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Mostrando postagens de Fevereiro, 2021

PROIBIDO PISAR NA GRAMA - Conto de ficção científica e horror - Carlos Enrique Saldívar

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  PROIBIDO PISAR NA GRAMA Carlos Enrique Saldívar Tradução de Paulo Soriano   Paul e Mario caminhavam por uma concorrida e aprazível região do distrito de San Borja. Atravessaram a pista e percorreram uma longa vereda contígua a um amplo espaço gramado, onde cresciam prímulas, azaleias e rododendros. Num dos cantos se achava uma pequena (ainda visível) tabuleta, que dizia: “PROBIDO PISAR NA GRAMA. PENALIDADE GRAVE.” Ambos a leram e seguiram o seu caminho. Mario disse a seu companheiro: —Sabia que eu já estou farto de que nos limitem a liberdade? Desde que este presidente tomou posse, não podemos fazer coisas tão singelas como pisar sobre as plantas de alguns distritos. — O jovem olhou para os lados. Não havia nenhum guarda municipal por ali. — Eu o aconselho a não pisar na grama — disse Paul. — Por que não? Sim, claro, as câmeras estão filmando e, se eu pisar sobre a grama, soará algum alarme e virão em meu encalço. Mas eu não ligo. Eu sou mais inteligente que as auto

A LENDA DO CASAL EXECUTADO - Conto Clássico de Horror - Francisco de Paula Mellado

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  A LENDA DO CASAL EXECUTADO (Lenda Galega) Francisco de Paula Mellado (Séc. XIX) Tradução de Paulo Soriano   Pernoitamos em Cedeira e foi lá que nos contaram a seguinte lenda. Nos séculos turbulentos da Idade Média, uma jovem e honrada camponesa chamada Múnia, casada com um homem a quem amava muito, deu à luz a uma criança morta, circunstância pela qual foi escolhida para ser a ama de leite de um menino que nascera dois dias antes. O recém-nascido era filho de dona Aldonça, esposa do senhor feudal daquele território. Alvar, o marido de Múnia, estava ausente, porque seguia o estandarte de seu senhor na guerra. A aldeã, como era natural, fizera-se triste e meditabunda, sempre a pensar no retorno do marido. Num dia em que a senhora se ausentara, temporariamente, do castelo, em romaria a uma ermida vizinha, estava Múnia com o terno infante em seus braços, sentada à margem de um rio, quando, de súbito, desabou uma furiosa tempestade e um raio caiu não muito longe dali. T

O BEIJO - Conto de Terror - Paulo Soriano

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O BEIJO Paulo Soriano   Quando finalmente me aproximei de Camilla – oh! como hei de me esquecer? – algo de invisível sustinha as nuvens adensadas, pesadas e sinistras. Havia uma dança macabra num céu de chumbo. Uma massa de vapores escuros contorcia o firmamento, onde a Lua adernava na correnteza atroz dos cúmulos-nimbos convulsos. Num último espasmo, algo rompeu a tênue película que separava o tumulto do céu da tranquilidade da terra. E uma torrente fria, caudalosa como um rio que se precipita em cascatas, desabou violentamente sobre nós. Olhei para Camilla, admirada. A água, que penetrava em seus cabelos como agulhas regeladas, escorria por sua face em múltiplos e estreitos córregos, e velozmente diluía o halo sombrio que embaçava o seu lindo semblante. O que se revelava era algo que transcendia a beleza. Algo mágico e violento, que fez o meu coração cintilar, pôs minha voz a estremecer; e que induziu as minhas mãos a expulsarem gestos involuntários. Eu não percebia que a tocava. Mas

O PRIMEIRO - Conto de Horror - Giovani Iemini

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  O PRIMEIRO Giovani Iemini   Qual não foi minha surpresa ao acordar no meio da madrugada e perceber que o ônibus havia parado no meio da estrada e que os outros passageiros não estavam em parte alguma. Eu devia ter desconfiado que algo estava errado quando peguei no sono, dormir durante viagens sempre foi um problema pra mim. Não me recordo do que sonhei, mas me lembro de ter acordado com um susto, como se soubesse que algo estava errado. A lua emanava uma luz tênue, dando forma às arvores lá fora e invadindo o interior do ônibus através das frestas por entre as cortinas. As bagagens estavam nos seus devidos lugares, mas os passageiros haviam desaparecido sem deixar rastros. O problema é que não havia para onde fugir, ou a quem pedir ajuda. Eu havia sido deixado sozinho e isso começava a me assustar. Minha apreensão logo se transformou em medo quando o ônibus rangeu. O som agudo e violento invadiu meus tímpanos e cada músculo do meu corpo se contraiu. Tentei tapar meus ouvid

A CASA MAL-ASSOMBRADA - Narrativa Clássica Sobrenatural - Catherine Crowe

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  A CASA MAL-ASSOMBRADA Catherine Crowe (1803 – 1876)   Numa ruela estreita de curvas abruptas, que ligava St. Mary Axe a Bishopgate, um incêndio de escassas proporções, ocorrido numa bela e antiga casa senhorial, pertencente à família L..., chamou a atenção da polícia. O imóvel estava cuidadosamente fechado. As portas e as janelas do rés do chão estavam reforçados com cadeados, apesar de possuírem fechaduras próprias, e nos muros do jardim havia placas que alertavam os imprudentes do perigo que correriam, caso se introduzissem na vivenda, dada a existência de armadilhas. Como uma casa vizinha se havia incendiado, os homens do corpo de bombeiros tiveram que entrar na mansão proibida pelos telhados. Durante o breve período em que permaneceram nela, foram importunados de várias maneiras e de um modo absolutamente incompreensível. Utensílios em desuso foram lançados sobre suas cabeças; um deles, empurrado, caiu perigosamente escada abaixo, e o chefe da brigada foi mordido na

A JOVEM DAMA ESTRANGULADA PELO DIABO - Conto Clássico de Terror - Charles Nodier

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  A JOVEM DAMA ESTRANGULADA PELO DIABO Charles Nodier (1870 – 1844) Tradução de Paulo Soriano   A seguinte história aconteceu no dia vinte e sete de maio de 1582. Vivia em Antuérpia uma jovem e bela dama, amável, rica e de boa família; como isto a deixava altiva e orgulhosa, ela dedicava-se apenas, dia após dia, a encontrar um meio de agradar, com suas roupas suntuosas, a uma infinidade de jovens elegantes que a cortejavam. Essa donzela foi convidada, segundo o costume, para o casamento de um amigo de seu pai. Como ela não queria estar ausente, e estava ansiosa para comparecer à  festa para superar em beleza e graça todas as outras damas e donzelas presentes às bodas, preparou seus mais ricos vestidos, providenciou o ruge com o qual desejava se maquiar à maneira das italianas,  e — como as flamengas gostam especialmente de linho fino — mandou fazer quatro ou cinco golas rufadas, cujo aune [1] custava nove coroas. Quando estavam prontas, ela mandou chamar uma habilidosa pas

DA REDENÇÃO AO FRACASSO - Audioconto de Suspense - Eduardo Dal Zotto Schmidt

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  DA REDENÇÃO AO FRACASSO Eduardo Dal Zotto Schmidt   Uma chamada de emergência traz a John memórias tão intensas que o motivam a agir com as próprias mãos... Para uma melhor experiência, apague as luzes e coloque os fones de ouvido...       Sobre Eduardo Dal Zotto Schmidt : Nascido em abril de 1987 na cidade de Porto Alegre. Aos 14 anos, mudou-se para Florianópolis onde começou a praticar esportes, em especial, voleibol. Esta caminhada o direcionou a uma formação superior em Educação Física e Gestão de Esporte.   Aficionado por filmes, jogos, livros e séries de suspense/terror, desde muito jovem se mostrava interessado por elementos temáticos, foco da narrativa e enredo. Em 2019 surgiu a oportunidade de trabalhar com locução de eventos esportivos.   No ano seguinte, começou, por hobby, um canal no Youtube chamado Thriller TV, no qual posta contos do seu gênero favorito, com narração e efeitos sonoros para uma maior imersão de quem acompanha.  São histórias inspiradas em

FOME - Conto de Horror - José Manuel González Rodríguez

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  FOME José Manuel González Rodríguez Tradução de Paulo Soriano   Julián abriu os olhos. Estava deitado de costas. Tentou olhar em torno de si, mas logrou apenas girar um pouquinho a cabeça. Havia conseguido! Como gostaria, agora, de ver a cara de todos os que riram dele quando decidiu congelar-se para abandonar aquela época de penúrias! Logo, porém, se arrependeu daquele pensamento, porque os seus amigos já estavam mortos há muito tempo. Tinham-lhe dito que aquilo tudo era uma trapaça — e até o fizeram duvidar —, mas nunca saberiam o quão estavam enganados. Gastara tudo o que tinha, mas valera a pena. O contrato estipulava que não seria despertado antes que o mundo superasse a crise alimentar. Agora poderia viver o resto de sua vida comendo as delícias que, em sua época, estavam apenas ao alcance de milionários, sem ter que disputar com os vizinhos aquela gororoba distribuída pelo governo. Alguns minutos depois, conseguiu virar o pescoço o suficiente para constatar

O HÁBIL DETETIVE - Conto Clássico de Mistério - O. Henry

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O HÁBIL DETETIVE O. Henry (1862 – 1910)   Meses atrás, Thomas Keeling instalou um pequeno escritório detetivesco. Ofereceu seus serviços ao público em condições bastante módicas. Não aspirava a eclipsar a glória de Nick Carter, pois preferia trabalhar por caminhos menos arriscados. Se um patrão desejava indagar os hábitos de um empregado, ou uma senhora queria investigar as idas e vindas de um marido um tanto alegre, Keeling era o homem indicado. Homem de princípios, tranquilo e estudioso. Lia Gaboriau e Conan Doyle [1] e esperava galgar algum posto mais elevado em sua profissão. Três dias depois de inaugurado o escritório, apareceu uma jovem de vinte e cinco anos, mais ou menos, alta, esbelta e bem vestida. Usava um véu finíssimo que tirou ao ocupar a cadeira que Keeling lhe ofereceu. Seu rosto era distinto e delicado. Tinha olhos vivos e maneiras levemente nervosas. — Vim vê-lo, senhor — disse com uma suave (mas um pouco triste) voz de contralto —, porque é relativamente estranho ne

AS REVELAÇÕES DO CEGO ASSASSINADO - Narrativa Clássica Sobrenatural - Catherine Crowe

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  AS REVELAÇÕES DO CEGO ASSASSINADO Catherine Crowe (1803 – 1876) Tradução de Paulo Soriano   Um fato dos mais notáveis aconteceu em Odessa no ano de 1842. Um velho cego, chamado Michel, ganhava a vida, há muitos anos, sentando-se todas as manhãs num estrado de madeira, com uma tigela de mesmo material a seus pés, na qual recolhia as esmolas lançadas pelos transeuntes. Esta prolongada prática o tornara bem conhecido entre os habitantes de Odessa e, como acreditavam que era ele um ex-soldado, atribuíam a sua cegueira aos inúmeros ferimentos sofridos em batalha. O cego, todavia, conservava-se silencioso e jamais contradisse tal opinião. Certa noite, Michel, por acaso, encontrou uma menininha de dez anos, chamada Powleska, que não tinha companhia e estava à beira de sucumbir ao frio e à fome. O velho a levou para casa e a perfilhou. E, desde então, em vez de sentar-se no banco de madeira, passou a andar pelas ruas acompanhado da garota, pedindo esmola às portas das casas. A criança o cham