A RESSURREIÇÃO - Conto Breve de Terror - Paulo Soriano


A RESSURREIÇÃO
Paulo Soriano

Jamais houve homem mais santo, mais piedoso em vida, que o monge Macário.

 Morrera de uma doença misteriosa e letal — que lhe dissipara todo o sangue — nos braços do abade, quando do inclemente cerco dos valáquios. Desde então, passara o morto — agora canonizado — a interceder pelos desvalidos, operando maravilhas e milagres, à mera invocação de seu sacro nome.

  A imensa santidade de Macário nunca fora posta em dúvida.  Assim, um enviado papal, acompanhado do Abade Rufo, procedeu pessoalmente à exumação do santo monge, convicto de que testemunharia um novo prodígio. Esperava encontrar o cadáver incorrupto.

Porque a luz do archote reverberava intensamente nas paredes da cripta, a santidade do monge Macário tornou-se plenamente visível quando aberto o ataúde: a face lívida, a despeito dos longos anos de sepultamento, permanecia mesmo fresca e incorrupta. 

Mas não foi tudo: tomados de êxtase e devoção, os clérigos se inclinaram, em profunda reverência, quando viram o santo homem se erguer do fundo do túmulo de pedra. Assim como Lázaro e o próprio Salvador, o monge vencera a morte.

— Aproximem-se, irmãos — disse o monge ressurreto, abrindo acolhedoramente os braços, mas contendo a impaciência de uma voz sibilante, que se lhe escapava da boca infestada de ranhuras aguçadas — pontiagudas — e sedentas de sangue.

Desde então, a mortandade e o terror se espalharam pela Transdanúbia mais célere e fatalmente que a própria Peste.


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METEMPSICOSE - Conto de Terror - Paulo Soriano



METEMPSICOSE
Paulo Soriano

Os primeiros momentos que se seguiram à cessação das minhas funções orgânicas foram extremamente agradáveis.

Lembro-me, perfeitamente, que, de alguma forma, eu podia vislumbrar uma radical mudança em meu semblante. A minha face, há pouco contraída pela dor, deixava-se permear pela languidez de um alívio absoluto e, aos poucos, assumia uma imobilidade de morte.

De alguma forma, eu flutuava sobre a equipe médica. Os homens de branco curvavam-se sobre o meu corpo. Lutavam para trazer-me de volta à vida. Mas eu não queria isso. Sentia-me maravilhosamente bem. Havia uma leveza que eu nunca dantes havia experimentado. Eu me sentia tão leve e tão luminoso quanto a própria luz. Ligth as the ligth.

 Mas o deleite inefável – aquele prazer suave e demorado – pôs-se a esmorecer. Algo que antecipava a dor cruciante se insinuava em um ponto indefinido da substância etérea em que eu me havia convertido. Supus que os médicos logravam êxito nas manobras de reanimação.

Eu ainda estava ligado ao meu corpo. Um tênue filamento de luz opaca escorria de meu corpo físico e, em volutas ascendentes, debilmente me cingia. Sabia, perfeitamente, que aqueles momentos seriam decisivos e selariam o meu destino.

 De súbito, veio-me um estremecimento. Toda luminosidade que me circundava esvaeceu-se como fumo, e o que restou foi apenas um negrume áspero e frio, uma imensidão de espaços tenebrosos, pesados como chumbo, que turvavam o ambiente e penetravam em minha alma com a precisão de bisturis. O que me restou de consciência mergulhou, então, num estado de aflição indescritível, e, em fração de segundos, toda a minha vida descortinou-se em seus olhos imateriais. Então vieram as memórias, aquelas terríveis reminiscências de minha torpe existência, cravejada de sordidez e vilania.

A negra bruma que me circundava adquiria, aos poucos, um quê de consistência. O que era sombra concentrava-se num corpo definido. Custou-me muito pouco a reconhecer em que se recompunha aquela réstia abjeta. Ao meu lado, formava-se a terrível silhueta de meu pai, mais asquerosa do que nunca; velava-me, pois, o mesmo homem a quem sempre odiei e a quem pus fim à vida violentamente, sem dó, para usurpar-lhe a maldita herança.

 Com grande esforço, olhei para baixo. O liame resplandecente que me ligava ao corpo físico, para a minha alegria, tornava-se mais alvo e substancioso. Na verdade, eu já não mais queria a morte. A repugnante presença de meu pai, naquele ambiente de treva, era-me insuportável. Se era o meu destino de morte habitar as regiões mais sombrias que os demônios podem conceber aos homens inescrupulosos, eu bem o aceitaria, resignadamente. Mas, jamais a companhia de meu pai. Daria tudo para retornar ao meu corpo. Lutaria até as minhas últimas forças, se preciso fosse.

 À medida que meu pai se afastava de mim, a luz voltava a me envolver. Vi, abaixo de mim, uma leve ondulação em meu peito. Considerei que o meu corpo respirava novamente. Pouco a pouco, eu sentia que voltava ao corpo físico.

A prazerosa sensação de bem-estar, que eu voltara a experimentar há poucos segundos, foi subitamente interrompida. Vi que uma sombra se acercava do meu corpo material. Era o meu pai. Entre os médicos, ele voltava os olhos hediondos para mim. E, com as mãos em garras, precipitava-se ferozmente contra o meu peito, mutilando o meu coração.

 – Deixe-me viver! – implorei.

Naquele momento, um filamento iridescente prolongou-se da negra aura de meu pai e enroscou-se no meu corpo, com a maleabilidade e força constritora de uma serpente.

O meu pai sorriu-me um esgar tenebroso, estendendo as garras e envolvendo-me a garganta.

E, à medida que meu pai se esforçava em meu pescoço material, obstruindo o pouco que restava de minha respiração, o filamento de luz, que me ligava a minha alma ao corpo físico, fenecia. Quando o liame não era mais que um tênue fio, tão frágil quanto uma linha de costura, vi o meu pai arrebatá-lo com uma das mãos, arreganhar os dentes e parti-lo com uma mordidela rápida e ruidosa.

 Desesperado, eu me afastei cada vez mais de meu corpo, impelido pelo vento que se elevava das regiões abissais, como se fora um balãozinho que escapa das mãos de uma criança. E, assim, lenta e melancolicamente, eu me distanciava de mim mesmo, penetrando mais e mais num antro frio e repleto de treva e solidão.

 De meu pai, como se fora o rabo de um demônio, partiu um novo fiapo luminoso, que se uniu e amalgamou definitivamente ao meu corpo físico.

Ao longe, eu vi que os médicos davam por encerradas as manobras frenéticas.

 Eles estavam satisfeitos. Haviam logrado êxito. A vida restaurara-se naquele corpo ainda jovem.

A última coisa que vi, antes que a espessura das trevas obscurecesse a minha visão, foi o sorriso de esgar de meu pai desenhar-se numa face que um dia fora minha.

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A MIRRA (MÚMIA) - Conto de Terror Tradicional Português - Teófilo Braga



A MIRRA (MÚMIA)
Conto tradicional português adaptado da narrativa coligida por Teófilo Braga (1843 – 1924)

Um rapaz muito brincalhão quis dar uma grande festa de aniversário. Bateu à casa e todos os amigos convidá-los para virem jantar e farrear com ele. Quando voltava a casa, encontrou ainda um amigo em frente do cemitério e, depois de convidá-lo para a festa, ficou a conversar muito satisfeito. Estando nisto, deu com os olhos em uma mirra — ou esqueleto ainda revestido de carne — que estava junto de uma parede.

Disse-lhe, então, mofando:

— Se quiseres vir também ao meu banquete de aniversário...

— Lá irei — respondeu-lhe a mirra.

O rapaz ficou espantado, e perguntou ao amigo se tinha ouvido alguma voz. Como este lhe disse que nada tinha ouvido, ele também não se atreveu a revelar-lhe o caso. Dali se foi, cheio de susto e, ao passar pela casa do padre, fez confissão do que lhe acontecera:

— O que foste fazer, homem! Não sabes que não se brinca com os mortos?

— E agora?

— Agora não tens remédio senão sujeitares-te ao que acontecer. Manda pôr na mesa mais um talher, ainda que não seja senão como satisfação.

A noite correu no meio de danças, até que os convidados foram para a mesa. Ao soar a primeira badalada da meia-noite, bateram à porta. O rapaz, tremendo de medo, foi ver quem era. E recuou, ao abrir a porta.  A mirra — o cadáver descarnado — entrou vagarosamente e dirigiu-se para a mesa, sentando-se no lugar que estava desocupado. Comeu, comeu, comeu, e, depois, levantando-se, para o mancebo:

— Pois bem, já que fizeste o favor de me convidares para o banquete dos teus anos, também te peço que amanhã, a esta mesma hora, vás jantar comigo.

Ditas estas palavras, partiu.

O rapaz ficou ainda mais aterrado do que de antes. Não pôde dormir, até que ao outro dia foi ter com o confessor para lhe contar o sucedido.

— Não tens outro remédio senão ires. Sai-te mais mal se faltares. O que te posso fazer é emprestar-te a capa com que digo missa para te defenderes.

Lá por alta noite o rapaz foi para o adro da igreja, a tremer como varas verdes. E, à meia-noite em ponto, o rapaz bateu à porta. A mirra apareceu e levou-o consigo para dentro.

— Vês estas duas covas aqui?

— Vejo.

— Pois uma é a minha e a outra seria para ti. Mas o que te vale é vires vestido como Cristo. Mas sempre te digo que nunca mais brinques com os mortos.

O rapaz, sem saber como, achou-se fora da igreja, como se acordasse de um pesadelo. Padeceu de uma grande doença, e em toda a sua vida nunca mais brincou com os mortos.


Texto adaptado da narrativa “A Mirra (Múmia)”, constante de “Contos Tradicionais do Povo Português”, de Teófilo Braga.


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A PROCISSÃO DOS DEFUNTOS - Conto de Terror Tradicional Português - Teófilo Braga



A PROCISSÃO DOS DEFUNTOS
Conto tradicional português adaptado da narrativa coligida por Teófilo Braga (1843 – 1924)

Havia numa terra uma mulher muito curiosa: não se passava coisa na rua de que não desse fé. A qualquer hora da noite, estava sempre por detrás da veneziana a espreitar e a escutar o que se passava lá fora.

Uma noite, estava ela já deitada, quando ouviu passos pela rua.  A curiosidade a fez saltar da cama e, mesmo de camisola, correu ao postigo. Era uma procissão que passava e de que ela nunca ouvira falar. A procissão era muito comprida, e o que mais a fazia pasmar é que ninguém fazia barulho, nem se ouviam as passadas daquele tropel de gente. A mulher estava pasmada. Mas eis que passa um homem que ela conhecia. Era o seu compadre, que havia já tempo que morrera. Para disfarçar a curiosidade, usou de uma artimanha:

— Oh meu compadre! — disse ela quando o vulto passou rente ao postigo. —Você me empresta a sua tocha para acender a candeia que se apagou?

O vulto deu-lhe a tocha e foi andando.  Acabada a procissão, a mulher foi para a cama, mas não podia dormir. Quando alvoreceu, e se levantou, é que notou que o quarto estava alumiado com uma luz acesa. Vai para certificar-se: era o braço de um defunto. A mulher ficou trespassada de medo e foi confessar o caso a um padre.

— É castigo da curiosidade. Agora é esperar que a procissão torne a passar daqui a oito dias, para entregar ao seu compadre o braço do defunto.

Chegado o dia, a mulher curiosa pôs-se ao postigo e, das duas para as três horas da madrugada, passou a procissão dos defuntos do mesmo feitio, sem fazer barulho.

Quando ela viu aproximar-se o vulto do compadre, estendeu o braço e o entregou a ele. A procissão desapareceu no fim da rua, e quando amanheceu, foram dar com a mulher morta debruçada ao postigo. Todos os que a conheciam disseram pela mesma boca:

— Foi castigo, foi castigo.


Texto adaptado da narrativa “A Mulher Curiosa”, constante de “Contos Tradicionais do Povo Português”, de Teófilo Braga.

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