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O RESSUSCITADO - Conto de Terror - Paulo Soriano

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O RESSUSCITADO Paulo Soriano Eu vi Lázaro retornar dos Vales das Sombras. Vi com os meus olhos. Sob a ordem do Rabi, remo­vemos a grande pedra, e o olor deletério, expulso do intestino da gruta, foi como um murro no estômago. Retrocedi de asco e de pavor. O Rabi dissera: “Lázaro, vem para fora.” Com os pés e as mãos atados ao sudário, o defunto saiu, desajeitado como uma enguia em terra, arrastando-se pela superfície áspera e pedregosa de seu tú­mulo. Os que se seguiram ao retorno de Lázaro fo­ram dias tensos. Ele caiu num mutismo desespera­dor. Supúnhamos que Lázaro não gostara nada da experiência da morte. Seus olhos transpiravam os horrores que se ocultavam na eternidade prome­tida. Era evidente que Lázaro não gostaria de a ela retornar. Certa feita, Lázaro desaparecera. Fora encon­trado nas cercanias da herdade, babando como um lunático e rasgando, com os dentes que ainda lhe restavam, o tenro abdome de uma gorda ratazana. Com que avidez Lázaro, meu patrão, sugava e ex­tra...

CONFISSÃO ENCONTRADA NUMA MASMORRA NA ÉPOCA DE CARLOS II - Conto Clássico de Horror - Charles Dickens

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CONFISSÃO ENCONTRADA NUMA MASMORRA NA ÉPOCA DE CARLOS II Charles Dickens (1812 – 1870) Tradução de Paulo Soriano Eu tinha a patente de tenente no exército de Sua Majestade e servi no estrangeiro nas campanhas de 1667 e 1678. Concluído o Tratado de Nijmegen, voltei para casa e, abandonando o serviço militar, retirei-me a uma pequena propriedade situada poucas milhas a leste de Londres, que havia adquirido recentemente em decorrência de direitos de minha mulher. Esta é a última noite de minha vida; por isso, revelarei toda a verdade, nua e crua, sem qualquer disfarce. Nunca fui um homem valente; tive, desde criança, uma natureza desconfiada, reservada e taciturna. Falo de mim mesmo como se já não mais estivesse neste mundo, pois, enquanto escrevo, já estão cavando a minha sepultura e escrevendo o meu nome no livro negro da morte. Pouco depois de meu retorno à Inglaterra, meu único irmão contraiu uma enfermidade mortal. Esta circunstância não me causou sofrimento, pois quase não...

MADAME HERMET - Conto Clássico de Loucura - Guy de Maupassant

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MADAME HERMET Guy de Maupassant (1850 — 1893) Tradução de autor anônimo do séc. XX Os loucos atraem-me, pois vivem num país misterioso de sonhos bizarros, numa nuvem impenetrável de demência, onde tudo o que viram na terra, tudo o que amaram, tudo o que fizeram recomeça numa existência imaginada, fora de todas as leis que governam as coisas e regem o pensamento humano. Para eles, o impossível não existe, o inverossímil desaparece, o feérico torna-se constante e o sobrenatural familiar. Essa velha barreira, a lógica, essa velha muralha, a razão, essa rampa das ideias, o bom senso, partem-se, tombam, desmoronam diante da sua imaginação deixada em liberdade, fugitiva no país ilimitado da fantasia, e que segue em saltos fabulosos sem que nada a detenha. Para eles, tudo acontece e tudo pode acontecer. Não se esforçam para vencer os acontecimentos, dominar as resistências, triunfar dos obstáculos. Basta um capricho da sua vontade ilusionista para que eles sejam príncipes, imperadores ...

A ESTÉTICA DO CAOS - Conto de Terror - Diony Scandela

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A ESTÉTICA DO CAOS Diony Scandela Não há graça; não há culpa. Esta é a Lei: FAZE O QUE TU QUERES! — Aleister Crowley E disse o Senhor a Satanás: De onde vens? E respondeu Satanás ao Senhor, e disse: De rodear a terra, e de passear por ela. — Jó 1:7 Para Javier, viver fora de sua cidade natal não era fácil. Três anos após se formar na universidade, ele teve que passar por múltiplos empregos mal pagos: desde uma pizzaria e uma agência de internet de alta velocidade até cuidador de idosos. Porto Aztur era, naqueles anos, a cidade mais próspera da América Latina; grandes transnacionais estavam injetando empregos na cidade-ilha mais barulhenta do Cone Sul. Javier Sattori acreditava que seu diploma lhe concederia uma vida de sonhos, com carros esportivos e uma casa simpática nos subúrbios da urbanização Abraxas. E no que resultou seu esforço? Um cargo de redator júnior no Diário Babalon. Eram três anos adiando férias e buscando alguma promoção. — Você está indo bem, rapaz, mas a...