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Mostrando postagens com o rótulo Conto Cruel

A CORDA - Conto Clássico Cruel - Charles Baudelaire

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A CORDA Charles Baudelaire (1821 – 1867) Tradução de autor anônimo do séc. XX   A Édouard Manet.   — As ilusões — dizia-me um amigo — são talvez tão inumeráveis quanto as relações dos homens entre si, ou dos homens com as coisas. E quando a ilusão desaparece, isto é, quando vemos o ser ou o fato tal como ele existe fora de nós, experimentamos um estranho sentimento, misto de saudade do fantasma desaparecido e de agradável surpresa ante a novidade, ante o fato real. Se existe um fenômeno evidente, trivial, sempre semelhante, e sobre cuja natureza seja impossível a gente enganar-se, é o amor materno. Mãe sem amor materno é coisa tão difícil de imaginar, como luz sem calor; não é, portanto, inteiramente legítimo atribuir ao amor materno todas as ações e as palavras de uma mãe, relativas a seu filho? Entretanto, escutem esta pequena história, em que fui singularmente mistificado pela ilusão mais natural. Minha profissão de pintor leva-me a fitar atentamente os rostos, as fisionomi...

A TAÇA MACABRA - Conto Clássico Cruel - Margarida de Navarra

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A TAÇA MACABRA Margarida de Navarra (1492 – 1594) O rei Carlos VIII enviou à Alemanha um fidalgo chamado Bernage, senhor de Sivray, perto de Amboise. Para chegar rapidamente ao seu destino, viajou dia e noite. Chegou, assim, bem tarde da noite, ao castelo de um cavalheiro, onde pediu alojamento. Esta esta solicitação, contudo, não foi facilmente acolhida pelos criados. Sabendo o cavalheiro que o fidalgo visitante era vassalo de um rei tão importante, a ele encaminhou-se e implorou que não levasse a mal a aspereza de seus criados, visto que era obrigado a manter a sua casa fechada, porquanto certos parentes de sua esposa queriam fazer-lhe mal. Bernage explicou-lhe a natureza da missão à qual se ofereceu para atender aos interesses, na medida do possível, do seu rei. Prontamente, foi conduzido ao interior da casa, onde o gentil-homem o recebeu com honras e o hospedou. Era hora do jantar. O cavalheiro conduziu o visitante a um elegante salão, decorado com belas tapeçarias. Assim...

OS QUATRO LADRÕES - Conto Clássico Cruel - Frei Hermenegildo de Tancos

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OS QUATRO LADRÕES Frei Hermenegildo de Tancos (Séc. XIV) Contam as histórias antigas que em Roma havia quatro ladrões. E andando uma noite a furtar, sentiram a justiça e fugiram e esconderam-se em uma cova. E quando a luz veio, acharam-se em uma casa de abóboda mui formosa. E acharam nela um mausoléu de mármore mui formoso. E disseram entre si: — Este mausoléu foi de algum homem nobre e rico. Abramo-lo e vejamos se acharemos algum bem, que em outros tempos acostumavam soterrar os grandes homens com bens e cousas de grande preço. Então abriram o mausoléu e acharam o mausoléu cheio d’ouro e prata e de pedras preciosas e de vasos de copas d’ouro mui formoso. E entre eles estava uma copa mui formosa, e maior que todas as outras. Quando isto acharam, disseram entre si: — Ora, somos nós ricos e de boa ventura, e seremos ricos pera sempre nós e nossos filhos, mas será bem que algum de nós fosse à vila por vianda. E cada um se escusava, dizendo que era conhecido em a cidade e se t...

O POETA - Conto Cruel - Ângelo Brea

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O POETA Ângelo Brea Já levava vários meses internado no campo de prisioneiros da ilha de São Simão, em plena ria de Vigo. É triste que converteram esta ilha mítica para nossa cultura, no marco incomparável onde se desenvolveram os poemas de Martim Códax ou de Meendinho, num campo de sofrimento e de repressão. Desde que começara a guerra tinha visto como chegavam e saíam de aqui centos de pessoas. Conhecia alguns prisioneiros de vista. Mesmo passou por aqui um amigo da infância, do qual me despedi como se nunca fôssemos voltar a ver-nos. Quase todos eram desta zona, de Vigo, de Moanha, de Cangas, de Ponte-vedra, de Redondela… Nos primeiros meses tinham trazido muitas pessoas ao campo de prisioneiros da ilha, mas agora apenas ficamos aqui umas dúzias. Supus que os evacuados seriam transladados a outras prisões ou, talvez, assassinados. Ao princípio não sabia a razão por que me mantinham com vida neste terrível lugar e não me transladavam (ou porquê ainda não me mataram). Mas depois...

O RECORDISTA - Conto Cruel - Marco Eugenio Sánchez Arrate

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O RECORDISTA Marco Eugenio Sánchez Arrate Tradução de Paulo Soriano Minha casa, a casa de família, herdada dos meus pais, a mansão Bartozzi, incendiou-se. A dor por tão triste perda oprime-me. Quantas recordações e velhas relíquias do sobrenome — armaduras suíças, o casaco bufante do condottiero Bartozzi, os bestiários medievais do mosteiro de Menz — extinguem-se com aquela casa, agora envolta nas chamas vorazes. Mas o quer? É preciso fazer certos sacrifícios quando se quer se livrar de parentes problemáticos. Ouço os seus gritos desesperados, batendo nos portões trancados, enquanto atiro a lata da gasolina para o relvado do jardim. Demasiadamente jovem para herdar tudo, diziam os meus primos mais velhos, os ambiciosos, os meus tutores e quase donos pela graça de um testamento esfarrapado. Agora os meus tenros onze aninhos não serão um obstáculo. Nós, os Bartozzi, somos precoces. Dizem que o condottiero matou o pai aos catorze anos, nos tempos do papa Bórgia. E acho que ac...

O BEBÊ DE TARLATANA ROSA - Conto Clássico de Horror - João do Rio

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O BEBÊ DE TARLATANA ROSA João do Rio (1881 – 1921)     — Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura... E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade. Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto. — É uma aventura alegre? — indagou Maria. — Conforme os temperamentos. — Suja? — Pavorosa ao menos. — De dia? — Não. Pela madrugada. — Mas, homem de Deus, conta! — suplicava Anatólio. —...