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O DUENDE DE SÃO ROQUE - Conto Clássico de Mistério - Silvio Horacio Taranto

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O DUENDE DE SÃO ROQUE Silvio Horacio Taranto (Séc. XX) Tradução de autor anônimo do séc. XX — É para se morrer de medo! — exclamou Braulio, o peão da estância de Mister Pearson, ao terminar a sua narração. Transcorreram, apenas, quarenta e oito horas desde que minha mulher e eu chegamos a São Roque, com o propósito de desfrutarmos juntos os quinze dias das minhas férias. Era, pois, natural que o que esse homem nos estava contando me desgostasse sobremaneira, principalmente pela inquietação que produzira em Elena, e que ela, a custo, mal dissimulava. Em mim, o efeito da narrativa, francamente, não fora forte. — Vieram os senhores... — prosseguiu Braulio. — Ontem à noite, eu vinha justamente para casa, depois de ter visitado uma irmã que mora em Bialet Massé, uma vila próxima. Ainda não acabara de passar o lago com o meu cavalo, quando de novo ele me apareceu com a sua terrível gargalhada. O rosto do peão contraiu-se num ríctus que inspirava compaixão e terror. — Continue...

O JUIZ CONDENADO AO INFERNO - Conto Clássico de Terror - Juan Antolinez de Burgos

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O JUIZ CONDENADO AO INFERNO Juan Antolínez de Burgos (1561 – 1644) Tradução de Paulo Soriano No corpo da igreja não há lugar vazio: todo o chão se encobre de túmulos, lousas, com suas inscrições dos nomes de seus donos; só dois carecem de pedras e, em seu lugar, há duas lajes e, nelas, duas figuras, uma de um homem e outra de uma mulher. Estas lajes se despedaçaram com o tempo, de modo que os túmulos ficaram sem lousas ou pedras. É tradição em Valhadolide que ali foi enterrado um certo juiz que, em corpo e alma, foi levado pelo inimigo do gênero humano ao castigo eterno. Vários autores relatam o caso e a tradição afirma que a desventura ocorreu aqui. O relato é o que se segue: Um certo jurista morreu e, no dia seguinte — como era o costume —, um certo religioso deveria predicar em seu funeral. Este padre, na noite anterior, fora à biblioteca do convento para preparar o sermão. Em meio a esse cuidado, na calada da noite, ele ouviu um lamentoso toque de trombeta, que o encheu d...

O LOBISOMEM DA BRETANHA - Conto Clássico de Terror - Amélie Bosquet

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  O LOBISOMEM DA BRETANHA Amélie Bosquet (1815 – 1904) Tradução de Paulo Soriano Havia na Bretanha um nobre senhor, tão belo e bondoso que era uma maravilha; era amado e respeitado por seus vizinhos e gozava da consideração de seu príncipe. Ele havia se casado com uma nobre senhora, que parecia amá-lo profundamente. A senhora teria, de fato, extraído imensa felicidade daquela união, mas havia uma circunstância que a preocupava: o seu senhor tinha o hábito de se ausentar três dias por semana, e ninguém sabia de seu destino à época. Certo dia, porém, quando ele voltava para casa com ternura e alegria, a senhora, depois de muitas circunlocuções, aventurou-se a interrogá-lo sobre o ponto que tanto fazia questão de esclarecer. Tocado pelos modos graciosos da esposa, o senhor concordou em satisfazê-la: confessou-lhe que, durante os três dias em que a deixava, tornara-se lobisomem. A senhora, pressionando-o com novas perguntas, quis saber se, quando da transformação, ele cont...

A CABEÇA MISTERIOSA - Conto Clássico de Terror - Pu Songling

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  A CABEÇA MISTERIOSA Pu Songling (1640 – 1715)   Diversos mercadores, hospedados numa estalagem em Pequim, ocupavam um quarto que era separado do apartamento adjacente por uma divisória de tábuas. Desta, faltava uma peça, deixando na parede uma abertura do tamanho de uma bacia. De repente, por aquela abertura surgiu-lhes a cabeça de uma menina, de traços muito bonitos e cabelos bem penteados. No instante seguinte, apareceu-lhes um braço, que era branco como jade polido. Os mercadores ficaram muito alarmados e, pensando que tudo aquilo era obra de demônios, tentaram agarrar a cabeça da menina, que, no entanto, foi rapidamente retraída, ficando fora do alcance de suas mãos.   O fenômeno aconteceu novamente. Então, como os homens não vislumbravam corpo algum pertencente à cabeça, um deles, tomando uma faca, rastejou pela divisória, sob o buraco. Em pouco tempo, a cabeça reapareceu. Ele, então, desferiu um golpe, cortando-a. O sangue jorrou por todo o chão e ...

A RAINHA QUE SAIU DO MAR - Conto Clássico Fantástico - Sílvio Romero

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  A RAINHA QUE SAIU DO MAR Sílvio Romero (1851 – 1914)   Houve um rei que desejava se casar com a moça mais bonita que houvesse no seu reino. Já se tinham corrido todas as casas, e chamado todos os pais de família para apresentarem suas filhas, e nenhuma tinha agradado ao rei. Fazia oito dias que tinha assentado praça um recruta abobado num batalhão, e neste dia tinham de ser apresentadas as filhas de um lavrador, que eram as únicas moças que o rei ainda não tinha visto, e neste dia tinham de ir à missa os batalhões. Logo que entrou na igreja o batalhão em que tinha assentado praça o tal abobado, pôs-se este a chorar, o que vendo o comandante do batalhão lhe perguntou o que tinha. Respondeu ele que “nada sofria, mas que tendo visto aquela imagem (apontando para uma imagem muito formosa que havia na igreja) tinha ficado com saudades de sua irmã, que muito se parecia com aquela santa.” Ficaram todos duvidosos e zombando do pobre soldado; mas chegando aquilo aos ouv...

OS APARECIDOS - Conto Clássico de Loucura - E. T. A. Hoffmann

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OS APARECIDOS E. T. A. Hoffmann (1776 – 1822)   Quando se referiam ao último cerco a Dresden [1] , o rosto de Anselmus, geralmente pálido, ficava ainda mais lívido. Juntava as mãos; seus joelhos entrechocavam-se; seus olhos denunciavam a turbulência que ia em seu espírito e a confusão de seus pensamentos. — Bom Deus! — dizia ele. — Não sei por que tirei as minhas botas de montaria! Não prestei atenção à chuva de tiros ou às granadas explodindo. Mas sei que entrei na cidade pela ponte nova. E aquele homem alto que encontrei! Como é triste estar encerrado neste maldito recinto de muralhas, baluartes, parapeitos, fortins, passagens cobertas! Quantas tristezas e misérias fui obrigado a suportar! Nada tínhamos para comer. Se, ao folhear o dicionário para passar o tempo, encontrávamos a palavra “comer”, gritávamos de espanto: “Comer! O que é isso?”. Pessoas, outrora gorduchas, abotoavam a própria pele como uma grande camisa, como um paletó natural. Ó Deus, se o arquivista Lindh...