O DESAPARECIMENTO DE HONORÉ SUBRAC - Conto Clássico de Terror - Guillaume Apollinaire



O DESAPARECIMENTO DE HONORÉ SUBRAC
Guillaume Apollinaire
(1880 – 1918)
Tradução de Paulo Soriano

Apesar das mais meticulosas buscas, a polícia não conseguiu desvendar o mistério do desaparecimento de Honoré Subrac.

Ele era meu amigo, e como eu sabia a verdade sobre o seu caso, fiz questão de pôr a justiça a par do que que havia acontecido. O juiz, que colheu as minhas declarações, depois de ouvir o meu relato,  assumiu um tom de tão assustada polidez, que eu não tive dificuldade em entender que ele me tomava por louco. Eu lhe disse isto. Ele ficou ainda mais cortês e, levantando-se, empurrou-me para a porta, e eu vi o seu escrivão, de pé, com os punhos cerrados, pronto para  saltar sobre mim, caso se eu agisse como um ensandecido.

Eu não insisti. O caso de Honoré Subrac é, de fato, tão estranho que a verdade parece inacreditável. Soubemos, pelas notícias dos jornais, que  Subrac passava por original. Fosse inverno ou verão, estava ele sempre vestido somente com um grande casaco no corpo e chinelos nos pés. Ele era muito rico, e como sua indumentária me  causasse surpresa, perguntei-lhe um dia por que se trajava daquela maneira. Ele respondeu:

—É para me despir mais rapidamente, em caso de necessidade. A propósito, depressa nos habituamos a sair com poucas peças. Ceroulas, meias e chapéus são prescindíveis. Vivo assim desde os meus vinte e cinco anos de idade e nunca estive doente.

Estas palavras, em vez de me esclarecerem, aguçaram a minha curiosidade.

“Por que razão”, pensei, “Honoré Subrac precisa se despir tão rapidamente?”

E fiz um monte de suposições...

Uma noite, quando eu voltava para casa — poderia ser 1:00h ou 1:15h —, ouvi que sussurravam o meu nome. Parecia-me que vinha da parede junto à qual eu passava. Desagradavelmente surpreso, estaquei.

— Há mais alguém na rua? — disse a voz. —Sou eu, Honoré Subrac.

— Mas onde você está? — exclamei,  olhando para todos os lados, sem formar uma ideia de onde meu amigo poderia ter se ocultado.

Vislumbrei, apenas, o seu famoso casaco estendido na calçada, ao lado dos seus não menos famosos chinelos.

“Eis aqui uma situação”, pensei, “em que a necessidade obrigou  Honoré Subrac a despir-se num piscar de olhos. Finalmente, desvendarei um belo mistério.”

Eu  disse em voz alta:

—A rua está deserta, caro amigo. Você pode aparecer.

De repente, Honoré Subrac despegou-se da parede contra a qual eu fixara o olhar, mas sem poder enxergá-lo. Estava completamente nu e, antes de tudo, apanhou o casaco, que  vestiu e abotoou o mais rápido que pôde. Depois, calçou os chinelos e, enfaticamente, falou comigo, acompanhando-me até a minha porta:

— Você ficou surpreso — disse ele —, mas agora entende por que eu me visto de um modo tão estranho. Mas ainda não logrou compreender como eu pude fugir tão completamente ao seu olhar. É muito  simples. É apenas um fenômeno de mimetismo... A natureza é uma boa mãe. Ela deu aos seus filhos, demasiado fracos para se defenderem, o dom de se confundir com o que os rodeia... Mas você sabe tudo isso. Sabe que as borboletas parecem flores, que alguns insetos são como folhas, que o camaleão pode assumir a cor que melhor o camufle, que a lebre polar se tornou branca como as terras geladas onde, tão covarde quanto as de nossos campos, foge quase invisível.

“Esses frágeis animais escapam dos seus inimigos por arte de um engenho instintivo que lhes modifica a aparência.

“E eu, a quem um inimigo persegue incessantemente; eu — que sou medroso, e me sinto incapaz de me defender numa luta — sou semelhante a estes animais: confundo-me à vontade, e por terror, com o ambiente que me rodeia.

“Exerci esta faculdade instintiva, pela primeira vez, há alguns anos. Eu tinha vinte e cinco anos e, em geral, as mulheres me achavam agradável e garboso. Uma delas, que era casada, apegou-se tanto a mim que eu não pude resistir. Caso fatal!... Uma noite, eu estava na casa da minha amante. O marido dela, supostamente, estaria fora durante vários dias. Estávamos nus como divindades quando a porta se abriu de repente, e o marido apareceu com um revólver na mão. Meu terror era indescritível, e eu tinha apenas um desejo — este covarde que eu era e ainda sou: desaparecer. Encostando-me à parede, desejei fundir-me a ela. E o imprevisto acontecimento realizou-se imediatamente. Tornei-me da cor do papel da parede e, como os meus membros voluntariamente se aplanavam, reduzindo-se a uma espessura inconcebível, pareceu-me que eu e a parede éramos um só, e que  ninguém mais podia me ver.  E era verdade. O marido andou à minha procura para me matar. Ele tinha-me visto, e era de todo impossível que eu tivesse escapado. Ele ficou louco e, voltando a sua fúria contra a esposa, matou-a de um modo selvagem, disparando seis tiros em sua cabeça. Depois foi-se embora, chorando desesperadamente. Quando ele saiu, o meu corpo, institivamente, voltou à forma normal e coloração natural.

“Vesti-me e consegui sair dali antes que mais alguém chegasse.  Mantenho, desde então, a bendita faculdade do mimetismo. O marido, não tendo me matado, dedicou a sua vida à realização deste objetivo. Há muito tempo ele me persegue pelo mundo inteiro, e imaginei que, vindo morar em Paris, eu estaria a salvo dele. Mas vi aquele homem alguns momentos antes de sua chegada. O terror fez-me bater os dentes. Eu só tive tempo de me despir e mesclar-me à parede. Ele passou por mim, olhando com curiosidade para aquele casaco e aqueles chinelos abandonados na calçada. Agora você percebe o quão estou certo em vestir-me sumariamente. A minha faculdade mimética não poderia ser exercida se eu estivesse vestido como todos os outros. Não poderia  me despir suficientemente rápido para escapar do meu algoz, e é importante, acima de tudo, que eu esteja nu, para que minhas roupas, achatadas contra a parede, não tornem inútil o meu desaparecimento defensivo.

Felicitei o Subrac por uma faculdade da qual eu tinha provas e que eu invejava...

Nos dias seguintes, eu não pensava em outra coisa, e fiquei surpreso, em todos os sentidos, por me ver concentrando a minha vontade no intuito de mudar a minha forma e a minha cor. Tentei me transformar em um ônibus, na Torre Eiffel, em um acadêmico, em ganhador de  jackpot[1]. Os meus esforços foram em vão. Eu não nascera para aquilo. Minha vontade não era suficientemente forte e, além disso, faltava-me aquele santo terror, aquele formidável perigo que havia despertado os instintos de Honoré Subrac...

Eu já não o via há algum tempo, quando  ele apareceu um dia, em pânico:

—Aquele homem, meu inimigo — disse ele —,  vive  me espreitando por toda parte.  Consegui fugir dele três vezes, exercendo a minha faculdade, mas estou com medo, estou com medo, meu caro amigo.

Notei que ele tinha perdido peso, mas não disse nada.

— Só lhe resta uma coisa a fazer — disse eu —para subtrair-se a  um inimigo tão implacável: vá embora! Esconda-se numa aldeia. Deixe os seus pertences comigo e corra para a estação ferroviária mais próxima.

Ele apertou-me a mão e disse:

— Venha comigo, eu imploro. Estou com medo!

Na rua, caminhamos silenciosamente. Honoré Subrac virava  a cabeça constantemente, parecendo preocupado. De repente, deu um grito e fugiu, livrando-se do casaco e dos chinelos. E eu vi um homem correndo correr atrás de nós. Eu tentei impedi-lo. Mas ele escapou de mim. Segurava um revólver e apontava-o na direção de Honoré Subrac. Este tinha acabado de chegar ao longo muro de um quartel e ali desapareceu como que por magia.

Atordoado, o homem com o revólver parou, soltando exclamação raivosa,  e, como que  para se vingar do muro que parecia ter sugado a sua vítima, descarregou seu revólver no ponto em que Honoré Subrac tinha desaparecido. Depois, fugiu...

As pessoas aglomeraram-se e policiais chegaram  para dispersá-las.  Então chamei o amigo. Mas ele não respondeu.

Apalpei a parede, que ainda estava quente, e notei que, das seis balas disparadas pelo revólver, três tinham atingido a altura do coração de um homem, enquanto as outras tinham arranhado o gesso, mais acima, onde eu parecia distinguir, vagamente, os contornos de um rosto.



[1] Prêmio acumulado em cassinos ou loterias.

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O BEBÊ DE TARLATANA ROSA - Conto Clássico de Horror - João do Rio



O BEBÊ DE TARLATANA ROSA
João do Rio
(1881 – 1921)
  
— Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...

E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.

Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto.

— É uma aventura alegre? — indagou Maria.

— Conforme os temperamentos.

— Suja?

— Pavorosa ao menos.

— De dia?

— Não. Pela madrugada.

— Mas, homem de Deus, conta! — suplicava Anatólio. — Olha que está adoecendo a Maria.

Heitor puxou um largo trago à cigarreta.

— Não há quem não saia no carnaval disposto ao excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio, é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranoicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma...

— Nem com um — atalhou Anatólio.

— Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a porneia da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodite.

— Muito bonito! — ciciou Maria de Flor.

— Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champagne aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio.

— Nossa Senhora! — disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. — Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias dos pedaços mais esconsos da Rua de S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes...

— Que tem isso? Não vamos juntos?

Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era uma desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em frascos d’álcool, que têm as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel d’arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem feito, tão acertado, que foi preciso observar para verificá-lo falso. Não tive dúvida. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro: — ai que dói! — Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma frequentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube mais chic e mais secante da cidade.

— E o bebê?

— O bebê ficou. Mas no domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado do chauffeur, no burburinho colossal, senti um beliscão na perna e uma voz rouca dizer: “para pagar o de ontem”. Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão perfeito. Ainda tive tempo de indagar: onde vais hoje?

— A toda parte! — respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.

— Estava perseguindo-te! — comentou Maria de Flor.

— Talvez fosse um homem... — soprou desconfiado o amável Anatólio.

— Não interrompam o Heitor! — fez o barão, estendendo a mão.

Heitor acendeu outro gianaclis, ponta de ouro, sorriu, continuou:

— Não o vi mais nessa noite, e segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.

Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.

— A quem o dizes!... — suspirou Maria de Flor.

— Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!

— É quando se fica mais nervoso!

— Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda a gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfurnadas dos fogos de bengala, caíam em sombras — sombras cúmplices da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de confetti. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semissombra das horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer cousa de impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo do Rossio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o bebê de tarlatana rosa.

Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.

— Os bons amigos sempre se encontram — disse. O bebê sorriu sem dizer palavra. — Estás esperando alguém? — Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. — Vens comigo?

— Onde? — indagou a sua voz áspera e rouca.

— Onde quiseres! — Peguei-lhe nas mãos. Estavam húmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.

— Por pouco...

Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: — “Aqui não!”. Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a arritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado o jardim. Diante da entrada que fica fronteira à Rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua, escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a Rua Luís de Camões, ficamos bem embaixo das sombras espessas do Conservatório de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente ruça com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vício naquela austeridade da noite.

— Então, vamos? — indaguei.

— Para onde?

— Para a tua casa.

— Ah! não, em casa não podes...

— Então por aí.

— Entrar, sair, despir-me. Não sou disso!

— Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda.

— Que tem?

— Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara.

— Que máscara?

— O nariz.

— Ah! sim! — E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer cousa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio.

Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que fazia mal. — Tira o nariz! — Ela segredou: — Não! não! custa tanto a colocar! — Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.

O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal-estar curioso, um estado de inibição esquisito.

— Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada.

— Disfarça sim!

— Não! — Procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinadamente — uma caveira com carne...

Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos.

— Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? aproveito. Foste tu que quiseste...

Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar, apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da Luxúria... Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semitreva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo a mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixos batendo, ardendo em febre.

Quando parei à porta de casa para tirar a chave, é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa...

Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes, e resumiu:

— Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem do carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.

E foi sentar-se ao piano.



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O FANTASMA DE VALPO - Narrativa Clássica de Terror - Narrativa Verídica - Anônimo do séc. XIX




O FANTASMA DE VOLPO

Anônimo do séc. XIX


Eis aqui, finalmente, a aparição de uma alma do outro mundo, revestida de tais circunstâncias  que, ao menos desta vez, não há remédio senão dizer que spiritus qui vadit, redit[1].

“Na vila de Valpo, Esclavônia — diz a gazeta de Presburgo, copiada pelo Freyschutz de Hamburgo — aconteceu algo notável, sobre o qual o reverendo bispo de Fünfkirchen está procedendo a rigoroso exame.

Havia tempos que o castelo de Valpo era infestado de aparições. Cinco vezes sucessivas, e com intervalos muito curtos, havia aparecido ao coronel Von Koeth uma e a mesma visão. O fantasma aparecia sempre à meia-noite em trajes de mulher, com um vestido à turca de cetim cor-de-rosa, e um longo véu que lhe descia aos pés. A sua exigência era que o dono do castelo mandasse desenterrar os seus ossos e que os fizesse depositar em solo sagrado. Com isto, designava o lugar em que o cadáver tinha sido enterrado, dizia onde havia sido assassinada a pessoa a quem o dito cadáver pertencia e, concluía dizendo que mais vezes se tinha apresentado a diferentes pessoas, mas que a nenhuma tinha podido dizer o que queria, porque todas elas fugiam.

Como o relato era tão circunstanciado, mandou o coronel Von Koeth cavar no local designado e achou-se, efetivamente, a dois pés de profundidade, um esqueleto feminino, ferido com seis balas no peito.

No dia 14 de dezembro passado, foi o esqueleto depositado na capela do castelo. Mas o fantasma voltou na noite do dia 19 pedindo que, depois de lhe terem sido feitas as exéquias de costume, o transportassem para o cemitério público e depositassem num túmulo que indicou.

Assim se cumpriu. O fantasma voltou mais uma vez para agradecer este notável serviço e nunca mais reapareceu. Este fato acha-se confirmado com atestados das autoridades territoriais”.

Tradução de autor desconhecido
Fonte: Jornal do Commercio (RJ), edição de 28 de setembro de 1841.



[1] Espírito que vai, retorna.

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O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe


O GATO PRETO
Por Edgar Allan Pöe
(1809 - 1849)
Tradução:  S. de M. (Séc. XIX)
  
Não espero nem peço que acreditem na extraordinária e, contudo, vulgar história que lhe vou narrar.  Na realidade, seria um louco se tal esperasse, num caso em que os meus sentidos repelem o seu próprio testemunho.  E, todavia, eu não sou um doido —e não estou sonhando, com certeza.  Mas, como devo morrer amanhã, quero hoje aliviar a minha alma.


O meu fim imediato é apresentar ao mundo —claramente, sucintamente e sem comentários —uma série de simples acontecimentos domésticos.

Pelas suas consequências, esses acontecimentos terrificaram-me, torturaram-me, aniquilaram-me. Entretanto, não tentarei aclará-los. Considero-os horríveis, ainda que a muitas pessoas possam parecer menos terríveis do que estranhos.

É possível que mais tarde haja uma inteligência mais serena que reduza o meu fantasma à situação comezinha de simples lugar comum —uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável que a minha, que nada mais achará nos acontecimentos que um conto com terror, do que uma sucessão ordinária de causa e efeitos naturalíssimos.

Desde a infância que era notado o meu caráter naturalmente humilde e bondoso.  A sensibilidade do meu coração era até então notória, que fizera de mim o joguete de meus companheiros.

A minha maior tendência era uma amizade louca pelos animais, de que possuía uma grande variedade, com que a minha família me presenteara.

Passava quase todo tempo com eles e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Esta particularidade de meu caráter aumentou com o desenvolvimento físico, de forma que, depois de homem, o entreter-me com animais era um dos meus maiores prazeres.

Aos que sentiram uma grande afeição por um cão fiel e inteligente, não necessito explicar a natureza ou a intensidade do gosto proveniente de tal afeição.  Há na amizade desinteressada do animal, no sacrifício de si próprio, o quer que seja que toca diretamente no coração do que tem frequentemente ocasião de verificar a vil amizade e fidelidade mesquinha do “homem natural”.

Casei-me, e considerei-me verdadeiramente feliz por encontrar em minha mulher uma disposição de caráter semelhante à minha.

Visto que eu gostava imenso dos animais domésticos, minha esposa não perdia nunca a menor ocasião de acrescentar o número dos que possuíamos.  Tínhamos pássaros, um peixe dourado, um lindo cão, coelhos, um saguim e um gato.

Este último era um animal notoriamente forte e belo, completamente preto, duma inteligência maravilhosa.

Sempre que falava da inteligência do gato, minha mulher, que no fundo era um pouco supersticiosa, fazia frequentes alusões à velha crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas.  Isto não quer dizer que ela acreditasse na lenda: se menciono o fato é, simplesmente,  porque  me ocorreu, neste momento, à memória.


Plutão —assim se chamava o gato —era o meu preferido, o meu camarada.  Só eu lhe dava de comer, e seguia-me sempre por toda a casa. Era mesmo com dificuldade que conseguia de impedi-lo de me seguir pelas ruas.

A nossa amizade durou muitos anos, durante os quais o conjunto do meu caráter e do meu temperamento —por intervenção do demônio da intemperança, com vergonha o confesso —sofreu uma alteração, radicalmente má.

Tornei-me dia a dia indiferente pelos sentimentos dos outros.  Empregava uma linguagem brutal sempre que falava de minha mulher. Por fim, cheguei mesmo a agredi-la.

Os meus pobres amigos naturalmente ressentiram-se da mudança do meu caráter.  Não somente eu os desprezava, mas também os maltratava.

Continuava, contudo, a ter por Plutão uma consideração que me impedia de o maltratar, enquanto que não sentia o menor escrúpulo em bater nos coelhos, no saguim e mesmo no cão, quando o acaso ou a amizade que tinham por mim faziam com que os encontrasse em frente do pé.

Como me tornasse cada vez mais intratável —que vício há que possa comparar-se ao álcool? –, o próprio Plutão, que envelhecia, e que, por isso, me incomodava com as suas carícias —o próprio Plutão —começou a conhecer os efeitos do meu péssimo caráter.

Uma noite, ao entrar em casa muito embriagado, de volta de um botequim onde habitualmente passava as noites, pareceu-me que o gato fugia de mim.  Agarrei-o; mas ele, atemorizado pela minha violência, feriu-me levemente na mão com os dentes.

Repentinamente, apossou-se de mim um furor de demônio.  Desconheci-me. A minha alma pareceu abandonar subitamente o corpo, e minha perversidade hiperdiabólica, saturada de gim, penetrou todas as fibras do meu ser.

Tirei da algibeira do colete um canivete e abri-o; agarrei o gato pelo pescoço e friamente fiz-lhe saltar um dos olhos da órbita.

Coro, sinto ferver-me o sangue, estremeço ao escrever esta inclassificável atrocidade!

Quando a razão me voltou com o dia, depois de terem desaparecido os vapores do meu deboche noturno, tive um sentimento, um misto de horror e remorso, pelo crime que praticara; mas era um fraco e equívoco sentimento, de que a alma não se ressentiu. Voltei de novo aos excessos alcoólicos, afogando bem depressa no vinho a lembrança do meu crime.

Entretanto, a cura do gato progredia lentamente.  A órbita do olho perdido apresentava, é verdade, um aspecto repelente, mas o animal não indicava dever sofrer para o futuro.

Andava pela casa como costumava, mas logo que me ouvia os passos, fugia aterrorizado.

De meu antigo caráter restava ainda o suficiente para que me afligisse com a evidente antipatia dum animal que eu dantes tanto gostara.

Mas esse sentimento foi em depressa substituído pela irritação.  E então apareceu, para complemento da minha queda fatal e revogável, o espírito da PERVERSIDADE.

Deste espírito não tem a filosofia a menor noção.  Todavia, tão certo como existir a minha alma, creio que a perversidade é uma das primitivas impulsões do coração humano, uma das primeiras indivisíveis faculdades ou sentimentos que dirigem o caráter do homem.

Quem se não surpreendeu cem vezes cometendo uma ação tola ou vil, pela simples razão de saber que não devia cometê-la?

Não temos nós uma frequente inclinação, apesar da excelência de nosso senso, para viola o que se chama a Lei, simplesmente por compreendermos que é a Lei?

O espírito de perversidade —disse eu — causou a minha ruína final. Senti o desejo ardente, insondável, da alma se torturar a si própria, de violentar a própria natureza —de fazer o mal pelo amor ao mal –, que me levou a continuar e, finalmente, a consumar o suplício que infligira ao pobre animal inofensivo.

Uma manhã, com toda a presença de espírito, passei um nó corredio em volta do pescoço do gato e pendurei-o ao tronco  de uma árvore.  Pendurei-o com os olhos rasos de lágrima, com o mais amargo remorso no coração. Pendurei-o  porque sabia que me amara, e porque sentia que o pobre animal nunca me dera razão de zanga. Pendurei-o porque sabia que, procedendo assim, cometia um pecado,  um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, ao  ponto de a colocar —se uma tal coisa fosse possível —para além da misericórdia do Deus Misericordioso e Terribilíssimo.

Na noite que se seguiu ao dia que se seguiu aquele cruel ato, fui acordado em sobressalto pelo grito de:  “fogo, fogo!”.  Os cortinados do meu leito eram pasto das chamas.

Toda a casa ardia.

Foi com muita dificuldade que escapamos ao sinistro, minha mulher, um criado e eu.

A perda foi completa.

Toda a minha fortuna foi destruída pelo incêndio, o que me fez cair num desespero profundo.

Não pretendo estabelecer uma ligação entre a atrocidade e o desastre: sou superior a essa fraqueza.

Narro apenas o encadeamento de fatos, de que não desprezarei um anel.  No dia que se seguiu ao incêndio, visitei as ruínas da casa.

As paredes tinham caído, à exceção de uma, que era um fraco tabique interior, situado, pouco mais ou menos, ao centro da casa, e contra o qual se arrumava a cabeceira do meu leito.

Este tabique resistira, em grande parte, à ação do fogo, fato que atribuí a ter ele sido rebocado recentemente.

Em volta do tabique apinhava-se uma multidão enorme, que parecia examinar minuciosa e atentamente uma certa parte dele.
As palavras  “extraordinário!”,  “singular!” e outros termos de idêntica significação excitaram a minha curiosidade.

Aproximei-me e vi, semelhante a um baixo-relevo esculpido na superfície branca da parede a figura de um gigantesco gato.

A imagem reproduzira-se com uma exatidão verdadeiramente maravilhosa.  Em volta do pescoço do gato havia uma corda.

Imediatamente ao ver esta aparição —porque não poderia considerar o fato senão como uma aparição –, o meu espanto e o meu terror foram extremos.    Mas, por fim, a reflexão auxiliou-me.

O gato, lembro-me perfeitamente, fora dependurado num jardim adjacente à casa.  Aos gritos de alarme, o jardim devia  ter sido imediatamente invadido pela turba, e o animal fora decerto dependurado por alguém, e atirado para o meu quarto pela janela aberta.  E tinham procedido assim para me acordarem, sem dúvida.  O desmoronamento das paredes comprimira a vítima da minha crueldade no estuque com que pouco tempo antes o tabique fora rebocado; a cal do tabique combinado com o amoníaco do cadáver tinham operado a imagem tal qual eu a vi.

Conquanto satisfizesse assim rapidamente a minha razão, senão também à consciência, relativamente ao fato surpreendente que acabo de contar,  nem por isso esse fato deixou de fazer na minha imaginação uma impressão profunda.

Durante muitos meses não me abandonou o fantasma do gato; e durante esse período nasceu na minha alma um meio sentimento que parecia ser, mas não era, o remorso.

Cheguei a deplorar a perda do gato e a procurar nas imundas tabernas, que frequentava habitualmente, um outro animal da mesma  espécie, e parecido com o que eu matara, para o substituir.

Era uma noite. Estando sentado, meio bêbado já, numa taberna imundíssima, atraiu-me subitamente a atenção um objeto preto, estendido sobre uns enormes tonéis de gim e rum, que enchiam a taberna.

Havia já uns minutos que eu olhava para o túnel e surpreendia-me por não ter ainda dado pela presença do objeto colocado sobre ele.

Aproximei-me e toquei-lhe com a mão.

Era um gato preto —um grande gato —do tamanho de Plutão, pelo menos, parecido com este, exceto num ponto.  Plutão não tinha um só pelo branco em todo corpo, enquanto o que estava sobre o tonel tinha uma mancha alarga e branca, mas de uma forma indecisa, que lhe cobria todo o peito.

Logo que lhe toquei, o gato levantou-se rapidamente, rosnou com força, esfregou-se na minha mão parecendo gostar muito das minhas carícias.

Era na realidade o animal que eu até então procurara inutilmente.

Pedi ao dono da taberna que me vendesse o gato, mas o homem declarou não lhe pertencer o animal; não o conhecia, nunca o vira até então.

Continuei a acaricia-lo e quando me preparava para voltar para casa, o gato mostrou-se disposto a acompanhar-me.

Consenti e, enquanto caminhava, baixava-me para o acariciar.

Logo que chegamos, o gato como que se achou em sua casa, tornando-se imediatamente muito amigo de minha mulher.

De minha parte, senti logo nascer uma grande antipatia pelo gato.

Sucedia justamente o contrário do que esperava; mas a verdade —não sei como nem por que se  dava este fato —era que a sua evidente amizade por mim quase me incomodava e aborrecia.

Lentamente, estes sentimentos de incômodo e de aborrecimento aumentaram até ao ódio.

Evitava o animal, e uma certa sensação de vergonha e a lembrança do  meu primeiro ato  de crueldade impediam-me de o maltratar.

Durante algumas semanas me abstive de lhe bater ou de o tratar violentamente; mas gradualmente —insensivelmente —comecei a olhá-lo com indizível terror, e a fugir  de sua odiosa presença, como dum hálito empestado.

O que aumentou sem dúvida o meu ódio pelo animal foi a descoberta que fiz, na manhã seguinte à noite em que eu o levei para casa que, como Plutão, o gato não tinha um dos olhos.

Esta circunstância, de resto, apenas fez com que minha mulher gostasse mais dele, porque, como já disse, ela possuía em alto grau essa ternura de sentimento que fora o meu traço característico e a contínua origem de meus prazeres mais simples e mais puros.

Todavia, a afeição do gato por mim parecia aumentar na razão direta da aversão que por ele sentia.

Sentia com uma obstinação que dificilmente faria compreender ao leitor.

Sempre que me sentava, saltava-me para os joelhos, acariciando-me excessivamente.

Se me levantava para andar, o gato metia-se por entre as minhas pernas, e quase  me deitava ao chão, ou então, enterrando as unhas compridas afiladas no meu fato, subia-me pelo corpo até ao peito.

Nesse momento, ainda que desejasse imenso matá-lo com uma só pancada, impedia-me de o fazer em parte a recordação do  meu primeiro crime, mas principalmente —devo confessá-lo —o verdadeiro terror que o animal me inspirava.

Esse terror não era positivamente o terror dum mal físico, e eu, entretanto, não saberia defini-lo doutra forma.

Quase me envergonho de confessar —mesmo nesta cela de criminoso –, sim, quase me envergonho de confessar que o terror e o horror que me inspiravam o gato  eram aumentados por uma das mais completas quimeras que é possível conceber.

Minha mulher chamara mais duma vez a minha atenção para a natureza da mancha branca de que falei e constituía a única diferença visível entre este gato e o que eu matara.

O leitor lembra-se sem dúvida de eu lhe haver dito que a mancha, apesar de grande, era primitivamente indefinida na forma; mas lentamente, por graus —por graus imperceptíveis, e que a minha razão se esforçou duramente muito tempo por considerar imaginários –, tomara  por fim uma rigorosa nitidez de contornos.

A mancha representava a imagem dum objeto que eu tremo de indicar, e era isso o que me fazia aborrecer e odiar o animal, e que me teria levado a me livrar dele, se a tal me atrevesse. Era, disse, uma imagem odiosa —de um sinistro objeto –, a imagem da Forca!  Oh, lúgubre e terrível máquina!  Máquina de Horror e de Crime.  De agonia e Morte!

E dali em diante fiquei sendo tudo o que é possível imaginar-se de mais miserável na Humanidade.

Um vil quadrúpede —de que eu facilmente matara um igual — um vil quadrúpede causar em mim —em mim, homem feito à semelhança do Deus Todo Poderoso —um tão grande e tão intolerável infortúnio!

Durante o dia, o gato não me deixava um só momento; e de noite, a cada instante, quando saía dos meus sonhos de indizível angústia, era para sentir no rosto o tépido hálito do animal, e o imenso peso —encarnação dum Pesadelo que me era impossível sacudir –, oprimindo-me eternamente o coração.

Sob a pressão de semelhantes tormentos, o pouco de bondoso que restava em mim sucumbiu.

Tornaram-se frequentes os maus pensamentos: os mais sombrios e os mais terríveis de todos os pensamentos.

À habitual tristeza de meu gênio juntou-se o ódio por todas as coisas e por toda humanidade.

Entretanto, minha mulher, que nunca se queixava, era o alvo, a mais paciente vítima das frequentíssimas e indomáveis erupções de fúria que me acometiam cegamente.

Um dia, por qualquer necessidade doméstica, acompanhou-se à cava da pobre casa em que a nossa pobreza nos obrigara a viver.

O gato seguia-me pela escada, e, metendo-se por entre as minhas pernas, por formas que me ia fazendo cair, exasperou-me até a loucura.

Peguei no machado e, esquecendo-me, na raiva que de mim se apossou, do pueril temor que me contivera a mão até então, vibrei ao animal um golpe que seria mortal, se o tivesse atingido, o que não sucedeu por ter  minha mulher me segurado o braço.

Esta intervenção exasperou-me diabolicamente: desembaracei o braço da mão com que ela me segurava e enterrei-lhe o machado na cabeça.

Minha mulher caiu instantaneamente morta, sem soltar um só gemido.

Cometido este terrível crime, resolvi, imediatamente e resolutamente, esconder o corpo.

Compreendi que não podia fazê-lo desaparecer de casa, tanto de dia quanto de noite, sem correr o perigo de ser observado pelos vizinhos.

Acudiram-me ao espírito muitos projetos.

Tive por um momento a ideia de cortar o corpo em bocados que destruiria pelo fogo.

Depois resolvi abrir uma cova no solo do porão.

Em seguida, pensei em deitar o corpo no poço do quintal.  Depois lembrei-me de o meter num caixote como quaisquer gêneros, e chamar um homem que o levasse para fora de casa.

Por fim, recorri a um expediente que me pareceu o melhor de todos.

Resolvi emparedar o corpo na cave, como os frades da idade média emparedavam, segundo se diz, as suas vítimas.

A cave tinha uma excelente disposição para semelhante desígnio.

As paredes, mal construídas, tinham sido recentemente rebocadas, impedindo a umidade que a camada de cal endurecesse.

Além disso, uma das paredes tinha um ressalto, causado por uma chaminé, que fora edificada por forma idêntica à das paredes.

Não duvidei de que me fosse fácil arrancar os tijolos naquele sítio, introduzir ali o corpo e colocar de novo os ladrilhos cuidadosamente, de sorte que ninguém pudesse descobrir nada de suspeito.

E não me  enganei no cálculo.

Com uma alavanca arranquei os tijolos com precaução e, depois de arrumar o corpo à parede interior, sentei-o nesta posição, até que, sem grande custo, pus tudo no seu primitivo estado.

Arranjando com todas as precauções inimagináveis cal e areia, fiz uma pouca argamassa com que reboquei cuidadosamente a parte da parede que desmanchara.

Quando acabei, vi com satisfação que a parede não levantaria as menores suspeitas, visto não apresentar o mais ligeiro indício de ter sido construída de novo.

Transportei para fora de casa, com o maior cuidado, o entulho, e varri a cave.

Em seguida, comecei a procurar o animal que causara tão grande desgraça porque, por fim, eu resolvera firmemente matá-lo.

Se eu o encontrasse nesse momento, o seu destino era fatal. Mas parece que o ardiloso animal, atemorizado pela violência da minha recente cólera, evitava cuidadosamente  aparecer-me enquanto me durasse a fúria.

É impossível descrever ou de imaginar a profunda, a completa sensação de sossego que a ausência do animal produziu em todo o meu ser.

Nunca mais  o senti de noite, sendo, portanto, a primeira noite —depois que trouxera o gato para casa —que dormi, descansada e tranquilamente.  Sim, eu dormi, apesar de ter a doer-me na consciência o assassínio que cometera!

A segunda e terceira noite passaram sem que o gato aparecesse.

Uma vez ainda respirei como homem livre.  O mostro aterrorizado abandonara de todo a casa! Eu não o veria mais!  A criminalidade da horrorosa ação inquietava-me pouquíssimo.

Tinham aberto uma espécie de devassa, que dera resultado.  Fora mesmo ordenada uma busca, mas naturalmente nada tinham podido descobrir.

Considerei segura a minha felicidade futura.

No quarto dia depois do assassínio, entraram-me inesperadamente em casa uns policiais, que procederam a uma nova busca.

Contando, de certo, com a impenetrabilidade do esconderijo, não senti temor.

Os policiais fizeram com que eu os acompanhasse nas buscas.

Nem um só canto da casa deixou de ser explorado.

Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram à cave.

Nem um só músculo se me contraía.

O meu coração batia regularmente, como dum homem que dorme tranquilamente.

Terminado tudo isso, olhei em volta e disse comigo mesmo:

—Aqui, ao menos, não perdi o meu trabalho.

Entrei na cave, cruzei os braços, e comecei a passar dum lado para o outro com toda naturalidade.

Os policiais estavam completamente satisfeitos e preparavam-se para sair.

Senti no coração um tão forte júbilo que me foi impossível reprimi-lo.

Tinha a necessidade absoluta de pronunciar uma palavra, pelo menos que significasse um triunfo, e que robustecesse nos policiais a convicção que tinham da minha inocência.

—Meus senhores —disse eu por fim, quando os policiais subiam as escadas –, sinto-me feliz por lhes ter dissipado as suspeitas.  Desejo-lhes a todos uma excelente saúde, e em tudo nada mais que delicadeza.  Esta casa é bem edificada, não acham, meus senhores? (No desejo, que se apoderou de mim, de dizer qualquer coisa com ares impertinentes, nem sabia o que dizia.) Pode dizer-se sem medo de errar que esta casa é admiravelmente bem edificada. Estas paredes —vão-se embora, meus senhores? —estão solidamente construídas!

E ao pronunciar estas palavras, por uma frenética petulância, bati uma forte pancada com uma bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede por detrás da qual estava o cadáver da esposa do meu coração.

Ah, que ao menos Deus me proteja e me livre do Arquidemônio.

Apenas o eco da pancada se repercutiu no silêncio da cave, uma voz respondeu por detrás da parede!  Um gemido meio velado e entrecortado, como o vagido de uma criança, que imediatamente se transformou num grito prolongado, sonoro e contínuo, completamente anormal e anti-humano —um uivo –, um ganido, misto de medo e esperança, como se pode ouvir no inferno, som terrível como se saído da garganta dos condenados às torturas infernais e dos demônios exultados pelas condenações.

Dizer-lhes os pensamentos que me atravessaram o cérebro seria loucura.

Senti-me desfalecer, encostei-me à parede fronteira.

Durante um momento, os policiais conservaram-se imóveis sobre os degraus da escada, assombrados de horror.


Um instante depois, uma dúzia de braços robustos puxavam encarniçadamente pela parte da parede da chaminé que dias antes eu rebocara de novo.


A parede caiu, por fim completamente, por uma só vez.


O cadáver, já bastante putrefato, e coberto de sangue coalhado, apareceu direto aos olhos dos policiais.


Sobre a cabeça do corpo, com a cabeça aberta e um único olho chamejante, estava o hediondo animal que me fizera praticar o assassínio, e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco!


Eu emparedara o gato conjuntamente com o cadáver de minha mulher!



Publicado originalmente no Diário do Maranhão entre os dias 1ª e  5 de maio de 1890.

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