A CHAVE VERMELHA - Conto Clássico de Horror - Maurice Leblanc


A CHAVE VERMELHA
Maurice Leblanc
(1864 – 1941)

O ódio!

Uma vez na minha vida, vi de perto o verdadeiro ódio, aquele que se cala, espera anos inteiros para se acalmar e goza implacavelmente as monstruosas vinganças que elabora.

Toda a minha infância está ligada à lembrança de dois camaradas: Hubert de Fleucadine e Rodolphe d'Arvan.

Fizemos os nossos estudos juntos e juntos estudamos Direito em Paris. Não havia segredos entre nós e eu gostava tanto do pálido e fraco Hubert como do forte e vigoroso Rodolphe. Depois, a existência separou-nos. Eles regressaram às suas terras, nos confins do Morbihan. As nossas cartas, a princípio frequentes, foram espaçando e não tornei mais a ouvir falar deles.

Foi no ano passado, durante uma viagem à Bretanha, que tornei a vê-los. Eles habitam duas propriedades cercadas de muros altos e fossos profundos.

Cada um deles vive só, mas todos os dias se encontram ou na casa de um ou na casa do outro à hora da ceia, e passam a noite juntos.

O jantar foi na casa de Hubert, numa sala muito alta, cuja chaminé parecia bocejar tragicamente. Comemos, bebemos, mas falamos pouco. Ora, ao café, disse eu:

Hubert, eu li, há alguns anos, a notícia do casamento de um Fleucadine... Eras tu?

Fez-se um silencio profundo. Com os cotovelos na mesa, Hubert apertava entre os punhos cerrados a sua face pálida. Depois, com um sorrisinho frio, e com uma voz quase indiferente, na qual eu por vezes percebi uma espécie tremor, respondeu-me ele:

Era eu. Amei uma só vez na minha vida, e aquela que amei consentiu em ser minha mulher. Fomos muito felizes. Edith e eu... Lembras-te, Rodolphe, como fomos felizes? Ela era tão linda e eu gostava tanto dela! No princípio, também ela gostava muito de mim. Tinha-me um amor puro e ingênuo, e a sua inocência fazia com que eu apenas lhe tocasse, como se cada um dos meus beijos fossem dados a uma virgem.

“Uma vez, ouve bem, tive de me ausentar durante seis meses. Quando regressei, ela chamou-me de parte, e escuta as estranhas palavras que ela me disse:

“― Hubert, já não te tenho amor.

“Ela disse isso calmamente, olhando-me bem de frente, e, sem piedade, acrescentou: 

“― Gosto de outro, outro a quem pertenço, ouves, outro que é meu amante.

“Teria ela endoidecido?

“No seu olhar havia qualquer coisa anormal, a sua voz era estranha, e eu sentia que ela falava constrangida, debaixo da influência de uma força interior e muito poderosa.

“Tive vontade de a matar, depois desatei a chorar, e, realmente, eu não acreditava que fosse verdade, não, não o poderia acreditar. Mas ela desviou as minhas mãos e disse-me, com maldade:

“― Não é ocasião de chorar. É preciso estudar o que temos a fazer. Eu compreendo que percas a cabeça. Eu, há muitos dias, semanas, que reflito, e sei pelo menos duas coisas: a primeira, que não quero mais viver contigo, e a segunda, que quero viver com ele. Mas, como respeito o teu nome, e é preciso que a tua honra não seja manchada, nem que a tua vida seja estragada por minha causa, eis o que te proponho.

“Ela fez-me esta incrível, esta assombrosa proposta:

“― Eu vou morrer...  Mas, compreende bem: eu fingirei que morro. Se te prestares a isso, e não esqueceres nenhuma das precauções que eu te indicar, ninguém perceberá a fraude. O mausoléu da nossa família é espaçoso e afastado. Na mesma noite, mandarás a chave àquele cujo nome encontrarás, depois de minha morte, escrito num papel, naquela gaveta...

“Foi isso o que ela me propôs, meu amigo.

“Na verdade, poderia isso brotar de um cérebro que não fosse um cérebro de mulher? E era preciso ainda que estivesse completamente desequilibrado pela paixão! Edith, a graciosa e meiga virgem, pronunciar tais palavras e com uma tal firmeza, com tanta pertinácia feroz.

“E eu sentia que ela tinha imaginado tudo isso morosamente, como uma coisa possível, de que dependia a sua felicidade, uma coisa que eu não tinha o direito de recusar... porque se o fizesse... se o fizesse ela ir-se-ia embora à vista de todos, iria viver com ele, entregar-se-ia a ele diante de todo o mundo. E nada o impediria, nada, eu tinha essa convicção irresistível. Então... então, aceitei.”

Eu olhava-o com espanto. Ele estava muito calmo. Encheu o cachimbo, acendeu-o e continuou com um tom prazenteiro:

 ― Dou-te a minha palavra que aceitei. O que queres tu? Não tinha onde escolher... Ela teria partido, a espertalhona, ainda que todos se opusessem a isso. Era o único meio que havia para que isso ficasse entre nós, entre ela, eu e ele. E ela morreu, morreu de uma congestão cerebral.

“Por deferência para com o meu desespero, deixaram que eu a velasse sozinho, a embrulhasse na sua mortalha, a fechasse no caixão. E tudo isto não deixava de nos divertir.

“Nós riamos muito, ela e eu. O que estávamos fazendo parecia-nos cômico. Palavra de honra que não tive uma palavra de censura e que a minha despedida foi isenta de cólera.

“― Perdoo-te ― disse-lhe eu. E preguei o caixão conscienciosamente, sem esquecer um prego.

“Fez-se o enterro. Foi muito triste, lembras-te, Rodolphe? A minha dor enterneceu toda a gente, uma dor muda, sem lágrimas. Puseram-na no túmulo. Eu mesmo fechei a porta e levei a chave no bolso.

“É esta a história do meu casamento...”

Levantou-se e pôs-se a passear assoviando, como se a aventura estivesse terminada.

 ― E depois? ―  perguntei-lhe eu um pouco inquieto.

 ― E depois o quê?

― Mas, a chave?...

― Qual chave?

Ele pareceu refletir; depois, exclamou:

―Ah, sim, a chave do tumulo!... Palavra que me deu que fazer. Imagina que nunca pude descobrir o papel onde a minha mulher tinha escrito o nome do seu amante.

“Teria ela esquecido essa formalidade? Teria eu compreendido mal? Eu estava muito aflito... A quem enviar essa maldita chave?

“Eu pensei que a coisa tivesse sido combinada pelos dois, e todos os dias esperava que o cavalheiro viesse reclamar a sua amante. Não veio ninguém...“

No meio do grande silencio, ouviu-se uma espécie de gemido. Olhei para Rodolphe. Estava branco como um lençol e os seus lábios pronunciavam palavras incompreensíveis. Eu tive, então, a intuição brusca da horrorosa verdade. Mas era possível, meu Deus, era possível?

Hubert, entretanto, tinha-se aproximado dele e dizia-lhe com ternura:

― O que tens, meu bom Rodolphe? Ah, é verdade! Eu não te tinha contado isso. Tive medo de te afligir. Tu também gostavas muito dela... e tens sido tão bom para mim, consolando-me, vindo todos os dias misturar as tuas lágrimas com as minhas...

Ele cobria-o com os seus olhos de selvagem, o seu corpo débil debruçado sobre o colosso aniquilado. E depois disse:

— Ouve, Rodolphe. Quero pedir-te um favor. Até hoje tive a constância de conservara chave, mas na verdade esse encargo incomoda-me... Além disso, já esperei bastante tempo... Guarda-a, queres?

Ele abriu o peito da camisa. Ao seu pescoço, presa a uma corrente, junto da pele, estava pendurada uma chave pequena, toda enferrujada, cor de sangue.

Tradução de autor desconhecido.
Fonte: “Fon-fon”, edição de 2 de maio de 1914.

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AS EXECUÇÕES DE CALAS E LA BARRE - Narrativa Clássica de Horror - Victor Hugo



AS EXECUÇÕES DE CALAS E LA BARRE
Victor Hugo
(1802 – 1885)

Em Tolosa, no dia 13 de outubro do 1761, encontra-se na sala baixa de uma casa um jovem enforcado. A multidão amotina-se, o clero fulmina, a magistratura investiga.

É um suicídio, mas o transformam em assassínio. No interesse de quem? No interesse da religião. E quem se acusa? O pai. É um huguenote, e quis impedir seu filho de se fazer católico. Há, aqui, uma monstruosidade moral e uma impossibilidade material, mas não importa! Esse pai matou seu filho, esse velho enforcou o rapaz. A justiça trabalha, e eis o desenlace. No dia 2 de março de 1762, um homem de cabelos brancos, Jean Calas, é arrastado à praça pública. Despem-no, estendem-no em cima de uma roda, com os membros amarrados e a cabeça pendurada. Três homens estão ali na plataforma do patíbulo: um inspetor (chamado David, encarregado de dirigir o suplício), um padre com um crucifixo e um carrasco com uma barra de ferro.

O padecente, estupefato e terrível, não olha para o padre. Mira o verdugo. O algoz levanta a barra de ferro e parte-lhe um braço. O padecente uiva e desmaia. O inspetor logo se acerca e faz com que o condenado respire sais. O desgraçado retorna à vida. Então, uma nova pancada com a barra ressoa, seguida de um novo uivo. Calas perde os sentidos. Reanimam-no e o algoz recomeça. E, como cada membro tinha de ser partido em dois lugares, recebe duas pancadas. São ao todo oito suplícios.

Depois do oitavo desmaio, o padre apresenta-lhe o crucifixo para ele beijar. Calas desvia a cabeça e o carrasco vibra-lhe a pancada mortal: esmaga-lhe o peito com a extremidade mais grossa do ferro.

Assim expirou Jean Calas. A tortura durou duas horas. Depois de sua morte, apareceu a prova do suicídio. Mas um assassínio fora cometido. Por quem? Pelos juízes.

Outro fato. Depois do velho, o moço. Daí a três anos, em 1765, em Abbeville, num dia em que se seguiu a uma noite de tempestade e de grande ventania, apanha-se no lajedo de uma ponte um velho crucifixo de madeira carunchosa, que há três séculos estava chumbado ao parapeito. Quem atirou ao chão este crucifixo? Quem cometeu este sacrilégio? Não se sabe. Talvez, um transeunte. Talvez, o vento. Quem é o culpado? O bispo de Amiens publica uma monitória. Uma monitória é o seguinte: é uma ordem a todos os fiéis para dizerem, sob pena do inferno, o que sabem ou o que julgam saber a respeito deste ou daquele fato. Uma intimação mortífera do fanatismo à ignorância. A monitória do bispo de Amiens opera a amplificação de mexericos, toma proporções de denúncia.



A justiça descobre, ou julga descobrir que, na noite em que o crucifixo foi deitado ao chão, dois homens, dois oficiais, La Barre e D'Etallonde, passaram pela ponte de Abbeville; que estavam bêbados e que cantaram uma cantiga de casa da guarda. O tribunal e a senescalia de Abbeville são da mesma força que os inspetores de Tolosa. Não são menos justos. Lançam-se duas ordens de prisão. D'Etallonde escapa. La Barre é preso. Entregam no à investigação judiciária. Ele nega ter passado pela ponte. Confessa ter cantado a cantiga. A senescalia de Abbeville o condena. Ele apela para o parlamento de Paris.

Levam-no a Paris. A sentença é considerada boa e confirmada. Tornam a levá-lo para Abbeville, coberto de ferros. Abrevio. Chega a hora monstruosa. Principia por se submeter o cavalheiro de La Barre à tortura ordinária e extraordinária para lhe fazer confessar os seus cúmplices. Cúmplices de quê? De ter passado por uma ponte e ter cantado uma cantiga. Partem-no um joelho. O seu confessor, ouvindo estalar os ossos, desmaia. No dia seguinte, 5 de julho de 1766, arrastam La Barre para a praça principal de Abbeville, onde flameja uma fogueira ardente. Leem a La Barre a sentença. Depois, cortam-lhe um punho. Em seguida, arrancam-lhe a língua com uma tenaz de ferro. Afinal, por misericórdia, cortam-lhe a cabeça e atiram-na para a fogueira. Assim morreu o cavalheiro de La Barre. Tinha 19 anos.

Tradução de autor desconhecido do séc. XIX.
Fonte: O Liberal do Pará, edição de 17 de julho de 1878.



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A TORRE DAS RATAZANAS - Conto Clássico de Terror - Victor Hugo



A TORRE DAS RATAZANAS
Victor Hugo
(1802 – 1885)
Tradução de Paulo Soriano

Desde o declínio do dia, eu só tinha um pensamento. Sabia que, antes de chegar a Bingen, um pouco antes da confluência com o Nahe, encontraria um estranho edifício, um lúgubre antro ruinoso, de pé entre os juncos, no meio do rio, e entre duas altas montanhas. Aquele antro era a Mäuseturm.

Quando criança, acima de minha cama havia um pequeno quadro, circundado por moldura negra, que não sei que criada alemã havia pendurado na parede. Representava uma velha torre isolada, mofada, dilapidada, rodeada por águas profundas e escuras, que a cobriam de vapores e por montanhas, que a cobriam de sombras. O céu, por cima daquela torre, era sombrio e coberto de nuvens horrendas.

À noite, depois de rezar a Deus, e antes de dormir, olhava sempre aquele quadro.  Voltava a vê-lo nos meus sonhos, e ele me parecia terrível. A torre crescia, a água fervia, um relâmpago caía das nuvens, o vento soprava nas montanhas e, por momentos, parecia lançar clamores.  Um dia perguntei à criada como se chamava aquela torre. Persignando-se, respondeu-me que se chamava Mäuseturm. E depois me contou uma história.  Disse-me que em outros tempos, em Mainz, no seu país, houvera um malévolo arcebispo chamado Hatto, que era também abade de Fuld, sacerdote avaro, que, segundo ela, “abria a mão mais para bendizer que para dar”. Que em um ano ruim comprou todo o trigo das colheitas para vender mais caro ao povo, pois aquele clérigo queria ser rico. A escassez foi tal que os camponeses morriam de fome nas vilas do Reno. Que então o povo se reuniu ao redor do burgo de Mainz, chorando e implorando pão.  Que o arcebispo negou.

Neste ponto, a história tornava-se terrível. O povo faminto não se dispersava e continuava a rodear o palácio do arcebispo, gemendo. Hatto, entediado, cercou aquela pobre gente com seus arqueiros, que detiveram homens, mulheres, anciãos e crianças, e os encerraram em um celeiro, no qual atearam fogo. Foi, acrescentava a velha criada, “um espetáculo ante o qual até as pedras choravam”. Hatto nada fez além de rir. E quando aqueles desgraçados, expirando entre as chamas, lançavam gritos de lastimosos, este disse: “Estais ouvindo as ratazanas a guinchar?”

No dia seguinte, do celeiro fatal só restaram cinzas. Não havia ninguém em Mainz. A cidade parecia morta e deserta quando, de repente, viu-se uma multidão de ratazanas que, no celeiro queimado, pululantes como os vermes nas úlceras de Assuero, afloravam do subterrâneo, emergiam entre as pedras, saíam pelas rachaduras dos muros, renasciam sob os pés que os esmagavam, multiplicavam-se sob as pedras e sob as maças, e inundavam as ruas, a cidadela, o palácio, as caves, as salas e as alcovas. Era uma ferida, uma praga, um repugnante formigueiro.

Fora de si, Hatto abandonou Mainz e fugiu para a planície, mas os ratos o perseguiram. Correu a refugiar-se em Bingen, que tinha altas muralhas, mas as ratazanas passaram por cima das paredes e entraram na vila. Então o arcebispo mandou construir uma torre no meio do Reno e refugiou-se nela, com a ajuda de um barco, ao redor do qual dez arqueiros golpeavam a água. As ratazanas lançaram-se na água, cruzaram o Reno, escalaram a torre, roeram as portas, o telhado, as janelas, os tetos, o piso e, chegando por fim à masmorra na qual o miserável arcebispo se escondera, o devoraram vivo.

Agora a maldição do céu e o horror dos homens pesam sobre essa torre chamada Mäuseturm. Está deserta, em ruínas no meio do rio e, às vezes, à noite, vê-se dela emanar um estranho vapor enrubescido, que parece a fumaça de uma fornalha, mas que é a alma de Hatto em regresso.

Ilustração do autor.

Veja este conto em formato revista clicando aqui.

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O TRAVESSEIRO DE PENAS - Conto Clássico de Terror - Horacio Quiroga



O TRAVESSEIRO DE PENAS
Horacio Quiroga
(1878 – 1937)
Tradução de Paulo Soriano

Sua lua de mel foi um longo calafrio. Loura, angelical e tímida, o duro temperamento de seu marido regelou-lhe as sonhadas fantasias de noiva. Ela o queria muito. Todavia, às vezes, quando voltavam à noite juntos pela rua, lançava, com um ligeiro estremecimento, um olhar furtivo à alta estatura de Jordán, mudo há uma hora. Este, de sua feita, a amava profundamente, mas sem demonstrá-lo.

Durante três meses ― eles haviam-se casado em abril ― viveram uma felicidade especial.

Sem dúvida houvera ela desejado menor austeridade neste rígido céu de amor, e maior ternura, inocente e expansiva; mas o impassível semblante do marido a tolhia sempre.

A casa em que viviam influía um pouco em seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso ― frisos, colunas e estátuas de mármore ― produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Lá dentro, o brilho glacial do estuque, sem a mais leve ranhura nas altas paredes, confirmava aquela sensação de frio desagradável. Ao cruzar de um cômodo ao outro, os passos ecoavam por toda a casa, como se um grande abandono houvesse tornado mais perceptível a sua ressonância.

Nesse estranho ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Não obstante, havia terminado por descer um véu sobre os seus antigos sonhos, e ainda vivia adormecida na casa hostil, sem querer pensar em nada, até que chegasse o marido.

Não seria de estranhar que emagrecesse.  Teve um ligeiro ataque de gripe que se arrastou insidiosamente por dias e dias. Alicia não se restabelecia nunca. Ao fim de uma tarde, pôde sair ao jardim, apoiada no braço dele. Olhava indiferente para um lado e para outro. De súbito, Jordán, com profunda ternura, passou-lhe a mão pela cabeça, e Alicia, em seguida, rompeu em soluços, lançando-lhe os braços ao pescoço. Chorou profundamente todo o seu horror reprimido, redobrando os prantos à menor tentativa de carícia. Então, os soluços foram-se abrandando, mas ela ainda ficou um bom tempo aninhada ao pescoço do marido, sem mover-se e sem dizer palavra.

Foi esta a última ocasião em que Alicia manteve-se de pé. No dia seguinte, acordou esmorecida. O médico de Jordán examinou-a com grande atenção, ordenando-lhe calma e repouso absolutos.

― Não sei ― disse-lhe, já à porta da casa, com a voz ainda baixa. ― Ela é presa de uma grande debilidade, que não sei explicar, e sem vômitos, sem nada... Se amanhã ela acordar como hoje, chame-me de imediato.

No dia seguinte, Alicia piorou. Veio o médico. Constatou-se uma anemia de agudíssima evolução, completamente inexplicável. Alicia não teve mais desmaios, mas caminhava visivelmente ao encontro da morte. Durante todo o dia, o quarto permanecia com as luzes acesas e em total silêncio. Passavam-se horas sem se ouvir o menor ruído. Alicia dormitava. Jordán permanecia todo o tempo na sala, também com todas as luzes acesas. Marchava sem cessar de um extremo ao outro, com incansável obstinação. O tapete abafava os seus passos. Às vezes, entrava no quarto e prosseguia o seu mudo vaivém ao longo da cama, olhando para a mulher cada vez que caminhava em sua direção.

Logo Alicia começou a ter alucinações, confusas e flutuantes a princípio, mas que desceram, em seguida, ao rés do chão. A jovem, com os olhos desmesuradamente abertos, não fazia senão olhar para o tapete, num e noutro lado do encosto da cama. Certa noite, ficou repentinamente com o olhar esgazeado. Num certo momento, abriu a boca para gritar, e suas narinas e seus lábios se encharcaram de suor.

― Jordán! Jordán! ― gritou, rígida de espanto, sem deixar de olhar para o tapete.

Jordán correu ao quarto e, ao ver chegar o marido, Alicia deu um grito de horror.

― Sou eu, Alicia! Sou eu!

Alicia o fitou com olhar enviesado. Olhou para o tapete e novamente para ele, e, depois de um longo tempo de estupefata confrontação, acalmou-se. Sorriu e tomou entre as suas mãos as do marido, acariciando-a, a tremer.

Havia, entre as suas alucinações mais obstinadas, a de um antropoide que, apoiado no tapete sobre os dedos, mantinha os olhos fixos nela.

Os médicos voltaram, inutilmente. Havia ali, diante deles, uma vida que se extinguia, dessangrando-se dia a dia, hora a hora, sem que eles soubessem absolutamente como. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto os médicos a pulseavam, passando de um para o outro o punho inerte. Observaram-na, silenciosamente, por um longo tempo, e seguiram para a sala de jantar.

― Psit... ― encolheu os ombros, desalentado, o médico. ― É um caso sério... pouco há o que fazer.

― Era só o que me faltava! ― respondeu Jordán. E tamborilou bruscamente sobre a mesa.

Alicia seguiu definhando-se em seu delírio de anemia, que ao cair da tarde se agravava, mas que amainava sempre às primeiras horas da manhã. Durante o dia, a enfermidade não progredia. A cada despertar, todavia, Alicia acordava lívida, quase em síncope. Parecia que unicamente de noite a vida se lhe escapava em novas asas de sangue. Ao despertar, tinha sempre a sensação de esmagar-se na cama com um milhão de quilos sobre si. A partir do terceiro dia, esta prostração não mais a abandonou. Apenas podia mover a cabeça. Não queria que tocassem na cama, nem mesmo que lhe ajeitassem o travesseiro. Seus terrores crepusculares evoluíram em forma de monstros que se arrastavam até o leito e subiam dificultosamente pela colcha.

Depois, perdeu os sentidos. Nos dois dias finais delirou sem cessar, a meia voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. E no silêncio agônico da casa não se ouvia mais que o delírio monótono que vinha da cama, além do rumor abafado dos eternos passos de Jordán.

Alicia morreu, finalmente. A empregada, que entrou depois para desfazer a cama, já vazia, olhou por um instante, desconfiada, para o travesseiro.

― Senhor! ― chamou Jordán em voz baixa. ― No travesseiro há manchas que parecem de sangue.

Jordán aproximou-se rapidamente, abaixando-se. De fato, sobre a fronha, de ambos os lados da concavidade deixada pela cabeça de Alicia, viam-se pequenas manchas escuras.

― Parecem picadas ― murmurou a empregada, depois de um momento de imóvel observação.

― Levante-o para a luz ― disse-lhe Jordán.

A empregada ergueu o travesseiro, mas logo o deixou cair, e ficou a mirá-lo, pálida, a tremer. Sem saber por quê, Jordán sentiu que os cabelos se eriçavam.

― O que foi? ― murmurou com a voz rouca.

― É muito pesado ― falou a empregada, sem deixar de tremer.
Jordán o levantou. Pesava extraordinariamente. Levaram-no, e, sobre a mesa da sala de jantar, Jordán, com um talho, cortou a fronha e a capa. As penas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror, com a boca escancarada, levando as mãos crispadas à cabeça. No fundo, entre as penas, movendo lentamente as patas peludas, jazia um animal monstruoso, uma bola vivente e viscosa. Estava tão inchado que somente a boca se lhe sobressaía.

Noite após noite, desde que Alicia adoecera, ele tinha aplicado secretamente a sua boca ― ou, melhor dizendo, a sua tromba ― às têmporas da doente, sugando-lhe o sangue. A mordedura era quase imperceptível. A remoção diária do travesseiro sem dúvida impedira o seu desenvolvimento, mas, desde que a jovem não mais conseguiu mover-se, a sucção tornou-se vertiginosa. Em cinco dias e cinco noites, tinha esvaziado Alicia.

Esses parasitas das aves, pequenos em seu meio habitual, chegam a adquirir, em certas condições, proporções enormes. O sangue humano parece ser-lhes particularmente favorável, e não é raro encontrá-los nos travesseiros de penas.






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ARTIGO DE PAULO SORIANO NO PGL - A moderna literatura fantástica brasileira: Roberto de Sousa Causo



A MODERNA LITERATURA FANTÁSTICA BRASILEIRA: ROBERTO DE SOUZA CAUSO

Na coluna quinzenal GROTESCO & ARABESCO: UNIVERSO FANTÁSTICO, publicada no Portal Galgo da Língua (pgl), Paulo Soriano bota luz sobre uma das vozes contemporâneas da literatura fantástica do Brasil, Roberto de Sousa Causo.


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QUANDO O AZAR É SORTE - Narrativa Verídica - Anônimo do Séc. XIX



QUANDO O AZAR É SORTE
Anônimo do sec. XIX

Conta um jornal de Madri, em edição de 1866, que um cidadão, enfastiado de viver (talvez porque se sentisse um azarado, já que nada do que fazia dava certo), deliberou suicidar-se.

Para tornar infalível a sua morte, tomou as mais minuciosas medidas. Era ele um suicida precavido.

Inabalável no seu funesto desígnio, encaminhou-se para a praia do mar munido de uma escada de mão, de uma corda, de uma pistola carregada, de um frasco cheio de veneno e de uma caixa de fósforo.

Olhando em volta de si, enxergou uma estaca que, enterrada a poucos passos, elevava a extremidade para fora da água. Nela o suicida encostou a escada e, subindo, amarrou a corda ao topo da estaca. Com a corda, fez um nó em volta do pescoço. Então, tragou o veneno e, acendendo um fósforo, deitou fogo à roupa.

Feito isto, e para ultimar todas as precauções, tornando certa a própria morte, aplicou o cano da pistola ao ouvido e deu um pontapé na escada.

Porém, neste momento supremo, tremeu-lhe a mão quando apertou o gatilho. A bala, em vez de penetrar-lhe a cabeça, cortou a corda. E o desgraçado caiu na água, apagando-se, assim, o fogo que lhe lavrava a sobrecasaca.

A dose de água salgada, que teve de engolir, obrigou-o a vomitar o veneno, que ainda não tinha produzido efeito...

Perdidas as esperanças de morrer, foi-se para casa, convencido de que ainda não era chegada a sua hora fatal.


Fonte: “Correio Mercantil” (RJ), edição de 25 de dezembro de 1866. Fizeram-se adaptações textuais.

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O SEGREDO DO PATÍBULO - Conto Clássico de Horror - Villiers de L’Isle Adam


O SEGREDO DO PATÍBULO
Villiers de L’Isle Adam
(1838 – 1889)
Tradução de Paulo Soriano


Num dos mais macabros episódios de “Um Mil e Um Fantasmas”, Dumas narra a história de um jovem médico que, após salvar, nas ruas da Paris revolucionária, a vida de uma aristocrata fugitiva, é protagonista de uma horripilante experiência científica. No conto “O Segredo do Patíbulo”, Villiers de L’Isle Adam (1838 ― 1889) retoma o mote inaugurado por Dumas e o explora aos últimos limites: um médico condenado à morte por decapitação recebe a visita de um colega cientista que o convida a participar, como cobaia, de um não menos aterrorizante experimento post-mortem

Ao Sr. Edmond de Goncourt[1]

As recentes execuções fizeram-me lembrar de uma história extraordinária. Ei-la:

Na note de 5 de junho de 1864, às sete horas da noite, o Dr. Edmond-Désiré Couty de la Pommerais, recentemente transferido da prisão de Conciergerie[2] para a de Roquette[3], estava sentado, metido numa camisa de presidiário, na cela dos condenados à morte.

Estava taciturno, tinha os olhos fixos e apoiava os cotovelos no encosto da cadeira. Sobre a mesa, uma vela iluminava a palidez de seu rosto frio. A dois passos, um carcereiro, encostado à parede, vigiava-o com os braços cruzados.

Quase todos os prisioneiros são obrigados a um trabalho diário, de cujo salário a Administração deduz, em caso de morte, o preço da mortalha, que jamais é fornecida de graça. Só os condenados à morte não têm que realizar trabalho algum.

O prisioneiro era um dos que não abrem o jogo. Nos olhos dele não se lia medo ou esperança.

Tinha trinta e quatro anos. Moreno. De altura mediana e bom talhe. Nas têmperas, os cabelos começavam a embranquecer. O olhar era nervoso, semioculto; a fronte, meditativa. A sua voz era turva e breve; as mãos, saturninas. Tinha a expressão circunspecta das pessoas silenciosas. Seus modos eram de uma distinção estudada. Tal era a sua aparência.

(Todos se recordam que, nas audiências do Sena, apesar do rigor de sua defesa, o advogado Lachoud não logrou desvanecer da mente dos jurados o efeito produzido pelas conclusões do Dr. Tardieu e pela acusação levada a efeito pelo promotor de justiça Oscar de Vallée. Acusado de haver administrado doses mortais de digitalina a uma senhora amiga sua, com premeditação e intuito de lucro, M. de la Pommerais ouviu a sentença de morte, em razão da aplicação dos artigos 301 e 302 do Código Penal.)

Nessa noite de 5 de junho, ele ainda não sabia do improvimento de sua apelação e da recusa de qualquer audiência de graça solicitada por seus familiares. Somente o seu defensor, mais venturoso, fora ouvido com displicência pelo imperador. O venerável abade Crozes, que antes de cada execução exauria-se em súplicas às Tulherias[4], voltara sem nada conseguir. Comutar a pena de morte em tais circunstâncias não implicava aboli-la? O caso era exemplar. Na opinião do Ministério Público, o improvimento era irretocável e deveria ser prontamente notificado aos executores. O Sr. Hendreich fora encarregado de receber o condenado às nove e cinco da manhã.

De repente, o estrépito das coronhas dos fuzis ressoou no pavimento do corredor. A fechadura rangeu pesadamente. A porta se abriu. As baionetas brilharam na penumbra. O diretor da Roquette, Sr. Beauquesne, assomou à porta, acompanhado de um visitante.

Erguendo a cabeça, o Sr. de la Pommerais reconheceu, a um olhar, naquele visitante, o ilustre cirurgião Armand Velpeau.

A um sinal do seu superior, o carcereiro saiu e o Sr. Beauquesne, após uma muda apresentação, também se retirou, deixando a sós os dois colegas, frente a frente, olhando-se mutuamente.

La Pommerais, em silêncio, indicou ao médico a sua própria cadeira. Depois, sentou-se no catre em que os adormecidos, em sua maioria, são logo despertados da vida num sobressalto. Como mal se viam, o grande médico se aproximou do... paciente para melhor observá-lo e poder conversar em voz baixa.

Volpeau chegava aos seus sessenta anos. No apogeu de sua fama, herdeiro da cátedra de Larrey[5] no Instituto[6], primeiro professor de clinica cirúrgica de Paris e, por suas obras, todas de um rigor de dedução claro e brilhante, era um luminar da atual ciência patológica, um emérito profissional que já se impunha como uma das sumidades do século.

Após um frio instante de silêncio, disse:

― Senhor, entre nós, médicos, as condolências são inúteis. Por outro lado, uma afecção na próstata ― que, com certeza, me matará em dois ou dois anos e meio ― me classifica, também, com uma distância de poucos meses, na categoria dos condenados à morte. Assim, sem rodeios, vamos ao que interessa.

― Então, segundo o senhor, doutor, a minha situação jurídica é... sem esperança? ― interrompeu Le Pommerais.

― Receio que sim ― respondeu simplesmente Velpeau.

― A minha hora está marcada, então?

― Não sei. Mas, como nada há de concreto, o senhor pode decerto contar com alguns dias.

La Pommerais enxugou a manga da camisa de detento sobre a face pálida.

― Que assim seja. Obrigado. Estou pronto. Agora, o quanto antes acontecer, melhor.

― Como o seu recurso não foi denegado, ao menos até agora ― continuou Valpeau ―, a proposta que eu o farei é condicional. Se o senhor for salvo, tanto melhor... Mas se, do contrário...

O grande cirurgião fez uma pausa.

― Do contrário...? - indagou La Pommerais.

Velpeau, sem responder, tirou do bolso um pequeno estojo. Abriu-o, lançou mão do bisturi e, cortando a manga esquerda da camisa de detento, pressionou o dedo médio sobre o pulso do jovem condenado.

― Senhor de La Pommerais ― disse ―, seu pulso revela raros sangue frio e firmeza. A proposta que venho fazer-lhe, e esta deve manter-se em segredo, dirigida que é a um médico cheio de energia, a um espírito temperado nas convicções positivas de nossa ciência, e bem liberto dos terrores fantásticos da morte, pode parecer uma extravagância ou mesmo um escárnio criminal. Mas creio que sabemos quem somos. O senhor a levará, portanto, em consideração, ainda que, no primeiro momento, a proposta possa parecer-lhe inquietante.

― O senhor tem toda a minha atenção ― respondeu La Pommerais.

― O senhor longe está de ignorar ― prosseguiu Velpeau ― que uma das questões mais interessantes da fisiologia moderna consiste em saber se persiste algum verdadeiro lampejo de memória, raciocínio e sensibilidade no cérebro de um homem depois que tem a cabeça decepada.

A esta introdução inesperada, o condenado estremeceu. Depois, recompondo-se, respondeu:

― Quando o senhor entrou, doutor ― respondeu ―, eu estava justamente muito preocupado com este problema. Aliás, duplamente interessante para mim.

― O senhor está a par dos trabalhos escritos sobre esse assunto, desde os de Soemmering, Sue, Sédillot e Bichat[7] até os mais modernos.

― Eu mesmo assisti, certa feita, a uma de suas aulas de dissecação nos restos de um supliciado.
― Ah! Prossigamos, então. O senhor tem noções exatas, do ponto de vista cirúrgico, sobre a guilhotina?

La Pommerais, depois e olhar atentamente para Valpeau, respondeu friamente:

― Não, senhor.

― Hoje mesmo estudei minuciosamente o aparato ― continuou, impassível, o doutor Velpeau. ― Eu o asseguro que é um instrumento perfeito. A lâmina atua ao mesmo tempo como foice e clava. Corta o pescoço do paciente em um terço de segundo. O decapitado, sob o impacto desse golpe fulgurante, não pode sentir mais dor do que experimenta o soldado que, num campo de batalha, tem um braço arrancado por uma bala. A sensação, pela exiguidade de tempo, é nula e obscura.

― Pode ser que haja uma dor posterior. Duas feridas permanecem vivas. Não foi Julia Fontenelle[8] quem, dando os seus motivos, perguntou se esta mesma velocidade não é mais dolorosa que a execução com alfanje ou machado?

― Bérard[9] foi suficiente para fazer justiça a esse devaneio. Pessoalmente, estou convencido, baseado em numerosas experiências e observações particulares, de que a remoção instantânea da cabeça produz, instantaneamente, no indivíduo decapitado, um absoluto efeito anestésico. Somente a síncope provocada pela súbita perda de quatro ou cinco litros de sangue, que irrompem fora dos vasos ― frequentemente com a força de projeção circular de um metro de diâmetro ― bastaria para tranquilizar os mais temerosos. Quanto aos estremecimentos inconscientes da máquina corporal mui repentinamente interrompida em seus processos fisiológicos, estes não apresentam mais indícios de sofrimento que... os frêmitos de, por exemplo, uma perna cortada, cujos músculos e nervos se contraem, mas na qual já não se sente dor alguma. E digo que a febre nervosa da incerteza, a solenidade dos preparativos fatais e o sobressalto do despertar matinal são, nesse caso, o verdadeiro sofrimento. Como a amputação é imperceptível, a dor real é apenas imaginária. Vamos! Um golpe violento na cabeça não apenas não é sentido como não deixa consciência alguma do impacto. A simples lesão das vértebras acarreta a insensibilidade absoluta. A separação da cabeça, o corte da espinha dorsal, a interrupção das relações orgânicas entre o coração e o cérebro não seriam suficientes para paralisar, nas profundezas do ser humano, toda sensação, mesmo a mais tênue, de dor? Impossível, inadmissível! O senhor sabe disto tão bem quanto eu.

― Pelo menos espero que seja assim, e assim o espero ainda mais que o senhor ― respondeu La Pommerais. ― Porém, não é um grande e rápido sofrimento físico ― apenas concebido pela desordem sensorial, mas rapidamente sufocado pela crescente e inevitável ascendência da Morte ― o que eu temo. É outra coisa.

― O senhor poderia me explicar? ― disse Velpeau.

― Escute ― murmurou La Pommerais após um instante de silêncio. ― Em última instância, os órgãos da memória e da vontade ― se estes estão circunscritos nos mesmos lóbulos em que constatamos no... no cão, por exemplo ― não são afetados pela passagem da lâmina. Temos vivenciados tantos diversos equívocos precedentes, tão inquietantes como incompreensíveis, que não me deixo convencer facilmente da inconsciência imediata do decapitado. Conforme as lendas, quantas cabeças não voltaram o olhar para aqueles que falavam a elas? Memória de nervos? Movimentos reflexos? Palavras vazias! Lembre-se da cabeça daquele marinheiro que, na clínica de Brest, uma hora e quinze minutos após a decapitação, com um movimento, que pode ter sido voluntário, das mandíbulas, cortou em dois um lápis colocado entre elas? Para não citar mais outro entre mil exemplos, a questão real seria, pois, saber se fora ou não o “eu” desse homem que, após a cessação da hematose, incitou os músculos de sua cabeça exangue.

― O “eu” reside apenas no todo ― disse Velpeau.

― A medula espinhal prolonga o cerebelo ― respondeu o Sr. de la Pommerais. ― Onde estará o todo sensitivo? Quem poderá revelá-lo? Antes de oito dias, é certo que eu saberei... e esquecerei.

― Depende do senhor, talvez, que toda a humanidade tenha, de uma vez por todas, a resposta ― respondeu lentamente Velpeau, os olhos cravados em seu interlocutor. ― E, falando com franqueza, é por isto que estou aqui. Fui delegado por uma comissão de nossos mais eminentes colegas da Faculdade de Paris, e aqui está a permissão do imperador. Contém amplos poderes, como o de prorrogar, se necessário, a ordem de execução.

― Não estou entendendo... Por favor, explique-se ― respondeu, perplexo, La Pommerais.

― Senhor de la Pommerais, em nome da ciência que ainda nos é cara, e não podemos hoje contar com muitos mártires magnânimos, venho ― na hipótese para mim mais que duvidosa de que seria factível qualquer experimento por nós engendrado ―, reclamar de todo o seu ser a maior soma de energia e coragem que seja possível esperar da espécie humana. Se seu pedido de clemência for denegado, o senhor será, como médico, um sujeito por si mesmo capacitado à suprema operação que deve suportar. Sua cooperação seria, pois, a inestimável na tentativa de... comunicação. É evidente, por maior que seja a sua boa vontade, que tudo parece concorrer de antemão para o mais negativo dos resultados. Mas, enfim, com o senhor ― supondo sempre que esta experiência não seja absurda em princípio ―, é-nos oferecida uma chance em dez mil de iluminar milagrosamente, por assim dizer, a fisiologia moderna. A ocasião deve ser, portanto, aproveitada e, em caso de verificar-se exitosamente um sinal de inteligência depois da execução, o senhor deixaria um nome cuja glória científica apagaria para sempre a memória de sua mácula social.

― Ah! ― murmurou La Pommerais, pálido, mas com um sorriso resoluto. ― Começo a compreender!… De fato, os suplícios revelaram os fenômenos da digestão, disse-nos Michelot. Mas, qual seria a natureza de suas experiências? Estímulos galvânicos? Excitação do ciliar? Injeção de sangue arterial?

― Convém deixar claro que, imediatamente após à triste cerimônia, seus restos mortais irão descansar em paz na terra e nenhum de nossos bisturis o tocarão ― continuou Velpeau. ― Isto mesmo! Quando a lâmina cair, eu, eu estarei lá, de pé, à sua frente, junto à guilhotina. Sua cabeça passará das mãos do executor às minhas o mais rápido possível. Depois ― embora a experiência, por sua simplicidade, não possa ser séria e conclusiva ―, eu gritarei muito claramente em seu ouvido: “Sr. Couty de la Pommarais, em memória do que combinamos em vida, o senhor pode, neste momento, baixar três vezes seguidas as pálpebras de seu olho direito, conservando o outro aberto?” Se neste momento, quaisquer que sejam as demais contrações faciais, o senhor puder, por meio dessas três picadelas, avisar-me de que me ouviu e entendeu, assim provando, pelo emprego da vontade e da memória permanecentes, o controle sobre o músculo palpebral, o nervo zigomático e a conjuntiva ― dominando assim todo horror, toda as ondas de impressões de seu ser ―, esse fato será suficiente para iluminar a ciência e revolucionar as nossas convicções. E eu saberei, não tenha dúvida, propalar o seu nome, de modo que, no futuro, será o senhor lembrado não como um criminoso, mas como um herói.

Em face destas insólitas palavras, o Sr. de la Pommerais pareceu dominado por uma comoção tão profunda que, com as pupilas dilatadas e fixas no cirurgião, permaneceu em silêncio, petrificado, por um minuto. Então, sem dizer uma palavra, levantou-se, deu alguns passos, muito pensativo. Depois, sacudindo a cabeça, disse:

― A horrível violência do golpe irá arrancar-me de mim mesmo. Realizar tal prodígio me parece superior a toda vontade e esforço humanos ― disse. ― Além disso, diz-se que as probabilidades de sobrevida não são as mesmas para todos os guilhotinados. Apesar disto, volte, senhor, na manhã de minha execução. Responderei se me prestarei ou não essa tentativa, a um tempo terrífica, revoltante e ilusória. Se eu disser não, conto com a sua discrição para deixar que a minha cabeça sangre tranquilamente, até a exaustão, no balde de estanho que há de recebê-la.

― Está bem, Sr. de la Pommarais ― disse Valpeau, também se levantando. ― Reflita.

Cumprimentaram-se.

Um instante depois, o doutor Velpeau deixava a cela, o carcereiro retornava, e o condenado, resignado, se estendia no catre para dormir ou pensar.

Quatro dias depois, às cinco e meia da matina, o Sr. Beauquesne, o abate Crozes, o Sr. Claude e o Sr. Potier, escrivão da corte imperial, entraram na cela. Acordado, e à notícia da hora fatal, o Sr. de la Pommerais ergueu-se muito pálido e se vestiu rapidamente. Em seguida, falou dez minutos com o abade Crozes, de quem já havia recebido visitas. Sabe-se que o santo sacerdote estava dotado desta santa unção de inspiração que infunde coragem na hora extrema. Depois, vendo que o doutor Velpeau chegava, disse:

― Eu tenho treinado. Veja!

E, durante a leitura da sentença, conservou fechada a pálpebra direita, olhando fixamente o cirurgião com olho esquerdo completamente aberto.

Volpeau se inclinou demoradamente diante do médico e depois voltou-se para o Sr. Hendreich, que entrava com o seu ajudante, e trocou com o cirurgião um sinal de cumplicidade.

Os preparativos foram rápidos. Com ele, não se verificou o fenômeno do encanecimento dos cabelos sob o corte da tesoura. Uma carta de despedida da esposa ao réu, lida em voz baixa pelo capelão, umedeceu-lhe os olhos com lágrimas que o sacerdote enxugou piedosamente com o retalho tirado de sua camisa. Uma vez de pé, e com o casaco lançado sobre os ombros, tiveram que soltar as amarras de seus pulsos. Em seguida, ele recusou o copo de aguardente e o séquito seguiu pelo corredor. Ao chegar ao portão, estando o colega no limiar, disse-lhe, em voz baixa:

― Até logo! E adeus!

De repente, as grandes abas de ferros se entreabriram e giraram à sua frente.

O vento da manhã invadiu a prisão. Amanhecia. A grande praça se estendia à sua frente, cercada por um duplo cordão de cavalaria. Adiante, a dez passos, num semicírculo de gendarmes montados, que à sua chegada desembainharam os sabres ruidosos, erguia-se o patíbulo. A uma certa distância, entre os enviados da imprensa, alguns tiravam os chapéus.

Mais abaixo, atrás das árvores, ouvia-se o rumor da multidão, enervada pela noite de espera. Nas coberturas das tavernas, nas janelas, jovens dissolutas, pálidas, vestidas com sedas vistosas, algumas ainda segurando garrafas de champanha, assomavam em companhia de tristes ternos negros. No ar da manhã, sobre a praça, as andorinhas voejavam de cá para lá.

Solitária, preenchendo o espaço e limitando o céu, a guilhotina parecia estender até o horizonte a sombra de seus braços erguidos, entre os quais, muito longe, lá em cima, no azul da alvorada, via-se cintilar a derradeira estrela.

Diante desta fúnebre aparição, o condenado estremeceu. Depois, avançou resolutamente em direção ao cadafalso... Subiu as escadas. Agora, a lâmina triangular brilhava sobre a negra estrutura, ocultando a estrela. Sobre a prancha fatal, beijou, depois do crucifixo, uma mecha de seus próprios cabelos, recolhidos durante os aprestos pelo abade Crozes. E, depois de levá-los aos lábios, disse:

—Para ela!...

As cinco personagens se destacavam, em silhueta, sobre o patíbulo. Naquele momento, o silêncio tornou-se tão profundo que um ruído de um galho quebrado, à distância, sob o peso de um curioso, chegou misturado a gritos e risos hediondos até o trágico grupo. Depois, ao soar a hora cujo golpe ele não deveria ouvir, o Sr. de la Pommerais viu à sua frente, do outro lado, o estranho experimentador. Este, com a mão pousada na plataforma, o observava! Pommerais fechou olhos, concentrando-se.

Bruscamente, a báscula se moveu, o jugo caiu, o botão cedeu e o brilho da lâmina despencou. Um terrível choque sacudiu a plataforma. Os cavalos se agitaram ao cheiro magnético do sangue. O eco do ruído ainda vibrava quando a cabeça ensanguentada da vítima fazia-se palpitar entre as mãos impassíveis do cirurgião de Pitié[10], tingindo-lhe de púrpura os dedos, os punhos e as roupas.

Era uma cara lúgubre, terrivelmente branca, com os olhos abertos e absortos, as sobrancelhas retorcidas e ricto crispado: os dentes se entrechocavam. O queixo, na parte extrema do maxilar inferior, havia sido seccionado.

Volpeau inclinou-se rapidamente sobre aquela cabeça e formulou, junto ao ouvido direito, a pergunta combinada. Conquanto inabalável fosse este homem, o resultado o fez estremecer com uma espécie de terror frio: a pálpebra do olho direito havia baixado, enquanto o olho esquerdo, escancarado, o fitava.

Os cílios se separaram, como se por um resultado de um esforço interior, mas a pálpebra não mais se levantou. Aquela fisionomia, de segundo em segundo, tornou-se rígida, gélida, imóvel. Era o fim.

O doutor Vealpau devolveu a cabeça ao Sr. Hendreich que, reabrindo o cesto, a pousou, como era o costume, entre as pernas do tronco já inerte.

O grande cirurgião mergulhou a mão em um dos baldes destinados à lavagem, que já começava, da guilhotina. Em torno dele, a multidão, inquieta, se dispersava, sem reconhecê-lo. O médico enxugou as mãos, sempre em silêncio.

Depois, a passo lento, com a fronte pensativa e grave, dirigiu-se ao coche estacionado numa esquina da prisão. Enquanto subia, viu que o furgão da justiça se afastava em trote em direção a Montparnasse[11].






[1] Edmond- Louis -Antoine Huot de Goncourt (1822 – 1896), escritor francês.
[2] Prisão parisiense que acolheu, dentre outros prisioneiros, a rainha Maria Antonieta.
[3] No século XIX, a Rue de la Roquette abrigava, em cada um dos lados, uma prisão. A Grande Roquette passou a encarcerar, a partir de 1851, os condenados que aguardavam a execução da pena morte.
[4] Palácio onde residia despachava o então imperador da França, Napoleão III. Foi destruído por um incêndio em 1871. Suas ruínas foram demolidas onze anos depois.
[5] Dominique-Jean Larrey (1766 - 1842), médico e cirurgião militar francês.
[6] Institut de France (em português, Instituto da França) é uma instituição acadêmica francesa, fundada em Paris em 25 de outubro de 1795. Abarca várias instituições, dentre elas a famosa Académie des Sciences.
[7] Samuel Thomas von Sömmerring (1755 – 1830), médico e anatomista alemão; Pierre Sue (1739 - 1816), médico e cirurgião francês; Charles-Emmanuel Sédillot (1804 – 1883), médico militar e cirurgião francês; Marie François Xavier Bichat (1771 – 1802), médico, anatomista e fisiologista francês.
[8] Jean-Sébastien-Eugène Julia de Fontenelle (1780 – 1842), médico e químico francês.
[9] August Bérard (1802 – 1846), cirurgião francês.
[10] Hospital parisiense.
[11] Cemitério parisiense.

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