O CORAÇÃO PERDIDO - Conto Clássico Fantástico - Emilia Pardo Bazán


O CORAÇÃO PERDIDO
Emilia Pardo Bazán
(1851 – 1921)
Tradução de Paulo Soriano


Passeando, certa tarde, pelas ruas da cidade, vi que havia no chão um objeto vermelho. Baixei-me: era um sangrento e vivo coração, que apanhei cuidadosamente. “Alguma mulher deve tê-lo perdido”, pensei, ao observar a brancura e a delicadeza da terna víscera que, ao contato de meus dedos, palpitava como se estivesse dentro do peito de seu dono. Eu o envolvi, esmeradamente,  num lenço branco e o guardei, escondo-o sob a minha roupa. Dediquei-me a averiguar quem seria a mulher que havia perdido o coração na rua. Para  melhor investigar, adquiri uns óculos maravilhosos, que permitiam enxergar através do corpete, da roupa interior, da carne e das costelas — como por esses relicários que são o busto de uma santa e têm no peito uma janelinha de vidro — o lugar que ocupa o coração.


Assim que pus os meus óculos mágicos, fitei ansiosamente a primeira mulher que passava e — oh, assombro! —  vi que a mulher não tinha coração. Ela deveria ser, sem dúvida, a proprietária de meu achado. O estranho foi que, ao lhe dizer como havia encontrado o seu coração e indagar-lhe se queria tê-lo de volta, a mulher, indignada, jurou e perjurou que não havia perdido coisa alguma; que seu coração estava onde sempre estivera e que lhe sentia perfeitamente a pulsação,  recebendo e lançando o sangue. Em vista da teimosia da mulher, deixei-a e me virei para outra, jovem, linda, sedutora, alegre. Santo Deus! Em seu branco peito havia o mesmo vazio, o mesmo buraco rosado, sem nada, nada, em seu interior. Também esta não tinha coração. E quando lhe ofereci, respeitosamente, aquele que eu trazia bem guardado, menos ainda quis ela admitir a sua privação, alegando que lhe era uma grave ofensa supor que lhe faltava o coração, ou que era tão descuidada a ponto perdê-lo em via pública, sem se dar conta disto.



E passaram centenas de mulheres, velhas e moças, lindas e feias, morenas e louras, melancólicas e vivazes; e para todas volvi os meus óculos, e em todas notei que do coração só tinham o lugar, porque o órgão jamais havia existido, ou o haviam perdido tempo atrás. E todas, sem exceção, ao querer eu devolver-lhes o coração de que careciam, se recusavam a aceitá-lo,  quer porque acreditavam que já o tinham, quer porque sem ele estavam maravilhosamente bem, quer porque se julgavam ofendidas com a oferta, quer porque não se atreviam a arrostar o perigo de possuir um coração. 


         Já perdia eu a esperança de restituir a um peito de mulher o pobre coração abandonado, quando, casualmente, com a ajuda de minhas prodigiosas lentes, vislumbrei que passava por uma rua uma menina pálida, e em seu peito — por fim! — distingui um coração, um verdadeiro coração de carne, que saltitava, pulsava e sentia. Não sei por que — pois reconheço que seria um absurdo ofertar um coração a quem já o tinha tão vivo e desperto —, ocorreu-me experimentar presenteá-la com aquilo que todas haviam recusado; e eis que a menina, em vez de repelir-me como as demais, abriu o seio e recebeu o coração que eu, já tão cansado, iria deixar outra vez caído sobre os seixos.



Enriquecida com dois corações, a menina pálida ficou mais pálida ainda: as emoções, por insignificantes que fossem, faziam-na estremecer até a medula; os afetos vibravam nela com cruel intensidade; a amizade, a compaixão, a tristeza, a alegria, o amor, os ciúmes: tudo era nela profundo e terrível. E muito ingênua, em vez de resolver-se a suprimir um de seus corações, ou os dois ao mesmo tempo, dir-se-ia que se comprazia em viver dupla vida espiritual, querendo, gozando e sofrendo duplamente, somando sentimentos tais que seriam suficientes para extinguir a vida. A criança era como vela acesa pelos dois extremos, que se consome em breves instantes. E, de fato, se consumiu. Deitada, lívida, em seu leito de morte,  tão enfraquecida e magra que parecia um passarinho, vieram os médicos e garantiram que o que lhe arrebatava deste mundo era a ruptura de um aneurisma. Ninguém (todos são tão incompetentes!) soube descobrir a verdade: ninguém compreendeu que a menina havia morrido por cometer a imprudência de dar asilo, em seu peito, a um coração perdido na rua.




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O SEGREDO DO PATÍBULO - Conto Clássico de Horror - Villiers de L’Isle Adam


O SEGREDO DO PATÍBULO
Villiers de L’Isle Adam
(1838 – 1889)
Tradução de Paulo Soriano


Num dos mais macabros episódios de “Um Mil e Um Fantasmas”, Dumas narra a história de um jovem médico que, após salvar, nas ruas da Paris revolucionária, a vida de uma aristocrata fugitiva, é protagonista de uma horripilante experiência científica. No conto “O Segredo do Patíbulo”, Villiers de L’Isle Adam (1838 ― 1889) retoma o mote inaugurado por Dumas e o explora aos últimos limites: um médico condenado à morte por decapitação recebe a visita de um colega cientista que o convida a participar, como cobaia, de um não menos aterrorizante experimento post-mortem

Ao Sr. Edmond de Goncourt[1]

As recentes execuções fizeram-me lembrar de uma história extraordinária. Ei-la:

Na note de 5 de junho de 1864, às sete horas da noite, o Dr. Edmond-Désiré Couty de la Pommerais, recentemente transferido da prisão de Conciergerie[2] para a de Roquette[3], estava sentado, metido numa camisa de presidiário, na cela dos condenados à morte.

Estava taciturno, tinha os olhos fixos e apoiava os cotovelos no encosto da cadeira. Sobre a mesa, uma vela iluminava a palidez de seu rosto frio. A dois passos, um carcereiro, encostado à parede, vigiava-o com os braços cruzados.

Quase todos os prisioneiros são obrigados a um trabalho diário, de cujo salário a Administração deduz, em caso de morte, o preço da mortalha, que jamais é fornecida de graça. Só os condenados à morte não têm que realizar trabalho algum.

O prisioneiro era um dos que não abrem o jogo. Nos olhos dele não se lia medo ou esperança.

Tinha trinta e quatro anos. Moreno. De altura mediana e bom talhe. Nas têmperas, os cabelos começavam a embranquecer. O olhar era nervoso, semioculto; a fronte, meditativa. A sua voz era turva e breve; as mãos, saturninas. Tinha a expressão circunspecta das pessoas silenciosas. Seus modos eram de uma distinção estudada. Tal era a sua aparência.

(Todos se recordam que, nas audiências do Sena, apesar do rigor de sua defesa, o advogado Lachoud não logrou desvanecer da mente dos jurados o efeito produzido pelas conclusões do Dr. Tardieu e pela acusação levada a efeito pelo promotor de justiça Oscar de Vallée. Acusado de haver administrado doses mortais de digitalina a uma senhora amiga sua, com premeditação e intuito de lucro, M. de la Pommerais ouviu a sentença de morte, em razão da aplicação dos artigos 301 e 302 do Código Penal.)

Nessa noite de 5 de junho, ele ainda não sabia do improvimento de sua apelação e da recusa de qualquer audiência de graça solicitada por seus familiares. Somente o seu defensor, mais venturoso, fora ouvido com displicência pelo imperador. O venerável abade Crozes, que antes de cada execução exauria-se em súplicas às Tulherias[4], voltara sem nada conseguir. Comutar a pena de morte em tais circunstâncias não implicava aboli-la? O caso era exemplar. Na opinião do Ministério Público, o improvimento era irretocável e deveria ser prontamente notificado aos executores. O Sr. Hendreich fora encarregado de receber o condenado às nove e cinco da manhã.

De repente, o estrépito das coronhas dos fuzis ressoou no pavimento do corredor. A fechadura rangeu pesadamente. A porta se abriu. As baionetas brilharam na penumbra. O diretor da Roquette, Sr. Beauquesne, assomou à porta, acompanhado de um visitante.

Erguendo a cabeça, o Sr. de la Pommerais reconheceu, a um olhar, naquele visitante, o ilustre cirurgião Armand Velpeau.

A um sinal do seu superior, o carcereiro saiu e o Sr. Beauquesne, após uma muda apresentação, também se retirou, deixando a sós os dois colegas, frente a frente, olhando-se mutuamente.

La Pommerais, em silêncio, indicou ao médico a sua própria cadeira. Depois, sentou-se no catre em que os adormecidos, em sua maioria, são logo despertados da vida num sobressalto. Como mal se viam, o grande médico se aproximou do... paciente para melhor observá-lo e poder conversar em voz baixa.

Volpeau chegava aos seus sessenta anos. No apogeu de sua fama, herdeiro da cátedra de Larrey[5] no Instituto[6], primeiro professor de clinica cirúrgica de Paris e, por suas obras, todas de um rigor de dedução claro e brilhante, era um luminar da atual ciência patológica, um emérito profissional que já se impunha como uma das sumidades do século.

Após um frio instante de silêncio, disse:

― Senhor, entre nós, médicos, as condolências são inúteis. Por outro lado, uma afecção na próstata ― que, com certeza, me matará em dois ou dois anos e meio ― me classifica, também, com uma distância de poucos meses, na categoria dos condenados à morte. Assim, sem rodeios, vamos ao que interessa.

― Então, segundo o senhor, doutor, a minha situação jurídica é... sem esperança? ― interrompeu Le Pommerais.

― Receio que sim ― respondeu simplesmente Velpeau.

― A minha hora está marcada, então?

― Não sei. Mas, como nada há de concreto, o senhor pode decerto contar com alguns dias.

La Pommerais enxugou a manga da camisa de detento sobre a face pálida.

― Que assim seja. Obrigado. Estou pronto. Agora, o quanto antes acontecer, melhor.

― Como o seu recurso não foi denegado, ao menos até agora ― continuou Valpeau ―, a proposta que eu o farei é condicional. Se o senhor for salvo, tanto melhor... Mas se, do contrário...

O grande cirurgião fez uma pausa.

― Do contrário...? - indagou La Pommerais.

Velpeau, sem responder, tirou do bolso um pequeno estojo. Abriu-o, lançou mão do bisturi e, cortando a manga esquerda da camisa de detento, pressionou o dedo médio sobre o pulso do jovem condenado.

― Senhor de La Pommerais ― disse ―, seu pulso revela raros sangue frio e firmeza. A proposta que venho fazer-lhe, e esta deve manter-se em segredo, dirigida que é a um médico cheio de energia, a um espírito temperado nas convicções positivas de nossa ciência, e bem liberto dos terrores fantásticos da morte, pode parecer uma extravagância ou mesmo um escárnio criminal. Mas creio que sabemos quem somos. O senhor a levará, portanto, em consideração, ainda que, no primeiro momento, a proposta possa parecer-lhe inquietante.

― O senhor tem toda a minha atenção ― respondeu La Pommerais.

― O senhor longe está de ignorar ― prosseguiu Velpeau ― que uma das questões mais interessantes da fisiologia moderna consiste em saber se persiste algum verdadeiro lampejo de memória, raciocínio e sensibilidade no cérebro de um homem depois que tem a cabeça decepada.

A esta introdução inesperada, o condenado estremeceu. Depois, recompondo-se, respondeu:

― Quando o senhor entrou, doutor ― respondeu ―, eu estava justamente muito preocupado com este problema. Aliás, duplamente interessante para mim.

― O senhor está a par dos trabalhos escritos sobre esse assunto, desde os de Soemmering, Sue, Sédillot e Bichat[7] até os mais modernos.

― Eu mesmo assisti, certa feita, a uma de suas aulas de dissecação nos restos de um supliciado.
― Ah! Prossigamos, então. O senhor tem noções exatas, do ponto de vista cirúrgico, sobre a guilhotina?

La Pommerais, depois e olhar atentamente para Valpeau, respondeu friamente:

― Não, senhor.

― Hoje mesmo estudei minuciosamente o aparato ― continuou, impassível, o doutor Velpeau. ― Eu o asseguro que é um instrumento perfeito. A lâmina atua ao mesmo tempo como foice e clava. Corta o pescoço do paciente em um terço de segundo. O decapitado, sob o impacto desse golpe fulgurante, não pode sentir mais dor do que experimenta o soldado que, num campo de batalha, tem um braço arrancado por uma bala. A sensação, pela exiguidade de tempo, é nula e obscura.

― Pode ser que haja uma dor posterior. Duas feridas permanecem vivas. Não foi Julia Fontenelle[8] quem, dando os seus motivos, perguntou se esta mesma velocidade não é mais dolorosa que a execução com alfanje ou machado?

― Bérard[9] foi suficiente para fazer justiça a esse devaneio. Pessoalmente, estou convencido, baseado em numerosas experiências e observações particulares, de que a remoção instantânea da cabeça produz, instantaneamente, no indivíduo decapitado, um absoluto efeito anestésico. Somente a síncope provocada pela súbita perda de quatro ou cinco litros de sangue, que irrompem fora dos vasos ― frequentemente com a força de projeção circular de um metro de diâmetro ― bastaria para tranquilizar os mais temerosos. Quanto aos estremecimentos inconscientes da máquina corporal mui repentinamente interrompida em seus processos fisiológicos, estes não apresentam mais indícios de sofrimento que... os frêmitos de, por exemplo, uma perna cortada, cujos músculos e nervos se contraem, mas na qual já não se sente dor alguma. E digo que a febre nervosa da incerteza, a solenidade dos preparativos fatais e o sobressalto do despertar matinal são, nesse caso, o verdadeiro sofrimento. Como a amputação é imperceptível, a dor real é apenas imaginária. Vamos! Um golpe violento na cabeça não apenas não é sentido como não deixa consciência alguma do impacto. A simples lesão das vértebras acarreta a insensibilidade absoluta. A separação da cabeça, o corte da espinha dorsal, a interrupção das relações orgânicas entre o coração e o cérebro não seriam suficientes para paralisar, nas profundezas do ser humano, toda sensação, mesmo a mais tênue, de dor? Impossível, inadmissível! O senhor sabe disto tão bem quanto eu.

― Pelo menos espero que seja assim, e assim o espero ainda mais que o senhor ― respondeu La Pommerais. ― Porém, não é um grande e rápido sofrimento físico ― apenas concebido pela desordem sensorial, mas rapidamente sufocado pela crescente e inevitável ascendência da Morte ― o que eu temo. É outra coisa.

― O senhor poderia me explicar? ― disse Velpeau.

― Escute ― murmurou La Pommerais após um instante de silêncio. ― Em última instância, os órgãos da memória e da vontade ― se estes estão circunscritos nos mesmos lóbulos em que constatamos no... no cão, por exemplo ― não são afetados pela passagem da lâmina. Temos vivenciados tantos diversos equívocos precedentes, tão inquietantes como incompreensíveis, que não me deixo convencer facilmente da inconsciência imediata do decapitado. Conforme as lendas, quantas cabeças não voltaram o olhar para aqueles que falavam a elas? Memória de nervos? Movimentos reflexos? Palavras vazias! Lembre-se da cabeça daquele marinheiro que, na clínica de Brest, uma hora e quinze minutos após a decapitação, com um movimento, que pode ter sido voluntário, das mandíbulas, cortou em dois um lápis colocado entre elas? Para não citar mais outro entre mil exemplos, a questão real seria, pois, saber se fora ou não o “eu” desse homem que, após a cessação da hematose, incitou os músculos de sua cabeça exangue.

― O “eu” reside apenas no todo ― disse Velpeau.

― A medula espinhal prolonga o cerebelo ― respondeu o Sr. de la Pommerais. ― Onde estará o todo sensitivo? Quem poderá revelá-lo? Antes de oito dias, é certo que eu saberei... e esquecerei.

― Depende do senhor, talvez, que toda a humanidade tenha, de uma vez por todas, a resposta ― respondeu lentamente Velpeau, os olhos cravados em seu interlocutor. ― E, falando com franqueza, é por isto que estou aqui. Fui delegado por uma comissão de nossos mais eminentes colegas da Faculdade de Paris, e aqui está a permissão do imperador. Contém amplos poderes, como o de prorrogar, se necessário, a ordem de execução.

― Não estou entendendo... Por favor, explique-se ― respondeu, perplexo, La Pommerais.

― Senhor de la Pommerais, em nome da ciência que ainda nos é cara, e não podemos hoje contar com muitos mártires magnânimos, venho ― na hipótese para mim mais que duvidosa de que seria factível qualquer experimento por nós engendrado ―, reclamar de todo o seu ser a maior soma de energia e coragem que seja possível esperar da espécie humana. Se seu pedido de clemência for denegado, o senhor será, como médico, um sujeito por si mesmo capacitado à suprema operação que deve suportar. Sua cooperação seria, pois, a inestimável na tentativa de... comunicação. É evidente, por maior que seja a sua boa vontade, que tudo parece concorrer de antemão para o mais negativo dos resultados. Mas, enfim, com o senhor ― supondo sempre que esta experiência não seja absurda em princípio ―, é-nos oferecida uma chance em dez mil de iluminar milagrosamente, por assim dizer, a fisiologia moderna. A ocasião deve ser, portanto, aproveitada e, em caso de verificar-se exitosamente um sinal de inteligência depois da execução, o senhor deixaria um nome cuja glória científica apagaria para sempre a memória de sua mácula social.

― Ah! ― murmurou La Pommerais, pálido, mas com um sorriso resoluto. ― Começo a compreender!… De fato, os suplícios revelaram os fenômenos da digestão, disse-nos Michelot. Mas, qual seria a natureza de suas experiências? Estímulos galvânicos? Excitação do ciliar? Injeção de sangue arterial?

― Convém deixar claro que, imediatamente após à triste cerimônia, seus restos mortais irão descansar em paz na terra e nenhum de nossos bisturis o tocarão ― continuou Velpeau. ― Isto mesmo! Quando a lâmina cair, eu, eu estarei lá, de pé, à sua frente, junto à guilhotina. Sua cabeça passará das mãos do executor às minhas o mais rápido possível. Depois ― embora a experiência, por sua simplicidade, não possa ser séria e conclusiva ―, eu gritarei muito claramente em seu ouvido: “Sr. Couty de la Pommarais, em memória do que combinamos em vida, o senhor pode, neste momento, baixar três vezes seguidas as pálpebras de seu olho direito, conservando o outro aberto?” Se neste momento, quaisquer que sejam as demais contrações faciais, o senhor puder, por meio dessas três picadelas, avisar-me de que me ouviu e entendeu, assim provando, pelo emprego da vontade e da memória permanecentes, o controle sobre o músculo palpebral, o nervo zigomático e a conjuntiva ― dominando assim todo horror, toda as ondas de impressões de seu ser ―, esse fato será suficiente para iluminar a ciência e revolucionar as nossas convicções. E eu saberei, não tenha dúvida, propalar o seu nome, de modo que, no futuro, será o senhor lembrado não como um criminoso, mas como um herói.

Em face destas insólitas palavras, o Sr. de la Pommerais pareceu dominado por uma comoção tão profunda que, com as pupilas dilatadas e fixas no cirurgião, permaneceu em silêncio, petrificado, por um minuto. Então, sem dizer uma palavra, levantou-se, deu alguns passos, muito pensativo. Depois, sacudindo a cabeça, disse:

― A horrível violência do golpe irá arrancar-me de mim mesmo. Realizar tal prodígio me parece superior a toda vontade e esforço humanos ― disse. ― Além disso, diz-se que as probabilidades de sobrevida não são as mesmas para todos os guilhotinados. Apesar disto, volte, senhor, na manhã de minha execução. Responderei se me prestarei ou não essa tentativa, a um tempo terrífica, revoltante e ilusória. Se eu disser não, conto com a sua discrição para deixar que a minha cabeça sangre tranquilamente, até a exaustão, no balde de estanho que há de recebê-la.

― Está bem, Sr. de la Pommarais ― disse Valpeau, também se levantando. ― Reflita.

Cumprimentaram-se.

Um instante depois, o doutor Velpeau deixava a cela, o carcereiro retornava, e o condenado, resignado, se estendia no catre para dormir ou pensar.

Quatro dias depois, às cinco e meia da matina, o Sr. Beauquesne, o abate Crozes, o Sr. Claude e o Sr. Potier, escrivão da corte imperial, entraram na cela. Acordado, e à notícia da hora fatal, o Sr. de la Pommerais ergueu-se muito pálido e se vestiu rapidamente. Em seguida, falou dez minutos com o abade Crozes, de quem já havia recebido visitas. Sabe-se que o santo sacerdote estava dotado desta santa unção de inspiração que infunde coragem na hora extrema. Depois, vendo que o doutor Velpeau chegava, disse:

― Eu tenho treinado. Veja!

E, durante a leitura da sentença, conservou fechada a pálpebra direita, olhando fixamente o cirurgião com olho esquerdo completamente aberto.

Volpeau se inclinou demoradamente diante do médico e depois voltou-se para o Sr. Hendreich, que entrava com o seu ajudante, e trocou com o cirurgião um sinal de cumplicidade.

Os preparativos foram rápidos. Com ele, não se verificou o fenômeno do encanecimento dos cabelos sob o corte da tesoura. Uma carta de despedida da esposa ao réu, lida em voz baixa pelo capelão, umedeceu-lhe os olhos com lágrimas que o sacerdote enxugou piedosamente com o retalho tirado de sua camisa. Uma vez de pé, e com o casaco lançado sobre os ombros, tiveram que soltar as amarras de seus pulsos. Em seguida, ele recusou o copo de aguardente e o séquito seguiu pelo corredor. Ao chegar ao portão, estando o colega no limiar, disse-lhe, em voz baixa:

― Até logo! E adeus!

De repente, as grandes abas de ferros se entreabriram e giraram à sua frente.

O vento da manhã invadiu a prisão. Amanhecia. A grande praça se estendia à sua frente, cercada por um duplo cordão de cavalaria. Adiante, a dez passos, num semicírculo de gendarmes montados, que à sua chegada desembainharam os sabres ruidosos, erguia-se o patíbulo. A uma certa distância, entre os enviados da imprensa, alguns tiravam os chapéus.

Mais abaixo, atrás das árvores, ouvia-se o rumor da multidão, enervada pela noite de espera. Nas coberturas das tavernas, nas janelas, jovens dissolutas, pálidas, vestidas com sedas vistosas, algumas ainda segurando garrafas de champanha, assomavam em companhia de tristes ternos negros. No ar da manhã, sobre a praça, as andorinhas voejavam de cá para lá.

Solitária, preenchendo o espaço e limitando o céu, a guilhotina parecia estender até o horizonte a sombra de seus braços erguidos, entre os quais, muito longe, lá em cima, no azul da alvorada, via-se cintilar a derradeira estrela.

Diante desta fúnebre aparição, o condenado estremeceu. Depois, avançou resolutamente em direção ao cadafalso... Subiu as escadas. Agora, a lâmina triangular brilhava sobre a negra estrutura, ocultando a estrela. Sobre a prancha fatal, beijou, depois do crucifixo, uma mecha de seus próprios cabelos, recolhidos durante os aprestos pelo abade Crozes. E, depois de levá-los aos lábios, disse:

—Para ela!...

As cinco personagens se destacavam, em silhueta, sobre o patíbulo. Naquele momento, o silêncio tornou-se tão profundo que um ruído de um galho quebrado, à distância, sob o peso de um curioso, chegou misturado a gritos e risos hediondos até o trágico grupo. Depois, ao soar a hora cujo golpe ele não deveria ouvir, o Sr. de la Pommerais viu à sua frente, do outro lado, o estranho experimentador. Este, com a mão pousada na plataforma, o observava! Pommerais fechou olhos, concentrando-se.

Bruscamente, a báscula se moveu, o jugo caiu, o botão cedeu e o brilho da lâmina despencou. Um terrível choque sacudiu a plataforma. Os cavalos se agitaram ao cheiro magnético do sangue. O eco do ruído ainda vibrava quando a cabeça ensanguentada da vítima fazia-se palpitar entre as mãos impassíveis do cirurgião de Pitié[10], tingindo-lhe de púrpura os dedos, os punhos e as roupas.

Era uma cara lúgubre, terrivelmente branca, com os olhos abertos e absortos, as sobrancelhas retorcidas e ricto crispado: os dentes se entrechocavam. O queixo, na parte extrema do maxilar inferior, havia sido seccionado.

Volpeau inclinou-se rapidamente sobre aquela cabeça e formulou, junto ao ouvido direito, a pergunta combinada. Conquanto inabalável fosse este homem, o resultado o fez estremecer com uma espécie de terror frio: a pálpebra do olho direito havia baixado, enquanto o olho esquerdo, escancarado, o fitava.

Os cílios se separaram, como se por um resultado de um esforço interior, mas a pálpebra não mais se levantou. Aquela fisionomia, de segundo em segundo, tornou-se rígida, gélida, imóvel. Era o fim.

O doutor Vealpau devolveu a cabeça ao Sr. Hendreich que, reabrindo o cesto, a pousou, como era o costume, entre as pernas do tronco já inerte.

O grande cirurgião mergulhou a mão em um dos baldes destinados à lavagem, que já começava, da guilhotina. Em torno dele, a multidão, inquieta, se dispersava, sem reconhecê-lo. O médico enxugou as mãos, sempre em silêncio.

Depois, a passo lento, com a fronte pensativa e grave, dirigiu-se ao coche estacionado numa esquina da prisão. Enquanto subia, viu que o furgão da justiça se afastava em trote em direção a Montparnasse[11].






[1] Edmond- Louis -Antoine Huot de Goncourt (1822 – 1896), escritor francês.
[2] Prisão parisiense que acolheu, dentre outros prisioneiros, a rainha Maria Antonieta.
[3] No século XIX, a Rue de la Roquette abrigava, em cada um dos lados, uma prisão. A Grande Roquette passou a encarcerar, a partir de 1851, os condenados que aguardavam a execução da pena morte.
[4] Palácio onde residia despachava o então imperador da França, Napoleão III. Foi destruído por um incêndio em 1871. Suas ruínas foram demolidas onze anos depois.
[5] Dominique-Jean Larrey (1766 - 1842), médico e cirurgião militar francês.
[6] Institut de France (em português, Instituto da França) é uma instituição acadêmica francesa, fundada em Paris em 25 de outubro de 1795. Abarca várias instituições, dentre elas a famosa Académie des Sciences.
[7] Samuel Thomas von Sömmerring (1755 – 1830), médico e anatomista alemão; Pierre Sue (1739 - 1816), médico e cirurgião francês; Charles-Emmanuel Sédillot (1804 – 1883), médico militar e cirurgião francês; Marie François Xavier Bichat (1771 – 1802), médico, anatomista e fisiologista francês.
[8] Jean-Sébastien-Eugène Julia de Fontenelle (1780 – 1842), médico e químico francês.
[9] August Bérard (1802 – 1846), cirurgião francês.
[10] Hospital parisiense.
[11] Cemitério parisiense.

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GABRIEL ERNEST - Conto Clássico de Terror - Saki



GABRIEL-ERNEST
Saki (Hector Hugh Munro)
(1870 – 1916)
Tradução de Paulo Soriano

Nascido na Birmânia, filho de pais britânicos, Hector Hugh Munro, mais conhecido como Saki (1870 — 1916), foi — assim como Ambrose Bierce — um hábil contista que aliava, com maestria, o humor — cáustico e irônico — ao terror. “Gabrie-Ernest”, conto de lobisomens, foi publicado em “The Westminster Gazette” em 1909. 

Há um animal selvagem em seus bosques — disse o artista Cunningham, enquanto era conduzido à estação. Esta foi a única observação que ele fez ao longo de todo o trajeto, mas, como Van Cheele havia falado sem parar, o silêncio de seu companheiro não havia sido notado.

— Uma ou outra raposa extraviada e umas tantas doninhas da região. Nada mais fabuloso que isto — disse Van Cheele. O artista não disse mais nada.

— O que você quis dizer com animal selvagem? — perguntou Van Cheele pouco depois, quando estavam na plataforma.

— Nada. Apenas uma fantasia minha. O trem está chegando — disse Cunningham.

Naquela mesma tarde, Van Cheele saiu para um de seus frequentes passeios nos bosques de sua propriedade. Havia uma ave migratória empalhada em seu estúdio e ele conhecia os nomes de um grande número de flores selvagens. Assim, a sua tia tinha, de algum modo, certa razão para descrevê-lo como um grande naturalista. De toda forma, era ele um grande caminhante. Tinha o costume de tomar, mentalmente, nota de tudo o que via nesses passeios, não tanto para contribuir para com a ciência contemporânea, mas sobretudo para munir-se de temas em suas conversações. Quando as campânulas azuis começaram a florescer, ele fez questão de participar o fato a todas as pessoas. A época do ano poderia ter prevenido seus ouvintes da probabilidade de tal ocorrência, mas pelo menos pensaram que Van Cheele estava sendo absolutamente franco com eles.

Todavia, o que Van Cheele viu naquela tarde em particular fora algo muito distante de suas experiências ordinárias. Numa plana saliência rochosa, que pende sobre uma laguna profunda, em meio a uma clareira de um bosque de carvalhos podados, um jovem de cerca de dezesseis anos estava estendido, secando deliciosamente os seus membros morenos ao sol. Tinha os cabelos molhados, redistribuídos na cabeça por um mergulho recente. Seus olhos castanho-claros, que, de tão brilhantes, tinham quase o fulgor dos de um tigre, dirigiram-se para Van Cheele com uma certa atenção indolente. Aquela era uma aparição inesperada e o homem enredou-se no processo, que não lhe era habitual, de pensar antes de falar. De onde teria surgido aquele rapaz de aparência selvagem? A esposa de um moleiro perdera um garoto há uns dois meses — supunha-se que arrastado pela corrente que movia o moinho —, mas aquela era só uma criança, não um rapaz crescido.

— O que está fazendo aqui? ­— perguntou Van Cheele.

— Tomando sol, é evidente — respondeu o rapaz.

— Onde você mora?

— Aqui, nestes bosques.

— Você não pode morar nos bosques — disse Van Cheele.

— São bosques muito belos — disse o rapaz, com certo tom de condescendência na voz.


— Mas, onde dorme à noite?

— Não durmo à noite. É quando estou mais ocupado.

Van Cheele começou a ter a irritante sensação de estar lidando com um problema que lhe escapava.

— De que você se alimenta? — perguntou.

— De carne — respondeu o rapaz. E pronunciou aquela palavra com tanto gosto que parecia saboreá-la.

— Carne? Que espécie de carne?

— Já que lhe interessa, de coelhos, aves selvagens, lebres, aves de cativeiro, cordeiros e crianças, quando consigo alguma. Geralmente, elas estão muito bem trancadas à noite, quando geralmente caço. Há dois meses que não provo carne de criança.

Ignorando a natureza provocante da última observação, Van Cheele cuidou de conduzir o rapaz ao tema de uma possível caça furtiva.

— Você fala à toa quando afirma alimentar-se de lebres (o aspecto do rapaz não indicava aptidão a tanto). As lebres de nossas colinas não são facilmente capturadas.

— À noite, caço sobre quatro patas — foi a resposta um tanto enigmática.

— Suponho, então, que você está a dizer que caça com cães... — arriscou Van Cheele.

O rapaz virou-se lentamente de costas e soltou um sorriso baixo e estranho, agradável como um contentamento e desagradável como um grunhido.

— Não acho que algum cão ficaria ansioso pela minha companhia, sobretudo à noite.

Van Cheele deu-se conta de que havia algo de pavoroso naquele rapaz de olhos peculiares e estranho modo de falar.

— Não posso permitir que permaneça nestes bosques — declarou, em tom autoritário.

— Suponho que você há de me preferir aqui e não em sua casa — disse o jovem.

A perspectiva daquele animal desnudo e selvagem na casa ordenada e perfeita de Van Cheele era evidentemente alarmante.

— Se você não vai embora por si mesmo, terei de obrigá-lo a partir — disse Van Cheele.

O rapaz virou-se como um raio, mergulhou na laguna e, em um instante, já havia percorrido, com o seu corpo molhado e brilhante, a metade da distância à margem onde estava Van Cheele. Numa lontra, o movimento não teria nada de especial; mas, para Van Cheele, era algo de surpreendente num rapaz. Ao fazer um involuntário movimento de recuo, seu pé escorregou no chão úmido e ele se viu prostrado na margem, com aqueles olhos amarelos de tigre não muito distantes dos seus. Quase institivamente, levou a mão à garganta. O rapaz riu novamente. Era um sorriso em que o grunhido fizera desaparecer todo o contentamento. Depois, com outro de seus movimentos rápidos e surpreendentes, fugiu, mergulhando num emaranhado de ervas e samambaias.

— Que animal selvagem extraordinário! — exclamou Van Cheele, enquanto se levantava. E logo se lembrou da observação de Cunningham: “há um animal selvagem em seus bosques”.

Retornando, devagar, para casa, Van Cheele pôs-se a repensar uma série de acontecimentos locais que poderia ser associada à existência daquele surpreendente jovem selvagem.

Ultimamente, algo contribuía para a escassez de amimais silvestres naquelas florestas. As galinhas desapareciam das fazendas, as lebres quase não eram vistas e chegaram-lhe queixas dos que haviam perdido cordeiros nos rebanhos que pastavam nas colinas. Seria possível que aquele rapaz selvagem estivesse caçando naquela região em companhia de algum cão inteligente? O jovem falara de caçar “sob quatro patas” durante a noite, mas também insinuara, estranhamente, que nenhum cão gostaria de estar junto a ele, “especialmente à noite”. Tudo era verdadeiramente intrigante. Ao repassar os diversos saques ocorridos nos últimos dois nesses, terminou por chegar repentinamente a um ponto morto, que se refletiu tanto em sua caminhada quanto em suas especulações. A criança perdera-se no moinho há dois meses, e a teoria aceita por todos era a de que ela havia caído na corrente do moinho, que a levara... Mas a mãe sempre dissera ter ouvido um grito vindo do lado de casa voltado para a colina, na direção oposta ao rio. Malgrado naturalmente impensável, ele desejou que o jovem não tivesse feito a aterradora alusão à carne de criança que provara há dois meses. Coisas tão horrendas não deveriam ser ditas jamais, nem mesmo por brincadeira.

Contrariamente aos próprios costumes, Van Cheele não se sentia disposto a contar aos outros a descoberta que fizera no bosque. Sua posição de conselheiro da igreja e juiz de paz se veria comprometida de certo modo pelo fato de estar abrigando em sua propriedade uma personalidade de reputação duvidosa. Havia mesmo a possibilidade de que fosse responsabilizado pelos pesados prejuízos decorrentes do desaparecimento das aves de cativeiro e cordeiros. Nessa noite, ao jantar, estava num mutismo inabitual.

— O que aconteceu à sua língua? — disse a tia. — Mais parece que você viu um lobo.

Van Cheele, que não conhecia esse velho ditado, considerou estúpida aquela observação. Se tivesse encontrado um lobo sem sua propriedade, a sua língua estaria extraordinariamente ocupada com o assunto.

No dia seguinte, durante o café da manhã, Van Cheele percebeu que a incômoda sensação provocada pelo incidente do dia anterior não havia de todo desaparecido. Resolveu ir de trem à cidade vizinha, que era sede episcopal, procurar Cunningham e inteirar-se do que ele havia realmente visto. Indagaria ao amigo por que motivo fizera a observação a respeito do animal selvagem do bosque. Tomada tal decisão, a sua habitual alegria em parte retornou, e ele se pôs a cantarolar uma musiquinha enquanto seguia ao estúdio para fumar o cigarro costumeiro. Ao entrar, a melodia foi subitamente interrompida por uma exclamação religiosa. Graciosamente estendido na poltrona, numa atitude de repouso quase exagerada, jazia o rapaz do bosque. Estava mais seco que da última vez que Van Cheele o havia visto, mas sem nenhuma outra alteração perceptível em sua aparência.

— Como se atreve a vir aqui? — perguntou Van Cheele, furioso.

— Você me disse que eu não podia ficar nos bosques — disse, calmamente, o rapaz.

— Mas eu não lhe disse que viesse para cá.  E se minha tia o vir assim?

E com a intenção de minimizar tal catástrofe, Van Cheele apressadamente cobriu o máximo possível seu indesejado visitante com as dobras do Jornal da Manhã. Nesse momento, a tia entrou no gabinete.

— Este pobre rapaz extraviou-se e perdeu a memória. Não sabe quem é e nem de onde vem — Van Cheele explicou, desesperadamente, olhando apreensivo para o rosto do “garoto perdido”, a fim de verificar se era capaz de adicionar alguma inconveniente sinceridade às suas outras propensões selvagens.

A senhorita Van Cheele ficou imensamente interessada.

— Talvez tenha uma inicial em suas roupas de baixo — sugeriu.
— Parece que perdeu a maior parte delas — disse Van Cheele, procurando freneticamente manter o Jornal da Manhã em seu lugar.

Um garoto nu e sem lar fascinava tanto a senhorita Van Cheele quanto um gatinho de rua ou um cãozinho abandonado.

— Devemos fazer tudo o que for possível por ele — decidiu ela e, em curto espaço de tempo, um mensageiro enviado à Paróquia, onde havia um pajem jovem, regressara com um terno e alguns acessórios necessários como camisa, colarinho, sapatos etc. Vestido, limpo e arrumado, o rapaz nada perdera, aos olhos de Van Cheele, de sua aterradora expressão; mas sua a tia o achara encantador.

— Devemos dar-lhe um nome até que saibamos quem ele realmente é — disse ela. — Gabriel-Ernest, eu acho. São nomes agradáveis e apropriados.

Van Cheele concordou, embora intimamente duvidasse que os nomes haviam sido dados a um rapaz adequado e agradável. E seus temores não foram amenizados pelo fato de o seu velho e sereno cão de caça fugir de casa logo à chegada do rapaz, de modo a continuar tremendo e latindo no pomar, enquanto que o canário, normalmente tão ativo vocalmente quanto o próprio Van Cheele, limitava-se a soltar alguns pios assustados. Mais do que nunca estava decidido a consultar Cunningham sem perda de tempo.

Enquanto ele se dirigia à estação ferroviária, sua tia cuidava para que Gabriel-Ernest a ajudasse a entreter as crianças da escola dominical no chá daquela tarde.

Cunningham, inicialmente, não estava disposto a mostrar-se comunicativo.

— Minha mãe morreu de uma doença mental — explicou —, de maneira que você compreenderá que sou avesso a lhe participar qualquer coisa de natureza impossível ou fantástica que eu tenha visto ou que pense que tenha visto.

— Mas o que foi que você viu? — insistiu Van Cheele.

— O que eu suponho que vi foi algo tão incomum que ninguém, em são juízo, poderia crer que realmente aconteceu. Na última noite em que estive com você, eu estava meio oculto entre os arbustos, à entrada do pomar, admirando o pôr do sol. De repente, percebi a presença de um rapaz nu, alguém que se banhara nalguma laguna próxima, e que permanecera no declive da colina para também contemplar o entardecer. Sua atitude sugeria de tal modo a aparência de um fauno silvestre da mitologia pagã que imediatamente me ocorreu contratá-lo como modelo. Estava prestes a chamá-lo quando o sol despareceu, e todos os matizes laranja e rosa abandonaram a paisagem, deixando-a fria e cinza. Neste preciso instante, algo surpreendente aconteceu: o rapaz também desapareceu!

— Como assim? Desapareceu no nada? — perguntou Cheele, excitado.

— Não. Esta é a parte terrível da história — respondeu o artista. — Na encosta, onde estivera o rapaz há um segundo, agora havia um grande lobo, quase negro, com presas reluzentes e olhos amarelos e cruéis. Pense que...

Mas Van Chelle não se deteve com algo tão inútil quanto um pensamento. Corria já, a toda velocidade, à estação. Repeliu a ideia de um telegrama. “Gabriel-Ernesto é um lobisomem” era uma tentativa desesperadamente inadequada para explicar o que estava acontecendo, e sua tia pensaria que se tratava de uma mensagem cifrada cuja senha não lhe fora fornecida. Sua única esperança era chegar em casa antes do pôr do sol. O táxi que tomou ao desembarcar na estação parecia conduzi-lo com uma lentidão exasperante pelas estradas rurais, que já ganhavam matizes rosados e violáceos sob a luz do sol poente. Sua tia já recolhia os restos de geleia e o bolo quando ele chegou.

— Onde está Gabriel-Ernest? — ele perguntou, quase a gritar.

— Está levando para casa o filho dos Toop — disse a tia. — Já estava ficando tarde e não me pareceu seguro deixar que o menino voltasse sozinho. Que belo pôr do sol, não é mesmo?

Mas Van Cheese, embora não ignorasse o brilho do céu no ocidente, não ficou para discutir aquela beleza. A uma velocidade para a qual estava precariamente dotado, correu ao longo das sendas estreitas que levavam à casa dos Toop. De um lado, fluía a rápida corrente que movia o moinho; do outro, elevava-se a encosta desnuda da colina.

O arco minguante do sol ainda era visto no horizonte. Na próxima curva, Van Cheele deveria encontrar a incôngrua dupla que procurava. De repente, todas as cores sumiram e a luz cinzenta dominou, com um rápido estertor, a paisagem. Van Cheele ouviu um estridente grito de terror e estacou.

O pequenino Toop e Gabriel-Ernest nunca mais foram vistos, mas encontraram as roupas do rapaz jogadas no caminho. Concluíram que a criança caíra na água e que o rapaz se despira e atirara-se ao rio, numa vã tentativa de salvá-la. Van Cheele e alguns trabalhadores, que na ocasião por ali se encontravam, testemunharam ter ouvido o grito estridente do garoto nas proximidades do lugar onde as roupas foram achadas. A senhora Toop, que tinha outros onze filhos, resignou-se decentemente ao luto, mas a senhorita Van Cheese lamentou sinceramente o desaparecimento do rapaz desgarrado. Graças à sua iniciativa, assentaram uma placa de bronze, na igreja paroquial, em memória de “Gabriel-Ernest, rapaz desconhecido que sacrificou corajosamente a sua vida pela de outra pessoa”.

Van Cheele apoiava a tia na maioria de suas moções, mas se recusou por completo a subscrever um contributo financeiro à placa memorial de Gabriel-Ernest.


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