A ALMA DO OUTRO MUNDO - Narrativa Verídica - Anônimo do séc. XIX


A ALMA DO OUTRO MUNDO
Anônimo do séc. XIX


Lemos no Jornal do Comércio do Rio:

“Isto, que talvez pareça a muitos uma fantasia, é um fato real, sucedido há bem pouco tempo.

Vinha raiando o dia: a manhã era fresca, o tempo sereno.

Pela estrada do Barreto, em Niterói, ia seguindo, a trote largo, na sua carrocinha, um empregado de padaria, encarregado da distribuição do pão a vários fregueses moradores além do cemitério de Maruí.

Habituado a esse trajeto matutino, o bom rapaz nem se dava por achado com os contínuos solavancos de seu veículo, e, como se estivesse reclinado no mais macio de todo os coxins do Oriente, dava largas à imaginação, e ia com seus castelos no ar prelibando o favo de mel de uma vida toda de abastança, que sonhava passar quando chegasse a ser o que mais pode ambicionar um entregador de pão, quando chegasse a ser dono de uma padaria...

Quantos planos! Que futuro tão dourado pela fagueira esperança!

De repente, soou-lhe aos ouvidos uma pergunta, feita em voz um tanto rouca:

— Ó, meu amigo, que horas são?

Arrancado tão bruscamente de sua profunda meditação, o empregado da padaria voltou o rosto para o lado de onde vinha a voz, viu que ia assando na frente do cemitério, e sentiu um calafrio correr-lhe pela espinha dorsal.

— Ó, meu amigo, que horas são? — tornou a dizer a voz.

E o vendedor de pão, verificando no relancear de olhos que esta pergunta lhe era dirigida por um lívido indivíduo, que ia saindo de uma sepultura, deu um grito de terror, saltou da carrocinha e deitou a correr como um perdido até a casa do patrão, onde chegou mais morto que vivo.

A alma do outro mundo era um indivíduo dado à embriaguez, residente em Niterói, que, na tardinha do dia anterior, fora levado ao cemitério pela excitação do álcool. Ali, deitara-se na borda de um carneiro vazio, adormecera sem que ninguém se apercebesse disso, e, durante o sono, caíra dentro duma cova, onde continuou a dormir até o alvorecer.

Então, já livre dos vapores do álcool, mas ainda sem consciência de si, despertara e ia saindo da ‘cama’, quando viu o empregado da padaria, e lhe perguntou que horas eram.

E, segundo parece, o homem da carrocinha nunca mais tornou a passar por ali, com medo do ressuscitado.”


Fonte: “Jornal do Recife”, edição de 6 de dezembro de 1877. Fizeram-se breves adaptações textuais. 




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O ABUTRE - Conto Clássico - Conto Fantástico - Marc Donat



O ABUTRE
Marc Donat


Empalhador-naturalista, Edme Forgeot possuía numa lojinha dos recantos mais afastados do Quartier Latin, por baixo de um pardieiro enviesado, que parecia oscilar ao peso de tantos séculos e tantas imundícies.

Encimando a loja, lia-se esta palavra esquisita:

EMPAL...

O resto fora devorado pela poeira ácida de Paris. Sobre a porta ostentavam-se o nome e prenome do comerciante, seguidos dessa orgulhosa menção: “Medalha de ouro nas exposições”.

Edme Forgeot era um homenzinho calvo, escanhoado como um ator, usando óculos, ativo, gabando-se de literato.

Vivia sozinho, tendo apenas um auxiliar a quem recorria o menos possível, e ocupava, por cima de seu armazém, três aposentos sórdidos, úmidos como adegas, tresandando a mofo.

Houve tempo em que trabalhava peças magníficas, das quais conservava ainda alguns espécimes. Mas, agora, a sua clientela se achava quase reduzida a certas senhoras do bairro, que lhe vinham, lacrimosas, empalhar Doucette ou Kiki. Eram raras as boas encomendas, quase sempre de fregueses em trânsito, seduzidos pelo esplendor decorativo de um esquilo, pousado num galho, a tasquinhar uma noz, ou pelas pontas ameaçadoras de uma cabeça de veado presa a um escudo de carvalho.

A juízo da vizinhança, Fergeot era um maníaco. Acusavam-no de ser pouco comunicativo e também de ter olhares estranhos, esgueirando-se por trás dos óculos, que os protegiam. Censuravam-no, ainda, por não possuir um terno adequado aos passeios de domingo, bem como por não ter amigos ou parentes conhecidos.

Preparava ele mesmo a sua comida, nos fundos da loja — alguns ovos no prato e beefsteak que ele comia só, às pressas, para voltar logo ao trabalho. Dedicava-se ao seu ofício como os artistas da antiguidade se consagravam ao seu. Nenhum o excedia nessa atitude de vida, que ele procurava imprimir aos animais que empalhava, e ninguém duvidaria que ele chegasse a fazer grande fortuna se consentisse em abandonar o seu buraco de ratos para se estabelecer num bairro melhor.

Edme Forget, porém, era agarrado à sua velha loja e aos seus velhos aposentos. Quando saía, a fazer a sua provisão de leite e carne, piscava os olhos como um animal noturno à claridade do sol. E muitas vezes se revelava mau comerciante, recusando entregar, mesmo a peso de ouro, certas peças, a que ele se afeiçoava, como, por exemplo, adoráveis borboletas, que ele recebia de toda parte do mundo, e das quais se acercava, deliciando-se com o seu fulgor, para que a irradiação de suas asas lhe iluminassem o recanto escuso.

Forgeot era poeta. Quantas vezes, à noite, vendo a sua lâmpada acesa, diziam: “Lá está o velho usurário contando o seu ouro”. Edme Foreot alinhava as suas rimas para si, unicamente. Evocava primaveras mortas, que irrompiam da sua memória, primaveras de ouro e de perfumes, em que era moço, e que estava certo de vir a ser um suposto feiticeiro agachado em seu fúnebre covil.

Quais poderiam ter sido as desilusões, mesmo as catástrofes da sua vida? Ninguém as conhecia e ele próprio, talvez, delas não se recordasse com precisão. Desde que época manipulava cadáveres de bichos? Teria existido algum tempo em que lhe fosse dado o prazer de vê-los vivos? Os cães afastavam-se de sua morada, de onde exalavam odores fenicados, e o cavalo dum coche, conta-se, que estacionara à sua porta, fora presa de tal pânico que disparou pela entrada duma drogaria, partindo as vitrines e ferindo o caixeiro.

O naturalista não gozava da simpatia de seus patrícios, cheios de desprezo por esse homem que não lia sequer um jornal, mostrava-se dócil, tímido e reservado, evitava conversas e, na opinião geral, era mais empalhado que a sua própria mercadoria.

Ainda existem, na imensa Paris efervescente, criaturas assim. Forgeot, que contava apenas cinquenta anos, parecia ter sessenta. Trancava-se para o mundo com um rigor singular e vivia, em suma, feliz, entre o seu trabalho, que o apaixonava, e a poesia, que lhe servia de passatempo.

Ora, uma noite pareceu-lhe ouvir barulho na loja. Ele havia colocado na porta uma campainha que deveria avisá-lo no caso de ladrões tentarem foçar a fechadura. A campainha não soara, mas, apurando o ouvido, no meio do silêncio absoluto, pôde perceber algo como um cochicho, um ruído quase imperceptível de passos miúdos e apressados.
Forgeot enfiou as calças, tomou o revólver e desceu. Nada. Torou a subir e deitou-se, pensando que nessas casas vetustas rumores assim não eram de assustar. Mesmo assim, teve um pesadelo.

Passou-se um mês quando, novamente, foi Forgeot despertado, alta noite, por uma espécie de tumulto abafado que vinha da loja. “Vejamos — disse consigo. — Estarei agora tendo alucinações?”


Quis forçar o sono. Não conseguiu. Desceu, revistou tudo e nada viu de anormal. Subiu de novo.

No dia seguinte, recomeçaram os rumores. Então, para a tranquilidade do seu coração, o naturalista resolveu passar a dormir no seu armazém, em cima de um colchão.

No outro dia, os postigos fechados, Forgeot instalou-se bem no centro da sala. Despiu-se, deitou-se e apagou a lâmpada, não sem primeiro ter lido algumas páginas de um alfarrábio, como era o seu costume.

Eram onze e meia e ainda não havia podido conciliar o sono. Impressionava-o achar-se a uma ora tão imprópria naquele meio, aliás familiar. E, conquanto houvesse desaprendido a rir desde muito, pôs-se a sorrir. Que terror pueril, na sua idade, e com a vida que levava! À força de vontade, conseguiu adormecer.

As doze pancadas da meia-noite vieram tirá-lo da sua modorra. “Tenho vontade — pensou — de tornar a subir. O assoalho é duro, apesar do colchão, e aqui ficarei incomodado.”

Nisto, ouviu, ao seu lado, bem junto a si, algo como a fuga de um pequeno corpo lesto. “Bem, é só um ratinho!” Depois, foi um voo, um voo pesado de asas felpudas. “Agora, é um moscardo!” Levantou-se, acendeu a lâmpada e não viu nada. Mas o bater de asas continuou, roçando-o. E foi tão forte o sopro que apagou a luz.

Então, de todos os cantos da loja, partiram sussurros...

Ali pregado de pavor, Forgeot ofegava... Reconhecia-os todos: era o voo estonteado das borboletas, o andar cauteloso da raposa, o mudo colear dos gatos, a escalada fulgurante dos esquilos. Todos os animais da loja ressuscitavam. Eles não lhe queriam mal, não; ainda não. Saíam de seu entorpecimento, tomavam consciência de sua força, readquiriam a sua alma feroz ou manhosa, agressiva ou tímida. Os olhos dos veados reviviam nas cabeças sem corpo e deixavam cair lágrimas. Um javali abria a goela terrível, por onde vomitava sangue. Uma doninha arrastava o seu trem paralisado. Nada de feras, feras propriamente ditas. Apenas um abutre enorme se via suspenso do teto. Esse permanecia imóvel. Forgeot ergueu para ele um olhar de ansiedade. Fora ele quem o empalhara, quem lhe enchera o ventre de papéis, entre os quais havia até poemas seus! E, apesar de todo o barulho que o cercava, a despeito dessas palpitações de asas, dessas fugas de corpos dóceis e selvagens, ele, na verdade, só tinha olhos para o abutre. Ah, se ele pudesse se mexer, estaria tudo acabado! “Vejamos. Talvez fosse melhor tentar sair.” E Forgeot fez esforços... mas uma paralisia fixou-o no lugar. E rolou sobre o colchão. Quis gritar. Mas, no momento em que abria a boca, viu duas grandes asas negras que se moviam. Não pôde articular um som; olhou, tão somente. As patas do abutre se crisparam. Suas asas estremeceram fortemente, agitaram-se com mais força ainda, até baterem no teto. O naturalista soltou um grito de horror, um pobre grito de agonia — tão fraco — e o abutre veio cair-lhe em cheio sobre o peito.

Forgeot calou-se, então, para sempre.

No dia seguinte, publicavam os jornais esta notícia:

“Fala-se na morte misteriosa de um naturalista-empalhador de nome Forgeot.

Esse ancião, que, segundo se afirma no bairro onde morava, possuía conduta equívoca, foi achado sem vida sobre um colchão, na sua loja, com a fisionomia crispada, numa expressão de terror indizível.

Nada faz supor, entretanto, que se trate de um crime, já que tudo foi encontrado intacto no seu estabelecimento.

Um abutre empalhado, caído do teto, sem dúvida por estar podre o barbante que o sustinha, repousava sobre o peito de Forgeot.

A polícia procede a averiguações.”


Fonte: "A Província" (PE), edição de 8 de outubro de 1911.
Tradução de autor não creditado.



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A ROSA MORTAL - Narrativa Clássica de Horror - Narrativa Verídica - Anônimo Francês do Séc. XIX


A ROSA MORTAL
Anônimo do século XIX
Tradução de autor desconhecido do mesmo século


Lê-se num jornal de Nantes:

A senhorita Amélia I… residia numa pequena casa de campo.

Apaixonada pelas flores, como todas as pessoas de sua idade, pois tinha 19 anos, possuía um jardim onde não cessava de fazer ramalhetes.

Um dia, na forma de seu costume, foi ao jardim, onde o seu primeiro movimento foi colher uma rosa para pôr na cabeça, não deixando de cheirá-la primeiro.

Seja porque a aspiração tenha sido muito forte, seja porque aproximou demais a rosa do nariz, Amélia sentiu uma espécie de titilação que, infelizmente para ela, não foi suficientemente forte para fazê-la espirrar. Segundo a declaração do Dr. T. I…, seu tio, um espirro lhe teria salvado a vida.

O fato é que ela não fez caso do sucedido. Todavia, alguns dias depois, passou a queixar-se de uma violenta dor de cabeça.

Começou a não poder dormir, sofrendo dores atrozes.

Muitos médicos foram chamados, dizendo uns que era uma congestão cerebral e outros um derramamento no cérebro.

Assim se passaram seis meses em cuidados inúteis da parte da família e de sofrimento da parte da infeliz jovem que, no fim dos seis meses, perdeu o juízo.

Foi preciso forrar as paredes e pavimentos de seu quarto com colchões, porque ela, em seu desespero, queria quebrar a cabeça.

Até mesmo a sua cama foi retirada, pois, com ela, a moça poderia realizar o seu funesto desígnio.

Ao final, morreu.

O seu tio pediu e obteve autorização de seu irmão para fazer a autópsia.

Abrindo-se a cabeça, observaram-se algumas alterações, mas nada oferecia os sinais característicos da doença que os médicos diziam ter ser sido a causa da morte de Amélia.

Quebrou-se o crânio!


Um grito de horror escapou de todas as bocas.

O mistério tão procurado, o mistério que acabara de enlutar a família, estava ali… Vivo, andando e fugindo!

E o que era?

Era uma aranha gorda, toda negra, coberta de sangue e tendo ainda nas pernas restos dos miolos, alimento de que se nutrira desde que penetrara na cabeça da infeliz jovem, no dia fatal em que esta aspirou a rosa que lhe devia causar a morte!"


Fonte: "Publicador Maranhense", edição de 30 de abril de 1864. Fizeram-se adaptações textuais








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O HOMEM MORTO - Conto Clássico de Terror - Leopoldo Lugones



O HOMEM MORTO
Leopoldo Lugones
 (1874 – 1838)
Tradução de Paulo Soriano


A aldeota em que paramos com os nossos carros, após um demorado trabalho de agrimensura em áreas despovoadas, contava com um estranho homem louco, cuja demência consistia em acreditar-se morto.
Ali chegara há vários meses, sem querer dizer de onde viera, e pedindo encarecidamente que o considerassem defunto.
Não é preciso dizer que ninguém pôde satisfazer ao seu desejo. E por mais que muitos, ante o seu desespero, simulassem tratar com um homem morto, tal não fazia senão multiplicar os seus padecimentos. 
Ele não deixou de se apresentar a nós assim que chegamos para implorar-nos, com uma desolada resignação, que realmente nos causava dó, que acreditássemos naquela impossibilidade. Assim fazia ele com os viajantes que, de tempos em tempos, passavam pelo lugarejo.
Era um tipo extraordinariamente magro, de barba amarelada, envolto em andrajos: um demente qualquer. Mas o agrimensor seduziu-se pelo alienismo e não desperdiçou a ocasião de interrogar o curioso personagem. Este se deu conta, ato contínuo, daquilo a que o meu amigo se propunha, e abreviou preâmbulos com uma clareza de expressão que, por todos os conceitos, contrastava com o seu visível estado de espírito. 
Mas eu não sou louco – disse com uma notável calma, que mal escondia, não obstante, o seu doloroso pessimismo. – Eu não sou louco e estou morto, efetivamente, há trinta anos. Claro. Para que morri?
Meu amigo deu-me uma piscadela dissimulada. Aquilo prometia.
Sou nativo de tal lugar, chamo-me fulano de tal, tenho família lá em...
(De minha parte, omito estas referências, pois não quero constranger pessoas viventes e próximas.)
Padecia de desmaios tão semelhantes à morte que, depois de sobressaltar as pessoas até o espanto, ultimaram por infundir em todos a convicção de que eu não morreria disto. Alguns doutores ratificaram tal opinião com toda a sua ciência. Parece que eu tinha a solitária.
Certa feita, contudo, após um desses desmaios, sucumbi. E aqui começa a história de meu tormento, de minha loucura. 
A incredulidade unânime quanto à minha morte não me deixava morrer. Perante a natureza, eu estava e estou morto. Mas, para que isto seja humanamente real, faz-se necessário uma vontade que o permita. Apenas uma. 
Voltei de meu desmaio pelo hábito material de voltar. Mas como ser pensante, como ente, eu não existo. E não há língua humana que consiga descrever esta tortura. A sede do nada é uma coisa horrível.”
Dizia isto com naturalidade, num tom de veracidade que dava medo. 
A sede do nada! E o pior é que não posso dormir. Trinta anos acordado. Trinta anos de eterna presença ante as coisas e ante meu não ser. 
Na aldeia, já se sabia de tudo isto de cor. Tornaram-se triviais as suas reiteradas tentativas de obrigar as pessoas a acreditarem na sua morte. Tinha ele o costume de dormir entre quatro velas. Passava longa horas imóvel no meio do campo, com o rosto coberto de terra.
Tais narrativas interessaram-nos extremamente. Mas quando nos dispúnhamos a metodizar nossa observação, sobreveio um desenlace inesperado. 
Dois peões, que deviam nos alcançar naquele local, chegaram na noite do terceiro dia com várias mulas que haviam ficado para trás. 
Não percebemos a sua chegada, adormecido que estávamos, quando de repente fomos despertados pelos seus gritos. 
O louco dormia na cozinha de nosso albergue, ou aparentava dormir ente suas velas habituais – a única esmola que aceitara de nós.
 Não chegava a dois metros a distância entre a porta onde se detiveram os peões, coibidos por aquele espetáculo, e o homem que simulava o sono. Um cobertor cobria-o até o peito. Seus pés despontavam na outra extremidade.
Um morto! – balbuciaram quase ao mesmo tempo. Acreditavam-no realmente morto. 
Ouviram algo parecido com um sopro amortecido de um odre que se desinfla. O cobertor se aplanou como se nada houvesse sob ele, ao passo em que as partes visíveis – cabeça e pés – convolaram-se bruscamente em esqueleto.
O grito que lançaram nos pôs em dois saltos diante do colchão de palha.
Tiramos o cobertor com um arrepio mortal.
Ali, entre os farrapos, repousavam, sem o mínimo resquício de umidade, sem a mínima partícula de carne, ossos velhíssimos, aos quais aderia uma pele ressecada. 



Ilustrção: Samo
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DR. LUZ - Conto de Terror - Roberto Landulfo




DR. LUZ
Roberto Landulfo

Eu cheguei uma hora adiantado no consultório médico. Naquele dia o trânsito estava, estranhamente, fluindo bem na cidade.
Para não ficar sentado na sala de espera, lendo revistas antigas, resolvi tomar algo no bar em frente ao consultório.
— Por favor, uma dose de conhaque.
Teria que tomá-lo devagar, pois seria só uma dose, afinal não poderia ir à consulta, “alto”.
O tempo demorava a passar e a comecei a sentir aquela tontura diária, motivo da minha visita ao médico.
— O Sr. não quer comer algo? Perguntou-me o balconista.
— Não, obrigado.
Suguei a última gota do copo, paguei a conta e atravessei a rua.
Entrei no prédio, peguei o elevador, 10º andar, sala 85, clínico geral.
Na recepção uma moça com não mais de 25 anos me atendeu.
— Boa tarde. Tenho uma consulta às 18 horas.
— Por favor, carteirinha do convênio e Rg.
Entreguei tudo o que me foi pedido e fiquei aguardando na sala de espera.
Além de mim um senhor, já com seus 70 anos, estava sentado na minha frente, de pernas cruzadas, resolvendo, pelo que percebi, palavras-cruzadas.
—Boa tarde.
Não obtive resposta. Aliás, minha presença sequer foi percebida por ele.
Pus-me a observar o local. Como imaginei, uma mesa de canto detinha uma série de revistas antigas já gastas e amassadas pelo uso.
—País africano...sete letras. Primeira letra, A.
Olhei para o idoso e ele me fitava.
— O Sr sabe?
Lembrei-me do jogo WAR, motivo de muitas desavenças na adolescência.
— Argélia? Respondi.
— Espere um pouco...isso!
A recepcionista o chama.
—Sr. Ataíde, seu pedido de exames está pronto.
O idoso se levantou e passou do meu lado comentando e sorrindo:
— Quem diria, Argélia!
Pegou o seu pedido e foi-se embora ainda lendo as palavras-cruzadas.
Eu fiquei sozinho na sala de espera. Após cinco minutos a recepcionista me chama:
—Sr. Paulo, pode entrar. O Dr. Caio vai atendê-lo.
Levantei-me e segui o trajeto até o consultório. Sentei-me em uma das duas poltronas de veludo vermelho em frente à mesa do médico. Ouvia-se música clássica em volume bem discreto.
Senti novamente aquela tontura e uma pontada no lado direito do abdômen. Neste momento escutei uma descarga de vaso sanitário e após alguns segundos o barulho de água corrente. Uma porta se abre e um senhor de cabelos grisalhos sorriu para mim.
— Boa tarde. Esperou muito tempo?
—Cheguei muito cedo...rs.
—E nesse período, tomou quantas doses? — Sentando-se na cadeira.
— Como sabe que bebi? Perguntei intrigado.
—O odor que vem de você o denuncia...
Discretamente tentei sentir esse odor em mim.
—Ha quanto tempo você bebe, Paulo?
—Desde os quinze anos.
—O que anda sentindo?
—Náuseas, tontura, emagreci bastante e uma dor do lado direito, aqui...
Ele fez um comentário que eu ainda não notara em mim.
—Já percebeu que os seus olhos estão levemente amarelados? Você sabia que provavelmente está com cirrose?
—O que é isso?
—Seu fígado está doente por causa dos anos de alcoolismo. Vamos ver a extensão dos danos com um ultrassom e exames complementares.
—Isso tem cura?
—Talvez. Deite na maca e levante a camisa.
Ele ligou o aparelho de ultrassom e me examinou.
Suspirando, pediu-me para levantar.
—A imagem dele não está nada boa. Vou encaminhá-lo para um especialista de minha confiança e gostaria que você o visse o quanto antes.
— Corro risco de morte, Dr.?
—Não posso afirmar isso. Este é o cartão dele. Procure-o ainda esta semana. Vou passar o seu caso e faça os exames.
Peguei o cartão sem olhar o seu conteúdo e coloquei-o no bolso da camisa.
Fui para casa pensando no que eu tinha feito, comigo mesmo, durante todos esses anos.
Entrei no meu apartamento e como de costume fui direto ao bar preparar uma bebida.
Quando ia tomá-la, parei por alguns segundos. Tirei o cartão do médico do bolso e li: “Dr. Lúcio Fernandez Luz” – Médico.
Sentei-me no braço do sofá e pelo celular liguei para o telefone do cartão.
— Clínica Luz, boa noite.
— Eu quero marcar uma consulta com o Dr. Lúcio, por favor. Quem me encaminhou foi o Dr. Caio.
—Ah, sim, temos hora para amanhã às 23 horas.
— Nossa, tão tarde?
—São muitos pacientes, Sr.
—Ok, Vocês aceitam convênio?
— Os pacientes encaminhados pelo Dr. Caio não é cobrada a consulta.
— Sério?!Ok, então amanhã às 23 horas.
Desliguei o telefone e empunhei a bebida. No final da terceira dose, pensei em comer algo. Fui até a geladeira e, após uma rápida olhadela, nada me atraiu. Fui dormir.
No dia seguinte, no escritório, senti enjoo e novamente pontadas no fígado.
—Paulo, está tudo bem? Faz tempo que noto que você anda abatido.
Quem perguntava era Sérgio o meu colega mais antigo de trabalho.
— Parece que tenho um probleminha no fígado. Vou ao médico hoje.
—Você bebe muito. Já te alertei sobre isso.
No final do expediente juntei minhas coisas e resolvi fazer hora pela rua até o horário da consulta. Jantei em um bar, observando o movimento da avenida perto do prédio onde eu trabalhava.
Às 22 horas paguei a conta e fui ao estacionamento buscar o meu carro.
Cheguei ao consultório com quinze minutos de antecedência.
A recepcionista extremamente sorridente me deu as boas vindas.
—Boa noite, Sr. Paulo. Fique à vontade que o Dr. Lúcio já vai lhe atender. Aproveite para tomar um café ou chá.
O consultório do Dr. Lúcio era muito mais sofisticado que o anterior. Poltronas de couro preto, quadros espalhados por uma vasta sala de espera, uma enorme TV de LCD sintonizada, naquele momento, em um programa religioso.
Sentei-me e peguei uma revista, pasmem, atual. Porém, não tive muito tempo para folheá-la.
-Pode entrar, Sr. Paulo.
Ao entrar na sala de consulta, um jovem, esbelto, de jaleco e gravata me recebeu com um vasto sorriso.
—Olá, Paulo, muito prazer! O Caio me ligou e explicou o seu problema. Sente-se.
Sentei-me em uma poltrona defronte a uma escrivaninha de madeira, toda entalhada. Sobre ela apenas um notebook.
—Tenho salvação Dr.?
—Você quer ser salvo?
—Sim.
— Ótimo escutar isso! Parece que o vício do álcool estragou bem a sua saúde. Os seus sintomas são típicos de cirrose hepática. Mas acho que podemos reverter isso.
Ele olhou o Ultrassom e enquanto lia o laudo eu perguntei:
—O que tenho que fazer?
Devolveu-me o exame e respondeu:
—Existe um tratamento, desenvolvido por mim, simples, sem dor ou efeitos colaterais, porém exige dedicação e disciplina ao extremo sem questionamentos. Será pelo resto da sua vida. Vários pacientes já o usaram satisfatoriamente e os resultados positivos já aparecem na primeira semana.
—Estou disposto e pronto para isso. Acho que não tenho muitas opções.
—Ótimo! Primeiro vou lhe explicar detalhadamente o que deverá fazer a partir de amanhã e aí sim você vai me confirmar a sua aceitação mediante a assinatura de um contrato de prestação de serviços.
— Sou todo ouvido, Dr. Ah, e esses exames complementares?
—Não serão necessários e não mudarão a minha conduta. Uma equipe minha irá até a sua casa ainda hoje e instalará em um dos cômodos um dispositivo desenvolvido por mim que liberará, diariamente às 03h15min, um comprimido que deverá ser ingerido com um copo de água. A partir do momento que você tomar o primeiro, não poderá parar mais.
Fiquei alguns segundos perplexo com esse tratamento, mas pedi para continuar.
—O tratamento não pode ser interrompido de forma nenhuma. Qualquer comprimido que não seja tomado exatamente após liberado, às 03h15min, se deteriorará imediatamente e não poderá ser reposto. O tratamento se perde, mesmo que isso aconteça daqui 5 ou 10 anos. A notícia boa é que você não precisa parar de beber.
—Sério? Dr., esse dispositivo é móvel? Posso viajar e levá-lo comigo?
—Infelizmente não. Ele será devidamente fixado na parede do cômodo e não poderá ser movido depois de acionado. Ele é extremamente delicado e suscetível a erros por movimentos. Aliás, nem mudar de residência você poderá.
—Estou meio confuso. Serei prisioneiro do dispositivo?
-Ora Paulo! Antes um prisioneiro condenado à prisão perpétua do que a morte. Então, está de acordo com as condições?
-Só mais uma pergunta. Qual o custo disso?
—Me pagará no devido tempo, após o resultado final.
Então, ele tirou uma pasta debaixo da sua mesa e pegou o contrato já devidamente elaborado.
—É esse o contrato?
—Sim, pode lê-lo.
—Melhor resolvermos isso logo. Tem uma caneta?
Fui até a última página do contrato e assinei-o.
—Excelente decisão Paulo! Parabéns!
Ele olhava para o contrato assinado como uma criança olha para um doce.
—Agora vá para casa e aguarde.
Ao chegar em casa, na porta do prédio, vi duas pessoas de macacão branco, com uma caixa de papelão não maior que um forno de micro-ondas.
—Sr. Paulo?
—Pois não? — respondi receoso.
—Viemos instalar o dispositivo da clínica Luz.
—Mas agora? E o barulho? Esta tarde...
—A instalação não fará barulho algum. Fique tranquilo.
Subimos para o meu apartamento e fomos para a cozinha, lugar onde eles acharam mais apropriado para instalação.
Abriram a caixa e dentro de um invólucro de isopor, tiraram um cubo branco, metálico, com uns 30 cm de altura e largura. Na frente um relógio digital, já funcionando. Logo abaixo do mostrador, duas luzes, uma vermelha e outra verde. Abaixo destas luzes um orifício por onde provavelmente sairia o comprimido e cairia num recipiente de plástico transparente. Em um dos lados do cubo uma entrada para uma chave. O cubo era hermeticamente fechado. Não tinha acesso por nenhum dos lados.
Fixaram o mesmo na parede através de fitas dupla face. Um dos rapazes sacou do bolso uma chave e girou-a na lateral do cubo. A luz verde se acendeu.
—Pronto, Sr. Paulo. Está tudo em ordem. Boa noite.
Fiquei observando aquele dispositivo por algum tempo e decidi tomar um trago até a primeira dose do remédio. Afinal eu estava liberado para beber!
Assisti TV acompanhado do meu uísque, durante mais duas horas, quando escutei um sinal sonoro vindo da cozinha.
Meio tonto por conta da bebida fui para a cozinha e a luz verde piscava. Olhei mais de perto e vi um comprimido dentro do recipiente plástico. Peguei o comprimido que mais parecia uma aspirina e tomei-o com um gole de água.
Às 03h16min a luz verde parou de piscar e ficou fixa.
Fui dormir.
Às 07h30min levantei-me e pela primeira vez, em muitos meses, acordei faminto.
A caminho da repartição parei no bar de costume e tomei meu conhaque matinal com um belíssimo misto quente. Pedi outro para viagem.
Na repartição, as 10horas, comi o segundo misto quente e ao meio dia fui almoçar em uma churrascaria.
Com o passar das semanas eu ganhei 8 quilos e as tonturas e dores passaram. Eu, também, estava bebendo mais. Muito mais. As minhas saídas noturnas tinham se tornado diárias, mas sempre colocava o despertador do relógio de pulso para não esquecer do comprimido.
Certa vez, por acaso, eu não havia saído de casa devido a uma tempestade de verão. Fiquei assistindo TV e dormi na poltrona. O meu relógio tocou às 2h45 min., levantei e tomei uma cerveja sentado em um banquinho na cozinha, em frente ao dispositivo, observando o dispositivo e esperando o tempo restante.
Quando o digital marcou 03h05min, a luz verde apagou e se acendeu a vermelha, piscante. Eu sabia que algo estava errado, mas não sabia o que era. E se o comprimido não saísse? Dei umas leves batidas no dispositivo, mas não adiantou. As 03h10min eu estava desesperado. Nisso o interfone toca. Atendi, o de olhos fixos na luz vermelha.
—Sr Paulo, somos da clínica do Dr. Luz. Viemos fazer a manutenção do dispositivo.
—Subam, agora!.
Deixei a porta aberta. Não havia tempo a perder, já eram 03h12min.
—Boa noite, Sr. Paulo. Com licença.
Eram os mesmos dois que tinham vindo à primeira vez. Adentraram a cozinha e de dentro de uma mochila retiraram uma caixinha preta com uma antena. Colocaram essa caixa em cima do dispositivo e neste momento uma luz vermelha também se acendeu na caixinha. Os dois apenas observavam, e eu olhava aflito o relógio: 03h14min.
Alguns segundos antes das 03h15min a luz vermelha da caixinha preta apagou e acendeu uma verde. Logo em seguida o dispositivo fez a mesma coisa e alguns segundos depois exatamente às 03h15min o dispositivo liberou o comprimido. Tomei-o rapidamente.
Ao virar-me para agradecer, os dois já não estavam mais ali. Fiquei pensando como eles sabiam do problema ocorrido e chegaram tão rápido. Mas lembrando das recomendações do Dr. Lúcio, nada de perguntas.
Uma vez por mês a manutenção ia à minha casa e colocava aquela caixinha preta em cima do dispositivo. Todo o dia 06 às 3horas da manhã. Nessa data eu os deixava na cozinha e ia para a sala. Quando voltava já não havia mais ninguém e o dispositivo funcionava corretamente. Não tive mais problemas com ele.
E se passaram os meses e eu já havia virado um boêmio. Só evitava beber no trabalho, mas após o serviço as noitadas eram inevitáveis. Várias vezes quase perdi a hora do remédio, mesmo com o meu relógio avisando.
No final do ano, os meus colegas estavam combinando uma comemoração em uma boate. Só para os homens. Todos inventariam uma desculpa em casa. Isso aconteceria no dia 22 de Dezembro.
Neste dia fui trabalhar de carro. Após o expediente nos reunimos no bar embaixo do escritório. Às 22 horas fomos para a boate. No meu carro poderiam ir mais três pessoas. Quando sentei no volante, Sérgio segurou meu braço.
—Eu vou guiando.
Não discuti.
Na boate bebi mais do que nunca e acabei praticamente desmaiado em um canto.
Quando despertei, alguns colegas estavam dormindo e outros já não estavam mais no local.
Olhei no relógio, eram 02h55min. Eu tinha que chegar em casa o mais rápido possível. O relógio tocou e eu não escutei.
Saí cambaleando, paguei a minha conta e fui até o meu carro, correndo, tropeçando e esbarrando em todos e tudo à minha frente.
Passei por uma mendiga, que estava sentada na calçada revirando um saco de lixo. Ela fitou-me ao passar por ela e disse:
—Tu tá condenado!
Cheguei ao carro às 3hs. Saí em alta velocidade.
“Tem que dar tempo”.
O relógio marcava 03h05min.
À frente da rua que eu trafegava uma blitz da polícia, mas eu não podia parar. Acelerei mais. Cruzei o bloqueio em alta velocidade e pelo retrovisor vi que dois policiais, de moto, já estavam atrás de mim.
A embriaguez havia reduzido os meus reflexos e estava difícil controlar o carro. Em um cruzamento, passei o sinal fechado e outro veículo cruzou à minha frente. Joguei o carro para o lado e nesta manobra perdi o controle e bati de frente em um poste. Perdi os sentidos.
Acordei em uma maca no consultório do Dr. Lúcio que calmamente jogava paciência em seu laptop. Ao ver que eu acordei, veio até mim vagarosamente, sorridente.
—Olá Paulo. Dormiu bastante...
—Como vim parar aqui?
—O meu pessoal da manutenção te trouxe.
—Eu estou bem Dr.? Tive muitos ferimentos? Lembro-me até a batida.
—Você está ótimo. Levante e veja por si mesmo!
—Acho que a batida não foi tão forte.
—Foi sim, Paulo. Muito forte. Você não iria querer ver como seu corpo ficou, ainda mais que você estava sem cinto de segurança...
—Mas eu estou vendo! Tudo inteiro!
—Estou falando do seu corpo Paulo, a sua carcaça!
Nisso ele apertou uma tecla no laptop que abriu uma tela onde passava uma reportagem de TV que mostrava um acidente de carro com uma vítima fatal na madrugada do dia 23 de Dezembro.
—Mas é o meu carro...
Ainda não entendia o que estava acontecendo, mas o Dr. Lúcio, aos poucos, de modo sádico, ia me revelando.
—Você leu o contrato que assinou comigo?
—Não... O que tinha nele?
—A salvação da sua vida desde que você seguisse rigorosamente o tratamento.
—Eu segui!
—Você tomou o remédio às 3h15min do dia 23 de Dezembro?
—Mas eu sofri o acidente!
—Você tomou??? — Ele repetiu.
—Não.
—Muito bem, Paulo, cláusula terceira do contrato: “Caso o contratante não siga a risca o tratamento, em horários e dias acordados, acarretará o que segue abaixo: parágrafo único - Retirada incondicional do seu bem mais precioso, que passará a ser de propriedade do Dr. Lúcio Fernandes Luz”. Você concordou e assinou, Paulo!
—Meu bem mais precioso? Não tenho nada que te interesse.
Ele sorriu maleficamente e apontou o seu dedo indicador da mão esquerda em minha direção.
—Tem sim, Paulo. A sua alma! Você a entregou para mim, de livre e espontânea vontade!
— Lúcio Fernandes...como não percebi. Lúcifer...
Uma lágrima correu dos meus olhos.
— Não chore, Paulo. Vamos tomar um trago para comemorar. Afinal o tratamento acabou dando certo. Você pode beber à vontade!!!!!Rs.

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