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OS ESPECTROS DE VILLANUEVA - Narrativa Clássica de Terror - Antonio de Torquemada

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  OS ESPECTROS DE VILLANUEVA Antonio de Torquemada (1507 – 1569)   Um caso muito notável aconteceu há pouco mais de trinta anos, a duas léguas de onde estamos, em um lugar chamado Fuentes de Ropel, onde vivia um ilustre e nobre fidalgo cujo nome era Antonio Costilla.   Ademais, posso eu testemunhar que ele era um dos homens mais valentes e corajosos que havia em toda esta terra, pois o vi em alguns combates e rebeliões de mui grande perigo, dos quais ele saiu com enorme valentia e coragem.   E porque ele era um homem que não aceitava desaforos, não era benquisto por certas pessoas; assim, estava sempre alerta. Certo dia, ele saiu de casa num ótimo cavalo, com uma lança gineta na mão, e marchou para um lugar chamado Villanueva, onde esteve ocupado, a tratar de seus negócios, até o anoitecer. Já era muito tarde quando resolveu voltar para casa. À saída do lugar, havia um eremitério, guarnecido de grades de madeira na frente, em cujo interior uma lamparina permanecia acesa.  

O RECOLHEDOR DE ANDROIDES - Conto de Ficção Científica - Paulo Soriano

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O RECOLHEDOR DE ANDROIDES Paulo Soriano   Sempre odiei os androides. Embora não tenha sido o único, este foi o principal motivo pelo qual liderei, por vinte anos, o grupo de captura e recolhimento de robôs da Biogenez, a mais antiga e prestigiada empresa de fabricação de androides biológicos do mundo. Os seus produtos se confundem com a espécie humana a ponto de ser impossível identificá-los, se este for o desígnio de quem o fabricou ou o adquiriu. Todos sabem que os bioandroides imitam com perfeição o gênero humano. Raciocinam como qualquer pessoa e partilham de toda a gama de emoções próprias às das pessoas naturais, cujas funções orgânicas reproduzem cabalmente: até mesmo envelhecem. Mas quase nunca adoecem e não podem reproduzir-se, entre si ou com seres humanos. Limitação que, para mim, parece uma bênção. Por imitar o ente humano — este feito à imagem e semelhança de Deus —, um bioandroide já é, por si mesmo, uma aberração, um insulto à glória divina. Imagine você se esses

O ÚLTIMO ATO MACABRO DE EDGAR ALLAN POE - Conto Fantástico - Marcelo Medone

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  O ÚLTIMO ATO MACABRO DE EDGAR ALLAN POE Marcelo Medone     Peter Orson Elsworth sempre acreditou na história que seu pai, Patrick Oswald Elsworth, lhe contara sobre suas iniciais POE serem devidas a um tributo familiar ao famoso escritor Edgar Allan Poe. Até mesmo seu avô, Percival Oliver Elsworth, seguiu a regra. Que o pai fosse fã do autor do poema “O corvo” e dos contos “O poço e o pêndulo”, “O barril de Amontilhado” e “A queda da casa de Usher”, estava fora de questão. Ele tinha obtido cada um de seus livros, com histórias de crime, ficção científica e terror, seus poemas, ensaios, artigos de jornal e até mesmo seu único romance, “A narrativa de Arthur Gordon Pym”. Dono de uma fortuna apreciável, Patrick Elsworth havia construído uma residência no estilo da abadia fortificada do Príncipe Próspero em “A máscara da Morte Rubra”, com seus sete quartos pintados e decorados em cores diferentes, seguindo o padrão da história: azul, púrpura, verde, laranja, branco, roxo e pret

O GAROTO QUE AMAVA UMA SEPULTURA - Conto Clássico Fúnebre - Fitz James O'Brien

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O GAROTO QUE AMAVA UMA SEPULTURA Fitz James O'Brien (1828-1862)   Bem longe, no coração de um país solitário, havia uma velha e desolada igreja. Em seu adro já não mais se enterravam os mortos, porque o campo santo já havia exaurido a sua missão há muitos anos. Agora, a relva crescida alimentava algumas cabras errantes que escalavam os muros em ruínas e percorriam o triste deserto de sepulturas. O cemitério era delimitado por salgueiros e ciprestes sombrios e o seu velho e enferrujado portão de ferro, que nunca ou raramente era aberto, gemia em suas dobradiças quando o vento o açoitava, como se alguma alma perdida, condenada a vagar nesse lugar desolado, estivesse balançando as suas barras e lamentasse a sua terrível prisão. Nesse cemitério havia um túmulo que se destacava dos demais. Na lápide não se lia nenhum nome: em seu lugar havia um curioso ornamento, rudemente esculpido, de um Sol saindo do mar. O túmulo, muito pequeno, estava coberto por uma espessa vegetação d

O INIMIGO - Conto Clássico de Horror - Anton Tchekhov

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  O INIMIGO Anton Tchekhov (1860 — 1904)   É noite. Cantarolando, a pequena babá Varka, uma garotinha de treze anos , embala o bebê no berço, com uma voz quase inaudível:   “Dorme, dorme, meu bebê, pois eu canto para você.”   Uma lamparina verde está acesa diante de um sacro ícone. Algumas fraldas e grandes calça pretas penduram-se a um varal. A lamparina, junto a um ícone, projeta no teto um grande círculo verde, e as fraldas e as calças lançam grandes sombras negras sobre a estufa, sobre o berço e sobre Varka. Quando a lâmpada treme, o círculo verde e as sombras ganham vida e se agitam, como se impelidos pelo vento. O ambiente é abafado: cheira sopa a de repolho e a couro de botas. O menino chora. Está rouco de tanto chorar e não há como saber quando ele irá parar de gritar. E Varka está morta de sono. Seus olhos estão fechados, a cabeça caída, o pescoço dolorido. Apesar de todos os seus esforços, não consegue mover as pálpebras e os lábios. Sente o rosto como se