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ORELHA - Conto de Terror - Lewis Medeiros Custódio

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ORELHA Lewis Medeiros Custódio Confesso que, após o segundo ou terceiro milénio, torturar pessoas começa a perder a graça. Deixa de ser excitante. Sinceramente, passa até a ser enfadonho. E por fim piora. Começa-se a sentir empatia com as almas que Deus condenou e que o Diabo, meu superior e supremo líder de todos os demónios como eu, ordena castigar. Afinal, não é o Homem tão vítima dos desígnios divinos como nós? Se o divino manda em tudo, seguramente já tinha destinado que eu fosse um demónio antes da primeira faísca da existência. Como posso, então, ter eu culpa? Do mesmo modo pergunto como poderiam os humanos fugir do destino divino — e muitos colegas meus indagam o mesmo na hora da pausa, enquanto bebem sangue na taberna. A típica conversa de café sobre política. Claro que há uma excepção aqui e ali que nos faz o sangue ferver — Calígula, Vlad, Hitler, Bathori… até fazemos fila! Mas são excepções. Parcas excepções em milénios. Hoje, porém, senti as minhas energias redobrare...

A DAMA DA MORTALHA - Conto de Terror - Paulo Soriano

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A DAMA DA MORTALHA Paulo Soriano     O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão  com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço,  mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. João do Rio   — Ah, meu jovem Saul! Você é advogado e sabe muito dessa coisa injusta à qual chamamos Direito — disse-me o velho Roberval, numa Terça-Feira de Carnaval. — Deve ter estudado História do Direito, não é mesmo? — Somente um pouco de Direito Romano, confesso. — Sim, sim! — prosseguiu Roberval. — Os jovens não estudam mais essas coisas enfadonhas e antiquadas. Mas estou certo de que você pouco sabe da real “prática jurídica” de outrora. — Isso é verdade. Mas o que tem isto a ver com o Carnaval? — indaguei. — Bem — prosseguiu o ancião, bebericando a cervejinha —, tudo aconteceu, justamente, numa Terça-Feira Gorda. O bloco descera a Federação e passava, agora, à frente do  Campo Santo, o cemitério mais circu...

DESFILE FÚNEBRE - Conto de Terror - Maycon Guedes

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  DESFILE FÚNEBRE Maycon Guedes     A terra das covas movimenta-se, abrindo passagem para que os pútridos defuntos retornem à superfície depois de anos de sono lúgubre. A população de Franco da Rocha, cidade marcada por inúmeros mistérios, foi avisada sobre uma maldição carnavalesca: jamais festejar o carnaval durante a noite de Quarta-Feira de Cinzas. O problema é que, de geração em geração, a tal lenda foi ficando esquecida, e cá estamos, nesse relato onde a mais fúnebre das festas aconteceu. No centro da cidade, três escolas de samba se preparam para começar o desfile, enquanto que, no cemitério não muito longe dali, defuntos macabros se aprontam para a nefasta folia.      Ninguém poderia imaginar que uma linda noite fresca, de céu tão limpo e repleto de estrelas, reservava um acontecimento amedrontador que faria o mundo virar pelo avesso, trazendo o inferno e seus demônios às ruas para participarem do primeiro dia de Quaresma. Folia na cidade; show de h...

O BEBÊ DE TARLATANA ROSA - Conto Clássico de Horror - João do Rio

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O BEBÊ DE TARLATANA ROSA João do Rio (1881 – 1921)     — Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura... E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade. Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto. — É uma aventura alegre? — indagou Maria. — Conforme os temperamentos. — Suja? — Pavorosa ao menos. — De dia? — Não. Pela madrugada. — Mas, homem de Deus, conta! — suplicava Anatólio. —...

CARNAVAL - Narrativa Clássica Fúnebre Humorística - Olavo Bilac

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CARNAVAL (Excerto) Olavo Bilac (1865 – 1918) Contaram os jornais um caso macabro sucedido na Terça-feira Gorda. Ia um defunto, a caminho da sua derradeira morada, calmamente estirado no fundo do caixão, ao trote manso da parelha que puxava o carro fúnebre. Mas, quando o enterro passava por uma praça em que se dava uma delirante batalha de confete, partiu-se uma das rodas do carro, e o pobre morto ficou para ali, parado, entre as pragas do cocheiro e o delírio dos batalhadores, que, na sua alucinação, não davam conta do que se passava. Tardaram as providências, a batalha continuou; de maneira que quando, uma hora depois, o coche negro pôde marchar de novo para o cemitério, nas coroas de perpétuas roxas se emaranhavam as serpentinas, e o féretro ia coberto de uma espessa camada de confete… Ora, bem! Imaginai agora que o homem não estivesse morto, mas simplesmente mergulhado na treva espessa de um sono cataléptico, e que despertasse naquele momento: cuidais acaso que o redivivo ...

A DAMA DA ROSA BRANCA - Conto Clássico de Terror - Pedro de Répide

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A DAMA DA ROSA BRANCA Pedro de Répide (1882 – 1948) Tradução de autor anônimo do início do séc. XX Embora pareça conto, não é, mesmo que o protagonista do caso, quando o referisse, o fizesse cheio de uma funda emoção, recordando a indubitável realidade do acontecimento. Deu-se o fato com um jovem diplomata alemão, que vivia em Madri durante os turbulentos dias em que o conde de São Luís concitava sobre sua pessoa as iras liberais e preparava um grande movimento revolucionário, que se esperava a todo momento. Pouco depois, efetivamente, saía de seu esconderijo para Chamberi, na carruagem guiada pelo marquês da Vega de Armijo; o general Dulce dispunha o levante no Campo dos Guardas e começava a Vicalvarada. Era o prelúdio da Revolução de Julho, que terminaria com a volta de Espartero e a marcha da rainha Cristina, após uns dias tremendos de anarquia e delírio popular. Porém, enquanto mandavam os moderados, era quando a sociedade de Madri mais se divertia, e, melhor, exibindo-se no P...