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UM NU DE RUBENS - Conto Clássico de Loucura - Miguel Sawa

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UM NU DE RUBENS Miguel Sawa (1866 – 1910) Tradução de Paulo Soriano O louco enfiara a cabeça por entre as grades da janela — uma cabeça assustadora, de cabelos eriçados, que se movia incessantemente, em gestos nervosos — e chamava-me com gritos de desespero: — Senhor! Se tiver a gentileza de ouvir-me uns instantes… Tenho que lhe revelar um segredo importantíssimo. Pelo que lhe é mais precioso no mundo, escute-me. Apenas por alguns instantes. Aproxime-se sem medo. Eu não faço mal a ninguém. Sou um pobre louco inofensivo. E, interrompendo-se, fixando em mim os seus olhos febris, disse: — Veja, senhor, não quero enganá-lo. Não sei dizer se estou louco ou são. Não seria a razão o dom do pensamento que Deus conferiu aos homens para distingui-los dos animais? Pois, então, apesar do que dizem os médicos, eu posso assegurar-lhe de que estou em pleno domínio das minhas faculdades mentais. Como gostaria que o meu cérebro tivesse deixado de funcionar regularmente! Como eu gostaria de...

RETIRADA VIVA DE UM SEPULCRO - Narrativa Verídica de Horror - Autor anônimo do séc XIX

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RETIRADA VIVA DE UM SEPULCRO Autor e tradutor anônimos do séc. XIX Os viajantes que percorreram a Itália pelo lado oriental admiraram a pitoresca beleza da paisagem, especialmente no intervalo que separa Ancone de Rimino. Nos flancos e no cume de uma dessas ricas e verdejantes colunas, que pareceu ter-se destacado dos Apeninos para virem banhar suas faldas no Adriático, no próprio lugar em que se descobre a cidade em que Dante nos fez assistir ao fim trágico da célebre Francesca, não se contavam menos de sete conventos de frades antes da primeira revolução francesa. Os reverendos, como se sabe, eram hábeis na escolha dos locais e dos pontos de vista; hoje, diz-se ainda, em forma de elogio, para a posição de uma quinta: “Está situada como um convento.” Suprimidos no tempo do reino da Itália, repovoaram-se esses conventos com a restauração. Hoje, estão em estado assaz florente, e os religiosos das casas centrais aí vêm sucessivamente passar felizes momentos. Entretanto, como os bens ...

O DUENDE DE SÃO ROQUE - Conto Clássico de Mistério - Silvio Horacio Taranto

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O DUENDE DE SÃO ROQUE Silvio Horacio Taranto (Séc. XX) Tradução de autor anônimo do séc. XX — É para se morrer de medo! — exclamou Braulio, o peão da estância de Mister Pearson, ao terminar a sua narração. Transcorreram, apenas, quarenta e oito horas desde que minha mulher e eu chegamos a São Roque, com o propósito de desfrutarmos juntos os quinze dias das minhas férias. Era, pois, natural que o que esse homem nos estava contando me desgostasse sobremaneira, principalmente pela inquietação que produzira em Elena, e que ela, a custo, mal dissimulava. Em mim, o efeito da narrativa, francamente, não fora forte. — Vieram os senhores... — prosseguiu Braulio. — Ontem à noite, eu vinha justamente para casa, depois de ter visitado uma irmã que mora em Bialet Massé, uma vila próxima. Ainda não acabara de passar o lago com o meu cavalo, quando de novo ele me apareceu com a sua terrível gargalhada. O rosto do peão contraiu-se num ríctus que inspirava compaixão e terror. — Continue...

SUPLÍCIO DOS PRISIONEIROS EM BUCARA - Narrativa Verídica Cruel - Autor anônimo do séc. XIX

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SUPLÍCIO DOS PRISIONEIROS EM BUCARA 1 Autor anônimo do séc. XIX Achei no último corredor trezentos prisioneiros tchandores 2 , absolutamente esfarrapados: esses infelizes, dominados pelo temor de seu próprio suplício — e entregues, além disso, a todas as agonias da fome — pareciam literalmente sair do túmulo. Haviam formado duas seções: na primeira estavam aqueles que, não tendo atingido os quarenta anos, deviam ser vendidos como escravos ou gratuitamente distribuídos pelo khan 3 a suas criaturas; a segunda compreendia aqueles que tinham sido classificados entre os aksakalas 4 , e que ficavam submetidos ao castigo infligido pelo príncipe. Os primeiros, reunidos uns aos outros por meio de coleiras de ferro, em filas de dez a quinze, foram sucessivamente transportados; os outros esperavam, com uma resignação perfeita, que se executasse o aresto passado contra eles. Dir-se-ia carneiros sob o cutelo do carniceiro. Enquanto que muitos dentre eles marchavam, ou para o patíbulo,...

ERGUENDO-SE DO ESQUIFE - Narrativa Verídica de Horror - Autor anônimo do séc. XX

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ERGUENDO-SE DO ESQUIFE (E cumprimentando os circunstantes!) Autor anônimo do séc. XX Pedindo esmola para enterrar o marido Há poucos dias, uma pobre mulher, entre lágrimas, foi ao escritório da Fábrica Industrial Mineira, em Mariano Procópio. Imediatamente todos a cercaram e indagaram que fatalidade a havia atingido. A pobre mulher então contou que seu marido havia falecido e, sem recursos para fazer o seu enterramento, recorria à generosidade alheia para cumprir o piedoso e triste ato. O morto havia sido operário da fábrica e, assim, não teve a mulher dificuldades em obter os recursos necessários para dar sepultura ao corpo de seu malogrado companheiro. De donativo em donativo, reuniu o necessário e saiu para dar as providências. E todos a acompanharam com um olhar triste e com a frase costumeira: — Pobre mulher. O “quarto” do defunto À noite, em sua casa, amigos velavam o cadáver do esposo. E ela, mal retendo os soluços, increpava o destino mau que lhe roubava ...

O PROFETA E O CONDENADO - Narrativa Verídica Sobrenatural - Johann Peter Hebel

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O PROFETA E O CONDENADO Johann Peter Hebel (1760 – 1826) Como se sabe, não se podia acusar o grande rei Frederico da Prússia de ingenuidade em assuntos sobrenaturais. Ao contrário, às vezes ele divertia-se com os crédulos, embora nem sempre nisso tivesse sucesso. Certo dia, um pregador garantiu-lhe que profetizava, e que tudo o que ele previra se realizara. O rei, então, ordenou que o novo profeta fosse trazido à sua presença. Entrementes, o rei perguntou se havia algum soldado preso por haver cometido um crime capital. Responderam-lhe que sim. Então, ordenou que o condenado fosse colocado, na hora marcada, sob guarda, do lado de fora de sua sala real. Quando o pregador chegou, o rei perguntou-lhe: — Você recebeu o Espírito Santo? — Majestade — disse o pregador —, seria bom se todos o tivessem. — Você tem o dom da profecia? — Algo disso, como dizem. — Por exemplo — continuou o rei —, o que devo lhe perguntar prontamente? Tragam o rapaz que está sob custódia lá fora! Vin...