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A SERPENTE VINGADORA - Conto Clássico de Horror - T. E. Grady

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A SERPENTE VINGADORA T. E. Grady (séc. XX) Tradução de autor desconhecido do séc. XX Na Índia Meridional, uma estrada solitária, profundamente sulcada pelas rodas de velhos carros de bois e demarcada por cactos espinhosos e raras palmeiras, desenrola a sua extensão deserta através de muitas milhas. Em Sankarankoil, uma aldeia dessa estrada, dez milhas a leste de Puliyangusdi, na Presidência de Madras, há um sepulcro visitado periodicamente por centenas de peregrinos, que aí vão fazer as suas oblações aos deuses. Foi com esse objetivo que, alguns meses atrás, uma rica dama velala deixou o lar em Kadaiyanalur, uma povoação vizinha. Como é comum, estava ela adornada, com toda a pompa, de joias que valiam cerca de cento e cinquenta libras — uma pequena fortuna no Sul da Índia. Levava consigo um filho, uma criança de peito de dezoito meses. Embora o distrito seja selvagem, as aldeias sejam espalhadas e as estradas deploravelmente más, há um serviço mais ou menos regular de ônibus em...

UM CADÁVER INQUIETO - Conto Clássico de Terror - Ernest Favenc

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UM CADÁVER INQUIETO Ernest Favenc (1845-1908) Tradução de Paulo Soriano — Sou-West? Vocês devem pegar a estrada a partir de Watervale — disse, dirigindo-se a dois viajantes com cavalos de carga, o chefe da equipe de reparos na linha telegráfica terrestre. — Mas, por aqui, é extremamente acidentado. Aconselharia vocês a voltarem para Watervale e seguirem a estrada. No final, vocês verão que é mais curto. — Não gostaríamos de fazer um retorno — disse um dos homens —, e os nossos cavalos estão bem-dispostos e ferrados. — Ah, não são bem pedras no caminho, senão dunas — areia branca e pinheiro. No entanto, é melhor pararem aqui e partirem amanhã de manhã, pois só há um lugar onde podem contar com água no caminho: um riacho mais ou menos na metade do percurso. — O que aconteceu com aquele velho maluco, que andava por aqui há seis meses? — perguntou um dos eletricistas, dirigindo-se ao pessoal que jantava naquela noite. — Nunca mais ouvi falar dele— respondeu outro. — Mas diziam t...

O OUTRO LADO DO ESPELHO - Conto de Terror - David Machado Santos Filho

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O OUTRO LADO DO ESPELHO David Machado Santos Filho Um rosto me encarava do outro lado do espelho. Não era o meu... Pelo menos, não era o meu como eu o conhecia. Era meu reflexo, sim, mas era um estranho. Os olhos, embora da mesma cor, possuíam uma frieza que nunca me pertencia, um brilho calculista que me fez recuar um passo. A boca, uma linha fina e sem emoção, parecia zombar da minha própria expressão de pavor. Fiquei paralisado, o coração batendo descompassadamente contra as costelas. O medo me corroía, um medo visceral de me mover e o reflexo não me acompanhar. E se ele ficasse lá, imóvel, enquanto eu tentava fugir? A ideia de quebrar a simetria, de testar a realidade, era mais aterrorizante do que a própria imagem. Cada segundo de imobilidade era uma aposta, um teste para ver se as leis da física ainda se aplicavam a mim. A respiração ficou presa na garganta. O simples ato de piscar se tornou um risco aterrorizante. Fechei os olhos com força, desejando que a image...

O GROU E O DRAGÃO D’ÁGUA - Conto Clássico Fantástico - Somadeva Bhatta

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O GROU E O DRAGÃO D’ÁGUA Somadeva Bhatta (Séc. XI) Há muito tempo, vivia um grou à beira dum lago repleto de peixes que, aterrorizados com a sua presença, dele fugiam. Já que não conseguia apanhá-los, o grou, ardilosamente, contou-lhe uma história enganadora: — Chegou aqui um homem, com uma rede, que captura e mata os peixes. Ele logo os apanhará com sua rede e, depois, os matará. Portanto, confiem em mim e sigam o meu conselho. Há, num lugar isolado, um lago translúcido, desconhecido dos pescadores destas paragens. Eu os levarei até lá e, um por um, tratarei de infiltrá-los placidamente em suas águas. Sem dúvida, lá vocês poderão viver tranquilamente, a salvo de perigos. Os tolos peixes, amedrontados com notícia propalada pela ave, responderam: — Sim, leve-nos para o novo lago! Nós confiamos em você. Então o traiçoeiro grou levou, um por um, muitos peixes. E, depositando-os sobre uma laje rochosa, os devorou. ​​ Um certo dragão-d’água (makara), que habitava aquele lago, ve...

PARTOS EXTRAORDINÁRIOS E OUTRAS ABERRAÇÕES - Narrativa Classicas Fantásticas e Sobrenaturais - Juan Eusebio Nieremberg

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PARTOS EXTRAORDINÁRIOS E OUTRAS ABERRAÇÕES Juan Eusebio Nieremberg (1595 – 1658) Tradução de Paulo Soriano PARTOS EXTRAORDINÁRIOS Quando o monstro tem uma aparência distinta da da mãe e do pai, deve-se considerar se o parto é principal e com os ritos conhecidos da natureza; então, mesmo que a sua aparência seja muito diferente, poderá, em alguns casos, ser qualificado como da mesma espécie, porque apenas a aparência não convence totalmente e, ordinariamente, o nascituro terá algumas características do que realmente é. Mas, se o parto não for principal, senão acessório ou acidental, então a criatura seria de distinta espécie e deve-se entender que não foi gerada na mãe pelo vigor seminal, senão pela putrefação, como muitos animais são gerados da terra. Em Salerno, quando parem, as mulheres expulsam consigo criaturas muito asquerosas — quais ratos — que estavam hospedadas em seus ventes e ali cresciam. Também uma mulher pariu, em sequência ao parto principal, uma cobra, que se...

ORELHA - Conto de Terror - Lewis Medeiros Custódio

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ORELHA Lewis Medeiros Custódio Confesso que, após o segundo ou terceiro milénio, torturar pessoas começa a perder a graça. Deixa de ser excitante. Sinceramente, passa até a ser enfadonho. E por fim piora. Começa-se a sentir empatia com as almas que Deus condenou e que o Diabo, meu superior e supremo líder de todos os demónios como eu, ordena castigar. Afinal, não é o Homem tão vítima dos desígnios divinos como nós? Se o divino manda em tudo, seguramente já tinha destinado que eu fosse um demónio antes da primeira faísca da existência. Como posso, então, ter eu culpa? Do mesmo modo pergunto como poderiam os humanos fugir do destino divino — e muitos colegas meus indagam o mesmo na hora da pausa, enquanto bebem sangue na taberna. A típica conversa de café sobre política. Claro que há uma excepção aqui e ali que nos faz o sangue ferver — Calígula, Vlad, Hitler, Bathori… até fazemos fila! Mas são excepções. Parcas excepções em milénios. Hoje, porém, senti as minhas energias redobrare...