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Mostrando postagens de outubro, 2022

ALGUÉM NO MEU TELHADO - Conto de Terror - Cauê Costa

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  ALGUÉM NO MEU TELHADO Cauê Costa   Encontrei uma caneta azul velha, sem tampa e provavelmente com a tinta acabando, jogada no chão, e estou escrevendo essa pequena manifestação do meu desespero em um caderninho usado que eu tinha no bolso. Confesso estar precisando escrever com letras minúsculas, mas acredito que caberá tudo o que tenho a dizer. Não sei quem está lendo isso, ou se algum dia alguém chegará a fazê-lo, mas eu preciso expor a maluquice que aconteceu comigo nesse último mês. Tamanha maluquice que, nem mesmo eu, consegui acreditar em meus próprios olhos. Pelo que me lembro, tudo começou na primeira semana de julho. Se eu não me engano, estava tomando banho junto com minha esposa, pois íamos sair para um restaurante novo que ela ouvira falar.   Conversávamos e riamos, fazendo gracinhas como dois adolescentes. Ela saiu do box e eu a encarei, era apaixonado por aquela mulher! Digo, ainda sou. Enfim, ela se enxugou e seu lindo corpo atravessou a porta para ir ao quarto, enquan

QUANDO DEUS NOS ABANDONA - Conto de Terror - Paulo Soriano

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  QUANDO DEUS NOS ABANDONA Paulo Soriano   As vigorosas batidas que vinham da porta da cabana deixaram o coração de Thérèse em sobressalto. “Quando Deus nos abandona”, pensou Thérèse, “Lebourreau nos assoma.” — Quem bate? — perguntou Thérèse, embora bem soubesse que Lebourreau, com a lanterna em punho, lançava a sua sombra maligna sobre os umbrais da pobre choupana. Thérèse apertou ambos os filhos contra os seios, sentindo-lhes a respiração quente e irregular, típica dos moribundos devastados pela peste. E, arrastando-se como podia, recolheu-se ao ângulo mais remoto da parede. “Quando Deus nos abandona”, pensou Thérèse, “Lebourreau nos ilude.” O vento, que se esgueirava pelas frestas de adobe, trouxe consigo a voz calma e melódica do velho mago: — Deixe-me entrar. Trago-lhe boas-novas! De Lebourreau dizia-se, em toda Valônia, que era um bruxo astuto e poderoso. Ouvira da mãe que aquele ente medonho habitava cemitérios desolados, onde há séculos praticava sortilégios. Amiúd

A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE - Conto de Terror - Edgar Allan Poe

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A MÁSCARA DA MORTE ESCARLATE Edgar Allan Pöe (1809 – 1849) Tradução de José Jaeger Havia muito tempo que a “Morte Escarlate” devastava todo o país. Jamais uma peste fora tão letal e tão terrível. O sangue era a sua encarnação e o seu sinete: o vermelho e o horror do sangue. Começava com dores agudas, com um desvanecimento súbito, e logo os poros se punham a sangrar abundantemente. Sobrevinha, então, a decomposição. Manchas escarlates no corpo e, notadamente, no rosto da vítima, segregavam-na da humanidade e a afastavam de todo socorro e de toda compaixão. O contágio, o progresso e o fim da enfermidade consumiam apenas meia hora. Mas o Príncipe Próspero era feliz, intrépido e sagaz. Quando os seus domínios minguaram à metade de almas vivas, convocou um milhar de amigos fortes e de corações alegres, escolhidos entre os cavalheiros e damas da sua corte. E, com eles, formou um refúgio recôndito em uma de suas abadias fortificadas. Tratava-se de uma vasta