UMA VÍTIMA DA PUBLICIDADE - Conto Clássico Insólito - Émile Zola



UMA VÍTIMA DA PUBLICIDADE
Por Émile Zola
(1840-1902)


Conheci um corajoso rapaz, falecido no ano passado, cuja vida foi um prolongado martírio.

Claude, a partir da idade da razão, engendrou o seguinte raciocínio: “O plano de minha vida está traçado. Eu só tenho que aceitar cegamente os benefícios de minha época. Para avançar com o progresso e viver perfeitamente feliz, preciso apenas ler os jornais e cartazes, de manhã e à noite, e fazer exatamente o que estes guias soberanos me aconselharem.  Esta é a única sabedoria, a única felicidade possível”. A partir daquele dia, Claude adotou os anúncios de jornais e os cartazes publicitários como código de vida. Estes se tornaram o guia infalível que o ajudaria a decidir todas as coisas. Nada comprava, nada empreendia que não fosse recomendado pela grande voz da publicidade.

Foi assim que o pobre desventurado passou a viver um verdadeiro inferno.

Claude adquiriu um terreno em zona de aterro, onde só pôde construir sobre pilotis.  A casa, construída segundo um sistema moderno, tremia quando ventava e desmoronava com as chuvas tempestuosas.

No seu interior, as chaminés, guarnecidas de um engenhoso sistema fumífugo, exalavam fumaça até asfixiar as pessoas. As campainhas elétricas obstinavam-se permanecer silenciosas. Os vasos sanitários, instalados segundo um modelo excelente, haviam-se convertido em fossas horríveis. Os móveis, que deviam obedecer a mecanismos peculiares, recusavam-se a abrir e fechar.

Tinha sobretudo um piano mecânico que não era senão um péssimo realejo e, ademais, um cofre inviolável, à prova de fogo, que os ladrões levaram tranquilamente às costas nua bela noite de inverno.

O infeliz Claude não padeceu apenas com suas propriedades; também sofreu pessoalmente.

A sua roupa rasgou-se em plena rua. Ele a comprara numa dessas casas que anunciavam um grande desconto por causa de uma liquidação.

Um dia o encontrei completamente calvo. Ele teve a ideia de mudar o cabelo de louro para preto, sempre guiado pelo amor ao progresso. A loção que ele usara causara-lhe a queda de todos os fios louros; ainda assim, ele ficou contente porque, segundo dizia, agora poderia fazer uso de certa pomada que, com toda certeza, lhe proporcionaria um cabelo preto duas vezes mais espesso que o antigo louro. Eu não vou falar sobre todos os remédios que ele tomou. Ele, que era robusto, ficou esquálido e sem fôlego. Foi quando a publicidade começou a matá-lo. Acreditando-se doente, ele se tratou segundo as excelentes receitas dos anúncios e, para que a medicação fosse mais eficaz, seguiu todos os tratamentos ao mesmo tempo, deveras embaraçado com a idêntica quantidade louvores que cada produto recebia.

A publicidade tampouco honrou a sua inteligência. Ele encheu sua biblioteca com livros que os periódicos recomendavam. A classificação que adotou foi a mais engenhosa: dispôs os volumes por ordem de mérito, ou seja, segundo o maior ou menor lirismo dos artigos pagos pelos editores.

Todos os disparates e todas as infâmias contemporâneas ali se amontoavam.  Nunca se vira um tão grande monte de ignomínia. E Claude tivera o cuidado de pregar na lombada de cada livro o anúncio que o induzira a comprá-lo.

Assim, quando abria um livro, sabia de antemão o entusiasmo que se lhe seria revelado. Ria ou chorava conforme a fórmula.

Neste ritmo, ele se tornou um completo idiota.

O último ato deste drama foi lastimável. Claude, tendo lido que havia uma sonâmbula que curava todos os males, apressou-se em consultá-la sobre as doenças que tinha. A sonâmbula gentilmente ofereceu-lhe a possibilidade de rejuvenescimento, indicando-lhe os meios de ter não mais que dezesseis anos. Tratava-se simplesmente de tomar um banho e beber uma certa água.

Ele tomou a beberagem, mergulhou na banheira e rejuvenesceu tão completamente que, ao cabo de meia hora, encontram-no afogado.

Mesmo depois de sua morte, Claude foi vítima da propaganda. Em seu testamento, manifestara a vontade de ser sepultado num ataúde de embalsamento instantâneo cuja patente um farmacêutico acabara de obter. No cemitério, o ataúde se abriu em dois e o miserável cadáver escorregou à lama, tendo de ser enterrado de qualquer jeito com as tábuas quebradas de seu caixão.

Seu túmulo, feito de cartão-pedra e imitação de mármore, encharcado pelas primeiras chuvas de inverno, rapidamente transformou-se num monturo de podridão inominável.


Versão em português de Paulo Soriano.


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O CORVO - Edgar Allan Poe - 1a. Tradução Brasileira (em Prosa)


O CORVO
Edgar Allan Pöe
(1809 – 1849)
Tradução de Venceslau de Queiroz
 (1963 – 1921)


Esta é, provavelmente, a primeira tradução do célebre poema de Allan Pöe a ser publicada no Brasil (saiu no periódico O Mequetrefe, edição de 20 de abril de 1885). Malgrado em prosa, porque realizada a partir da versão francesa de Baudelaire, conserva o clima lúgubre e melancólico do original. O tradutor, conforme informa o escritor Múcio Leão, em artigo publicado em 1939, era paulista. “Poeta e prosador, jornalista e polemista, crítico de assuntos literários e musicais”, é autor de Goivos, Versos e Cantilenas (talvez conservado inédito), além do volume Rezas do Diabo, que reúne poemas avulsamente publicados em jornais e revistas de São Paulo e, mais tarde, coligidos pelo filho do autor.  

Uma vez, pelas desoras lúgubres da noite, enquanto, fraco e fatigado, eu meditava sobre velhos e curiosos volumes de uma doutrina antiga, enquanto, quase adormecido, toscanejava, subitamente ouvi uma pancada, como se batessem de leve à porta do meu quarto. “Alguém, talvez, que me procura”, pensei, “e que bate-me à porta, talvez seja isso, e nada mais”.

Ah! Lembro-me distintamente: corria o mês de dezembro, frio e glacial, e cada acha de lenha, acesa no fogão, desenhava no soalho um reflexo de agonia. Eu esperava a manhã, ansiosamente; há muitas horas já, em vão, pedi aos livros um instantâneo repouso à minha tristeza, essa tristeza nervosamente horrível que me acabrunha desde que perdi Lenora, honesta e graciosa virgem que os anjos no céu hoje chamam Lenora, e que no mundo ninguém mais poderá chamar; ai! Nunca mais!

E o brando, triste e vago ondular do reposteiro de púrpura impressionava-me, enchia-me de terrores fantásticos, para mim desconhecidos até essa noite; afinal, para abrandar a pulsação precípite do meu peito, levantei-me, repetindo: “Alguém talvez, que me procura; talvez algum retardado visitante que bate-me à porta; sim, talvez seja isso, e nada mais”.

Minha alma nesse instante sentia-se mais forte. Não hesitei, pois, por mais tempo e falei, supondo que fosse alguém que batesse:

— Peço-vos desculpas, eu ia adormecendo, quando vos ouvi bater-me à porta, tão docemente, tão brandamente, que fiquei ainda incerto de vos ter ouvido.

E abri a porta, de par em par; só vi trevas, e nada mais.

A perscrutar profundamente essas trevas, ali fiquei por muito tempo, estarrecido de espanto, de medo e de dúvida, sonhando coisas que no mundo ninguém ainda ousara sonhar; mas o silêncio não foi perturbado, e tudo se conservou imóvel. A única palavra que ouvi sibilaram-ma aos ouvidos: “Lenora!” Tinha sido eu mesmo quem a balbuciara, e um eco por sua vez também repetira: “Lenora”. Fora isso, e nada mais.  Ao entrar de novo no quarto com a alma sobressaltada, ouvi logo uma pancada um pouco mais forte que a primeira.

“Com certeza”, pensei comigo, “com certeza, há alguma coisa entre as folhas da janela. Antes, porém, acalmemos o coração; talvez seja o vento, e nada mais”. Abri então a janela, e, com um tumultuoso batimento de asas, entrou um majestoso corvo, digno dos primeiros dias da criação. Não me fez a menor reverência, não parou, não hesitou um minuto; mas, com a sem-cerimônia de um lord ou de uma lady, empoleirou-se num busto de Palas que encimava a porta do quarto; empoleirou-se, instalou-se, e nada mais.

Esta ave de ébano, pela gravidade de seu porte e severidade de sua fisionomia, induzia-me a rir, e gracejei:

 — Lúgubre e velho corvo, viajor afastado das praias da Noite, ainda que a tua cabeça esteja sem crista e sem cimeira, não és certamente nenhum poltrão. Dize-me o teu nome senhorial nas caliginosas praias das regiões infernais.

O corvo respondeu:

— Nunca, mais!

Fiquei maravilhado.

Este hediondo volátil facilmente entendera a minha pergunta, se bem que a sua resposta não tivesse um sentido perfeito e me não desse grande explicação; mas devemos convir que a homem algum jamais foi dado ver uma ave ou animal qualquer, pousado num busto esculpido em cima da porta de seu quarto, chamar-se “Nunca mais”.

E o corvo empoleirado, salientemente negro e solitário, no busto branco e imóvel, proferiu essas únicas palavras, como se nelas espalhasse sua alma toda.

Nada mais pronunciou, nem agitou uma pena sequer, até que eu murmurasse comigo mesmo: “Há muito tempo que me abandonaram outros amigos; ele deixar-me-á também ao alvorecer do dia, como as minhas esperanças de outrora...”

A ave repetiu ainda:

— Nunca mais!

Estremeci ao ouvir esta resposta, dada com tanta justeza, e exclamei:

— Sem dúvida, o que esta ave pronuncia é toda a bagagem de seu saber, que recebera em casa de qualquer desamparado da fortuna, que a implacável Desgraça, persistentemente, sem tréguas, perseguira, até que as suas canções não tivessem mais que um só estribilho, até que o De profundis da sua esperança tomasse este melancólico estribilho: “Nunca mais”.

Mas, sempre interessado e curioso, rolei imediatamente a minha poltrona para perto da ave, do busto e da porta; e,  enterrando a cabeça no espaldar aveludado, esforcei-me por encadear as ideias, indagando a razão por que esta hedionda, triste, magra e sinistra ave, digna dos primeiros dias da criação, fazia-me ouvir, crocitando, estas palavras: “Nunca mais”.

Assim me conservei, sonhando, conjecturando, mas não dizia uma sílaba sequer a essa ave, cujo olhar, ardendo como um clarão do inferno, queimava-me profundamente os refolhos do coração.

Procurei por muito tempo atinar com a razão disto e de mais algum mistério, repoisando a cabeça, negligentemente, no veludo do espaldar, que a luz da lâmpada acariciava, este veludo roxo sobre o qual, ao morno clarão dessa mesma lâmpada, tantas vezes ela repoisara a cabeça de anjo, e agora... nunca mais!

Pareceu-me então que se toldava o ar, embalsamado por um turíbulo invisível que os serafins agitavam e cujas asas apenas esfrolavam o tapete do quarto.

— Desgraçado!  — bradei contra mim mesmo. — O Deus de tua crença, por intermédio de seus anjos, envia-te repouso e esquecimento às saudades e angústias que te ralam o seio... Embriaga-te, pois, neste ar saturado dos perfumes do céu, e esquece para o todo sempre a tua morta Lenora.

O corvo grasnou:

— Nunca mais!

— Profeta! — exclamei.  — Núncio de desgraças! Ave ou demônio, mas sempre profeta! Ainda que sejas um mensageiro do Arcanjo tenebroso, ou que a tempestade te açoutasse e te fizesse naufragar, corajoso sempre, sobre esta terra deserta, povoada de fantasmas, sobre esta habitação continuamente abalroada pelo Horror,  dize-me, sinceramente, eu to suplico: existe, existe ainda, no mundo, algum bálsamo da Judeia para as minhas dores? Responde-me; eu to suplico.

O corvo respondeu:

— Nunca mais!

— Profeta! — bradei ainda. — Núncio da desgraça! Ave ou demônio, mas sempre profeta! Por este céu arqueado sobre nossas cabeças, por este Deus que ambos nós adoramos, responde à minha alma, sobrecarregada de dor, se, no paraíso longínquo, ela poderá algum dia abraçar uma virgem santa que os anjos no céu chamam Lenora, uma bela e honesta virgem que me abandonou no mundo para cantar no céu entre as choreias místicas dos anjos...

O corvo respondeu:

— Nunca mais!

— Ave ou demônio, esta resposta é o sinal da nossa eterna separação. Engolfa-te, pois, na tempestade, volta às caliginosas praias das regiões infernais; não deixes cair aqui uma pena sequer como lembrança da mentira que proferiste; abandona esta inviolada solidão, deixa este busto, arranca o teu bico e as tuas garras de meu coração e precipitas-te para longe desta morada.

O corvo respondeu:

— Nunca mais!

E o corvo, imóvel, instalou-se, para todo o sempre, sobre o lívido busto de Palas, que encimava a porta do meu quarto; e os seus olhos, cortados de quando em quando por um sinistro clarão do inferno, semelham-se aos olhos de um demônio que sonha; a luz da lâmpada, esbatendo sobre ele, projeta-lhe a sombra no soalho e, para fora do círculo desta sombra, que jaz flutuante sobre o soalho, nunca mais poderá erguer-se minha alma, nunca mais!

Fontes: O Mequetrefe (RJ) edição de 20 de abril de 1885; Autores e Livros (RJ), edição de 26 de junho de 1948.




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UMA FAMÍLIA DE LICANTROPOS - Narrativa Clássica de Horror - Henry Boguet


UMA FAMÍLIA DE LICANTROPOS
Henry Boguet
(1550 – 1619)

Perrenette Gandillon era uma jovem mulher que viveu no Jura, França, no século XVI. Noite e dia, ela percorria o campo de sobre quatro patas, acreditando que era um lobo.

Certo dia, enquanto vagava pelo bosque, correndo sobre quatro patas e comportando-se como um lobo, ela foi acometida por um súbito ataque de loucura licantrópica quando viu dois jovens miseráveis –   irmão e irmã – colhendo bagas na floresta. Benoît Bidel, um rapazote de quinze anos, originário de Nezan, subiu a uma árvore para recolher frutinhas, enquanto a sua irmã mais nova aguardava-o embaixo. Perrenette, animada por uma nova paixão pelo sangue, lançou-se abruptamente sobre a menininha. A fera provavelmente teria matado a criança se o irmão, vendo-a submetida ao ataque daquilo que supunha ser um lobo, não tivesse se precipitado em seu socorro, armado com uma faca. Perrenette, virando-se subitamente para o jovem, atacou-o, desarmou-o e, com a faca, feriu-o gravemente no pescoço. A luta, seguida dos gritos, prontamente atraiu as pessoas, fazendo com que Perrenette fugisse.

O jovem foi, então, levado à casa de seus pais, onde faleceu em razão dos ferimentos. Antes de morrer, declarou que as duas patas dianteiras do lobo que o atacara tinham a forma de mãos humanas. Perrenette Gandillon, não tendo aparecido na vila naquele dia, foi acusada desse crime. Uma multidão de camponeses partiu em busca de Perrenette, e logo a encontraram, ainda coberta de sangue. Horrorizados, os camponeses a massacraram sumaria e prontamente, sem julgamento.

Pouco depois, Pierre, irmão de Perrenette Gandillon, foi acusado de feitiçaria. Diziam que ele levava crianças ao sabá, que fazia chover granizo e que vagava pela região na forma de um lobo. A transformação realizava-se por meio de um unguento que ele recebia do próprio diabo. Pierre já havia assumido a forma de uma lebre, mas, em geral, ele aparecia como um lobo, trazendo a pele coberta de pelos cinzentos e hirsutos.

O homem admitiu, prontamente, a procedência das acusações que lhe eram carreadas. Também admitiu que, durante suas metamorfoses, atacava animais e seres humanos, que eram por ele devorados. Para reaver forma humana, alegou que lhe era suficiente rolar sobre a relva orvalhada.

Seu filho Georges confessou que havia sido untado com o mesmo unguento e que comparecera ao sabá transmutado em lobo. Segundo seu próprio testemunho, ele se lançara sobre duas cabras numa de suas expedições.

Certa noite, uma Quinta-feira Santa, ele estivera deitado na cama por três horas, em estado cataléptico, ao cabo das quais se levantou. Desde então, passou a frequentar o sabá das bruxas sob a forma de um lobo.

Antoinette, sua irmã, confessou que fazia chover granizo e que se vendera ao diabo quando este se lhe apareceu na forma de um bode preto. Ela também tinha ido ao sábá muitas vezes.

Quando encarcerados, Pierre e Georges se comportaram de maneira tresloucada. Corriam de quatro patas em suas celas e gritavam assustadoramente. Seus rostos, braços e pernas estavam terrivelmente marcados pelas mordidas que haviam recebido dos cães durante suas caminhadas sob a pretensa forma lupina. Enquanto aprisionados, alegavam eles que não poderiam se transformar em lobos, porquanto suas peles careciam dos unguentos necessários à metamorfose. Todos os três foram enforcados e queimados em 1598.

Versão em português de Paulo Soriano.
Ilustração: Lucas Cranach, o Velho (1472 – 1553).


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A EXECUÇÃO DE CARLOS I DA INGLATERRA - Narrativa Clássica de Horror - François Guizot


A EXECUÇÃO DE CARLOS I DA INGLATERRA
François Guizot
(1787 – 1875)
Tradução de Augusto Frederico Colin
(1823 - ?)


Depois de quatro horas de profundo sono, Carlos I da Inglaterra saiu do leito.

– Tenho grande negócio a concluir – disse ele a Herbert.  – É preciso que me levante imediatamente.

E foi para a penteadeira.

Herbert, perturbado, penteava-o com menor cuidado que o costumeiro.

– Rogo-vos – diz-lhe o rei –, que tomeis o mesmo trabalho como de ordinário. Ainda que minha cabeça não deva permanecer por muito sobre os meus ombros, quero que me prepareis hoje como se eu fosse um noivo.
Ao vestir-se, pediu mais uma camisa.

– A estação está tão fria – disse ele – que eu poderia tremer.  Algumas pessoas atribuiriam o tremor ao medo, e eu não quero dar lugar a tal suposição.

Apenas raiou o dia, chegou o bispo e principiou os seus exercícios religiosos.

Quando lia o capítulo XXVII do Evangelho Segundo São Mateus – a narração da paixão de Cristo –, disse-lhe o rei:

– Milorde, escolhestes esse capítulo como o mais aplicável à minha situação?

– Rogo a Vossa Majestade que veja – respondeu o bispo – que é o evangelho do dia, segundo o calendário.

O rei pareceu profundamente tocado e continuou as suas orações com dobrado fervor.

Pelas dez horas, bateram de manso à porta do quarto. Herbert ficou imóvel. Uma segunda pancada se fez ouvir um pouco mais forte, se bem que ainda fraca.

– Ide ver quem é – disse o rei.

Era o coronel Hacker.

– Fazei-o entrar – disse ele.

– Senhor – balbuciou o coronel em voz baixa e meio trêmula –, é chegado o momento de ir para White Hall. Vossa Majestade terá ainda mais de uma hora para descansar.

– Eu parto já – respondeu Carlos. – Deixei-me.

Hacker saiu.

O rei concentrou-se ainda alguns minutos; depois, tomando o bispo pela mão, disse:

– Vinde. Partamos. Herbert, abri a porta!  Hacker advertiu-me pela segunda vez.  – E desceu ao parque para chegar a White Hall.

Quando Hacker batera à porta de volta, Juxon e Herberto caíram de joelhos.

– Levantai-vos, meu velho amigo – dissera o rei ao bispo, estendendo-lhe a mão.

Quando Carlos fez abrir a porta, disse  ao coronel:

– Vamos. Já vos sigo.

Atravessou a sala de banquetes entre duas alas de tropa.   Uma chusma de homens e mulheres aí se haviam precipitado com perigo de vida, imóveis, por detrás da guarda, orando pelo rei, quando este passava.  Mas os soldados, silenciosos, não os maltratavam.

À extremidade da sala, uma abertura, praticada na parede antecedente, deixava ver, ao pé do cadafalso armado de negro,  dois homens de pé junto ao cutelo, ambos vestidos de marinheiro e mascarados.

Chegou o rei, com a cabeça levantada, lançando para todas as partes o olhar,  procurando o povo para lhe falar; porém, unicamente a tropa cobria a praça; ninguém podia se aproximar.

Voltou-se para Juxon e Tomlinson:

– Não posso ser ouvido senão por vós – disse-lhes. – Pois será a vós a quem dirigirei algumas palavras.

E lhes dirigiu um pequeno discurso, que havia preparado, grave e tranquilo, quase frio, unicamente com o fim de sustentar que ele tinha tido razão; que o desprezo aos direitos do soberano era a verdadeira causa da desgraça do povo; que o povo não devia ter parte alguma no governo; que somente com esta condição o reino recobraria a paz e as suas liberdades.

Enquanto falava, alguém tocou no cutelo.  Voltou-se ele precipitadamente, dizendo:

– Não gasteis o cutelo, que me faria mal.

Terminado o seu discurso, uma pessoa aproximava-se:

– Tomai sentido do cutelo.  Cuidai dele! – repetiu, com um tom de horror.

Reinava o mais profundo silêncio.  O rei pôs na cabeça um boné de seda e dirigiu-se ao carrasco:

– Meus cabelos incomodam-vos?

– Rogo a Vossa Majestade que os arranje debaixo do boné – respondeu o homem, inclinando-se.

E o rei arranjou-os, ajudado pelo bispo.

– Tenho por mim – disse ele ao bispo, tomando aquele trabalho – uma boa causa e um Deus clemente.

– Sim, senhor – respondeu o bispo. – Não há senão um passo a franquear. É cheio de perturbação e de agonia, porém de pouca duração.  Pensai em que ele vos faz transpor grande distância, e vos transporta para o céu.

– Passo de um reino corruptível para outro incorruptível – disse o rei –, onde não terei de recear espécie alguma de perturbação.

E, voltando-se para o carrasco, indagou:

– Meus cabelos estão bem?

Tirou o manto e o  cordão da ordem de São Jorge, que entregou ao  bispo, dizendo-lhe:

– Lembrai-vos.

Tirou a veste e tornou a pôr o manto. E, observando o cepo, disse, dirigindo-se ao carrasco:

– Colocai-o de maneira que fique bem firme.

– Está firme, senhor.

– Farei uma breve oração e, quando eu estender as mãos, então...

Reconcentrou-se dizendo a si mesmo algumas palavras em voz baixa, levantou os olhos para o céu, ajoelhou-se, pousou a cabeça sobre o cepo.  O carrasco tocou em seus cabelos, para arranjá-los debaixo do boné.  O rei pensou que o ia ferir.

– Esperai o sinal – disse ele.

– Eu esperarei, senhor, conforme for do gosto de Vossa Majestade.

Daí a um instante, o rei estendeu as mãos.  O carrasco dez descer o cutelo e a cabeça caiu ao primeiro golpe.

– Eis aqui a cabeça de um traidor – diz aquele, mostrando-a ao povo.

Um longo e surdo gemido elevou-se em torno de White Hall.

Muitas pessoas precipitaram-se junto do cadafalso para embeber o lenço no sangue do rei. Dois corpos de cavalaria, avançando em diversas direções, dispersaram pouco a pouco a multidão.

Ficando solitário o cadafalso, tiraram dele o corpo, que estava já encerrado no féretro.

Cromwell quis vê-lo, considerou-o atentamente e, erguendo por suas próprias mãos a cabeça, como para assegurar-se de que estava bem separada do tronco, disse:

– Era um corpo bem constituído e que prometia uma longa vida...


Tradução Augusto Frederico Colin.
Conto originalmente publicado no Jornal de Instrução e Recreio da Associação Literária Maranhense, 1845.  Atualizamos a ortografia e fizemos algumas adaptações textuais.


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A VISÃO DE CARLOS XI - Conto Clássico de Terror - Prosper Mérimée


A VISÃO DE CARLOS XI
Prosper Mérimée
(1803 – 1870)

"There are more things in heav’n and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy."
Shakespeare, Hamlet.


Zombam-se das visões e aparições sobrenaturais. Algumas, contudo, acham-se tão bem certificadas que, se alguém se recusasse a crer nelas, haveria de se constituir, para ser coerente, na obrigação de rejeitar em massa todas as provas verídicas.

Um processo verbal[1] em boa forma, revestido das assinaturas de quatro testemunhas dignas de fé, eis o que afiança a autenticidade do fato que vou contar.  Acrescentarei que a predição inclusa nesse processo verbal era conhecida e citada muito tempo antes de parecerem tê-la cumprido acontecimentos passados em nossos dias.

Carlos XI, pai do famoso Carlos XI, era um dos mais despóticos, porém dos mais lúcidos monarcas que tem tido a Suécia. Restringiu os monstruosos privilégios da nobreza, aboliu o poder do senado e fez leis por sua própria autoridade.  Em uma palavra, mudou a constituição do país, que antes dele era oligárquica, e forçou os Estados a lhe confiarem a autoridade absoluta.  Além de quê, era homem ilustrado, bravo, muito aferrado ao luteranismo, de caráter inflexível, frio, positivo, inteiramente desprovido de imaginação.

Acabava de perder a sua mulher Ulrica Leonor. Posto que sua dureza para com essa princesa houvesse, como se diz, apressado o seu fim, ele a estimava, e pareceu sentir mais a sua morte do que se teria esperado de um coração tão seco como o seu.  Desde este acontecimento, tornou-se ainda mais sombrio e taciturno do que antes, e deu-se ao trabalho com uma aplicação que provava a imperiosa necessidade de afastar ideias penosas.

No fim de uma noite de outono, estava sentado de chambre e chinelas, diante de uma grande lareira acesa em seu gabinete, no palácio de Estocolmo. Junto de si tinha seu camareiro, o conde de Brahe, a quem honrava com o seu agrado, e o médico Baumgarten, que, diga-se de passagem, presumia de espírito forte, e queria que de tudo se duvidasse, exceto da Medicina. Mandara-o vir aquela noite, para o consultar sobre não sei que indisposição.

A noite se prolongava e, contra o seu costume, não lhes indicava o rei, dando-lhes as boas-noites, que era tempo de se retirarem. Com a cabeça baixa e os olhos fitos nas brasas, guardava profundo silêncio, enfastiado da companhia, mas temendo, sem saber por quê, ficar só.  Bem percebia o conde Brahe que não era muito agradável a sua presença, e já muitas vezes tinha mostrado que Sua Majestade tivesse necessidade de repouso.  Mas o rei, a um gesto, o retivera no lugar. Por seu turno, o médico falou do mal que faziam à sua saúde as vigílias. Mas, por entre os dentes, respondeu Carlos:

– Demorai-vos.  Eu não tenho vontade de dormir.

Então encetaram diferentes assuntos de conversação que, à segunda ou terceira frase, se esgotavam todos. Evidente parecia que Sua Majestade estava com um ataque de seu negro humor e, em semelhante circunstância, é bem melindrosa a posição de um cortesão. O conde de Brahe, suspeitando que a tristeza do rei provinha do sentimento pela perda de sua consorte, contemplou algum tempo o retrato da rainha, pendurado no gabinete, e, depois, com um grande suspiro, exclamou:

– O quão fiel é aquele retrato.  Eis ali bem aquela expressão, tão majestosa e doce ao mesmo tempo!...

– Essa é boa! – respondeu bruscamente o rei, o qual julgava ouvir uma censura todas as vezes que diante dele se ouvia o nome da rainha.  – Aquele retrato é muito lisonjeiro!  A rainha era feia!

Depois, interiormente sentido de sua dureza, levantou-se e deu uma volta pela câmara para ocultar a comoção de que se envergonhava.   Parou diante da janela que dava para o pátio. A noite estava escura e a lua não aparecia.

Ainda não era acabado o palácio onde ainda hoje residem os reis da Suécia, e Carlos XI, que o havia começado, habitava então o antigo palácio, situado na ponta do Ritterholm, que olha para o lago Moeler. É um grande edifício em forma de ferradura. O gabinete do rei ficava numa das extremidades, e quase defronte se achava a grande sala onde se congregavam os Estados, quando estes deviam receber alguma comunicação da Coroa.

As janelas desta sala pareciam, nesse momento, aclaradas de uma viva luz. Estranho pareceu isto ao rei.  Primeiro, ele supôs que esse clarão era produzido pelo lume de algum criado. Mas o que se ia fazer em uma sala, a qual desde muito tempo não era aberta?  Além disso, tão resplandecente era a luz que não podia provir de uma só vela.  Podiam atribuí-la a um incêndio, mas não se via fumaça, os vidros não estavam quebrados, não se ouvia estrondo algum, antes tudo anunciava uma iluminação de aparato.

Algum tempo sem falar, olhou Carlos para aquelas janelas.  Entretanto, o conde Brahe, estendendo a mão ao cordão de uma campainha, dispunha-se a chamar um pajem para mandá-lo reconhecer a causa dessa singular claridade.  O rei, porém, o deteve.

– Quero eu mesmo ir àquela sala – disse ele.

Acabando estas palavras, viram-no empalidecer e a sua fisionomia expressava uma espécie de pavor religioso.  Todavia, saiu com passo firme.  O real camareiro e o médico o seguiram, cada um levando um castiçal aceso.

O porteiro, que tinha a seu cargo as chaves, já estava deitado.  Baumgarten foi acordá-lo e, da parte do rei, ordenou-lhe que abrisse imediatamente as portas da sala dos Estados.  A esta ordem inesperada, grande foi o sobressalto desse homem. Vestiu-se às pressas e chegou ao rei com seu molho de chaves. Primeiro abriu a porta de uma galeria que servia de antecâmara ou corredor à ala dos Estados.  Entrou o rei e... qual não foi o seu espanto quando viu as paredes completamente cobertas de preto!

– Quem deu ordem para cobrir assim esta sala? – perguntou ele em um tom colérico.

– Ninguém que eu saiba, senhor – respondeu o porteiro, bastante confuso. – E a última vez que eu mandei varrer a galeria, ela estava forrada, como sempre esteve, de madeira de carvalho... É certo que não vem esta cobertura do guarda-roupas de Vossa Majestade.

E o rei, caminhando com passo rápido, já havia chegado a mais de dois terços da galeria. De perto seguiam o conde e o porteiro. Um pouco atrás, ia o médico Baumgarten, divido entre o temor de ficar só e o de expor-se às consequências de uma aventura que se anunciava de assaz estranho modo.

– Não vades mais longe, senhor! – exclamou o porteiro. – Por minha alma, há lá dentro feitiçaria. A esta hora... e depois da morte da rainha, vossa gentil consorte... dizem que ela anda passeando por essa galeria... Deus nos projeta!

– Parai, senhor! – bradava o conde a seu lado. – Não ouvistes vós o estranho ruído que parte da sala de seus Estados?  Quem sabe a que perigos se expõe Vossa Majestade.

– Senhor – dizia Baumgarten, a quem uma rajada de vento acabava de apagar a luz –, permiti ao menos que eu vá buscar uns vinte soldados de vossa guarda de elite.

– Entremos – disse o rei com voz firme, parando diante da porta da grande sala. – E tu, porteiro, abre depressa esta porta!

Deu-lhe, então, um pontapé, e o estrondo repetido pelo eco das abóbadas retumbou na galeria como um tiro de canhão.

O porteiro tremia de tal sorte que a chave batia sem que ele pudesse fazê-la entrar na fechadura.

– Um soldado velho que treme! – disse Carlos, erguendo os ombros. – Vamos, conde, abri-nos esta porta.

– Senhor – respondeu o conde, recuando um passo –, mande-me Vossa Majestade marchar para a boca de um canhão dinamarquês ou alemão que, sem hesitar, obedecerei, mas é o inferno que vós quereis que eu desafie.

O rei tirou a chave da mão do porteiro.

– Bem vejo – disse ele com tom de desprezo –, que isto só a mim compete.

E antes de ter o seu séquito podido impedir, tinha o rei aberto a grossa porta de carvalho e, entrando na grande sala, pronunciou estas palavras:

– Com o auxílio de Deus!

Impelidos pela curiosidade mais forte que o medo, e porventura envergonhados de desamparar seu rei, com eles entraram seus três acólitos.

Iluminada por uma infinidade de tochas estava a grande sala. Negra armação substituíra a antiga tapeçaria de figuras. Ao longo das paredes, apareciam, postos por ordem, como de ordinário, estandartes alemães, dinamarqueses ou moscovitas, troféus dos soldados de Gustavo Adolfo[2]. No meio se distinguiam bandeiras suecas cobertas de crepes fúnebres.

Cobria os bancos uma assembleia imensa. Estavam sentadas, cada uma em seu lugar, as quatro ordens do Estado[3]. Estavam todos vestidos de preto e esta multidão de faces humanas, que parecia luminosa sobre um fundo sombrio, deslumbrava os olhos de tal sorte que, das quatro testemunhas dessa cena extraordinária, nenhuma pôde achar nestas gentes uma figura conhecida.  Assim, defronte de um público numeroso, não vê o ator mais que uma confusa massa, onde nenhum indivíduo os seus olhos podem distinguir.

Sobre o elevado trono de onde o rei tinha o costume de falar à assembleia, viram eles um cadáver ensanguentado, revestido das insígnias da realeza. À sua direita, em pé com a coroa na cabeça, um menino tinha na mão um cetro.  À sua esquerda, apoiava-se ao trono um homem idoso, ou, antes, um fantasma. Revestido estava ele de manto de cerimônia que traziam os antigos administradores da Suécia, antes de Wasa[4] haver dela feito um reino. Defronte do trono e diante de uma banca coberta de grandes in-fólios e pergaminhos, estavam sentadas muitas personagens de aspectos grave e austero, revestidas de longas togas pretas, e que pareciam ser juízes. Entre o trono e sala havia um cepo, coberto de preto crepe, e um machado pousado ao pé.

Ninguém nessa sobre-humana assembleia deu ares de notar a presença de Carlos e das três pessoas que o acompanhavam. À entrada, primeiro não ouviram senão um confuso murmúrio, no meio do qual não podia o ouvido perceber sons articulados. Depois, o mais velho dos juízes, que parecia exercer as funções de presidente da corte, levantou-se e três vezes bateu com a mão em um in-fólio aberto diante de si. Por uma porta oposta à que Carlos XI acabava de abrir, entraram na sala alguns mancebos com as mãos presas atrás das costas. Marchavam com a cabeça levantada e o olhar seguro. Após ele, um homem robusto, vestido de um roupão escuro, pegava nas pontas das cordas que lhes ligavam as mãos. O primeiro que marchava, e que parecia ser o mais importante dos prisioneiros, parou na sala diante do cepo e olhou para ele com soberbo desdém.  Ao mesmo tempo, com um movimento o cadáver pareceu tremer, e da sua ferida correu sangue fresco e vermelho.  O jovem ajoelhou-se e estendeu a cabeça.  O machado brilhou no ar e caiu logo com estrondo.  Um rio de sangue jorrou até sobre o estrado, e se confundiu com o do cadáver, e a cabeça, saltando muitas vezes sobre o enrubescido pavimento, rolou até os pés de Carlos e os tingiu de sangue.

O rei permanecera mudo até este momento de espanto. Mas a este espetáculo sua língua se desprendeu e, dando alguns passos para o estrado, dirigindo-se à figura revestida de manto de administrador, pronunciou bruscamente a bem conhecida fórmula:

– Se és de Deus, fala!  Se és do Outro, deixa-nos em paz!

Lentamente, e com um tom solene, lhe respondeu o fantasma:

– Carlos rei!  Este sangue não correrá no teu reinado... (aqui se tornou menos distinta a voz), mas cinco reinados depois.  Ai, ai, ai do sangue de Wasa!

Então começaram a se tornar menos claros e já não pareciam senão sombras coloridas. Logo depois desapareceram totalmente as formas das numerosas personagens desta maravilhosa assembleia. Apagaram-se as fantásticas luzes e as de Carlos e sua comitiva aclaravam apenas as velhas tapeçarias, agitadas pelo vento.  Ainda se ouviu um sonido muito melodioso, que umas das testemunhas comparou ao ruído das folhas, e outra ao som dado por corda de harpa, enfraquecendo ao momento em que se afina o instrumento. Todos concordaram em julgar que a aparição durara perto de dez minutos.

Os panos pretos, a cabeça cortada, as ondas de sangue que tingiam o assoalho, tudo havia desaparecido com os fantasmas.  Somente a chinela de Carlos conservou uma mancha vermelha, que por si só seria suficiente para lhe recordar as cenas dessa noite, se muito bem gravadas na memória não tivessem sido elas.

Tendo regressado ao seu gabinete, fez o rei escrever o relatório de tudo o que tinha visto, fê-lo assinar por seus companheiros, e o assinou ele mesmo.

Quaisquer precauções que se tomassem para esconder ao público o conteúdo dessa peça, não deixou ela de ser logo conhecida, mesmo em vida de Carlos XI.  Ainda existe e, até o presente, ninguém se tem lembrado de suscitar dúvidas sobre a sua autenticidade. Eis o notável fim dela:

“E se o que se acaba de referir – diz o rei – não é a exata verdade, renuncio a toda esperança de melhor vida, a qual posso ter merecido por algumas boas ações, sobretudo por meu zelo em trabalhar na felicidade de meu povo e em manter os interesses da religião de meus avós.”

Agora, se nos lembramos da morte de Gustavo III, e da sentença de Ankarstroem[5], seu assassino, achar-se-á mais de uma correlação entre este acontecimento e as circunstâncias dessa singular profecia.

O jovem decapitado em presença dos estados pode ser designado Ankarstroem.

O cadáver coroado, Gustavo III.

O menino, seu filho e sucessor Gustavo IV Adolfo.

O velho, enfim, o duque de Sudermanie, tio de Gustavo IV, que foi regente do reino, e afinal rei, depois da deposição de seu sobrinho.


Conto publicado originalmente, sem menção ao autor e ao tradutor, no jornal carioca “O Brasil”, edição de 14 de novembro de 1840.   Atualizamos a ortografia e fizemos breves adaptações textuais.



[1] Inquérito sumário em que são reduzidas a termo as declarações das testemunhas de um fato relevante (N. do E.)

[2] Gustavo II Adolfo (1594 – 1632), rei da Suécia de 1611 até sua morte. (N. do E.)

[3] A nobreza, o clero, os burgueses e os camponeses. (N. do A.)

[4] Ou Vasa, dinastia sueca, reinante entre 1523 e 1654. (N. do E.)

[5] Jacob Johan Anckarström (1762 – 1792), nobre e militar sueco, assassino do rei Gustavo III da Suécia (1746 – 1792), foi executado em 27 de abril de 1792, por crime de regicídio.  O atentado ao rei aconteceu num baile de máscara, em Estocolmo, na noite de 16 de março de 1792. (N. do E.)


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