O HORRÍVEL - Conto Clássico de Horror - Guy de Maupassant


O HORRÍVEL
Guy de Maupassant
(1850 – 1893)

A noite tépida descia lentamente.

As senhoras tinham ficado no salão da quinta. Os homens, sentados ou a cavalo nas cadeiras do jardim, fumavam diante da mesa abandonada, carregada de taças e cálices.

Seus charutos brilhavam como olhos na sombra espessa, de minuto em minuto.

Acabavam de narrar um terrível acidente acontecido na véspera: dois homens e três mulheres afogados à vista dos convidados em frente ao rio.

O General G... pronunciou-se:

 — Sim, estas coisas são emocionantes, mas não são horríveis.

“O horrível — esta velha palavra — quer dizer muitíssimo mais que terrível.  Um medonho acidente como este emociona.  Para que se experimente o horror, é preciso mais que a emoção da alma e mais que o espetáculo de uma morte terrível.  É preciso um calafrio de mistério ou uma sensação de pavor anormal, sobrenatural. Um homem que morre, mesmo nas condições mais dramáticas, não causa horror. Um campo de batalha não é horrível.  Os crimes, os mais vis, raramente são horríveis.

Eis dois exemplos pessoais que me fizeram compreender o que se pode entender pelo horror.

O primeiro foi durante a guerra de 1870[1].

Nós nos retiramos para Pont-Audemer, depois de termos atravessado Rouen. O exército — vinte mil homens aproximadamente, vinte mil homens derrotados, debandados, desmoralizados, esgotados — ia reagrupar-se no Havre.

A terra estava coberta de neve.

A noite caía. Dede a véspera que não se comia. Fugia-se, porque os prussianos não estavam longe.

Toda a planície normanda, lívida, manchada pela sombra das árvores em volta das herdades, se estendia sob um céu negro, rude e sinistro.

Não se ouvia mais nada, na luz eterna do crepúsculo, além de um ruído confuso, brando e descompassado de tropas em marcha, de um bater de pés infinito, misturado de um vago tinido de equipamentos e de sabres. Os homens, curvados, arqueados, sujos, muitas vezes mesmo esfarrapados, arrastavam-se, apressavam-se sobre a neve com longo passo extenuado.

A pele das mãos colava ao aço das culatras, porque gelava terrivelmente nessa noite.  Muitas vezes, eu via soldado tirar os sapatos para andar com os pés nus, de tanto que sofria com o calçado, e deixava em cada passada um traço de sangue.

Depois, no fim de algum tempo, sentava-se num campo para descansar alguns minutos, e não se levantava mais. Cada homem que sentava era um homem morto.

Tínhamos deixado atrás de nós muitos desses pobres soldados estropiados, que contavam tornar a partir imediatamente, desde que tivessem descansado um pouco as suas pernas inteiriçadas.  Mas, mal cessavam de se mover, de fazer circular em sua carne cansada o sangue quase inerte, um entorpecimento invencível apoderava-se deles, pregava-os à terra, fechava-lhes os olhos, paralisava em segundos esta mecânica humana estafada.  E eles se abatiam um pouco, com as testas apoiadas nos joelhos,  sem, contudo, cair de todo, porque seus rins e seus membros tornavam-se imóveis, duros como um pau, impossíveis de dobrar ou de endireitar.

E nós outros, mais robustos, íamos sempre, gelados até a medula, avançando por uma força de movimento dado nessa noite, nessa neve, nessa planície fria e mortal, esmagados pelo pesar, pela derrota, pelo desespero, sobretudo oprimidos pela abominável sensação do abandono, do fim, da morte, do nada.

Percebi dois gendarmes[2] que seguravam pelo braço um homenzinho singular, velho, sem barba, de aspecto verdadeiramente surpreendente.

Procuravam um oficial, porque acreditavam ter prendido um espião.

A palavra espião correu logo entre os estropiados e estes fizeram um círculo em volta do prisioneiro.  Uma voz gritou:

— É preciso fuzilá-lo!

E todos esses soldados, que caíam de cansaço, que se conservavam de pé apoiados nas suas espingardas, tiveram subitamente esse arrepio de cólera furiosa e bestial, que impele as multidões ao massacre.

Eu quis falar.  Era então o comandante do batalhão. Mas não se conheciam mais chefes. Teriam fuzilado a mim mesmo.

Um dos policiais disse:

— Há três dias que ele nos segue, pedindo a todo mundo informações sobre a artilharia.

Eu procurei interrogar este ser:

— Que andas fazendo? O que queres? Para que acompanhas o exército?

Ele balbuciou algumas palavras numa linguagem ininteligível.

Era deveras um estranho personagem, de espáduas estreitas, de olhar sonso, e tão perturbado diante de mim que não me restava mais dúvida alguma de que era mesmo um espião.  Ele me considerava de cima a baixo, com um ar humilde, estúpido e manhoso.

Os homens à nossa volta gritavam:

— Ao paredão!  Ao paredão!

Eu disse aos gendarmes:

— Respondeis pelo prisioneiro?

Não tinha acabado de falar quando um empurrão terrível me deitou por terra, e eu vi, por um segundo, o homem tomado pelos soldados furiosos, derrubado, ferido, arrastado à beira da estrada e lançado contra uma árvore, já quase morto, sobre a neve.

E logo fuzilaram-no.

Os soldados atiravam nele. Tornavam a carregar as armas e atiravam de novo, com um furor brutal.

Batiam-se para ter a sua vez. Desfilavam diante do cadáver e disparavam repetidas vezes, como se desfilassem diante de um féretro para lançar água benta.

Mas, de repente, um grito soou:

— Os prussianos!  Os prussianos!

E eu ouvi, por todo o horizonte, o rumor imenso do imenso exército perdido que corria.

O pânico, nascido desses tiros sobre esse vagabundo, havia enlouquecido os próprios executores que, sem compreender que o pavor vinha deles mesmos, fugiram e desapareceram na sombra.

Eu fiquei só, diante do corpo com os dois gendarmes que, retidos pelo dever, haviam permanecido perto de mim.

Eles levantaram aquela carne moída, mole e sangrenta.

— É preciso revistá-lo — disse-lhes.

E dei uma caixa de fósforo de cera que tinha em meu bolso.  Um dos soldados iluminava o outro. Eu estava em pé entre os dois.

O gendarme que revistava o corpo declarou:

— Vestido com uma blusa azul, camisa branca, calças e um par de sapatos.

O primeiro fósforo apagou-se.  Acendeu-se outro. O homem continuou, remexendo os bolsos:

— Uma faca de chifre, um lenço xadrez, uma caixa de rapé, um punhado de barbante, um pedaço de pão.

O segundo fósforo apagou-se.  Acendeu-se o terceiro.  O gendarme, depois de ter por muito tempo apalpado o cadáver, exclamou:

— É tudo.

Eu disse:
— Vamos despi-lo.  Acharemos talvez alguma coisa contra a pele.

E, para que os dois soldados pudessem agir ao mesmo tempo, eu mesmo me pus a iluminá-los.  Eu os via, ao clarão rápido do fósforo, tirar a roupa, peça por peça, pôr a nu este fardo de carne ainda quente e morta.

De súbito, um deles exclamou:

— Ah, meu comandante, é uma mulher!

Eu não vos poderia dizer que estranha e pungente sensação de agonia me oprimiu o coração. Não podia acreditar naquilo, e ajoelhei-me sobre a neve, diante dessa massa informe para ver: era mesmo uma mulher!

Os dois gendarmes, interditos e desmoralizados, esperavam que eu emitisse uma opinião.

Mas eu não sabia o que pensar, o que supor.
Então, o brigadeiro pronunciou-se lentamente:

— Talvez ela viesse procurar seu filho, que era soldado de artilharia, e de quem não tinha notícias.

E o outro respondeu:

— Talvez fosse isto mesmo...

Eu, que já tinha visto coisas bem terríveis, comecei a chorar.  E senti, em face dessa morta, nessa noite gelada, no meio dessa planície negra, diante desse mistério, diante dessa desconhecida, assassinada, o que quer dizer a palavra horror.

Eu tive esta mesma sensação no ano passado interrogando um fuzileiro argelino, que era um dos sobreviventes da missão Flatters.

Vós conheceis os detalhes desse drama atroz. Mas há um que, decerto, ignoreis.

O coronel ia ao Sudão pelo deserto e cruzava o imenso território dos tuaregues, que são, nesse oceano de areia, que vai do Atlântico ao Egito, e do Sudão à Argélia, uma espécie de piratas comparáveis aos que antigamente assolavam os mares.

Os guias que conduziam a coluna pertenciam à tribo dos Chambaa, de Ouargla.

Um dia, montaram o acampamento em pleno deserto, e os árabes declararam que, como a fonte ainda estava um tanto distante, iriam recolher a água com todos os camelos.

Apenas um homem preveniu o coronel de que era uma armadilha.  Flatters não acreditou, e acompanhou a caravana com os engenheiros, os médicos e quase todos os seus oficiais.

Eles foram assassinados junto à fonte e todos os camelos capturados.

O capitão do posto árabe de Ouargla, que ficara no acampamento, assumiu o comando dos sobreviventes, spahis e fuzileiros, e iniciaram a retirada, abandonando as bagagens e os víveres, por falta de camelos para transportá-los.

Então, eles partiram naquela solidão sem sombras e sem fim, sob um sol devorador, que os abrasava de manhã à noite.

Uma tribo veio render-se, trazendo tâmaras. Estavam envenenadas. Quase todos os franceses morreram e, entre eles, o último oficial.

Só ficaram alguns spahis, com seu comandante Pebóguim, e mais alguns fuzileiros nativos da tribo Chambaa.  Tinham ainda dois camelos, que desapareceram uma noite com os árabes.

Em seguida, os sobreviventes compreenderam que teriam de devorar-se uns aos outros e, logo que descobriram a fuga de dois homens com os dois animais, os que ficaram se separam e começaram a andar, cada um de per si, na areia macia, sob a cruel chama do sol. Conservavam entre si uma distância maior que a de um tiro de fuzil.

Andaram, assim, o dia todo, levantando, em cada lugar, na extensão abrasada e plana, essas colunas de poeira que denunciam, ao longe, quem caminha pelo deserto.

Mas, numa manhã, um dos viajantes se desviou bruscamente, aproximando-se de seu companheiro.  E todos pararam para olhar.

O homem na direção de quem marchava o soldado faminto não fugiu.  Caiu ao chão e apontou a arma para o que se aproximava.  Quando viu que o outro estava a uma boa distância, atirou. Mas não o atingiu. Este continuou avançando e, depois, assumindo a sua vez, matou o seu camarada.

Então, de todo o horizonte, acorreram os demais, para garantir a sua parte. E o que havia matado, esquartejando o morto, distribuiu as postas.

E se separaram novamente aqueles aliados irreconhecíveis, até que o próximo assassinato os unisse novamente.

Durante dois dias eles viveram daquela carne humana compartilhada. Em seguida, voltou a fome, e o primeiro a matar matou outra vez. E, novamente, como um açougueiro, trinchou o cadáver e o ofereceu aos companheiros, mantendo apenas a sua parte.

E assim continuou a retirada de antropófagos.

O último francês, Pobéguim, morreu assassinado nas margens de um poço, na véspera do dia em que chegou o socorro.  Vós compreendeis agora o que é o que eu entendo por horrível?”
Eis o que nos contou, naquela noite, o general G...


Conto originariamente publicado, em sua primeira parte, sem indicação do tradutor, no “Diário da Tarde”, de Curitiba/PR, nos dias 6 e 7 de dezembro de 1904.  A versão em português da segunda parte é de autoria de  Paulo Soriano.




[1] Maupassant refere-se à guerra franco-prussiana, conflito bélico entre o Império Francês e o Reino da Prússia, que se estendeu entre julho de 1870 e maio de 1871.
[2] Os gendarmes eram policiais militares encarregados de manter, na França, a ordem pública.

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MARIA DE VELHE - Conto de Terror - José Manuel Barbosa


MARIA DE VELHE

José Manuel Barbosa


Maria gostava de sair muitas noites quando tinha tempo. Sextas, Sábados e Domingos eram dias de lazer nos que as reuniões com os amigos, as pequenas viagens em grupo, as festas, bailes, rir e sobre tudo amar, eram o normal.

Aquela noite, Maria não combinara com ninguém, mas ia até a sala de festas onde sempre haveria alguém conhecido, ou de não o haver procuraria conhecer gente nova para próximas vezes.

Fazia algo de fresco naquela noite de primavera, polo que optou por levar uma jaquetinha ligeira e uma pequena saca onde levava a sua agenda com telefones por se forem necessários. Saiu da casa quando a obscuridade governava o céu e alegremente decidiu ir caminhando para desfrutar aquele serão que começava a estrelar-se mas com a frescura agradável com a que nos faz gozar a natureza no mês de Junho.

Foi baixando de Velhe até as Lagoas e de ali ao centro de Ourense onde decidiu entrar numa sala cheia de gente. Alguns bailavam, outros com o copo na mão e outros entregados ao romantismo às obscuras ao lado dos seus pares.

Maria dirigiu-se à beira da pista para olhar como se mexia a gente sob aquele forte som musical e aquele violento jogo de luzes que estimulavam os sentidos até pôr a adrenalina nos índices extremos.

A música trespassava o corpo de Maria dum lado para o outro até fazê-la a ela própria parte daquela vaga de ritmo obrigando-a subtilmente a se mexer. Os seus pés, as suas pernas eram levadas pola embriagante força do som. Em nada acabou vendo-se participando da dança de forma instintiva à vez que os seus olhos percorriam todo o campo que alcançava a ver, ainda obstaculizado infinitesimalmente pola fração de segundo de obscuridão entre duas cintiladas de luz de diversas cores que deformavam as figuras daquela massa humana em movimento, tanto mais febril quanto mais monótono e latejante era o ritmo.

Cegada polo mesmo, Maria desfrutou quanto quis durante muito tempo, até que por fim, sentiu a necessidade de recompor as suas forças. Dirigiu-se até o balcão abrindo-se caminho entre a gente, sentindo a suor do pessoal que por ali passava e decidiu beber algo que lhe vencesse a sede que lhe tinha provocado a transpiração cansada pola dança continuada durante as horas que esteve deixando-se levar polo tam-tam impetuoso dos bafles.

Apanhou o copo depois de ter-lho servido o camareiro e foi até um lugar mais tranquilo. Sentou, descansou e respirou. E ali esteve uns minutos.

Ao pouco olhando para a gente como se mexiam descobriu um homem jovem. Ele olhava para ela com um sorriso agradável. Ela, amável, devolveu-lho enquanto ele com graça começou a se dirigir lentamente para ela sem apagar o seu lindo sorriso.

– Posso sentar ao teu lado? – perguntou muito amável.

– Sim, por favor –respondeu ela não menos amável.

–Vim-te sozinha... e como eu também o estou... pensei na solidão compartilhada.

Maria gostava daquele homem de voz cálida e bom humor. Com prazer perguntou:

– Como te chamas?

– José. E tu?

– Maria.

– Bem, falta-nos um Jesus.

– Para quê? – disse Maria com surpresa perante tão estranha resposta.

– Para fazermos um Belém, como no Natal.

Maria perante tão inesperada resposta botou a rir a gargalhadas enquanto José a acompanhava com um não menos intenso riso.


A entrada para uma boa amizade foi boa e por isso após uma longa conversa decidiram bailar a música romântica. Fizeram-no juntinhos, como se levassem muito tempo a se conhecerem.

Continuaram por muito tempo até que acabou a festa e embora se sentissem os dous muito bem juntos, estava sendo tarde e Maria devia ir para a sua morada, pois tinha prometido aos seus pais chegar a uma hora prudente. Àquelas horas já ultrapassavam um bom bocado a prudência da saída noturna e foi por isso polo que determinaram irem embora. Maria pegou na jaquetinha e a saca e foi-se cara a porta acompanhada do José, quem agradavelmente se ofereceu para levá-la na sua moto.

Maria aceitou com um sorriso amplo e brilhante penetrando os olhos verdes do José que sorriu ao ver aquela expressão linda da rapariga.

Apanharam a moto do moço e foram embora, velozmente polas ruas de Ourense rumo da casa da Maria à qual chegaram em poucos minutos embora estivesse nas aforas da cidade.

Ao chegarem, Maria baixou e não pôde evitar se achegar ao rosto do rapaz para lhe dar um beijo que se prolongou no tempo. Depois vieram outros dous, três e mesmo mais quatro beijos celebrados com muito agarimo e abraços entre os dous jovens. Às suas costas o rio Minho e no fundo a Ponte Velha iluminada punha um elemento romântico no seu contorno que fazia que os seus corações acelerassem os seus ritmos unisonicamente.

Quando o José acertou, finalmente, a se ir embora, montou na sua moto e voou até se perder pola estrada perante a atenta olhadela da Maria que viu com um lindo sentimento de felicidade como se lhe mexiam uma coleção de borboletas no estômago que lhe davam a entender que aquilo poderia ser o começo duma bela amizade romântica.

Baixada da nuvem, Maria tomou a consciência de estar na cancela da entrada da sua casa e baixando os seus pensamentos ao nível do comum, mais quotidiano, deu-se conta de ter deixado a jaquetinha na moto do José. Preocupou-se por um momento, mas lembrava que tinha combinado com ele de ali a três dias, polo que entrou na casa mais tranquila e esqueceu o tema até se verem.

Passaram os três dias. Maria, com a combinação na cabecinha vestiu aquela tarde a roupa mais formosa que tinha para se ver com o José como acordaram, no mesmo lugar do que a primeira vez.

Saiu da casa muito alegre e andou com ligeireza todo o caminho que a levava até a sala de festas do centro de Ourense.

Chegou, entrou e foi rumo o lugar acordado onde parecia que não tinha chegado quem ela aguardava. Não havia preocupação. Era ainda cedo.

Sentou e pediu uma bebida para aguardar melhor e combater a impaciência.

O tempo passava e enquanto ela sonhava com os olhos abertos imaginando-se aquele homem sensível e alegre, delicado e generoso, engraçado e sempre com o sorriso nos lábios.

Sonhou desperta uma boa miga e imaginou situações com ele nas que ela era feliz.

Qualquer outra pessoa que olhasse para ela nesses momentos estaria a vê-la com a visom perdida. Sorrindo às vezes... Perguntar-se-ia em que nuvem voaria a rapariga nesses instantes.

Assim se passou o tempo.

Quando voltou à realidade eram as dez e meia, mas o José não estava ali. Que aconteceria?

Pediu outra bebida ligeira para seguir aguardando enquanto olhava para a multidão por se conseguia distinguir o José entre a gente.

O tempo foi passando-se e a felicidade da Maria foi pouco a pouco transformando-se em preocupação.

As onze e meia da noite.

O rapaz já não haveria de vir. Por que tinha combinado com ela se tinha pensado não vir? Ou quiçá lhe acontecesse qualquer cousa...

A preocupação deu passagem a outros sentimentos não tão felizes.


Dali a mais uns minutos já não pude aguentar mais. Ergueu-se da sua cadeira e foi para a saída, subiu as escadas, chegou à porta e botou a última olhadela para ver se conseguir localizar a moto do José.

Nada.

Maria, com vontade de chorar começou a andar lenta e pensativa. Talvez não tinha porque pensar mal, talvez foi que ele não pôde vir por alguma razão importante e não pude avisar por não ter o seu telemóvel... ou talvez aconteceu qualquer outra cousa fora do seu alcance.

Maria seguia caminhando à vez que também os seus pensamentos ferviam na sua cabeça, umas vezes tendo em conta possibilidades inevitáveis, outras que se repartiam entre o não querer, ficando ela zangada, ou alternativas funestas que quase a faziam chorar.

Chegou à casa muito cedo. Dirigiu-se imediatamente ao seu quarto e ali se deixou cair sobre a cama para botar-se a chorar com desesperação.

Assim passou aquela noite.

Ao dia seguinte, Maria foi à academia onde estudava uns exames de Estado. O seu rosto indicava não ter dormido nada. Estava triste e sem vontade de trabalhar. Não sabia bem que lhe doía mais: o possível desprezo ou que lhe pudesse ter acontecido algo mau àquele rapaz que não lhe parecia mentiroso.

Por várias noites seguidas foi à discoteca onde se conheceram com o intuito de se topar com ele, mas sem resultados positivos polo que começou a pensar na possibilidade de que lhe pudesse ter acontecido algo inevitável embora não acertasse a saber se isso era qualquer problema relacionado com uma obriga laboral, familiar ou algo pior que afetasse a sua integridade física. Só pensar nisto último arrepiava-a.

A curiosidade era grande, assim como a incertidão mas para além de tudo isso ele tinha algo dela: a sua jaquetinha. Devia tentar saber do seu paradeiro de qualquer jeito embora não soubesse nenhum telefone de contato, nenhum endereço...

Tentou lembrar algo que se escondesse na sua memória por se tinha comentado qualquer cousa ao respeito e vagamente lembrou que tinha falado duma aldeia chamada Gundiães. Gundiães!!! Onde ficava esse lugar??

Com os nervos de quem descobre algo útil perguntou a algumas pessoas conhecidas dela e conseguiu saber de dous possíveis Gundiães: um pertinho de Alhariz e outro a poucos quilómetros donde ela vivia seguindo a estrada que passava pola sua casa, rumo Nogueira de Ramoim. Bem!!

A sua lógica começou a fiar pequenos pormenores e chegou à conclusão de que a última possibilidade era a mais real.

Ao dia seguinte de se inteirar da proximidade desse Gundiães a poucos quilómetros da sua casa decidiu achegar-se até lá como quem vai dando um pequeno passeio. Vestiu o seu fato de treino e ao serão começou a caminhar como quem faz desporto. Caminhou durante uma boa miga enquanto o sol já baixo e oblíquo ajudava a diminuir o calor que caia desde havia umas horas. Isso facilitava a caminhada da Maria que tomava boa nota de todos os lugares por onde se passava, reconhecendo os seus nomes que por outra parte ela lembrava que foram ditos polo José.

Finalmente dali a uma meia hora de caminho viu o indicativo com o nome de “Gundiães”. Descontraiu a sua marcha e abriu bem os seus sentidos e a sua intuição com a finalidade de reconhecer qualquer cousa que lhe desse um indício relativo ao lugar onde poderia morar aquele rapaz de olhos verdes que tanto a tinha preocupado aqueles últimos dias.

Reparou em todas e em cada uma das casas que ficavam à beira da estrada sem ver nada significativo até que a poucos metros diante de si olhou uma moto conhecida. Esta era preta e com duas finas raias brancas nos guarda-lamas, selim amplo para duas pessoas e um autocolante com um GZ na parte traseira.

Sem qualquer dúvida aquela era a moto do José!!

Maria, prudentemente aguardou uns minutos. Esteve ali parada uns momentos tomando força para decidir-se a entrar enquanto contemplava a moto que se assemelhava em todos os pormenores com a que ela tinha montado e onde deixara a sua jaqueta.


Dirigiu-se até a cancela após ter respirado para poder vencer a sua timidez e premeu a campainha.

Silêncio.

Passaram-se uns segundos e voltou a premer a campainha. A porta da casa abriu e saiu um homem de uns sessenta anos aproximadamente, com traças de não ser precisamente um camponês, mas um homem com uma presença cultivada. Achegou-se à cancela e abriu.

– Boa tarde –respondeu com olhada de curiosidade.

–Boa tarde –respondeu a Maria com amabilidade. – Venho porque creio que alguém da casa tem uma jaquetinha da minha propriedade e venho por ela.

–Uma jaqueta? Pois... não sei. Como é a jaqueta?

–Pois, castanha, de ponto e com desenhos andinos.

–Bom, vamos ver se sabe algo a minha senhora – concluiu o amável senhor. –Emília!!! – berrou chamando pola sua esposa.  – Emília!!!

Emília saiu pola porta com uma cafeteira nas mãos.

– Que é o que se passa? – perguntou.

– Esta rapariga diz que tens uma jaqueta dela – comentou o senhor enquanto a Emília punha expressão de estranheza no rosto.

– Não, não é assim exatamente – interveio a Maria com um sorriso para descontrair a conversa. Não creio que a tenha a senhora. Para ser mais concreta creio que a deve ter o dono dessa moto que está cá arrumada. Esteve com ele há uns dias e quando nos despedimos deixei a jaqueta esquecida e ele foi quem a levou sem se dar conta.

Nesse momento tanto o senhor como a Emília puseram rosto de grande surpresa.

– Como? – disse ele. – Quem dizes?

– Acho que se chama José e combinei com ele há uns dias. Levou-me à minha morada nessa mesma moto.


Os senhores da casa mudaram a sua expressão até a brancura extrema não podendo acreditar no que aquela rapariga estava a dizer.

– Minha nena, estás num erro grave – respondeu o homem-, o dono dessa moto era o nosso filho mas está morto desde há três anos.

O que estava a ouvir Maria deixou-a fria como o gelo. Era ela agora quem mudou a expressão do seu rosto. A surpresa, a incredulidade e o medo se mesclavam nela.

– Bom, aqui deve haver alguma confusão – reafirmou. Eu combinei com alguém que me levou nessa moto há uns dias. Disse que se chamava José e era acastanhado e com os olhos verdes, alto... e estava vivo!!

Emília achegando-se até a cancela confirmou.

– O nosso filho chamava-se José, tinha os olhos verdes, o cabelo castanho era alto... e está morto.

O silêncio governou por um momento aquela tensa situação. Os três ficaram olhando os uns para os outros sem compreenderem absolutamente nada até que o senhor decidiu.

– Quero que venhais comigo.

– Aonde? – perguntou a Maria.

– Vem – cortou ele à vez que saía da cancela para afora e se punha a caminhar.

Maria confusa andou detrás dele sem fazer mais perguntas. Ele caminhava com decisão até que chegou à estrada geral onde estava a igreja de São Miguel do Campo. A Maria não queria imaginar o que queria o senhor e por respeito seguiu-o mas não porque lhe resultasse agradável. Entraram no cemitério e justo a uns passos da entrada a Maria parou levou as mão à boca, abriu os olhos e sentindo um frio arrepio polo seu corpo só pôde dizer...

– Por favor senhor, não me conte mais...

O senhor olhou para onde ela dirigia a vista e viu acima de uma tumba uma jaqueta de ponto, de cor castanho e com desenhos andinos. Acima uma formosa rosa vermelha e na cabeça do túmulo justo onde a cruz uma foto a cor dum formoso rapaz de cabelos quase louros, olhos verdes, sorriso agradável e um nome escrito: José Barreiros Failde.

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O VELHO DA PENA PATELA - Conto de Terror - Adela Figueroa Panisse



O VELHO DA PENA PATELA
Adela Figueroa Panisse

"Com que vamos construir os nossos lares?” O rapaz levantou a vista do chão, olhou para frente e viu-o. Lá ele estava com a vista, de olhos vácuos, dirigida para o infinito. O seu ar solene impressionava-o sempre: Sentado na pedra branca que eles chamavam a “Pena Patela” apoiava-se levemente na bengala – comprida – que, fincada no chão, apontava para ao céu. Uma perna dobrada e a outra estendida sobre a pedra. A mão direita pegando no bordão e a esquerda pousada no joelho. Parecia confundir-se com a paisagem até formar parte dela. De perfil enxuto, queixo proeminente, barba branca e cabelo longo, semelhava um velho druida, como aqueles que o pai lhe tinha ensinado num livro antigo. Ou como aqueles dos que ouvira falar quando ia, pelo verão, à Irlanda à casa dos primos.

O lugar em que se encontrava o ancião era um pequeno outeiro que dominava a parte alta do vale do Minho. A Pena Patela era a atalaia preferida do Gaibor.

A vista podia alargar-se até alcançar as suaves montanhas sagradas das Penas de Rodas quando o tempo era bom e o ar estava limpo como naquela tarde de outono. Lá embaixo o Minho perdia-se nos poços do Piago e acalmava as suas presas entre as ilhas, nos remansos de Marcelhe.

Nos dias úmidos de inverno, depois de chover, ia até a Pena com os seus amigos e deixavam-se escorregar pela superfície da pedra como se esta fosse um tobogã natural, até chegarem ao caminho que a rodeava vindo da beira do rio.

O Gaibor acercou-se ao Velho com precaução. Sentia um misto de medo e de atração fatal por ele.

Ia-o cumprimentar, já quase começara a dizer: “As boas tardes, Sr. Olegar”, mas interrompeu-o um murmúrio que saía da boca do Homem.

                                                                                                                           
"Caminhando, caminhando, caminhando
Vê-la-ai-vai a Santa Companha
A levar pelo Mundo a terrível
Espécie da ‘palavra’.”


O Rapaz ficou paralisado, não se atrevendo a mexer nem para adiante nem para trás. Não teve medo porque sabia – tinha-lho contado a Sr. a Rosália que era a vizinha de mais acima de sua casa –  que a Companha não podia aparecer de dia.

O sol estava ainda alto, não se iria deitar por uma ou duas horas. De maneira que reagiu rapidamente e retomou o cumprimento que tinha iniciado:

– Boas tardes, Sr. Olegar, que é o que está a ver?

– Olá, Gaibor. Sabes bem que eu não vejo as coisas reais. Apenas é que poso enxergar as coisas espirituais.

– Mas, então, que é o que está a cantar? Eu fiquei assustado quando lhe ouvi recitar aquele canto triste.

– E fazes bem em tê-lo. Todas as pessoas deveriam temer a Santa Procissão das Almas. Sabes o que é a Santa “Companha”?

– A Rosália tem-me contado algo, mais não sei muito bem.

– A Santa “Companha” é uma procissão que anda pela terra. Nomeadamente nas noites escuras. Não gostam tanto do luar. E voltou cantar com a sua rouca voz a cantiga monocórdia:


“Destemido exército errante
A dançar pela Terra em redondeza,
– A Música na cabeça –
Uma dança macabra e emigrante.
Com destino a nenhures
Alcança chegar a toda parte
Como mancha de azeite
Como seixos ‘rolantes’.”


O Gaibor sentiu um calafrio que lhe percorreu as costas. Teve que se assegurar algo nos calcanhares para não perder o equilíbrio. Mas a curiosidade podia mais que o medo e sempre quis saber mais alguma coisa. Olhou para o velho com aceno de esperar outra explicação.

– A Santa Companha são as almas do purgatório, que não têm repouso, porque ainda não puderam entrar no Céu e, como estão irrequietas à espera de o puderem fazer, andam pelos caminhos penando. Levam fachos acendidos para se alumiar.

– E então, podem-se ver.

– Ai! Meu amigo, isso é que não convém.

– Por quê? – Quis saber o Gaibor, sentando-se à beira do Sr. Olegar e cada vez mais interessado, enquanto sentia crescer em seu interior aquela mistura de medo e de curiosidade.

– Porque a Santa “Companha” vai envolta num ar frio. É um alento de purgatório que nem é de Inferno nem de Céu. O bafo do Inferno é quente, pode mesmo fazer arder as silveiras se uma fenda diabólica lhe permitisse sair das profundezas da terra. No em tanto, o ar do Céu é como um vento de rosas, suave e rescendente como um perfume. Quando uma pessoa tem a sorte de ser atingida por este último, é como se a felicidade lhe entrasse por todos os poros da sua pele.

Mas, há de quem é abafado pelo ar de purgatório! Essa pessoa já nunca mais vai viver entre os vivos. Mesmo que pareça um vivo, já não o é, porque o seu corpo tornar-se há oco como a casca vazia dum ovo. Pode mesmo andar, e enganar aos que olhem para ele, mas, como está vácuo, torna-se frágil e quebradiço, de maneira que com o menor golpe vai-se esquartejar. Igual que acontecer com uma casca de ovo esvaziada. Eu já tenho visto as cinzas esfareladas dum alguém que, parecendo vivo, partiu, subitamente, em mil pedaços.

 – Ah!

 O Gaibor não entendia muito bem o que o velho queria dizer, mas, como era um rapaz educado, ensinado a respeitar aos anciãos, acenou com a cabeça como se compreendesse.

E continuou sentado à beira do velho, a fazer perguntas.

– E então, que era aquilo que o Senhor cantava há pouco?

– Eu estava apenas a escorrentar a “Companha”. Porque, ainda que seja de dia, hoje à noite pode vir passear por este Outeiro, caminhando pelo carreiro que há ao pé desta Pena Patela. Estou apenas a advertir. Se alguém anda perdido pelos caminhos e lhe alcançasse a dar o ar frio da Santa Procissão, fica prendido em ela e já nunca mais volta para a sua casa. Desta maneira a Companha cresce nas noites escuras de névoa ou de lua nova acrescentando mais um elo na cadeia de fachos que a formam.

O Gaibor escutava com espanto até que já não aguentou mais. Começou logo a sentir um frio que lhe subia desde os pés até as coxas e que já lhe queria ascender pelo vão caminho do coração, embora, sendo ainda novo, não soubesse com precisão onde é que este órgão se encontrava dentro de seu corpo. Um tremor começou a sacudi-lo, primeiro suavemente e depois com algo mais de força. Teve de fazer um esforço grande para se erguer e a seguir descolar os sapatos do chão. Quando se viu com força e capaz de correr, disse ao velho, com voz aflita:

– Adeus, Sr. Olegar. Tenho de ir merendar à minha casa. Meu pai está a minha espera.

Um grito de chamada veio em sua ajuda.

– Gaibor, Gaibor! Entra em casa que já é tarde!

O rapaz virou-se rapidamente lançou um “boas tardes” apressurado e correu para onde seu pai o chamava.

Enquanto corria, ouvia a voz profunda e rouca do Sr. Olegar a cantarolar num tom de monocórdia e de salmodia :


“Lavradores incansáveis de caminhos
A marcar os vieiros com pegadas
De pés, engenhos e palavras".


Essa noite, depois de ter jantado e preparado as tarefas de classe, o Gaibor pôs-se a olhar pela janela de seu quarto, sempre a pensar no Sr. Olegar. Só o fundo preto do Céu era o que se via – ou não se via – da sua atalaia.

No silêncio da noite, quando as luzes vão se apagando e os lares adormecem junto com os seus moradores, o Gaibor ia sentindo como o som surdo e escuro da noite lhe premia o coração, ao mesmo tempo em que o cansaço lhe vencia. Deitou-se cheio de aquela mistura de medo e curiosidade que o tinha invadido quando tivera a conversa com o Velho das barbas brancas que olhava a paisagem da Pena Patela sem a poder ver desde os seus olhos cegos.

Já o sono queria-lhe entrar pela porta dos pensamentos e ainda voltou escutar a voz profunda e rouca do Sr. Olegar que salmodiava:


“Caminhando, caminhando, caminhando
Já lá vem a Santa Companha:
Destino errante sempiterno
A procura do final imaginado
dum caminho entre o Céu e o Inferno
Prendido nas cadeias do seu fado:
Andar sobre a terra e sobre as águas
Com o olhar posto na linha inalcançável
Do horizonte de risos e de ‘bágoas’


O Gaibor tapou-se com o cobertor até cobrir a cabeça. Logo embrulhou-se com os lençóis da cama. Dentro do seu leito ficou encolhido e assim adormeceu e passou a noite inteira sem se mexer dentro da cama.

A luz do sol fê-lo acordar à manhãzinha. Já nada se lembrava do acontecido o dia anterior. O pai tinha saído cedo para o trabalho e ele tomou o pequeno almoço com o avô, que o acompanhou à paragem do bus da escola.

Só foi à tarde, quando voltou para casa, que lembrou ao velho Sr. Olegar. Como ainda era dia e estava sol, pediu para ir brincar e apanhar umas pinhas para o lume da lareira. Foi logo para a Pena Patela, mal dissimulando uma louca ansiedade que lhe apertava no peito até case lhe fazer enjoar.

O Sr. Olegar não estava mais sentado na Pedra. Mas lá estava a bengala branca que o homem tivera pela mão no dia anterior e, na sua beira, pelo chão apareciam inúmeros cascalhos brancos, como de casca de ovo ou de ossos quebrados.

Gaibor sentiu uma rachada de vento vindo do caminho que, desde embaixo da Pena Patela, contornava esta. Teve frio e voltou a correr para sua casa enquanto chamava pelo seu avô para que lhe abrisse a porta.

– E então sempre cansaste de brincar? Sei que não havia pinhas no pinheiral.

– Não, avô, não eram pinhas o que havia. O que lá fica já não dá para fazer fogo. Tem tudo ardido.

O Pai e o avô olharam para o Gaibor de relance. O aspecto de preocupação que transcendia não dava para lhe fazer perguntas. Decidiram deixar o rapaz tranquilo e todos três puseram-se a preparar o jantar.

Gaibor ainda escuta, nas noites nevoentas da invernia uma voz que salmodia:


Caminhando, caminhando, caminhando
Velai vem a Santa Cooompaanhaa.


EPÍLOGO

Agora o Gaibor já nunca mais tem medo de ser apanhado pelo ar frio do purgatório que expelem as almas.

O seu pai e o seu avô disseram-lhe que o purgatório não existia, nem tampouco o inferno. Que o céu aparecia sempre que a gente estava contente e era feliz, o que acontecia com frequência na vida do Gaibor.

O Sr. Olegar está na residência para anciãos. O pai do Gaibor conseguiu-lhe lá um lugar porque, para além de ser ceguinho, não tinha família que o cuidasse.

As enfermeiras ralham com ele todos os dias porque intenta contar-lhes histórias da Santa Companha e pretende meter-lhes medo sob a ameaça de que uma noite de geada e névoa vão ser apanhadas pela procissão das ânimas. E seu corpo converter-se-á numa casca de ovo vazia.

Por enquanto canta os seus versos, como uma ladainha que semelha uma premonição:


Caminhando, caminhando, caminhando
Já lá vai a Santa “Companha”
A levar pelo mundo a terrível,
‘Cruel espécie da palavra.’
Espécie, enfim, a invasora da Terra,
Gente, Seres Humanos."



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