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GABRIEL LAMBERT - ROMANCE DE ALEXANDRE DUMAS
(Em E-pub, MOBI e PDF)

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GABRIEL LAMBERT - Em maio de 1835, numa viagem a Toulon, Alexandre Dumas depara-se com um homem misterioso, condenado perpetuamente às galés. O famoso escritor está certo de que já conhecera aquela arredia criatura, mas não se recorda em que circunstâncias. Isto o intriga. O nome do prisioneiro – Gabriel Lambert – nada lhe acrescenta. Mas, ao descobrir o codinome pomposo pelo qual o forçado fora conhecido nas altas esferas de Paris, vem-lhe à memória uma cena em que o desconhecido duela com um de seus mais íntimos amigos. Mas isto é muito pouco para o curioso escritor. Firme no intento de descobrir a trajetória do infeliz condenado, Dumas, sem renunciar ao enredo ágil e instigante, revela-nos uma trágica narrativa, na qual o atribulado protagonista assume a dimensão de um anti-herói marcado pela ambição e covardia extremas. Gabriel Lambert talvez seja um dos mais odiosos personagens da Literatura Universal, um homem inescrupuloso, instável, esquivo, mas dotado de um talento excepcional.

Romance escrito em 1843 – no ano seguinte viriam a lume “Os três mosqueteiros” –, “Gabriel Lambert” poderia ser objeto de estudo da moderna psicologia, tal é perspicácia com a qual o grande escritor francês examina a alma de um homem atormentado, dotado de um pérfido caráter e de um comportamento excêntrico, que alterna períodos de euforia e depressão profundas...


Tradução de Antônio José Leite Lobo
com a participação de Paulo Soriano


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METZENGERSTEIN - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe



METZENGERSTEIN

Edgar Allan Pöe
(1809 – 1849)

Pestia, eram vivus, — moriens tua mors[1].

Lutero

O horror e a fatalidade se expandem através de todos os séculos. Para que atribuir uma data à história que vou narrar? Basta-me referir que, na época à que aludo, existia no centro da Hungria uma crença secreta, mas sólida, nas doutrinas da metempsicose[2]. Nada direi sobre essas doutrinas em si mesmas, sobre sua falsidade ou sua probabilidade. Afirmo, todavia, que boa parte de nossa incredulidade provém — como diz La Bruyèrs, que atribui toda nossa infelicidade a essa causa única — de não podermos estar sozinhos.

Havia, porém, alguns pontos na superstição húngara que tendiam acentuadamente para o absurdo. Os húngaros divergiam muito essencialmente de seus chefes do Oriente. Por exemplo, acreditavam que a alma — transcrevo as expressões de um arguto e inteligente parisiense — só habita uma única vez um corpo sensível. Assim, um cavalo, um cão, mesmo um homem, não passam da aparência ilusória desses seres.

 As famílias Berlifitzing e Metzengerstein se haviam querelado durante séculos. Jamais se viram duas casas tão ilustres reciprocamente exasperadas por tão imortal inimizade. Esse ódio podia encontrar sua origem nas palavras de uma antiga profecia: — um grande nome cairá com uma queda terrível, quando, à imagem do cavaleiro sobre seu cavalo, a mortalidade de Metzengerstein triunfar da imortalidade de Berlifitzing.

Não há dúvida que os termos tinham pouco ou nenhum sentido. Houve causas, porém, mais vulgares que provocaram — e isso sem remontar muito longe — consequências igualmente plenas de acontecimentos. Ademais, as duas casas, que eram vizinhas, tinham por muito tempo exercido uma influência rival nos negócios de um governo tumultuoso. Além disso, é raro que vizinhos tão próximos sejam amigos. E do alto de seus maciços terraplenos os habitantes do castelo Berlifitzing podiam mergulhar seus olhares nas próprias janelas do palácio Metzengerstein. Finalmente, a ostentação de um fausto mais que feudal era pouco próprio para acalmar os sentimentos irritadiços dos Berlifitzing menos antigos e menos ricos. Será, portanto, de surpreender que os termos daquela predição, embora inteiramente extravagantes, tenham tão bem criado e mantido a discórdia entre duas famílias já predispostas às querelas por todas as instigações de uma inveja hereditária? A profecia parecia implicar — se é que implicava alguma coisa — um triunfo final da casa já então mais poderosa, e, naturalmente, vivia na memória da mais fraca e menos influente, impregnando-se de amarga animosidade. Welhelm, conde de Behifitzing, embora, proviesse de elevada origem, não passava, na época desta história, de um velho caduco e enfermo, e nada possuía de notável, a não ser uma antipatia inveterada e louca contra a família de seu rival, e uma paixão tão forte pelos cavalos e pela caça que coisa alguma, nem seus incômodos físicos, nem sua avançada idade, nem o enfraquecimento de seu espírito podiam impedi-lo de participar diariamente dos perigos desses exercícios.

Do outro lado, Frederick, barão de Metzengerstein, ainda não era maior. Seu pai, o ministro G..., morrera moço. Sua mãe, Sra. Maria, logo o acompanhou. Nessa época, Frederick contava dezoito anos. Numa cidade, dezoito anos não representam um longo lapso de tempo; mas numa solidão — numa tão magnifica solidão quanto aquele antigo domínio —, o pêndulo vibra com solenidade mais profunda e mais significativa.

 Em consequência de determinadas circunstâncias ligadas à administração seu pai, o jovem barão, logo após a morte daquele, entrou na posse de suas vastas propriedades. Raramente se havia visto um nobre da Hungria possuir semelhante patrimônio. Seus castelos eram incontáveis. O maior e mais esplêndido era o palácio Metzengerstein. A linha fronteiriça de seus senhorios jamais fora claramente traçada, mas seu parque principal abrangia uma circunferência de cinquenta milhas.

O advento de uma fortuna assim incomparável para um proprietário tão jovem, e de caráter tão bem conhecido, deixava pouco lugar para conjecturas no tocante à sua provável linha de conduta. De fato, no espaço de três dias, a conduta do herdeiro fez empalidecer a fama de Herodes e ultrapassou esplendidamente as esperanças de seus mais entusiasmados admiradores. Vergonhosas orgias, perfídias flagrantes, atrocidades incríveis, depressa fizeram seus trêmulos vassalos compreenderem que coisa alguma — nem submissão mesquinha de sua parte, nem escrúpulos de consciência da parte dele — doravante os garantiria contra as garras sem remorsos do pequeno Calígula. Pela noite do quarto dia, reparou-se que havia incêndio nas estrebarias do castelo Berlifitzing, e a opinião unânime da vizinhança anexou o crime de incêndio à lista já horrorosa dos delitos e crueldade do barão.

Quanto ao jovem gentil-homem, durante o tumulto provocado pelo acidente, conservava-se aparentemente imerso em meditação, no alto do palácio da família dos Metzengerstein, num imenso aposento deserto. O jogo de tapeçarias, opulento, embora desbotado, que pendia melancolicamente das paredes, representava as figuras fantásticas e majestosas de mil antepassados ilustres. Aqui, sacerdotes ricamente vestidos de arminho, dignitários pontifícios, sentavam-se familiarmente com o autócrata e o soberano, opunham seu veto aos caprichos de um rei temporal ou detinham com o fiat da onipotência papal o cetro rebelde do Grande-Inimigo, príncipe das trevas. Acolá, as sombrias e enormes figuras dos príncipes Metzengerstein — com seus musculosos corcéis tripudiando sobre os cadáveres dos inimigos caídos — abalavam os nervos mais firmes com sua vigorosa expressão; e aqui, por sua vez, voluptuosas e brancas como cisnes, as imagens das damas de tempo antigo flutuavam ao longe nos volteios de uma dança fantástica, aos acordes de uma melodia imaginária.

Mas, enquanto o barão escutava ou fingia escutar a algazarra, que continuava a crescer, das estrebarias de Berlifitzing, — e talvez meditando em algum novo rasgo, algum decidido rasgo de audácia, — seus olhos se voltaram maquinalmente para a imagem de um cavalo enorme, de uma cor que não era natural, que figurava na tapeçaria como pertencente a um ancestral sarraceno da família de seu rival. O cavalo ocupava o primeiro plano da cena — imóvel qual uma estátua —, enquanto um pouco além, atrás dele, seu cavaleiro, vencido, perecia sob o punhal de um Metzengerstein.

Nos lábios de Frederick surgiu uma expressão diabólica, como se ele reparasse na direção que seu olhar tomara involuntariamente. Contudo, não desviou os olhos. Muito longe disso, ele estava inteiramente incapaz de dominar a ansiedade opressiva que parecia descer sobro seus sentidos à semelhança de uma mortalha. Dificilmente conciliava suas sensações incoerentes como as dos sonhos com a certeza de estar acordado. Quanto mais ele contemplava, tanto mais absorvente se tornava o sortilégio — tanto mais impossível lhe parecia despregar os olhos da fascinação daquela tapeçaria. Como o tumulto do exterior aumentou repentinamente, ele fez por fim, um esforço, que lhe pareceu difícil, e voltou sua atenção para um surto de claridade vermelha projetado em cheio sobre as janelas do aposento pelas cavalariças em chamas.

A ação, todavia, foi apenas momentânea. Seu olhar retornou maquinalmente para a parede. Com grande assombro seu, a cabeça do gigantesco corcel — coisa horrível! —, enquanto isso, mudara de posição. O pescoço do animal, primeiro como que inclinado pela compaixão para o corpo prostrado de seu senhor, estendia-se agora, rígido e em todo seu tamanho, em direção ao barão. Os olhos, havia pouco invisíveis, tinham agora uma expressão enérgica e humana, e brilhavam com um vermelho ardente e extraordinário. Os lábios esticados desse cavalo de fisionomia embravecida deixavam inteiramente à mostra seus dentes sepulcrais e repugnantes.

Estupefato de terror, o jovem senhor alcançou a porta, cambaleando. Ao abri-la, um clarão vermelho projetou-se ao longe na sala, recortando nitidamente seu reflexo contra a tapeçaria, que ondulava. E, enquanto o barão hesitava um instante no limiar, estremeceu ao ver que esse reflexo tomava a posição exata e enchia precisamente o contorno do implácavel e triunfante assassino de Berlifitzing sarraceno.

Para desoprimir seu ânimo abatido, o barão Frederick buscou precipitadamente o ar livre. Na porta principal do palácio, encontrou três adestradores de cavalos. Estes, com muita dificuldade e sério risco de suas vidas, dominavam os saltos convulsivos de um gigantesco cavalo cor de fogo.

— De quem é esse cavalo? Onde o encontraram? — perguntou o jovem com voz estrondosa e rouca, reconhecendo imediatamente que o misterioso corcel da tapeçaria era perfeita réplica do encolerizado animal que estava em sua frente.

—É de sua propriedade, senhor — retrucou um dos adestradores. — Pelo menos nenhum outro proprietário o reclamou. Nós o agarramos quando ele fugia, todo fumegante e espumando de raiva, das cavalariças incendiadas do castelo de Berlifitzing. Supondo que pertencesse ao haras de cavalos estrangeiros do velho conde, nós o trouxemos como salvado. Mas os lacaios negam-se a reconhecer qualquer direito sobre o animal, o que é estranho, visto exibir ele sinais evidentes do fogo que provam que escapou por pouco.

—As letras W. v. B. também estão marcadas a ferro, muito distintamente, em sua testa — interrompeu um segundo adestrador. — Supus que fossem as iniciais de Wilhelm von Berlifitzing, mas toda a gente do castelo afirma positiva- mente que jamais viu o animal.

—Extremamente singular — disse o jovem barão, com ar abstrato e parecendo inconsciente do significado de suas palavras. — É, como dizem, um cavalo notável, um cavalo prodigioso! Embora seja, como repararam com exatidão, de caráter arisco e intratável. Vamos! Que me pertença de bom grado — acrescentou após uma pausa.  — Talvez um cavaleiro igual a Frederick de Metzengerstein seja capaz de domar o próprio diabo das cavalariças de Berlifitzing.

— O senhor está enganado, senhor; o cavalo, como creio que dissemos, não pertence às cavalariças do conde; se assim fosse, conhecemos perfeitamente nosso dever para trazê-lo à presença de uma nobre pessoa de sua família.

—É verdade! — observou o barão secamente.

Nesse instante, um jovem criado de quarto chegou do palácio, todo corado e pressuroso. Sussurrou ao ouvido de seu senhor o caso da súbita desaparição de um pedaço da tapeçaria, num aposento que ele designou, entrando então em pormenores de caráter minucioso e circunstanciado. Mas como tudo isso era transmitido em voz muito baixa, nenhuma palavra transpirou capaz de satisfazer a curiosidade excitada dos adestradores.

O jovem Frederick, durante a conversa, parecia dominado de emoções variadas. Contudo, depressa recuperou sua calma. Uma expressão de resoluta maldade já estava estampada em sua fisionomia quando expediu ordens peremptórias afim de que o aposento em questão fosse imediatamente condenado e a chave entregue em suas próprias mãos.

—O senhor soube da morte lamentável de Berlifitzing, o velho caçador? — disse ao barão um de seus vassalos, após a partida do pajem, enquanto o enorme corcel, que o gentil-homem acabava de adotar como seu, saltava e se atirava, com fúria redobrada, através da longa avenida que se estendia do palácio às cavalariças de Metzengerstein.

—Não — disse o barão, voltando-se subitamente para quem lhe falava. — Morte, estás dizendo?

— É a pura verdade, senhor. E suponho que para alguém do seu nome, isso não seja uma informação muito desagradável.

Um rápido sorriso perpassou pelo rosto do barão.

 — Como ele  morreu ?

—Em seus imprudentes esforços para salvar a parte predileta de seu haras de caça. Pereceu miseravelmente nas chamas.

—Ver... da... de! — exclamou o barão, como que lenta e gradualmente impressionado por alguma evidência misteriosa.

 — Verdade — repetiu o vassalo.

— Horrível! — disse o rapaz com muita calma, e voltou tranquilamente para o palácio.

A partir dessa época verificou-se uma transformação marcada na conduta exterior do dissoluto jovem, barão Frederick von Metzengerstein. Na realidade, sua conduta desapontava todas as esperanças e inutilizava as manobras de mais de uma progenitora. Seus hábitos e maneiras tornavam-se cada vez mais ríspidos e deixaram, mais do que nunca, de apresentar o menor ponto de contato com os da aristocracia da região. Nunca era visto fora dos limites de seu domínio, e no vasto mundo social onde vivia absolutamente sem companheiro — a menos que o grande cavalo impetuoso, fora da natureza, cor de fogo, que ele passou a montar continuamente a partir dessa época, possuísse algum misterioso direito ao título de amigo.

Entretanto, recebia periodicamente numerosos convites por parte da vizinhança.  — “O barão honrará nossa festa com sua presença?”; — “O barão se reunirá conosco para uma caça de javali?” — "Metzengerstein não caça"; — “Metzengerstein não irá”, eram essas as suas arrogantes e lacônicas respostas.

Esses reiterados insultos não podiam ser suportados por uma nobreza imperiosa. Tais convites se tornaram menos cordiais, menos frequentes e com o tempo cessaram inteiramente. Ouviu-se a viúva do conde Berlifitzing manifestar o desejo "de que o barão estivesse em casa quando não o desejasse estar, visto que ele despreza a companhia de seus iguais; e que estivesse a cavalo quando não o desejasse, visto preferir a companhia de um cavalo". Isto certamente não passava da explosão tola de uma desavença hereditária e provava que nossas palavras se tornam singularmente absurdas quando lhes desejamos emprestar uma forma singularmente enérgica.

As pessoas caridosas, contudo, atribuíam a transformação de maneiras do jovem gentil-homem à natural tristeza de um filho prematuramente privado de seus pais — olvidando, todavia, sua despreocupada e atroz conduta durante os dias que se seguiram imediatamente a essa perda. Houve alguns que simplesmente o acusaram de fazer uma ideia exagerada de sua importância e de sua dignidade. Outros, por sua vez (e entre estes se pode citar o médico da família), falaram sem hesitação de uma melancolia mórbida e de um mal hereditário. Entre a multidão, entretanto, circulavam insinuações mais tenebrosas, de caráter mais equívoco.

Na realidade, o perverso apego do barão à sua montaria recentemente adquirida — apego que parecia haurir nova força em cada novo exemplo dado pelo animal de seus ferozes e demoníacos pendores — acabou tornando-se, aos olhos de todas as criaturas sensatas, uma ternura horrível e contra a natureza. Na cintilação do meio-dia, nas horas mortas da noite, doente ou bem-disposto, na bonança ou na tempestade, o jovem Metzengerstein parecia pregado à sela do colossal cavalo, cujas intratáveis audácias tanto correspondiam a seu próprio caráter.

Além disso, havia circunstâncias que, relacionadas com acontecimentos recentes, emprestavam um caráter sobrenatural monstruoso à mania do cavaleiro e às faculdades do animal. O espaço que ele ultrapassava de um salto fora cuidadosamente medido e verificou-se que excedia por uma diferença assombrosa às conjecturas mais condescendentes e mais exageradas. O barão, além disso, não se utilizava para o animal de nenhum nome particular, embora todos os cavalos de seu haras tivessem designações próprias. O cavalo em questão tinha sua estrebaria a certa distância das outras. E, quanto ao tratamento e a todo o serviço necessário, ninguém —  exceto o proprietário em pessoa —, se arriscava a fazê-lo, nem mesmo a penetrar no cercado onde se erguia sua cavalariça particular. Reparou-se, também, que, embora os três palafreneiros que se haviam apoderado do corcel, quando ele fugia do incêndio de Berlifitzing, tivessem conseguido detê-lo graças a uma corrente de nó corrediço, nenhum dos três, contudo, podia afirmar com segurança que, durante a perigosa luta, ou em algum momento posterior, tivesse jamais colocado a mão no corpo do animal. Provas de particular inteligência reveladas na conduta do nobre e fogoso cavalo certamente não bastariam para provocar uma atenção absurda. Mas havia, neste caso, determinadas circunstâncias que teriam forçado os espíritos mais céticos e mais fleumáticos: assim, dizia-se que por vezes o animal fizera a multidão curiosa recuar de pavor perante o profundo e impressionante significado de sua marca — momento em que o jovem Metzengerstein empalidecia e fugia ante a súbita e perspicaz expressão de seu olhar grave e quase humano.

Entre toda a criadagem do barão, não houve ninguém que duvidasse da extraordinária e fervorosa afeição que as esplêndidas qualidades de seu cavalo provocavam no jovem gentil-homem; ninguém, com exceção pelo menos de um insignificante e importuno pajenzinho, cuja ofuscante fealdade era encontrada por toda parte, e cujas opiniões tinham o mínimo de importância possível. Tinha ele a ousadia de afirmar — se, todavia, suas ideias merecem ser mencionada — que seu senhor jamais o montara sem um inexplicável e quase imperceptível arrepio e que, ao regressar de cada uma de suas longas e habituais cavalgadas, uma expressão de triunfante perversidade contorcia todos os músculos de seu rosto.

Durante uma noite de tempestade, Metzengerstein, saindo de um sono pesado, desceu qual um maníaco de seu quarto e, montando celeremente o cavalo, precipitou-se aos saltos através do labirinto da floresta.

Um acontecimento tão comum não podia despertar particularmente a atenção. Seu regresso, porém, foi aguardado com intensa ansiedade por todos os seus lacaios, quando, após algumas horas de ausência, os prodigiosos e magníficos edifícios do palácio Metzengerstein começaram a estalar e a tremer até os alicerces sob a ação de braseiro imenso e indomável — uma massa espessa e lívida.

Como as chamas, quando avistadas pela primeira vez, já faziam imenso progresso — de molde que todos os esforços para salvar uma parte qualquer das construções teriam sido evidentemente inúteis —, toda a população da vizinhança se conservava indolentemente em volta num assombro silencioso senão apático. Mas um objeto, terrível e novo, bem depressa fixou a atenção da turba, e demonstrou a que ponto é mais intenso o interesse provocado nos sentimentos da turba pela contemplação de uma agonia humana como aquele originado dos mais pavorosos espetáculos da matéria inanimada.

Na longa avenida de velhos carvalhos que principiava na floresta e morria na entrada principal do palácio Metzengerstein, um corcel, conduzindo um cavaleiro de cabeça nua e em desordem, era visto a saltar com uma impetuosidade que desafiava o próprio Demônio da Tempestade.

O cavaleiro, evidentemente, não era o senhor nessa carreira desenfreada. A angústia de sua fisionomia, os esforços convulsivos de todo seu ser testemunhavam uma luta sobre-humana, mas som algum, exceto um grito único, se escapava de seus lábios dilacerados, que ele mordia de lado a lado no paroxismo de seu terror. Num instante, o choque dos cascos ressoou com ruído agudo e penetrante, mais alto que o rugir das chamas e o ganir do vento. Noutro, atravessando de um só salto a grande porta e o fosso, o corcel se precipitou sobre as escadarias oscilantes do palácio e desapareceu com seu cavaleiro no turbilhão daquele fogo caótico.

A fúria da tempestade abrandou de súbito e uma calma absoluta substituiu-a majestosamente. Uma chama branca continuava a envolver o edifício como um sudário e, projetando-se ao longe na atmosfera tranquila, dardejava uma claridade de esplendor sobrenatural, ao mesmo tempo em que uma nuvem de fumaça desabava pesadamente sobre as construções, revestindo a forma nítida de um gigantesco cavalo.

Tradução de autor desconhecido.
Fonte: “Vamos Ler” (RJ), edição de 25 de novembro de 1943.



[1] Em vida eu fui a tua peste; moto, serei a tia morte.
[2] Doutrina segundo a qual a alma transmigra de um a outro corpo, independentemente da espécie do ente vivo que a recebe.

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OS OLHOS QUE COMIAM CARNE - Conto Clássico de Horror - Ficção Científica - Humberto de Campos



OS OLHOS QUE COMIAM CARNE
Humberto de Campos
(1886 – 1934)

Poeta, contista e político brasileiro, Humberto de Campos nasceu na então vila de Miritiba, Estado do Maranhão, em 1886. “Os Olhos que Comiam Carne”, obra-prima da literatura fantástica brasileira, que alia o horror à ficção científica, provavelmente influenciou o roteiro do filme estrelado por Ray Milland, “O Homem dos olhos de raio-X” (“‘X’ - The Man With the X-Ray Eyes”), de Roger Corman (1963), embora não se lhe tenham sido outorgados quaisquer créditos. Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934.

Paulo Fernando mergulhou o rosto nas mãos, e quedou-se imóvel, petrificado pela verdade terrível. Estava cego. Acabava de realizar-se o que há muito prognosticavam os médicos.

A notícia daquele infortúnio em breve se espalhava pela cidade, impressionando e comovendo a quem a recebia. A morte dos olhos daquele homem de quarenta anos, cuja mocidade tinha sido consumida na intimidade de um gabinete de trabalho, e cujos primeiros cabelos brancos haviam nascido à claridade das lâmpadas, diante das quais passara oito mil noites estudando, enchia de pena os mais indiferentes à vida do pensamento. Era uma força criadora que desaparecia. Era uma grande máquina que parava. Era um facho que se extinguia no meio da noite, deixando desorientados na escuridão aqueles que o haviam tomado por guia. E foi quando, de súbito, e como que providencialmente, surgiu na imprensa a informação de que o professor Platen, de Berlim, havia descoberto o processo de restituir a vista aos cegos, uma vez que a pupila se conservasse íntegra, e se tratasse, apenas, de destruição ou defeito do nervo óptico. E, com essa informação, a de que o eminente oculista passaria em breve pelo Rio de Janeiro, a fim de realizar uma operação desse gênero em um opulento estancieiro argentino, que se achava cego há seis anos e não tergiversara em trocar a metade da sua fortuna pela antiga luz dos seus olhos.

A cegueira de Paulo Fernando, com as suas causas e sintomas, enquadrava-se rigorosamente no processo do professor alemão: dera-se pelo seccionamento do nervo óptico. E era pelo restabelecimento deste, por meio de ligaduras artificiais com uma composição metálica de sua invenção, que o sábio de Berlim realizava o seu milagre cirúrgico. Esforços foram empregados, assim, para que Platen desembarcasse no Rio de Janeiro por ocasião de sua viagem a Buenos Aires.

Três meses depois, efetuava-se, de fato, esse desembarque. Para não perder tempo, achava-se Paulo Fernando, desde a véspera, no Grande Hospital das Clínicas. E encontrava-se já na sala de operações, quando o famoso cirurgião entrou, rodeado de colegas brasileiros, e de dois auxiliares alemães, que o acompanhavam na viagem, e apertou-lhe vivamente a mão.

Paulo Fernando não apresentava, na fisionomia, o menor sinal de emoção. O rosto escanhoado, o cabelo grisalho e ondulado posto para trás, e os olhos abertos, olhando sem ver: olhos castanhos, ligeiramente saídos, pelo hábito de vir beber a sabedoria aqui fora, e com laivos escuros de sangue, como reminiscência das noites de vigília. Vestia pijama de tricoline branca, de gola caída. As mãos de dedos magros e curtos seguravam as duas bordas da cadeira, como se estivesse à beira de um abismo, e temesse tombar na voragem.

Olhos abertos, piscando, Paulo Fernando ouvia, em torno, ordens em alemão, tinir de ferros dentro de uma lata, jorro d'água, e passos pesados ou ligeiros, de desconhecidos. Esses rumores eram, no seu espírito, causa de novas reflexões.

Só agora, depois de cego, verificara a sensibilidade da audição, e as suas relações com a alma, através do cérebro. Os passos de um estranho são inteiramente diversos daqueles de uma pessoa a quem se conhece. Cada criatura humana pisa de um modo. Seria capaz de identificar, agora, pelo passo, todos os seus amigos, como se tivesse vista e lhe pusessem diante dos olhos o retrato de cada um deles. E imaginava como seria curioso organizar para os cegos um álbum auditivo, como os de datiloscopia, quando um dos médicos lhe tocou no ombro, dizendo-lhe amavelmente:

―Está tudo pronto... Vamos para a mesa... Dentro de oito dias estará bom.

O escritor sorriu, cético. Lido nos filósofos, esperava, indiferente, a cura ou a permanência na treva, não descobrindo nenhuma originalidade no seu castigo e nenhum mérito na sua resignação. Compreendia a inocuidade da esperança e a inutilidade da queixa. Levantou-se, assim, tateando, e, pela mão do médico, subiu na mesa de ferro branco, deitou-se ao longo, deixou que lhe pusessem a máscara para o clorofórmio, sentiu que ia ficando leve, aéreo, imponderável. E nada mais soube nem viu.

O processo Plateu era constituído por uma aplicação da lei de Roentgen, de que resultou o Raio-X, e que punha em contacto, por meio de delicadíssimos fios de «hêmera», liga metálica recentemente descoberta, o nervo seccionado. Completava-o uma espécie de parafina adaptada ao globo ocular, a qual, posta em contacto direto com a luz, restabelecida integralmente a função desse órgão. Cientificamente, era mais um mistério do que um fato. A verdade, era que as publicações europeias faziam, levianamente ou não, referências constantes às curas miraculosas realizadas pelo cirurgião de Berlim, e que seu nome, em breve, corria o mundo, como o de um dos grandes benfeitores da Humanidade.

Meia hora depois as portas da sala de cirurgia do Grande Hospital de Clínicas se reabriam e Paulo Fernando, ainda inerte, voltava, em uma carreta de rodas silenciosas, ao seu quarto de pensionista. As mãos brancas, postas ao longo do corpo, eram como as de um morto. O rosto e a cabeça envoltos em gaze, deixavam à mostra apenas o nariz afilado e a boca entreaberta. E não tinha decorrido outra hora, e já o professor Platen se achava, de novo, a bordo, deixando a recomendação de que não fosse retirada a venda, que pusera no enfermo, antes de duas semanas.

Doze dias depois passava ele, de novo, pelo Rio, de regresso para a Europa. Visitou novamente o operado, e deu novas ordens aos enfermeiros. Paulo Fernando sentia-se bem. Recebia visitas, palestrava com os amigos. Mas o resultado da operação só seria verificado três dias mais tarde, quando se retirasse a gaze. O santo estava tão seguro do seu prestígio que ia embora sem esperar pela verificação do milagre.

Chega, porém, o dia ansiosamente aguardado pelos médicos, mais do que pelo doente. O Hospital encheu-se de especialistas, mas a direção só permitiu, na sala em que se ia cortar a gaze, a presença dos assistentes do enfermo. Os outros ficaram fora, no salão, para ver o doente, depois da cura.

Pelo braço de dois assistentes, Paulo Fernando atravessou o salão. Daqui e dali, vinham-lhe parabéns antecipados, apertos de mão vigorosos, que ele agradecia com um sorriso sem endereço. Até que a porta se fechou, e o doente, sentado em uma cadeira, escutou o estalido da tesoura, cortando a gaze que lhe envolvia o rosto.

Duas, três voltas são desfeitas. A emoção é funda, e o silêncio completo, como o de um túmulo. O último pedaço de gaze rola no balde. O médico tem as mãos trêmulas. Paulo Fernando, imóvel, espera a sentença final do Destino.

―Abra os olhos! ― diz o doutor.

O operado, olhos abertos, olha em torno. Olha e, em silêncio, muito pálido, vai se pondo de pé. A pupila entra em contacto com a luz, e ele enxerga, distingue, vê. Mas é espantoso o que vê. Vê, em redor, criaturas humanas. Mas essas criaturas não têm vestimentas, não têm carne; são esqueletos apenas; são ossos que se movem, tíbias que andam, caveiras que abrem e fecham as mandíbulas! Os seus olhos comem a carne dos vivos. A sua retina, como os raios-X, atravessa o corpo humano e só se detém na ossatura dos que a cercam, e diante das cousas inanimadas! O médico, à sua frente, é um esqueleto que tem uma tesoura na mão! Outros esqueletos andam, giram, afastam-se, aproximam-se, como um bailado macabro!

De pé, os olhos escancarados, a boca aberta e muda, os braços levantados numa atitude de pavor, e de pasmo, Paulo Fernando corre na direção da porta, que adivinha mais do que vê, e abre-a. E o que enxerga, na multidão de médicos e de amigos que o aguardam lá fora, é um turbilhão de espectros, de esqueletos que marcham e agitam os dentes, como se tivessem aberto um ossuário cujos mortos quisessem sair. Solta um grito e recua. Recua, lento, de costa, o espanto estampado na face. Os esqueletos marcham para ele, tentando segurá-lo
.
― Afastem-se! Afastem-se! ― intima, num urro que faz estremecer a sala toda.

E, metendo as unhas no rosto, afunda-as nas órbitas, e arranca, num movimento de desespero, os dois glóbulos ensanguentados, e tomba escabujando no solo, esmagando nas mãos aqueles olhos que comiam carne, e que, devorando macabramente a carne aos vivos, transformavam a vida humana, em torno, em um sinistro baile de esqueletos...





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A NECROPSIA - Conto de Terror - Paulo Soriano



A NECROPSIA
Paulo Soriano

Encontraram o que supunham ser o meu cadáver numa tarde taciturna de inverno.

Irremediavelmente morto. Foi o que eles disseram. E não poderia ser de outra forma, após a constatação de que o meu corpo apresentava uma rigidez de pedra. O meu coração congelara-se no peito e a minha respiração cessara de todo. Mas eu sabia que as coisas não eram bem assim.

Apesar da imobilidade e da frialdade de meu corpo, os meus sentidos estavam em alerta. Podia ouvir perfeitamente a movimentação em torno de mim. O médico abriu as minhas pálpebras, primeiro uma, depois a outra. Lançou contra as minhas pupilas um potente feixe de luz. Pude ver que o médico era um camarada de meia-idade, pálido como um defunto. Tinha cara de macaco. O Dr. Orangotango cerrou as minhas pálpebras e me atirou novamente na escuridão.

Senti quando me puseram num saco funerário e me conduziram a um rabecão. O automóvel começou a rolar. Desenvolveu, durante o trajeto, uma velocidade mínima. O estado de torpor em que eu me encontrava aguçava incrivelmente os meus sentidos. Eu sabia que havia duas pessoas comigo. E eram seres execráveis. Não davam a mínima para mim. Ouvi o que faziam. O homem ensaiava uns preliminares enquanto o rabecão desfilava solenemente pelas ruas nevoentas da cidade. Ele sugava as tetas da companheira enquanto ela proferia obscenidades. Sei que não há bondade alguma no meu coração. Sou um ser detestável. Mas, por pior que seja, não pude deixar de experimentar certa indignação com aquilo tudo. E, ao final do trajeto, me veio um prurido, um desconforto palpável, ao toque impuro daquele casal abominável O carro finalmente parou e me puseram numa maca de rodas.

Rolaram comigo. Fizeram algumas curvas e entraram num elevador. Percebi que a cabine descia celeremente. Pelo ruído que fazia, concluí que o elevador era muito velho. Depois veio um tranco abrupto. A porta da cabine se abriu. Intuí que estava defronte do corredor que conduzia a uma das salas de autópsia.

Há quem tenha um pavor irracional de ser enterrado vivo. Mas os que assim pensam estão completamente equivocados.

Desconhecem que é muito mais provável que encontrem um fim doloroso sob o talho profundo e presto de um bisturi insalubre, em uma sala de autópsia. Ou que congelem lentamente numa daquelas asfixiantes câmaras frigoríficas. Foi nisso que pensei quando puseram uma etiqueta no meu artelho esquerdo maior e me engavetaram naquele antro estreito e nauseabundo.

Eu bem sabia que não podia me mexer. Os músculos não obedeciam a qualquer comando voluntário. Naquelas circunstâncias, qualquer esforço seria inútil. Deveria, pois, armazenar e conter as energias para empregá-las num momento mais oportuno. Afinal, a duração do estado de torpor era-me perfeitamente conhecida. Ora, qualquer um estaria desesperado naquela situação. Mas eu me mantinha extremamente calmo. Sereno até demais. Sabia que muito brevemente me tirariam dali. Hoje em dia, a identificação dactiloscópica é fácil e segura.
Notei que a gaveta deslizava sob os rolamentos. Puseram-me novamente numa maca e, depois, depositaram o meu corpo rígido sobre uma superfície lisa e fria, provavelmente metálica. Alguém se aproximara de mim. Suspeitei de que o Dr. Símio voltara para me retalhar com a sua destreza de macaco circense. Mas estava enganado. Quem abriu e examinou os meus olhos foi um médico jovem. Um camarada imberbe que transpirava frivolidade naquele olhar impudico. Foi aí que tentei uma reação. Procurei piscar um olho. Eu sabia que o torpor já estava se esvaindo. Por isso, concentrei-me em mover uma das pálpebras, enquanto o Dr. Leviano assoviava e examinava os meus dentes. Mas, quando consegui mexer a pálpebra direita, o médico já estava de costas, decerto procurando por um dos seus instrumentos hediondos.

Dr. Frívolo retornou com um bisturi na destra. Curvou-se sobre o meu corpo pachorrentamente. Ia mergulhar o bisturi no meu peito. Foi quando senti o bem-vindo calor inundar e percorrer todo o meu corpo, trazendo-me um alívio morno e levando consigo toda rigidez. Agora eu sabia que o sol mergulhara definitivamente no horizonte. Meus músculos eram novamente flexíveis. Foi por isso que colhi, em pleno ar, a mão do médico, que descia. Justamente no momento em que o bisturi afiado projetava a sua sombra mortal sobre o meu tórax.

***

A frivolidade dissipou-se instantaneamente do olhar do jovem médico. Agora, o que assomava em suas negras pupilas era o pânico. Era a surpresa, violenta e atroz. Mas o olhar evoluiu para um doloroso esgar quando eu, imprimindo na mão esquerda uma força grotesca, fiz com que o seu pulso estalasse, após um movimento tão rápido quanto brusco. O médico uivou. Mirou atônito o pulso partido e depois me dirigiu os olhos perplexos. Vi uma sombra crescente de horror transbordar os seus olhos quando ele percebeu que os meus dentes agora eram navalhas aguçadas e luzidias. E o terror espalhou-se por sua face encrespada quando avancei para o pescoço, triturando e dilacerando a jugular, donde o sangue viscoso manava em profusas e regulares erupções.

Hoje sou bem mais cauteloso na escolha do antro tenebroso que me serve de refúgio e de descanso, longe das cruzes e de meus perseguidores. Fico feliz ao imaginar o quão quedaram surpresos médicos e policiais ao constatarem que o meu corpo havia desaparecido. E que, sobre a mesa de necropsia, o que se via não era o meu cadáver a esperar pela autópsia, mas o corpo nu de um médico-legista, completamente exangue, e com uma monstruosa laceração no dorso da garganta.

Ilustração: Jaime Vilena García.
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O ENTERRAMENTO PREMATURO - Conto Clássico de Horror - Edgar Allan Poe


O ENTERRAMENTO PREMATURO
Edgar Allan Pöe
(1809 – 1849)

Há assuntos de um interesse cativante mas que, por serem demasiadamente horríveis, correspondem mal às finalidades legítimas da literatura de ficção. O contista puro deve evitá-los, se não quiser provocar a repugnância ou a indignação. Só é conveniente ventilá-los quando a severidade e a imponência da verdade os santificam e amparam. Dessarte, sentimo-nos arrebatados pela mais intensa das "angústias fascinadoras" quando lemos uma descrição da travessia do Beresina[1], do terremoto de Lisboa[2], da peste de Londres, da matança de São Bartolomeu[3], da agonia dos cento e vinte e três prisioneiros sufocados no Buraco Negro de Calcutá[4]. Mas, em semelhantes descrições, é o fato — é a verdade — é a história que impressiona; imaginados, só causariam repulsa.

Acabo de mencionar algumas das calamidades mais conhecidas, as mais augustas que aconteceram; mas, em cada um desses casos, a amplitude atua tão fortemente sobre a imaginação quanto o caráter da desgraça. É inútil lembrar ao leitor que eu teria podido extrair do imenso e lúgubre catálogo das misérias humanas exemplos particulares mais carregados do profundo sofrimento do que qualquer um desses imensos acúmulos de infortúnios. Sim, a verdadeira desdita — a aflição última — é qualquer coisa de individual, que de modo algum se dispersa. E agradeçamos à misericórdia divina pelo fato de os mais atrozes estertores da dor acometerem o homem sozinho e não ao homem como unidade coletiva.

Ser enterrado vivo, certamente, constitui a mais pavorosa contingência a que se possa ver reduzido um habitante deste mundo. Nenhum daqueles que sabem refletir quererá negar que o caso se tem verificado frequentemente, muito frequentemente. As fronteiras entre a vida e a morte permanecem, para nós, obscura e imprecisas. Quem dirá onde acaba uma e começa a outra? Sabemos que existem doenças nas quais todas as funções sensíveis da vitalidade se interrompem totalmente, sem que em tal fato haja outra coisa além daquilo que se chama com propriedade suspensão; paradas temporárias da máquina incompreensível. Decorrido certo tempo, algum princípio misterioso, que não pode ser apreendido, restitui o movimento às engrenagens mágicas e às rodas encantadas. A corda de prata não estava desfeita para sempre, nem o navio de ouro irremediavelmente quebrado; mas, nesse interregno, que acontecerá à alma?

À parte, porém, a conclusão inevitável "a priori", de que a tais causas devem corresponder tais efeitos — de que a ocorrência bem conhecida de semelhantes casos de interrupção de vitalidade deve naturalmente conduzir certas vezes a enterramentos prematuros — à parte isso, digo, temos o testemunho direto de médicos e outras pessoas cujas experiências provam que se tem verificado uma grande quantidade de tais enterramentos. Poderia citar incontinenti, se preciso, cem exemplos autênticos e comprovados. Não faz muito tempo que aconteceu um, muito significativo, não longe daqui, em Baltimore, cujos pormenores talvez estejam presentes à memória de mais de um dos meus leitores. Ele provocou uma impressão dolorosa e intensa, que se espalhou até muito longe. A mulher de um dos cidadãos mais respeitados — jurista eminente e membro do congresso — foi assaltada por súbita e inexplicável doença que desafiou a capacidade de seus médicos. Depois de muito sofrimento, ela morreu, ou foi considerada morta. Ninguém suspeitou, nem tinha razão para suspeitar, que não estivesse de fato morta. O rosto mirrado e emagrecido tomara o aspecto habitual, os lábios, tinham uma palidez de mármore, os olhos estavam embaciados, o corpo frio e o pulso cessara de bater. Passaram três dias sem enterrá-la e manifestou-se uma rigidez de pedra. Numa palavra, as exéquias foram aceleradas por causa do rápido progresso daquilo que foi tomado pela decomposição.

A senhora foi colocada em seu mausoléu de família, que não foi aberto nos três anos seguintes. Ao cabo desse tempo, precisaram abri-lo para colocar um ataúde, mas, que desgraça, que choque tremendo aguardava ao marido, que foi quem  abriu, pessoalmente, a porta: quando os batentes viraram nos gonzos, caiu-lhe nos braços, com um ruído seco, um objeto envolto em branco: era o esqueleto de sua mulher, em sua mortalha que ainda se encontrava em bom estado.


Um exame pormenorizado revelou de maneira insofismável que ela voltara à vida menos de dois dias após seu enterramento; que, ao se debater no esquife, que estava colocado na borda de uma prateleira, fizera-o cair por terra onde ele se despedaçara, libertando-a. Uma lamparina, que havia sido deixada cheia de óleo no interior do sepulcro, foi encontrada vazia mas isso talvez pudesse ser atribuído à evaporação. No degrau mais elevado da escada que conduzia à câmara terrível, encontrava-se um grande pedaço do esquife, com o qual da devia ter-se esforçado por chamar a atenção, batendo com ele na porta de ferro. Enquanto batia, sem dúvida desfalecera ou então morrera realmente de simples pavor; na queda, sua mortalha deve ter ficado presa em alguma saliência da grade. E o corpo, assim sustentado, decompôs-se, sem cair.

Em 1810, verificou-se na França um caso de inumação de pessoa viva, acompanhado de circunstâncias que demonstram perfeitamente a veracidade da afirmativa corrente de que a verdade é mais estranha que qualquer ficção. A heroína da história foi a srta. Vitorina Lafourcade, jovem de família ilustre, rica e de grande beleza. Entre seus numerosos pretendentes encontrava-se Juliano Bossiet, um pobre escritor ou jornalista de Paris. Seus talentos e suas maneiras, sob todos os aspectos simpáticas, tinham chamado a atenção da herdeira que parece tê-lo efetivamente amado; todavia, o orgulho de sua raça levou-a, finalmente te, a rejeitá-lo para desposar certo sr. Renelle, banqueiro e diplomata bastante conhecido. Depois do casamento, ele descuidou-a e talvez a tenha tratado bem mal. Após ter vivido com o marido alguns anos infelizes, ela morreu, ou pelo menos pareceu tão bem morrer, que seu aspecto enganou a todos que a viram. Foi enterrada — não num mausoléu, mas numa sepultura comum, num cemitério de sua aldeia natal. Cheio de desespero e ainda inflamado pela recordação de seu imenso afeto, o apaixonado transporta-se de Paris para a província distante onde se encontra essa aldeia, na intenção romântica de exumar o cadáver e se apoderar de um dos cachos da cabeleira luxuriante. Chega à sepultura; à meia-noite, retira o caixão e abre-o; está entretido em cortar os cabelos que deseja quando abriram-se os olhos da bem-amada. De fato, a moça havia sido enterrada viva. A vitalidade ainda não se havia retirado completamente, e as carícias de seu apaixonado retiraram-na da letargia que lhe infundira a aparência de morta. Ele levou-a, então, com um cuidado frenético, até sua própria habitação na aldeia. Lançou mão de certos fortificantes poderosos que seu grande conhecimento de medicina lhe sugeriu. Para resumir, ela sobreviveu. Reconheceu seu salvador. Ficou com ele todo o tempo necessário para recuperar inteiramente, aos poucos, sua saúde anterior. Seu coração de mulher não era inflexível e essa derradeira prova de amor foi o bastante para comovê-la. Por isso o deu a Bossiet. Não voltou para o marido e, ocultando sua ressurreição, partiu com o amante para a América. Vinte anos mais tarde, os dois regressaram à França, convencidos de que o tempo transformara o aspecto da senhora em questão o suficiente para que seus amigos não a pudessem reconhecer. Mas enganavam-se, porque na primeira vez em que a encontrou, o sr. Renelle reconheceu-a, e reivindicou-a como sua mulher. Ela não concordou e os tribunais homologaram sua resistência, decidindo que as circunstâncias particulares, bem como o tempo decorrido, tinham anulado a autoridade marital, não somente sob o ponto de vista da equidade, como sob o legal.


O “Jornal de Cirurgia” de Leipzig — um jornal de grande merecimento, que constitui autoridade e que devia ser traduzido e republicado por algum editor americano — relata em número recente um tristíssimo acontecimento da mesma espécie.

Um oficial de artilharia, homem de estatura gigantesca e de saúde muito robusta, foi atirado ao chão por um cavalo espantadiço e recebeu na cabeça uma contusão grave que o fez imediatamente perder os sentidos. Ele sofrera uma pequena fratura do crânio, mas não se pensou absolutamente que estivesse em perigo iminente. Fizeram-lhe uma trepanação que teve êxito. Sangraram-no e recorreram a muitos meios de alivio costumeiro. Mas, gradativamente, ele foi caindo num estado de estupor cada vez mais grave e por fim pareceu morrer.

O tempo estava quente e enterraram-no, com uma precipitação imprópria, num dos cemitérios públicos. As exéquias realizaram-se numa quinta-feira. No domingo seguinte houve, como é costume nesse dia, grande afluência ao cemitério. Cerca do meio-dia verificou-se uma perturbação considerável quando um camponês declarou que, estando sentado sobre a sepultura do referido oficial, percebera claramente que a terra se mexia, como se alguém estivesse debatendo-se debaixo dela. A princípio, suas palavras não mereceram grande atenção, mas seu evidente terror, sua insistência teimosa em garantir sua história, acabaram por impressionar a multidão. Foram buscar apressadamente pás, e a sepultura, escandalosamente pouco profunda, logo se encontrou bastante escavada para mostrar a cabeça de seu ocupante. Este parecia de fato morto, mas estava sentado quase por completo no caixão cuja tampa ele conseguira levantar parcialmente, graças a esforços tremendos.

Transportaram-no imediatamente para o hospital mais próximo, onde verificaram que estava vivo, embora em estado de asfixia. Algumas horas depois ele voltou a si, reconheceu as pessoas de suas relações e contou, em frases entrecortadas, as horas de tortura que passara no túmulo.

Sua narrativa revelou que ele permanecera consciente pelo menos uma hora durante a inumação, antes de ficar insensível. A cova fora enchida descuidadamente com uma terra muito porosa e que tinham esquecido de calcar: era inevitável que certa quantidade de ar a atravessasse. Ele ouviu sob sua cabeça o ruído de passos e esforçou-se em se fazer ouvir por sua vez. Foi pelo rumor da multidão, disse, que lhe pareceu despertar de um sono profundo; mal acordou, porém, pôde avaliar todo o horror de sua pavorosa situação.

O paciente, relata-se, estava em bom caminho e parecia disposto a restabelecer-se finalmente por completo; mas sucumbiu vítima do charlatanismo das experiências médicas. Aplicaram-lhe a bateria galvânica e ele expirou de súbito, num dos paroxismos extáticos que essa aplicação às vezes produz.

Lembro-me, contudo, a respeito da bateria galvânica, de um caso muito conhecido, e muito extraordinário, no qual esse aparelho serviu para fazer tornar à vida um jovem advogado de Londres que permanecera enterrado dois dias. O fato ocorreu em 1831 e produziu profunda impressão em todos os lugares onde foi conhecido.

O paciente, sr. Edward Stapleton, morrera, aparentemente, em consequência de tifo acompanhado de sintomas anormais que tinham despertado a curiosidade das pessoas que o tratavam. Quando pareceu morto, pediram aos seus que consentissem numa autópsia, mas eles recusaram. Como muitas vezes acontece diante de semelhantes recusas, os médicos resolveram exumar o corpo para dissecá-lo, com vagar, em segredo. As medidas necessárias foram facilmente tomadas com o auxílio de um desses ladrões de cadáveres que não faltam em Londres; e na terceira noite consecutiva ao enterramento, o suposto cadáver foi retirado de sua sepultura, de oito pés de profundidade, e colocado na sala de autópsia de um hospital particular. Depois de ter sido praticada no abdômen uma incisão bastante grande, o aspecto do corpo — que estava fresco e não revelava nenhum sintoma de decomposição — sugeriu a aplicação da bateria. Sucederam-se as experiências e os efeitos habituais se verificaram sem que coisa alguma os caracterizasse, em particular, a não ser que, numa ou duas ocasiões, as convulsões provocadas lembraram, mais de que costume, as de uma pessoa viva.

A noite ia adiantada, o dia estava prestes a surgir, pelo que se julgou dever realizar a autópsia sem mais detença. Um dos estudantes, contudo, desejava particularmente experimentar uma teoria sua e fez absoluta questão de aplicar a bateria a um dos músculos peitorais. Fizeram uma incisão sumária e aplicaram vivamente o fio. Nisso, o paciente, com um movimento precipitado, mas de modo algum convulsivo, levantou-se da mesa, caminhou até o meio do aposento, lançou de um lado para o outro, durante alguns segundos, olhares perturbados, depois parou. O que ele disse foi incompreensível, mas pronunciou palavras, sílabas perfeitamente audíveis. Depois de ter falado, caiu pesadamente ao chão.

Todos ficaram um momento paralisados pelo terror; mas a gravidade do caso fê-los bem depressa recuperar a presença de espírito.  Compreenderam que o sr. Stapleton estava vivo, embora desmaiado. Fizeram-no respirar éter. Logo ele voltou a si e, depressa, recuperou a saúde, sendo então restituído a seus amigos — que só foram avisados de sua ressurreição depois de afastado todo o receio de recaída. É fácil conceber seu espanto — seu enlevado assombro.

Mas a mais empolgante particularidade do caso reside no que o próprio sr. Stapleton contou. Declarou que em nenhum momento se encontrara em estado de insensibilidade total — que percebera de maneira perturbada e confusa tudo o que lhe acontecia, desde o instante em que os médicos declararam-no "morto" até aquele em que caiu desfalecido no assoalho do hospital. "Estou vivo"— eis as palavras incompreensíveis que, ao reconhecer a câmara de autópsia, ele havia tentado pronunciar no meio de seu pavor.

Seria fácil multiplicar as histórias desse gênero — mas evito fazê-lo, porque na verdade não precisamos disso para demonstrar que se verificam enterramentos prematuros. Se nos lembrarmos quão raras são, pela própria natureza dos casos, as ocasiões de descobri-los, não poderemos deixar de admitir que "muitas vezes" isso pode ocorrer à nossa revelia. E, quando um cemitério sofre uma modificação de alguma importância, encontram-se esqueletos em posições que sugerem as suspeitas mais pavorosas.

Sim, a suspeita é pavorosa — mais pavorosa ainda, porém, é semelhante fim! Pode-se afirmar, sem hesitação, que "nenhum" acontecimento é mais próprio para provocar o supremo infortúnio do corpo e da alma do que ser enterrado em vida! A opressão intolerável dos pulmões, os vapores sufocantes da terra úmida, as mãos que se aferram à mortalha, o amplexo rígido das tábuas, a sombra da noite absoluta, o silêncio igual a um oceano que acabrunha, a presença invisível, mas palpável, do verme conquistador — tudo isto e o pensamento do ar e da relva que estão à superfície, a recordação dos amigos queridos que voariam em nosso socorro se soubessem de nosso destino — e a consciência de que "jamais", saberão desse destino em que nós estamos colocados, sem esperança, entre os verdadeiros mortos —, essas reflexões, digo, provocam no coração que ainda palpita um grau de pavor, de horror inconcebível, que faz recuar a imaginação mais audaciosa. Não sabemos de coisa mais atroz sobre a terra — nem podemos sonhar com coisa alguma que, nas mais recônditas profundezas do inferno, seja tão horripilante quanto essa. E, por tais motivos, qualquer narrativa referente a esse assunto oferece um interesse profundo; mas um interesse que, em consequência do horror sagrado do próprio assunto, depende muito de nossa convicção de que o caso relatado seja verdadeiro. O tenho a dizer é de meu conhecimento próprio — de minha experiência pessoal e positiva.

Há muitos anos eu era sujeito a ataques da estranha perturbação que os médicos concordam em chamar catalepsia, na ausência de uma denominação definitiva. Embora as causas imediatas e as predisponentes e mesmo os diagnósticos permaneçam obscuros, compreende-se de modo satisfatório seu caráter aparente e manifesto.  As variações são principalmente de grau. Às vezes a vítima fica apenas um dia, ou mesmo um lapso de tempo menor imersa numa espécie de letargia exagerada. Está privada de consciência e seu corpo fica imóvel. Mas ainda se podem perceber as débeis pancadas do coração: no centro das faces ainda há um tênue vestígio de- colorido, e, quando se aplica aos lábios um espelho, pode-se descobrir uma atividade entorpecida, irregular, indecisa, dos pulmões Em outros casos de catalepsia, o exame mais meticuloso e as experimentações médicas mais rigorosas não conseguem estabelecer a menor distinção entre os estado do doente e aquilo que consideramos morte absoluta. Geralmente, a vítima só é salva do enterramento prematuro pelo fato de os amigos saberem que ela é sujeita a ataques de catalepsia, pelas dúvidas que isso logo provoca e principalmente pela ausência de decomposição. Por felicidade, a evolução da doença é lenta. As primeiras manifestações nada têm de equívocas. Os acessos tornam-se cada vez mais distintos e cada um deles é sempre mais prolongado que o anterior. É nisto que consiste a principal salvaguarda contra a inumação; o desgraçado, cujo “primeiro" ataque oferecesse esse caráter extremo de que há exemplo, estaria quase que inevitavelmente condenado à sepultura.  Meu próprio caso não diferia grandemente daqueles que os livros de medicina mencionam. Às vezes, sem causa aparente, caía pouco a pouco num estado de meia síncope, ficava meio desmaiado.

E então, sem sofrer, sem poder mexer-me, nem propriamente pensar, mas conservando uma sensação confusa e letárgica de minha existência, e daqueles que rodeavam meu leito, eu ficava assim até que a última fase da enfermidade me fizesse voltar de súbito a uma perfeita consciência de mim mesmo. Outras vezes, eu era acometido rápida e brutalmente. Um mal-estar, um torpor, um frio, uma vertigem me dominava e eu caía de chofre.  Depois, durante semanas inteiras era o vazio, a sombra, a noite: meu universo era o Nada. O aniquilamento total não seria mais absoluto. Eu voltava destes últimos ataques com uma vagarosidade correspondente à subitaneidade de sua chegada. Da mesma forma que o dia nasce para o mendigo sem amigos, sem teto, que vagueia pelas ruas durante noites de inverno lúgubres e intermináveis — também não menos demorada, penosa e alegremente reaparecia para mim a luz da alma.

A não ser minha tendência para essas crises, meu estado geral de saúde parecia bom. E eu não podia absolutamente acreditar que fosse vítima da moléstia predominante — a menos que ela devesse ser considerada como sintoma adicional e caráter particular de meu "sono" cotidiano. De fato, todas as vezes que eu despertava, não podia recuperar completamente a plena posse de meus sentidos e passava muitos minutos extremamente perplexo e perturbado com minhas faculdades mentais de um modo geral, mais particularmente a memória, em estado de absoluta suspensão.

Não havia nenhum sofrimento físico naquilo que eu suportava, mas sim um infinito infortúnio mental. Minha imaginação voltou-se para as coisas macabras. Eu falava de "vermes, de sepulturas, de epitáfios". Perdia-me em devaneios de morte e o pensamento da inumação prematura não se afastava de meu cérebro. O horroroso Perigo que me ameaçava perseguia-me noite e dia. De dia a tortura que meus pensamentos me infligiam era intensa;  de noite, ela alcançava o seu auge. Quando a Sombra medonha cobria a terra, sacudida pelo transcendente horror dessas meditações, eu tremia — como tremem os penachos dos cavalos de um carro funerário. Quando a Natureza não podia suportar por mais tempo a insônia, era só depois de muitos esforços para resistir que eu sucumbia ao sono, porque estremecia ao pensamento de que ao despertar bem poderia encontrar-me instalado numa cova mortuária. E quando por fim coçava a dormitar, era exclusivamente para imergir num mundo de visões sobre as quais pairava vitoriosa, esparzindo a sombra de suas imensas asas negras, a única Ideia de sepulcro.

Das incontáveis imagens de luto que assim vinham me atormentar em meus sonhos, escolho para recordar apenas uma visão solitária. Pareceu-me que eu estava mergulhado num estado cataléptico e mais prolongado que costume. De súbito, uma mão de gelo pousou em minha fronte e uma voz impaciente e inarticulada murmurou em meu ouvido a palavra "Ergue-te!"

Levantei-me. Reinava a mais profunda obscuridade. Eu não podia distinguir aquele que me havia acordado. Impossível lembrar-me do momento em que caíra em catalepsia e do lugar em que me encontrava. Como continuava imóvel, esforçando-me em reunir minhas ideias, a mão gelada agarrou-me com brutalidade o punho, sacudiu-o furiosamente e a voz inarticulada prosseguiu:

— Ergue-te! Não mandei que te erguesses?

 —E quem — perguntei — és tu?

— Não tenho nome nas regiões que habito — replicou a voz em tom lúgubre. — Fui mortal, mas sou demônio. Era implacável, mas sou clemente. Bem sentes que estou tremendo. Enquanto falo, meus dentes batem. Não é, porém, por causa do frio da noite — o frio da noite sem fim. Mas tamanha hediondez é insuportável. Como podes tu dormir tranquilo? O grito dessas grandes desgraças impede-me de repousar. Esses espetáculos excedem o que eu posso suportar. Vem, levanta-te!  Vem comigo para a Noite exterior e deixa-me abrir para ti as sepulturas. Não é esse um espetáculo confrangedor? Olha!

Olhei, e a forma invisível que continuava a me apertar o punho  fizera abrirem-se as sepulturas de toda a raça humana; de cada uma delas saía a débil claridade fosforescente da decomposição, pelo que meu olhar podia penetrar  até os últimos refúgios, neles contemplar os corpos que, envoltos  em suas mortalhas, partilhavam com o verme o  seu último sono. Mas, aí! O número de verdadeiros dormentes era em muitos milhões inferior ao número daqueles que não dormiam E eu distinguia débeis esforços. Por toda parte reinava lamentável inquietação e das profundezas das incontáveis sepulturas subia o melancólico sussurro das mortalhas. E entre aqueles que pareciam repousar tranquilos, vi que havia um grande número que modificara, em gradações mais ou menos apreciáveis, a posição rígida e pouco cômoda em que ficaram quando foram enterrados. E como eu olhava, a voz falou novamente:

— Oh, não é um espetáculo digno de piedade?

Mas antes que eu encontrasse resposta, a forma soltara meu pulso, as luzes fosforescentes se desvaneceram e, com um choque repentino, as sepulturas se fecharam, ao mesmo tempo que delas saía um tumulto de gritos desesperados, que repetiam:


— "Não é — oh, meu Deus!  —um espetáculo digno de piedade?"

Visões que assim que aconteciam de noite prolongavam muito tempo ainda sua influência após meu despertar. Meus nervos ficavam inteiramente à flor da pele e determinavam-me terrores incessantes. Eu hesitava em montar a cavalo, caminhar ou fazer qualquer exercício capaz de me afastar de minha casa. Na realidade, não ousava distanciar-me da presença imediata daqueles que conheciam minhas predisposições para a catalepsia, temeroso de que, vítima de um de meus costumeiros ataques, eu fosse enterrado antes de se terem certificado perfeitamente meu verdadeiro estado.

De modo algum confiava na solicitude, na fidelidade de meus amigos mais queridos. Receava que, durante uma catalepsia excepcionalmente prolongada, eles se deixassem a me considerar perdido. Chegava mesmo a temer que, como eu dava infinitas preocupações, adviesse o dia em que eles aproveitariam jubilosamente o pretexto de um ataque muito demorado como desculpa suficiente para se livrarem definitivamente de mim. Debalde, eles se esforçavam em me tranquilizar com as mais solenes promessas. Eu exigia os juramentos mais sagrados de que eles não me enterrariam, em circunstância alguma, até o momento em que a decomposição de meu corpo estivesse adiantada o bastante para impossibilitar que me conservassem por mais tempo. E, mesmo assim, meus terrores mortais recusavam-se a se deixar convencer e não aceitavam consolação de espécie alguma. Dediquei-me a organizar toda uma série de laboriosas precauções. Entre outras coisas, mandei reformar o mausoléu da família, de forma que se pudesse facilmente abri-lo pelo lado de dentro. À mais leve pressão exercida numa comprida alavanca, que penetrava bastante na sepultura, faria a porta de ferro se abrir. Havia também dispositivos para facilitar a entrada de ar e luz, receptáculos cômodos destinados à alimentação e à água, e colocados bem ao alcance do esquife que me estava destinado. O esquife era quente e maciamente acolchoado, provido de uma tampa construída de acordo com o mesmo princípio da porta do sepulcro, contendo, além disso, molas colocadas de maneira que o menor movimento do corpo bastasse para libertá-la. Para concluir, do teto do túmulo pendia um grande sino preso a uma corda, cuja outra extremidade devia passar por um buraco feito no ataúde e ser presa a uma das mãos do cadáver. Mas — aí! —, que pode a vigilância contra o Destino de um homem? Mesmo essas precauções tão bem arranjadas não foram suficientes para me salvar das angústias do enterrado vivo — a mim, o miserável predestinado a esse suplício.

Houve uma ocasião — como muitas vezes já havia acontecido — em que eu senti passar de uma inconsciência total à primeira sensação, bem fraca e indefinida, de viver. Lentamente — como que a passos de tartaruga — aproximou-se a aurora cinzenta, imperceptível da claridade interior. Torpor e mal-estar. Uma dor surda suportada com apatia. Nenhuma preocupação — nenhuma esperança — nenhum esforço. Depois, em seguida a um demorado intervalo, um zumbido nos ouvidos; após outro intervalo ainda maior, umas picadas nas extremidades; depois, um período aparentemente eterno, de agradável repouso, durante o qual os sentimentos, que estão despertando, procuram tornar-se pensamentos; em seguida, uma rápida recaída no nada; depois, uma volta súbita. Finalmente, o débil tremer de uma pálpebra e imediatamente depois o choque elétrico de um terror mortal e indefinido que expulsa o sangue em torrentes das têmporas para o coração. E, depois, o primeiro esforço positivo para pensar. E, depois, a primeira tentativa de recordar. E, depois, um êxito parcial, fugidio. E, depois, a memória reclama suficientemente posse de seu domínio para que obtenha, em certa medida, consciência de meu estado. Sinto que não estou de modo algum emergindo de um sono normal. Lembro-me de que fui sujeito a crises de catalepsia. E depois, por fim, como que sob o impulso de um acesso, meu espírito que estremece é prostrado pelo único Perigo terrível, pela única, espectral, sempre dominadora Ideia.

Depois de ocorrida essa ideia, ainda permaneci alguns minutos imóvel. E por quê? Eu não podia ordenar à coragem que me mexesse. Não ousava fazer o esforço que devia convencer-me de meu destino — e, contudo, qualquer coisa em meu coração me dizia que "ele era certo". Só o desespero — um desespero como nenhuma outra espécie de desgraça provoca igual — levou-me, após longa hesitação, a abrir minhas pálpebras pesadas. Abri-as. Era noite — noite negra. Eu sabia que o acesso havia passado. Sabia que se desvanecera o efeito de minha enfermidade. Sabia que recuperara o uso de minhas faculdades visuais — e, contudo, era noite — noite negra — a sombra intensa, absoluta, sem piedade, da Noite que não tem fim.

Tentei: urrar; meus lábios, minha língua seca, moviam-se convulsamente para fazê-lo, mas nenhum brado saía de meus pulmões cavernosos que, parecendo subjugados pelo peso de alguma montanha desmoronada, arquejavam e palpitavam, juntamente com o coração, a cada respiração difícil e laboriosa.

Tendo, nessa tentativa de gritar, movido os maxilares, verifiquei que estavam presos, como se faz com os mortos. Senti, também, que estava deitado sobre uma coisa dura e que uma substância análoga me aprisionava em ambos os lados. Ainda não ousara mover nenhum de meus membros — mas, agora, ergui violentamente meus braços, até então estendidos, com as mãos cruzadas. Bateram elas numa superfície de madeira horizontalmente colocada acima de mim, a uma distância de seis polegadas de meu rosto. Não pude abrigar mais a menor dúvida de que repousava finalmente dentro de um caixão.

Então, no seio de minha infinita miséria, apresentou-se em toda a sua doçura o anjo Esperança, porque eu me lembrava de minhas precauções. Contorci-me, fiz esforços espasmódicos para levantar a tampa, mas nada se moveu.  Inutilmente, apalpei meus pulsos em busca da corda. E então, o Consolador fugiu para sempre e um Desespero mais inflexível reinou triunfalmente.  Porque fui forçado a verificar a ausência do acolchoamento tão cuidadosamente preparado por mim — e de súbito me chegou às narinas o cheiro característico da terra úmida.  A conclusão era inevitável: eu não estava no mausoléu. Havia caído em catalepsia fora de minha casa — em casa de estranhos — não podia recordar onde e quando —, e tinham sido eles que me haviam enterrado como um cão — pregado num caixão comum e mergulhado profundamente, profundamente, para sempre, em alguma cova comum, sem nome.

E como essa convicção atroz penetrava até o mais recôndito de minha alma, fiz um novo esforço para gritar a plenos pulmões. E essa segunda tentativa deu resultado. Um grito prolongado, selvagem, ininterrupto, um uivo de agonia soou através do reino da "Noite Subterrânea”.

— Ei! Ei, olhe aqui! — respondeu uma voz rude.

— Que há, que diabo! — disse outra.

— Pare com isso! — disse uma terceira voz.

— Que está acontecendo com você para gritar assim como um lince? — disse uma quarta.

E nisso fui agarrado e sacudido, sem cerimônias, durante muitos minutos, por um bando de indivíduos de aspecto muito grosseiro. Não me acordaram — porque eu estava perfeitamente desperto, quando gritei —, mas me restituíram completamente a memória.

Essa aventura ocorreu em Richmond. Acompanhado por um amigo, eu descera, durante uma caçada, algumas léguas ao longo do rio James. Quando a noite se aproximava, fomos colhidos por uma tempestade. O único abrigo que se nos deparou foi o compartimento de uma pequena balandra que estava ancorada, carregada de húmus. Instalamo-nos e passamos a noite toda a bordo. Dormi num dos dois beliches que era tudo o que a embarcação possuía — e é fácil imaginar o que possam ser os beliches de uma balandra de sessenta ou setenta toneladas.  Aquele que eu ocupava não possuía colchão ou roupa de cama de espécie alguma. Sua largura máxima era de dezoito polegadas e não era maior à distância entre o fundo e o convés sobre o qual ele ficava.  Foi com dificuldade que consegui meter-me nele. Contudo, dormi muito bem e toda a minha visão — porque não foi absolutamente um sonho, um pesadelo — proveio, de maneira muito natural, das circunstâncias de minha posição, dos pendores habituais de meu pensamento — e aquela dificuldade, já mencionada, de reunir minhas ideias — e principalmente de recuperar a memória — durante um período bastante longo, consecutivo ao despertar.  Os homens que me haviam sacudido eram a tripulação, bem como alguns operários contratados para a descarga. O cheiro de terra provinha da própria carga. E a atadura de meu queixo era um lenço de seda que eu prendera em volta da cabeça, na falta de meu costumeiro gorro de dormir.

Apesar de tudo, as torturas que sofri foram indiscutivelmente comparáveis, enquanto duraram, às de um sepultamento verdadeiro. Foram pavorosamente — foram inconcebivelmente horrorosas, mas o Bem se origina do Mal, porque esse próprio excesso provocou em meu espírito uma reação inevitável. Dele, a minha alma saiu tonificada, regenerada. Viajei. Fiz muito exercício. Respirei o ar livre do céu. Pensei em assuntos diferentes da Morte. Pus de lado os meus livros de Medicina. Queimei “Bouchan”. Deixei de ler “Pensamentos Noturnos”[5] — e as parolagens pomposas de cemitérios — bem como histórias tenebrosas como esta. Numa palavra, tornei-me outro homem e vivi a vida de um homem. A partir daquela noite memorável, afugentei para bem longe os meus temores macabros e com eles desapareceram as desordens catalépticas, de que talvez fossem menos a consequência que a própria causa.

Há momentos nos quais, aos olhares da fria Razão, o mundo de nossa pobre Humanidade pode revestir a aparência de um Inferno — mas a imaginação do homem não é, de modo algum, Carathis[6] para explorá-la impunimente até as mais recônditas cavernas.  Ai! A medonha legião dos pavores sepulcrais não pode ser considerada como inteiramente imaginária — mas, da mesma forma que os Demônios em cuja companha Afrasiab[7] efetuou sua viagem de descida do Óxus, eles devem dormir, porque senão nos devorarão — é preciso deixá-los repousar, ou perecer.


Tradução de autor desconhecido.
Fonte: “Fon-Fon”, edição de 4 de junho de 1949.


[1] O autor refere-se à grande perda sofrida pelo exército de Napoleão Bonaparte ao cruzar, durante a sua retirada da Rússia, em 1812, o rio Berezina, situado na Bielorrússia.
[2] Refere-se Pöe ao catastrófico terremoto ocorrido em Lisboa na manhã de 1º de novembro de 1755.
[3] Onda de violência que, em 1572, vitimou, na França, entre 5.000 e 30.000 huguenotes (protestantes franceses), em sequência a uma onda de violência propagada, a partir de Paris, pelos católicos, na noite de São Bartolomeu (24 de agosto).
[4] Claustrofóbica masmorra onde as tropas indianas detinham prisioneiros de guerra britânicos em 1756. Nela confinadas, mais de cem pessoas morreram de asfixia e calor.
[5] Poema que versa sobre a vida, a morte e a imortalidade escrita pelo poeta inglês Edward Young em 1742.
[6] Personagem de “The History of the Caliph Vathek” ("A História do Califa Vathek"), um romance gótico, escrito em francês (sob o título “Vathek”), em 1782, pelo escritor inglês William Thomas Beckford, talvez em colaboração com o autor frencês Louis-Sébastien Mercier.
[7] Personagem do poema épico persa “Shahnama” (Epopeia dos Reis), escrito por volta do ano 1.000 d.C.

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