a melodia e a harmonia, mas senti que, no labirinto de sons que emanava daquele instrumento, algo era caçado. Para cima e para baixo os pedais perseguiam-no, enquanto o teclado bramava a sua aprovação. Pobre diabo! Quem quer que fosse, parecia haver pouca esperança de escapar!

Mas agora, finalmente, o pregador havia feito o sinal da cruz e ordenado silêncio. Voltei-me para ele com prazer. Até então, eu não tinha encontrado a serenidade que havia procurado ao entrar em São Barnabé naquela tarde.

Estava exaurido por três noites de sofrimento físico e perturbação mental: a última havia sido a pior de todas e foram um corpo exausto e uma mente entorpecida, conquanto agudamente sensível, o que eu havia levado à minha igreja favorita em busca de cura: eu havia lido O Rei de Amarelo.

— Quando nasce o sol, eles logo se recolhem e se deitam em seus covis[2].

Monsenhor C... pronunciava o texto com serena voz, olhando placidamente a congregação. Voltei o olhar, não sei por quê, ao extremo inferior da igreja. O organista estava saindo detrás dos tubos e, ao passar pela galeria, eu o vi desaparecer por uma pequena porta que conduz a umas escadas que, de sua feita, descem diretamente à rua. Era um homem magro e tinha a face tão branca quanto a sua casaca era negra. “Já vai tarde”, pensei. “Leve consigo a sua música pérfida. Espero que o seu assistente faça o improviso final”.

Com um sentimento de alívio — com um profundo e calmo sentimento de alívio —, voltei-me para o tranquilo rosto do púlpito e me dispus a escutar. Aqui, finalmente, estava a serenidade mental que eu procurava.

— Meus filhos — dizia o pregador —, existe uma verdade que a alma humana encontra maior dificuldade em aprender: que ela nada tem a temer. Nunca aprende que nada pode prejudicá-la realmente.

“Curiosa doutrina”, pensei, “para um sacerdote católico; vejamos como ele reconcilia isto com os Santos Padres da Igreja”.

— Nada pode verdadeiramente prejudicar a alma — prosseguiu ele com sua mais serena e clara das inflexões — porque...

Mas eu não ouvi o restante. Meus olhos abandonaram a sua face, não sei por que razão, e procuraram o extremo inferior da igreja. O mesmo homem saía de trás do órgão e avançava pela galeria pelo mesmo caminho. Mas ele não teria tempo de voltar e, se tivesse retornado, eu o teria visto. Senti um leve calafrio e uma constrição no peito. De toda forma, seu ir e vir não era da minha conta. Eu o olhava: não podia desviar meu olhar de sua figura negra e de seu rosto lívido. Quando estava exatamente à minha frente, ele se virou e me enviou, enquanto percorria a igreja, um olhar de ódio intenso e mortal: nunca havia visto um olhar como aquele. Queira Deus que jamais volte a vê-lo! Então ele desapareceu pela mesma porta pela qual eu o tinha visto partir há menos de sessenta segundos.

Sentei-me e tratei de ordenar os meus pensamentos. Minha primeira sensação foi a de uma criança muito pequena que se machuca e prende a respiração antes de cair no choro.

Descobrir-me, de repente, objeto de um ódio como aquele era estranhamente doloroso. E aquele homem era um completo desconhecido. Por que me odiava assim? Justamente a mim, alguém ele jamais havia visto? Por um instante, todas as sensações se fundiram nessa única sensação: até o medo se subordinava ao pesar e naquele momento não tive a menor dúvida; mas, no seguinte, comecei a raciocinar e uma sensação de incoerência veio em meu auxílio.

Como disse, São Barnabé é uma igreja moderna. É pequena e bem-iluminada. De uma só mirada é possível abarcá-la inteiramente. A galeria do órgão recebe uma intensa luz branca de uma fileira de compridas janelas do clerestório, que se ressentem de vitrais coloridos.

Como o púlpito se situa no meio da igreja, quando eu estava voltado para ele, tudo o que se movesse no lado oeste não podia deixar de atrair o meu olhar. Quando o organista passou, não seria de admirar que eu o tivesse visto: eu simplesmente calculara mal o intervalo de tempo entre a sua primeira e segunda passagens. Ele havia entrado na última vez por uma outra porta lateral. E, quanto ao olhar que tanto me perturbara, eu não vira realmente tal coisa. Eu era um tolo nervoso.  

Olhei em volta. Aquele era mesmo um lugar propício a abrigar horrores sobrenaturais! O semblante bem definido e razoável do Monsenhor C..., seus modos contidos, seus gestos graciosos e simples não seriam desalentadores para um mistério medonho? Olhei acima de sua cabeça e quase ri. Aquela senhora esvoaçante, sustentando um canto da cobertura do púlpito,  que se assemelhava a uma toalha de damasco franjada sob um forte vento, apontaria sua trombeta de ouro e  sopraria para fora da existência um basilisco em sua primeira tentativa de acomodar-se na galeria do órgão. Esta fantasia, que me pareceu bem divertida, fez-me rir sozinho, e fiquei ali sentado, a sorrir de mim mesmo e de tudo mais, da velha harpia do lado de fora da balaustrada, que me fizera pagar dez centavos pela cadeira antes de me franquear o acesso (ela parecia mais um basilisco — disse para mim mesmo — do que o organista de aparência anêmica); da velha e austera senhora e até mesmo... — oh, sim! — do próprio Monsenhor C... Pois toda devoção havia desaparecido. Eu nunca fizera algo assim na vida, mas agora sentia o desejo de escarnecer.

Quanto ao sermão, dele não pude escutar uma única palavra, pois em meus ouvidos ressoava:


A túnica de São Paulo chegou,
Depois de nos pregar aqueles seis sermões da Quaresma
mais melosos do que tudo que já pregara[3]


dando tempo aos pensamentos mais fantásticos e irreverentes.

Não adiantava ficar ali, sentado, por mais tempo: eu precisava escapar e me livrar daquele odioso estado de ânimo. Eu sabia a indelicadeza que estava perpetrando, mas, ainda assim, me levantei e abandonei a igreja.

O sol primaveral brilhava na Rue Saint Honoré enquanto eu descia a escadaria da igreja. Numa esquina havia um carrinho de mão cheio de narcisos amarelos, violetas pálidas da Riviera, violetas russas escuras e jacintos romanos em uma nuvem dourada e meiga. A rua estava cheia de pessoas em busca de prazeres domingueiros. Balancei a minha bengala e ri com elas. Alguém me alcançou e passou. Não se virou, mas vi a mesma mortal malignidade, que eu observara em seus olhos, em seu pálido perfil. Eu o observei enquanto podia vê-lo. Suas magras costas exprimiam a mesma ameaça. Cada passo que ele dava, afastando-se de mim, parecia levá-lo a alguma atividade associada à minha destruição.

Avancei devagar. Meus pés quase se recusavam a mover-se. Então insinuou-se em mim uma sensação de responsabilidade por algo esquecido há muito tempo. Começou a me parecer evidente que eu merecia aquilo que me ameaçava: era algo que remontava a um tempo pretérito, muito, muito pretérito. Havia hibernado por todos estes anos: todavia, estava ali e agora se erguia para enfrentar-me. Mas eu tentaria escapar. E, assim, avancei, aos tropeções, mas como pude, pela Rue de Rivoli, transpus a Prace de la Concorde e peguei o Quai. Fitei, com olhos enfermos, o sol que brilhava através da espuma branca da fonte, e esta se derramava sobre as costas de bronze sombrio dos deuses do rio no Arco distante, uma estrutura de névoa de ametista entre incontáveis vislumbres de troncos gris e galhos levemente verdes. Então o vi novamente a descer uma das alamedas de castanheiros do Cours la Raine.

Deixei a margem do rio e me embrenhei cegamente nos Champs Élysées, virando-me na direção do Arco. O pôr do sol lançava seus raios sobre a área verde do Rond-point. Sob a luz intensa, estava ele sentado em um banco rodeado por crianças e jovens mães. Não era mais que um transeunte domingueiro, assim como os outros e eu. Pronunciei as palavras quase em voz alta, sem tirar os olhos do ódio maligno que havia em seu rosto. Mas ele não olhava para mim. Passei dificultosamente por ele e avancei, arrastando os pés de chumbo pela avenida. Eu sabia que cada vez que o encontrava, mais próximo eu o levava à realização de seu intento e do meu destino. Ainda assim, eu tentava me salvar.

Os últimos raios do sol poente derramavam-se ao longo do grande Arco, sob o qual passei e encontrei-me cara a cara com ele. Eu o havia deixado lá embaixo, nos Champs Elysées. Todavia, ele veio em meio a um fluxo de pessoas que voltava do Bois de Boulonge. Chegou tão perto de mim que me roçou. Sua magra compleição parecia de ferro dentro de sua capa negra e folgada. Não demonstrava pressa, nem cansaço, nem qualquer sentimento humano. Todo seu ser exprimia apenas uma coisa: a vontade e o poder de fazer-me o mal.

Angustiado, eu o vi a avançar pela larga avenida cheia de gente, na qual reluziam rodas e arreios de cavalos e os capacetes da Guarda Republicana.

Logo eu o perdi de vista. Então, virei-me e fugi. Segui ao Bois e muito mais além — não sei para onde fui —, mas, depois de um bom tempo, conforme me pareceu, a noite havia caído, e eu me encontrei sentado a uma mesa defronte de um pequeno café. Eu vagara de volta para o Bois. Fazia horas que eu não o via. A fadiga física e o sofrimento mental não me deixavam espaço à capacidade de pensar ou sentir. Eu estava cansado... Tão cansado! E desejava esconder-me em meu refúgio. Resolvi voltar para casa. Mas ela ficava a uma distância considerável.

Eu moro no Pátio do Dragão, uma estreita passagem que vai da Rue de Rennes à Rue du Dragon.

Era um “impasse”, transitável somente por pedestres. Acima da entrada da Rue de Rennes há uma varanda sustentada por um dragão de ferro. Dentro do pátio, erguem-se, de ambos os lados, casas antigas e altas que cerram as extremidades que dariam para ambas as ruas. Enormes portões, que recuam, abertos, durante o dia, para junto das paredes de arcos profundos, fecham o pátio à meia-noite. Para entrar, é preciso tocar a campainha em certas portinholas laterais. O pavimento esburacado acumula poças insalubres. Íngremes escadas descem até as portas que se abrem para o pátio. O rés do chão é ocupado por lojas de artigos de segunda mão e por ferreiros. Durante todo dia, o lugar reverbera o tilintar dos martelos e o tinir das barras de metal.

Apesar da insalubridade da parte baixa, há, em cima, alegria, conforto e trabalho duro.

No quinto andar ficam os ateliês de arquitetos e pintores, e os refúgios de estudantes de meia-idade como eu, que querem viver sozinhos. Quando lá cheguei para morar, eu era jovem e não estava só.

Tive de andar um bocado antes que um transporte aparecesse, mas, finalmente, quando quase havia chegado ao Arco do Triunfo novamente, passava um coche vazio e eu o peguei. O trajeto entre o Arco e a Rue de Rennes faz-se em mais de meia hora, especialmente quando se é conduzido por um cavalo de aluguel cansado, que estivera à mercê da gente festiva domingueira.

O tempo que levei antes de passar sobre as asas do Dragão ter-me-ia permitido encontrar o meu inimigo várias vezes, mas eu não o vi nenhuma vez e, agora, o meu esconderijo estava próximo.

Diante do amplo portão brincava uma pequena multidão de crianças.  Nosso porteiro e sua mulher caminhavam entre elas com seu poodle negro, mantendo a ordem. Alguns casais dançavam a valsa na calçada. Retribuí seu cumprimento e entrei apressadamente. 

Todos os moradores do pátio haviam saído à rua. O lugar estava bastante deserto, iluminado por algumas lanternas penduradas no alto, nas quais o gás queimava debilmente.

Meu apartamento ficava no último andar do prédio, a meio caminho do pátio, e chegava-se a ele por uma escada que descia quase até a rua, deixando livre apenas uma estreita passagem. Pus os pés no limiar da porta aberta, e a escada arruinada e amistosa ergueu-se à minha frente para me conduzir ao descanso e ao abrigo. Ao olhar sobre o ombro, eu o vi, a dez passos de distância. Ele devia ter entrado comigo no pátio.

Ele avançava — nem lenta nem rapidamente — diretamente para mim. Agora me fitava. Nossos olhos voltaram a se confrontar pela primeira vez desde que se haviam cruzado na igreja e eu sabia que a hora havia chegado.

Recuei ao pátio, e o encarei. Eu queria escapar pela entrada da Rue du Dragon. Seus olhos me disseram que eu nunca escaparia.

Parecia que séculos haviam transcorrido enquanto caminhávamos. Eu recuando e ele avançando, seguindo pelo pátio em perfeito silêncio. Mas, por fim, senti a sombra da arcada e o passo seguinte me levou ao seu interior. Tencionava me virar naquele ponto e correr para a rua. Mas a sombra não era a de uma arcada; era a de uma cripta. Os grandes portões da Rue du Dragon estavam fechados. Eu senti isto pela escuridão que me cercava, e no mesmo instante eu pude ler o mesmo em seu rosto. Como brilhava o seu rosto na escuridão, enquanto rapidamente se aproximava de mim! As profundas criptas, os enormes portões fechados, os frios ganchos de ferro estavam todos ao seu lado. Aquilo com que ele me ameaçara havia chegado: concentrou-se e caiu sobre mim vindo das sombras insondáveis. O ponto de onde me atacaria seriam os seus olhos infernais. Sem esperanças, apoiei as minhas costas nos portões cerrados e o desafiei.


*


Houve um arrastar de cadeiras no chão de pedra e um farfalhar de roupas quando a congregação se levantou. Eu podia ouvir o guarda suíço na nave sul precedendo o Monsenhor C..., rumando em direção à sacristia.

As freiras ajoelhadas despertaram de sua devota abstração e, fazendo uma reverência, se retiraram. A elegante senhora, minha vizinha, também se levantou com graciosa reserva. Ao partir, o seu olhar percorreu o meu rosto com desaprovação.

Meio morto — ou assim me pareceu —, embora intensamente vivo para cada detalhe, permaneci sentado em meio à multidão que se movia vagarosamente. Depois, levantei-me e me dirigi à porta.

Eu havia dormido durante todo o sermão. Será que eu havia mesmo dormido durante o sermão? Olhei para cima e o vi passando pela galeria até o seu lugar. Eu só o vi de lado: seu braço delgado e curvado em sua capa preta parecia um desses diabólicos instrumentos inomináveis que jazem nas câmaras de tortura desativadas dos castelos medievais.

Mas eu havia escapado dele, apesar de os seus olhos me dizerem que eu não escaparia. Mas eu havia escapado realmente? Aquilo que lhe conferia poder sobre mim ressurgiu do esquecimento onde eu pretendia mantê-lo. Pois, agora, eu o conhecia. A morte e a terrível morada das almas perdidas, para onde a minha fraqueza há muito o havia enviado, tinham-no transformado para todos os outros olhos, à exceção dos meus. Eu o reconhecera quase desde o princípio. Em nenhum momento duvidei daquilo que ele viera fazer. E agora eu sabia que, enquanto o meu corpo permanecia sentado e seguro naquela alegre igrejinha, estivera ele a caçar a minha alma no Pátio do Dragão.

Rastejei para a porta. Acima, o órgão irrompeu, estrondoso. Uma luz deslumbrante encheu a igreja, apagando o altar diante dos meus olhos. As pessoas sumiram, os arcos, o teto abobadado desaparecerem. Levantei os meus olhos chamuscados para o reluzir insondável e vi estrelas negras pendendo dos céus, e os ventos úmidos do lago de Hali regelaram a minha face.

E agora, bem ao longe, sobre léguas de nebulosas ondas agitadas, vi a lua espargindo jatos d’água. E, mais além, as torres de Carcosa[4] erguiam-se por detrás da lua.

A morte e a terrível morada das almas perdidas, para onde a minha fraqueza há muito o havia enviado, tinham-no transformado para todos os outros olhos, à exceção dos meus. E agora eu ouvia a sua voz, que se erguia, encorpava-se, retumbando através da luz radiante. E, enquanto eu caía, a irradiação, que aumentava mais e mais, derramou sobre mim ondas de fogo. Então, mergulhei nas profundezas e ouvi o Rei de Amarelo sussurrando à minha alma:

— Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo![5]


Tradução de Paulo Soriano



[1] Poema de Edward FitzGerald (1809 – 1883), constante da introdução à sua tradução do “Rubaiyat”, de Omar Khayyam (1048 – 1131).
[2] Salmo 104, versículo 22.
[3] Trecho de Up at Villa-Down in the City, poema satírico do escritor inglês Robert Browning (1812 – 1889).
[4] Referência à cidade fantástica de Carcosa, cenário do conto O Habitante de Carcosa, do escritor norte-americano Ambrose Bierce (1842 – 1914?).  Hali, nome citado no parágrafo anterior, aparece no conto, mas não designa um lago, senão um vetusto escritor versado em coisas d’além-túmulo.
[5] Epístola aos Hebreus, livro canônico erroneamente atribuído a Paulo de Tarso (ca. 5 – ca. 67 d.C.), São Paulo para os católicos, capítulo 10, versículo 31.

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OS LOBOS DE CERNOGRATZ - Conto Clássico de Terror - Saki



OS LOBOS DE CERNOGRATZ
Saki (Hector Hugh Munro)
(1870 – 1916)

Nascido na Birmânia, e filho de pai e mãe britânicos, Hector Hugh Munro, mais conhecido como Saki (1870 – 1916), foi — assim como Ambrose Bierce — um hábil contista que aliava, com maestria, o humor — cáustico e irônico — ao terror. “Os Lobos de Cernogratz” foi publicado postumamente, em 1919, no volume de contos fantásticos “Os Brinquedos da Paz”.

— Existem antigas lendas associadas ao castelo? — perguntou Conrad à irmã.
Apesar de ser um próspero comerciante de Hamburgo, Conrad era o único membro de inclinações poéticas em uma família eminentemente prática.
A baronesa Gruebel deu de ombros — estes, aliás, rechonchudos.
— Sempre pairam lendas nestes lugares antigos. Estas são fáceis de inventar e não custam nada. Neste caso, dizem que, quando alguém morre no castelo, todos os cães da aldeia e as feras da floresta uivam a noite inteira. Não seria nada agradável escutá-los, não é mesmo?
— Seria excêntrico e romântico — disse o comerciante de Hamburgo.
— De toda forma, nada disto é verdade — disse a baronesa, complacente. — Desde que adquirimos o castelo, tivemos a oportunidade de comprovar que nada disto acontece. Quando a minha velha sogra morreu, na última primavera, todos ficamos atentos, mas não houve um uivo sequer. Tudo é apenas uma lenda, que confere dignidade ao lugar, e sem custo algum.
— A lenda não é assim como a senhora contou — disse Amalie, a velha e grisalha governanta.
Todos olharam para ela, assombrados. De costume, ela se sentava à mesa em silêncio, comedida e distante, sem jamais falar, a menos que alguém lhe dirigisse a palavra. E eram poucos os que se preocupavam em entabular conversa com ela. Hoje, uma loquacidade súbita desceu sobre ela. Ela continuou a falar, rápida e nervosamente, olhando para frente e, aparentemente, sem se dirigir a alguém em particular.
— Não é quando alguém morre no castelo que se escutam os uivos. Somente quando um membro da família Von Cernogratz morria aqui, os lobos, próximos ou distantes, acorriam e se punham a uivar na orla da floresta, pouco antes da hora da morte. Os bosques daqui abrigavam poucos lobos, mas, naquelas ocasiões, os guardas florestais diziam que haveria dezena deles, deslizando nas sombras e uivando em coro. Então, os cães do castelo, da aldeia e das fazendas circunvizinhas começavam a latir e a uivar de medo e raiva do coro dos lobos. E quando a alma do moribundo abandonava o corpo, uma árvore ia abaixo nos jardins. Isto era o que acontecia quando morria algum Von Cernogratz no castelo da família. Mas, se um estranho morre aqui, é claro que nenhum lobo uiva e nenhuma árvore desaba! Oh, isto não!
Havia um tom de desafio, quase de desprezo, nestas últimas palavras. A bem alimentada e muito bem vestida baronesa olhou com raiva para essa deselegante anciã, que se atrevera a abandonar a apropriada e costumeira posição de humildade para falar tão desrespeitosamente.
— Tudo indica que você sabe muito sobre as lendas dos Von Cernogratz, Fräulein Schmidt — disse ela bruscamente. — Não sabia que as histórias de famílias se incluíam entre as matérias nas quais a senhora tem proficiência.
A resposta a esta provocação foi ainda mais inesperada e surpreendente que o surto de conversação que irrompera na velha senhora.
— Sou uma Von Cernogratz — disse a velha senhora. — É por isto que sei da história da família.
— Você, uma Von Cernogratz?  Você! — soou um coro incrédulo.
— Quando nos arruinamos — ela explicou —, e tive de dar aulas particulares, mudei de nome. Pareceu-me mais apropriado.  Mas meu avô passou grande parte de sua infância neste castelo e minha mãe costumava contar-me muitas histórias acerca deste lugar. E, é claro, aprendi todas as histórias e lendas familiares. Quando nos restam poucas lembranças, cuidamos de tirar o pó que jaz sobre elas e as guardamos com especial cuidado. Eu jamais imaginava, quando vim a trabalhar com os senhores, que algum dia seria trazida para a antiga residência familiar. Gostaria, talvez, de ter ido para qualquer outro lugar.
Caiu um silêncio quando ela terminou de falar e, em seguida, a baronesa desviou a conversa para um tema menos constrangedor que o das histórias de família. Mas tarde, todavia, quando a velha governanta já se retirara tranquilamente aos seus afazeres, elevou-se um clamor de zombaria e incredulidade.
— Mas que impertinência! — bradou o barão, com os olhos salientes assumindo uma expressão escandalizada. — Vejam se tem cabimento essa mulher falando assim em nossa mesa! Só faltou dizer que nós não somos ninguém. E não creio numa palavra dela. É uma Schmidt e nada mais. Decerto, esteve confabulando com algum camponês sobre a antiga família Von Cernogratz e se apropriou de suas histórias e lendas.
— Ela quer um alívio futuro — disse a baronesa. — Sabe que terá um trabalho pesado pela frente e quer apelar para a nossa simpatia. Seu avô... Ora, deixe-me!
A baronesa tinha o habitual número de avós, mas nunca se vangloriava deles.
— Ouso dizer que o avô dela era um ajudante de despensa ou algo assim neste castelo — sorriu o barão. — Essa parte da história pode ser verdadeira.
O comerciante de Hamburgo não disse nada. Havia visto lágrimas nos olhos da anciã quando ela falou em guardar as lembranças... ou, por ter uma propensão à imaginação, acreditou que as tinha visto.
— Vou dar-lhe o aviso de dispensa assim que terminem as festividades de Ano Novo — disse a baronesa. — Até lá, vou estar muito ocupada para prescindir de sua ajuda na governança da casa.
Mas ela teve de gerir pessoalmente os interesses domésticos pois, com o frio penetrante que chegou depois do Natal, a velha governanta caiu doente e teve de ficar de cama.
— É muito irritante — disse a baronesa, enquanto os seus convidados se sentavam em volta da lareira em uma das últimas tardes do ano que morria. — Durante todo o tempo em que ela tem estado conosco, não me lembro de um dia em que ela tenha ficado gravemente enferma. Ou seja, doente demais para fazer o seu trabalho. E agora, que tenho a casa cheia, e ela me poderia ser útil de várias maneiras, apressa-se em cair de cama. Sinto pena dela, naturalmente, já que se mostra tão mirrada e encolhida, mas, de toda forma, é tudo muito desagradável.
— Muito inconveniente — concordou a mulher do banqueiro, cheia de compreensão. — Acho que é o frio intenso. Ele acaba com os idosos. E este ano está excepcionalmente frio.
— A friagem de dezembro tem sido mais intensa do que em muitos anos — disse o barão.
— E, claro, ela está muito velha — disse a baronesa. — Quisera tê-la dispensado algumas semanas atrás... O que foi, Wappi?
O cãozinho saltara de repente de seu colo e se metera, a tremer, sob o sofá. No mesmo instante, uma explosão de latidos raivosos irrompeu no castelo, e se ouviu o ladrar de outros cães à distância.
— O que será que está inquietando os animais? — perguntou o barão.
Então os seres humanos prestaram atenção e ouviram o som que suscitava nos cães aquelas manifestações de medo e raiva: um prolongado e lastimoso uivo que subia e descia, aparentando, em um momento, provir de léguas de distância e, noutro, arrastar-se pela neve, até, finalmente, parecer que emergia dos pés dos muros do castelo. Toda a fome e miséria de um mundo congelado, a implacável fúria da natureza selvagem, combinadas a outras melodias desoladas e inefáveis, pareciam concentra-se naquele uivo lastimoso.
— Lobos! — exclamou o barão.
A música lupina irrompeu em uma explosão violenta e parecia vir de todos os lugares.
— Centenas de lobos — disse o comerciante de Hamburgo, que era um homem de poderosa imaginação.
Movida por um impulso que ela mesma não poderia explicar, a baronesa abandonou os seus convidados e seguiu ao triste e estreito cômodo onde a velha governanta jazia, assistindo ao passar das horas de um ano moribundo. Apesar do frio cortante da noite de inverno, a janela do quarto estava aberta. Com uma exclamação escandalizada nos lábios, a baronesa correu para fechá-la.
— Deixe-a aberta — disse a anciã com uma voz que, malgrado débil, continha em si um tom de autoridade que a baronesa jamais ouvira escapar daqueles lábios.
— Mas você vai morrer de frio! — protestou.
— De qualquer maneira, eu estou morrendo — disse a voz. — E eu quero escutar a música que eles fazem. Eles vieram de longe para cantar o réquiem de minha família. É lindo que tenham vindo. Sou a última Von Cernogratz a morrer neste antigo castelo e eles vieram para cantar para mim. Ouça o quão alto eles clamam!
E o uivo dos lobos se elevava no ar ainda invernoso e flutuava em torno das muralhas do castelo em lamentos longos e pungentes. A velha mulher descansava no leito, e via-se em sua face um olhar de felicidade há muito tempo postergada.
— Vá embora — disse ela à baronesa. Não estou mais sozinha. Faço parte de uma antiga e altaneira família...
— Acho que ela está morrendo — disse a baronesa ao voltar a seus comensais. — Creio que devamos chamar um médico. E esses uivos terríveis! Nem por uma boa porção de dinheiro eu deixaria que esta música lúgubre tocasse.
— Essa música não se compra por dinheiro nenhum — disse Conrad.
— Ouçam! Que outro barulho é este? — perguntou o barão, ao ouvir o estrépito de algo que se partia e desabava.
Era a árvore que caía nos jardins. Houve um momento de silêncio constrangido até que a esposa do banqueiro comentou:
— É o frio intenso que parte as árvores. E, também, foi o frio o que trouxe toda essa quantidade de lobos. Faz muitos anos que não temos um inverno tão frio.
A baronesa avidamente concordou que o frio era o responsável por tudo aquilo. E foi também o frio da janela aberta o que causou a insuficiência cardíaca que tornou desnecessários os serviços do médico para a velha Fräulein. Mas no aviso dos jornais aparecia muito claramente:
Faleceu, em 29 de dezembro, em Schloss Cernogratz, Amalie von Cernogratz, por muitos anos dileta amiga do barão e da baronesa Gruebel.
Tradução de Paulo Soriano.



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UMA VENDETTA - Conto Clássico Cruel - Conto de Horror - Guy de Maupassant


UMA VENTETTA
Por Guy de Maupassant
(1850 -1893)

 A viúva de Paolo Saverini morava só com o seu filho numa casinha pobre, à beira das muralhas de Bonifacio. A cidade, construída numa saliência da montanha, suspensa em parte sobre o mar, olha por cima o estreito eriçado de escolhos da costa mais baixa da Sardenha. A seus pés, do outro lado, contornando-a quase inteiramente, um recorte de rocha escarpada, que se assemelha a um gigantesco corredor, serve-lhe de porto. Este corredor conduz até as primeiras casas, depois de um longo circuito entre duas muralhas abruptas, os pequenos barcos dos pescadores italianos ou sardos e, de quinze em quinze dias, o velho pacífico vapor que faz o serviço de Ajaccio.

Sobre a montanha branca, o montão de casas põe uma mancha ainda mais branca.

Essas casas têm o ar de ninho de aves selvagens, agarradas àquelas rochas, dominando aquelas passagens onde os navios nunca se aventuram.

 O vento, sem repouso, fustiga a costa nua, por ele roída, vestida apenas de erva, e abisma-se no estreito que invade as margens. Os pedaços de uma escuma pálida, agarrados às pontas negras das inúmeras rochas que por toda parte furam as vagas, têm a aparência de farrapos de pano flutuando e palpitando à superfície da água.

A casa da viúva Saverini, grudada na borda da falésia, abria as suas três janelas para aquele horizonte selvagem e desolado.

Ela vivia ali, só, com o seu filho Antoine e a sua cadela Semelhante, um animal grande e magro, de compridos pelos selvagens, da raça dos cães de guardadores de rebanhos. Semelhante servia também para caçar.

Uma noite, depois de uma briga, Antoine foi morto à traição, com uma navalhada, por Nicolas Ravolati, que nesta mesma noite se safou para a Sardenha.

Quando a velha mãe recebeu o corpo de seu filho, que uns transeuntes lhe trouxeram, não chorou, mas ficou muito tempo imóvel, a olhá-lo. Depois, estendendo a sua mão rugosa sobre o cadáver, prometeu vingá-lo.

Não permitiu que ninguém a acompanhasse e fechou-se com o corpo, ficando imóvel junto a ele com a cadela, que uivava de um modo contínuo, em pé, próxima ao leito, a cabeça estendida para o seu dono e a cauda apertada entre as pernas. Ela não se mexia mais que a mãe do morto. A mulher, inclinada para o corpo, o olhar fixo, chorava grossas lágrimas mudas, contemplando-o. O rapaz, prostrado de costas, vestido com a sua roupa grosseira de pano esburacado e rasgado no peito, parecia dormir. Mas tinha sangue por todos os lados: na camisa arrancada pelos primeiros socorros, no colete, na calça, nas faces, nas mãos. Pastas de sangue haviam-se coalhado na barba e nos cabelos.

A velha mãe pôs-se a falar-lhe. Ao ruído daquela voz, a cadela emudeceu.

— Deixa, deixa, serás vingado, meu filho, meu menino. Dorme, dorme, que serás vingado, entendes? É a tua mãe quem te promete. Ela nunca faltou à sua palavra, a tua mãe, tu bens sabes disto.

E lentamente a viúva de Saverini debruçou-se para o seu filho, colando os lábios frios naqueles lábios mortos.

Então, Semelhante pôs-se a gemer. Soltava uma grande queixa monótona, lancinante, horrível.

E ali ficaram ambos, a mulher e o animal, até amanhecer.

Antoine Saverini foi enterrado no dia seguinte, e daí a pouco ninguém mais falou dele em Bonifacio.

Ela não tinha nem irmãos nem parentes próximos. Nenhum homem havia para prosseguir na vingança. Só a mãe pensava nela, só a velha. Do outro lado do estreito ela via, de manhã à noite, um ponto branco sobre a costa. Era uma pequena aldeia sarda, Longosardo, onde se refugiavam os bandidos corsos perseguidos muito de perto.

São eles quase que exclusivamente quem povoa aquela aldeia, defronte das costas de sua pátria, esperando ali o momento de poderem voltar, de regressar ao mato da Córsega, o maqui, como lá se chama. É lá naquela aldeia — ela sabe disto — que se refugia Nicolas Ravolati.

Completamente só, ao longo do dia, sentada à sua janela, a velha olha para as distâncias, pensando na vendetta. Como ela a levaria a cabo, sem auxílio de ninguém, enferma, tão perto da morte? Mas prometera, jurara sobre o cadáver do filho. Não podia esquecer, não podia esperar. O que faria? Não dormia durante a noite, não tinha descanso, nem paz. Procurava obstinadamente um meio. A cadela, a seus pés, dormia e, por vezes, levantando a cabeça, uivava para longe. Desde que seu dono deixara de estar ali, o animal uivava muitas vezes assim, como se ele o chamasse, como se sua alma de irracional, inconsolável, houvesse também guardado a recordação que não se apaga.

Ora, uma noite, como Semelhante se pusesse a gemer, a mãe, de repente, teve uma ideia. Uma ideia selvagem, vingativa e feroz. Meditou sobre ela até de manhã.  Depois, levantando-se logo à aproximação do dia, dirigiu-se à igreja.

Rezou, prostrada no lajedo, abatida diante de Deus, suplicando-lhe que a ajudasse, que lhe conservasse a vida, que desse ao seu pobre corpo a força que lhe faltava para vingar o filho.

Depois voltou a casa. Tinha no pátio um velho barril sem tampa que recolhia a água das goteiras. Tombou-o, despejou-o, sujeitando-o ao solo por meio de pedras e estacas. Depois pendeu Semelhante naquele nicho e entrou em casa.

Marchava, agora, sem descanso, pelo quarto, o olhar continuamente fixo na costa da Sardenha. Lá, ao longe, estava o assassino.

A cadela uivou todo o dia e toda a noite. A velha, de manhã, levou-lhe água numa panela. E nada mais. Nem sopa, nem pão.

Passou-se ainda um dia. Semelhante, extenuada, deixou-se dormir. Tinha os olhos luzentes, o pelo eriçado, e puxava alucinadamente pela corrente que a amarrava.

A velha continuou a não lhe dar nada de comer. O animal tornou-se furioso e latia em voz rouca.  Passou-se ainda a noite.

Então, ao despontar o dia, a mãe Saverini foi à casa de um seu vizinho pedir dois molhos de palha. Lançou mão de um terno velho, que outrora servira a seu marido, e forrou-o com a palha, de forma a imitar um corpo humano.

Tendo fincado um pau no solo, diante do nicho de Semelhante, amarrou a ele aquele manequim, que assim parecia estar de pé.

Depois, compôs a cabeça por meio de uma trouxa de roupa velha.

A cadela, surpreendida, olhava para aquele homem de palha, e calava-se, embora devorada pela fome.

Então, a velha foi comprar ao salsicheiro um grande pedaço de chouriço preto. Voltando a casa, acendeu fogueira no pátio, perto do nicho, e assou o chouriço. Semelhante, desesperada, espumava, de olhos fixos na grelha cuja fumaça lhe entrava no ventre.

Depois, a mãe fez daquele grelhado fumegante uma gravata para o homem de palha. Atou-o detidamente em volta do pescoço, como se quisesse enterrá-lo dentro dele. Feito isto, soltou a cadela.

Com um salto formidável, o animal atingiu o manequim na garganta, e, com as patas sobre os seus ombros, pôs-se a estraçalhá-lo. Caía com um pedaço das goelas de sua presa e depois atirava-se de novo, enterrando os dentes nos cordéis, arrancando algumas parcelas de comida, tornando a cair para voltar a atirar-se encarniçadamente. Arrancava grandes pedaços do rosto do manequim, fazendo em destroços todo o pescoço.

A velha, imóvel e calada, olhava de olho inflamado. Depois voltou a prender o animal, impondo-lhe um jejum de mais dois dias, e recomeçou aquele estranho exercício.

Durante três meses, habituou a cadela àquele gênero de luta, àquela refeição conquistada às dentadas. Por fim, já não a prendia; lançava-a com um gesto sobre o manequim.

Ensinara-a a dilacerar, a devorar, por fim, mesmo que não houvesse comida alguma nas goelas do homem. E em seguida, como recompensa, dava-lhe o chouriço assado na grelha.

Assim que via o homem de palha, Semelhante estremecia, depois voltava os olhos para a dona, que gritava “vai!” numa voz sibilante, enristando o dedo.

Quando lhe pareceu que era tempo, a mãe Saverini foi confessar-se e comungou, num domingo de manhã, com um furor extático. Depois, vestiu-se com terno de homem, tomando a aparência de um velho mendigo esfarrapado. Contratou um pescador sardo para conduzi-la, acompanhada de sua cadela, ao outro lado do estreito.

Levava no seu alforje um grande pedaço de chouriço preto. Semelhante jejuava há dois dias. A velha fazia-a cheirar a todo momento aquela comida olorosa, excitando o animal.

Entraram em Longosardo. A corsa caminhava coxeando. Dirigiu-se à casa de um padeiro e perguntou onde morava Nicolas Ravolati.  Este retomara o seu antigo ofício, o de marceneiro. Trabalhava só, como que escondido, no seu estabelecimento. A velha passou pela porta e chamou:

— Ei! Nicolas!

Ele voltou-se. Então, soltando a cadela, a velha gritou:

— Vai! Corre! Devora, devora!

O animal, desesperado, atirou-se, ferrando os dentes na garganta do homem. Este estendeu os braços, estreitou o animal, e rolou por terra. Durante alguns segundos contorceu-se, batendo os pés no chão. Depois, ficou imóvel, enquanto que Semelhante lhe buscava o pescoço, arrancando-o aos pedaços.

Dois vizinhos, que se achavam sentados às suas portas, recordam-se perfeitamente de terem visto sair da aldeia um velho mendigo com um cão negro, magríssimo, e que comia, ao mesmo tempo em que ia andando, alguma coisa negra que o seu dono lhe dava.

A velha, à noite, estava de volta em sua casa. E nessa noite dormiu perfeitamente.


Tradução de autor desconhecido
Publicado originariamente em "O Careta", março de 1912
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