O HOMEM-PEIXE - Conto Clássico Fantástico do Séc. XVIII - Pedro Nisa Robes de Melo


O HOMEM PEIXE
Ou
O EXTRAORDINÁRIO CASO DE FRANCISCO DA VEIGA
(Cordel português do século XVIII)
Pedro Nisa Robes de Melo
(Séc. XVIII)


Os folhetos de cordel – chamados de papéis volantes – inundavam as ruas e praças de Lisboa no século XVIII. Assim como os nossos, eram escritos para o povo numa linguagem popular. Era – diz-nos Clara Pinto Correia – num português plebeu que se imprimiam os folhetos anônimos de dez páginas, vendidos na esquina da rua por dois centavos. Escrevia-se num português das massas, que era o único que todas as massas que sabiam ler o faziam com avidez.

Nesses papéis volantes pululavam fatos e feitos extraordinários, fantásticos, formidáveis. Tais folhetos, relembra-nos a historiadora Mary Del Priori, prendiam a atenção e respiração de seus leitores, mergulhando-os num mundo fantasmagórico e de fantasmagorias. Monstros, aberrações e eventos prodigiosos enchiam de terror os homens do povo numa época em que o absurdo era plausível e a superstição milenar não se deixava permear pelas luzes do racionalismo incipiente.


 A presente narrativa de cordel de Pedro Nisa Robes de Melo, publicada em Lisboa em 1740, baseia-se, em grande parte, na obra do monge beneditino Bento Jerônimo Feijó e Montenegro (1676 — 1764), erudito iluminista galego, ensaísta de grande prestígio em sua época. Nela, narra-se a extraordinária história de um jovem aprendiz de carpinteiro que, tido por afogado nas águas da desembocadura do rio Nança, nordeste da Espanha, é capturado por pescadores, cinco anos depois de seu desaparecimento, nas águas da baía de Cádis, no sul da Península Ibérica. Mas aparece ele com o corpo guarnecido de escamas, o que leva a gente do povo, nobres e eruditos a crer que o jovem, habitando o oceano todos estes tempos, metamorfoseara-se numa criatura anfíbia, agora destituída da mínima inteligência.



RELAÇÃO

DE UM EXTRAORDINÁRIO E PRODIGIOSO CASO


QUE NOS FINS DO SÉCULO PASSADO
ACONTECEU


no Reino de Castela a Francisco da Veiga do lugar de Liérganes, Província de Biscaia, assistindo na cidade de Bilbao da mesma província, tirada de algumas memórias que deste sucesso traz R. P. M. Fr. Bento Feijó[1], adicionada com outras mais notícias particulares, dada à luz por

PEDRO NISA ROBES DE MELO, E


oferecida à admiração de todos, por se não tem encontrado outra semelhante nas histórias.




No Reino de Castela, em uma província que chamam Biscaia Alva, que está situada entre a Vermelha e a Guipúscoa, junto dumas montanhas, que compreende o arcebispado de Burgos, distante duas léguas da Vila de Santander para a parte do Sudoeste, está uma aldeia chamada Liérganes, não muito povoada de gente, nem fértil de frutos, por se achar situada quase no cume de uma áspera de desabrida serra. Em pouca distância deste lugar, aplicados à cultura de umas terras, vivia Francisco da Veiga e sua mulher Maria do Casal, os quais se tinham recebido na igreja de São Pedro da mesma freguesia no ano de 1655. E deste matrimônio tiveram cinco filhos chamados, o primeiro, Tomás (que ao depois foi sacerdote), o segundo Antônio, que morreu de dous anos, o terceiro Francisco (a quem sucedeu o caso que vamos relatando), o quarto José e o quinto João, que todos foram batizados na dita Igreja de S. Pedro.

Viveram no consórcio deste matrimônio por espaço de 18 anos até que, no ano de 1673, morreu de uma dilatada doença o dito Francisco da Veiga. Vendo-se assim viúva e desamparada a dita Maria do Casal, cuidou logo em dar a seus filhos empregos, com que tivessem modo de sustentar a vida, ao menos segundo o caráter de sua qualidade, mandando a Tomás, que era o mais velho, para a Vila de Santander, para que nela se aplicasse aos estudos da Gramática e se ordenasse clérigo; a Francisco para Bilbao, cidade capital daquelas províncias, e distante para o Norte 19 léguas da sua habitação, junto do mar oceano e situada nas margens do rio Nança, que ali vai desaguar, formando-se na foz uma enseada não só mui aprazível, mas igualmente útil, por ser um dos melhores e mais frequentados porto de mar que por aquela costa se acha em todo Reino de Castela, para que ali aprendesse o ofício de carpinteiro com mais perfeição do que o poderia fazer no inculto daquelas aldeias. E ultimamente destinou os dois mais novos para lhe assistirem em sua casa, e lhe ajudarem a continuar o granjeio das suas terras, de que com seu marido se tinham sustentado e alimentado seus filhos. Disposto isto assim, cada um tratou logo de obedecer ao preceito materno, abraçando-o de boa vontade, e seguindo-o prontamente. Mas como só pertence a nossa história à fatalidade que aconteceu ao que seguiu a viagem de Bilbao, só deste iremos tratando, e vendo o que passou.

Em 15 anos de idade, e no ano de 1672, partiu o segundo filho de Maria do Casal, e novo Francisco da Veiga, para a Cidade de Bilbao, aonde chegou em breves dias, por ser, como fica dito, curta aquela jornada, e logo cuidou de se ajustar ao uso e prática daquela terra com um mestre daquele ofício, a que ia destinado. E depois de o ter concluído, continuou por alguns meses, com toda curiosidade na aplicação daquela arte, em que, com bastante habilidade, ia mostrando muitas vantagens. Porém, passado o tempo que lhe foi necessário para tomar conhecimento com alguns moços da sua idade, que vinham de pescar na foz do rio, começou a desgostar-se daquele exercício, e a acompanhálos no de lançar redes, nadar, mergulhar e outros pertencentes àquele ministério, a que mostrava uma inclinação nunca vista, dando-se por muito satisfeito de achar na grandeza daquele rio bastante campo para saciar o inato apetite que tinha de lidar com águas, o qual já mostrava no tempo em que tinha estado na companhia de seus pais, fugindo-lhes continuamente para uma ribeira circunvizinha do lugar de Liérganes, sua pátria.

Passados assim dous anos de assistência na cidade de Bilbao, e no ano de 1674, se foi nosso Francisco da Veiga com aqueles amigos a quem pelo exercício era tão inclinado, em uma noite de S. João, banhar ao mesmo rio Nança, junto aonde desemborca no oceano, aonde chamam a Barra de Portugalete, e depois de se mostrar mais perito que os outros na arte de nadar, dilatando-se muito tempo nos mergulhos, e estendendo o progresso do nado mais que todos, com grande admiração deles se foi fazendo ao largo pelo mar dentro, de sorte que, esperando-se até quase pela manhã, não voltou, e recionavelmente o reputaram submergido, afogado na imensidade e vastidão daquelas ondas; e já desenganados de que naturalmente não podia aparecer vivo o companheiro, se retiraram, trazendo-lhe consigo o vestido, que tinha deixado ao pés dos mais, e foram entregar ao seu mestre, dando-lhe conta do que tinha sucedido. Assentou este que, com efeito, tinha perdido o discípulo; e ele, infelizmente, a vida, e tratou logo de dar disto conta sua mãe e irmãos, com cuja notícia eles o tiveram por morto, e choraram, como era justo, a sua desgraça.

Tinha corrido o espaço de 5 anos quando, no ano de 1679, no golfo de Cádis, distante de Bilbao mais de 150 léguas por terra, e perto de 300 pela costa do oceano, uns homens, que ali frequentavam o exercício de pescar, viram, ao longe, nadando na superfície das águas, um indivíduo totalmente estranho à vista, em habitação que só serve para outros de muito diferente figura. Foram, ainda que receosos, apropinquando para ele a embarcação, para melhor se informarem de seu aspecto; porém, ele, que igualmente tinha perdido a comunicação, e o conhecimento dos homens, tirando-se deles com a maior pressa que pôde, se pois de mais largo, e submergindo-se ultimamente nas ondas, desapareceu, de sorte que em todo aquele dia lhes não foi possível torná-lo a avistar. Voltaram para a cidade e, no dia seguinte, continuando o seu exercício de pescaria quase no mesmo sítio, o viram segunda vez, já de mais perto, porém sempre cuidando de lhes fugir, umas vezes cortando as águas com mais ligeireza, e outras escondendo-se nelas pelo tempo que lhe era necessário. Com a repetição desta vista, não só lhes cresceu a curiosidade de examinar o que era, mas se capacitaram de que mais facilmente o conseguiriam. Vendo que ele se dilatava naquele sítio, sem embargo de o terem insultado no dia antecedente, e sem o fazerem naquele, volveram com toda a diligência à cidade, e deram conta a algumas pessoas de curiosidade e indústria do que tinham visto naqueles dous dias.

Discorreram sobre o modo de o haverem às mãos, e ultimamente dispuseram levar algumas redes da maior marca que se acharem para lhe lançar muito ao largo, de sorte que ele não pudesse penetrar o engano, arrojando-lhe juntamente algumas cousas comestíveis por terem já visto que ele se aproveitava de algumas que ia achando por cima da água. Preparados nesta forma, endireitaram logo para o sítio, e achando-o nele pontualmente, lhe começaram a lançar alguns pedaços de pão que levavam, os quais ele com presteza apanhava, cuidando sempre na retirada pelo mesmo modo que acostumava fazer. Entretanto, o foram, de outra embarcação, cercando por muita distância com as redes que levavam. E, depois de terem com elas bem seguro o êxito da presa, as foram puxando, até que ultimamente, não se podendo ele livrar desta máquina que lhe tinham fulminado, o trouxeram às mãos, conheceram ter forma de criatura racional, e o conduziram para a cidade com grande contentamento de terem descoberto uma raridade nunca vista.

Concorreu logo a maior parte da gente da cidade a ver aquele espetáculo, e examinado por algumas pessoas o material do seu indivíduo, se achou que em todas as suas partes correspondia a qualquer homem perfeito, e somente pelos lombos e peitos se viam algumas escamas, como as de qualquer peixe, achando-se-lhe, também, pelas partes em que não as tinha, a pele mais áspera e quase como a de uma lixa, o que tudo ao depois perdeu, como abaixo veremos. Feito assim este exame, e assentado em que sem dúvida era criatura racional, trataram de perguntar algumas cousas, porque já tinham feito reparo no silêncio que tinham observado em todo aquele tempo; porém, deixando tudo sem resposta na língua vulgar daquela terra, lhe falaram na maior parte das da Europa, e ainda de algumas da África, mas foi diligência baldada, porque em todas mostrou não entender palavra, não sabendo em alguma dar resposta, parecendo não só mudo por falta de articulação, mas mais que mudo por não dar alento ao estrépito algum de voz; o que causou tão grande admiração, que se capacitaram que só de alguma obsessão do demônio podia proceder acontecimento tão raro. E tentando nisto, o levaram para um convento de S. Francisco, naquela cidade, para nele o exorcismarem alguns religiosos da virtude que nele havia. Fez-se logo assim; porém, continuando-se por algum tempo esta diligência, viram que nenhum sinal dava de possessão diabólica, e da mesma sorte continuava o silêncio. Passados, porém, alguns tempos, se lhe ouviu proferir distintamente a palavra Liérganes, nome de sua pátria, como fica dito. Foi desconhecido este nome dos que não tinham notícia da terra; porém, ali achando-se um moço trabalhando em umas obras no mesmo convento, disse que Liérganes era nome de uma terra situada aonde tínhamos dito, e que era pátria sua, donde ele tinha vindo para aquela cidade havia bastante anos, sem que lá tivesse notícia de caso algum que dissesse relação àquele. Informado de tudo isto, um cavalheiro de Cádis, sabendo que o secretário da Suprema Inquisição de Castela, chamado Dom Domingos de Cantolla[2], com quem tinha boa amizade, era da mesma terra de Liérganes, lhe escreveu, e deu conta deste caso, para que mandasse por seus parentes averiguar se tinha sucedido algum que se pudesse combinar com ele: executou-o ele prontamente assim e lhe respondeu: que o que tinha sucedido era perder-se no porto de Bilbao um moço daquela terra chamado Francisco da Veiga, filho de outro, e de sua mulher Maria do Casal, porém, que isto tinha passado havia bastantes anos, e que de todos era já reputado por morto e afogado naquele rio.

Remetida por Dom Domingos de Cantolla ao seu amigo e correspondente de Cádis aquela resposta, que lhe tinha vindo de Liérganes, se começou a divulgar a notícia pela cidade, e ele pessoalmente foi dar ao convento de São Francisco, em que se achava aquele enigmático indivíduo. Tinha chegado de poucos dias Fr. João Rosende, que voltava de Jerusalém com a incumbência de tirar esmolas por toda a Espanha para aqueles santos lugares, e tendo disposto o seu giro de sorte, que vinha a rematar no Arcebispado de Burgos, e informado de que nele se compreendia o lugar de Liérganes, determinou levar consigo o nosso Francisco da Veiga para o restituir à sua casa e, entretanto, se ajudar dele para o que lhe fosse necessário na sua peregrinação que, suposto pela inabilidade de voz, fosse pouco apto para aquele ministério de pedir, em tudo mais era apto para obedecer. Tratou logo o dito religioso de se familiarizar com ele, insinuando-lhe seu desígnio, ao qual ele deu alguns sinais de consentimento e gosto. E, com efeito, se partiram com mais outro religioso leigo no mesmo ano de 1679 para o seu petitório. Correram vários lugares daquele Reino, nos quais se foi fazendo notório este caso, acompanhando o dito Francisco da Veiga aquele religioso, e servindo-o em tudo o que lhe mandava, porém em todo o decurso daquela jornada se não lhe ouviu palavra alguma mais que mui poucas vezes aquela de Liéganes, que já tinha pronunciado em Cádis. Foram-se avizinhando à província de Biscaia, até que no ano de 1680, chegando a uma serra, que chamam Ladehesa, distante somente do lugar de Liéganes um quarto de légua, disse o religioso ao dito Francisco da Veiga que fosse adiante, e guisasse o caminho, o que ele pontualmente fez, partindo direito para a casa de sua mãe Maria do Casal.

Chegando que foi Francisco da Veiga à casa de sua mãe, o conheceu esta logo, fazendo grandes demonstrações de alegria, abraçando-o repetidas vezes e dizendo: Este é o meu filho, que me desapareceu em Bilbao, e já reputava morto.

Dous irmãos, que ainda eram vivos, o clérigo e o outro secular, da mesma forma o receberam com alvoroço e gosto. Porém ele a tudo isto mostrou menos alteração e alegria do que fosse bruto, porque mais que bruto parecia inanimado. Recebido, sem embargo disto, por sua mãe com aquele amor que todas têm e facilmente não perdem dos filhos, se conservou ali por espaço de 9 anos com pouca diferença, sempre naquele estado de insensato, e totalmente alienado do entendimento, não se lhe conhecendo em algum instante sinal de paixão ou afeto humano, e só passados alguns anos se lhe ouviram pronunciar algumas vezes as palavras pão, vinho, tabaco, porém sempre disparatadas, e com tão pouca conexão ao propósito que, perguntando-lhe se queria alguma cousa daquelas, nada respondia, nem mostrava entender o que se lhe perguntavam; porém, se com efeito lho davam, o comia, bebia, e tomava com excesso e loucura, e outras vezes o rejeitava, de sorte que voluntariamente andava muitos dias sem usar de cousa alguma daquelas, nem ainda de outro qualquer alimento que de dessem. Andava continuamente descalço, e muitas vezes de todo despido, sem que isto lhe desse algum cuidado; e, se o mandavam a vestir, o fazia, não se lhe conhecendo para isto, ou para o contrário, deliberação alguma de vontade. Ia aonde o mandavam, especialmente àqueles que conhecia antes de ir a Bilbao; e em uma ocasião, mandando-o à vila de Santander um clérigo daquele lugar a levar uma carta de um seu amigo, foi prontamente, como costumava, e, tendo de passar um rio, que tem perto de uma légua de largura, e não achando barco pronto, o passou a nado, e entregando a carta molhada, lhe perguntou o sujeito, para quem ia, a causa de a levar daquela forma, ao que não soube responder, e só aceitar a resposta, e volver com ela a Liéganes. Nunca pedia de comer por modo algum, e só aceitava quando lho davam e estava com vontade dele. Para obedecer, mostrava que tinha aptidão de homem; porém, para discorrer, nem ainda parece que tinha instinto de bruto. No fim de dous anos depois que ali chegou, lhe caíram as escamas, que a natureza lhe adotara, como reparo necessário à habitação que o seu destino lhe tinha oferecido nas águas; pôs-lhe a pele naturalmente macia, como a de qualquer homem, logrando assim o corpo quase a inteira restituição dos seus acidentes, e ficando a alma flutuando para sempre naquela estranha confusão das suas potências, até que no fim de 9 anos desapareceu, no ano de 1689, sem que houvesse mais alguma notícia dele, e só bastantes fundamentos para se conjecturar que se passou segunda vez à província de Guipúscoa, a repetir a habitação do mar, a que sempre se mostrava inclinado, tanto por ficar ali mais perto, como por ser caminho que já sabia. Alguns disseram que daí a alguns tempos fora visto no mar das Astúrias, porém não há bastante fundamento para assim o afirmarmos.

 Era de estatura ordinária, e bem proporcionada, cor branca, cabelo vermelho e pequeno. Trazia as unhas gastadas e quase que não lhe apareciam, nem lhe chegavam a pôr maturais em todo aquele tempo. Alguns quiseram que esta fatalidade fosse feita de uma maldição que justamente lhe tinha lançado sua mãe; porém, ao depois, se averiguou ser mentira. E só acaso sucedido ainda, que parece incrível ser naturalmente sustentada, por se não encontrar até aqui outra semelhante, assim nas histórias antigas como nas modernas.
  
ADVERTÊNCIA E REFLEXÃO

 Não se deve tomar esta história por apócrifa, por ter sido atestada ao R. P. M. Fr. Bento Jerônimo Feijó, monge beneditino no Reino de Castela, e hoje, por sua raríssima erudição, bem conhecido em toda a Europa, por várias cartas, que teve do Marquês de Valbuena e D. Gaspar de Melchior[3], e outras pessoas de igual crédito, que com toda a exação a averiguaram, informando-se dos mesmos irmãos de Francisco da Veiga e outros, conhecendo-o, e vendo-o no estado em que temos dito; e o mesmo P. afirma, e transcreve por certa no 6º tom. de seu Teatr. Critic. circunstância que, na verdade, lhe pôde tirar todo o escrúpulo de dúvida. E nós agora informados com mais miudeza de algumas circunstâncias que ali se não individuam, a escrevemos no idioma pátrio, para que a ninguém se oculte prodígio tão raro, e a todos (ainda àqueles que não entendem bem a língua castelhana, ou não tiverem a Obra do Teatro Crítico) se manifeste um caso, que pode servir de incentivo a uma profunda meditação da inescrutabilidade da Providência Divina; pois vemos que ainda em um Elemento tão estranho, e contrário à sustentação da vida humana, quis Deus dar a este homem um acomodado e gostoso abrigo, talvez que segurando-lhe por aquele caminho o mais direito da sua salvação. Pois é certo que por aquela total demência ficou reduzido a uma inocência pura, incapaz de cometer culpa digna de pena, sendo mui fatível (e também provável, pela boa inclinação que nos seus poucos anos se lhe tinha observado), que aquela alienação o achasse livre de pecado grave. E o que daqui se segue é que não só passou a vida suave pelos impulsos da sua inclinação, mas ditosamente passaria a gozar da Glória por altos favores do Céu, que a todos ajuda e socorre, e o faria daquela criatura nesta forma para nos mostrar que, se a grandeza e a incompreensibilidade de seu poder a conservará naquele inimigo Elemento da água, muito melhor o pode fazer a todos no da terra, que nos deu por Mãe e de que nos criou. Pode isto servir de consolação aos que se consideram desfavorecidos da fortuna, conhecendo, que ainda que na que parece mais adversa, Deus não falta em socorrer a todos, e em toda parte. Omito muitos discursos físicos e morais, que sobre este caso se fizeram, por ser este mais católico e verdadeiro.


LISBOA OCIDENTAL



Na oficina de PEDRO FERREIRA, Impressor da Augustíssima Rainha N.S. Ano M DCC LX. Com todas as licenças necessárias.







[1] O monge beneditino Bento Jerônimo Feijó e Montenegro (1676 — 1764), erudito iluminista galego, ensaísta de grande prestígio em sua época, estudou com profundidade o caso, coletando testemunhos de pessoas idôneas e confiáveis, e, no Tomo Oitavo, §§ I, do “Teatro Crítico Universal”, de 1726, reproduziu, ipsis litteris, a descrição detalhada que fez dos acontecimentos o Marquês de Valbuena. A narrativa de cordel de Pedro Nisa Robes de Melo, publicada em Lisboa em 1740, baseia-se, em grande parte, na obra do respeitado filósofo e intelectual galego. Francisco da Veiga (em espanhol, Francisco de la Vega), o homem-peixe de Líérganes, não é, assim, um ente lendário, ou um produto duma fértil imaginação, mas, possivelmente, uma vítima de cretinismo, conforme especulou Gregorio Marañón no livro “Las ideas biológicas del Padre Feijoo”.
[2] Domingo de la Cantolla Miera (Liérganes, 1610 - sec.  XVII), clérigo espanhol, secretário-geral da Inquisição na Espanha.
[3] Gaspar Melchor de la Riba Agüero, gentil homem, Cavaleiro da Ordem de Santiago do séc. XVIII.

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O CORAÇÃO PERDIDO - Conto Clássico Fantástico - Emilia Pardo Bazán


O CORAÇÃO PERDIDO
Emilia Pardo Bazán
(1851 – 1921)
Tradução de Paulo Soriano


Passeando, certa tarde, pelas ruas da cidade, vi que havia no chão um objeto vermelho. Baixei-me: era um sangrento e vivo coração, que apanhei cuidadosamente. “Alguma mulher deve tê-lo perdido”, pensei, ao observar a brancura e a delicadeza da terna víscera que, ao contato de meus dedos, palpitava como se estivesse dentro do peito de seu dono. Eu o envolvi, esmeradamente,  num lenço branco e o guardei, escondo-o sob a minha roupa. Dediquei-me a averiguar quem seria a mulher que havia perdido o coração na rua. Para  melhor investigar, adquiri uns óculos maravilhosos, que permitiam enxergar através do corpete, da roupa interior, da carne e das costelas — como por esses relicários que são o busto de uma santa e têm no peito uma janelinha de vidro — o lugar que ocupa o coração.


Assim que pus os meus óculos mágicos, fitei ansiosamente a primeira mulher que passava e — oh, assombro! —  vi que a mulher não tinha coração. Ela deveria ser, sem dúvida, a proprietária de meu achado. O estranho foi que, ao lhe dizer como havia encontrado o seu coração e indagar-lhe se queria tê-lo de volta, a mulher, indignada, jurou e perjurou que não havia perdido coisa alguma; que seu coração estava onde sempre estivera e que lhe sentia perfeitamente a pulsação,  recebendo e lançando o sangue. Em vista da teimosia da mulher, deixei-a e me virei para outra, jovem, linda, sedutora, alegre. Santo Deus! Em seu branco peito havia o mesmo vazio, o mesmo buraco rosado, sem nada, nada, em seu interior. Também esta não tinha coração. E quando lhe ofereci, respeitosamente, aquele que eu trazia bem guardado, menos ainda quis ela admitir a sua privação, alegando que lhe era uma grave ofensa supor que lhe faltava o coração, ou que era tão descuidada a ponto perdê-lo em via pública, sem se dar conta disto.



E passaram centenas de mulheres, velhas e moças, lindas e feias, morenas e louras, melancólicas e vivazes; e para todas volvi os meus óculos, e em todas notei que do coração só tinham o lugar, porque o órgão jamais havia existido, ou o haviam perdido tempo atrás. E todas, sem exceção, ao querer eu devolver-lhes o coração de que careciam, se recusavam a aceitá-lo,  quer porque acreditavam que já o tinham, quer porque sem ele estavam maravilhosamente bem, quer porque se julgavam ofendidas com a oferta, quer porque não se atreviam a arrostar o perigo de possuir um coração. 


         Já perdia eu a esperança de restituir a um peito de mulher o pobre coração abandonado, quando, casualmente, com a ajuda de minhas prodigiosas lentes, vislumbrei que passava por uma rua uma menina pálida, e em seu peito — por fim! — distingui um coração, um verdadeiro coração de carne, que saltitava, pulsava e sentia. Não sei por que — pois reconheço que seria um absurdo ofertar um coração a quem já o tinha tão vivo e desperto —, ocorreu-me experimentar presenteá-la com aquilo que todas haviam recusado; e eis que a menina, em vez de repelir-me como as demais, abriu o seio e recebeu o coração que eu, já tão cansado, iria deixar outra vez caído sobre os seixos.



Enriquecida com dois corações, a menina pálida ficou mais pálida ainda: as emoções, por insignificantes que fossem, faziam-na estremecer até a medula; os afetos vibravam nela com cruel intensidade; a amizade, a compaixão, a tristeza, a alegria, o amor, os ciúmes: tudo era nela profundo e terrível. E, muito ingênua, em vez de resolver-se a suprimir um de seus corações, ou os dois ao mesmo tempo, dir-se-ia que se comprazia em viver dupla vida espiritual, querendo, gozando e sofrendo duplamente, somando sentimentos tais que seriam suficientes para extinguir a vida. A criança era como vela acesa pelos dois extremos, que se consome em breves instantes. E, de fato, se consumiu. Deitada, lívida, em seu leito de morte,  tão enfraquecida e magra que parecia um passarinho, vieram os médicos e garantiram que o que lhe arrebatava deste mundo era a ruptura de um aneurisma. Ninguém (todos são tão incompetentes!) soube descobrir a verdade: ninguém compreendeu que a menina havia morrido por cometer a imprudência de dar asilo, em seu peito, a um coração perdido na rua.




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O SEGREDO DO PATÍBULO - Conto Clássico de Horror - Villiers de L’Isle Adam


O SEGREDO DO PATÍBULO
Villiers de L’Isle Adam
(1838 – 1889)
Tradução de Paulo Soriano


Num dos mais macabros episódios de “Um Mil e Um Fantasmas”, Dumas narra a história de um jovem médico que, após salvar, nas ruas da Paris revolucionária, a vida de uma aristocrata fugitiva, é protagonista de uma horripilante experiência científica. No conto “O Segredo do Patíbulo”, Villiers de L’Isle Adam (1838 ― 1889) retoma o mote inaugurado por Dumas e o explora aos últimos limites: um médico condenado à morte por decapitação recebe a visita de um colega cientista que o convida a participar, como cobaia, de um não menos aterrorizante experimento post-mortem

Ao Sr. Edmond de Goncourt[1]

As recentes execuções fizeram-me lembrar de uma história extraordinária. Ei-la:

Na note de 5 de junho de 1864, às sete horas da noite, o Dr. Edmond-Désiré Couty de la Pommerais, recentemente transferido da prisão de Conciergerie[2] para a de Roquette[3], estava sentado, metido numa camisa de presidiário, na cela dos condenados à morte.

Estava taciturno, tinha os olhos fixos e apoiava os cotovelos no encosto da cadeira. Sobre a mesa, uma vela iluminava a palidez de seu rosto frio. A dois passos, um carcereiro, encostado à parede, vigiava-o com os braços cruzados.

Quase todos os prisioneiros são obrigados a um trabalho diário, de cujo salário a Administração deduz, em caso de morte, o preço da mortalha, que jamais é fornecida de graça. Só os condenados à morte não têm que realizar trabalho algum.

O prisioneiro era um dos que não abrem o jogo. Nos olhos dele não se lia medo ou esperança.

Tinha trinta e quatro anos. Moreno. De altura mediana e bom talhe. Nas têmperas, os cabelos começavam a embranquecer. O olhar era nervoso, semioculto; a fronte, meditativa. A sua voz era turva e breve; as mãos, saturninas. Tinha a expressão circunspecta das pessoas silenciosas. Seus modos eram de uma distinção estudada. Tal era a sua aparência.

(Todos se recordam que, nas audiências do Sena, apesar do rigor de sua defesa, o advogado Lachoud não logrou desvanecer da mente dos jurados o efeito produzido pelas conclusões do Dr. Tardieu e pela acusação levada a efeito pelo promotor de justiça Oscar de Vallée. Acusado de haver administrado doses mortais de digitalina a uma senhora amiga sua, com premeditação e intuito de lucro, M. de la Pommerais ouviu a sentença de morte, em razão da aplicação dos artigos 301 e 302 do Código Penal.)

Nessa noite de 5 de junho, ele ainda não sabia do improvimento de sua apelação e da recusa de qualquer audiência de graça solicitada por seus familiares. Somente o seu defensor, mais venturoso, fora ouvido com displicência pelo imperador. O venerável abade Crozes, que antes de cada execução exauria-se em súplicas às Tulherias[4], voltara sem nada conseguir. Comutar a pena de morte em tais circunstâncias não implicava aboli-la? O caso era exemplar. Na opinião do Ministério Público, o improvimento era irretocável e deveria ser prontamente notificado aos executores. O Sr. Hendreich fora encarregado de receber o condenado às nove e cinco da manhã.

De repente, o estrépito das coronhas dos fuzis ressoou no pavimento do corredor. A fechadura rangeu pesadamente. A porta se abriu. As baionetas brilharam na penumbra. O diretor da Roquette, Sr. Beauquesne, assomou à porta, acompanhado de um visitante.

Erguendo a cabeça, o Sr. de la Pommerais reconheceu, a um olhar, naquele visitante, o ilustre cirurgião Armand Velpeau.

A um sinal do seu superior, o carcereiro saiu e o Sr. Beauquesne, após uma muda apresentação, também se retirou, deixando a sós os dois colegas, frente a frente, olhando-se mutuamente.

La Pommerais, em silêncio, indicou ao médico a sua própria cadeira. Depois, sentou-se no catre em que os adormecidos, em sua maioria, são logo despertados da vida num sobressalto. Como mal se viam, o grande médico se aproximou do... paciente para melhor observá-lo e poder conversar em voz baixa.

Volpeau chegava aos seus sessenta anos. No apogeu de sua fama, herdeiro da cátedra de Larrey[5] no Instituto[6], primeiro professor de clinica cirúrgica de Paris e, por suas obras, todas de um rigor de dedução claro e brilhante, era um luminar da atual ciência patológica, um emérito profissional que já se impunha como uma das sumidades do século.

Após um frio instante de silêncio, disse:

― Senhor, entre nós, médicos, as condolências são inúteis. Por outro lado, uma afecção na próstata ― que, com certeza, me matará em dois ou dois anos e meio ― me classifica, também, com uma distância de poucos meses, na categoria dos condenados à morte. Assim, sem rodeios, vamos ao que interessa.

― Então, segundo o senhor, doutor, a minha situação jurídica é... sem esperança? ― interrompeu Le Pommerais.

― Receio que sim ― respondeu simplesmente Velpeau.

― A minha hora está marcada, então?

― Não sei. Mas, como nada há de concreto, o senhor pode decerto contar com alguns dias.

La Pommerais enxugou a manga da camisa de detento sobre a face pálida.

― Que assim seja. Obrigado. Estou pronto. Agora, o quanto antes acontecer, melhor.

― Como o seu recurso não foi denegado, ao menos até agora ― continuou Valpeau ―, a proposta que eu o farei é condicional. Se o senhor for salvo, tanto melhor... Mas se, do contrário...

O grande cirurgião fez uma pausa.

― Do contrário...? - indagou La Pommerais.

Velpeau, sem responder, tirou do bolso um pequeno estojo. Abriu-o, lançou mão do bisturi e, cortando a manga esquerda da camisa de detento, pressionou o dedo médio sobre o pulso do jovem condenado.

― Senhor de La Pommerais ― disse ―, seu pulso revela raros sangue frio e firmeza. A proposta que venho fazer-lhe, e esta deve manter-se em segredo, dirigida que é a um médico cheio de energia, a um espírito temperado nas convicções positivas de nossa ciência, e bem liberto dos terrores fantásticos da morte, pode parecer uma extravagância ou mesmo um escárnio criminal. Mas creio que sabemos quem somos. O senhor a levará, portanto, em consideração, ainda que, no primeiro momento, a proposta possa parecer-lhe inquietante.

― O senhor tem toda a minha atenção ― respondeu La Pommerais.

― O senhor longe está de ignorar ― prosseguiu Velpeau ― que uma das questões mais interessantes da fisiologia moderna consiste em saber se persiste algum verdadeiro lampejo de memória, raciocínio e sensibilidade no cérebro de um homem depois que tem a cabeça decepada.

A esta introdução inesperada, o condenado estremeceu. Depois, recompondo-se, respondeu:

― Quando o senhor entrou, doutor ― respondeu ―, eu estava justamente muito preocupado com este problema. Aliás, duplamente interessante para mim.

― O senhor está a par dos trabalhos escritos sobre esse assunto, desde os de Soemmering, Sue, Sédillot e Bichat[7] até os mais modernos.

― Eu mesmo assisti, certa feita, a uma de suas aulas de dissecação nos restos de um supliciado.
― Ah! Prossigamos, então. O senhor tem noções exatas, do ponto de vista cirúrgico, sobre a guilhotina?

La Pommerais, depois e olhar atentamente para Valpeau, respondeu friamente:

― Não, senhor.

― Hoje mesmo estudei minuciosamente o aparato ― continuou, impassível, o doutor Velpeau. ― Eu o asseguro que é um instrumento perfeito. A lâmina atua ao mesmo tempo como foice e clava. Corta o pescoço do paciente em um terço de segundo. O decapitado, sob o impacto desse golpe fulgurante, não pode sentir mais dor do que experimenta o soldado que, num campo de batalha, tem um braço arrancado por uma bala. A sensação, pela exiguidade de tempo, é nula e obscura.

― Pode ser que haja uma dor posterior. Duas feridas permanecem vivas. Não foi Julia Fontenelle[8] quem, dando os seus motivos, perguntou se esta mesma velocidade não é mais dolorosa que a execução com alfanje ou machado?

― Bérard[9] foi suficiente para fazer justiça a esse devaneio. Pessoalmente, estou convencido, baseado em numerosas experiências e observações particulares, de que a remoção instantânea da cabeça produz, instantaneamente, no indivíduo decapitado, um absoluto efeito anestésico. Somente a síncope provocada pela súbita perda de quatro ou cinco litros de sangue, que irrompem fora dos vasos ― frequentemente com a força de projeção circular de um metro de diâmetro ― bastaria para tranquilizar os mais temerosos. Quanto aos estremecimentos inconscientes da máquina corporal mui repentinamente interrompida em seus processos fisiológicos, estes não apresentam mais indícios de sofrimento que... os frêmitos de, por exemplo, uma perna cortada, cujos músculos e nervos se contraem, mas na qual já não se sente dor alguma. E digo que a febre nervosa da incerteza, a solenidade dos preparativos fatais e o sobressalto do despertar matinal são, nesse caso, o verdadeiro sofrimento. Como a amputação é imperceptível, a dor real é apenas imaginária. Vamos! Um golpe violento na cabeça não apenas não é sentido como não deixa consciência alguma do impacto. A simples lesão das vértebras acarreta a insensibilidade absoluta. A separação da cabeça, o corte da espinha dorsal, a interrupção das relações orgânicas entre o coração e o cérebro não seriam suficientes para paralisar, nas profundezas do ser humano, toda sensação, mesmo a mais tênue, de dor? Impossível, inadmissível! O senhor sabe disto tão bem quanto eu.

― Pelo menos espero que seja assim, e assim o espero ainda mais que o senhor ― respondeu La Pommerais. ― Porém, não é um grande e rápido sofrimento físico ― apenas concebido pela desordem sensorial, mas rapidamente sufocado pela crescente e inevitável ascendência da Morte ― o que eu temo. É outra coisa.

― O senhor poderia me explicar? ― disse Velpeau.

― Escute ― murmurou La Pommerais após um instante de silêncio. ― Em última instância, os órgãos da memória e da vontade ― se estes estão circunscritos nos mesmos lóbulos em que constatamos no... no cão, por exemplo ― não são afetados pela passagem da lâmina. Temos vivenciados tantos diversos equívocos precedentes, tão inquietantes como incompreensíveis, que não me deixo convencer facilmente da inconsciência imediata do decapitado. Conforme as lendas, quantas cabeças não voltaram o olhar para aqueles que falavam a elas? Memória de nervos? Movimentos reflexos? Palavras vazias! Lembre-se da cabeça daquele marinheiro que, na clínica de Brest, uma hora e quinze minutos após a decapitação, com um movimento, que pode ter sido voluntário, das mandíbulas, cortou em dois um lápis colocado entre elas? Para não citar mais outro entre mil exemplos, a questão real seria, pois, saber se fora ou não o “eu” desse homem que, após a cessação da hematose, incitou os músculos de sua cabeça exangue.

― O “eu” reside apenas no todo ― disse Velpeau.

― A medula espinhal prolonga o cerebelo ― respondeu o Sr. de la Pommerais. ― Onde estará o todo sensitivo? Quem poderá revelá-lo? Antes de oito dias, é certo que eu saberei... e esquecerei.

― Depende do senhor, talvez, que toda a humanidade tenha, de uma vez por todas, a resposta ― respondeu lentamente Velpeau, os olhos cravados em seu interlocutor. ― E, falando com franqueza, é por isto que estou aqui. Fui delegado por uma comissão de nossos mais eminentes colegas da Faculdade de Paris, e aqui está a permissão do imperador. Contém amplos poderes, como o de prorrogar, se necessário, a ordem de execução.

― Não estou entendendo... Por favor, explique-se ― respondeu, perplexo, La Pommerais.

― Senhor de la Pommerais, em nome da ciência que ainda nos é cara, e não podemos hoje contar com muitos mártires magnânimos, venho ― na hipótese para mim mais que duvidosa de que seria factível qualquer experimento por nós engendrado ―, reclamar de todo o seu ser a maior soma de energia e coragem que seja possível esperar da espécie humana. Se seu pedido de clemência for denegado, o senhor será, como médico, um sujeito por si mesmo capacitado à suprema operação que deve suportar. Sua cooperação seria, pois, a inestimável na tentativa de... comunicação. É evidente, por maior que seja a sua boa vontade, que tudo parece concorrer de antemão para o mais negativo dos resultados. Mas, enfim, com o senhor ― supondo sempre que esta experiência não seja absurda em princípio ―, é-nos oferecida uma chance em dez mil de iluminar milagrosamente, por assim dizer, a fisiologia moderna. A ocasião deve ser, portanto, aproveitada e, em caso de verificar-se exitosamente um sinal de inteligência depois da execução, o senhor deixaria um nome cuja glória científica apagaria para sempre a memória de sua mácula social.

― Ah! ― murmurou La Pommerais, pálido, mas com um sorriso resoluto. ― Começo a compreender!… De fato, os suplícios revelaram os fenômenos da digestão, disse-nos Michelot. Mas, qual seria a natureza de suas experiências? Estímulos galvânicos? Excitação do ciliar? Injeção de sangue arterial?

― Convém deixar claro que, imediatamente após à triste cerimônia, seus restos mortais irão descansar em paz na terra e nenhum de nossos bisturis o tocarão ― continuou Velpeau. ― Isto mesmo! Quando a lâmina cair, eu, eu estarei lá, de pé, à sua frente, junto à guilhotina. Sua cabeça passará das mãos do executor às minhas o mais rápido possível. Depois ― embora a experiência, por sua simplicidade, não possa ser séria e conclusiva ―, eu gritarei muito claramente em seu ouvido: “Sr. Couty de la Pommarais, em memória do que combinamos em vida, o senhor pode, neste momento, baixar três vezes seguidas as pálpebras de seu olho direito, conservando o outro aberto?” Se neste momento, quaisquer que sejam as demais contrações faciais, o senhor puder, por meio dessas três picadelas, avisar-me de que me ouviu e entendeu, assim provando, pelo emprego da vontade e da memória permanecentes, o controle sobre o músculo palpebral, o nervo zigomático e a conjuntiva ― dominando assim todo horror, toda as ondas de impressões de seu ser ―, esse fato será suficiente para iluminar a ciência e revolucionar as nossas convicções. E eu saberei, não tenha dúvida, propalar o seu nome, de modo que, no futuro, será o senhor lembrado não como um criminoso, mas como um herói.

Em face destas insólitas palavras, o Sr. de la Pommerais pareceu dominado por uma comoção tão profunda que, com as pupilas dilatadas e fixas no cirurgião, permaneceu em silêncio, petrificado, por um minuto. Então, sem dizer uma palavra, levantou-se, deu alguns passos, muito pensativo. Depois, sacudindo a cabeça, disse:

― A horrível violência do golpe irá arrancar-me de mim mesmo. Realizar tal prodígio me parece superior a toda vontade e esforço humanos ― disse. ― Além disso, diz-se que as probabilidades de sobrevida não são as mesmas para todos os guilhotinados. Apesar disto, volte, senhor, na manhã de minha execução. Responderei se me prestarei ou não essa tentativa, a um tempo terrífica, revoltante e ilusória. Se eu disser não, conto com a sua discrição para deixar que a minha cabeça sangre tranquilamente, até a exaustão, no balde de estanho que há de recebê-la.

― Está bem, Sr. de la Pommarais ― disse Valpeau, também se levantando. ― Reflita.

Cumprimentaram-se.

Um instante depois, o doutor Velpeau deixava a cela, o carcereiro retornava, e o condenado, resignado, se estendia no catre para dormir ou pensar.

Quatro dias depois, às cinco e meia da matina, o Sr. Beauquesne, o abate Crozes, o Sr. Claude e o Sr. Potier, escrivão da corte imperial, entraram na cela. Acordado, e à notícia da hora fatal, o Sr. de la Pommerais ergueu-se muito pálido e se vestiu rapidamente. Em seguida, falou dez minutos com o abade Crozes, de quem já havia recebido visitas. Sabe-se que o santo sacerdote estava dotado desta santa unção de inspiração que infunde coragem na hora extrema. Depois, vendo que o doutor Velpeau chegava, disse:

― Eu tenho treinado. Veja!

E, durante a leitura da sentença, conservou fechada a pálpebra direita, olhando fixamente o cirurgião com olho esquerdo completamente aberto.

Volpeau se inclinou demoradamente diante do médico e depois voltou-se para o Sr. Hendreich, que entrava com o seu ajudante, e trocou com o cirurgião um sinal de cumplicidade.

Os preparativos foram rápidos. Com ele, não se verificou o fenômeno do encanecimento dos cabelos sob o corte da tesoura. Uma carta de despedida da esposa ao réu, lida em voz baixa pelo capelão, umedeceu-lhe os olhos com lágrimas que o sacerdote enxugou piedosamente com o retalho tirado de sua camisa. Uma vez de pé, e com o casaco lançado sobre os ombros, tiveram que soltar as amarras de seus pulsos. Em seguida, ele recusou o copo de aguardente e o séquito seguiu pelo corredor. Ao chegar ao portão, estando o colega no limiar, disse-lhe, em voz baixa:

― Até logo! E adeus!

De repente, as grandes abas de ferros se entreabriram e giraram à sua frente.

O vento da manhã invadiu a prisão. Amanhecia. A grande praça se estendia à sua frente, cercada por um duplo cordão de cavalaria. Adiante, a dez passos, num semicírculo de gendarmes montados, que à sua chegada desembainharam os sabres ruidosos, erguia-se o patíbulo. A uma certa distância, entre os enviados da imprensa, alguns tiravam os chapéus.

Mais abaixo, atrás das árvores, ouvia-se o rumor da multidão, enervada pela noite de espera. Nas coberturas das tavernas, nas janelas, jovens dissolutas, pálidas, vestidas com sedas vistosas, algumas ainda segurando garrafas de champanha, assomavam em companhia de tristes ternos negros. No ar da manhã, sobre a praça, as andorinhas voejavam de cá para lá.

Solitária, preenchendo o espaço e limitando o céu, a guilhotina parecia estender até o horizonte a sombra de seus braços erguidos, entre os quais, muito longe, lá em cima, no azul da alvorada, via-se cintilar a derradeira estrela.

Diante desta fúnebre aparição, o condenado estremeceu. Depois, avançou resolutamente em direção ao cadafalso... Subiu as escadas. Agora, a lâmina triangular brilhava sobre a negra estrutura, ocultando a estrela. Sobre a prancha fatal, beijou, depois do crucifixo, uma mecha de seus próprios cabelos, recolhidos durante os aprestos pelo abade Crozes. E, depois de levá-los aos lábios, disse:

—Para ela!...

As cinco personagens se destacavam, em silhueta, sobre o patíbulo. Naquele momento, o silêncio tornou-se tão profundo que um ruído de um galho quebrado, à distância, sob o peso de um curioso, chegou misturado a gritos e risos hediondos até o trágico grupo. Depois, ao soar a hora cujo golpe ele não deveria ouvir, o Sr. de la Pommerais viu à sua frente, do outro lado, o estranho experimentador. Este, com a mão pousada na plataforma, o observava! Pommerais fechou olhos, concentrando-se.

Bruscamente, a báscula se moveu, o jugo caiu, o botão cedeu e o brilho da lâmina despencou. Um terrível choque sacudiu a plataforma. Os cavalos se agitaram ao cheiro magnético do sangue. O eco do ruído ainda vibrava quando a cabeça ensanguentada da vítima fazia-se palpitar entre as mãos impassíveis do cirurgião de Pitié[10], tingindo-lhe de púrpura os dedos, os punhos e as roupas.

Era uma cara lúgubre, terrivelmente branca, com os olhos abertos e absortos, as sobrancelhas retorcidas e ricto crispado: os dentes se entrechocavam. O queixo, na parte extrema do maxilar inferior, havia sido seccionado.

Volpeau inclinou-se rapidamente sobre aquela cabeça e formulou, junto ao ouvido direito, a pergunta combinada. Conquanto inabalável fosse este homem, o resultado o fez estremecer com uma espécie de terror frio: a pálpebra do olho direito havia baixado, enquanto o olho esquerdo, escancarado, o fitava.

Os cílios se separaram, como se por um resultado de um esforço interior, mas a pálpebra não mais se levantou. Aquela fisionomia, de segundo em segundo, tornou-se rígida, gélida, imóvel. Era o fim.

O doutor Vealpau devolveu a cabeça ao Sr. Hendreich que, reabrindo o cesto, a pousou, como era o costume, entre as pernas do tronco já inerte.

O grande cirurgião mergulhou a mão em um dos baldes destinados à lavagem, que já começava, da guilhotina. Em torno dele, a multidão, inquieta, se dispersava, sem reconhecê-lo. O médico enxugou as mãos, sempre em silêncio.

Depois, a passo lento, com a fronte pensativa e grave, dirigiu-se ao coche estacionado numa esquina da prisão. Enquanto subia, viu que o furgão da justiça se afastava em trote em direção a Montparnasse[11].






[1] Edmond- Louis -Antoine Huot de Goncourt (1822 – 1896), escritor francês.
[2] Prisão parisiense que acolheu, dentre outros prisioneiros, a rainha Maria Antonieta.
[3] No século XIX, a Rue de la Roquette abrigava, em cada um dos lados, uma prisão. A Grande Roquette passou a encarcerar, a partir de 1851, os condenados que aguardavam a execução da pena morte.
[4] Palácio onde residia despachava o então imperador da França, Napoleão III. Foi destruído por um incêndio em 1871. Suas ruínas foram demolidas onze anos depois.
[5] Dominique-Jean Larrey (1766 - 1842), médico e cirurgião militar francês.
[6] Institut de France (em português, Instituto da França) é uma instituição acadêmica francesa, fundada em Paris em 25 de outubro de 1795. Abarca várias instituições, dentre elas a famosa Académie des Sciences.
[7] Samuel Thomas von Sömmerring (1755 – 1830), médico e anatomista alemão; Pierre Sue (1739 - 1816), médico e cirurgião francês; Charles-Emmanuel Sédillot (1804 – 1883), médico militar e cirurgião francês; Marie François Xavier Bichat (1771 – 1802), médico, anatomista e fisiologista francês.
[8] Jean-Sébastien-Eugène Julia de Fontenelle (1780 – 1842), médico e químico francês.
[9] August Bérard (1802 – 1846), cirurgião francês.
[10] Hospital parisiense.
[11] Cemitério parisiense.

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