O QUE A LUA TRAZ CONSIGO - Conto Clássico de Terror - H. P. Lovecraft

 


O QUE A LUA TRAZ CONSIGO

H. P. Lovecraft

(1890 – 1937)

Tradução de Paulo Soriano

 

Eu odeio a Lua – e a temo – porque, quando ela ilumina certas cenas familiares e queridas, às vezes as converte em coisas estranhas e repugnantes.

   Foi no verão espectral que a Lua brilhou no velho jardim por onde eu vagava. Era o espectral verão de flores narcóticas e mares úmidos, de folhagens que evocam sonhos selvagens e multicoloridos. E, enquanto eu caminhava à beira do riacho raso e cristalino, vi estranhas ondulações pontilhadas de luz amarela, como se aquelas águas plácidas fossem arrastadas por correntes irresistíveis para estranhos oceanos que inexistentes neste mundo. Silenciosas e faiscantes, brilhantes e funestas, aquelas águas amaldiçoadas pela Lua corriam de encontro a um destino ignoto; e isto enquanto, nas margens onduladas, flores de lótus brancas flutuavam, uma a uma, ao vento opiáceo da noite, e caíam desesperadamente sobre o riacho, rodopiando, horrivelmente, sob o arco da ponte, e olhando para trás, com a resignação sinistra de rostos calmos e mortos.

   E, enquanto eu corria ao longo da margem, esmagando flores adormecidas com pés desatentos, e cada vez mais ensandecido pelo medo de coisas desconhecidas e pela atração que as faces dos mortos exerciam, vi que, sob a Lua, o jardim não tinha fim: onde, durante o dia, erigiam-se muros, estendiam-se, agora, novas paisagens salpicadas de árvores e veredas, flores e arbustos, ídolos de pedra e pagodes, além das curvas do riacho amarelo e luminescente, que serpenteava entre as relvas marginais e sob grotescas pontes de mármore. E os lábios dos rostos de lótus mortos sussurraram tristemente, convidando-me a segui-los, mas não detive os meus passos até que o riacho se convolasse num rio e desaguasse, entre pântanos de juncos ondulantes e praias de areia resplandecente, na costa de um mar vasto e sem nome.

  Era sobre aquele mar que refulgia a odiosa Lua, e sobre suas ondas silenciosas pairavam estranhos perfumes. E, enquanto via as faces dos lótus desaparecerem, eu ansiava por redes com as quais eu pudesse capturá-los, para com eles aprender os segredos que a Lua trazia sobre a noite. Mas, quando a Lua se deslocou, flutuando em direção ao Ocidente, e a calma maré recuou da costa soturna, vi, sob a luz, velhos pináculos que as ondas quase revelavam, e colunas brancas ornadas com grinaldas de algas verdes. Mas, sabendo que era para aquele antro que todos os mortos convergiam, estremeci e não mais quis falar com os rostos dos lótus.

   Todavia, quando vi, ao longe, sobre o mar, um condor negro descer do firmamento para descansar sobre um grande recife, tive o ímpeto de interrogá-lo, indagando-lhe sobre os mortos que eu um dia houvera conhecido. Era o que eu lhe teria perguntado, se ele não estivesse tão longe; mas o condor estava deveras distante e nem mesmo eu pude vê-lo quando o pássaro se acercou daquele recife gigantesco.

   Observei, então, a maré baixar sob aquela Lua — cuja luz minguava —, e vi brilharem os pináculos, as torres e os telhados daquela cidade morta e gotejante. E, enquanto eu observava aquela cena, as minhas narinas tentavam obstacular o repugnante olor que emanava do mundo; pois, em verdade, era naquele local — abandonado e esquecido — que toda a carne dos cemitérios convergia para o repasto dos túmidos e triturantes vermes marinhos.

  Era sobre esses horrores que a maligna Lua, agora, pairava, muito baixa, mas os vermes túmidos do mar dela não precisavam para alimentar-se. E, enquanto observava as ondulações que insinuavam as contorções dos vermes lá embaixo, pressenti um novo calafrio, vindo de longe, do sítio onde o condor havia voado, como se minha carne tivesse padecido de um horror mesmo antes que meus olhos o vissem.

   Tampouco minha carne estremeceu: quando ergui os olhos, vi que as águas haviam baixado significativamente, exibindo, agora, boa parte do vasto recife, cujos contornos eu avistara antes. E, quando percebi que este recife era apenas a coroa negra de basalto de um chocante ícone, cuja monstruosa fronte agora brilhava sob a penumbra da Lua, e cujos terríveis cascos deviam tocar aquela lama infernal milhas abaixo, eu gritei  — e gritei! —, temendo que aquele rosto submerso se elevasse acima das águas, e que aqueles olhos ocultos me fitassem depois que a Lua amarela— maligna  e traiçoeira — desaparecesse no firmamento.

   E para escapar dessa coisa implacável, mergulhei — com alegria e sem hesitação — nas águas rasas e pútridas onde, entre as paredes cobertas de ervas daninhas e ruas submersas, gordos vermes marinhos se nutriam dos mortos do mundo.

 

Comentários

  1. Me lembro de ter lido não lembro onde, que o escritor inglês Colin Wilson criticava muito os textos do Lovecraft, então um amigo de Lovecraft o desafiou para escrever um livro de terror e FC. Ele escreveu "Vampiros do Espaço". Detalhe desse livro, os personagens extraterrestres tinham muitos nomes copiados dos contos do Clark Ashton Smith. Colin Wilson escreveu livros sobre ocultismo também. Deve ser a rivalidade ingleses x americanos. O Lovecraft é carismático e escreve bem, mas na minha opinião o Robert Howard nos contos de terror é mais criativo, e o Smith mais original nos contos de terror. O curioso é que o Vale das Mulheres Perdidas, conto do Howard, se fosse publicado hoje no Brasil e no mundo politicamente correto de hoje, iriam acusá-lo de racista, misógino etc nesse conto maravilhoso. Se não me engano, alguns críticos dizem que o Vale era um rascunho inacabado e só foi publicado nos anos 60, bem depois da morte do autor.

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    1. Mas uma coisa há de ser dita: Lovercraft escrevia maravilhosamente bem!!!!

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    2. Sim, gostei da tradução, tem alguns contos que parecem prosa poética, mas ele tem uns contos de terror bem assustadores, dá pra sentir medo, tipo o Depoimento de Randolph Carte e A Casa Temida, este da casa um dos melhores que já li. Acredito que quando o Smith entrar em domínio público vai ter o reconhecimento que o Lovecraft teve. Agora o Howard tem o fator Conan e uma empresa americana que é tipo a Disney, não lembro o nome, mas é como o Mickey que já entrou em domínio público, se não estou enganado mas a Disney continua dona. Quando o Brakan do Mozart Couto e Júlio Braz foi publicado, a empresa proprietária do Conan não gostou porque achou cópia do Conan, li isto num site de fofocas de quadrinhos rss rss não sei se foi real. O Howard odiaria essa empresa dona do Conan, não tenho dúvida.

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  2. Amigo, Incidente na Serra de Manguape, do Henry Evaristo, um conto excelente! Reli na seção Arquivos Antigos do CDT,, na nuvem Mega.

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