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MALDIÇÃO - Conto Clássico de Terror - Jack Dee

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MALDIÇÃO Jack Dee 1 (Séc. XX) Duvido muito, leitor, que, por mais fortes que sejam as tintas, por mais vivo que seja o meu estilo, eu possa transmitir um décimo das surpresas e angústias do drama que te vou contar. É preciso advertir, desde já, que não se trata de um conto, mas da vida real com todas as suas asperezas e brutalidades. Eu cá tenho as minhas ideias a propósito dos fatos desta narrativa, mas você, caro leitor, dê lá as interpretações que lhe parecerem mais razoáveis, pois não é admissível que um homem, que conhece horrores e mistérios da Nova Zelândia, tenha convicções exatamente idênticas às de outro que só conhece a suavidade da vida citadina. Eu era, naquela época, um jovem estudante e, durante as minhas férias de maio, com um colega de nome Pat Simpkin, decidi aproveitar o meu descanso com divertimentos menos banais. E, assim, quase sem preparativos, partimos de Auckland numa formosa manhã domingueira. Estávamos em pleno inverno, mas o dia raiava esplêndido, ...

A DECAPITAÇÃO SECRETA - Narrativa Clássica Verídica de Horror - Johan Peter Hebel

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A DECAPITAÇÃO SECRETA Johan Peter Hebel (1760 – 1826) Não sei se o carrasco de Landau rezou, com devoção, a sexta súplica do Pai Nosso na manhã de 17 de junho daquele ano. Se não o fez, certo é que um bilhete chegou de Nanzig no dia mais oportuno. No bilhete estava escrito: “ Carrasco de Landau! Venha imediatamente a Nanzig e traga a sua grande espada de verdugo. Lá, dir-lhe-ão o que deve fazer e pagar-lhe-ão bem.” Uma carruagem já o aguardava em frente à sua casa. O carrasco pensou: “Este é o meu dever” e entrou na carruagem. Já era noite e o sol se punha em meio a nuvens vermelho-sangue, quando, faltante ainda uma hora para chegarem em Nanzig, o cocheiro, frenando a carruagem, disse-lhe: — Amanhã, fará um bom tempo novamente. De súbito, três homens fortes e armados surgiram à beira da estrada. Subiram à carruagem, sentaram-se ao lado do carrasco e prometeram-lhe que nenhum mal lhe aconteceria. Todavia, disseram que imperioso seria vendar-lhe os olhos. ...

O FANTASMA DO PORÃO - Narrativa Clássica Verídica Sobrenatrual - Arthur Conan Doyle

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O FANTASMA DO PORÃO Arthur Conan Doyle (1859 – 1930) Tradução de Paulo Soriano Uma senhora, que vivia com dois filhos numa casa isolada na costa da Cornualha, era perturbada pela presença de um visitante fantasmagórico, que, em determinado momento da noite, subia, com passos pesados, as escadas, e desaparecia no painel do patamar. Tomada de coragem, a senhora o esperou. Viu que a aparição era um homem baixo e idoso, que vestia um terno de tweed surrado e levava as botas na mão. Ele emitia “uma espécie de luz amarela e luminosa”. Aquela criatura surgia a uma hora e reaparecia às quatro e trinta da manhã, sempre descendo as escadas com passos audíveis. Embora a senhora guardasse consigo aquele incidente, uma cuidadora, que passara a tratar de uma das crianças, apareceu gritando no meio da noite, dizendo que havia “um velho terrível” na casa. Ela, que havia descido à sala de jantar para buscar água para o seu pupilo, o viu sentado em uma cadeira, tirando as botas. Iluminava-o ...

DISCUSSÃO FATAL - Conto Clássico Sobrenatural - Gan Bao

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DISCUSSÃO FATAL Gan Bao (? – 336) Yuan Chan, também chamado Chien-li, afirmava que fantasmas não existiam e q ue ninguém poderia convencê-lo do contrário. Insistia em que esta era a verdade suprema e que ele bem a conhecia. Um dia, um estranho apresentou-se a Yuan e, depois de trocarem os corteses cumprimentos, puseram-se a discutir filosofia. O estranho exibia grande habilidade em sua argumentação. Yuan Chan conversou longamente com ele, mas, quando o assunto abordou a existência de espíritos, os sábios exaltaram-se. Finalmente, derrotado na argumentação e, perdendo a paciência, disse-lhe o estranho: — Até mesmo os antigos sábios escreveram sobre divindades e fantasmas: como você pode negar a existência deles? Seu humilde servo, que agora lhe fala, na verdade é um fantasma! E, depois de assumir uma forma monstruosa, subitamente desapareceu. Yuan ficou em silêncio e mudou de cor. Um ano depois, estava morto. Versão em português de Paulo Soriano. ...

A FILHA DESOBEDIENTE - Conto Clássico Cruel - Gonçalo Fernandes Trancoso

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A FILHA DESOBEDIENTE Gonçalo Fernandes Trancoso (c. 1520 — 1596) De um dos pioneiros do conto em Portugal, Gonçalo Fernandes Trancoso (c. 1520 — 1596), autor dos “Contos de Proveito e Exemplo”, sabe-se muito pouco: nascido em Trancoso, viveu em Lisboa, onde perdeu a família — mulher, dois filhos e um neto — na peste de 1569. É em razão dele que vem a expressão “histórias de Trancoso”, e esta passou a designar o conjunto de narrativas populares de tradição oral. Em “A Filha Desobediente”, pretendendo haver escrito o conto “para exemplo das filhas, [para] que sejam obedientes à mãe e virtuosas”, Trancoso, aos olhos modernos, em verdade encetou um desfecho deveras cruel, desproporcional à leviandade da jovem filha. Uma virtuosa dona de boa vida tinha uma filha de tão má inclinação que não queria tomar os nobres conselhos da mãe, nem a aprender seus louvados costumes; mas em tudo seguia seu próprio parecer, sem obediência de pessoa alguma, nem correição de vizinha, nem parenta, po...