SEXO COM O DIABO - Conto de Terror - Alessandro Reiffer



SEXO COM O DIABO
Alessandro Reiffer

Poucos acontecimentos me causaram uma sensação tão dilacerante de tristeza e fatalidade como a impiedosa maldição que recaiu implacável sob aquela bela menina, a infeliz Daniele. Muitos simplórios insistem em crer que tudo não passou de algum terrível mal meramente orgânico, uma enfermidade desconhecida, de origem unicamente física. Todavia, não apresentam provas do que afirmam, nem mesmo indícios. Todos os exaustivos exames realizados não obtiveram o mínimo esclarecimento, e o caso permanece obscuramente inexplicável, pois nenhum possível agente patogênico foi encontrado no corpo de Daniele, nenhum de seus órgãos apresentava qualquer deficiência, no entanto, a menina enfraquecia cada vez mais...

Conheci muito bem a pobre Daniele. Melhor ainda, o que ocorreu com ela. Quando surgiu das trevas aquele demônio, a menina não tinha mais que 15 anos. Eu, quatro anos mais velho, estava absolutamente fascinado com sua beleza e expressão de ternura e inocência. Mais um passo, e cairia nas garras insanas da paixão. Mas, talvez, Daniele não fosse tão inocente quanto sugeria sua doce fisionomia. Estou firmemente convicto de que a demoníaca maldição foi atraída por sua própria vontade, como funesta conseqüência de seus terríveis e irrefreáveis desejos sexuais, os quais todas as noites a assaltavam até exaurirem miseravelmente sua energia vital. Sei de tudo, porque fui um observador assíduo de sua vida, queria conhecê-la a fundo. Fui a única testemunha da infernal cena. Minha atração pela menina era tão veemente que me utilizei de todos os meios ao meu alcance para retirar o véu de sua existência.

Posso afirmar com segurança que durante quase dois anos soube que a formosa e plena de vida Daniele deitava-se em seu leito, cobria-se com um lençol ou cobertor e principiava a acariciar seus seios e órgão genital durante prolongados minutos, ou seja, masturbava-se com uma tremenda volúpia sexual. Estando Daniele em plena adolescência e sendo ainda virgem, a energia sexual da menina encontrava-se em seu ápice, em seu esplendoroso e arrebatado afloramento. Percebiam-se as correntes energéticas percorrendo em fosforescente eletricidade todo o seu superexcitado organismo, incendiado pelo desejo sexual. Contudo, tal energia poderosa e incontrolável era todas as noites descarregada no ambiente penumbroso de seu quarto através da masturbação. Sua energia sexual, quando ainda em seu corpo físico, antes do orgasmo, oferecia aos olhos uma fulgurante visão que brilhava deslumbrantemente nos canais etéricos de seu formoso organismo. Entretanto, uma vez jorrada no ambiente externo pelo orgasmo, aquela cintilante energia multicolorida tornava-se opaca, avermelhada e sanguinolenta, às vezes pendendo para o negro. Para onde iria toda aquela energia? De alguma forma ela seria aproveitada... Lembremos da célebre sentença de Lavoisier: “Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. A energia se transforma, como a energia sexual de Daniele, que se metamorfoseou pela infrene masturbação. De límpida e fulgurante, tornou-se escabrosa e pestilenta.
A energia alastrava-se pelo ambiente astral de seu quarto, e este, com o passar dos dias e com a repetição dos atos masturbatórios, foi acumulando toda aquela energia sexual desperdiçada. Foi acumulando, até que, em certa noite tenebrosa, que ainda sinto calafrios ao recordá-la, uma negra e espantosa presença diabólica penetrou pela porta de seu quarto... Irradiavam-se pestilências e malignidades da coluna vertebral visível daquela coisa. E ela foi lentamente sugando através de asquerosos tentáculos membranosos a densidade energética ali presente.

Aquilo era como um repulsivo espectro que flutuava abjetamente pelo ar. Tinha olhos amarelados e doentios, arregalados e com veias proeminentes. Arrastava uma imensa cauda imunda e, na cabeça, apresentava um par de orelhas desproporcionais e repugnantes que balouçavam constantemente. Sua face envelhecida e impregnada de furúnculos, com um nariz de formato suíno, causava uma repulsão e um medo arrepiantes. Suas mãos escamosas eram enormes e projetadas para frente, com unhas curtas e pontiagudas, de uma nojenta cor arroxeada. Aquela coisa esvaziou o ambiente, sorvendo com repelente prazer a energia sexual despejada na atmosfera por Daniele. Minha impressão negativa foi tamanha que me retirei do local e somente a ele retornei uma semana depois. Quando o fiz, meu horror foi ainda maior, ao contemplar, no aposento iluminado somente pelo luar, aquele ser diabólico sobre o corpo de Daniele, realizando um revoltante ato sexual com a menina. Esta aparentava sentir um imenso prazer, porém, seguramente, não tinha consciência do imundo demônio que estava sobre ela. Para Daniele, tudo não passava de masturbação. No entanto, o hediondo diabo, astralmente, aproveitava-se de forma perversa da assombrosa luxúria da adolescente, drenando toda sua energia vital e assim mantendo a sua ominosa existência.

Após presenciar tão chocante cena, não tive mais ímpetos de à noite visitar minha admirada menina, tamanha era minha perturbação. Dias depois, caminhando abatido pelas ruas, ocorreu-me o feliz incidente de encontrar Daniele. Como nos conhecíamos, chamei-a para termos uma breve conversa. Disse que a achei um tanto magra e desanimada e perguntei se estava sentindo-se bem. A menina, entristecida, macilenta e com fundas olheiras, respondeu-me que fisicamente sim, mas não psicologicamente. Declarou que sofria de horríveis pesadelos. Em um deles, disse-me que via espiar furtivamente pela porta de seu quarto uma horripilante e repulsiva velha de aparência inominável. A velha ria malignamente de Daniele, em um riso torpe e encatarrado; em seguida, piscava seus enormes olhos dilatados e se ocultava atrás da parede. Daniele contou-me ainda que ouvia seus passos arrastados distanciarem-se lentamente de seu quarto. Então se acordava em estado de indizível pavor. Tais sonhos repetiam-se frequentemente. A menina narrou-me também que certo dia, durante o final da tarde, viu, sentado sobre um muro, um homem estranho e muito feio que a olhava fixamente e apontava-lhe o dedo indicador como em um sinal de advertência. Então o homem pulou do muro, sorriu sinistramente e desapareceu de maneira furtiva. Ao dizer isso, vi que os olhos ainda belos de Daniele encheram-se de lágrimas. Senti uma cortante piedade da menina, mas não sabia o que fazer, nem mesmo o que dizer a ela. Despediu-se rápida e nervosamente, e eu ali permaneci como se minha alma estivesse aniquilada.

Meses depois, retornei ao seu quarto e aguardei alguns instantes, enquanto Daniele lia em sua cama. Minutos depois apagou a luz e principiou a se masturbar sob as cobertas. Não demorou muito para que aquele demônio surgisse vagando pela porta e lentamente flutuasse de forma abjeta sobre a adolescente, efetuando outra nauseante relação sexual, explorando a inconsciência da menina. Não mais pude permanecer diante daquela visão deprimente e voltei à minha casa. Passadas algumas semanas, encontrei outra vez Daniele na rua. Estava verdadeiramente acabada, esquelética, como que corroída por uma peste letal. Sua beleza murchara, secara, sua vida esvaíra-se como o vinho que escorre de uma taça quebrada. Dias depois, fui ao velório de Daniele.

Semanas após seu falecimento, estando meu corpo adormecido e meu espírito vagueando pela dimensão astral (que era como eu visitava Daniele em seu quarto), tive um encontro com um perverso homem... Possuía uma bela aparência e segurava um cálice que julguei contivesse vinho. Estas foram algumas das palavras que o sinistro homem me dirigiu:

— Pensas que bebo vinho? Não. Bebo sangue, bebo a vida que o sangue espiritualmente contém. Assim mantenho essa aparência física através dos séculos, que não é a real, mas é com ela que me apresento imaginativamente às mulheres, entre elas a tua querida Daniele... Certamente, vira-me na forma real tendo relações com ela, não? Pois a menina via-me em sua mente com um aspecto bem diferente... Ah, suguei toda a sua energia, mais do que normalmente faço, pois ela era muito receptiva. É claro que com a maioria das mulheres, não chego a matá-las, dreno um pouco de energia, e isso é tudo. O máximo que pode ocorrer é elas terem alguma doença, ou serem infelizes no amor, pois não poderão amar devidamente, se é que me entendes... Logicamente, não sou o único a realizar tais ações, tenho colegas, masculinos e femininos. Minhas colegas femininas, é óbvio, sugam os homens. Atuamos não só em masturbadores, mas também em relações sexuais feitas sem nenhum sentimento, sem amor. Ah, quantos belos rostinhos nós já secamos... mesmo que lenta, bem lentamente, quase imperceptivelmente... Mas o que é isso? Não, não chores pela Daniele! Ah, ah, ah, ah, ah!


Ilustração: CarlosPalma Cruchaga



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O ESTRANHO CASO DE EMILIE SAGÉE - Narrativa Clássica Sobrenatural - Narrativa Verídica - Alexandre Aksakof



O ESTRANHO CASO DE EMILIE SAGÉE
Alexandre Aksakof
(1832 -1903)

Em 1845, existia na Livônia (e ainda existe), a trinta milhas de Riga e a uma légua e meia da pequena cidade de Wolmar, um instituto para moças nobres, o " Pensionato de Neuwelcke". Nessa época, o diretor era um certo M. Buch. O número de pensionistas, quase todas de famílias nobres livonianas, era de quarenta e dois. Entre elas achava-se a segunda filha do Barão Güldenstubbe, de 13 anos.

Entre as professoras, existia uma francesa, de nome Emilie Sagée, nascida em Dijon. Tinha o tipo do Norte: era loura, forte, de olhos muito claros e cabelos castanhos. Era fina e um pouco mais alta que o tipo médio, amável, doce e alegre, mas um pouco tímida e de temperamento nervoso e um tanto excitável. Sua saúde era ordinariamente boa e, durante o tempo (um ano e meio) que passou em Neuwelcke, não teve senão uma ou duas indisposições ligeiras. Era inteligente e de perfeita educação, tendo os diretores se mostrado completamente satisfeitos com suas aptidões e sua maneira de educar durante todo o tempo de sua permanência no colégio. Tinha trinta e dois anos.

Poucas semanas depois de sua chegada, singulares preocupações começaram a ter lugar entre as alunas. Quando uma dizia ter visto Mme. Sagée em tal parte do estabelecimento, outra garantia tê-la encontrado na mesma ocasião em outro lugar, dizendo: "Não, não pode ser; acabo de cruzar com ela na escada". No princípio, acreditou-se em enganos, mas como o fato não deixava de se reproduzir, as moças começaram a achar o caso muito esquisito, e por fim o relataram às demais professoras. Estas, por ignorância ou preconceito, diziam que não havia nada de mais, que não podia ser como as moças diziam, e que não davam importância às versões correntes.

As coisas, porém, não tardaram a se complicar, apresentando um caráter que excluía toda possibilidade de fantasia ou de erro. Um dia, quando Emilie Sagée dava aula a treze meninas, entre as quais se encontrava a Sta. Güldenstubbe, para tornar mais clara sua explicação, ia escrevendo no quadro negro as passagens que deveria explicar. Neste vai-e-vem da cátedra para o quadro negro, de repente suas alunas passaram a ver duas Mme. Sagée, uma ao lado da outra. Eram absolutamente iguais e executavam os mesmos gestos. A única diferença é que a verdadeira pessoa tinha na mão um pedaço de giz, e efetivamente escrevia, enquanto o seu "duplo" apenas a imitava. Resultou uma grande sensação no estabelecimento, pois todas as moças, sem exceção, tinham visto a segunda forma, e estavam unanimemente de acordo na descrição do fenômeno.

Pouco depois, uma das alunas, a Srta. Antonieta de Wrangel, obteve permissão para ir com algumas colegas a uma festa local da vizinhança. Estava ocupada em completar sua toilette, quando Mme. Sagée, com sua habitual bonomia e sensibilidade, veio auxiliá-la a abotoar os colchetes das costas do vestido. A moça, voltando-se casualmente, viu no espelho duas Emilie Sagées. Assustou-se de tal modo com a brusca aparição que desmaiou.

Passaram-se meses, e os fenômenos continuaram a se repetir. O "duplo" da educadora era visto de quando em quando durante o jantar, de pé por trás de sua cadeira, imitando seus movimentos, enquanto ela comia, mas sem faca ou garfo, ou alimentos nas mãos. Tanto as alunas, como as criadas que serviam à mesa, eram igualmente testemunhas. Entretanto, acontecia que nem sempre o "duplo" imitava os movimentos da pessoa verdadeira. Muitas vezes, quando esta se levantava da cadeira, via-se o "duplo" continuar sentado. Certa vez, deitando-se por causa de um resfriado, a Srta. Wrangel, que lia, a fim de distrair Mme. Sagée, viu-a repentinamente empalidecer e ficar dura como se estivesse a pique de um estado muito grave. Amedrontada, perguntou-lhe se estava se sentindo mal, ao que ela respondeu dizendo que não, fazendo-o, porém, com uma voz muito fraca. Voltando-se por acaso, a Srta. Wrangel, percebeu, logo alguns instantes depois, e muito distintamente, o "duplo” da doente passeando ao longo do quarto. Desta vez, ela teve bastante controle sobre si mesma para manter a calma, e não fazer a menor pergunta à professora, mas pouco depois, muito pálida, desceu a escada, e contou às colegas o que havia visto.

Os fenômenos continuaram a se repetir, tendo as versões chegado ao conhecimento dos pais das alunas, e muitos, apavorados com o caso, passadas as férias, não mais enviavam as filhas para o colégio. E assim é que, ao cabo de 18 meses, de 42 meninas, só restavam 13. O diretor, então, muito a contragosto, pois Mme. Sagée era de fina educação, e preenchia absolutamente bem suas funções, viu-se obrigado a despedi-la. Ao receber a notícia de que deveria se retirar, Mme. Sagée, desesperada, exclamou na presença da Srta. Güldenstubbe: "É a décima nona vez; é duro de suportar". Foi descansar em uma habitação não muito distante, e mais tarde retirou-se para a Rússia, não dando mais notícias. Todos esses fatos e muitos outros foram relatados pela Srta. Guldenstubbe, íntima de Mme. Sagée, e são autênticos. Mme. Sagée não percebia nada; era a única que não via seu próprio "duplo”. Sabia do fenômeno, porque lhe cortavam.

Fonte: “A Cigarra”, edição de julho de 1948.
Tradução de autor desconhecido do séc. XX.



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VÍTIMA DO MEU DESCUIDO - Conto Clássico de Terror - Eximí Opfalas



VÍTIMA DO MEU DESCUIDO
Eximí Opfalas
(Pseudônimo de autor desconhecido do séc. XX)


— Vítima do meu descuido! — foi o que eu ouvi da boca de um louco, quando atravessava o pátio interno de uma casa de saúde, para procurar o Dr. Mota, velho amigo meu, que ali dirigia uma enfermaria.

Aquela frase, ouvida assim inesperadamente, foi pronunciada com ênfase e exprimia uma dor profunda. Ao chegar ao gabinete do Dr. Mota, ainda estava eu com os cabelos eriçados pelo frêmito irreprimível que de mim se apossou naquele momento. O Dr. Mota, percebendo o meu estado, como profundo psiquiatra que é, perguntou-me logo:

— Que foi que lhe aconteceu?

Contei-lhe então o que ouvira e a forte impressão que aquelas palavras me haviam causado.

— É um caso bem triste aquele, embora passível de cura... (Disse o Dr. Mota, batendo com as hastes dos óculos sobre os dedos.)

— Gostaria de sabê-lo! (disse eu, curioso). O Dr. Mota, mostrando-me uma poltrona, sentou-se noutra, puxou do bolso um alvo lenço de fina cambraia de linho e, limpando os óculos, foi dizendo:

— Eram dois amigos, um médico, outro advogado, que, desde estudantes, havia cerca de oito anos, moravam juntos e conservavam-se solteiros, embora Roberto já fosse noivo, desses noivos crônicos, que subordinam o amar à fortuna que há de vir. Rogério era, porém, cético demais para pensar em casamento. Ótimo estudante de anatomia e cirurgião hábil, tornara-se materialista irredutível, não obstante sua curiosidade cientifica insaciável.

Certo dia, em que Roberto fora ver a noiva, Rogério, a convite de outro amigo, fora assistir a uma sessão espírita, onde diziam haver médiuns de alta qualidade.

Formada a mesa, dois ou três médiuns entraram em transe, sem que qualquer dos espíritos, que se diziam presentes, impressionasse de algum modo o ceticismo de Rogério.

Eis, porém, que um dos médiuns, caído em transe já quase à meia noite, declara ser o espirito de Roberto, do mesmo Roberto amigo de Rogério, que se despedira dele à tarde para ir ver a noiva.

Um sorriso de incredulidade absoluta precedeu as palavras do veemente protesto que Rogério imediatamente apresentou contra aquela farsa, na qual se dizia encarnado o espirito de pessoa que ele sabia estar viva e com a qual conversara quatro horas antes.

Seu protesto causou profunda impressão, e ele da sessão se retirou irritadíssimo, indo imediatamente recolher-se.

Ao chegar, porém, próximo ao prédio de apartamentos em que morava, viu, ainda de longe, uma ambulância do Pronto Socorro, alguns carros do Corpo de Bombeiros e muita gente!... E, ao chegar a casa, soube, pelos curiosos, que houvera uma explosão num apartamento, onde ficara aberto o fogareiro a gás, tendo morrido uma pessoa.

Conseguindo a muito custo chegar até a portaria, soube Rogério que o apartamento incendiado era o em que ele morava; e que a pessoa morta era Roberto, que supunham ter lá entrado riscando algum fósforo.

Rogério, passando a mão pelo rosto, empalideceu e caiu ali mesmo, sem sentidos... Quando, horas depois, voltou a si, já num leito do hospital, Rogério despertou dizendo:

— Pobre Roberto. Foi vítima do meu descuido!

E “Vitima do meu descuido!...”  é a frase que o pobre louco repete sem cessar, tal como você a ouviu (concluiu o Dr. Mota), quando atravessou o pátio.


Fonte: “Careta”, edição de 10 de setembro de 1938.
Imagem: PM/MS.

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VENDETTA - Conto Clássico - Conto Cruel - Thomaz Lopes



VENDETTA
Thomaz Lopes
(1878 – 1913)

No seu gabinete de trabalho, sentado em frente a uma longa mesa atulhada de livros, de lâmpadas, de castiçais, de tinteiros, de facas de papel, de todo esse imenso mundo das pequeninas coisas indispensáveis a um homem que escreve, o dr. Pietro Contese tomava apontamentos em tiras de papel. Defronte da mesa, reclinada numa ampla poltrona, a mulher amamentava um recém-nascido, tão aderente ao seu branco peito como uma parasita a uma arvore moça; duas outras crianças, de cinco e de seis anos, brincavam no tapete com cubos e figuras geométricas de construção. Nas paredes, as estantes tinham um aspecto de solenidade, apinhadas de livros ricamente encadernados; alguns quadros punham manchas claras nos muros. Era toda uma família feliz no meio do doce aconchego doméstico, cercada do conforto que o trabalho dera, sem outra ambição na vida além da continuação daquela ventura.

Era uma linda noite de junho do ano de 1902, uma dessas incomparáveis noites do Rio de Janeiro, fresca, estrelada, perfumada, cheia de volúpia, de um negror profundo e macio como veludo. Pelas janelas abertas entrava o perfume das rosas e dos cravos do jardim; uma aragem excitante vinha da barra; e o silêncio só era interrompido pelo reunir das campainhas dos elétricos passando na rua.

— Meninos, são horas de dormir.

Ao som daquela meiga voz, o dr. Pietro Contese, interrompendo o trabalho, levantou a cabeça, com um sorriso feliz nos lábios onde se espalhavam os fios de um bigode castanho e sedoso.

— Que horas são, Júlia?

— Oito horas.

Ele acendeu vagarosamente um cigarro e, olhando para as duas crianças, reiterou com suavidade a ordem materna:

—Ah! Então são horas, filhinhos, vão dormir.

A voz condizia com a sua expressão de bondade simples mas enérgica, com o seu todo apaixonado e calmo; e percebia-se-lhe ainda um iniludível sotaque italiano. Os meninos, com uma obediência risonha, foram oferecer as faces coradas aos beijos de Júlia e de Pietro, e abraçados saíram do gabinete. Ele então se levantou, encaminhou-se para a mulher, depôs-lhe um beijo na fronte, acariciou os pesinhos do recém-nascido, e, ao voltar à sua mesa, parou um momento junto a uma das estantes para endireitar na parede o equilíbrio de um quadro representando Napoleão a cavalo. Mas ao reocupar a cadeira em frente aos papeis esparsos, o fio das ideias não voltou imediatamente, pois que, com a cabeça apoiada na mão esquerda, a pena imóvel sobre o papel rabiscado, ficou numa profunda meditação. Nem ouviu a mulher que saiu carregando nos braços a criança adormecida.

Se houvesse uma expressão material para apresentar a evocação de um pensamento, o estado cismático de Pietro seria simbolizado por um casto quadro surgindo das névoas da recordação. Diante dos cílios fechados, nesse nevoeiro transparente da memória, ele via crescendo a sua querida Córsega, ilha bem-amada, para sempre perdida e inacessível, a terra da sua infância livre e despreocupada, onde brincava com seus irmãos como os seus filhos brincavam agora. Eram as montanhas escarpadas e íngremes, era o mar translúcido do Mediterrâneo, e através desse mar misterioso eram as terras do Continente aparecendo nos dias claros, destacando-se entre o céu e as águas no revérbero da luz. Eram depois os primeiros tempos da escola, as horas enfadonhas das aulas, os minutos deliciosos do recreio. E via, nitidamente via como coisas palpáveis, a grande sala de estudo do colégio, com uma lousa negra no recanto de duas janelas, as paredes cheias de cartas geográficas, o jardim, as duas árvores viçosas que no verão se cobriam de folhas e de pássaros. Povoando esse canto amado da pátria, surgiam quase todos os colegas; e recordava-se das suas fisionomias, lembrava-se do som das suas vozes, como se os estivesse vendo, como se na véspera tivesse brincado com eles. Entre a turba alegre, três meninos havia que mais se destacavam na triste evocação desse passado perdido, involuntariamente rememorado naquela noite límpida de junho: eram os seus irmãos, os seus três pobres irmãos mortos no mesmo dia, quase na mesma hora, sacrificados à barbaridade da vendetta. Fora numa noite assim calma e tranquila, numa surpreendente noite de agosto, que o velho Giuseppe reatara as vinganças adormecidas entre as duas famílias Caruccio e Contese. Pietro acordara à meia-noite, ouvindo gritos lancinantes que vinham do quarto vizinho ao seu, o quarto em que dormia a sua pobre mãe viúva com seus dois irmãos mais moços. Seu outro irmão, companheiro no mesmo aposento, levantou-se sobressaltado, e, em camisola, fugiu do quarto. Pobre criança! Quando Pietro transpôs por sua vez a porta, passou por cima do seu corpo ensanguentado. Outro espetáculo doloroso, porém, pregou-o gelado de espanto no limiar da alcova materna: sobre o grande leito, a sua velha mãe jazia num mar de sangue; envoltos na mesma onda de púrpura, os dois irmãos tinham acabado de morrer aos pés do velho leito. Com um misto de timidez e assombro, deu dois passos e certificou-se então que sua mãe ainda tinha vida. Salvá-la foi o seu pensamento. Aproximou-se dela, tomou-lhe as mãos inermes, olhou-a fixamente com um olhar parado, e sentiu faltar-lhe sob os dedos a vida daquele corpo amado. Os seus olhares se encontraram e a velha pôde apenas murmurar numa última golfada de sangue: "Foi o Giuseppe Caruccio. Vinga-nos!". E morreu. Pietro beijou-lhe a fronte, acendeu duas velas à cabeceira, fez o sinal da Cruz, e com uma resolução súbita saiu do quarto sem olhar para trás. Durante uma semana, viveu na montanha, abeirando-se dos caminhos, sondando a treva, acariciando a espingarda vingadora. Nenhuma vez chorara; sentia que nos olhos incendiados pela febre do ódio não podiam correr as lágrimas — como na seca ficam as pedras enxutas. E ele não vinha! Fugira talvez o miserável, escondera-se, partira da Córsega talvez... Mas nem que fosse no fim do mundo, havia de matá-lo! Uma tarde, ao crepúsculo, um vulto descia o declive da montanha; vinha num passo cauteloso, olhando para um lado e para outro, olhando para trás, sondando a sombra que as árvores projetavam. Era ele, era Giuseppe Caruccio. A voz da mãe moribunda ressoou distintamente aos seus ouvidos: "Foi o Giuseppe Caruccio. Vinga-nos!" Um tiro partiu, dois braços se elevaram no ar, um corpo precipitou-se de bruços no declive da estrada, fulminado com uma bala no coração. E Pietro fugiu da Córsega. Dois meses depois, embarcava em Gênova com direção a Buenos Aires. Aí ganhou algum dinheiro; um dia, vendo na rua um homem que o olhou com uma curiosidade estranha, teve medo e fugiu para o Chile, atravessando a Cordilheira dos Andes. O resto não tinha mais importância; trabalhara, estudara, formara-se em Medicina; e, seduzido pelo Brasil, viera instalar-se no Rio de Janeiro. Alguns anos mais tarde casou com uma moça de boa família, mais pelo prestígio que entre nós se empresta a quase todos os estrangeiros do que pelas suas belas qualidades desconhecidas. Era agora um homem de quarenta e dois anos, rico, bem considerado, pai de três filhos e dono de uma vasta clínica.

— Só agora foi que o pequeno conseguiu dormir!

Ele levantou a cabeça como quem acorda de um pesadelo; e ante a suavidade da aparição de Júlia, todos os túmulos, perdidos num passado de quase trinta anos, fecharam-se como por encanto. Fora quem lhe fizera a felicidade, quem lhe ensinara que há no coração humano outros sentimentos além do ódio e da vingança, quem lhe dera três rebentos da sua vida, três filhos salvos pela distância, pelo tempo e pelo esquecimento da vendetta dos Caruccio. Nela e nos filhos resumira todo o seu ideal; e nada mais queria do que viver sempre ao seu lado na pátria adotiva que escolhera, tão grande, tão generosa, tão protetora como um tranquilo seio materno.

Pietro levantou-se outra vez, sentou-se ao lado de Júlia, tomou-lhe as mãos que cobriu de beijos, inebriado por uma incomparável ventura. Eram sempre assim as suas noites de trabalho: levantava-se a cada instante para acariciá-la como se sem Júlia encontrasse a fonte perene de coragem e de esperança. Havia no seu amor pela mulher uma gratidão profunda, uma adoração quase religiosa pela discrição com que o tratava, com que indagara da sua vida nos primeiros meses do casamento. Ele lhe contara vagamente a sua infância, o tempo passado na Córsega, a morte da mãe e dos irmãos num desastre, a necessidade que tivera de partir para o Chile a fazer fortuna. Escondera-lhe o crime, escondera-lhe a vendetta. Mentira. Oh, que encantadora mentira! A brasileira, dez anos mais moça do que ele, nascida no Rio de Janeiro, educada num colégio de religiosas, jamais compreenderia a alma corsa com a vendetta — o seu segundo batismo. Pietro sabia bem que perderia a sua estima se ela o soubesse manchado de sangue. E que seria a sua vida sem o amor daquela criatura? Era melhor a mentira porque Júlia o amava com o respeitoso carinho que os infelizes merecem. À meia-noite ele ainda escrevia, enquanto ela, reclinada na poltrona, lia atentamente um romance. De repente, o barulho de uma queda e o som esfarelado de vidros que se quebram fizeram-nos estremecer e interromper o trabalho.

— Mau presságio! — murmurou Pietro, apanhando o quadro de Napoleão que caíra da parede.

— Que tolice! — exclamou Júlia. — Hás de ser sempre supersticioso como um italiano!

Ele sorriu como para desanuviá-la, mas sentiu desde logo um grande aperto no coração. E, apesar de habituado aos chamados imprevistos da noite, estremeceu de novo ouvindo a campainha que retinia no corredor.

—É chamado — disse Júlia.

— Ha três noites seguidas que me interrompem! Decididamente, este meu trabalho está encantado.

Dez minutos depois ele chegava à porta do jardim em companhia do rapazola que o fora chamar. Àquela hora, a praia do Russel estava deserta; defronte, no mar, brilhava a iluminação de Niterói, luziam faróis nas fortalezas e nos navios.

— Mas onde é que está o homem? — indagou Pietro.

—No aterro, sr. doutor, no aterro da curva. É ali adiante. Ele vinha comigo rindo, brincando, e de repente parou com uma dor no coração e caiu.

— Ha muito tempo?

— Haverá meia hora talvez.

— É rapaz como você?

— Não, sr. doutor! É homem para mais de quarenta anos.

— Que diabo! Então vamos depressa que pode ser uma síncope cardíaca. Foi ele que se lembrou do meu nome?

—Foi ele, sim. Apontou a casa do sr. doutor e disse o número. Olhe, lá está ele, sr. doutor. Não vê aquele vulto deitado?

—Bem, bem! Você agora vai me buscar um tílburi para transportar esse homem. Aqui na Glória deve haver.

E, sozinho, aproximou-se do vulto que jazia na noite escura. Ajoelhou-se para lhe tomar o pulso, debruçou-se para auscultá-lo, mas imediatamente sentiu que um punhal lhe varava o coração, ao mesmo tempo que uma voz patrícia lhe aclarava a agonia:

—Agora tua mulher e teus filhos! Lembra-te de Giuseppe Caruccio!...

Fonte: Kosmos (RJ), edição de dezembro de 1907.

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UM ESTRANHO SUICÍDIO - Conto Clássico de Morte e Mistério - Eximí Opfalas



UM ESTRANHO SUICÍDIO
Eximí Opfalas
(Pseudônimo de autor desconhecido do séc. XX)

Eram quase duas horas da madrugada quando os policiais de ronda, nas cercanias de Curzon street e Queen street, em Londres, ouviram três tiros que pareciam ter partido do Hotel Washington, que fica na esquina daquelas duas ruas.

Um dos policiais, ao aproximar-se do hotel, viu ali entrar um homem que parecia fugir. E, com outro policial, que vinha de Picadilly pela Hall-Moon street, entrou no hotel de arma engalhada.

Ao entrarem no vestíbulo, viram os policiais que o homem, que para ali correra, galgava, apressado, os primeiros degraus escada. Súbita intimação dos policiais o fez parar. Era um homem de aspecto abatido, mas vestido com elegância. Trazia no bolso do smoking um revólver ainda quente. Dos cinco cartuchos, três haviam sido detonados momentos antes. Algemado e interrogado, disse chamar-se John Sallisbury, com 35 anos de idade, celibatário, sem profissão, domiciliado naquele mesmo hotel. Confessou que matara um homem na esquina da Clarges street depois de uma discussão.

De fato, ali estava um indivíduo morto, com ferimentos de bala no crânio. Feita a autópsia, notaram os médicos legistas que, além dos três ferimentos provenientes das balas do revólver de Sallisbury, havia outro, à primeira vista imperceptível, que parecia praticado com fino estilete e que trespassara o coração da vítima. Mas os ferimentos das balas de Sallisbury eram mais que suficientes para causar a morte. Algumas equimoses também indicavam que a vítima havia lutado.

Interrogado Sallisbury novamente, negou qualquer cumplicidade. Assumia inteira responsabilidade pelo assassínio. A polícia não pôde descobrir a arma perfurante nem o portador.

A vítima, que se chamava Donald Fay, era cobrador de um banco; mas, na véspera daquele dia, havia prestado contas exatas do dinheiro que tinha em seu poder, o que afastava a hipótese de latrocínio. Mas a justiça inglesa é inexorável. Quem mata, sem ser em legitima defesa comprovada, deve morrer.

Não obstante a habilidade do advogado em reclamar esclarecimentos sobre o ferimento no coração, a confissão do acusado e a comprovação dos ferimentos a bala terem sido feitos pela arma encontrada em suas mãos, John Sallisbury foi condenada à morte.

Marcado o dia da execução, ministrados os últimos confortos ao condenado e perguntada qual a sua última vontade, Sallisbury apresentou ao carcereiro uma carta endereçada a Sydney Holly, em Dublin, pedindo que a enviassem ao destinatário logo após à sua morte, pois aquela missiva continha as expressões de última vontade. No mesmo dia, foi Sallisbury executado e sua derradeira carta enviada ao destinatário.

Dois dias depois, o Presidente do Tribunal que Condenara John Sallisbury recebeu de Sydney Holy a seguinte carta:


“My Lord Presidente.

Cumprindo a última vontade do meu finado amigo de infância John Sallisbury, condenado à morte por esse Tribunal, tenho a honra de enviar-vos a carta inclusa.

Com os comprimentos do obediente servo, verdadeiramente vosso.

Sidney Holly”.


A carta escrita pelo condenado, em letra cursiva e clara, era a seguinte:


“My Lord Presidente.
A sentença condenatória desse Tribunal, e que me tirará a vida, não poderá ser mais revogada ao lerdes esta carta. Todavia, a bem da Justiça de Sua Majestade Britânica, cabe-me prestar alguns esclarecimentos sobre o assassínio de Donald Fay, a fim de que apareça à luz da verdade a minha exata culpa.

Conforme apurou a polícia, e eu mesmo declarei, a minha vida era ultimamente pesado fardo. Fiquei, pois, em absoluta miséria, após ter dissipado uma herança 50.000 libras. Resolvi, por isso, suicidar-me. Com as últimas duas libras que possuía, comprei o revólver e as balas encontradas pela polícia em meu poder. Mas, ao voltar para casa — considerando, por medo ou por fé, que, se eu me suicidasse, não teria sepultura em solo cristão, nem seria recebido no Reino de Deus — vi, próximo ao hotel, dois indivíduos hercúleos agredindo outro!

Corri em socorro da vítima, sem mesmo lembrar-me de que possuía um revólver, pois não tinha o hábito de usar armas.
Os agressores fugiram. E, quando me acerquei da vítima, verifiquei que ela estava morrendo. Aquela morte inesperada fez-me voltar à mente a ideia do suicídio. Atentamente, examinei o homem tombado e verifiquei que ele não apresentava nenhum sinal de vida... E que se eu fosse considerado o assassino, seria condenado à morte. Movido não sei por que força, que não pude dominar, saquei o revólver e atirei para crânio do morto. Vendo policiais aproximarem-se, tentei fugir, já arrependido do que havia feito... Mas, preso, voltou-me à cabeça o plano que arquitetara e que logrou êxito, pois fui condenado e serei executado pela Justiça de Sua Majestade Britânica, que, assim, me permitirá um suicídio sem pecado.

Muito verdadeiramente Vosso

John Sallisbury.”


Fonte: Careta, edição de junho de 1938.


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O MENDIGO - Conto Cruel - Guy de Maupassant



O MENDIGO
Guy de Maupassant
(1850 - 1893)


Ele conhecera dias mais felizes, apesar do estado de miséria e de doença em que ora se encontrava.

Na idade de quinze anos, ficara com as pernas esmagadas por uma carruagem, na estrada real de Varville. Desde então mendigou, arrastando-se ao longo dos caminhos, através dos pátios das quintas, balouçado nas muletas, que lhe tinham feito levantar os ombros à altura das orelhas. A sua cabeça dir-se-ia enterrada entre duas montanhas.

Enjeitado, encontrado num fosso pelo cura de Billette, na véspera do dia de Finados, e batizado, em razão disso, Nicolas Toussaint, educado por caridade, ficara estranho a todo e qualquer grau de instrução, estropiado depois de ter bebido alguns copos de aguardente oferecidos pelo padeiro da aldeia, para que ele fizesse rir, não tardou em dar em vagabundo, e mais nada sabia fazer do que estender a mão à caridade.

Outrora, a baronesa d'Avray concedia-lhe, para dormir, uma espécie de nicho cheio de palha, ao lado do galinheiro, na herdade que se ligava ao castelo. E ele ali estava ao abrigo, certo de, nos dias de grande fome, encontrar sempre um pedaço de pão e um copo de cidra na cozinha. Muitas vezes, recebia também alguns sous atirados pela velha senhora do alto da sua escadaria ou das janelas do seu quarto. Porém, ela morrera.

Nas aldeias, não lhe davam nada: conheciam-no por demais; estavam fartos de o ver; havia quarenta anos que o viam passear a deformidade de seu corpo andrajoso sobre as suas duas patas de madeira.

Todavia, ele não queria deixar aqueles sítios, porque não conhecia outra coisa sobre a Terra a não ser aquele canto de país, aquelas três ou quatro aldeias onde arrastara a sua vida miserável.

Marcara fronteiras à sua mendicidade e não teria nunca passado os limites que se acostumara a não ultrapassar.

Ignorava se o mundo se estenderia ainda muito para além das árvores que sempre tinham servido de limite à sua vida. Nem sequer o perguntava a si próprio. E quando os camponeses, cansados de o encontrarem todos os dias à beira dos seus campos ou ao longo dos seus fossos, lhe gritavam: — Porque não vais tu para as outras aldeias, em lugar de andares sempre a muletar por aqui? —, ele não respondia, e afastava-se, tomado de um medo vago pelo desconhecido, de um medo de pobre que receia confusamente mil coisas, as novas caras, as injurias, os olhares de desconfiança e suspeita das pessoas que o não conheciam, e os gendarmes que vão dois a dois pelas estradas e que o faziam esconder, por instinto, nas moitas ou por detrás das pedras.

Quando os via de longe, reluzentes ao sol, encontrava de repente uma agilidade singular, uma agilidade de monstro, para alcançar qualquer esconderijo. Saltava nas muletas, e deixava-se cair à maneira de um trapo, rolando como uma bola, tornando-se pequenino, invisível, acaçapado como uma lebre na sua loca, confundindo os seus trapos ruços com a terra.

Ele não tivera, no entanto, nada com eles. Mas aquilo estava-lhe na massa do sangue, como se houvesse recebido aquele temor e aquela manha dos seus ascendentes, que não conhecera.

Não tinha refúgio, nem teto, nem cabana, nem abrigo. Dormia por toda a parte, quer de verão quer de inverno, e introduzia-se nas granjas ou nos estábulos com uma ligeireza notável. E raspava-se sempre antes que houvessem dado pela sua presença. Conhecia os buracos para penetrar nas construções; e o manejar das muletas havia-lhe dado aos braços um vigor tão surpreendente, que trepava só à força de pulso até os celeiros de forragens, onde se conservava quatro ou cinco dias sem bulir, quando havia recolhido no seu giro as provisões suficientes.

Vivia como os animais dos bosques no meio dos homens, sem conhecer ninguém, sem amar ninguém, não excitando aos camponeses mais que uma espécie de desprezo indiferente e de hostilidade resignada. Tinham-lhe posto a alcunha do “Sino” porque se balouçava, entre as suas duas muletas de pau, como um sino se balouça entre os seus suportes.

Havia dois dias que não comia. Ninguém já lhe dava nada. Por fim, nem já o queriam ver. Os camponeses, dos seus portais, gritavam-lhe quando o viam chegar:

— Vê lá se te queres pôr a andar, tonante! Ainda não há três dias que te dei um bocado de pão!

E ele girava sobre as suas estacas e dirigia-se à casa vizinha, onde o recebiam da mesma maneira.

As mulheres declaravam de porta para porta:

— Mas é que a gente não pode dar de comer a este mandrião todo o ano.

Todavia, o mandrião tinha necessidade de comer todos os dias.

Tinha percorrido Saint-Hilaire, Varville e les Billettes, sem recolher um cêntimo nem uma simples côdea. Só lhe restava uma esperança: era, Tournolles; mas era-lhe preciso caminhar ainda duas léguas pela estrada real, e sentia-se cansado a ponto de não poder arrastar-se mais, tendo o ventre tão vazio como a algibeira.

Apesar de tudo, pôs-se em marcha.

Era em dezembro, um vento frio percorria os campos, sibilava nos ramos nus; e as nuvens galopavam através do céu baixo e sombrio, apressando-se não se sabe para onde. O estropiado caminhava lentamente, deslocando os seus suportes um após outro com penoso esforço, escorando-se na perna torcida que lhe restava, terminada por
um pé aleijado e calçado por um trapo.

De tempos a tempos, sentava-se no fosso e descansava alguns minutos. A fome punha uma grande mágoa na sua alma confusa e pesada. Ele só tinha uma ideia: “comer”, mas não sabia por que meio.
Durante três horas, penou na comprida estrada; depois, quando avistou as arvores da aldeia, apressou os seus movimentos.

O primeiro lavrador que encontrou e ao qual pediu esmola, respondeu-lhe:

— Tu ainda por aqui? Velho marau! Então eu nunca me verei livre de ti?

E o “Sino” afastou-se. De porta em porta, correram-no, recambiaram-no, sem lhe darem nada. E ele continuava, apesar disso, o seu giro, paciente e obstinado. Não recolheu um centavo.

Então visitou as herdades, caminhando através das terras amolecidas pelas chuvas, por tal forma extenuado que nem sequer podia levantar as muletas. Escorraçavam-no de toda a parte. Era um desses dias frios e tristes em que os corações se fecham, em que os espíritos se irritam, em que a alma está sombria, em que a mão não se abre nem para dar nem para socorrer.

Quando acabou de visitar todas as casas que conhecia, foi cair ao canto de uma vala, ao longo do pátio do tio Chiquet. Despegou-se, como se dizia, para exprimir a maneira por que se deixava cair de entre as muletas, que fazia escorregar por debaixo dos braços. Ficou por largo tempo imóvel, torturado pela fome, mas era muito bruto para que pudesse penetrar a sua insondável miséria.

Esperava não se sabe o quê, naquela vaga esperança que existe constante em nós.

Esperava no canto daquele pátio, sob o vento gelado, o auxílio misterioso que se espera sempre do céu ou dos homens, sem que se saiba como, nem por quê, nem por quem ele nos poderá chegar. Passava um bando de galinhas pretas, buscando a sua vida na terra que alimenta todos os seres. A cada instante, picavam com uma bicada um grão ou um inseto invisível, depois continuavam a sua busca lenta e segura.

O “Sino” olhava para elas sem pensar em nada; depois veio-lhe, mais ao ventre que propriamente à cabeça, mais à sensação que à ideia, que um daqueles animais seria bom para comer assado no borralho de uns troncos secos. A suposição de que ia cometer um furto nem de leve roçou pelo seu espírito. Pegou numa pedra que se achava ao alcance da mão, e, como a tinha pontaria, matou redondamente, atirando logo por terra a ave que estava mais próxima. O animal caíra de flanco, remexendo as asas.

As outras fugiram, balouçando-se nas suas patas delgadas, e o “Sino”, escalando novamente as suas muletas, pôs-se em marcha para apanhar a sua caça, com movimentos iguais aos das galinhas.

Ao chegar perto do pequeno corpo preto, manchado de vermelho na cabeça, recebeu um empurrão terrível pelas costas, que o fez cair das muletas e o fez rolar a dez passos para a frente.

E o tio Chiquet, exasperado, precipitando-se sobre o gatuno, encheu-o de pancadas, batendo como um furioso, como bate um camponês roubado, com o punho e com o joelho por todo o corpo do enfermo, que não podia defender-se.

As pessoas da herdade chegaram por sua vez e puseram-se com o patrão a sovar o mendigo. Depois, quando se cansaram de bater, agarraram-no, levaram-no e fecharam-no na casa da lenha, enquanto iam à cata dos gendarmes.

“Sino”, meio morto, sangrando e estourando de fome, ficou deitado no chão. Chegou a tarde, veio a noite, depois a aurora, e ele sem comer.

Pelo meio dia, os gendarmes apareceram e abriram a porta com precaução, esperando uma resistência, porque o tio Chiquet dizia ter sido atacado pelo vadio e ter-se defendido a grande custo.

O cabo bradou:

— Vamos! Leva arriba!

Mas “Sino” não se podia mexer. Ainda tentou içar-se nos seus suportes, mas não o conseguiu. Julgaram que era fingimento, que era manha, que era má vontade do malfeitor, e os dois homens armados trataram-no asperamente, empunharam-no e plantaram-no à força sobre as muletas.

O medo apossara-se dele, aquele medo inato que os desgraçados têm das correias militares, o medo da caça em presença do caçador, do rato diante do gato. E, com esforços sobre-humanos, lá conseguiu pôr-se em pé.

 — Marche! — disse o cabo.

Ele marchou. Todo o pessoal da herdade o via partir. As mulheres mostravam-lhe o punho; os homens chacoteavam-no, injuriavam-no: tinham-lhe dado fim! Estavam livres.

Ele afastou-se entre os dois guardas. Achou a energia desesperada que lhe era necessária para se arrastar ainda até a noite, embrutecido, não sabendo nem sequer o que lhe sucedia, assustado por demais para que pudesse compreender.

As pessoas que o encontravam detinham-se para o ver passar, e os camponeses murmuravam:

— É algum ladrão!

Pela noitinha, chegaram à comarca. Ele nunca tinha ido até ali. Não dava verdadeiramente conta do que se passava nem do que lhe podia acontecer. Todas aquelas casas novas o consternavam.

Não pronunciou mais uma palavra, nada tendo a dizer, porque nada compreendia. Desde muitos anos que não falava com ninguém, por isso quase perdera o uso da linguagem; e o seu pensamento estava também muito confuso para poder formular palavras. Encerraram-no na prisão da vila. Os gendarmes não pensaram em que ele poderia ter vontade de comer, e deixaram-no até o outro dia.

Mas, quando vieram para o interrogar, logo de manhãzinha, acharam-no morto, no chão.

Que surpresa!


Tradução de autor desconhecido.
Fonte: “O Careta”, 1912, ed. nº 0196.
Imagem: Carlos Reis (1863 – 1940).



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