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A LEBRE - Conto Clássico Cruel - Octave Mirbeau

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A LEBRE Octave Mirbeau (1848 – 1917) Tradução de autor anônimo do séc. XX   Com as suas ferramentas sobre o ombro, Jean voltava do campo onde, o dia inteiro, trabalhara com afinco. Entrou triunfalmente no pátio da fazenda, tendo entre as mãos alguma coisa que esperneava. A noite ia caindo e não se distinguia nitidamente os objetos. — Que tens aí? — perguntou-lhe o dono da fazenda, que lavava as mãos na bica.  — É uma pequena lebre que apanhei na cerca do Clos-Serbier — respondeu Jean.  — Este Jean! — replicou o patrão. — E que queres fazer dessa lebre? Não vês como é pequena!... —Ora esta! Quero criá-la. E indagou:  — O senhor dá-me licença de pôr a minha lebre no viveiro ao lado dos coelhos e tirar uma gota de leite, de manhã, para ela beber?... — Isto é com minha mulher... — Oh, a patroa com certeza deixará! Pierre, sob o telheiro, desatrelava os cavalos. Resmungou baixinho: — É assim mesmo! Ele traria para a fazenda um lobisomem, que haviam de agradecer a essa pes...

UM HOMEM AGRADECIDO - Conto Clássico Insólito - George Auriou

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UM HOMEM AGRADECIDO George Auriou (1863 – 1938) Tradução de autor anônimo do séc. XX   Há tempos, tendo necessidade de um secretário, alguém me recomendou um sujeito que tinha uma perna de pau, aconselhando-me que o tomasse a meu serviço, pois que, entre muitas virtudes, possuía a de ser um homem extraordinariamente agradecido. À vista da informação, marquei hora no meu escritório e, no dia seguinte, muito cedo, lá se apresentou o candidato. Era um homem de meia-idade, completamente calvo e… perneta.  — Sou eu — disse, apresentando-se — a pessoa que lhe foi recomendada.  — Muito bem, queira sentar-se. Informaram-me que o senhor tem viajado muito. — É verdade. — Por onde andou? — Em 1893, abandonei Paris para dirigir-me ao Canadá. Mas, ali chegado, tomei logo o rumo do Oeste americano. — E por que ficou calvo? Alguma enfermidade do cabelo? — Não, senhor; um nativo pele-vermelha arrancou-me a pele da cabeça, com cabelo e tudo.  — Permanece...

O FANTASMA DE POLÍCRITO - Narrativa Clássica de Terror - Collin de Plancy

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O FANTASMA DE POLÍCRITO Collin de Plancy [1] (1794 – 1881) Tradução de Paulo Soriano     Um cidadão da Etólia, de nome Polícrito, foi eleito pelo povo para governar o país, devido à sua probidade e talento. Enquanto gozava da sua dignidade, casou-se com uma senhora de Lócrida, com quem nutriu a esperança de que seria feliz. Mas ele morreu na quarta noite de núpcias, deixando a mulher grávida de um hermafrodita, a quem ela deu à luz nove meses depois. Quando os sacerdotes e os augures foram consultados sobre esse prodígio, conjecturaram que os etólios e os lócrios entrariam em guerra, porque aquele monstro tinha as duas naturezas. Decidiu-se que, para evitar estes males, a mãe e a criança deveriam ser levadas para além dos limites Etólia, onde ambas seriam queimadas Em consequência desta sábia conclusão, os sacerdotes e as vítimas partiram, acompanhados por uma grande multidão. Mas quando estavam prestes a proceder à execução, o espectro de Polícrates, vestido com uma túnica ne...

A HISTÓRIA DE O-TEI - Conto Clássico Sobrenatural - Koizumi Yakumo

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A HISTÓRIA DE O-TEI Koizumi Yakumo (Lafcadio Hearn) (1850 – 1904) Tradução de Paulo Soriano   Há muito tempo, na cidade de Niigata, província de Echizen, vivia um homem chamado Nagao Chosei. Nagao, filho de um médico, fora educado para seguir a profissão do pai. Ainda jovem, havia sido prometido em casamento a uma moça chamada O-Tei, que era filha de um amigo de seu pai; e ambas as famílias concordaram que as núpcias ocorreriam tão logo Nagao concluísse seus estudos. A saúde de O-Tei era, contudo, frágil; aos quinze anos, ela foi acometida por uma tuberculose fatal. Quando percebeu que morreria, a moça mandou chamar Nagao para se despedir. Enquanto ele permanecia ajoelhado ao lado de sua cama, disse-lhe ela: — Nagao-Sama [1] , meu noivo, nós fomos prometidos um ao outro desde a infância; e deveríamos ter-nos casado no final deste ano.  Agora, contudo, morrerei. Sabem os deuses o que é melhor para nós. Se, por mais alguns anos, eu vivesse, continuaria sendo, apenas, motivo de p...

HÁ FANTASMAS DE DINOSSAUROS? - Conto de Ficção Científica e Horror - Diony Scandela

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HÁ FANTASMAS DE DINOSSAUROS? Diony Scandela   Eram milhões de dólares para trazer à vida três espécies da megafauna. Os Zagreb Labs queriam brincar de Deus pela enésima vez, e agora enfrentavam uma pergunta insólita do doutor Pangloss. Todos irromperam em gargalhadas quando a questão foi reformulada: — E então? Por que não há fantasmas de dinossauros? Silêncio na junta. O octogenário de nariz aquilino e barba branca cruzou os braços e passou o olhar pelos rostos pálidos do coletivo científico. — Não sabemos o que há depois da morte… Se há um além e o senhor me sai com essa — respondeu um homenzinho gordinho. — É uma pergunta tão válida quanto as incógnitas em torno do suposto criacionismo, rapaz. Um cientista de aspecto indiano deu um passo à frente: — Talvez porque não exista evidência científica dos fantasmas, doutor Pangloss. Somos homens de ciência, não médiuns. Risos e murmúrios na junta. Pangloss ajustou os óculos e acendeu um holograma em seu tablete que ...

O ANEL ENCANTADO - Conto Clássico Sobrenatural - Autor anônimo do séc. XIX

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O ANEL ENCANTADO Autor anônimo do séc. XIX   Estamos em Liverpool. Corria o ano de 1872. O Sr. Raynardt, capitão de um belo navio mercante que costumava navegar pelos mares da Índia e da China, vivia nessa cidade, onde era muito conhecido pela sua honradez, lealdade e franqueza. Tinha ele conseguido aumentar a sua fortuna por meio de negociações perfeitamente lícitas e não devia a ninguém. Aos 32 anos de idade, casara-se com uma jovem formosíssima, de 25 anos, descendente de pais escoceses, que lhe haviam dado excelente educação, tendo sido ela interna de um importante colégio da capital da França. Como dissemos, o capitão Raynardt era a personificação da lealdade. Sua esposa, porém, devido talvez à educação parisiense que recebera, era um tanto leviana e inconsequente, amante de teatros e bailes, porém honesta, nunca tendo tido ocasião de desviar-se do caminho da virtude. Naquela vida calma que levava, teve um belo dia o capitão saudades do oceano e do seu belo navio. Sentia ele a...

OS CÃES DO DESTINO - Conto Clássico de Mistério - Saki

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OS CÃES DO DESTINO Saki (H. H. Munro) Tradução de Demian Gonçalves Silva   À luz esmaecida de uma tarde outonal, abafada e nublada, Martin Stoner arrastava-se por veredas lamacentas e trilhos de carroça sulcados que o levavam não sabia bem aonde. Imaginava que, em algum ponto adiante, se estendia o mar, e para o mar pareciam voltar-se teimosamente os seus passos; a razão por que se esforçava exaustivamente em direção a essa meta, ele mal saberia explicar, salvo se estivesse possuído do mesmo instinto que impele o cervo acossado, no seu aperto derradeiro, a avançar em direção ao penhasco. No seu caso, os cães do Destino decerto o acossavam com insistência implacável; a fome, a fadiga e uma desesperada desesperança lhe haviam entorpecido o cérebro, e ele mal lograva reunir energia suficiente para se indagar do impulso subjacente que o impelia para diante. Stoner era um daqueles infelizes que parecem ter tentado de tudo; uma natural preguiça e imprevidência sempre se havia interposto ...