ORELHA - Conto de Terror - Lewis Medeiros Custódio
ORELHA Lewis Medeiros Custódio Confesso que, após o segundo ou terceiro milénio, torturar pessoas começa a perder a graça. Deixa de ser excitante. Sinceramente, passa até a ser enfadonho. E por fim piora. Começa-se a sentir empatia com as almas que Deus condenou e que o Diabo, meu superior e supremo líder de todos os demónios como eu, ordena castigar. Afinal, não é o Homem tão vítima dos desígnios divinos como nós? Se o divino manda em tudo, seguramente já tinha destinado que eu fosse um demónio antes da primeira faísca da existência. Como posso, então, ter eu culpa? Do mesmo modo pergunto como poderiam os humanos fugir do destino divino — e muitos colegas meus indagam o mesmo na hora da pausa, enquanto bebem sangue na taberna. A típica conversa de café sobre política. Claro que há uma excepção aqui e ali que nos faz o sangue ferver — Calígula, Vlad, Hitler, Bathori… até fazemos fila! Mas são excepções. Parcas excepções em milénios. Hoje, porém, senti as minhas energias redobrare...