O JURAMENTO - Conto Clássico de Horror - Humberto de Campos



O JURAMENTO
Humberto de Campos
(1866 – 1934)

— Nunca mais, meu prezado senhor, tive tranquilidade na minha vida; e vinte séculos que viva, vinte existências que tenha na terra, serão para pagar com o remorso de cada dia, ou, antes, de cada noite, o horror daquela vingança!

Cap Finisterre havia deixado, na véspera, o porto do Havre, quando travamos relações, eu e aquele cavalheiro, no "bar" do navio. Era um homem velho, magro, de grande ossatura, tipo de Quixote dos Pampas, a que não faltava, sequer, a barbicha comprida e rala, suja como a dos bodes. Não obstante os meses passados no clima suave da Europa, a sua pele conservava aquela tonalidade escura e áspera das feias do vento e do sol. Os olhos, miúdos, vivos, desconfiados, escondiam-se órbitas fundas, sob as sobrancelhas pesadas, como duas onças em duas furnas, mascaradas de erva grosseira. Chamava-se Ramon Gonzalez y Gonzalez, e era, dizia ele, industrial à margem do rio Bermejo, no extremo norte da Argentina. Possuía, ali, serrarias de madeira, além de algumas fazendas de gado, no sul, onde vivia ultimamente, em luta, sempre, com a natureza bravia.

— O caso, porém, que me atormenta a vida, meu caro senhor, ocorreu no norte, há trinta anos. Eu tinha, então, quarenta.

A noite estava linda, como, em geral, as noites de estio, ao largo da costa francesa, à entrada do Atlântico. Uma lasca de lua, fina e loura, tomava posse do céu, em nome de Maomé, dando-lhe, com as suas estrelas, a feição de grande pavilhão turco. De baixo, do bojo do navio, subia o ronco fatigado das máquinas, no esforço esclerótico das caldeiras. E, de quando em quando, o ruído fresco de uma vaga arrebentada no costado de ferro, e caindo de novo, em forma de chuva grossa, sobre as espumas de outra onda nascida para morrer.

—Foi em Corrientes que eu a conheci — começou o ancião, enquanto virava o seu terceiro whisky and soda. — Filha de um velho amigo meu, era quase menina, quando a vi, na visita que fiz ao pai, meu antigo companheiro de colégio. E, ao regressar a Concepción del Bermejo, onde ficavam as minhas propriedades, levava-a nos olhos, na alma, no coração. Chamava-se Consuelo, era cândida e fugitiva como as espumas deste oceano que rebenta lá fora. Tamanha foi, em suma, a impressão que me deixou, que, um mês depois, eu regressava a Corrientes, para pedir-lhe a mão, em casamento.

— Casou...

— Não; não casei. Consuelo não quis, e o pai, vendo-a vinte e quatro anos mais moça do que eu — ela andava pelos dezesseis — não a contrariou. Conformei-me com isso, mas pedi-lhes que se conservassem meus amigos; que me não esquecessem; que me olhassem como um parente; que me fossem, enfim, visitar em Concepción, para que não ficasse, de tudo aquilo, o menor ressentimento. Dentro em mim, porém, rugia o jaguar do egoísmo, o despeito do leão velho, que não pudera devorar, como sonhara, a corça tenra que vira na campina. Aquele coração havia de, um dia, pertencer-me. Era o meu juramento de morte.

Bateu na mesa, com a sua grande mão de esqueleto, e pediu:

Garçon, outro "whisky"

Limpou a boca com as costas das mãos, como quem está habituado a beber nas tavernas ou no campo, às pressas, sobre o dorso de um cavalo. E reatou:

— No fim do ano, em dezembro, foram a Concepción, visitar-me, o pai e a filha. Cerquei-os de gentilezas, de festas, de carinho. Fazíamos passeios longos, os três. E foi em um destes que se deu a desgraça.

— A desgraça?

— Sim, senhor. Tínhamos planejado uma visita ao alto Soledade, onde eu havia adquirido uma grande extensão de terras, para extração de madeiras. O senhor não conhece o alto Bermejo... Conhece? Era floresta virgem, soturna, impenetrada. Desembarcamos em Guahija, pequeno porto para exportação de lenha, e entramos pela mata, viajando a manhã toda. O senhor não imagina o que são aquelas matas! Eu tenho a impressão de que as selvas do seu Amazonas são assim. Árvores que dois homens não abarcam, cerram fileiras, uma ao lado da outra, numa extensão de centenas de quilômetros. E lá em cima, sobre esses milagres de colunas poderosas, é o toldo verde e fechado, que não deixa passar gota de chuva e que o sol só atravessa, ao meio-dia, em forma de claridade... E começava a entardecer, quando fomos assaltados pelos índios xurupinás, que são os mais terríveis toda a região.

— E então?

— Então, foi o infortúnio. Presos, manietados com cipós, fomos conduzidos ao acampamento dos indígenas, sete léguas diante, mato a dentro... E como me recordo, ainda, dessa travessia pela floresta, tarde toda, e depois, noite fechada! Olhos arregalados de terror, os pulsos arroxeados pelos cipós, Consuelo não tinha uma lágrima, e caminhava mais arrastada do que pelos seus próprios pés. Os cabelos, os seus lindos cabelos negros e fartos, libertos da opressão do chapéu de feltro, rolavam-lhe pelos ombros, pelo colo, pela testa, cobrindo-lhe, às vezes, o rosto todo.

E abrindo um parêntese na narração:

— O senhor já viu coisa que mais excite um homem, despertando-lhe toda a bestialidade, do que o corpo da mulher martirizada? Seminua, com os lindos seios morenos pulando quase da camisa esfarrapada, o colo arranhado, o rosto porejando sangue, pelo esforço físico e pelo pudor, Consuelo acordava-me na alma de namorado sem esperança um pensamento diabólico. Eu marchava para a morte, mas marchava calmo, resignado, feliz. Talvez não trocasse, naquele momento, aquele caminho, recoberto de espinhos dilacerantes, pelo mais florido da terra!

Outra incidência:

— Porque, o senhor sabe, acaso, o que é amar uma criatura, sabendo que nunca a possuirá? Já imaginou, porventura, o que é ver, saber, conhecer que a mulher que se ama, que se adora, e que nos despreza, vai cair nos braços de outro homem, dando a outrem, com o seu beijo, com a flor do seu corpo moço, a felicidade que sonhamos para nós? Se sabe, se imagina isso, pode compreender a minha serenidade, ao ver na iminência de ser destruída, sem crime da minha parte, e para sempre, a taça em que eu pretendia beber... Consuelo não seria minha, não me daria o seu beijo, o seu corpo, mas também, não pertenceria, nunca mais, a ninguém...

Mergulhou as mãos, nervosamente, nos magros cabelos grisalhos, arrepiados no crânio, como penas da crista de um pavão, e reatou:

— Antropófagos, os xurupinás devoraram, nesse mesmo dia, os dois homens da condução. No dia seguinte, pela manhã, comeram o meu amigo. Restávamos eu e Consuelo.

Uma pausa, e tornou:

— A mim, eu sabia que me não devorariam tão cedo. Eu estava abatido, cadavérico. A paixão vinha-me devorando, há meses, secretamente, como o fogo ao algodão. Estava quase ossificado. E eu sabia que o índio não come, nunca, a presa nessas condições. Prefere engordá-la, cevá-la, tratando-a durante semanas, durante um ano inteiro.

— E a moça?

— Consuelo era linda e forte. Vi quando a mataram, com uma pancada vigorosa no crânio... Como são feios os miolos, aparecendo, ensanguentados, entre a pasta dos cabelos!... Vi quando um dos seus seios, tão redondo, tão rígido, tombado do jirau, rolou na areia do chão, onde um velho cachorro o tomou nos dentes, indo devorá-lo escondido... Vi quando a esquartejaram, quando a retalharam, quando a distribuíram, em pedaços sangrentos. Impassível, como num sonho, eu via tudo. E Só despertei do meu pasmo, quando um dos índios, o chefe, que tostava o seu pedaço na fogueira fumarenta de gordura, me veio perguntar, em um gesto, que pedaço eu queria. Olhei as postas de carne fria, sobre as quais as moscas zumbiam, com fúria: a mão miúda, de dedos contraídos, em um dos quais estava, ainda, um anel que eu lhe dera; um dos pés, meio devorado e com as cartilagens penduradas; as entranhas, a cabeça quase esfacelada, pendurada a um esteio pelos cabelos; a sua perna; a sua coxa; um dos seus braços, o mais lindo que eu tenho visto... Indiquei um pedaço de carne roxa, que aparecia, repugnante, entre as vísceras, o qual me foi trazido, e que eu comecei, também, a devorar.

Estremeceu todo, e concluiu, enquanto um arrepio de horror me sacudia:

— Era o coração. Havia cumprido o meu juramento...

E batendo, com força, na mesa:

Garçon, outro duplo!



Ilustração: Theodor de Bry (1528 – 1598).

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A BRUTAL EXECUÇÃO DA FAMÍLIA TÁVORA - Narrativas Históricas Cruéis - Camilo Castelo Branco e Anônimo do séc. XVIII


A BRUTAL EXECUÇÃO DA FAMÍLIA TÁVORA

Em setembro 1758, tentou-se contra a vida de D. José I de Portugal. Quando o monarca retornava clandestinamente da casa daquela que seria a sua amante — D. Teresa, esposa (e tia) do 4º marquês de Távora —, a sua carruagem foi alvejada. O monarca saiu ferido do incidente. O atentado serviu de pretexto ao desencadeamento de uma intensa e avassaladora perseguição, promovida pelo poderoso Secretário de Estado do Reino — o Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal — a desafetos políticos, opositores do regime. Membros da nobreza portuguesa, parentes consanguíneos e afins, foram julgados por regicídio, condenados à morte e executados publicamente: o duque de Aveiro, o conde de Atouguia, o 3ª marquês de Távora, sua esposa Leonor e seus dois filhos, Luís Bernardo (4º marquês de Távora) e José Maria. Alguns plebeus[1] — um em efígie — também foram supliciados. Um manuscrito anônimo do século XVIII, contemporâneo à época dos fatos, e reproduzido em 1838, retratou a brutal execução. Eis o seu conteúdo:


O teatro de execução dos abomináveis réus tinha de alto quinze palmos levantados na grande praça de Belém, mais perto do cais que da Quinta do Meio, chamada dos Bichos, em que estavam os réus de maior crime; a cavalaria formada entre aquele e o mar; e a infantaria e Dragões na mais circunferência. Veio a marquesa de Távora[2] em cadeirinha, acompanhada de dois padres, e assim todos os demais fidalgos (os padres que os acompanhavam eram da Congregação da Missão chamados de Rilhafoles, Marianos e Arrabidos), apeou-se ao pé da escada que subia para o teatro onde estavam todos os Ministros Criminais e Corregedores da Corte e Casa, fez cortesia a todo o povo, subiu ao teatro, ajoelhou, confessou-se  e foi com desembaraço sentar-se na cadeira, e com o mesmo estava vendo como o algoz lhe amarrava os pés e braços. E vedando-lhe este os olhos, enquanto ela repetia o que os padres lhe ditavam, cortou-lhe de um golpe a cabeça pela parte posterior, ficando-lhe suspensa pela pele da garganta. Com a mesma destreza, desamarrou o cadáver, que cobriu com um pano preto.

Seguiu-lhe o seu filho José Maria, que subiu com igual ou maior valor[3], pediu perdão a todo o povo e que o ajudassem com as suas orações e, dizendo mais algumas coisas, lhe mandou o Corregedor do Crime da Corte e Casa apressar a execução. Ajoelhou, e logo que acabou de reconciliar-se, os deitaram os algozes sobre umas aspas[4] e, amarrando-o de pés e mãos, lhe deram garrote[5] apressado (estando as aspas à vista do povo) e logo lhe quebraram com uma maceta de ferro as pernas, por baixo e por cima do joelho, e os braços por baixo e por cima dos cotovelos. Soltaram-no das aspas e, enrolando-o como um novelo, o puseram sobre um poste[6], que estava no teatro, e coberto por um pano preto.



Seguiu o seu irmão marquês novo[7], que foi justiçado do mesmo modo.
Depois o conde d’Atouguia[8], este, porém, com a diferença de que logo que subiu ao teatro, lhe tirou o algoz os sapatos e cabeleira e, enquanto um algoz lhe dava garrote lento, outros lhe quebravam pernas e braços.

Seguiram-se dois criados, ou lacaios do duque de Aveiro[9], e um cabo de esquadra do Regimento de Alcântara, e foram punidos como os primeiros, e a todos descalçava o algoz antes de os desamarrar das aspas.

Seguiu-se o marquês de Távora velho[10], que se confessou ao pé do corpo da marquesa, e ia vestido de preto com cabeleira. Assim que foi descalço, o amarraram às aspas e com a roda lhe foram quebrando as pernas e braços, pedindo ele a cada golpe que o acabassem de matar, o que se lhe fez dando-lhe por último duas pancadas maiores no peito. E morto foi levado ao poste.

Veio o duque com vestido encarnado sem cabeleira. Subiu com desembaraço. Depois de se confessar, foi amarrado e justiçado como o marquês, posto que com maior clamor (em todas as execuções se levantavam as aspas à vista do povo). A cavalaria, que estava de rosto para o teatro quando levantaram o marquês de Távora velho, que tinha sido o seu instrutor, voltou as costas até se lhe fazer a execução.




Seguiu-se em estátua um caçador do duque. E um barbeiro guarda-roupas do mesmo, o qual subiu ao teatro com desembaraço, e com o mesmo esteve vendo os infelizes cadáveres, que todos se lhe descobriram. E passado algum espaço em que o tiveram à vista daquele horrível espetáculo, o assentaram e amarraram a um poste, e o pulverizaram com enxofre e alcatrão, que lhe meteram pelos vestidos, e entre a carne e a camisa, chegaram-lhe lenha, e os mais postes, que os forçados acarretaram, puseram-lhe fogo lento, em que ardeu cinco minutos sem expirar, tendo-se-lhe queimado todos os vestidos, e ainda as prisões dos braços. Assisitu-lhe um padre da Congregação da Missão com grande espírito até o último alento. Logo que este desceu, se abateu o teatro com o fogo que ardia em um barco de tojo que se lhe tinha posto debaixo, e queimado tudo, se deitaram as cinzas ao mar.


No livro “Perfil do Marquês de Pombal”, o fecundo romancista Português Camilo Castelo Branco (1825 – 1890) narra a execução de D. Leonor, marquesa de Távora:


A aurora do dia 13 de janeiro de 1759 alvorejava uma luz azulada do eclipse daquele dia por entre castelos pardacentos de nuvens esfumaradas, que a espaços saraivavam bátegas de aguaceiros glaciais.

O cadafalso, construído durante a noite, estava úmido. As rodas e as aspas dos tormentos gotejavam sobre o pavimento de pinho. Às vezes, rajadas de vento do mar zuniam por entre as cruzes das aspas e sacudiam ligeiramente os postes.

Uns homens, que bebiam aguardente e tiritavam, cobriam com encerados urna falua[11] carregada de lenha e barricas de alcateia, atracada ao cais defronte do tablado.

Às 6 horas e 42 minutos ainda mal se entrevia a facha escura com umas cintilações de espadas nuas, que se avizinhava do cadafalso. Era um esquadrão de dragões. O patear cadente dos cavalos fazia um ruído cavo na terra empapada pela chuva. Atrás do esquadrão seguiam os ministros criminais, a cavalo, uns com as togas, outros de capa e volta, e o corregedor da corte com grande majestade pavorosa. Depois, uma caixa negra que se movia vagarosamente entre dois padres. Era a cadeirinha da Marquesa de Távora, D. Leonor. Alas de tropa ladeavam o préstito. À volta do tablado postaram-se os juízes do crime, aconchegando as capas das faces varejadas pelas cordas da chuva. Do lado da barra reboava o mugido das vagas que rolavam e vinham chofrar espumas no parapeito do cais. Havia uma escada que subia para o patíbulo. A marquesa apeou da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por espaço de 50 minutos. Entretanto, martelava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, cravavam-se pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam-se as roscas das rodas.

Recebida a absolvição, a padecente subiu, entre os dois padres, a escada, na sua natural atitude altiva, direita com os olhos fitos no espetáculo dos tormentos. Trajava de cetim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos, envolta em uma capa alvadia roçagante. Assim tinha sido presa um mês antes. Nunca lhe tinham consentido que mudasse camisa nem lenço do pescoço. Receberam-na três algozes no topo da escada, e mandaram-na fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida. Depois mostraram-lhe um por um os instrumentos das execuções, e explicaram-lhe por miúdo como haviam de morrer seu marido, seus filhos, e o marido de sua filha. Mostraram-lhe o maço de ferro que devia matar-lhe o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras ou aspas em que se haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e explicaram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostravam, e o modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marquesa então sucumbiu, chorou muito ansiada, e pediu que a matassem depressa. O algoz tirou-lhe a capa, e mandou-a sentar num banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ela sentou-se. Tinha as mãos amarradas, e não podia compor o vestido que caíra mal. Ergueu-se, e com um movimento do pé consertou a orla da saia. O algoz vendou-a; e ao pôr-lhe a mão no pescoço, — não me descomponhas — disse ela, e inclinou a cabeça que lhe foi decepada pela nuca, de um só golpe.


Fontes da narrativa do século XVIII: Revista Estrangeira, Porto, março de 1838 e Jornal das Famílias, RJ, edição de 17 e3 junho de 1843.
Ilustrações de autores desconhecido do século XVIII




[1] Brás José Romeiro, João Miguel, Manuel Alves, Antônio Alves Ferreira e, em efígie, por se encontrar foragido, José Policarpo de Azevedo.

[2] Leonor Tomásia de Lorena e Távora (1770 – 1759) foi, por direito próprio, a 3ª. Marquesa de Távora e 6ª. Condessa de São João de Pesqueira.

[3] Ou seja, coragem.

[4]  As aspas eram um antigo instrumento de suplício em forma de X (vide ilustrações).

[5] Estrangulamento produzido por torniquete (aperto de uma corda, presa ao pescoço do supliciado, produzido pelo movimento circular de um bastão ligado àquela).

[6] Encimado por uma roda alta, instrumento de tortura.

[7] Luís Bernardo de Távora (1723 – 1759) foi o 4.º marquês de Távora e 7º conde de São João da Pesqueira. Era casado com D. Teresa de Távora, possivelmente amante do rei D. José I.

[8] Jerônimo de Ataíde (1721 – 1759), 11º conde de Atouguia, era casado com Mariana Bernarda de Távora, filha do 3º marquês de Távora.

[9] José de Mascarenhas da Silva e Lancastre (1708 - 1759) foi o 5.º marquês de Gouveia, 8.º conde de Santa Cruz e 8.º duque de Aveiro. Era casado com Leonor de Távora, irmã do 3º marquês de Távora.


[10] Francisco de Assis de Távora (1703 - 1759) foi o 3.º Conde de Alvor e, por seu casamento, 3.º Marquês de Távora e 6.º Conde de São João da Pesqueira. Era primo de D. Leonor, sua esposa.

[11] Embarcação fluvial de carga. 

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A FIGUEIRA - Conto de Terror - Flávio de Souza



A FIGUEIRA
Por Flávio de Souza


"Sob as árvores os pés dançantes, soltos no ar

Há nas mãos que esticam-se um pranto oculto

Que a garganta calada não deixa gritar."

                                             Tânia Souza

Eu tinha um pouco mais de uma década de vida quando tudo aconteceu. Naquele tempo, minha compreensão de mundo era tão superficial e enigmática quanto a profundidade vista pelo vidro de uma bola de gude. As lembranças contadas em dias não diferiam muito da cronologia de um adulto no que se referia à importância, sobretudo em eventos específicos, mas o tempo, esse sim, traduzia um outro significado. Um ano de uma criança nem de longe pode se comparar aos mesmos trezentos e sessenta e cinco dias de uma vida comprometida com inúmeras responsabilidades.

 De fato, naquela época, o tempo passava mais lento, mais arrastado, como o caminhar descompassado do meu avô. O velho já havia passado dos sessenta, trabalhara a maior parte da vida como funcionário público, mas não desses que penduram o paletó nas costas da cadeira e se afundam em trabalho burocrático. Não, meu avô passara os melhores anos de sua vida debaixo do calor impiedoso do sol, ou sob as chicotadas violentas da chuva, sempre com o peso de uma marreta nas mãos. Quebrar rochas em pedreiras era o seu ganha pão.

A pele negra e privilegiada do velho ocultava boa parte dos castigos infligidos pelo tempo. Os sulcos e rugas em seu rosto não eram tão marcantes quanto em outras pessoas da mesma idade, no entanto, ainda assim, não se pode negar que antigamente as pessoas envelheciam muito mais do que nos dias de hoje. Atualmente é muito comum passar dos setenta com invejável vitalidade, porém, naquela época, a história era outra.

Contudo, apesar da ação preponderante da idade e das consequências físicas causadas pelo trabalho árduo, o que dificultava mesmo a locomoção do meu avô era a influência das sequelas de um acidente vascular cerebral que culminara numa paralisia parcial do seu lado esquerdo. Esse fato acarretava-lhe uma forma peculiar de caminhar. Ele impulsionava a perna direita e, praticamente, arrastava a esquerda, num movimento de sobe e desce com o corpo. Mas isso não o impedia de circular livremente para onde queria.

Minha mãe não era como a maioria das mães dos meus poucos amigos. Ela, por conta da necessidade, não se valia da condição de dona de casa, muito pelo contrário. Já naquela época, ela trabalhava fora, o que era um fato incomum e até mesmo reprovável para os padrões da situação.

Desta forma, eu passava os dias entre a escola e os cuidados dos meus avós. E não era só eu. Minha irmã mais nova e um primo quase da minha idade me faziam companhia. Se minha irmã e eu poderíamos voltar para casa à noite, o mesmo não ocorria com esse meu primo, pois o pai, ele nunca conhecera e a mãe, minha tia, sumira no mundo há tempos. Assim, o garoto era criado como filho pelo casal de idosos.

 Meu avô era muito atencioso e gentil, em todos os aspectos. O mesmo não poderia ser dito da minha avó. Não que ela fosse rude ou que nos deixasse faltar qualquer cuidado, longe disso. Mas, posso afirmar que ela era desprovida daquela ternura própria dos avós, daquele algo mais. Talvez fosse algum resquício da esquizofrenia que lhe acometera na juventude, pois, embora a enfermidade tivesse sido clinicamente contornada, não era difícil crer que as cores do mundo exibissem um tom desbotado e irremediavelmente triste pela ótica de sua visão.

A casa dos meus avós ficava num conjunto residencial construído e destinado a servidores municipais. O bairro, por assim dizer, ocupava tanto as encostas de um morro, quanto o vale aos seus pés. A residência em questão posicionava-se na parte alta do lugar. Lá de cima, do alto do precipício, era possível vislumbrar a vastidão ocupada por centenas de casinhas, as ruas que as entrecortavam, um campo de várzea, uma pequena praça com seus balanços e gangorras, a sede da associação de moradores, uma escola construída pelo governo militar, muitas árvores, além da outra quadra do bairro, que ocupava o morro defronte ao que estávamos.

Todas as noites, quando minha mãe vinha nos buscar, precisávamos atravessar um longo e estreito caminho que circundava a beira do precipício. A estrada ainda não era revestida pela manta negra e tétrica do asfalto, ou tampouco protegida pelos blocos de concreto dos dias de hoje. Não, naquele tempo a vivacidade do barro esparramava-se por toda a extensão da via. Não havia qualquer limite. De um lado, a garganta aberta da ribanceira, do outro a vastidão verde e absoluta da vegetação.

 Havia muito mato no local. Enormes amendoeiras, jaqueiras e mangueiras estendiam-se ao longo da margem verdejante, além de arbustos repletos de amoras e pitangas. No entanto, a árvore mais emblemática era a figueira localizada na parte central da área. Era comum ouvir as pessoas dizendo que a árvore ocupava o local há incontáveis anos, sendo testemunha do crescimento de tudo ao seu redor.

De fato, a figueira era um belíssimo exemplar de sua espécie. Com seu tronco firme, galhos retorcidos, casca cinzenta, folhagem marcante e raízes impetuosas, parecia mesclar a imponência desconcertante das espécies infrutíferas, com a exuberância e generosidade das melhores fornecedoras das comestíveis gotas róseo-esverdeadas.

O fascínio despertando pela árvore era tanto, que a própria região, toda a área compreendida pelos domínios da estrada barrenta, era conhecido pelos moradores simplesmente como Figueira. 

Aos pés da árvore encontrávamos duas imensas pedras, uma sobre a outra. As rochas exibiam uma superfície tão lisa que era como se tivessem sido cuidadosamente polidas. Ao toque do sol, elas ostentavam um leve brilho, sugerindo uma comunhão perfeita com os raios do astro rei.

 O par rochoso encravava-se como um pingente no mar esmeralda quase desabitado. Quase, porque, na parte posterior à parede formada pelo matagal, exatamente atrás da figueira e das pedras, situada num discreto declive, ficava uma solitária e simples casa. Na construção de pau a pique, residia um jovem casal, na companhia de um velho, o qual seria um tio, pai ou coisa do tipo de um dos dois. As pessoas diziam que o casal tinha um filho, mas, eu mesmo, nunca vi a criança. Na verdade, eu quase não via a mulher, mas não era raro encontrar o rapaz cuidando da pequena roça de hortaliças.

 Não havia qualquer outra residência na Figueira, a família não tinha vizinhos. Embora a eletricidade não fosse nenhuma novidade, não havia, ao longo de toda a estrada, qualquer vestígio de iluminação pública. Acredito que a noite no interior do casebre era iluminada apenas pela vida dos candeeiros.

Embora, nos dias de hoje, a escuridão possa sugerir a potencialidade de perigo, a única preocupação em se atravessar a Figueira correspondia às velhas histórias contadas pelo povo. Pode parecer estranho, mas isso era levado muito a sério por algumas pessoas. Tanto que, na hora de irmos para casa, minha avó nos acompanhava até o fim da estrada, porém, minha mãe não a deixava voltar sozinha, e a acompanhava de volta. O impasse persistia até a desistência de uma delas.

Minha irmã e eu não dávamos muitos créditos ao que ouvíamos, nem mesmo nosso primo, que era um tanto sonhador, se importava com os relatos. Achávamos até graça da situação. Eu, particularmente, gostava de cruzar os domínios da Figueira. O céu era limpo, muito diferente da nebulosidade triste causada pela luz artificial. O forro negro salpicado de estrelas brilhantes ficaria para sempre gravado em minha memória. Como eu sinto falta daquele céu dos meus tempos de menino!

Dentre as diferentes lendas locais, eu gostava muito de ouvir a que falava da morte de um jovem padre. Minha avó não se cansava de repeti-la. E, apesar da repetição, a tensão do ineditismo estava sempre presente em cada uma das vezes. Ela arregalava os olhos e repuxava involuntariamente os lábios finos. Sua pele alva de descendente de portugueses ficava ainda mais pálida.

II

A história dizia que num certo tempo indeterminado, naquela mesma região, um padre recém-ordenado assumira a paróquia local. Porém, em poucos meses de sacerdócio, ele caíra de amores por uma jovem comprometida. O padre a tomou para si, engravidando-a. Não tardou para que o romance clandestino fosse descoberto e hostilizado pela população. O noivo traído estava disposto a engolir a humilhação e perdoar a futura esposa, assumindo como sua a criança que crescia no ventre da moça. No entanto, para isso, o responsável pela sua desgraça deveria ser expulso de uma vez por todas da comunidade.

O pároco até estava disposto a abrir mão da felicidade em prol da amada, porém, ela não estava pronta para tal sacrifício. E, não podendo exercer o direito de ser senhora da própria sorte, decidiu selar definitivamente o destino que lhe era reservado, atirando-se num voo sem volta pelo precipício.

Ao constatar a morte da jovem, o padre foi tomado pelo desespero. E, mesmo sabendo que a atitude que estava prestes a cometer significaria a condenação eterna de sua alma, de acordo com suas próprias convicções, ele trançou uma corda num dos galhos fortes da velha figueira, a fim de dar cabo de sua miserável existência.

Enquanto sufocava e se debatia, pois o pescoço não quebrara, ele foi invadido por toda a sorte de maus sentimentos. Rancor, ódio, decepção, vingança, frustração. Cada gota da aflição que corrompia seu espírito era exalada dos poros dilatados e liberada no ar. Seus olhos vidrados contemplavam a vastidão da ribanceira, leito de morte de um tesouro inestimável.

Dizem que as pessoas tocadas por um fardo similarmente pesado, seja na alma ou no coração, são capazes de vê-lo pendurado na figueira. O horror da imagem seria indescritível e irreversivelmente perturbador.

III

Mesmo durante o dia, a região da Figueira não era vista com bons olhos. E, justamente nesse quesito, estava uma das nossas maiores diversões na infância. Fazia parte da rotina, toda tarde, escaparmos rumo ao local maldito. Ficávamos os três, meu primo, minha irmã e eu no topo das rochas duplas. Era como se estivéssemos no dorso de um grande elefante. O toque quente da superfície rochosa era reconfortante, quando combinado com a brisa fresca que balançava as folhas da figueira ao entardecer.

A árvore dava frutos vistosos, mas estes eram raros quando comparados à abundância fornecida pelas demais. Além disso, não eram tão saborosos quanto a bela aparência poderia sugerir. Certa vez experimentei um dos figos, o gosto era terrivelmente amargo. Acho que a expressão que devo ter feito na ocasião intimidou as outras crianças, pois nenhuma delas quis compartilhar da experiência. Desde então, nos restringimos às mangas, jabuticabas e outras frutas.

Embora pudesse parecer, o real objetivo de nos refugiarmos na Figueira não era a busca pelos diversos frutos do local, ou a contemplação da paisagem do alto das pedras. O que buscávamos, de fato, era a provocação, a desobediência descarada. Invariavelmente, meu avô seguia em nosso encalço. Com uma vara seca de goiabeira na mão, ele vinha mancando e gritando em franca ameaça. Obviamente, sabíamos que ele era incapaz de nos machucar, mas a perseguição inocente era o ápice do nosso dia, o momento mais aguardado. A severidade em seu olhar nunca se traduzia em atos palpáveis, mas era legítima. Contudo, para nossa sorte, nada de ruim nos acontecia, nunca. As preocupações tolas eram um incentivo a mais para nossas traquinagens.

Assim, nossos dias passavam longos, com a eternidade da infância como um escudo a nos proteger das mazelas da irresponsabilidade. As lembranças desses dias eram doces como o gosto das frutas ao nosso dispor, mas um fato inesperado surgiu para estremecer os alicerces formados por nosso trio. Meu primo, em seu excesso de confiança e inabalável senso de aventura, sofreu um terrível acidente, algo que trouxe, de imediato, um torpor indescritível em minha existência. Inevitavelmente, senti o gosto amargo dos figos outra vez...

IV

 Meu avô era a sombra do que um dia fora, enquanto o mundo particular de minha avó dava cada vez mais mostras de que suas fronteiras se expandiam. Era inevitável que maldissessem a nuvem negra que pairava na região, mas o tempo, em sua inabalável marcha, continuava a impor a sequência da vida. E, a velocidade, que até então era subjetiva sob meu ponto de vista, ganhava outros contornos. Porém, mesmo assim, eu não acreditava, ou melhor, não entendia a razão para tanta aflição por conta de um lugar, mas esse ceticismo começaria a perder força muito mais rápido do que eu poderia supor.

V

Era um domingo ensolarado, daqueles que parecem feitos sob encomenda para um grande evento. Praticamente toda a garotada da comunidade estava reunida na praça local. No campinho de várzea, estava sendo realizada uma festa em comemoração ao dia das crianças. Havia brincadeiras, gincanas, concursos, farta distribuição de lanches e brinquedos, tudo patrocinado pela associação de moradores.

Lá de baixo, conseguíamos enxergar as casas espalhadas pela encosta do precipício, o qual, daquele ângulo, parecia muito mais alto do que quando olhávamos do sentido inverso. Dentre as inúmeras residências, estava a dos meus avós, com seu muro revestido por heras e as paredes pintadas de bege.

Girando o olhar para o lado esquerdo, estava ela, a Figueira. As rochas impávidas exibiam-se como um colosso, enquanto a árvore que dava nome ao local balançava suas folhas ao sabor do vento, como se acenasse de longe.

Eu poderia, e deveria, estar concentrado no jogo de revezamento de escalada com corda, eu era o último da minha equipe, e a classificação dependia de mim. Porém, meu olhar estava vidrado em direção à Figueira. Eu tive a impressão de ter visto uma pessoa circulando levianamente pela beira da ribanceira. Apertei os olhos e tive certeza: era um homem. Sua pele mulata reluzia ao sol. Ele vestia uma calça comprida e nada mais. Por alguns instantes, ele hesitou, como se estivesse desnorteado e, então, caiu.

Seu corpo parecia despencar em câmera lenta, era uma imagem mostrada quadro a quadro. Não sei por quanto tempo tive essa impressão, só sei que ela terminou com o som de um grito estridente emitido por uma garotinha banguela que estava ao meu lado. Então, ele caiu rápido, como deveria ser.

Muitas pessoas correram em direção ao ponto final da queda, enquanto outras recolhiam suas crianças que gritavam e choravam. Eu permaneci no mesmo lugar, olhando para cima, e foi aí que vi.

Meu corpo tremeu dos pés à cabeça, pois tive a certeza, mais do que absoluta, de ter visto a imagem de um homem vestido de preto pendurado por uma corda amarrada aos galhos da figueira. Mais do que isso, tive a impressão de que ele olhou diretamente para mim, mesmo com a morte a lhe apertar o pescoço, o homem olhou para mim!

Sufoquei um grito na garganta. Esfreguei os olhos e a imagem desapareceu. Lá no alto havia apenas as rochas, o mato, as árvores simples e a figueira. Senti um toque no ombro, e desta vez não consegui controlar o pânico e gritei. Mas era apenas minha mãe trazendo minha irmã pela mão.

Mais tarde, soube que, apesar da queda violenta, o homem não morrera. Ele se ferira muito com o acidente, mas, a despeito disso, estava lúcido e consciente. Era fato que ele não se lembrava de absolutamente nada, e dizem que nunca mais foi o mesmo, assim como eu. Desde aquele dia, o episódio entrou para a galeria dos fatos inexplicáveis da Figueira. Só que para mim era algo totalmente novo, pois eu sabia que havia realmente algo estranho lá, e não era apenas uma questão de lendas do povo. Eu vi, nunca contei para ninguém, mas eu vi o padre enforcado enquanto o homem despencava.

O colorido da minha infância havia terminado ali. Quando se vê a face fria da morte é difícil esperar outra coisa. Era como se eu tivesse ficado mais seco, mais vil e egoísta, tão insosso quanto o sabor do figo que um dia preenchera minha boca. Eu não conseguia encontrar mais sentido no que antes movia minha vida e, por dias, permaneci no mais absoluto recolhimento...

VI

Eu não conseguia tirar da cabeça a idéia de ver novamente a imagem do padre. Não sei explicar, é até antinatural querer contemplar algo que desencadeara tamanho dano em seu existir, mas eu achava que olhar mais uma vez para aqueles olhos frios poderia reverter o temor que me consumia.

Estávamos mais do que proibidos de cruzar a estrada empoeirada, e desta vez parecia que não haveria qualquer tipo de tolerância com desobediências. Eu queria ir a Figueira, olhar para os galhos da árvore, mas não poderia comprometer minha irmã por conta dos meus atos. Assim, tramei para que eu passasse a noite de sexta-feira na companhia dos meus avós, ao invés de voltar para casa.

Os velhos costumavam dormir com as galinhas, e foi nesse momento que resolvi escapar.

Acho que não há palavras para descrever a escuridão que assolava a velha estrada. Nem mesmo minhas companheiras no céu ofereciam o brinde de sua presença. Mas eu não estava com medo, juro que não estava, e segui decidido em minha marcha.

Cheguei à parte central da trilha, exatamente onde ficavam as rochas e a figueira. A velha árvore não mexia uma só folha. Eu nunca tinha reparado antes, mas a imagem da figueira automaticamente me remeteu ao desenho que certa vez vi estampado num livro de ciências. A disposição do seu caule lembrava a reprodução do aparelho circulatório humano, excetuando-se a maneira retorcida que os galhos apresentavam nas extremidades.

Escalei as rochas rapidamente. À noite, o toque daquela superfície não oferecia o mesmo calor do qual eu me acostumara, pelo contrário, remetia à sensação proporcionada pela água gelada de um chuveiro numa manhã de inverno.

Enxerguei uma luz bruxuleante no interior do casebre, mas não havia qualquer sinal da família. Concentrei minha atenção no galho que julgava ser aquele pelo qual o padre se enforcara, mas nada vi. Esperei por um bom tempo e, já estava desistindo, quando ouvi uma voz chamando meu nome.

Virei-me em direção ao casebre, que era de onde parecia vir a voz. Então vi a figura de um velho. Imediatamente associei-o ao tal tio ou pai de um dos jovens da família, o tal senhor de quem alguns falavam.

 Tive um impulso inicial de correr, mas contive o ímpeto. E, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele me perguntou se eu sabia o porquê de ter visto a imagem do padre enforcado. Eu poderia ter ficado intrigado em querer saber como o desconhecido conhecia meu nome, visto que eu nunca havia me encontrado com ele antes, ou em saber como era de seu conhecimento o fato do que eu tinha visto. Mas a única coisa com que me ative foi no conteúdo de seu questionamento, pois, segundo diziam, só alguém com um fardo pesado a carregar, poderia avistar a assombração.

O velho riu por conta do desespero estampado em meu rosto, ele sabia, o maldito sabia. Só aí percebi que ele usava uma surrada batina por baixo dos trapos que lhe cobriam, além do laço a lhe apertar o pescoço. O padre caminhava em minha direção e, num piscar de olhos, já estava ao meu lado no alto das rochas.

Ele já não exibia os contornos cativantes e típicos de um idoso comum, não, o que estava diante de mim era um emaranhado arroxeado de carne em decomposição. E essa mescla horrenda falava comigo, me dizia claramente que sabia porque eu conseguia vê-lo.

VII

Sempre fui correto em tudo, da melhor maneira possível. Mas, até mesmo para aqueles que se consideram coerentes, existem ocasiões em que a prática testa a teoria. Nada nunca me faltou, isso é fato, mas, ainda assim, eu sentia uma pontada de inveja pela forma com a qual o meu avô tratava o outro neto, aquele que criava como filho.

Pouco antes do incidente, no qual meu primo se envolvera, eu tinha um punhado de moedinhas recém lançadas num daqueles inúmeros planos econômicos que eram bem comuns até um passado recente. Então, fiz uma proposta em trocá-las com meu avô por uma nota, coisa de criança, eu levaria até vantagem na conversão. Só que, imediatamente, meu primo pediu as moedinhas ao meu avô, no qual fora prontamente atendido. Fui tomado por uma raiva incontrolável, embora não a demonstrasse.

Eu não admitia, mas era fato que após ter experimentado aquele figo, parece que tudo de ruim que havia em mim tornara-se ainda mais evidente. Assim, elaborei um plano para tomar as moedinhas de volta. Num dia em que minha irmã acompanhara minha mãe no trabalho em uma casa de família, aproveitei para convencer meu primo a me seguir até a Figueira.

Uma vez lá, tratei de rolar a bola dente-de-leite, seu brinquedo preferido, por uma brecha no meio do matagal que crescia na encosta do morro. Então, sugeri que ele descesse pelo buraco para pegá-la de volta, agarrando-se no capim rasteiro como forma de apoio. Ingenuamente, como lhe era peculiar, ele foi, só que o mato não conseguiu sustentar seu corpo e ele rolou ribanceira abaixo. Acompanhei seu tronco desaparecer, depois a cabeça e por último os braços erguidos.

No mesmo instante fui tomado pela vergonha, pelo arrependimento, mas nunca contei a ninguém o que eu havia feito. Meus avós nunca se recuperaram do baque, e dia após dia, visitavam o neto/filho adormecido num coma absoluto até serem vencidos pela frieza da foice do destino.

Porém, antes de serem visitados pela senhora do inevitável, eles ainda viriam a sofrer muito mais por minha causa, não só eles como o resto da minha família. Mas, desta vez, eu não tive participação consciente no episódio...

VIII

Diante daquele vestígio de homem, de olhos negros e fatais, eu sabia que nenhuma mentira poderia resistir, pois ele podia enxergar através da minha alma. Eu só não conseguia entender como ele ficara velho e carcomido, se quando se enforcara não passava de um rapaz inconsequente. Mas, quando ele me ofereceu a corda, e eu a aceitei de bom grado, tudo ficou claro para mim.

Enquanto eu sufocava pendurado nos galhos da velha figueira, entendi que nossas almas, a dos condenados, envelheceriam eternamente como um fruto que apodrece no pé sem ser colhido. Entendi, também, que o velho, a mulher e a criança, que diziam morar no casebre, talvez não passassem de aparições que se confundiam com o mistério acerca do rapaz que morava no local. Era bem possível que, em muitos anos, eu também fosse inserido no contexto de alguma família local.

O jovem, que se isolava na Figueira, não se incomodava com a presença de estranhos em suas terras. Era até bom, pois a proximidade colaborava para que novos frutos fossem inseridos na árvore que cuidava com tanto esmero. Sua longa linhagem, a que advinha do noivo traído que se culpou pelo suicídio da amada, jurou cuidar da árvore, símbolo da dor da comunidade.

XIX

As histórias vêm e vão, se confundem e se mesclam ao longo do tempo, o qual, às vezes passa depressa como a vida de um adulto, ora corre lento como os sonhos infantis.

Muita coisa eu vi no decorrer dos anos, enquanto os vermes corroem a estrutura da minha essência, algo que nunca terminará. O velho conjunto residencial de servidores municipais se transformou numa violenta favela. Não há tanta simplicidade quanto outrora, e, vez ou outra, a figueira recebe novos frutos. Aliás, muito mais do que antes.

Do alto da árvore secular, pendurado por uma corda que quase ninguém vê, como um figo ignorado por todos, eu permaneço. E, não é raro que eu seja invadido pela impressão de ver, sentada numa cadeira de balanço, na varanda que já não existe mais, a silhueta da minha avó, com seus cabelos de prata reluzindo ao sol e sua pele alva com tons rosados nas bochechas. Ao seu lado, com seu chapéu de palha na cabeça, meu velho avô, exibindo o mesmo bigode grisalho, sinal de respeito, como dizia. A pele de ébano, com as rugas do trabalho árduo cultivadas pelas intempéries do tempo, era a mesma. A origem da miscigenação da qual eu tanto me orgulhava.

Eu queria poder ter a oportunidade de visitar meu primo que sofre por anos no hospital, mas sei que a prisão da Figueira nunca permitirá. Quando ele for tocado pelo abraço frio da morte, algo que logo ocorrerá, ele será recebido pelo carinho dos meus avós, algo que nunca mais terei, pois um lugar bem melhor está reservado para todos eles. Algo bem diferente do que me abriga e continuará a abrigar por toda a eternidade.

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