O PERIGO DE CHEIRAR FLORES - Narrativa Verídica de Horror - Anônimo do Séc. XIX



O PERIGO DE CHEIRAR FLORES
Anônimo do séc. XIX

Lê-se  em um jornal de Nantes:

“Mlle.   Amélia I... residia numa pequena casa de campo.

Apaixonada pelas flores, como todas as pessoas da sua idade, pois tinha 19 anos, possuía um jardim, onde não cessava de fazer ramalhetes.

Um dia, na forma do seu costume, foi ao jardim, onde o seu primeiro movimento foi colher uma rosa para a pôr na cabeça, não deixando de  cheirá-la primeiro.



Quer porque tenha aspirado muito forte, quer porque aproximara demasiadamente a rosa ao  nariz, sentiu  uma espécie de  titilação, que, infelizmente para ela, não foi suficientemente forte para fazê-la espirrar — o que, segundo a declaração de seu tio, o Dr. T.  I..., lhe teria salvado a vida.

O fato é que ela não fez caso do incidente. Porém, alguns dias depois, queixava-se de uma violenta dor de cabeça.

Começou a não poder dormir, sofrendo dores atrozes.

Foram chamados muitos médicos, dizendo uns que era uma congestão cerebral e outros um derrame no cérebro.

Assim se passaram seis meses em cuidados inúteis da parte da sua família e de sofrimentos da parte da infeliz jovem que, do fim dos seis meses, perdeu o juízo.

Foi preciso forrar as paredes e pavimento do seu quarto com colchões, porque ela, em seu desespero, queria quebrar a cabeça.

Até se lhe tiraram o leito, com o qual ela poderia realizar o seu funesto desígnio.

A final morreu, e seu tio pediu e obteve de seu irmão a permissão de fazer uma autópsia.

Abrindo-lhe a cabeça, onde residia o mal, observaram-se alguns desarranjos, mas nada oferecia os sinais característicos da doença que os médicos diziam ter sido a causa da morte da Amélia.

Quebrou-se o crânio!

Um grito de horror escapou de todas as bocas.

O mistério tão procurado, o mistério que acabava de enlutar uma família, estava ali... vivo, andando e fugindo!

 E o que era?

Era uma aranha gorda, toda negra, coberta de sangue, e tendo ainda nas pernas restos dos miolos, alimento de que se nutria desde que penetrara na cabeça da infeliz jovem,  no dia fatal em que esta aspirou a rosa que lhe devia causar a morte!”


Fontes: “A Imprensa de Cuyabá”, edição de 9 de junho de 1864; “Publicador Maranhense”, 30 de janeiro de 1864; “Despertador” (SC), 8 de abril de 1864.

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AQUELES QUE MORAM SOB AS TUMBAS - Conto Clássico de Terror - Robert E. Howard


AQUELES QUE MORAM SOB AS TUMBAS
Robert E. Howard
(1906 – 1936)
Tradução de  Fernando Neeser de Aragão



Acordei subitamente e me sentei na cama, me perguntando sonolento quem batia tão violentamente à porta, ameaçando despedaçar os painéis. Uma voz guinchava, intoleravelmente aguçada, como se por terror louco.

– Conrad, Conrad! – alguém guinchava do outro lado da porta. – Pelo amor de Deus, deixe-me entrar! Eu o vi! Eu o vi!

– Parece ser Job Kiles – disse Conrad, erguendo sua longa estrutura do divã onde estivera dormindo, após ter cedido sua cama para mim. – Não derrube a porta! – ele gritou, procurando por seus chinelos – Estou indo!

– Bem, apresse-se! – gritou o visitante invisível – Acabei de olhar para dentro dos olhos do Inferno!

Conrad acendeu uma luz e abriu rapidamente a porta; e, numa figura meio caída, meio cambaleante e com olhos desvairados, reconheci o homem a quem Conrad chamara de Job Kiles – um homem rançoso e miseravelmente velho, que vivia na pequena propriedade vizinha à de Conrad. Agora, uma mudança pavorosa acontecera com o homem, normalmente tão reservado e  senhor de si. Seu cabelo ralo estava totalmente eriçado; gotas de suor lhe brilhavam na barba cinza e, de tempos em tempos, ele tremia como se de uma febre violenta.

– Em nome de Deus, o que houve, Kiles? – exclamou Conrad, encarando-o – Você parece que viu um fantasma!

– Um fantasma! – a voz elevada de Kiles estalou e caiu num guincho de risada histérica – Eu vi um demônio do Inferno! Eu lhe digo, eu o vi esta noite! Há apenas alguns minutos! Ele me olhou pela minha janela e riu para mim! Oh, Deus, aquela risada!

– Quem? – Conrad perguntou brusca e impacientemente.

– Meu irmão Jonas! – gritou o velho Kiles.

Até Conrad se sobressaltou. Jonas, irmão gêmeo de Job, havia morrido há uma semana. Tanto Conrad quanto eu tínhamos visto seu cadáver ser colocado na tumba, no alto das inclinações íngremes das Colinas de Dagoth. Eu me lembrava do ódio que existira entre os irmãos: Job, o avarento, e Jonas, o esbanjador, que passou seus últimos dias em pobreza e solidão, na velha e arruinada mansão da família, nos declives mais baixos das Colinas de Dagoth; todo o seu veneno pairando sobre sua alma azedada, que se centrava no irmão sovina que morava numa casa própria, no vale. Este sentimento havia sido recíproco. Até mesmo quando Jonas estava morrendo, Job havia, de má vontade, se permitido ser convencido a ir até seu irmão. Enquanto isso ocorria, ele havia estado sozinho quando este último morreu, e a cena de morte deve ter sido horrenda, pois Job havia corrido para fora da sala, trêmulo e com o rosto pálido, perseguido por uma horrível crepitação de risada, quebrada bruscamente pelo súbito estrépito de morte.

Agora, o velho Job tremia diante de nós, o suor lhe escorrendo da pele acinzentada e balbuciando o nome de seu irmão morto.

– Eu o vi! Eu me levantei e sentei esta noite mais tarde que o usual. Assim que apaguei a luz para ir à cama, seu rosto me olhou malevolamente através da janela, emoldurado pelo luar. Ele voltou do Inferno para me arrastar para baixo, como jurou fazer enquanto morria. Ele não é humano! Há anos, ele não era! Suspeitei disso quando ele retornou de sua longa perambulação no Oriente. Ele é um demônio em forma humana. Um vampiro! Ele planeja me destruir corpo e alma!

Fiquei mudo e totalmente perplexo, e até Conrad não encontrou palavras. Confrontado pela aparente evidência de completa loucura, o que dizer ou fazer? Meu único pensamento era o de que Job Kiles estava obviamente insano. Ele agora agarrava Conrad pela gola de sua roupa de dormir, e o sacudia violentamente na agonia de seu terror.

– Só há uma coisa a ser feita! – ele gritou, com a luz do desespero em seus olhos – Devo ir até a tumba dele! Preciso ver, com meus próprios olhos, se ele ainda jaz lá, onde o enterramos! E vocês devem vir comigo! Não ouso atravessar sozinho a escuridão! Ele pode estar esperando por mim... jazendo à espera, atrás de alguma sebe ou árvore!

– Isto é loucura, Kiles! – advertiu Conrad – Jonas está morto... você teve um pesadelo...

– Pesadelo! – sua voz se ergueu a um grito estalado – Tive vários, desde que fiquei ao lado de seu maligno leito de morte, e ouvi as ameaças blasfemas escorrerem como um rio negro de seus lábios espumantes; mas aquilo não foi sonho! Eu estava completamente acordado, e eu lhes digo... eu lhes digo que vi meu irmão-demônio Jonas, me olhando malévola e horrendamente através da janela!

Ele torceu as mãos, gemendo de terror, com todo o seu orgulho, compostura e equilíbrio varridos por terror total, primitivo e animal. Conrad me olhou de relance, mas eu não tinha sugestão a oferecer. O assunto parecia tão completamente insano, que a única coisa óbvia a fazer parecia ser chamar a polícia e mandar o velho Job para o manicômio mais próximo. Mas havia, em seus modos, um terror fundamental que parecia atingir até mesmo a sensação ao longo de minha espinha.

Como se sentindo nossa dúvida, ele voltou a gritar:

– Eu sei! Vocês acham que estou louco! Estou tão são quanto vocês! Mas estou indo até aquela tumba, se eu tiver que ir só! E, se me deixarem ir só, meu sangue ficará em suas consciências! Vocês irão?

– Espere! – Conrad começou a se vestir apressadamente. – Nós vamos com você. Acho que a única coisa que destruirá esta alucinação é ver seu irmão no caixão dele.

– Sim – o velho Job riu terrivelmente. – Em sua tumba, no caixão sem tampa! Por que ele preparou aquele caixão aberto antes de morrer, e deixou ordens para que nenhum tipo de tampa fosse colocado sobre ele?

-–Ele sempre foi excêntrico – respondeu Conrad.

- Ele sempre foi um demônio – rosnou o velho Job. – Nós nos odiávamos desde a juventude. Quando ele desperdiçou sua herança e voltou rastejando, paupérrimo, ele se ressentiu porque eu não queria dividir com ele minhas riquezas tão duramente adquiridas. Aquele cão negro! Aquele demônio das covas do Purgatório!

– Bom, vamos ver logo se ele está em segurança na sua tumba – disse Conrad. – Está pronto, O’Donnel?

– Pronto – respondi, prendendo ao coldre minha pistola 45. Conrad riu.

– Não consegue esquecer sua criação texana, hein? – ele gracejou. – Acha que pode ser chamado para balear um fantasma?

– Bom, você não sabe dizer – respondi. – Não gosto de sair à noite sem ela.

– Pistolas são inúteis contra um vampiro – disse Job, movendo-se com impaciência. – Só há uma única coisa que prevalecerá contra eles! Uma estaca enfiada no coração negro do demônio.

– Grandes céus, Job! – Conrad riu abruptamente. – Não consegue falar sério sobre essa coisa?

– Por que não? – Uma chama de loucura se ergueu em seus olhos. – Existiram vampiros em épocas passadas... ainda existem no Leste Europeu e Oriente. Eu o ouvi se gabar a respeito do próprio conhecimento de cultos secretos e magia negra. Suspeitei disso... então, enquanto jazia moribundo, ele me contou seu segredo medonho... jurou que voltaria do túmulo e me arrastaria com ele para o Inferno!

Saímos de casa e atravessamos o gramado. Aquela parte do vale era pouco povoada, embora poucas milhas a sudoeste brilhassem as luzes da cidade. Adjacente aos jardins de Conrad a oeste, ficava a propriedade de Job, a casa escura avultando magra e silenciosa por entre as árvores. Aquela casa era o único luxo que o velho avarento permitia a si mesmo. Uma milha ao norte, fluía o rio, e ao sul se erguiam os sombrios contornos negros daquelas baixas e onduladas colinas estéreis, com longas inclinações cobertas por arbustos, às quais os homens chamam de Colinas de Dagoth – um nome curioso, não-aparentado com qualquer língua indígena conhecida, mas usado inicialmente por aqueles homens vermelhos para designarem aquela cordilheira raquítica. Eram praticamente inabitadas. Havia fazendas nas inclinações externas, em direção ao rio, mas os vales internos tinham solos muito rasos, e as próprias colinas eram rochosas demais para o cultivo. A pouco menos de 800 metros da propriedade de Conrad, se erguia a estrutura vagabunda que havia abrigado a família Kiles durante uns 300 anos – pelo menos, as pedras fundamentais datavam dessa época, embora o resto da casa fosse mais moderno. Acho que o velho Job estremeceu ao olhar para ela, ali empoleirada como um abutre no ninho, contra o negro fundo ondulado das Colinas de Dagoth.

Era uma selvagem noite ventosa, a qual atravessamos em nossa louca busca. Nuvens passavam sem parar pela lua, e o vento uivava pelas árvores, trazendo estranhos ruídos noturnos e pregando curiosas peças com nossas vozes. Nossa meta era a tumba que se acocorava numa inclinação mais alta de uma colina que se projetava do resto da cordilheira, correndo para trás e acima do planalto alto no qual se erguia a casa do velho Kiles. Era como se o ocupante do sepulcro olhasse sobre a casa ancestral e para o vale, que sua gente outrora possuíra da aresta ao rio. Agora, todo o chão pertencente à velha propriedade era a faixa que subia as inclinações até as colinas, a casa numa extremidade e a tumba na outra.

A colina sobre a qual o túmulo fora construído divergia das demais, como eu dissera, e, ao irmos para o sepulcro, passamos perto de sua extremidade íngreme e coberta por matagal, a qual recuava bruscamente para dentro de um penhasco vertical e coberto por moita. Estávamos nos aproximando da ponta dessa aresta, quando Conrad comentou:

– O que possuiu Jonas, para construir seu túmulo tão longe das criptas da família?

– Ele não o construiu – rosnou Job. – Foi construído há muito tempo por nosso ancestral, o velho Capitão Jacob Kiles, e por causa dele, esta projeção particular ainda é chamada de Colina Pirata... pois ele era um bucaneiro e contrabandista. Algum estranho capricho o fez construir seu tumulo lá em cima e, em sua vida, ele passou muito tempo sozinho ali, especialmente à noite. Mas ele nunca o ocupou, pois estava perdido no mar, numa luta com um navio de guerra. Ele costumava observar, em busca de inimigos ou soldados, desde aquele penhasco à nossa frente, e é por isso que as pessoas o chamam, até hoje, de Cabo do Contrabandista.

“O túmulo estava em ruínas, quando Jonas começou a morar na antiga casa, e ele o restaurou para receber seus ossos. Ele bem sabia que não ousava dormir em solo santificado! Antes de morrer, ele havia feito todos os preparativos – a tumba havia sido reconstruída, e o caixão sem tampa colocado nela para recebê-lo...”.

Estremeci, apesar de mim mesmo. A escuridão, as nuvens desvairadas passando pela lua leprosa, os ruídos estridentes do vento, as sombrias colinas escuras avultando sobre nós, as palavras desvairadas de nosso companheiro, tudo trabalhava minha imaginação para povoar a noite com formas de horror e pesadelo. Olhei nervosamente para as inclinações cobertas por arbustos, negras e repelentes na luz mutável, e me vi desejando que não estivéssemos passando tão perto dos despenhadeiros com moitas e assombrados por lendas do Cabo do Contrabandista, se sobressaindo da cordilheira sinistra como a proa de um navio.

– Não sou uma garota tola, para ser assustado por sombras. – O velho Job tagarelava. – Vi seu rosto maligno na janela iluminada pela lua. Sempre acreditei secretamente que os mortos caminham à noite. Agora... o que é isso?

Ele parou bruscamente, congelado numa altitude de terror completo. Instintivamente, aguçamos nossos ouvidos. Ouvimos os galhos das árvores se sacudirem na ventania. Ouvimos o farfalhar alto da grama alta.

– É apenas o vento – murmurou Conrad. – Ele distorce qualquer som.

– Não! Não, eu lhe digo! Era...

Um grito fantasmagórico veio com o vento – uma voz aguçada com medo e agonia mortais:

– Socorro! Socorro! Oh, Deus, tenha piedade! Oh, Deus! Oh, Deus!

– A voz do meu irmão! – gritou Job. – Ele está me chamando desde o Inferno!

– De onde ela veio? – sussurrou Conrad, com lábios subitamente secos.

– Não sei. – Minha pele se arrepiava umidamente até meus membros. – Não sei dizer. Pode ter vindo de cima... ou de baixo. Ela soa estranhamente abafada.

– O aperto da sepultura abafa a voz dele! – guinchou Job. – A mortalha grudada nele sufoca seus gritos! Eu lhes digo que ele uiva nas grelhas em brasa do Inferno, e quer me arrastar para compartilhar seu destino! Lá! Lá sobre o túmulo!

– A rota final de toda a humanidade – murmurou Conrad, cuja brincadeira medonha com as palavras de Job não me adicionou conforto. Seguimos o velho Kiles, mal conseguindo lhe seguir o passo enquanto ele galopava – uma figura magra e grotesca, atravessando as inclinações e galgando em direção ao vulto acocorado, ao qual o ilusório luar revelava como uma caveira brilhando obtusamente.

– Você reconheceu essa voz? – murmurei para Conrad.

– Não sei. Estava abafada, como você mencionou. Pode ter sido um truque do vento. Se eu disser que achei que foi Jonas, você pensaria que estou louco.

– Não agora – murmurei. – Achei que fosse insanidade, no início. Mas o espírito da noite entrou no meu sangue. Estou pronto para acreditar em qualquer coisa.

Havíamos galgado os declives e ficado diante da maciça porta de ferro do túmulo. Acima e atrás dela, a colina se erguia íngreme, oculta por densos matagais. O sombrio mausoléu parecia investido de agouro sinistro, causado pelos acontecimentos fantásticos da noite. Conrad virou a luz de sua lanterna sobre aquela visão ponderosa, com sua aparência antiga.

– Esta porta não foi aberta – disse Conrad. – A tranca não foi violada. Veja: aranhas já haviam feito suas teias por toda a soleira, e os fios estão intactos. O capim diante da porta não foi pisado, como aconteceria se alguém tivesse recentemente entrado no túmulo... ou saído dele.

– O que são portas e janelas para um vampiro? – queixou-se Job. – Eles passam por paredes sólidas como fantasmas. Eu lhes digo, não descansarei até ter entrado nessa tumba e feito o que devo fazer. Tenho a chave... a única chave existente no mundo que se encaixará naquela tranca.

Ele a puxou para fora: uma ferramenta antiga, a qual enfiou na fechadura. Houve um estalar e ranger de básculas enferrujadas, e o velho Job recuou, como se na expectativa de algum fantasma com presas de hiena voar em sua direção, através da porta que se abria.

Conrad e eu espiamos a parte de dentro – e admito que eu me firmei, sacudindo por conjecturas caóticas. Mas a escuridão lá dentro era estígia. Conrad fez menção de ligar sua lanterna, mas Job o impediu. O velho parecia ter recuperado grande parte de sua compostura normal.

– Dê-me a lanterna – ele disse, e havia determinação sombria em sua voz. – Irei só. Se ele retornou para o túmulo... se ele estiver novamente em seu caixão, sei como lidar com ele. Esperem aqui, e se eu gritar, ou se ouvirem sons de luta, corram para dentro.

– Mas... – Conrad começou uma objeção.

– Não questione! – guinchou o velho Kiles, começando novamente a se descompor. – Esta é minha tarefa, e eu a farei só!

Ele praguejou quando Conrad inadvertidamente girou o raio de luz diretamente em seu rosto; logo, agarrando a lanterna e puxando algo de seu paletó, entrou furtivamente no túmulo, empurrando a porta maciça para trás de si.

– Mais insanidade – murmurei inquieto. – Por que ele insistiu tanto para o acompanharmos, se pretendia entrar sozinho? E você percebeu o brilho nos olhos dele? Pura loucura!

– Não estou tão certo – respondeu Conrad. – Pareceu-me mais um triunfo maligno. Quanto a estar só, você dificilmente pode chamar assim, pois estamos a apenas poucos passos de distância dele. Ele tem algum motivo para não querer que entremos na tumba com ele. O que foi aquilo que ele tirou do paletó, quando entramos?

– Parecia uma estaca afiada e um pequeno martelo. Por que ele pegaria um martelo, já que não há o que ser desamarrado sobre o caixão?

– Claro! – Conrad falou bruscamente. – Como fui tolo em não ter entendido. Não me admira que ele queira adentrar o túmulo sozinho! O’Donnel, ele está falando sério sobre esse disparate de vampiro! Não se lembra das insinuações que ele deixou escapar, sobre estar preparado e tudo o mais? Ele pretende enfiar aquela estaca no coração do irmão! Vamos! Não pretendo deixar que ele mutile...

Da tumba, vibrou um grito que me assombrará quando eu estiver morrendo. Seu timbre medonho paralisou nossos passos e, antes que pudéssemos recuperar o juízo, houve um correr louco de pés, o impacto de um corpo voador contra a porta; e, para fora da tumba, como um morcego soprado para fora dos portões do Inferno, voou a figura de Job Kiles. Ele caiu de ponta-cabeça aos nossos pés, a lanterna elétrica em sua mão caindo ao chão e se apagando. Atrás dele, a porta de ferro ficou entreaberta e eu pensei ter ouvido um estranho barulho de deslizar e arrastar na escuridão. Mas toda a minha atenção foi voltada para o coitado que se torcia aos nossos pés em horríveis convulsões.

Nós nos inclinamos sobre ele. A lua, deslizando de trás de uma nuvem escura, iluminou seu rosto lívido e nós gritamos involuntariamente diante do horror ali estampado. Toda a luz de sanidade fora apagada de seus olhos arregalados, como uma vela apagada no escuro. Seus lábios frouxos se moviam, salpicando espuma. Conrad o sacudiu:

– Kiles, em nome de Deus, o que aconteceu com você?

Um horrível choramingar babante foi a única resposta; logo, entre os sons salivantes e sem significado, percebemos palavras humanas, babantes e meio inarticuladas.

– A coisa! A coisa no caixão!

Então, quando Conrad gritou uma pergunta feroz, os olhos rolaram para cima e pararam, os lábios contraídos se congelaram num horrível sorriso triste, e toda a estrutura magra do homem parecia afundar e desmoronar sobre si mesma.

– Morto! – murmurou Conrad, empalidecido.

– Não vejo ferimento. – sussurrei, sacudido até minha própria alma.

- Não há ferimentos... nenhuma gota de sangue.

– Então... então... – Mal tive coragem de transformar o pensamento pavoroso em palavras.

Olhamos medrosamente para a tira retangular de negrura, destacada na porta parcialmente aberta da tumba silenciosa. O vento guinchou subitamente através da grama, como uma exultante canção de triunfo demoníaco; e um súbito tremor se apossou de mim.

Conrad se ergueu e endireitou os ombros.

– Vamos! – ele disse. – Só Deus sabe o que se esconde naquele túmulo infernal... Mas temos que descobrir. O velho estava muito agitado, presa de seus próprios medos. Seu coração não era muito forte. Algo deve ter causado sua morte. Está comigo?

Qual terror de uma ameaça tangível e compreendida pode se igualar ao de uma ameaça invisível e sem nome? Mas balancei minha cabeça em consentimento, e Conrad pegou a lanterna, a ligou e grunhiu de prazer por ela não estar quebrada. Então, aproximamo-nos da sepultura como homens que se aproximam da toca de uma serpente. Minha pistola estava engatilhada em minha mão, quando Conrad abriu bruscamente a porta. Sua luz dançava rapidamente sobre as paredes úmidas, chão empoeirado e teto abobadado, até descansar no caixão sem tampa que se encontrava sobre seu pedestal de pedra no centro. Deste, nós nos aproximamos com a respiração presa, sem ousar fazer conjectura sobre qual horror estranho e não-terrestre poderia ir ao encontro de nossos olhos. Inspirando rapidamente, Conrad passou a luz de sua lanterna dentro dele. Um grito escapou dos nossos lábios: o caixão estava vazio.

– Meu Deus! – sussurrei – Job estava certo! Mas onde está o vampiro?

– Nenhum caixão vazio tirou a vida do corpo de Job Kiles – respondeu Conrad. – Suas últimas palavras foram “a coisa no caixão”. Havia algo dentro dele... algo que, ao ser visto, extinguiu a vida de Job Kiles como uma vela apagada.

– Mas onde está essa coisa? – perguntei com desconforto, um arrepio bem medonho me subindo e descendo pela espinha. – Ela não pode ter saído da tumba, sem a termos visto. Foi algo que pode ficar invisível à vontade? Estaria acocorada invisível na tumba conosco, aqui neste instante?

– Esta conversa é loucura – Conrad falou bruscamente, mas olhando rápida e instintivamente sobre o ombro à direita e esquerda. Logo, ele acrescentou:

– Você percebeu um leve odor repulsivo ao redor deste caixão?

 Sim, mas não consigo defini-lo.

– Nem eu. Não é exatamente um ranço de cripta. É uma espécie de cheiro terrestre de réptil. Ele me lembra vagamente os cheiros que senti debaixo da superfície da terra. Ele se adere ao caixão... como se alguma coisa profana do fundo da terra houvesse jazido ali.

Ele correu a luz sobre as paredes novamente, e a deteve subitamente, focando-a na parede de trás, a qual estava fora da camada de rocha da colina na qual a tumba foi construída.

– Veja!

Na parede supostamente sólida, aparecia uma longa abertura fina. Com uma só passada, Conrad a alcançou, e juntos a examinamos. Empurramos cautelosamente a porção da parede mais próxima dela, e ela cedeu silenciosamente para dentro, abrindo-se numa escuridão tamanha como eu nunca sonhara existir deste lado da sepultura. Recuamos involuntariamente e ficamos tensos, como se na expectativa de algum horror noturno saltar sobre nós. Logo, a risada brusca de Conrad foi como um choque de água gelada sobre nervos tensos.

- Pelo menos, o ocupante da tumba usa um meio não-sobrenatural de entrar e sair – ele disse. – Esta porta secreta foi evidentemente construída com extremo cuidado. Veja, é meramente um grande bloco vertical de pedra que gira sobre um pino. E o silêncio com o qual ele funciona mostra que o pino e os encaixes foram lubrificados recentemente.

Ele dirigiu seu raio de luz para dentro do buraco atrás da porta, e este revelou um túnel estreito correndo paralelo à soleira da porta, claramente para dentro da rocha sólida da colina. As paredes e o chão eram lisos e polidos, e o teto curvo.

Conrad recuou, voltando-se para mim:

– O’Donnel, eu pareço sentir algo realmente obscuro e sinistro aqui, e tenho certeza de que isso possui uma influência humana. Sinto como se tivéssemos nos deparado com um rio negro e oculto, correndo sob nossos próprios pés. Para onde ele leva, não sei dizer, mas creio que o poder por trás de tudo isso seja Jonas Kiles. Acredito que o velho Job realmente viu seu irmão na janela esta noite.

– Mas, a tumba vazia ou não, Jonas Kiles está morto.

– Acho que não. Creio que ele estava num estado autoinduzido de catalepsia, tal como é praticado pelos faquires hindus. Já vi alguns casos, e juraria que eles estavam realmente mortos. Eles descobriram o segredo da animação suspensa voluntária, apesar dos cientistas e céticos. Jonas Kiles viveu vários anos na Índia e, de alguma forma, ele deve ter aprendido aquele segredo.

“O caixão aberto, o túnel guiando do ponto da tumba à crença de que ele estava vivo quando foi colocado lá. Por alguma razão, ele queria que as pessoas acreditassem que havia morrido. Pode ser o capricho de uma mente perturbada. Pode ter um significado mais profundo e sombrio. À luz de sua aparição ao irmão e da morte de Job, acredito mais na segunda opção; mas, neste momento, minhas suspeitas são horríveis e fantásticas demais para expressar em palavras. Contudo, eu pretendo explorar este túnel. Jonas pode estar escondido em algum lugar dele. Está comigo? Lembre-se, aquele homem pode ser um maníaco homicida, ou se não, ele pode ser ainda mais perigoso que um louco”.

– Estou com você – grunhi, apesar da minha pele se arrepiar diante da perspectiva de mergulhar naquela cova escura. – Mas, e quanto ao grito que ouvimos ao passarmos pelo Cabo? Não houve fingimento de agonia! E qual foi a coisa que Job viu no caixão?

– Não sei. Pode ter sido Jonas, vestido com algum disfarce infernal. Devo admitir que há muito mistério unido a este assunto, mesmo que aceitemos a teoria de que Jonas está vivo e por trás de tudo isso. Mas vamos olhar dentro daquele túnel. Ajude-me a levantar Job. Não podemos deixá-lo aqui jazendo deste jeito. Nós o colocaremos no caixão.

E assim, erguemos Job Kiles e o colocamos no caixão do irmão que ele odiava, onde ele jazeu com olhos vidrados mirando desde suas congeladas feições cinzas. Enquanto eu o olhava, o canto fúnebre do vento parecia ecoar suas palavras em meus ouvidos: “Lá! Sobre o túmulo”. E seu caminho o havia realmente levado para o túmulo.

Conrad entrou primeiro pela porta secreta, à qual deixamos aberta. Enquanto adentrávamos aquele túnel negro, tive um momento de puro medo; e fiquei feliz que a pesada porta externa da tumba não possuísse fecho de mola, e que Conrad tivesse em seu bolso a única chave com a qual a tranca maciça pudesse ser fechada. Tive uma sensação desconfortável de que o demoníaco Jonas poderia trancar a porta, deixando-nos encerrados na tumba até o Juízo Final.

O túnel parecia correr irregularmente cada vez mais para o leste... e se mover cautelosamente, reluzindo a luz diante de nós.

– Este túnel nunca foi aberto por Jonas Kiles – sussurrou Conrad – Há um verdadeiro ar de antiguidade nele... Veja!

Outra portada escura apareceu à nossa direita. Conrad dirigiu sua lanterna para dentro dela, mostrando outra passagem mais estreita. Outras portas se abriram dentro dela, em ambos os lados.

– É uma rede regular – murmurei. – Corredores paralelos conectados por túneis menores. Quem imaginaria tal coisa sob as Colinas de Dagoth?

– Como Jonas Kiles a descobriu? – perguntou-se Conrad – Veja; há outra portada à nossa direita... e outra... e mais outra! Você está certo... é uma verdadeira rede de túneis. Quem, em nome do céu, os cavou? Devem ser o trabalho de alguma raça pré-histórica desconhecida. Mas este corredor em particular foi usado recentemente. Vê como a poeira está agitada no chão? Todas as portas estão à direita, e nenhuma à esquerda. Este corredor segue a linha externa da colina, e deve haver uma saída em algum lugar ao longo dele. Veja!

Estávamos passando pela abertura de um dos escuros túneis que se cruzavam, e Conrad havia lançado sua luz sobre a parede ao lado dele. Lá, nós vimos uma seta tosca, feita com giz vermelho e apontando para o túnel menor.

– Isso não pode levar para a saída – murmurei. – Ele mergulha ainda mais fundo nas entranhas da colina.

– Vamos segui-lo, de qualquer forma – respondeu Conrad. – Podemos achar facilmente o caminho de volta para este túnel externo.

Então, nós o adentramos, cruzando outros corredores maiores, e, em cada um, encontrando a seta que ainda apontava o caminho por onde íamos. O fino raio de luz de Conrad parecia quase perdido naquela densa escuridão, e presságios inomináveis e medos instintivos me assombravam enquanto mergulhávamos cada vez mais fundo no coração daquela colina amaldiçoada. Súbito, o túnel terminou abruptamente numa escada estreita, que guiava para baixo e desaparecia na escuridão. Um estremecimento involuntário me sacudiu enquanto eu descia o olhar para aqueles degraus esculpidos. Quais pés profanos os haviam pisado em eras esquecidas? Logo, nós vimos algo mais – uma pequena câmara se abrindo para o túnel, bem no topo da escada. E, quando Conrad dirigiu sua luz para dentro dela, uma exclamação involuntária irrompeu de meus lábios. Não havia ocupante, mas ela estava cheia de evidências de ocupação recente. Entramos e ficamos seguindo o movimento do fino raio de luz.

Que aquela câmara havia sido ocupada por humanos, isso não me espantava, dadas as nossas descobertas anteriores, mas ficamos horrorizados com a condição do conteúdo. Havia uma cama de acampamento ao lado dela, quebrada, os cobertores espalhados sobre o chão rochoso em tiras esfarrapadas. Livros e revistas estavam rasgados em pedaços e espalhados a esmo; latas de comida jaziam espalhadas sem cuidado, batidas e tortas, algumas delas arrebentadas e com seu conteúdo derramado. Havia uma lâmpada esmagada sobre o chão.

– Um esconderijo para alguém – disse Conrad. – E aposto minha cabeça que é Jonas Kiles. Mas que caos! Veja estas latas, aparentemente abertas ao serem batidas contra o chão de pedra... e esses cobertores, rasgados em tiras, como um homem rasgaria um pedaço de papel. Bom Deus, O’Donnel, nenhum ser humano faria tamanha devastação!

– Um louco faria – murmurei – O que é isso?

Conrad havia parado e apanhado uma agenda. Ele a ergueu até a luz de sua lanterna.

– Muito rasgada – ele grunhiu. – Mas temos sorte, de qualquer forma. É o diário de Jonas Kiles! Conheço sua caligrafia. Veja, esta última página está intacta e com a data de hoje! Uma prova positiva de que ele está vivo, na falta de outra prova.

– Mas onde ele está? – sussurrei, olhando ao redor com medo. – E por que toda esta devastação?

– A única coisa na qual posso pensar – disse Conrad – é que o homem era, pelo menos, parcialmente lúcido quando entrou nestas cavernas, mas, desde então, ficou insano. É melhor ficarmos alertas; se ele está louco, é totalmente possível que ele possa nos atacar no escuro.

– Eu pensei nisso – grunhi com um estremecimento involuntário. – É um belo pensamento: um louco se escondendo nestes infernais túneis negros, para saltar sobre nossas costas. Prossiga; leia o diário, enquanto eu fico de olho na porta.

– Vou ler este último registro – disse Conrad. – Talvez ele lance alguma luz sobre o tema.

E, focando a luz sobre os rabiscos, ele leu:

“Agora tudo está pronto para meu grande golpe. Esta noite, deixo para sempre este abrigo, nem ficarei triste, pois a eterna escuridão e silêncio estão começando a sacudir meus nervos de aço. Estou ficando imaginativo. Mesmo enquanto escrevo, pareço ouvir sons furtivos, como se de coisas rastejando de baixo, embora eu nunca tenha visto sequer um morcego ou uma cobra nestes túneis. Mas amanhã ocuparei a bela casa de meu amaldiçoado irmão. Enquanto ele – e é uma ótima zombaria eu me arrepender de não poder compartilhar isso com alguém – tomará meu lugar na fria escuridão – mais escura e fria que estes túneis escuros.

“Devo escrever, se não posso falar disso, pois estou emocionado com a minha própria sagacidade. Que astúcia diabólica a minha! Com quão demoníaca velhacaria eu planejei e preparei! Não havia ninguém no caminho, antes da minha ‘morte’ – há, há, há, se os tolos soubessem! –, no qual trabalhei nas superstições de meu irmão – deixando cair alusões e místicas observações. Ele sempre me considerou uma ferramenta do Maligno. Antes da minha ‘enfermidade’ final, ele tremeu à beira de acreditar que eu havia me tornado sobrenatural ou infernal. Logo, em meu ‘leito de morte’, quando despejei toda a minha fúria sobre ele, seu espanto foi genuíno. Eu sabia que ele estava totalmente convencido de que sou um vampiro. Bem, eu realmente conheço meu irmão. Estou certo de que ele fugiu de sua casa e preparou uma estaca para enfiar em meu coração. Mas ele não tomará atitude alguma, até ter certeza de que suas suspeitas são verdadeiras.

“Darei a ele esta certeza. Esta noite, aparecerei em sua janela. Aparecerei e sumirei. Não quero matá-lo de medo, porque assim meus planos de nada serviriam. Sei que, quando ele se recuperar de seu primeiro susto, virá até minha tumba para me matar com sua estaca. E, quando ele estiver em segurança na tumba, eu o matarei. Trocarei de roupa com ele – o colocarei em segurança na tumba, no caixão aberto – e voltarei furtivamente à sua bela casa. Nós nos parecemos bastante um com o outro, de modo que, com meu conhecimento e boa educação, posso imitá-lo perfeitamente. Além disso, quem suspeitaria? É bizarro demais – fantástico demais. Assumirei sua vida onde ele a deixou. As pessoas podem se surpreender com a mudança em Job Kiles, mas isso não irá além da surpresa. Viverei e morrerei no lugar de meu irmão e, quando a morte vier realmente a mim, que ela seja bastante adiada! Vou jazer em pompa, na cripta funerária do velho Kiles, com o nome de Job Kiles em minha lápide, enquanto o verdadeiro Job jaz, sem que ninguém imagine, na velha tumba da Colina do Pirata! Ah, é uma ótima, ótima zombaria!

“Eu me pergunto como o velho Job Kiles descobriu estes caminhos subterrâneos. Ele não os construiu. Eles foram entalhados em cavernas obscuras e rocha sólida, pelas mãos de homens esquecidos – há quanto tempo, eu não ouso arriscar uma conjectura. Enquanto estou aqui, aguardando a hora de estar pronto para agir, eu me entretive explorando-os. Percebi que são bem mais amplos do que eu havia suspeitado. As colinas devem estar conectadas com eles, e eles afundam na terra até uma profundeza incrível, pavimento sob pavimento, como os andares de um prédio, cada pavimento conectado com o inferior por uma única escada. O velho Jacob Kiles deve ter usado estes túneis – pelo menos, os do pavimento superior – para o depósito do saque e contrabando. Ele construiu a tumba para ocultar suas verdadeiras atividades e, é claro, abriu a entrada secreta e pôs a porta no eixo. Ele deve ter descoberto as tocas através da entrada oculta do Cabo do Contrabandista. A velha porta que ele construíra aqui era uma mera massa de lascas apodrecidas e metal enferrujado, quando a encontrei. Como ninguém a descobriu depois dele, é provável que ninguém encontre a nova porta que construí com minhas próprias mãos, para substituir a antiga. Mesmo assim, tomarei as devidas precauções no tempo certo.

“Eu tenho me perguntado bastante sobre a identidade da raça que deve um dia ter habitado estes labirintos. Não encontrei ossos nem crânios, embora eu tenha descoberto, no pavimento superior, instrumentos curiosamente endurecidos de cobre. Nos poucos andares seguintes, achei utensílios de pedra, até o décimo andar, onde eles desapareceram. E, também no andar superior, encontrei porções de paredes decoradas com pinturas grandemente desbotadas, mas evidenciando habilidade indubitável. Estas gravuras pintadas, eu encontrei em todos os pavimentos, inclusive no quinto, embora as decorações de cada andar fossem mais toscas que as do andar superior, até as últimas pinturas serem meras manchas sem significado, como as que um macaco faria com um pincel. Além disso, os instrumentos de pedra eram muito mais toscos nos níveis inferiores, assim como o feitio dos tetos, escadas, portadas, etc. Tem-se uma fantástica impressão de uma raça aprisionada, cavando cada vez mais fundo dentro da terra negra, século após século, e perdendo cada vez mais de seus atributos humanos, à medida que afundava a cada novo nível.

“O décimo-quinto andar não tem rima nem razão; os túneis correm sem rumo e sem plano aparente – assumindo um contraste com o pavimento mais alto, o qual é um triunfo da arquitetura primitiva, de modo que é difícil acreditar que tenham sido construídas pela mesma raça. Muitos séculos devem ter se passado entre a construção das duas camadas, e os construtores devem ter se degradado muito. Mas a décima-quinta camada não é o fim destas tocas misteriosas.

“A abertura da portada na única escada da camada mais alta foi bloqueada por pedras, que haviam caído do teto – provavelmente há centenas de anos, antes do velho Capitão Jacob descobrir aqueles túneis. Levado pela curiosidade, tirei os escombros, apesar daquilo exigir demais de minha força, e abri um buraco na pilha hoje mesmo, embora eu não tivesse tempo de explorar o que havia embaixo. Eu, de fato, duvido que pudesse fazê-lo, pois minha luz me mostrou, não a sucessão usual de degraus de pedra, mas um poço íngreme e liso, levando à negrura lá embaixo. Um macaco ou uma serpente pode subir e descer por ele, mas não um ser humano. Para quais fossos ele guia, eu não me importo em sequer tentar imaginar. Por alguma razão, a descoberta de que a décima-quinta camada não era a do poço não-pisado me deu uma estranha sensação arrepiante, e me levou a fantásticas conjecturas sobre o destino final da raça que outrora viveu nestas colinas. Supus que os escavadores, afundando cada vez mais na escala da vida, haviam se extinguido nas camadas mais baixas, embora eu não tenha achado nenhum resto para justificar minhas teorias. As camadas mais baixas não ficam em rocha quase sólida, como as que estão mais próximas da superfície. Elas estão em terra negra e numa espécie de pedra bem mole, e foram aparentemente cavadas com os utensílios mais primitivos; em alguns lugares, elas até parecem ter sido cavadas com dedos e unhas. Poderiam ser tocas de animais, exceto pela tentativa evidente de imitar os sistemas mais bem-organizados acima. Mas, sob a décima-quinta camada, como pude ver, mesmo através de minhas investigações superficiais desde acima, toda imitação para; as escavações sob a décima-quinta camada são buracos loucos e brutos; e, para quais profundezas eles descem, não tenho desejo de saber.

“Sou perseguido por fantásticas especulações no tocante à identidade da raça, que literalmente afundou na terra e desapareceu em suas profundezas negras há tanto tempo. Uma lenda insistia, entre índios destes arredores, que, muitos séculos antes da chegada dos homens brancos, seus ancestrais expulsaram uma estranha raça estrangeira para dentro das cavernas das Colinas de Dagoth, e a trancou ali para que morresse. Que não morreram, mas sobreviveram de alguma forma por, pelo menos, muitos séculos, é evidente. Quem eram, de onde vieram e qual foi seu destino final, nunca se saberá. Antropólogos podem catar alguma evidência das pinturas na camada mais alta, mas não pretendo que ninguém venha saber sobre essas tocas. Alguns destes desenhos obscuros retratam inconfundivelmente índios em guerra com homens evidentemente da mesma raça que os artistas. Estes modelos, eu me aventuraria a dizer, lembram mais o tipo caucasiano que o indígena.

“Mas está chegando a hora de minha visita ao meu amado irmão. Irei pela porta no Cabo do Contrabandista, e retornarei pelo mesmo caminho. Alcançarei a tumba antes do meu irmão, por mais rápido que ele venha – e eu sei que ele virá. Então, quando o ato estiver feito, sairei da tumba, e nenhum homem colocará novamente o pé nestes corredores. Pois me certificarei de que a tumba não será aberta, e uma conveniente explosão de dinamite derrubará rochas suficientes dos penhascos acima, para selar de forma eficaz a porta no Cabo do Contrabandista para sempre”.

Conrad pôs a agenda dentro do bolso.

– Louco ou são – ele disse sombriamente –, Jonas Kiles é um verdadeiro demônio. Não estou muito surpreso, mas estou levemente chocado. Que plano infernal! Mas ele errou em uma coisa: ele aparentemente supunha que Job viria sozinho para o túmulo. A prova de que ele não calculou o bastante.

– Basicamente – respondi. – Mas, no que diz respeito a Job, Jonas teve sucesso em seu plano diabólico: ele conseguiu matar o irmão, de alguma forma. Evidentemente, ele estava na tumba quando Job entrou. Ele, de alguma forma, o aterrorizou até a morte, e então, evidentemente percebendo nossa presença, escapuliu pela porta secreta.

Conrad sacudiu a cabeça. Um nervosismo crescente ficava evidente em suas maneiras, à medida que ele continuava a leitura do diário. De vez em quando, ele parava e erguia a cabeça em atitude de escuta.

– O’Donnel, não acredito que foi Jonas a quem Job viu no caixão... mudei um tanto de opinião. Uma perversa mente humana estava inicialmente por trás de tudo isto, mas alguns aspectos deste assunto, eu não posso atribuir à humanidade.

“Aquele grito que ouvimos no Cabo, a condição desta sala, a ausência de Jonas, tudo indica algo ainda mais obscuro e sinistro que o plano de assassinato feito por Jonas Kiles”.

– O que você quer dizer? – perguntei inquieto.

– Suponha que a raça que cavou estes túneis não morreu! – ele sussurrou. – Suponha que seus descendentes ainda vivam, em algum estado de existência anormal, nos fossos negros sob os andares dos corredores! Jonas menciona, em seus apontamentos, que ele pensou ter ouvido sons furtivos, como o de coisas rastejando desde abaixo!

– Mas ele morou nestes túneis durante uma semana. – adverti.

– Você esquece que o poço que leva aos fossos foi obstruído até hoje, quando ele removeu as rochas. O’Donnel, eu creio que os fossos mais baixos são habitados, que as criaturas acharam seu caminho até estes corredores, e que foi a visão de uma delas, dormindo no caixão, que matou Job Kiles!

– Mas isto é completa loucura! – exclamei.

– Mas estes túneis já foram habitados em tempos passados e, de acordo com o que lemos, os habitantes devem ter decaído a um nível incrivelmente baixo de vida. Que prova temos de que seus descendentes não continuaram vivendo nos horríveis buracos negros que Jonas viu sob o compartimento mais baixo? Ouça!

Ele apagou a lanterna e ficamos na escuridão por alguns minutos. De algum lugar, ouvi um fraco e deslizante barulho rastejante. Deslizamos furtivamente para dentro do túnel.

– É Jonas Kiles! – eu sussurrei, mas uma sensação gelada subiu e desceu por minha espinha.

– Então, ele estava se escondendo lá embaixo – murmurou Conrad. – Os sons vêm da escada... como se algo rastejasse de baixo. Não ouso acender a lanterna... se ele estiver armado, pode sacar sua arma.

Eu me perguntava por que Conrad, que tinha nervos de ferro na presença de inimigos humanos, estaria tremendo como uma folha. Eu me perguntava por que pingos gelados de horror sem nome estariam percorrendo minha espinha. E logo eu estava eletrizado. De algum lugar de trás do túnel, na direção pela qual havíamos chegado, ouvi outro som suave e repelente.

E, naquele instante, os dedos de Conrad afundaram como aço em meu braço. Na escuridão tenebrosa sob nós, duas faíscas amarelas e oblíquas cintilaram subitamente.

– Meu Deus! – veio o sussurro chocado de Conrad. – Não é Jonas Kiles!

Enquanto falávamos, outro par se juntou ao primeiro – subitamente, a escuridão bem abaixo de nós estava viva com flutuantes brilhos amarelos, como estrelas malignas refletidas num golfo anoitecido. Eles fluíam escada acima em nossa direção, silenciosos exceto por aquele detestável som deslizante. Um nojento cheiro terroso fluía até nossas narinas.

– Para trás, em nome de Deus! – ofegou Conrad, e começamos a recuar da escada, em direção ao túnel pelo qual tínhamos chegado. Então, veio subitamente a investida de algum corpo pesado através do ar, e, girando, atirei cega e a queima-roupa na escuridão. E meu grito, quando o tiro iluminou momentaneamente as sombras, foi ecoado por Conrad. No instante seguinte, corríamos pelo túnel como homens correndo do inferno, enquanto, atrás de nós, algo caía pesadamente, se debatia e espojava no chão, em suas convulsões de morte.

– Acenda sua lanterna – ofeguei. – Não podemos nos perder nestes labirintos infernais.

O raio de luz apunhalou a escuridão à nossa frente, e nos mostrou o corredor externo, onde havíamos visto pela primeira vez a seta. Lá, nós paramos por um instante, e Conrad dirigiu sua luz de volta ao túnel. Só vimos a escuridão vazia, mas, além daquele curto raio de luz, só Deus sabe que horrores rastejavam pela escuridão.

- Meu Deus! Meu Deus! – Conrad ofegou. – Você viu? Você viu?

– Não sei! – ofeguei. – Vislumbrei algo semelhante a uma sombra voadora, no clarão do tiro. Não era um homem... tinha a cabeça semelhante à de um cão...

– Eu não estava olhando naquela direção – ele sussurrou. – Eu olhava escada abaixo, quando o clarão de sua arma cortou a escuridão.

– O que você viu? – minha pele estava úmida de suor frio.

– Palavras humanas não são capazes de descrever! – ele gritou. – A terra negra ganhou vida, como se houvesse vermes gigantes. A escuridão se aglomerando com vida blasfema. Em nome de Deus, vamos sair daqui... por este corredor, até o túmulo!

Mas, quando demos um passo adiante, fomos paralisados por sons furtivos à nossa frente.

– Os corredores estão inçados deles! – sussurrou Conrad. – Rápido! Pelo outro caminho! Este corredor segue a linha da colina e deve levar até a porta no Cabo do Contrabandista.

Até o dia da minha morte, eu me lembrarei daquela fuga através daquele negro corredor silencioso, com o horror que se movia furtivamente aos nossos calcanhares. Por um momento, achei que algum espectro com presas de demônio pularia sobre nossas costas, ou sairia da escuridão à nossa frente. Então, Conrad, dirigindo sua luz turva para a frente, deu um soluço ofegante de alívio.

– A porta, finalmente. Meu Deus, o que é isto?

Quando sua lanterna brilhara sobre uma pesada porta com tranca de ferro, com uma chave pesada na fechadura maciça, ele havia tropeçado sobre algo que jazia caído ao chão. Sua luz mostrava uma contorcida forma humana, sua destruída cabeça jazendo numa poça de sangue. O rosto estava irreconhecível, mas conhecíamos a forma magra, ainda vestida em roupas de túmulo. A verdadeira Morte havia finalmente alcançado Jonas Kiles.

– O grito quando passamos pelo Cabo esta noite! – sussurrou Conrad – Era seu guincho de morte! Ele havia retornado aos túneis, após se mostrar para seu irmão... e o horror caiu sobre ele na escuridão!

Súbito, enquanto nos erguíamos sobre o corpo, ouvimos novamente aquele maldito e deslizante ruído rastejante na escuridão. Enlouquecidos, saltamos até a porta; giramos violentamente a chave e abrimos bruscamente a porta. Com um soluço de alívio, cambaleamos até a noite enluarada. Por um instante, a porta se abriu atrás de nós; logo, quando nos viramos para olhar, uma rajada feroz de vento a fechou.

Mas, antes que ela se fechasse, uma figura medonha saltou em nossa direção, meio iluminada pelos esparsos raios de lua: o esparramado corpo mutilado e, sobre ele, uma cinza monstruosidade bamboleante – um horror de olhos flamejantes e cabeça de cão, tal como loucos veem em negros pesadelos. Logo, a porta que se fechara sumiu de vista, e fugimos através da inclinação sob o luar móvel. Ouvi Conrad balbuciar:

– Crias dos fossos negros de loucura e noite eterna! Obscenidades rastejantes fervilhando no lodo das profundezas inimagináveis da terra... o horror supremo do retrocesso... o ponto mais baixo da degeneração humana... bom Deus, seus ancestrais eram homens! Os fossos sob a décima-quinta camada, para dentro de quais infernos de blasfemo horror negro eles afundam, e por quais hordas demoníacas são povoados? Deus proteja os filhos dos homens daqueles... Aqueles que moram sob as tumbas!

Ilustração: Greg Staples









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