ARTIGO DE PAULO SORIANO NO PLG: GUILHOTINA



ARTIGO DE PAULO SORIANO NO PLG: GUILHOTINA 

“Quem nunca ouviu dizer que “Guillotin, o inventor da Guilhotina, morreu guilhotinado”?

Mas há dois equívocos nessa breve assertiva que, de tão disseminada e repetida, parece conter uma verdade inexpugnável.

Em primeiro lugar, não é certo que o médico e político francês Joseph-Ignace Guillotin (1738 – 1814) tenha inventado a máquina de decapitação que, contra a sua vontade, levou o seu nome. O aparelho, largamente usado na época da Revolução Francesa — pano de fundo do maravilhoso “Conto de Duas Cidades”, de Dickens (1812 – 1870) —, já existia há séculos quando o médico, por questões humanitárias, sugeriu o seu uso às autoridades revolucionárias.

Foram percussoras da guilhotina, tal como nós a conhecemos, diversas máquinas de decapitação semelhantes, empregadas desde — pelo menos — o século XVI na Alemanha, Escócia, Irlanda, Inglaterra e  Itália.

Até a Revolução, a grande maioria de franceses sentenciados à pena capital era cruelmente executada. Executava-se a gente da plebe por meio  do estrangulamento, da forca, da roda, do esquartejamento, da fogueira, do cozimento em caldeirão, dentre outros métodos sumamente aflitivos. Supliciavam-se os plebeus, também, pela mais piedosa decapitação, mas com o emprego exclusivo do machado. Não raras vezes, porém, esse instrumento — quer porque não amolado a contento, quer em razão da inabilidade do carrasco — não cumpria o seu mister logo ao primeiro golpe, de molde a prolongar, desnecessariamente, o padecimento do infeliz sentenciado. À nobreza — que até na morte recobria-se de regalias — era reservada a  “prerrogativa” da decapitação pela espada, instrumento considerado mais eficiente que o machado...”

 Em WASHINGTON IRVING, GUILHOTINA E HORROR, artigo publicado no Portal Galego da Língua (PGL), de Santiago de Compostela, Galiza, PAULO SORIANO desmitifica lendas associadas à terrível máquina da morte e brinda o leitor com a tradução de uma obra-prima do terror do grande escritor norte americano.

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O ALQUIMISTA - Conto Clássico de Terror - H. P. Lovecraft



O ALQUIMISTA

H. P. Lovecraft

Tradução de Renato Suttana

 

No alto, coroando o topo gramado de um morro cujos flancos, próximo à base, são guarnecidos pelas árvores de galhos retorcidos da floresta primeva, situa-se o velho chateau de meus ancestrais. Durante séculos, suas ameias altíssimas têm vigiado a paisagem selvagem e irregular à sua volta, servindo de lar e de refúgio para a casa altiva cuja honorável linhagem é mais velha do que as muralhas do castelo que o musgo recobre. Essas torres antigas, batidas durante gerações inteiras pelas tempestades e que aos poucos vão cedendo à lenta mas incoercível pressão do tempo, compuseram na época do feudalismo uma das mais temidas e formidáveis fortalezas de toda a França. Das suas galerias, parapeitos e ameias, barões e condes e mesmo reis foram desafiados, sem que em seus largos vestíbulos jamais tivesse ressoado o som dos passos do invasor.

 Mas, desde aqueles dias gloriosos, tudo mudou. Uma pobreza pouco mais que remediada, somada a um orgulho de casta que proíbe aliviá-la com recurso aos expedientes comerciais, impediu os descendentes de nossa casa de conservarem o antigo esplendor de suas propriedades; e o aspecto decadente dos muros, a vegetação crescida dos parques, o fosso seco e pedregoso, os pátios mal pavimentados, as torres arruinadas, bem como os pisos destruídos, os lambris carcomidos e as tapeçarias gastas, tudo conta a triste história de uma grandeza decadente. Enquanto as épocas passavam, primeiro uma, depois outra das quatro grandes torres desmoronou, até que finalmente restou apenas uma para abrigar os descendentes daqueles que um dia foram os poderosos senhores da propriedade.

Foi numa das câmaras amplas e depressivas dessa torre remanescente que eu, Antoine, o último dos infelizes e malditos condes de C***, vi pela primeira vez a luz do dia, há noventa longos anos. Entre estes muros e em meio às florestas negras e sombrias, às ravinas selvagens e às grutas da encosta abaixo, transcorreram os primeiros anos de minha tormentosa vida. Meus pais, eu nunca os conheci. Meu pai morreu quando tinha trinta e dois anos, um mês antes de eu nascer, atingido por uma pedra que de algum modo se desprendeu dos parapeitos desertos do castelo. E, tendo minha mãe morrido quando nasci, minha educação e minha formação ficaram a cargo do único serviçal que restou, um homem velho e fiel, de considerável inteligência, cujo nome – lembro-me – era Pierre. Sendo filho único, a falta de companhia que isso acarretou para mim foi acrescentada pelo cuidado estranho que meu velho protetor me dedicava, afastando-me dos filhos dos camponeses cujas moradias se espalhavam aqui e ali pelos plainos que rodeiam a base da colina. Naquele tempo, Pierre disse que tal restrição era imposta sobre mim porque minha ascendência nobre me colocava acima das associações com tão plebeia companhia. Agora sei que seu real objetivo era manter distante de meus ouvidos certas histórias acerca da temível maldição que pende sobre nossa linhagem, histórias que eram contadas à noite e aumentadas pela raia miúda, entre sussurros à luz de suas lareiras.

 Assim, isolado e deixado à própria sorte, passava eu as horas de minha infância debruçado sobre os velhos tomos que enchiam a penumbrosa biblioteca do chateau, ou a perambular sem destino e sem propósito através das sombras perpétuas da mata espectral que circunda o lado da colina próximo à base. Foi talvez por um efeito de tais deambulações que minha mente adquiriu, muito cedo, certa tonalidade melancólica. Aqueles estudos e perquirições que se voltam para o que há de escuro e de oculto na natureza atraíram fortemente a minha atenção.

Sobre minha própria raça foi-me permitido aprender bem pouco. No entanto, por menor que fosse, tal conhecimento me oprimiu bastante. Talvez tenha sido no princípio apenas a relutância de meu velho preceptor em discutir comigo sobre minha ascendência paterna que deu origem ao terror que sempre senti à simples menção de minha grande casa, porém à medida que fui crescendo tornei-me capaz de ajuntar fragmentos esparsos de discurso, involuntariamente escapos de uma língua que a senilidade começava a trair, os quais tinham algum tipo de relação com certa circunstância que sempre considerei estranha, mas que logo se tornou sombria e terrível. A circunstância a que aludo é a idade precoce na qual todos os condes de minha linhagem encontraram o seu fim. Enquanto até então considerei isso como sendo apenas o atributo natural de uma família de homens que morriam jovens, ponderei depois, longamente, sobre essas mortes prematuras e comecei a conectá-las com as tresvariações do velho, o qual falava frequentemente de uma maldição que durante séculos fizera com que as vidas daqueles de quem herdei o título não excedessem o prazo dos trinta e dois anos. Quando fiz vinte e um anos, o idoso Pierre me entregou um documento de família que, segundo dizia, ao longo de muitas gerações tinha sido passado de pai para filho, continuando a sê-lo por cada possuidor. Seu conteúdo era de uma natureza absolutamente espantosa, e sua leitura confirmou as minhas mais graves apreensões. Por essa época, minha crença no sobrenatural era firme e bem assentada, caso contrário teria tratado com desdém a narrativa incrível que se desdobrou diante dos meus olhos.

O papel levou-me de volta aos dias do décimo terceiro século, quando o velho castelo onde eu morava fora uma fortaleza temida e inexpugnável. Falava de certo homem, muito velho, que um dia habitara em nossas propriedades, pessoa de não pequenas habilidades, embora se tratasse de pouco mais que um camponês, de nome Michel, comumente designado pelo sobrenome de Mauvais, o Mau, por conta de sua reputação sinistra. Tinha estudos superiores aos da sua casta, buscando tais coisas como a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida Eterna, e sua reputação era grande como conhecedor de Magia Negra e Alquimia. Michel Mauvais tinha um único filho, Charles, um jovem tão hábil quanto o pai nas artes ocultas, e que por isso era chamado de Le Sorcier, ou o Mago. Esse par, evitado por toda a gente honesta, era suspeito das práticas mais infames. Dizia-se que o velho Michel tinha queimado viva a própria esposa, num sacrifício ao Demônio, e o desaparecimento inexplicável de muitos filhos pequenos de camponeses era atribuído aos umbrais temíveis desses dois. No entanto, através da natureza negra do pai e do filho, passava ainda assim um raio redentor de humanidade: o homem mau amava sua cria com enorme intensidade, enquanto o jovem nutria pelo pai uma mais que filial afeição.

Certa noite, o castelo mergulhou em grande confusão, com o desaparecimento do jovem Godfrey, rilho de Henri, o conde. Um grupo de busca, liderado pelo pai em desespero, invadiu a cabana dos feiticeiros e caiu sobre o velho Michel Mauvais, que se achava ocupado em mexer um grande caldeirão fervente. Sem uma causa definida, na loucura desgovernada que vem da fúria e do desespero, o conde deitou as mãos no idoso mago e, antes mesmo que o libertasse, sua vítima já não mais respirava. Entrementes, alegres criados alardeavam que o jovem Godfrey tinha sido encontrado numa câmara distante e pouco utilizada do grande edifício, dizendo tarde demais que o velho Michel fora morto em vão. Enquanto o conde e seus seguidores se retiravam da pobre habitação do alquimista, a figura de Charles Le Sorcier surgiu de entre as árvores. A tagarelice excitada dos caseiros informou-o logo do que ocorrera, mas ele não demonstrou a princípio nenhuma reação frente ao destino do pai. Só então, avançando lentamente para o conde, pronunciou num acento monótono e ao mesmo tempo terrível a maldição que para sempre assombraria a casa de C-:

“Que nobre algum da tua estirpe matadora

Idade venha a ter mais do que tens agora.”

 Assim falou e, de repente, recuando em direção à mata, sacou de sua túnica um frasco contendo um líquido incolor que atirou contra a face do assassino de seu pai, para desaparecer em seguida em meio aos cortinados escuros da noite. O conde morreu sem dizer uma palavra, sendo enterrado no dia seguinte, com pouco mais do que trinta e dois anos contados a partir do seu nascimento. Nenhum vestígio do assassino foi encontrado, conquanto bandos incansáveis de camponeses tivessem batido toda a mata circundante e as campinas ao redor do monte.

Assim o tempo e a falta de algo que a recordasse sopitaram a memória da maldição nas mentes da família do conde, a tal ponto que, quando Godfrey, causa inocente de toda a tragédia e agora portador do título, foi morto por uma flecha, durante uma caçada, com a idade de trinta e dois anos, em nada se pensou a não ser na dor de seu desaparecimento. Porém, quando, anos mais tarde, o jovem conde seguinte, de nome Robert, foi encontrado morto sem causa aparente num campo próximo, os camponeses murmuraram que seu senhor mal tinha completado o trigésimo segundo aniversário quando a morte o surpreendeu. Louis, filho de Robert, se afogou no fosso com a mesma idade fatal, e assim a crônica ominosa prosseguiu ao longo dos séculos: Henris, Roberts, Antoines e Armands, todos arrancados de suas vidas felizes e virtuosas com pouco menos idade que a do seu desafortunado ancestral que cometera o assassinato.

Que me restavam ainda, quando muito, sete anos de existência tornou-se uma certeza para mim quando li tais palavras. Minha vida, que até então tivera pouco valor, tornou-se para mim mais preciosa a cada dia que passava, ao mesmo tempo em que mergulhei mais e mais fundo nos mistérios do mundo oculto da magia negra. Isolado como eu vivia, a ciência moderna não produzira nenhuma impressão em mim, e lidava como se vivesse na Idade Média, tão ávido quanto o velho Michel e o jovem Charles da aquisição do saber demoníaco e alquímico. No entanto, por mais que lesse, não podia atinar com o estranho feitiço que pesava sobre minha linhagem. Em certos momentos de racionalidade incomum, eu poderia ir ao ponto de procurar uma explicação racional, atribuindo as mortes precoces de meus ancestrais ao sinistro Charles Le Sorcier e seus herdeiros. Contudo, tendo descoberto, após cuidadoso inquérito, que não havia descendentes conhecidos do alquimista, eu mergulharia de novo nos estudos ocultos e tentaria de novo encontrar um encantamento que pudesse livrar minha casa de seu terrível fardo. De uma única coisa, porém, estava certo: jamais me casaria, desde que, não havendo mais nenhum ramo vivo de minha família, eu poderia desse modo, em mim mesmo, dar fim à maldição.

Quando me aproximei da idade dos trinta, o velho Pierre partiu desta para a melhor. Sozinho, sepultei-o sob as pedras do pátio ao longo do qual ele amava perambular enquanto vivo. Assim, tomei consciência de ser a única criatura viva que ainda restava na grande fortaleza, e na solidão extrema minha mente começou a esmorecer em seu vão protesto contra o fado iminente, reconciliando-se quase com o destino que tinha sido o de muitos de meus ancestrais. Grande parte do meu tempo era agora empregada na exploração das salas e torres ruinosas e abandonadas do velho chateau, que na juventude o medo me fizera evitar, e algumas das quais o velho Pierre me dissera não tinham sido pisadas por pés humanos por mais de quatro séculos. Estranhos e inquietantes eram muitos dos objetos que encontrei. Mobília coberta pela poeira das eras e desmanchando-se na umidade dos anos caía-me sob os olhos. Teias de aranha numa profusão que eu jamais vira antes se estendiam por toda parte, e enormes morcegos batiam suas asas ossudas e agourentas por todos os cantos naquele sombrio abandono.

De minha idade exata – incluindo-se dias e horas – eu mantinha a mais estrita conta, pois cada movimento do pêndulo do relógio maciço na biblioteca soava como uma intimação em minha existência condenada. Por fim me aproximei daquele dia que tão longamente eu aguardara com apreensão. Desde que muitos de meus ancestrais foram apanhados pouco antes de completarem a idade com a qual o conde Henri encontrara seu fim, eu permanecia a cada instante à espera da morte desconhecida. De que estranha forma a maldição me levaria eu não podia saber. Mas havia decidido que não encontraria em mim uma vítima covarde ou passiva. Com renovado vigor, apliquei-me ao exame do velho chateau e do que havia nele.

Foi durante uma de minhas mais longas excursões de descobrimento pela porção deserta do castelo, menos de uma semana antes da hora fatal que marcaria o limite extremo de minha estada na terra, para além do qual eu não tinha a mais ligeira esperança de continuar a respirar, que me deparei com o evento culminante de toda a minha vida. Tinha passado a melhor parte da manhã subindo e descendo lances de escada semiarruinados numa das torres mais dilapidadas. Quando a tarde avançou, busquei os níveis inferiores, descendo em direção ao que parecia ser um lugar medieval de confinamento ou um depósito para pólvora mais recentemente escavado. Enquanto eu atravessava lentamente o corredor cujas paredes exalavam a nitrato, próximo ao pé da última escada o piso tornou-se bastante úmido, e logo vi, pela luz vacilante de minha tocha, que uma parede nua, manchada pela umidade, impedia a passagem. Voltando sobre meus passos, dei com os olhos num pequeno alçapão com uma argola, o qual jazia bem embaixo dos meus pés. Parando, consegui erguê-lo com certa dificuldade, após o que uma abertura estreita se revelou, da qual exalavam emanações nocivas que fizeram crepitar a chama da tocha, revelando ao clarão mais forte o topo de um lanço de degraus de pedra.

Tão logo a tocha que introduzi nas profunduras repulsivas ardeu livre e vivamente, comecei a descer. Os degraus eram muitos e conduziam a um corredor calçado de pedras que eu sabia devia levar ao subsolo mais embaixo. Esse corredor pareceu-me de grande extensão, terminando numa porta maciça de carvalho, sobre a qual a umidade do lugar escorria em gotas e que resistiu energicamente às minhas tentativas de abri-la. Cessando, depois de algum tempo, meus esforços nesse sentido, recuei alguns passos rumo aos degraus, e então subitamente experimentei um dos mais profundos e enlouquecedores choques que uma mente humana é capaz de receber. Sem nenhum aviso, ouvi ranger a porta atrás de mim, sobre os mancais enferrujados, abrindo-se devagar. Seria impossível analisar as minhas sensações imediatas. Confrontar-me num lugar tão completamente deserto quanto eu supunha ser o velho castelo com a evidência da presença de homem ou espírito produziu em meu cérebro um horror da mais aguda qualidade. Quando, por fim, me voltei e olhei para o local de onde vinha o som, meus olhos devem ter saltado das órbitas frente à imagem do que viram.

Ali, no corredor antigo, gótico, estava uma figura humana. Era a figura de um homem trajando um gorro e uma longa túnica medieval de cor escura. Seus cabelos longos e sua barba ondulante eram de uma tonalidade azul, intensa e terrível, e de uma profusão incrível. Sua testa, muito mais alta do que as dimensões usuais, suas faces, profundas e densamente sulcadas de rugas, e suas mãos longas e retorcidas, em forma de garras, eram de uma brancura marmórea, mortiça, como jamais vi em homem nenhum. Seu vulto, tão delgado quanto um esqueleto, curvava-se e quase se perdia por entre as dobras volumosas de sua peculiar indumentária. Mas o mais estranho eram os seus olhos, duas cavernas de pretume abismal, profundos na expressão do entendimento, porém inumanos no grau da malignidade. Fixavam-se sobre mim, perfurando minha alma com o seu ódio e prendendo-me ao lugar onde eu me encontrava.

Por fim, a figura falou numa voz trovejante cuja monotonia oca e malevolência latente me fizeram gelar. A linguagem em que o discurso se desdobrou era aquela forma deteriorada de latim que foi comum entre os homens instruídos da Idade Média e que se me tornou familiar em minhas pesquisas nas obras dos antigos alquimistas e demonólogos. A aparição falou da maldição que pendia sobre minha casa, falou-me de meu fim próximo, aludiu ao crime perpetrado por meu ancestral contra o velho Michel Mauvais e se demorou em discorrer sobre a vingança de Charles Le Sorcier. Falou-me de como Charles escapara em direção à noite, retornando mais tarde para matar Godfrey, o herdeiro, com uma flecha, quando se aproximou o dia em que este completaria a idade que o seu pai tinha na época do assassinato. Falou de como retornara à propriedade e se estabelecera, incógnito, na câmara subterrânea já naquela época deserta, cujo vestíbulo agora emoldurava o vulto medonho do narrador; falou de como apanhara Robert, filho de Godfrey, num campo, e metera veneno em sua garganta, e o deixara para morrer na idade de trinta e dois, mantendo assim as infames previsões de sua maldição vingativa. Nesse ponto, ficou a meu encargo imaginar a solução do maior de todos os mistérios, isto é, o modo como a maldição tinha sido cumprida desde o tempo em que Charles Le Sorcier, segundo a natureza, deveria ter morrido, já que o homem entrou em digressões acerca dos profundos estudos alquímicos dos dois magos, pai e filho, discorrendo mais particularmente sobre as pesquisas de Charles Le Sorcier quanto ao elixir que garantiria vida e juventude eterna a quem dele bebesse.

Seu entusiasmo pareceu expulsar, por um momento, de seus olhos a negra malevolência que tanto me perturbara no princípio; porém de repente o brilho feérico retornou e, com um som chocante parecido ao cicio de uma serpente, o estranho ergueu um frasco de vidro com o intuito evidente de dar fim à minha vida, tal como Charles Le Sorcier, há seiscentos anos, liquidara com a do meu ancestral. Alertado por algum instinto de autopreservação e autodefesa, quebrei o feitiço que tinha me mantido imóvel desde então e assestei a tocha quase apagada contra a criatura que ameaçava minha existência. Ouvi o frasco quebrar-se de modo inofensivo contra as pedras do corredor, enquanto a túnica do estranho pegava fogo e iluminava a horrível cena com uma radiância fantasmal. O grito de pavor e malícia impotente emitido pelo quase assassino pareceu demais para os meus nervos, já mais que abalados, e tombei de bruços sobre o piso lodoso, num completo desmaio.

Quando, por fim, meus sentidos retornaram, tudo jazia imerso numa escuridão amedrontadora, e minha mente, lembrando-se do ocorrido, recuava frente a ideia de descobrir o que quer que fosse, porém a curiosidade prevaleceu. Quem, perguntei-me, era esse homem do mal, e como teria penetrado no castelo? Por que procuraria vingar a morte de Michel Mauvais e como a maldição teria sido efetivada ao longo de séculos, desde o tempo de Charles Le Sorcier? A ameaça dos anos fora retirada de sobre meus ombros, pois eu sabia que aquele a quem eu tinha vencido era a fonte de todo o perigo que me ameaçava devido à maldição. E, agora que estava livre, ardia no desejo de saber mais acerca da coisa sinistra que tinha assombrado minha linhagem durante séculos e que fizera de minha própria juventude um longo e contínuo pesadelo. Determinado a fazer maiores explorações, saquei do bolso uma pedra e um objeto metálico e acendi a tocha ainda não utilizada que trazia comigo.

Primeiramente, a luz revelou a forma distorcida e negra do estranho misterioso. Os olhos horrendos estavam fechados agora. Fugindo à visão, desviei-me e entrei na câmara que havia para além da porta gótica. Encontrei lá o que parecia ser um laboratório de alquimista. Num dos cantos havia um monte de metal amarelo e reluzente que faiscou fantasticamente à luz da tocha. Talvez fosse ouro, mas não parei para examinar, pois me achava estranhamente afetado por tudo o que me ocorrera. Ao fundo do cômodo havia uma abertura que dava para uma das ravinas selvagens da floresta negra ao pé da colina. Cheio de espanto, mas conhecendo já o modo como o homem obtivera acesso ao chateau, retrocedi. Intentara passar pelo que restou do estranho sem lhe voltar a face, mas, quando me aproximei do corpo, pareceu-me emanar dele um ruído débil, tal como se a vida não se tivesse extinguido de todo. Atônito, voltei-me para examinar a figura carbonizada e encarquilhada que jazia sobre o piso.

Então, de súbito, os horríveis olhos, mais negros até do que a face requeimada em que se incrustavam, abriram-se numa expressão que eu não soube interpretar. Os lábios arruinados tentaram articular palavras incompreensíveis. Em dado momento, captei o nome de Charles Le Sorcier, e novamente tive a impressão de que as palavras “anos” e “maldição” brotavam da boca contorcida. No entanto ainda não havia como atinar com o sentido de seu discurso desconexo. Frente à minha evidente ignorância quanto ao significado, os olhos de breu, mais uma vez, me fuzilaram malignamente, a ponto de que, mesmo reconhecendo a completa impotência de meu oponente, estremeci ao olhar para ele.

De repente, aquele resto, animado por um último ímpeto de força, levantou sua lamentável cabeça do piso úmido e lodoso. Por fim, como eu não me movesse, paralisado de medo, conseguiu falar e, no seu derradeiro sopro, gritou estas palavras que desde então têm assombrado todos os meus dias e as minhas noites. “Tolo!”, berrou, “Não consegue adivinhar meu segredo? Não tem cérebro para reconhecer a vontade que durante séculos levou a cabo a terrível maldição contra a casa? Não lhe falei a respeito do elixir da vida eterna? Não sabe como o segredo da Alquimia foi resolvido? Já lhe digo: fui eu! eu! eu! que vivi por seiscentos anos para conduzir minha vingança – pois sou Charles Le Sorcier!”


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UMA NOITE TERRÍVEL - Conto Humorístico de Terror - Anton Tchekhov



UMA NOITE TERRÍVEL

Anton Tchekhov

(1860 - 1904)

 

Empalidecendo, Iván Ivanovitch Panihidin começou a história com emoção:

 — Uma densa névoa cobria a cidade quando, na noite de Ano Novo de 1883, eu regressava a casa. Passando a noite com um amigo, entretivemo-nos em uma sessão espírita. As ruelas que eu tinha que atravessar estavam escuras e eu tinha que andar quase às apalpadelas. À época, eu vivia em Moscou, em um bairro distante. O caminho era longo; os pensamentos, confusos; tinha o coração oprimido...

“Declina tua existência!... Arrepende-te”, dissera o espírito de Spinoza, que havíamos consultado.

Ao pedir-lhe que me dissesse algo mais, não apenas repetiu a mesma sentença, como acrescentou: “Esta noite.”

Não creio no espiritismo, mas as ideias e mesmo as alusões à morte me impressionam profundamente. Não se pode postergar ou prescindir da morte; mas, apesar de tudo, ela é uma ideia que nossa natureza repele. Então, ao encontrar-me no meio das trevas, enquanto a chuva caía sem cessar e o vento uivava lastimosamente, quando em meu redor não se via um ser vivo, não se ouvia uma voz humana, minha alma estava dominada por um terror incompreensível. Eu, homem sem superstições, corria a toda pressa, temendo olhar para trás. Tinha medo de que, ao voltar-me, a morte aparecesse diante mim sob a forma de um fantasma.

Panuhidin suspirou e, tomando um gole d’água, continuou:

— Aquele medo infundado, mas irreprimível, não me abandonava. Subi quatro andares de meu prédio e abri a porta do meu quarto. Meu modesto cômodo estava escuro. O vento gemia na chaminé, como a queixar-se por ficar lá fora.

A se crer nas palavras de Spinoza, a morte viria esta noite, acompanhada deste gemido: “brrrrr!”... Que horror!... Acendi um fósforo. O vento aumentou, convertendo o gemido num uivo furioso. Os postigos debatiam-se como se alguém os golpeasse.

“Pobre dos desabrigados numa noite desta”, pensei.

Não pude prosseguir em meus pensamentos. À chama amarela do fósforo, que iluminava o quarto, um espetáculo inverossímil e horrendo sucedeu diante dos meus olhos. Infelizmente, uma rajada de vento não alcançou o meu fósforo. Se alcançasse, evitaria a visão que me eriçou os cabelos... Gritei, dei um passo à porta, e, louco de terror, de espanto e de desespero, fechei os olhos.

No meio do quarto havia um ataúde.

Embora o fósforo tivesse permanecido aceso por pouco tempo, o aspecto do ataúde ficou gravado em minha mente. Era de brocado rosa, com galão dourado sobre a tampa. O brocado, as alças e os pés de bronze indicavam que o defunto havia sido rico; a julgar pelo tamanho e cor do ataúde, o defunto devia ser uma jovem de alta estatura.

Sem pensar ou deter-me, saí como um louco e me lancei escadas abaixo. No corredor e na escada, tudo era escuridão. Meus pés se enredavam no sobretudo. Não entendo como não caí e quebrei os ossos. Na rua, apoiei-me a um poste e procurei acalmar-me. Meu coração pulsava. A garganta estava ressequida. Não me assustaria se encontrasse em meu quarto um ladrão, um cão raivoso, um incêndio... Não me assustaria se o teto tivesse desmoronado... Tudo isto é natural e concebível. Mas, como um caixão de defunto foi parar no meu quarto? Um ataúde caro, evidentemente destinado a uma jovem rica. Como havia ido parar no pobre cômodo de um empregado insignificante? Estaria vazio, ou haveria um cadáver em seu interior? E quem seria a infeliz que me fez tão terrível visita? Mistério!

Era um milagre ou um crime. Eu perdia a cabeça com conjecturas. Em minha ausência, a porta estava sempre trancada, e somente sabiam  o lugar onde escondia a chave os meus melhores amigos. Mas eles não iriam enfiar um ataúde em meu quarto. Era possível presumir que o agente funerário o tivesse trazido por equívoco. Mas, em tal caso, não iria fazê-lo sem cobrar o preço, ou, pelo menos, um sinal.

Os espíritos haviam profetizado a minha morte. Acaso haviam me dado o esquife?

Eu não acreditava — e continuo sem crer — no espiritismo. Mas semelhante coincidência era capaz de desconcertar qualquer um. Era impossível. Sou um medroso, um frouxo. Fora uma alucinação. Ao voltar para casa, estava tão sugestionado que acreditei ver o que não existia. Claro! O que mais poderia ser?

A chuva me encharcava; o vento sacudia-me o gorro e rodopiava-me o sobretudo. Eu estava pingando... Sentia frio... Não podia ficar ali. Mas para onde iria? Voltar ao quarto e encontrar-me outra vez em frente do ataúde? Isto era impensável. Enlouqueceria se voltasse a ver aquele féretro, que provavelmente continha um cadáver. Decidi passar a noite na casa de um amigo.

Panihidin, secando a fronte banhada de suor frio, suspirou e continuou a sua narrativa:

 — Meu amigo não estava em casa. Depois de chamar várias vezes, convenci-me de que ele estava ausente. Procurei a chave detrás da viga, abri a porta e entrei. Apressei-me em tirar o sobretudo molhado, lançando-o ao chão. Deixei-me desabar no sofá. As trevas eram completas. O vento rugia com mais força. Na torre do Kremlin soou o toque das duas. Peguei um fósforo e acendi. Mas a luz não me tranquilizou. Ao contrário: o que vi me encheu de horror. Vacilei um momento e fugi como um louco daquele lugar. Na sala de meu amigo, vi um caixão de defunto... Duas vezes maior que o outro.

A cor marrom conferia-lhe um aspecto lúgubre... Por que se encontrava ali? Não havia dúvida: era uma alucinação... Era impossível que em todos os cômodos houvesse ataúdes. Evidentemente, onde quer que eu fosse, a todo lugar eu levaria comigo a visão da última morada.

Pelo visto, eu padecia de uma enfermidade nervosa, em razão da sessão espírita e das palavras de Spinoza.

“Estou ficando louco”, pensava, segurando a cabeça. “Meu Deus, o que posso fazer?”

Sentia vertigem. As pernas dobravam. Chovia a cântaros. Estava molhado até os ossos, sem gorro e sem sobretudo. Impossível voltar para apanhá-los. Estava seguro de que tudo aquilo era uma alucinação. Entretanto, o terror me aprisionava, tinha a face inundada de suor frio, os cabelos em pé...

Eu estava ficando louco e me arriscava a pegar uma pneumonia. Por sorte, recordei que, na mesma rua, vivia um médico conhecido meu, que havia assistido também à sessão espírita. Dirigi-me à sua casa. À época, era solteiro e morava no quinto andar de uma casa grande. Meus nervos tiveram de suportar um novo abalo... Ao subir a escada, ouvi um ruído atroz. Alguém descia correndo, fechando violentamente as portas e gritando com todas as forças: “Socorro, socorro! Porteiro!”.

Momentos depois via aparecer uma figura sombria, que descia quase rolando as escadas.

 — Pagostof! — exclamei, ao reconhecer meu amigo médico. — É você? O que houve?

Detendo-se, Pagastof agarrou-me a mão convulsivamente. Estava lívido, respirava com dificuldade, tremia... e tinha os olhos desfocados, extremamente abertos...

 — É você, Panihidin? — perguntou-me com voz rouca. — É você mesmo? Você está pálido como um morto... Meu Deus! Não é uma alucinação? Você me dá medo!...

 — Mas, o que aconteceu? — perguntei, lívido.

 — Meu amigo, graças a Deus é você realmente! Como estou feliz em vê-lo! A maldita sessão espírita transtornou os meus nervos. Imagine o amigo o que apareceu em meu quarto, quando voltei? Um ataúde!

Não pude crer e lhe pedi que repetisse o que dissera.

 — Um ataúde, um ataúde mesmo! — disse o médico, extenuado, na escada. — Não sou covarde. Mas o próprio diabo se assustaria encontrando um caixão no quarto, depois de uma sessão espírita.

Então, balbuciando e gaguejando, contei ao médico que eu também havia visto dois ataúdes. Por uns instantes, ficamos mudos, olhando-nos fixamente. Depois, para nos convencermos de que tudo aquilo não era um sonho, começamos a nos beliscar.

 — Os beliscões doem em nós — disse finalmente o médico. — Isto significa que não estamos dormindo e que os ataúdes — o meu e os seus — não são fenômenos óticos, mas que existem realmente. O que faremos?

Passamos uma hora entre conjecturas e suposições. Estávamos gelados e, por fim, resolvemos dominar o terror e entrar no quarto do médico. Avisamos ao porteiro, que subiu conosco. Ao entrar, acendemos uma vela e vimos um ataúde de brocado branco com flores e borlas douradas. O porteiro se persignou com devoção.

 — Vamos verificar — disse o médico, tremendo — se o ataúde está vazio ou ocupado.

Depois de muito vacilar, o médico se aproximou e, travando os dentes de medo, levantou a tampa. Lançamos um olhar e vimos que... o ataúde estava vazio. Não havia cadáver, mas apenas uma carta, que dizia:

“Querido amigo:

Sabe você que o negócio do meu sogro vai em bancarrota: tem muitas dívidas. A qualquer dia, virão penhorar-lhe os bens. Isto nos arruinará e desonrará. Assim, decidimos esconder as coisas de maior valor, e como a fortuna de meu sogro consiste em ataúdes — os mais afamados em nossa cidade —, procuramos pôr a salvo os melhores. Estou certo que você, como um bom amigo, me ajudará a defender a honra e a fortuna, e por isto lhe envio um caixão, rogando ao amigo que o guarde até que passe o perigo. Precisamos da ajuda de amigos e conhecidos. Não nos negue este favor.

 

O ataúde ficará apenas uma semana em sua casa. A todos que se consideram amigos meus, mandei caixões como este, contando com nobreza e generosidade de todos vocês.

Seu amigo,

Tchelustin.” 

Depois daquela noite, tive de submeter-me a um tratamento dos nervos por três semanas. Nosso amigo, o genro do fabricante de ataúde, salvou sua fortuna e honra. Agora tem uma funerária e vende mausoléus. Mas seu negócio não prospera, e às noites, ao retornar a casa, temo encontrar junto à minha cama um catafalco ou um mausoléu.

 

 Versão em português (tradução indireta) de Paulo Soriano.

 


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OS ESPECTROS DA MORTE (Tradições Galegas: A Companha) - Conto Clássico de Terror - Juan de Dios de La Rada



OS ESPECTROS DA MORTE

(Tradições Galegas: A Companha)

Juan de Dios de La Rada

(1827 – 1901)

Tradução de Paulo Soriano

 

I

Logo será meia-noite.

A trêmula luz da Lua esparge a sua morna claridade a intervalos regulares, iluminando com  matizes sombrios o fundo do vale.

Uma casa rodeada de ciprestes se destaca lugubremente em meio à parda vegetação do terreno, qual os horrendos fantasmas lendários  que vagam em torno dos escombros ruinosos de um castelo.

A disforme silhueta daquela pobre mansão e dos funéreos arbustos ora se encolhe, ora se prolonga, ora desaparece completamente, conforme a caprichosa viragem das sombrias nuvens que cruzam a atmosfera.

Não há nada que embeleze a escuridão do céu ou o silêncio aterrador da paisagem.

A natureza adormecida parece apenas despertar não para tanger o ouvido com a música harmoniosa da torrente, mas com o surdo murmúrio da água deslizando de pedra em pedra; não com a delicada cautela do rouxinol, mas com o estridente ruflar da cigarra; com aquele desagradável sonido que tantas vezes nos vêm à lembrança quando ouvimos a lenha verde a ranger no fogo.

Os cães lançam uivos tristes e prolongados; e, se o vento agita as flores, assim o faz para produzir  sibilos mais imponentes que os dos monstruosos répteis da América.

Que gênio maléfico repousa em uma morada de tão sombrios arredores?

II

Entre na vivenda dos Ciprestes.

O que o assusta?

Ah! É o pobre Ali, o fiel mastim que insiste em ladrar teimosamente.

Não tenha medo; abra a porta e ele vai cobri-lo de carícias.

Dê-lhe um pedaço de pão. Há tanto tempo que ele não come!

Mas... o que o detém? Suba sem demora. Não ouve um soluço?

É o gemido de uma mulher. Não faça barulho; apenas a escute:

— Meu Deus! Meu Deus! Não o leves ainda. Ainda não é a hora! — exclama uma anciã ajoelhada aos pés de um leito mesquinho, apertando violentamente um tosco crucifixo de madeira contra o peito.

— Sai daqui! Vai embora! — replicou o homem doente, sacudindo convulsivamente com um pé o ombro da anciã lastimosa.

— Lembra-te de Deus! Nicolau, lembra-te do mal que fizeste neste mundo! — insistiu a mulher, lançando gemidos desgarrados.

— Deixa-me! Eu não estou morrendo, não... Eu quero ver o meu filho, o meu Manuel... para lhe dar a chave.

Dizendo isto, Nicolau, pelejando para se erguer da cama, mostrava, com um ignóbil e repugnante sorriso, uma chave que seus dedos descarnados apertavam violentamente.

 — Não pensaste senão em ouro durante tua vida inteira: olvidaste as tuas obrigações, a educação do teu filho, o socorro dos desvalidos, a observância dos deveres religiosos. Agora, os últimos momentos da tua vida se aproximam; e, surdo à voz da tua alma, só tens em vista a riqueza miseramente adquirida.

— Queres me matar? — perguntou o enfermo com uma voz rouca e sufocada, estendendo os punhos num gesto de cólera.

A pobre esposa deixou que deslizassem as lágrimas e beijou fervorosamente a imagem do Crucificado.

Nicolau teria cerca de sessenta anos. Sobre o seu crânio, nu e debastado, flutuavam apenas crespas e sujas mechas brancas; os seus olhos, fundos e brilhantes, estavam rodeados por uma curva roxa; as suas maçãs, salientes e ossudas, destacavam-se ao lado de um nariz fino e aquilino, cuja ponta avançava sobre lábios trêmulos e descoloridos. Rugas profundas sucavam-lhe o rosto e as sobrancelhas arqueadas, unidas pelas extremidades, conferiam àquela fronte comprimida e recuada, àquela fisionomia amarelada, o tom sombrio da mais sórdida avareza. A cama em que ele jazia eram três tábuas sustentadas por dois deletérios cavaletes, e, sobre eles, estendia-se um mesquinho colchão de palha coberto por dois lençóis sujos, além de   um cobertor, em que a agulha se empenhara para fazê-lo triunfar sobre as injúrias do tempo.

Próximo à cabeceira do doente havia um armário aberto e pregado na parede. Em frente à cama, uma porta ligava aos demais cômodos da casa.

III

 Havia, detrás da cama, um gabinete guarnecido de  janela.

Nesta janela, apenas um painel de vidro estabelecia relação entre o exterior e o interior.

Imóvel, e com os lábios quase tocando o vidro gelado, estava um jovem que contava, no máximo, dezessete anos.

Se, aproveitando o fugaz raio de lua, que às vezes iluminava o seu semblante, quiséssemos examiná-lo, nada chamaria a atenção naquela cara gorda, redonda e morena, a não ser o branco esmalte dos dentes, que pareciam de marfim polido.

Este rapaz era o filho do avarento Nicolau. Era Manuel, a quem o moribundo tanto desejava ver. De seu escondido mirante, parecia preocupado com o que descobria lá fora. Falava alto, abria os olhos, e às vezes tremia, revelando sempre agitação e surpresa.

— Estão se aproximando — disse ele —, e já chegam ao nosso curral; um, dois, três... são sete! Virgem Maria, protegei-me!

E o atemorizado jovem, prosseguindo naquele monólogo, embaciava a superfície pálida do vidro com a sua entrecortada respiração.

Mas era em vão que o seu hálito umedecia o vidro transparente, porque a sua mão apressada limpava-o com o lenço; e o camponês, estático, paralisado, acorrentado a seu posto, satisfazia, com os olhos assustados, a anelante curiosidade que o devorava.

Eis o que ele acreditava ver e ouvir:

O vento rugia impetuosamente, trazendo as agudas e intermitentes vibrações de um sino tocando a finados.

Uma nuvem de pássaros, negros e enormes, agitava-se, com aterrorizante voo, em torno dos ciprestes do pátio, lançando, por vezes, dolentes e agudos grasnados, que ressonavam nos ouvidos de Manuel com a mística entoação de um De profundis.

No curral, acabavam de entrar, envolvidos em sudários flutuantes, brancos como flocos de neve, sete fantasmas que levavam nas mãos círios rutilantes, consumidos por pálidas chamas.

Manuel tremia incontrolavelmente: a tétrica dança — que, diante dos seus olhos assombrados, os espectros encetavam — o encheu de estupor, entorpeceu as faculdades da sua alma e concentrou toda a seiva  de sua vida na vista e no ouvido.

Não havia dúvida: diante dos seus olhos estava a Companha[1], aquela sociedade de espectros noturnos que quase todos os camponeses galegos acreditam ter visto, em algum momento da sua vida, ao cruzar um monte, bordejar um rio, sair de casa, atravessar um bosque ou saudar um cemitério.

E, tal qual, nas longas noites de inverno, ouvira descrita a aparição da Companha, aglomeravam-se e se agitavam diante dos seus olhos os sinistros visitantes, cujas luzes lívidas e oscilantes enchiam-no de pavor.

A Companha formou um círculo em cujo centro brilhava uma luz mais exuberante que as outras. Aquela roda girava como uma grinalda de estrelas, e ia-se estreitando de um modo fantástico e misterioso, até quase suprimir a distância entre o centro e a circunferência.

Um bando de corujas, mochos e morcegos revoluteava junto à janela em que estava Manuel.

A luz da Lua ia-se desvanecendo: parecia prestes a extinguir-se.

As aves noturnas apinhavam-se diante da janela com tal tenacidade que só a intervalos permitiam ao jovem vislumbrar a dança dos fantasmas.

De súbito, uma coruja passou voando, roçando com as asas o vidro da janela, e lançou um prolongado crocitar que fez o Manuel recuar de assombro.

A porta do quarto do enfermo abriu-se e a figura da anciã desenhou-se  sob o dintel.

 Manuel cravou-lhe um olhar incerto, quase estúpido.

— Roga a Deus por teu pai! — exclamou a velha, com uma entonação solene, apontando para o alto.

— Ele morreu? — perguntou o rapaz, precipitando-se para a janela como se absorto e fora de si.

Não havia nada no pátio; as aves e as luzes haviam desaparecido; só ao longe se podia ouvir o tilintar de um sino.

Com um rápido olhar, Manuel varreu o fundo da paisagem, e pensou que distinguia, entre névoa e escuridão, seis luzeiros cujo brilho mortiço ia-se dissipando à distância.

— É verdade! É verdade! — repetia o jovem, golpeando-se na fronte. — Sete vieram e só vejo seis! Mataram-no ou lhe puseram a luz negra! Oh, minha mãe! Velemos o meu pai! As portas do céu fecharam-se para ele por toda eternidade!

Mãe e filho caíram de joelhos.

IV

A casa dos Ciprestes — onde o pobre não encontrava a esmola, nem a viúva o amparo, nem o sedento a água, nem o desnudo o abrigo — foi, desde a morte de Nicolau, refúgio dos desvalidos, asilo dos desgraçados, consolo de infortúnios e calamidades.

Dizia-se na aldeia que a Companha viera buscar a alma do falecido; mas o seu filho e a sua viúva, por meio de esmolas e boas obras, fizeram desaparecer a odiosidade que a ambiciosa conduta do usurário havia atraído àquela casa.

 

Fonte: “La Ilustración de Madrid”, ano I nº 14, edição de 27 de julho de 1870.



[1] A Companha, ou mais precisamente Santa Companha, é uma lendária tradição galego-portuguesa descrita como uma procissão de defuntos ou almas penadas.

 


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LUÍS XI E O ADIVINHO - Conto Clássico Sobrenatural - Ramón de Mesonero Romanos



LUÍS XI E O ADIVINHO

Ramón de Mesonero Romanos

(1803 - 1882)

 

— Dentro de oito dias — disse um astrólogo a Luís XI —, vossa amada deixará de existir.

Oito dias depois, a dama descia ao sepulcro. Grandes foram os sofrimentos e a ira do monarca francês.

— Já que adivinhas o que está por vir — disse o rei ao astrólogo —, exijo que me digas, agora, se te resta muito tempo de vida.

Saibam que o rei havia dado ordens secretas de que, a um sinal seu, fosse o pobre astrólogo arremessado da mais alta janela do castelo de Plesis-les-Tours.

Quer porque o adivinho soubesse de sua triste sorte, quer porque o aspecto diabólico do rei o fizesse pressentir a catástrofe, respondeu ao rei com serenidade:

— Senhor, o que posso dizer a Vossa Majestade é que a minha morte precederá três dias à sua.

Esta resposta caiu como um raio sobre o supersticioso monarca, que não apenas evitou dar o sinal convencionado para o salto perigoso do adivinho, como, daí em diante, passou a cuidar do astrólogo com particular interesse e redobradas atenções.

 

Tradução de Paulo Soriano.

Fonte: “Semanário Pintoresco” (Madri/ES), edição de 5 de maio de 1836, n. 10.

Imagem: Jacob de Litemont (séc. XV)

 

 


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O CRIME INVISÍVEL - Conto Clássico de Terror - Catherine Crowe



O CRIME INVISÍVEL

Catherine Crowe

(1803 – 1876)

 

Em 1842, no bairro de Marylebone, demoliram uma casa que já não atraía inquilinos há muitos anos, e cujos proprietários não estavam disposto a gastar mais dinheiro com reformas.

Seus últimos habitantes foram o major W..., sua esposa, seus três filhos e uma criada.

O major W..., que exercia um digno cargo na Intendência Militar, havia insistido inúmeras vezes junto a seus superiores para que lhe fosse permitido  mudar de residência (o aluguel do imóvel estava a cargo da Intendência Militar). Como esta autorização demorava, alegou, para justificar a sua reiterada insistência, que a casa era mal-assombrada da forma mais desagradável.

Todas as noites, a porta da sala de estar se abria violentamente, ouvia-se um ruído de passos apressados, uma respiração rouca e, depois de dois ou três terríveis gritos, a pesada queda de um corpo no chão.

Frequentemente, encontravam os móveis revirados, sobretudo quando situados no canto  da sala que dava para o Norte.

Depois, o silêncio era restabelecido. Mas, cerca de quinze minutos depois, ouvia-se algo semelhante a passos frenéticos, a um soluço e, finalmente, a um terrível estertor.

O major W.... acabou por proibir que os seus familiares adentrassem aquela sala.  Até mesmo obstruiu a porta.  Antes, porém, fez com que estes acontecimentos fossem testemunhados por vários de seus companheiros de caserna.  Com efeito, o relatório que apresentou estava assinado pelo lugar-tenente da Intendência E..., pelo capitão S... e pelo comissário de mantimentos E...

Procedeu-se a uma investigação e muito depressa descobriu-se uma trágica história.

No ano de 1825, a casa era habitada pelo joalheiro C... e sua esposa.  Esta última, muito mais nova que o marido, levava uma vida desregrada, licenciosa e dissipava enorme somas de dinheiro.

Malgrado o infeliz C... lhe houvesse perdoado muitas vezes os seus caprichos, ela não parecia querer corrigir-se. Ao contrário, sua vida era cada vez mais escandalosa.

C..., compelido pela amargura e pelo ciúme, entregou-se à bebida.

Certa noite, ele voltou embriagado, decidido a pôr fim aos seus infortúnios.

Armado de um cutelo de sapateiro, avançou para a mulher, que fugiu para o salão.  Mas C... a alcançou e, com um só golpe de sua arma, a decapitou.  Permaneceu um longo tempo mudo, horrorizado com o crime que cometera e, depois, enforcou-se.

Desde então, as cenas deste horrendo assassinado se reproduzia a cada noite, de uma forma perfeitamente audível, mas as aterrorizadas  testemunhas nunca viram a aparição. Apenas ouviam os ruídos fantasmagóricos, que se repetiam com uma perfeita precisão.

O requerimento do major W... teve resultados favoráveis e, desde então, a casa permaneceu desocupada até o dia em que caiu sob as picaretas  dos demolidores.

 

Versão em português (tradução indireta): Paulo Soriano.


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VIOLAÇÃO - Conto Clássico de Horror - Rodolpho Theophilo



VIOLAÇÃO

Rodolpho Theophilo

(1853 – 1932)

 

CAPÍTULO 1

 

A triste cena de bruteza humana que vou narrar passou-se em 1862, na epidemia do cólera-morbo, em uma das vilas do litoral do Ceará.

Eu era bem criança; tinha apenas nove anos, mas conservo estereotipado em mim tudo que vi daquela medonha peste.

Meu pai era o único médico do lugar quando se deu a invasão do mal. Havia meses que o flagelo devastara os sertões da província, e de lá vinham as mais desoladoras notícias. Tudo estava se acabando no interior, morria-se em poucas horas, dizia a nova popular em seu costumado exagero, e assim se espalhava de tenda em tenda, deixando em sua passagem o gérmen do desconforto a desenvolver-se e a crescer!...

O espírito das populações marinhas cada vez mais se abatia com os horrores que se contavam da peste. Não se guardavam as devidas reservas sobre o progresso e intensidade da epidemia. Os poderes públicos, não compreendendo a influência perniciosa de semelhantes novas, as divulgavam abatendo assim mais o ânimo dos que iam gozando as imunidades do contágio.

Era a primeira vez que o mortífero filho do Ganges[1] nos visitava; que a legião desses infinitamente pequenos deixava a sua terra, para vir empestar a nossa tenda.

O pânico era geral; numa mortificante tensão de espírito, como a do condenado que espera no oratório que venham buscá-lo para o patíbulo, aguardávamos a visita da peste.

A posição topográfica da localidade, longe de nos dar uma certa imunidade, pelo contrário, favorecia a procriação dos micróbios do mal, pois que a vila estava edificada num estreito vale, cercada de montanhas. O vento que é o veículo do cólera, o deixaria ali, e o bacilo da peste se desenvolveria e mataria à vontade.

E todos nós nos preparávamos, não para resistir ao inimigo, pois não tinha armas a nossa ignorância, mas para morrer. Não se tardaria a ouvir o gemido do primeiro pesteado.

Foi em dias de janeiro que soubemos estar o inimigo a menos de dez léguas. O pânico foi geral e indescritível.

A população espavorida valeu-se do derradeiro recurso dos abandonados, e todos os dias lá ia em grande romagem à pequena matriz, pedir a Deus que a livrasse da peste. Lembro-me ainda, sentindo um frêmito nos nervos, daquele vozear de náufragos a implorar a misericórdia do Céu. Rezavam, em vez de estabelecerem rigorosos cordões sanitários.

Algumas famílias abastadas fugiram para a capital, que se conservava em boas condições sanitárias. Nós também podíamos nos ter retirado, mas o dever prendia meu pai à localidade ameaçada, e ficamos.

O cólera chegou, mas sem pródromos, sem casos isolados, atacando centenas de pessoas. A confusão foi então horrível, e o pânico tudo avassalou. A população inteira desvairou-se, como um bando de aves bravas que fosse alcançado à noite no quieto pouso pela ofuscação do facho de astuto caçador.

A vila contava cinco mil almas, e entre tanta gente não havia um espírito que não estivesse sucumbido. As qualidades afetivas mesmo, se não haviam perecido neles, pelo menos o terror do contágio as tinha anestesiado.

Os enfermos foram abandonados, não só na choupana do desvalido, como na casa do abastado. Ao primeiro brado de alarma todos fugiram espavoridos.

Evitavam os primeiros pesteados pensando livrarem-se do mal, mas se iludiam e eram atacados mesmo longe deles, porque todo o ambiente estava viciado; em cada molécula do ar havia um átomo da peste.

Serenado um pouco o estonteamento que lhes fechava o coração aos mais ternos afetos da vida, voltaram ao lar, e muitos o encontraram vazio!... Nessa crise de assombramento, de alucinação, foram grandes as angústias da população flagelada. Para mitigar-lhes as agruras do infortúnio não tinham eles uma carícia, a consolação de uma ternura. A paz da existência os havia abandonado na hora angustiada daquele transe.

A peste tinha nivelado todos e embotado a sensibilidade até no coração amorável das mães!... Pelos tormentosos dias de nosso lar eu avaliava as aflições que iam por toda a vila.

Meu pai, falho de conhecimentos sobre a patogenia do cólera, quase nada podia fazer em favor dos pesteados. Preso pelo dever à cabeceira dos enfermos, trabalhava dia e noite; e se não lhes dava a saúde ao menos lhes restituía as esperanças perdidas, levando-lhes o doce alento de uma consolação.

 Poucos dias, entretanto, durou a imunidade do médico e o conforto que sentiam os doentes com a presença dele. Caiu ferido, mas ferido mortalmente. Havia chegado também para nós o dia das tribulações e pagávamos à peste nosso tributo. Em um mesmo dia todos de nossa casa foram acometidos da doença, à exceção de minha pessoa. Uma legião de micróbios invadiu a nossa morada, e horas depois todos estavam derribados.

Embora a minha idade, teve o meu espírito uma noção nítida do perigo em que estávamos. Senti um desalento que me abateu todo, que me prostrou, consumindo toda a minha energia.

Meu pai, pressentindo o meu abatimento, exortou a minha coragem e, aproveitando-se da influência que seu espírito tinha sobre o meu, insinuou-me a ideia do dever. Só por um milagre de sugestão pôde o meu caráter, que ainda se estava formando, submeter-se sem revolta, e aceitar as ideias aconselhadas.

Havia em casa dez doentes, e eu era o enfermeiro de todos, o criado dos próprios criados.

A minha luta foi tremenda, e hoje é que compreendo quanto ela foi heroica.

Não foi a remoção das dejeções, dos vômitos, a limpeza dos aposentos e dos leitos, o serviço da cozinha o que mais me desalentou durante esse período de provações, porém o enterramento de minha irmã.

A pequenina havia nascido vigorosa, mas pesteada. Meu pai, na impossibilidade de ir ao quarto de minha mãe, pediu-me que lhe levasse a recém-nascida. Minhas mãos, pouco afeitas a tão delicado fardo de arminho, o conduziram com grande cuidado e carícias. Meu pai fitou a pequenina criatura e voltou o rosto para que eu não visse as lágrimas que lhe assomaram aos olhos. Chorava com a certeza de que não a veria mais, porque ela ia morrer, e mal sabia ele que de todos nós seria a única feliz, porque se acabava sem conhecer a morte, sem a mínima noção da vida.

Entregou-me a pequenina, que conduzi; e ele a acompanhou com a vista, dizendo-lhe com toda a ternura de seu olhar de pai, o último, o derradeiro adeus, até que me encobri no corredor.

Vinte e quatro horas somente esteve neste mundo a criança a quem um vizinho que a veio batizar chamou de Maria.

A moléstia havia desfeito, em sua curta duração, todos os músculos do pequeno ser. Havia apenas no berço um esqueletinho vestido de pele, cor de cera branca, com os olhos abertos, num olhar morto de estátua.

Meu pai, sabendo do óbito, ordenou-me que conduzisse o cadáver ao cemitério. Aquela ordem traspassou-me todo. Onde encontraria coragem para carregar um defunto, eu, que tinha medo das almas, mesmo das almas dos meninos!... Chorando, fiz-lhe ver a minha covardia. Era bem justa a minha recusa, e tão justa que ele a aceitou e mandou-me que fosse chamar o batizante de minha irmã.

Grande foi o meu contentamento, e maior depois o meu desgosto, quando, chegando à casa do vizinho, soube que ele havia morrido do cólera quando voltou do batizado. Semelhante nova abalou-me todo, arrancou-me trepidações de todos os nervos; agora não era somente a alma da pequenina mas também a do vizinho que me fazia medo.

Meu pai recebeu a notícia mostrando grande ânimo, e, sem demonstrar perturbação, ordenou-me que conduzisse o cadáver ao cemitério. As palavras da ordem, vibrantes de autoridade e de energia, entraram-me no cérebro como pontas de estilete em brasa.

Queixei-me de doente; e na verdade eu ardia em febre. Entreguei o pulso ao médico, que o examinou e, antes de proferir nova sentença, ergueu-se do leito, quis caminhar e não pôde.

— Queria ir em teu lugar; vês? não posso andar!... vai.

Esta cena partiu-me de mágoa; e hoje é que avalio a sublimidade dela. Em minha alma de afetivo só vibravam então as palavras de meu pai e meus olhos viam-no, mas trôpego, doente, querendo ir enterrar a filha e sem poder.

Decidi-me a cumprir a ordem com o sacrifício de todos os meus escrúpulos, de todos os meus temores. Abeirei-me do berço para tirar o cadáver e colocá-lo no esquife, uma caixa de papelão na qual minha mãe guardava costuras; mas quando minha vista caiu sobre o rosto do anjinho, e descobriu o seu olhar morto, estagnado, fitando-se em minhas pupilas, não sei como não me acabei de medo. Tive desejos de abandonar a casa, deixando os meus na mais penosa situação; e o teria feito, confesso, porque aquele cálice por demais amargo para os meus anos, se a figura de meu pai, trôpega, vacilante, procurando embalde caminhar para sepultar a filha, não tivesse ficado dentro de mim para sugerir-me, com todo o seu poder de força espiritual, aquele grande sacrifício.

Depois de algumas investidas, consegui agarrar o cadáver e depositá-lo no esquife. O corpo já estava gélido. A frieza dele, atravessando o cueiro e a camisinha, me transiu as mãos e senti por aquela algidez de carne morta uma repugnância que me arrepiou de medo e nojo.

Estava na base do meu penoso Calvário e tinha de subi-lo até o vértice, e lá deixar o fardo que a amizade e o dever me haviam posto aos ombros.

O meu espírito teve sempre uma penetração admirável e por este aspecto de sua psicologia pode-se avaliar de sua agudeza e também de suas agonias.

Disposto a fazer o enterramento de minha irmã, fui às ambulâncias, que eram em nossa casa, para fazer em meu corpo uma fricção de álcool e cânfora e livrar-me do contágio. Cifravam-se nisso os desinfetantes e os meios profiláticos que tinham os nossos conhecimentos naquela época.

Antes de sair com o cadáver, minha mãe chamou-me e pediu-me que lhe levasse o esquife. Obedeci, e ela, coitada, mal teve forças de soerguer-se do leito e deixar o derradeiro beijo do seu amor no frio rosto da filha morta. O que muito me impressionou nesta cena não foi a ternura dela, mas a coragem de minha mãe, beijando um cadáver. Sem ânimo para mais, acenou-me que me fosse; e saí conduzindo o esquife.

Lá fora as ruas eram desertas, e o sol descendo verticalmente sobre a vila inundava-a de uma claridade que doía nos olhos. Ainda bem que havia muita luz, e por algumas horas ainda; mas nem um vivente que me acompanhasse naquele esquisito caminho. Ninguém tinha mortos a enterrar? Seria possível?... pensava, caminhando com grande pressa. O cemitério ficava a um quilômetro de nossa casa, do outro lado do rio.

À medida que me aproximava da morada da morte sentia um pavor que me atordoava. Fui caminhando quase automaticamente até que, depois de galgar uma eminência, descortinei o lugar dos enterramentos em campo raso, a duzentos metros. Estaquei. Era chegado o instante mais angustioso daquela desesperada provação.

Animava-me a esperança de encontrar alguém sepultando os mortos, e esta esperança que me dava algum alento se desvaneceu de todo quando o cemitério caiu-me inteiro debaixo dos olhos. Ninguém vivo estava ali!... Tulhas de cadáveres se espalhavam de chão afora, uns já podres, apodrecendo outros. As pernas se me bambearam e naquele meu abandono, instintivamente, bradei por meu pai; mas num grito medonho de quem está assombrado. O meu angustiado apelo, agudo e intenso que me estonteou com as suas primeiras vibrações, foi esmorecendo de onda em onda até que se perdeu de todo e ninguém apareceu para me socorrer. Caí então em mim; lembrei-me que meu pai, por quem havia chamado com a maior confiança, havia deixado enfermo e quem sabe se já não tinha morrido!... Senti-me cada vez mais abandonado e chorei, porém lágrimas tão sinceras e sentidas como ainda ninguém as chorou talvez.

Naquele meu acabamento moral tive uma ideia sugerida pelo pânico que me abocanhava inteiro o espírito. Esta ideia, que se gerou entre os pensamentos atribuladores que me enchiam a cabeça e começou por um simples desejo, transformou-se-me em breve na mais palpitante necessidade. Dominado por ela ia sufocar em mim todos os sentimentos afetuosos tão prodigamente alimentados pelas carícias de meu amoroso coração. O medo havia dissolvido em minha alma os seus mais puros e queridos afetos. Em começo deste transe o meu espírito ainda não estava de todo embotado, e tanto assim que bastou uma imagem ideal, a sombra de um ente querido, para reviverem nele os deveres da amizade. Agora não mais viviam essas visões amadas!... A figura de meu pai procurando embalde caminhar para sepultar a filha e o derradeiro beijo de minha mãe, resumindo em tão curta carícia um mundo de afetos e de dores, já não me comoviam. O meu ser já não se pertencia, não tinha afeições; era um autômato que o pânico subjugava e dirigia. Assim, violentando toda a minha piedade de afetivo, sacrificando tudo que de sensível existia em mim àquele egoísmo feroz, pensei em atirar o cadáver de minha irmã dentro de uma moita, que me ficava ao lado, e depois correr até em casa.

Ia fazer isso quando ouvi passos que se alternavam com o lúgubre ranger da padiola, que conduzia à vala os cadáveres dos coléricos. Aquele ruído seco de madeira nova a se esfregar ouvia eu há uma dezena de dias, a todos os instantes, de noite mesmo. E a padiola ia e vinha, sempre rangendo lugubremente, cantando a tristonha melopeia da morte, e eu a ouvia aterrado porque o seu ruído me trazia a ideia dos defuntos.

O veículo passou gemendo; eu acompanhei-o. Quatro homens o carregavam. Estava menos assombrado e procurei ver se os conhecia. Olhei-os com atenção e todas as suas cataduras me eram estranhas. A figura de um deles, um cabra de bigodes retorcidos e cabelos crespos caídos na testa, me causou tão má impressão que ainda hoje conservo na memória as feições de sua carantonha. Vinham todos eles embriagados. Caminhavam aos tombos, mal equilibrados, e, as passadas em falso, traziam a padiola numa incessante sacudidela, e faziam mais intenso o seu lúgubre e áspero ranger. Encontrada que foi a primeira tulha de cadáveres, pararam e virando o raso esquife sacudiram fora o defunto, que caiu teso a uma grande distância.

A barbaridade da inumação deixou-me aterrado, e mais aterrado ainda fiquei quando verifiquei que o corpo que assim tratavam era o do batizante de Maria.

Os homens da padiola, despejado que foi o defunto, deram de marcha para a vila, e eu os acompanhei, depois de ter deixado sobre uma pilha de mortos o cadáver de minha irmã.

 


CAPÍTULO 2

 

As ruas continuavam desertas, e o silêncio delas só era quebrado pelo cantar agoureiro do veículo da morte ou pelo ritmo agudo dos gemidos dos pesteados. E havia tanta luz no céu e tanta beleza mesmo em seu azul-claro, uma cúpula tão bonita mas para se arquear sobre um pedaço de mundo de risos e flores e não sobre um hospital de coléricos!...

A transparência do espaço, pura como a de um cristal de rocha, não a fendia a asa de uma ave ou mesmo de uma borboleta! Todos os voláteis haviam emigrado, deixando aquele meio, porque obedeciam cegamente ao instinto de conservação, mais do que nós, que ficamos esperando a peste e a morte com toda a casta de atribulações.

Até os urubus haviam fugido, deixando o abundante repasto do cemitério entregue somente à fome da larva. Pousados nos altos piroás[2] da serra viam de lá as tulhas de podres trapos humanos e o seu apurado faro, sentindo-lhes o cheiro, os cortava de gula mas crocitavam eles apenas e ficavam; não desejavam a vila.

O diáfano ambiente, que tão inofensivo parecia, estava empestado. Para que as aves o evitassem, o abandonassem, não foi preciso mais do que a morte de algumas, fulminadas quando o fendiam em sereno voo. Sabiam mais do que nós, eram mais sensatas, porque fugiam do perigo, e nós o procurávamos.

Rara era a tarde, ao toque das ave-marias, que os morcegos, ao saírem das tocas, antes mesmo de muitas evoluções no ar, não caíssem mortos às dezenas, repentinamente, como varados por balas.

A mortandade crescia na razão direta do empestamento do ambiente.

Aos pesteados não faltaram os favores da assistência pública. Quase de coisa alguma, entretanto, serviram eles. Meu pai foi substituído, mas o médico que o veio render mal teve tempo de fazer uma única visita aos enfermos: — morreu de cólera fulminante. Este fato acabou de aterrar a população. Todos podiam ser atacados pela epidemia, morrer mesmo, mas o médico, não — pensavam —, porque o criam invulnerável.

A peste havia recrudescido, não por faltar a medicina, não por terem crescido os germens do mal, mas porque o pânico havia tornado mais aptos os organismos ao contágio, ao desenvolvimento dos micróbios da peste.

A epidemia tinha chegado ao seu maior grau de intensidade. Poucos eram os refratários e entre estes estava eu, graças à acidez de meu estômago de glutão, sei hoje.

O obituário havia crescido de um modo assombroso, tanto que a cifra dos falecimentos subiu a setenta em um dia.

Nessa terrível colisão estávamos quando nos chegou um sacerdote de outro bispado. Era ele o padre Galindo, homem novo ainda, moreno, alto, magro e direito como uma régua. Deviam ter sido bastante desagradáveis as impressões que ele recebeu quando viu a desolação dos moradores, a qual imprimia à vila um cunho particular de tristeza, de acabamento.

Nada mais lúgubre do que a perspectiva de um lugar atacado de peste. Depois que vi os horrores da varíola em 1878 em Fortaleza, cujos óbitos subiam a mais de mil diariamente, é que avalio da fisionomia da minha pobre aldeia, edificada em um buraco, cercada de montanhas.

A impressão que o padre recebeu foi tão intensa e tanto o comoveu que, apeando-se da cavalgadura, foi direito à matriz. O Sol não tardava a esconder-se por trás do mais alto cabeço da serra, porém ainda longe estava a hora de trindades, quando o sino grande soou com toda sua monotonia de dobre, chamando os fiéis à prece.

O som grave do bronze ecoou mais intenso do que nos outros dias e, como um gemido rouco e fundo, foi se espalhando pela vila até que se perdeu de todo nas covoadas da montanha. Ah como me apavorava aquele soluçar do sino! Ele me trazia a ideia dos defuntos dos quais eu tinha tanto medo.

O sacerdote teve, pelo aspecto da vila, uma noção verdadeira da intensidade do flagelo. Crendo na misericórdia de Deus e em sua influência sobre o destino humano, corria pressuroso ao templo e o sino badalava convidando os fiéis à oração.

De todas as habitações saíram em piedosa romaria os que podiam caminhar. Em breve a pequena igreja regurgitou de gente.

O padre, cheio de abnegação e caridade, porém sem a mínima noção de higiene pública em tempo de epidemia, reunia ali a população para ouvir a palavra de Deus e assim aplacar a cólera do Céu. Benfazejo era o seu intento, e ele, com a alma ungida do amor do próximo, não tinha consciência do mal que fazia àqueles infelizes, aglomerando-os em não saneado recinto e ainda mais abatendo-lhes o ânimo com aquelas cenas deprimentes.

Os exercícios religiosos constavam de prédica e de orações cantadas. Por infelicidade minha, nossa casa ficava na praça onde estava edificada a igreja e para que aquelas práticas mais perniciosas fossem, começavam à hora das trindades, tempo propício ao contágio, hora deprimente, mesmo para os que são felizes, quanto mais para os desgraçados.

Depois do sermão, que constava sempre da enumeração das penas eternas, com um exagero dantesco, vinha o Ofício de Nossa Senhora, cantado por centenas de vozes de todas as alturas e timbres, com os falsetes do medo, e terminando-se pela — Senhor Deus misericórdia — súplica feita num ritmo pavoroso, por si só mais aterradora do que a mais tenebrosa ideia dos castigos do Inferno!...

Ainda hoje conservo nos sentidos o vozear roufenho das devotas acompanhando a voz cheia do padre. Quantas vezes não corri para o fundo da casa, fechando os ouvidos com a mão para não ouvir a pavorosa melopeia dos fiéis! E lá mesmo ia ter o som, de que eu fugia amedrontado, a alternar-se com o ranger da padiola, sugerindo em mim ideias que me mortificavam porque todas elas se prendiam à morte. Deixava então o meu asilo e vinha para o quarto de meu pai, onde me julgava livre das almas, embora mais perto da igreja.

O padre era um crente, era um abnegado. Desde que entrou na vila, não descansou mais. De dia confessava os moribundos e enterrava os mortos e à noite fazia preces e acendia fogos nas ruas para desinfetar a atmosfera.

Não estava parado nunca; por toda parte aparecia a sua figura magra, a sair dos mais infectos aposentos.

Por mais que se expusesse ao contágio o mal o respeitava. A sua imunidade começava a impressionar o povo que, mais por ela, que era um fato extraordinário, mas não sobrenatural, do que pelos seus atos de caridade, o acreditava santo. E grande santo é quem somente pelo amor de Deus cuida dos enfermos e enterra os mortos.

O padre Galindo não temia a peste e nem tampouco a morte. O seu heroísmo e a sua abnegação, se eram uma doença de seus nervos, abençoada nevrose que alimenta tão puras e salutares virtudes cristãs. Quando lhe disseram que os cadáveres apodreciam em cima da terra por não haver quem os sepultasse, não se limitou a exortar do púlpito os fiéis àquela obra de misericórdia, foi ele próprio ao cemitério, abriu a vala com as próprias mãos e enterrou os mortos. Este seu grande exemplo de coragem e de piedade serviu tanto, foi tão edificante, que desde aquele dia não ficaram mais apodrecendo sobre a terra os corpos dos pesteados, embora repetidos fossem os casos de cólera fulminante na ocasião dos enterramentos.

No período mais agudo da peste foram enviados de Fortaleza doze sentenciados às galés perpétuas para o serviço das inumações. Todos estes criminosos morreram fulminados nos três primeiros dias de sua chegada, à exceção de dois que desgraçadamente viveram mais alguns dias para morrerem como os companheiros, porém depois de cometerem o mais nefando e abominável crime de bruteza humana. Contavam-se coisas horríveis destes dois monstros. As suas histórias eram tão medonhas que os meninos não podiam ouvi-las e por isso não se me as referiam.

Meses depois de acabada a epidemia, meu pai conversava com um homem muito nosso amigo sobre os horrores da peste, quando me aproximei deles ansioso pela narrativa. A minha presença fê-los calar, mas notei que ambos tinham as feições demudadas e mais ainda o estranho, cujo rosto estava numa crispação medonha.

Afastei-me, e, logo que me pus longe, o homem continuou a falar quase ao ouvido de meu pai, gesticulando, irritado, ameaçador, todo ele numa crise de ódio, de desespero. Supus que o narrador estivesse para endoidecer e mais receios tive disso quando o seu desvairamento terminou-se num dilúvio de lágrimas.

Aquela história devia ser muito dolorosa, pensei, e não poder ouvi-la, eu que tanto gostava de ouvir episódios dantescos!

Quando o visitante saiu, me aproximei de meu pai e perguntei-lhe por que tanto chorava aquele pobre homem, isto na esperança dele contar-me o que tinha ouvido.

— Não — disse-me ele —, quando fores homem, pede-lhe que te conte a sua triste história.

Dois anos depois do cólera, morria meu pai de uma moléstia, que sei hoje ser o beribéri, e que aparecia pela primeira vez no Ceará. Em consequência deste desastre fomos obrigados a nos mudar para Fortaleza, onde eu devia entrar para o Ateneu Cearense, o primeiro e único colégio que havia naquele tempo. Deixei a nossa vila, sem sentir saudades dela: não chorei vendo ficarem os lugares de minha infância. Meu espírito almejava outro meio, porque naquele em que vivia tudo lhe falava mais ou menos da peste e dos horrores dela. O ranger da padiola e o “Senhor Deus, misericórdia” ainda me soavam aos ouvidos quase tão aterradores como no tempo da epidemia. Por muitos anos ainda, quando eu tinha um sonho mau, um pesadelo, eram eles episódios da cólera. Aquelas cenas haviam ficado gravadas dentro de mim talvez para sempre. Com o andar do tempo modificou-se a minha psicose, ficando-me, entretanto, dentro do cérebro, as mesmas imagens, porém, menos nítidas, meio apagadas.

 


CAPÍTULO 3

 

Os anos passaram, mais de vinte, talvez, quando voltei à minha antiga vila, cidade hoje. Como a achei mudada!... Só a natureza era a mesma com as suas montanhas azuis e os seus regatos cristalinos e cantantes. A casaria havia aumentado e melhorado de arquitetura. Em algumas já se viam os serpentões nas cornijas tão em moda na capital, os quais a primeira intendência republicana em Fortaleza encurtou e acabou por aboli-los, como se aquelas falsas hidras fossem contrárias ou maquinassem contra o regime democrata.

A matriz tinha sido reedificada com maiores acomodações. Lá fui visitar o meu antigo padroeiro e advogado da peste, São Sebastião: era o mesmo; nada o tempo tinha alterado nele, lá estavam a mesma laranjeira verde e o vivo sangue a lhe gotejar do lado. Olhei-o com afeto, como um amigo que se vê depois de prolongada ausência, e ele me fitou, como costumava fitar os que o olhavam, lançou-me o seu olhar morto de imagem. Senti, vendo o santo, um vazio na alma que havia deixado a fé da infância. Quantas saudades tive então das minhas crenças, daquele tempo em que, com toda a inocência de minha idade, com todo o meu coração de simples e com um fervor que já não existe, me prostrava e pedia a São Sebastião para livrar da peste a mim e aos meus, prometendo-lhe uma vela de cera branca. Como era inocente e feliz, muito mais feliz do que sou hoje, que não tenho medo das almas! E, no entanto, eu amava o santo, respeitava o mártir e me alegrava vendo-o.

Saí da igreja e a imagem foi acompanhando-me com a vista até que me encobri no adro. Era a hora das ave-marias e o sino tocava trindades. Descobri-me, perfilei-me e intencionalmente caíram os meus olhos sobre a nossa antiga casa. Todas as cenas do passado viveram então em mim, e a figura do meu pai, em todo o vigor de sua mocidade, viram os meus sentidos. Parecia-me realmente vê-lo, como o via todos os dias àquela hora, descoberto, de pé à primeira badalada do sino, a rezar «O anjo do Senhor», tendo ao lado uma criança que também rezava de mãos postas. E era eu a criança que vinte anos depois, homem e quase desiludido, aquela visão com sua misteriosa força espiritual fazia orar a hora das trindades!...

Ninguém me conheceu na cidade!... Passei no meio de sua população como um desconhecido. E quem me podia reconhecer? Os meninos de meu tempo estavam também homens e eram outros os seus rostos e o seu talhe. Comecei a me sentir mal entre aquela gente. Todos me olhavam com curiosidade. Poucos eram os que havia deixado homens e reconhecia: mas me conservava incógnito. Não sei por que tinha o coração fechado. Não era a perspectiva do lugar, então alegre pela paz e prosperidade de seus habitantes, que me entristecia, mas um não sei quê de melancólico me amofinava o espírito.

Entre toda aquela gente uma figura me arrancou um pouco ao meu desalento e me fez sentir uma vaga saudade dos dias da infância. Foi ela a preta Rita, vendedora de doces e que tantos anos depois me aparecia, já velha, mas forte ainda, com o seu tabuleiro à cabeça, coberto com uma toalha de rendas sempre branca e engomada. Vivi por alguns instantes a minha vida de menino, saboreando os doces que guloso comia e que me fizeram dispéptico por toda vida. A velha passou, olhou-me, mas não reconheceu o seu antigo freguês.

E assim passei na cidade, sempre triste, e a teria deixado incógnito se no dia de minha partida não tivesse encontrado à porta de uma de suas melhores casas um homem que reconheci logo à primeira vista ser o que tinha, chorando, narrado a meu pai a sua triste história. Não o havia esquecido nunca; fora mesmo da província, me lembrava dele e quando contava aos companheiros de estudos os horrores do cólera prometia-lhes procurá-lo e lhe escrever a história.

Olhei com atenção: eram as mesmas feições, porém bastante amarrotadas pelo tempo e pelos sofrimentos. Os seus cabelos estavam todos brancos. Era sem dúvida o desgosto a causa de sua velhice prematura.

Saudei-o, e ele sem ligar importância à minha pessoa retribuiu friamente o meu cumprimento. O meu amor-próprio, de uma sensibilidade extravagante, quis molestar-se com a falta de cortesia, e talvez continuasse o meu caminho se as palavras de meu pai — quando fores homem pede-lhe que te conte a sua triste história — não tivesse ouvido naquele momento tão claramente como quando foram proferidas.

Aproximei-me do velho, que, sem levantar a vista do chão, esperou que lhe dissesse o que queria dele.

Vendo que não se dignava olhar-me disse-lhe:

— Faz vinte anos que o vi. Eu era muito criança ainda, mas me lembro de sua aflição e de suas lágrimas. Contava o senhor uma história ao médico deste lugar, que era meu pai, e essa história devia ser bastante dolorosa e bastante horrível porque ele não ma quis repetir. Vejo quanto tem padecido, de quanto é capaz o sofrimento! Deixei-o moço e o encontro velho!... Não foi a idade, estou certo, que lhe branqueou os cabelos, que lhe abriu nas faces estes profundos sulcos, que lhe apagou quase a luz dos olhos e o brilho deles, deixando-os estagnados diante de uma imagem que não se separa de sua lembrança, que vive dentro de sua cabeça. É a história dessa visão, que durante vinte anos lhe tem gasto as energias do espírito, lhe tem morto todos os desejos da carne, lhe tem consumido todas as esperanças do coração, que desejo conhecer. Quando o senhor contou-a a meu pai, pedi-lhe que ma repetisse e ele negou-se, dizendo-me que, quando eu fosse homem, o senhor ma contaria. Estou na idade de ouvi-lo e espero que não deixará de satisfazer a minha curiosidade.

O velho levantou a vista e olhou-me com um olhar doentio, com um olhar de ovelha. Queria talvez encontrar em minha fisionomia a identidade de minha pessoa. Não podendo pelo meu rosto reconhecer-me começou a sua narrativa, falando do médico da antiga vila, mas de um modo tão lisonjeiro que me encheu de contentamento. Os seus conceitos eram sinceros, porque eram de um homem sem ódios e sem aspirações, que era vivo mas que se julgava morto havia mais de vinte anos. Vivendo por uma fatalidade dentro do próprio cadáver, indiferente como um extinto ao Bem e ao Mal, só podia ser a sua linguagem a da verdade e por isso me orgulhava de ouvi-lo concretizar as suas ideias em belíssimas imagens sobre a caridade de meu pai. Falava sem emocionar-se e sem dar mostras que percebia a comoção que me causavam as suas palavras. Feito o exórdio, entrou na narrativa. Pensei que ele se transfigurasse, mas iludi-me; continuou sereno, e com firme entonação de voz me relatou as páginas que se vão ouvir.


CAPÍTULO 4

 

Eu tinha vinte anos, era terceiranista de Direito e estava passando aqui as férias com minha família, quando apareceu o cólera-morbo. Ao primeiro grito de alarma a população ficou aterrada, como se ela fosse um rebanho de carneiros cercado por uma manada de lobos. Fortes foram os que evitaram o contágio retirando-se da vila. Fiquei porque minha mãe, que já não tinha marido, e de quem eu era o único filho, não quis sair. Ela, coitada, acreditava, como a maioria dos ignorantes fanáticos, ser a peste uma manifestação da cólera de Deus, um castigo de nossos crimes e que devíamos recebê-lo de cabeça baixa e não procurarmos fugir dele. Eu absolutamente não comungava das ideias de minha mãe e tanto que, conhecendo a gravidade da situação, lhe pedi por tudo para abandonarmos a vila. Obstinada como todo obcecado, não a demoveram os meus rogos e ficamos esperando estupidamente o castigo do Céu. Ela ainda era crente, ainda rezava, pedia e confiava na misericórdia de Deus, e eu nem isso fazia, porque se a peste fosse um agente de destruição, mas obra da Divindade, não mataria os pequeninos, os inocentes, e via todos os dias essas pequenas vítimas irem para o cemitério. Um dia mostrei à minha mãe a padiola cheia de cadáveres de crianças, e ela, achando o fato muito natural, me disse que Deus castigava os pais matando os filhos. Por mais absurdo que a mim parecesse esse modo cruel de castigar, nada lhe disse, e para quê? Ela estava completamente convencida dessa inverdade.

A peste tomava dia a dia maiores proporções. Pela manhã ninguém podia afirmar, estando mesmo de perfeita saúde, se seria vivo à noite. Se seu pai vivesse podia confirmar o que lhe estou dizendo. Eu temia a peste, não tanto por mim e minha mãe, porém por minha noiva. Amava uma linda moça de quinze anos, filha de um vizinho nosso. Havia dois meses que tínhamos feito os nossos esponsais, e nos casaríamos dentro de um ano. Se não tivesse morrido para sempre em mim a linguagem afetuosa dos amantes, lhe contaria o nosso idílio. Quantas ilusões me nasciam das carícias dela e como era esperançoso o nosso viver!

A peste crescia, e todos os dias eu ia, logo ao alvorecer, pedir novas de minha noiva. Alguém me dizia que a cólera a mataria; mas este alguém era invisível — apenas sua voz soava-me nos recessos d’alma. Uma manhã, quando eu voltava daquela obrigação imposta pelo meu amor, me senti mal. Um quebranto esmorecia-me todo, empurrando-me para o leito. Estava pesteado, conheci, e me apavorei, não ante à ideia da morte, mas ante a certeza terrível de deixar a minha amada para sempre.

O mal evoluía em mim com incrível rapidez. Começou por náuseas, que logo se transformaram em vômitos, mas em vômitos que não paravam. Vieram as dejeções e com a mesma frequência mais de trinta por hora. Estava desmanchando-me em água; o que saía de mim era somente líquido. Em poucas horas a moléstia tinha me dissolvido toda a carne do corpo, só deixando a pele e os ossos! A minha figura devia estar hedionda, repelente, e no entanto, ela, que me servia de enfermeira, que viera pôr-se ao meu lado, logo que soubera estar eu pesteado, não procurava evitar-me as feições, não mostrava nojo de mim. E eu devia estar nojento, como um esqueleto sujo. Ao passo que a carne me desaparecia do corpo, o espírito tornava-se mais lúcido, mais claro o meu entendimento.

A abnegação dela, assistindo a todas as fases do mal que ia me consumindo e ia, aos pulos, me roubando dela, bastante me comovia. Que delicada enfermeira! Eu não tinha mais lábios para dar direção ao vômito que me saía por toda a abertura da boca, e quantas vezes, por isso, aquela aguadilha infecta e morna não lavou as mãos dela, o rosto mesmo!... Só o amor é capaz desses milagres de dedicação; só a mulher tem desses rasgos de heroísmo.

Sentia que estava acabando-me e maldizia a tirania da doença em conservar a luz da razão. A carne já estava quase toda consumida e cada vez mais se aguçava a minha sensibilidade moral, mais delicado se fazia o meu sensório.

A luta de morte em que se batiam o meu corpo e o mal não podia durar sempre. Aproximava-se o termo do terrível duelo. Eu não tinha mais carne, e, no entanto, ainda tinha nervos para sentir a miséria de minha animalidade sujeita às tristes contingências da vida.

Uma febre horrível me abrasava as entranhas, e eu pedia à minha enfermeira, por Deus, pelo nosso amor, uma gota d’água, uma somente, para me refrescar a língua, que se crestava como uma folha de feto que caísse no borralho de uma forja. Ela me olhava com seus grandes olhos pretos, nadando em lágrimas e me recusava o líquido, dizendo que me faria mal. Quanto lhe devia custar a prática daquela estúpida prescrição, um dos preceitos mais recomendados pela medicina daquela época aos doentes de cólera!... Não podia conformar-me com a sua crueldade e para comovê-la como se o seu coração não fosse um cofre de piedade, de afetos, pus as minhas mãos de esqueleto em súplice postura, olhei-a de dentro de minhas fundas órbitas de caveira e lhe pedi por tudo uma gota d’água, uma somente, para me refrescar a língua.

Ela não resistiu à súplica; e mais comovida talvez com o atentado que ia cometer contra a minha saúde do que com as torturas que me impunha a sede, se aproximou de mim trazendo na extremidade do seu dedo mimoso um pingo d’água.

Estirei a língua, e naquele trapo, semelhante a couro curtido, caiu a gota, que se embebeu subitamente, como o orvalho da noite nos secos areais dos desertos.

Aquela frescura durou um instante, mas depois senti outras gotas, que me caíam na boca, mornas, salgadas; eram as bagas de seu pranto e que bebi sedento.

Sentia que estava me acabando, que meu corpo não tardaria a cair em terra para a derradeira decomposição que os vermes começariam, mas que pobre seria o repasto que em mim deixaria a peste para lhes saciar a gula. Tênue era o fio da vida a se partir a cada instante.

Estava quase morto e, no entanto, viviam os meus sentidos como nos melhores tempos de saúde. A minha sensibilidade moral não se embotava e nem tampouco languescia a minha percepção. Haveria em mim alguma coisa mais do que a peste dissolvia e eliminava do meu corpo? Existia, sim, porque minha carne estava reduzida a menos de um terço e não diminuía o meu entendimento. Havia uma força imaterial que a peste respeitava, que não era atacada pelos micróbios do mal. Sentia perfeitamente a existência dessa entidade sutil dentro de mim.

Minha enfermeira, profundamente abalada por essa derradeira cena, afastou-se, e continuei com a língua estendida, esperando uma gota mais para me aliviar a sede. Esperei, mas embalde; ela não voltou! Fiquei só, e quanto me custou esse desamparo?! Eu era quase um cadáver, porém com a sensibilidade de um homem são e afetivo. O mal progredia em mim e eu tinha consciência disso. A algidez que me gelava a pele era tão intensa que eu sentia o ambiente morno. E ela me havia abandonado na hora suprema, no momento em que eu ia morrer!... Ah como fui injusto em meu egoísmo de amante desprezado!... Uma luta terrível travou-se então em mim — a de meu amor-próprio ultrajado com o desejo ardente de chamá-la a meu lado, desejo que nascia do temor que me fazia aquele desamparo. E venceu o instinto da conservação — quis chamá-la mas não pude; já não tinha voz, a palavra morreu-me no fundo da garganta e não foi articulada. Uma série de cãibras, que torciam os músculos de todo o corpo num doloroso espasmo, começou; era chegada a última agonia daquele transe, pensei. Apavorei-me de todo; quis gritar por ela e não pude. Deste derradeiro esforço no qual gastei a última parcela de minha energia, se é que em mim ainda havia esta força, gerou-se uma cãibra mais forte que me chegando ao coração o estrangulou em repetidos espasmos. Perdi os sentidos; morri para os que minutos depois me vieram ver.

Seriam seis horas da tarde quando tornei à vida, duas horas depois de minha suposta morte. Acordei precisamente no momento em que dois carregadores de defuntos me atiravam dentro da padiola. Nunca mais esquecerei os primeiros instantes de minha ressurreição. Bastaram poucos segundos para que eu me relacionasse com o meio e para que se gerasse dentro de mim a dolorosa ideia de meu enterramento! Ia ser enterrado vivo e já sentia o peso da terra me esmagando o corpo e me afogando o vazio da cova. Sensação mais angustiosa poucos terão sentido, ainda os mais desgraçados na dolorosa peregrinação por este vale de lágrimas. Fiquei completamente aniquilado. Antes, porém, de se submeterem à vontade dos que me iam enterrar, revoltaram-se todas as minhas fibras sensitivas, mas de nada serviu a sua revolta, elas ordenavam, porém não eram obedecidas, nem um músculo se mexia para satisfazê-las.

Quis acenar para os carregadores e não pude!...

Quis ao menos pôr nas linhas de meu rosto um traço que denotasse que eu vivia, um ar de vida finalmente, e a pele, que me engelhava como amarrotado pergaminho sobre a caveira, se conservava imóvel, como de pedra, e com o mesmo aspecto terroso e mortuário.

Tentei falar com os olhos, com os quais eu tantas vezes tinha dito a ela o que se me passava n’alma, mas eles não podiam falar, estavam semiapagados dentro de suas fundas covas.

Hirto, imóvel, gelado, quem não me julgaria morto? E eu estava vivo, sabia que me iam enterrar e não podia evitar aquele terrível desastre.

Os carregadores deixaram-me na padiola e entraram.

O Sol já se tinha escondido de todo por trás da montanha, mas a vila saiu da sombra da serra iluminada pela Lua, que quase em plenilúnio mostrava o seu disco luminoso muito acima do horizonte.

Os carregadores voltaram trazendo um corpo que atiraram sobre o meu. Recebi em cheio o choque do cadáver, que me sacudiam em cima com o maior desrespeito e que se estirou ao longo do meu corpo ficando unido o seu rosto ao meu.

A ideia deste íntimo convívio com um morto arrepiava-me de repugnância. Eu estava álgido, mas o meu companheiro ainda era mais frio do que eu; a friagem de suas faces me transia a pele do rosto até a caveira. Se pudesse mover-me teria evitado aquele contato, mas não tinha forças para estirar ou encolher um músculo.

Resignado estava a suportar a companhia do defunto até o cemitério ou mesmo até a vala, quando a luz da Lua, caindo em cheio sobre os nossos rostos, fez com que reconhecesse o morto. Era ela com toda a sua carne e toda a sua formosura que se unia a mim naquele derradeiro abraço à beira da sepultura. Comecei a sentir que não estava tão só e tão desamparado. E bem podia ser que ela não estivesse morta, que estivesse como eu. Esta esperança de salvação durou somente enquanto a padiola descansou; logo que a puseram em movimento, que começou a ranger, que as suas sacudidelas trouxeram os nossos corpos em um constante atrito, me julguei perdido. Se ela não estava morta, morreria afogada debaixo do chão; igual sorte também seria a minha. Como devia ser horrível não ter ar para a articulação de uma palavra, uma somente, menos ainda, uma interjeição, mas que resumisse, em sua breve sílaba, todo o nosso horror, toda a nossa angústia!... E a padiola, cada vez mais lugubremente, rangia, e dentro dela dançavam os nossos corpos, movidos pelo passo incerto dos carregadores.

Como eu achava hedionda a figura dos cocheiros! Tinha-os reconhecido: eram os dois galés, únicos que escaparam ao contágio. Se ao menos pudesse gemer para saberem que levavam alguém vivo, mas nem isso podia fazer e, se o fizesse, o ranger da padiola engoliria os meus ais antes de serem percebidos.

E o esquife a cantar a sua lúgubre melopeia e a sacudir-nos os corpos nos levava à cova e eu sentia o horror de meu enterramento. E ela, quem sabe, se também não estava viva e horrorizada com a ideia de ser enterrada sem estar morta!

Não, a sua frialdade era de defunto. Em um dos solavancos da padiola os seus lábios se colaram às minhas gengivas num rápido beijo, e senti que eles eram de gelo e me repugnaram tanto que se eu fosse senhor de mim os teria afastado e repelido mesmo.

A distância de nossas casas ao cemitério era de pouco mais de um quilômetro. Os carregadores depressa a venceram. Quanto mais se aproximava o termo daquela dolorosa viagem mais me horrorizava o fim trágico que me esperava.

Quando passamos pela igreja rezavam as devotas as suas orações, acompanhando a voz estridente do padre a pedir — Senhor Deus, misericórdia!... Senti-me de todo aniquilado; aquela súplica me soava aos ouvidos como se rezassem o meu réquiem.

A minha vista estava tão curta que olhando a matriz mal enxergava a fachada até a altura das portas. O meu cérebro, entretanto, funcionava bem, e pude então avaliar o seu poder.

Nos poucos minutos que gastamos para chegar ao cemitério escrevi mentalmente um sentido poema de recordações. Senti uma saudade da vida, que me traspassou todo. Não podia conformar-me com a morte; o que me angustiava, não era o acabamento, era morrer moço, era ter apenas vinte anos e ser enterrado vivo!

Que funda mágoa tive e como amaldiçoei o meu destino!...

Assistia, partido de saudades, o desfilar de todas as minhas ilusões, de todas as minhas esperanças, que incorporadas seguiam caminho da morte e que em breve cairiam na cova. O meu infortúnio era de tal ordem que para ele não podia haver resignação possível. Em uma dessas crises de desespero, em uma dessas ânsias de viver, fitei o rosto dela, pálido como o de uma Vênus de mármore e mais frio ainda do que gelo. Estaria morta ou, como eu, assistiria ao funeral de todos os seus desejos, de todos os seus sonhos?!

E a padiola rangia, rangia e ela não dava sinal de vida.

O veículo calou-se, ouvi um dos carregadores dizer: — chegamos; e fomos despejados desumanamente no chão, como fardos inúteis. O choque me abalou o esqueleto, mas não produziu em mim a menor dor. Caí ressupino sobre um cadáver, cujo peito me serviu de travesseiro. Ela, mais tesa do que eu, recebeu mais impulso e se estatelou um pouco adiante de mim.

Era chegado o instante supremo, o momento de esgotar até as fezes o cálice da agonia.

A Lua estava clara como o dia, e eu não perdia de vista os celerados, que não tardariam a me arrastar para a vala. Esperava-os completamente acovardado. Só por um milagre escaparia de um tão trágico gênero de morte. Lembrei-me então de Deus, eu que fazia alarde de minha falta de Fé!... Foi preciso esta provação para eu conhecer quanto o homem é miserável e quanto é necessário no sofrimento a ideia de um ser sobrenatural que lhe possa aliviar as penas. Prostrei-me em espírito e orei. Pedi, mas pedi sem aquela confiança, aquele fervor com que pedem os crentes. Ainda bem não havia concluído a súplica vi que os galés, depois de uma ligeira conversa, que não ouvi, se aproximavam do corpo de minha noiva. Iam enterrá-la; ela parecia morta, mas bem podia ser que, como eu, estivesse viva.

Meus olhos, embora sepultados como estavam nos fundos buracos da caveira, viam bem o que se passava perto deles.

Um dos carregadores, depois de mirar o rosto do cadáver, apegou-se a ele e arrancou-lhe os brincos das orelhas e os anéis dos dedos. Ah! como me doeu n’alma aquela primeira profanação! Foi grande a revolta que senti, mas não tinha músculos nem forças e continuei imóvel. Despojada de suas joias, algumas das quais tinham sido presentes de noivado, e que os galés repartiram entre si, ela ia repousar aos quinze anos, para sempre, de todas as fadigas desta vida. Como me iludia, pr’aquela desventurada criatura a morte não seria a posse do descanso.

Os dois celerados, depois de recolhido o saque, sentaram-se, e um deles sacou um baralho do bolso. Começaram a jogar. Eram as joias dela que jogavam, pensei. Riam e palravam e, ante aqueles sons mal articulados, deformados mesmo pela língua perra de embriaguez, percebi uma palavra que me fulminou. Bem podia ser que me houvesse enganado, dizia dentro de mim a voz da Esperança, talvez para não morrer de todo, como se eu já não fosse um morto.

A posse daqueles objetos, penhores do meu amor, pertencendo a outro homem me ralava de ciúme, me desonrava enfim! E mal sabia eu que eles jogavam uma coisa mais preciosa do que as joias que tinham furtado; jogavam o corpo dela.

Um deles ganhou, e seria dele o que sonhei tantos anos pertencer a mim e somente a mim. Esta ideia me assaltou a mente gerada pela palavra que eu tinha ouvido; e eu que supunha já ter chegado à vasa do mar das amarguras, já ter tocado as fezes do cálice da agonia, vi que ele ainda estava cheio e que havia de esgotá-lo!...

Era demais aquela provação e, numa crise de justo desespero, pedi a Deus, não a vida, mas a morte, trágica embora como se me apresentava. Deus não me ouviu e conservou-me vivo dentro do meu próprio cadáver; inerte, desprezível em minha impotência de morto!...

Estávamos à mercê de dois monstros dominados somente pelo instinto bestial. Ela seria vítima inconsciente daquela cena de bruteza humana, e eu seria a vítima consciente; padeceria por mim e por ela, o ultraje, a vergonha e ciúme, e por cúmulo da miséria ter o espírito vivo dentro de um corpo morto.

Ela dormia o derradeiro sono, amortalhada no roupão de cassa[3] cor-de-rosa, que vestia quando a peste fulminou-a. O mal não teve tempo de lhe alterar as formas, matou-a repentinamente como se lhe atravessasse o coração com uma bala. Não sofreu, nada sentiu e muito branca e muito bela parecia adormecida com o ar do rosto numa expressão angelical. Os seus traços de estátua, que antes o mal os tivesse apagado, banhados pela luz doce e suave do luar aguçaram mais nos celerados os instintos bestiais.

Em caminho para o cemitério eu pensava ser o maior suplício o enterramento de uma criatura viva, e mal sabia que a escala do sofrimento humano é como espaço, não tem fim, e que outro suplício, tão atroz que não se define, estava reservado para mim.

Os carregadores de defuntos ambos eram mestiços, de feia catadura e de uma carnação tão vigorosa que os dias da cadeia, numerosos embora, não puderam sequer amolecer-lhes a musculatura.

Eu não sabia, até então, de quanto é capaz o instinto bestial; não avaliava a perversão do homem que se deixa dominar pela animalidade. A carne havia triunfado nas bestas humanas, à mercê das quais estava a virgindade dela e a paz de toda a minha vida. Eles tinham perdido a razão e com ela todos os escrúpulos da moral. Nem o espetáculo da morte e nem tampouco o receio da peste embotavam nos celerados os lúbricos desejos carnais!...

O que havia ganho o cadáver, e que devia violá-lo em primeiro lugar, ergueu-se e caminhou para o corpo. Não posso explicar o que se passou em mim quando me convenci de que ia ser consumado ali o mais nefando delito da bruteza humana. Quis erguer-me e livrá-la de ser prostituída depois de morta e não pude!... Por maior que fosse a revolta que eu sentia, por mais intensa a descarga nervosa vibrada em meus músculos, estes não se mexeram e fiquei imóvel!... Como me doeu a minha nulidade!... Como me acabrunhou a minha inércia!... O meu eu havia percorrido em poucas horas todas as etapas de sofrimento, passado por todos os estádios da tortura, acredite! E, coisa estranha, eu sentia, sem que quisesse, nas ruínas do meu acabamento, em presença daquela cena carnal, uns frêmitos de sensualidade, ânsias da carne, que ainda não tinha de todo perecido!... A dissolução é a glorificação da matéria, o triunfo da animalidade; me convenceu o que vi e senti.

Os dois monstros, cada qual mais repelente pela sua moral, mais imundo pelo seu físico, mais asqueroso pelos seus vícios, indignos mesmo do amor de um cadáver, cevaram-se à farta na virgem morta, enquanto adormeci ou desmaiei!...

Quando voltei à vida já era dia e o Sol dardejava, erguido bastante no horizonte, como se fosse uma esfera fulgente de prata boiando num tranquilo lago de anil. O meu acordar foi uma das páginas mais tocantes desta tragédia. Custei a ter uma noção exata de minha pessoa, do lugar e do tempo. Não posso bem definir o estado de meu espírito quando despertei. Tive uma sensação de vazio na cabeça, depois de atordoamento, ideias se atropelaram, se baralharam em uma confusão de loucura, depois as imagens dos objetos que me cercavam foram se individualizando, tomando formas mais nítidas, e percebi o meio e me reconheci. Despertos todos os meus sentidos, na posse de meu entendimento lembrei-me da cena, que assistia quando adormeci; porém, não como um fato real e verdadeiro, mas como um sonho mau. E continuariam a ser para mim um pesadelo aquelas reminiscências, a terem o valor de uma extravagante alucinação, se meus olhos não confirmassem a tristíssima verdade caindo sobre as formas dela completamente expostas. Um espasmo me sacudiu todo e ressuscitou a vida de meus músculos. Quis erguer-me e sentei-me. Olhei o sítio; era o cemitério dos coléricos. Pilhas de mortos apodreciam ao tempo!... Não me demorei na apreciação daquele triste lugar. A minha cabeça estava toda cheia do monstruoso atentado da derradeira noite. Pus-me de pé, cambaleando é verdade, mas firmei-me e fui ao lado dela. Não sei que natureza de sentimento tive quando palpei a dolorosa verdade que minha razão teimava em fazer um sonho. Nem havia dúvida, ela tinha sido violada; suas formas continuavam expostas e os autores do nefando crime mortos em nudez obscena a poucos passos dela!... Naquele instante não posso definir o que se passou em mim; meu espírito desceu, desceu até topar a vasa do oceano tormentoso da agonia. Tudo estava em trevas dentro de meu cérebro e, quando clareou-se-me a vista e a razão, foi ela que viram os meus olhos, mas profanada e morta! Acheguei-me ao corpo sem olhá-lo, sem profaná-lo com a luz de meus olhares, com o mais profundo recolhimento e piedade cobri-o com as suas próprias vestes. Quis depois sepultá-lo, lançá-lo dentro de uma vala aberta perto de nós e não tive forças e nem coragem. Mandaria mais tarde prestar-lhe este serviço.

Ao deixar o cemitério senti uma necessidade imperiosa de vingar-me dos celerados que para sempre me haviam roubado a paz do espírito. Como me vingaria se eles estavam mortos?!...

Aproximei-me deles e, numa ânsia de vingança, numa crise de ódio, de desespero, pisei-lhes os rostos com os pés, como se eles pudessem sentir a ofensa física ou se revoltar com o ultraje e eu tivesse forças para esmagá-los!

E saí, com o passo vacilante, em rumo à vila onde o senhor me encontra vinte anos depois, ainda enclausurado dentro de mim, evitando o convívio dos homens e chorando a viuvez do meu espírito.

 

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes.

Imagem: Osvaldo Teixeira.



[1] Grande rio do subcontinente indiano.

[2] Árvore de grande porte do Nordeste brasileiro.

[3] Tecido transparente de linho ou algodão.


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