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Mostrando postagens de Março, 2018

O JURAMENTO - Conto Clássico de Horror - Humberto de Campos

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O JURAMENTO Humberto de Campos (1866 – 1934) — Nunca mais, meu prezado senhor, tive tranquilidade na minha vida; e vinte séculos que viva, vinte existências que tenha na terra, serão para pagar com o remorso de cada dia, ou, antes, de cada noite, o horror daquela vingança! Cap Finisterre havia deixado, na véspera, o porto do Havre, quando travamos relações, eu e aquele cavalheiro, no "bar" do navio. Era um homem velho, magro, de grande ossatura, tipo de Quixote dos Pampas, a que não faltava, sequer, a barbicha comprida e rala, suja como a dos bodes. Não obstante os meses passados no clima suave da Europa, a sua pele conservava aquela tonalidade escura e áspera das feias do vento e do sol. Os olhos, miúdos, vivos, desconfiados, escondiam-se órbitas fundas, sob as sobrancelhas pesadas, como duas onças em duas furnas, mascaradas de erva grosseira. Chamava-se Ramon Gonzalez y Gonzalez, e era, dizia ele, industrial à margem do rio Bermejo, no extremo norte da Arg

A BRUTAL EXECUÇÃO DA FAMÍLIA TÁVORA - Narrativas Históricas Cruéis - Camilo Castelo Branco e Anônimo do séc. XVIII

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A BRUTAL EXECUÇÃO DA FAMÍLIA TÁVORA Em setembro 1758, tentou-se contra a vida de D. José I de Portugal. Quando o monarca retornava clandestinamente da casa daquela que seria a sua amante — D. Teresa, esposa (e tia) do 4º marquês de Távora —, a sua carruagem foi alvejada. O monarca saiu ferido do incidente. O atentado serviu de pretexto ao desencadeamento de uma intensa e avassaladora perseguição, promovida pelo poderoso Secretário de Estado do Reino — o Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal — a desafetos políticos, opositores do regime. Membros da nobreza portuguesa, parentes consanguíneos e afins, foram julgados por regicídio, condenados à morte e executados publicamente: o duque de Aveiro, o conde de Atouguia, o 3ª marquês de Távora, sua esposa Leonor e seus dois filhos, Luís Bernardo ( 4º marquês de Távora) e José Maria . Alguns plebeus [1] — um em efígie — também foram supliciados. Um manuscrito anônimo do século XVIII, contemporâneo à época dos fatos, e reproduzido

A FIGUEIRA - Conto de Terror - Flávio de Souza

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A FIGUEIRA Por Flávio de Souza "Sob as árvores os pés dançantes, soltos no ar Há nas mãos que esticam-se um pranto oculto Que a garganta calada não deixa gritar."                                              Tânia Souza Eu tinha um pouco mais de uma década de vida quando tudo aconteceu. Naquele tempo, minha compreensão de mundo era tão superficial e enigmática quanto a profundidade vista pelo vidro de uma bola de gude. As lembranças contadas em dias não diferiam muito da cronologia de um adulto no que se referia à importância, sobretudo em eventos específicos, mas o tempo, esse sim, traduzia um outro significado. Um ano de uma criança nem de longe pode se comparar aos mesmos trezentos e sessenta e cinco dias de uma vida comprometida com inúmeras responsabilidades.   De fato, naquela época, o tempo passava mais lento, mais arrastado, como o caminhar descompassado do meu avô. O velho já havia passado dos sessenta, trabalhara a maior parte da vid