ESPÉCIME - Conto de Terror - Alex Rebonato




ESPÉCIME
(Alex Rebonato, Menção Honrosa do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror)



Consigo abrir um pouco os olhos, mas o que vejo me assombra mais do que os pesadelos obscuros que infestam a escuridão do meu sono constante.
Não há janelas, apenas grades e, depois delas, paredes. As luzes são poucas e não revelam nada. As sensações se confundem. Meus sentidos dormentes são, inicialmente, tão misteriosos quanto o homem mascarado que aparece sempre quando desperto e, logo, me põe de novo para dormir.
A escuridão avança lenta e constante.
Os raros momentos de lucidez começam confusos. Lembranças. É nisso que procuro me concentrar. No começo. Como, diabos, fui parar nessa situação?
É difícil retomar o raciocínio quando acordo. Sei que logo alguém virá, e vou ser posto para dormir sem chance de conversa. Sei quem sou, embora não me lembre de detalhes. Não consigo me lembrar do meu nome, ou do nome dela.
Consigo ver seu rosto claramente. Ela sorria alegremente em meio às árvores. O ódio me impele contra as amarras, mas não tenho forças suficientes para arrebentá-las. Mais mascarados entram em cena, mas não consigo ver quantos eles são. Sombras se movem rapidamente e logo volto a sonhar com ela.
O sol se punha atrás das montanhas, deixando um rastro dourado nas águas límpidas e rápidas do riacho próximo. Ela tira várias fotografias do lugar, minhas e de si mesma. Vejo meu rosto na tela da câmera. Deus, como pareço feliz.
Acordo subitamente, gritando e forçando meus braços e pernas. Sinto a tensão provocar resultado quando as algemas cederem o suficiente para que eu veja minhas mãos. Elas são grandes, peludas, com dedos longos terminando em unhas pontiagudas e alvas como ossos velhos. Vejo de relance a ponta do meu pé esquerdo, que não parece um pé. Nem sinto como se fosse meu. O pé direito, que não consigo ver, só me causa dor.
A correia que prende minha cabeça está menos apertada e consigo levantar um pouco a cabeça. Vejo largas tiras passando transversalmente meu peito, abdômen e cintura. Outras devem passar por minhas coxas e canelas, mas essas eu mais sinto do que vejo. Há também tubos presos em minhas veias.
Meu desespero é breve, porém autêntico. Tento gritar. Logo me injetem algo e tudo fica escuro novamente.
A barraca estava sob uma grande árvore frondosa. Nós havíamos limpado o local e recolhido lenha para uma pequena fogueira. A noite já ia alta e a lua despontava quando nos preparamos para dormir. Mesmo estando quente, vejo-a calçar as botas dizendo que alimentaria a fogueira antes de deitarmos. Lembro-me de insistir para que deixasse como estava, mas ela é teimosa e acredita que o fogo espantará possíveis predadores. Quando faço piada sobre os diversos predadores que as florestas capixabas podem esconder, ela se zanga e diz que a fumaça manterá os mosquitos afastados e, que eu, um rato de escritório, sou preza fácil para este tipo de predador.
Descubro que posso ganhar alguns instantes de lucides de mantiver meus olhos fechados quando acordo. Eles acabam percebendo, de qualquer maneira, mesmo que eu fique imóvel. Com o tempo extra, fica mais fácil me localizar. Estou descalço e meu pé direito coça, embora eu não o alcance com o esquerdo. Pelo tato das mãos percebo as profundas fissuras no colchonete que me serve de cama, onde minhas palmas descansam impotentes.
A lua galga sua jornada celeste, completamente cheia, lançando sobre nós uma luz brilhante que ultrapassa facilmente os galhos da castanheira.
Eles não conversam entre si quando entram na sala que estou. Um deles – ou doutor – veste um jaleco branco, às vezes aberto, por onde posso ver suas roupas civis. Os outros, embora usem também as mascaras de proteção, usam roupas comuns, geralmente camufladas, mas sem um padrão que eu possa identificar. Calculo que não são oficialmente militares, embora portem armas pesadas. Apontam para mim como se eu fosse uma ameaça. E quando me balanço na maca ele se empertigam, dando passinhos assustados para traz.
Como posso causar medo neles, se estou tão vulnerável?
Sinto cheiro. Cheiros diversos, variados, saborosos. Esquisitos também. O de suor, claro. Urina, mas essa é minha. O suor deles é diferente – exala medo – mais medo do que de costume, eu consigo sentir. Minha boca saliva, um deles fez a barba a pouco tempo, eu sei porque sinto o cheiro da espuma de barbear, e deve ter se cortado no processo. Sangue. Minha boca se abre ainda mais e consigo umedecer meu nariz com a linha. Isso deixa os odores ainda mais fortes. Ainda mais feroz se torna a fome.
Eu tina certa hiperatividade. Algo sobre meus lobos frontais serem menos desenvolvidos do que os de uma pessoa “normal”, por isso nunca consegui fixar minha atenção em uma coisa só. Vivia praticando hobbies que me mantivessem em movimento, pedalava, corria, mantinha uma lista de jogos para computador que eu variava constantemente e, um cachorro para me manter ocupado.
A dificuldade em me concentrar permaneceu apesar das circunstancias. Sei que os homens armados aparecem ao mesmo tempo em que a sensação estranha e eufórica de medo, certeza, raiva e fome.
A consciência das coisas se torna mais ampla conforme o tempo passa. Minha própria forma se altera, agora é possível compreender. Vejo as coisas como nunca havia visto antes. Isso me causa tanto incômodo quando as amarras que me mantém deitado. A liberdade, imposta dessa maneira tão ampla, pode ser tão claustrofóbica quanto um buraco escuro.
Os momentos de lucidez parecem maiores, mesmo com o doutor sendo tão veloz quanto antes em me aplicar seu soro. Meu cérebro é outro agora, mas eles não sabem disso. Inevitavelmente, acabo dormindo de novo.
O farfalhar no mato próximo faz com que ela se assuste, e eu ponho a cabeça para fora da barraca para tentar ver o que o produz. A escuridão é densa, mas os passos ao redor não se aproximam. Ela alimenta a fogueira e corre para dentro da barraca. Enquanto ela tenta se aquecer imagino ter visto o brilho do fogo renovado refletido em um par de olhos grandes, tornados vermelhos pelo fogo. Mas o relance foi tão breve que o ignoro como sendo fruto da imaginação.
À noite, no entanto, enquanto durmo, sinto uma familiaridade que não deveria sentir. Às vezes, meu cachorro entrava no quanto, durante a noite e quietinho se aconchegava ao meu lado entre as cobertas. O que perturbou meu sono trouxe a mesma sensação, mas com características distintas que fizeram brotar um horror crescente que posteriormente me fez acordar. Não era meu cachorro, eu sabia. Ele nunca havia ficado muito tempo sem banho, e o cheiro era extremamente desagradável. O calor era familiar, mas muito mais intenso. O barulho é que se destacava mais nitidamente. Não ganidos agudos de medo e solidão, mas pressões constantes e ritmadas. A batida de um coração? Não, é alto demais. Eram húmidos, crocantes às vezes. Mordidas? Talvez. Mastigação. O que ela estaria comendo em plana madrugada?
Minha nova ampla consciência aparece quando abro os olhos. O barulho dos disparos é alto como os trovões da tempestade. Sinto como se tivesse ligado uma televisão que estava no volume máximo ao ser desligada e o que ela transmite é um filme de ação exagerado, bem no meio de uma das cenas de tiroteio.
É como se eu continuasse estático, mas percebo meus membros se movendo com uma força que nunca tive. São grandes e cobertos de pelos negros. Vejo, centímetro a centímetro, meus dedos se alongarem em garras sobre-humanas. As amarras se desfazem e com movimentos rápidos os homens próximos se tingem de vermelho.
O ser que me tornei consegue sair da maca. O doutor, que estava encolhido em um dos cantos com uma grande seringa na mão, parece desesperado. Seus olhos estão grudados em mim mais ostentam uma expressão de pânico total.
Esforço-me ao máximo para controlar esse corpo grotesco. Viro-me na direção do charlatão que usa mascara de medico e consigo me sentar. Vejo-o bem de cima como se eu tivesse adquirido uma estatura superior, enquanto ele despeja lagrimas de medo. Assim que tento ficar de pé, perco o equilíbrio.
Não por causa da falta de uso das pernas, mas pela falta que há logo abaixo do meu tornozelo direito. Enquanto caio, sinto a dor de um disparo em minhas costas. Girando o tronco, consigo abocanhar um dos braços do médico e lançar minhas garras no rosto do atirador. Arrasto a presa em minhas mandíbulas, mas o medico espeta aquela agulha, que mais parece uma ponta de lança, em mim.
Os disparos anteriores quase não foram percebidos. Se me acertaram eu nem tive conhecimento. Mas esse último não só acertou como foi doloroso. Queima como fogo. Eu despenco com tudo em meio aos gritos de dor e como ultima brincadeira, antes de apagar novamente, aperto a mordida o máximo que posso.
Fecho os olhos sorrindo dessa vez.
O barulho aumenta quando me viro de lado dentro da barraca e acabo acordando com um rosnado. A fogueira, quase extinta, fornece uma iluminação parca que adentra pelos rasgos que o monstro fez na porta da barraca para entrar. O rosto da jovem está virado para mim, os olhos abertos, mas sem expressão. Estão opacos, já sem vida. A criatura não se dá ao trabalho de parar sua refeição que consiste em partes do corpo que antes pertenciam à mulher que eu amo. Eu grito.
O monstro se parece com um lobo, mas anda como gente. Seu focinho avantajado, adornado por presas afiadas que mastigam carne humana, sustenta olhos grandes que brilham com bestialidade e razão. Essa dicotomia me assusta mais do que tudo. Se fosse apenas um lobo ou mesmo um urso dentro da barraca, minha lógica urbana trataria do assunto de forma racional e poderia ser possível superar o trauma com ajuda apropriada. Mas aqueles olhos transmitiam consciência. Eu grito e esperneio e a criatura uiva.
Ela aperta minha face com uma pata – com a mão – que cobre facilmente todo meu crânio e bate algumas vezes minha cabeça contra o solo até que meus gritos se tornem apenas resmungos. O monstro olha da moça para mim, depois de mim para a moça. O brilho de entendimento em seus olhos me aflige, pois ele fala de crueldade. Ele larga minha cabeça, mas agarra minhas pernas e sem qualquer cerimonia abocanha meu pé direito com a mesma facilidade que um acidente com uma serra elétrica arrancaria.
Meus gritos encontram passagem novamente por uma garganta seca, desta vez contendo, além de horror, a força de uma dor excruciante.
Escuto disparos enquanto a criatura admira minha condição deplorável, e antes que eu compreenda o que as vozes que se aproximam dizem, sou arremessado para fora da barraca como um boneco, um cadáver já sem vida, pois não tenho qualquer reação.
Acordo, fora da maca, com os gemidos do médico. Estou assustado e com frio e tremo incontrolavelmente.
O lugar está uma bagunça de corpos, sangue e buracos de bala. O medico se arrastou para perto do homem que derrubei por ultimo e está tentando pegar a arma de sua mão morta.
Sento-me e percebo o quanto emagreci. A propósito, analiso minhas mãos, meus braços, pernas e o resto do corpo, e parecem normais de novo. Controlo a tremedeira o melhor possível e me apoio à maca tentando me erguer. A compreensão aumentada das coisas continua comigo e sinto os odores com total precisão, como antes. São tão fortes e fáceis de notar que quase formam rastros em pleno ar para que eu possa segui-los.
O doutor me vê e começa a chorar. Tenta desgrudar os dedos rígidos do soldado morto do cabo do revolver. Eu procuro me adiantar para impedi-lo, mas com um só pé, jamais conseguirei.
 “O que é tudo isso?” eu pergunto, levantando as palmas abertas para que ele entenda que não quero mais problemas.
“Você se transformou” ele responde. Com a mão que lhe resta consegue finalmente empunhar a arma. Eu me sento em frente a ele, ouvindo os batimentos do seu coração se acelerarem.
“Do que você está falando? Que droga é essa?” eu prossigo.
Ele engatilha a arma. “Nós somos caçadores” ele quebra o silencio. “Estávamos atrás daquela fera ha muito tempo. Infelizmente não conseguimos pega-la antes que ela pegasse vocês”.
“Logo outros estarão aqui. Não é pessoal, rapaz, você precisa entender. Você está contaminado. Foi a primeira vez que conseguimos um espécime para estudar”. Ele ergue a arma e eu protejo meu rosto com os braços mesmo sabendo que isso é inútil, por reflexo.
Quando ele sorri, eu baixo a guarda. “Isso?” ele mostra a arma. “Não é para você. São balas de prata, tenho certeza de que você sentiu o tiro.” Ele interrompe a gargalhada demonstrando muita dor.
“Não, não é para você” ele repete. “É para mim.”
Ele diz e, antes que eu possa fazer qualquer coisa, ele leva a arma até sua têmpora, fechando os olhos lacrimejantes. Antes de apertar o gatilho, diz apenas uma palavra:
“Lobisomem”.

Alex Rebonato é capixaba, formado em História, RPGista, Aikidoísta, Asatrúar, e escritor nas horas vagas. Tem contos publicados am antologias como “Teslapunk”, “Mundo ao Contrário”, “Canarinho” e “Antologia Sombria”.



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UÍSQUE, CIGARROS E OUTRAS COISAS QUE MATAM - Conto de Terror - Gustavo Henrique Silva Peres



UÍSQUE, CIGARROS E OUTRAS COISAS QUE MATAM

(Gustavo Henrique Silva Peres,  Menção Honrosa do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror)



Há cerca de um ano, Luan viu Solange pela primeira vez, em um vôo a trabalho, e sentiu uma profunda tristeza ao pensar que nunca mais a veria novamente depois que o avião pousasse e saíssem do aeroporto, a não ser que falasse com ela e descobrisse alguma informação importante antes disso. Duas horas depois, ao lado da esteira de bagagens, ele pousou sua mão sobre a dela no momento em que ela pegava uma mala multicolorida que passava, passou os olhos sobre os dados na etiqueta de identificação, e se desculpou. “Confundi com a minha”, disse ele. Os dois sorriram, ele timidamente, ela quase gargalhando ao reparar no traje formal que ele usava, e que em nada combinava com a mala em suas mãos. “Ou confundiu ou é o pior ladrão de bagagem da história deste aeroporto”, ela respondeu, ainda sorrindo, enquanto esperava uma segunda mala, e ele retirava uma sacola de couro preto da esteira. “Mas consegui o que eu queria”, ele disse antes de se separarem, “seu nome, seu telefone... e um sorriso”.         
Há seis meses, os encontros entre os dois haviam se tornado quase tão frequentes quanto os desencontros entre o sol e a lua. E numa noite, enquanto conversavam na cama sobre o que desejavam para o futuro, ela disse sorrindo: “estar com você”. Após pensar por alguns segundos, ele decidiu que era hora de mudar de trabalho, e respondeu: “casar com você”.
Há dois meses e quinze dias, com um novo emprego em vista, ele procurou um padre em uma igreja para tratar do casamento religioso e para se confessar, como deveria fazer antes da cerimônia. Decidiu confessar apenas os pecados que eram crimes, e não dedicar mais que um minuto a cada um deles, para não tomar muito do pouco tempo que o padre devia ter para ouvir outros cristãos melhores que ele. Mais de uma hora depois, confessou o último assassinato cometido a mando de alguém, e ouviu a sua condenação religiosa pelo sacerdote: permanecer ali orando até que anoitecesse e que o padre, após refletir por horas, retornasse para sentenciar uma penitência maior por seus atos. “Conheço pecados piores que os seus, e pecadores que sempre os cometem e nunca se arrependem, filho. Mas você ainda pode ser perdoado. Pra isso, deve usar suas habilidades pra livrar o mundo de um mal maior que o que elas causaram. Deve matar um matador ainda pior que você... e eu te direi onde encontrá-lo”, disse o religioso.
            Há um mês, Luan partiu para executar sua última vítima: um homem assustadoramente pálido que, acompanhado de uma bela garota, saía de uma casa noturna com o nome “INSIDE LIGHT” piscando em uma luz azulada sobre a porta dupla da entrada. Num piscar da luz, uma bala do seu rifle foi colocada, sem dificuldade, entre os olhos do alvo e saiu, com grande estrago, do outro lado de sua cabeça. A garota gritou e correu para trás da proteção mais próxima. Mas o sangramento cessou, o ferimento fechou e o alvo se levantou do chão, enxugando o sangue da testa, enquanto Luan observava atônito pela mira do rifle e disparava outro tiro. O segundo não fez mais efeito que o primeiro. Ele falhou e foi visto pelo alvo, que desapareceu antes que uma terceira bala pudesse ser atirada.
            Há vinte e nove dias, ele esteve com o padre novamente, para contar o ocorrido e exigir explicações. Mas as explicações não faziam sentido. O próprio padre não acreditava totalmente nelas, até então. E, no fim daquela noite, após ter parado para beber em cada bar pelo qual passou no caminho de volta ao lar, Luan encontrou a porta de sua casa arrombada, seus móveis quebrados, e partes do corpo da mulher – dedos, mãos, pés, braços e pernas - espalhados pelos cômodos. Sobre sua cama encontrou o que sobrou da mulher que amava, mas em seu belo rosto o sorriso fora trocado por uma expressão de pavor que a tornava quase irreconhecível. E, ao lado dela, uma caderneta aberta onde estava escrito, numa cor avermelhada: “QUANDO SE OLHA MUITO TEMPO PARA UM ABISMO, O ABISMO OLHA PARA VOCÊ”.
            Na noite passada, Luan voltou à Inside Light e esperou pelo homem do abismo até o amanhecer, como fazia todas as noites desde a morte de Sol. Mas, como nas noites anteriores, ele não apareceu. No seu lugar, encontrou a bela garota que estava com ele quando tentou matá-lo. Esperou que a garota fosse embora e se afastasse do movimento, parou o carro ao lado dela e lhe apontou uma arma, ordenando que entrasse no veículo sem chamar atenção. Alguns minutos depois a levou de volta à casa noturna e a jogou desacordada para fora do carro, sangrando. No corpo dela havia escrito, com a lâmina de uma navalha: “EU SOU O ABISMO”.
Há uma hora, assim que a noite caiu, Luan ligou o antigo aparelho de som para ouvir as músicas de que Sol mais gostava, e se sentou na poltrona da sala com uma garrafa cheia de bom uísque escocês e dois copos nas mãos. Encheu um copo com uísque e no outro apenas pingou algumas gotas do líquido de outro frasco menor, tirado do bolso do casaco, e deixou os copos, a garrafa e um novo controle remoto na pequena mesa ao lado. Acendeu um cigarro, previamente embebido em veneno de uma rara rã amazônica que havia comprado de um traficante de animais, e começou a fumar calmamente, olhando com desprezo para o crepúsculo falsamente romântico além das janelas, enquanto esperava a visita da morte.
            Uma bela voz de mulher, que ele nunca sabia ao certo a qual diva da música pertencia, começou a cantar no aparelho de som: “summertime, child, the living's easy”. Mas os latidos de cães, que ele havia recentemente adotado como companhias e prendido num dos quartos, tornavam ainda mais difícil identificar a dona da voz. E antes que a música chegasse ao fim, prometendo “until that morning, honey, nothing's going to harm you”, os latidos se tornaram mais altos e furiosos.
A morte chegou. Não na forma de um veneno raro, mas de um raro ser, que também matava, mas que não podia ser morto nem mesmo por venenos. Sua pele era jovem e clara, em contraste com seus trajes velhos e escuros, e olhos vermelhos e presas salientes se destacavam em seu rosto, emoldurado por cabelos desgrenhados e tatuagens que desciam das orelhas aos ombros. Entrou pela porta aberta da varanda, e se moveu rápida e furtivamente até a poltrona, cravando os dentes no pescoço de Luan.
Por alguns instantes, Luan não reagiu, pois o veneno em seu sangue havia paralisado seus músculos. Os cães, por sua vez, latiam cada vez mais forte do outro lado da porta do quarto em que estavam presos, até que ele deixou cair a mão sobre um dos botões do controle remoto na mesa ao lado e a porta eletrônica recém-instalada no quarto se abriu com um clique.
Três enormes mastins, furiosos, empurraram a porta e saltaram para fora do cômodo em direção ao intruso, antes que este pudesse fazer qualquer coisa além de arregalar os olhos. As mordidas e os gemidos de dor vieram em seguida. Por alguns minutos os cães e o vampiro lutaram ferozmente, até que, muitos ferimentos depois, o último cão em pé foi arremessado contra uma das paredes e perdeu os sentidos.  
O intruso se voltou então para o anfitrião, que assistia à cena a uma pequena distância, e, ao tentar alcançá-lo, caiu no chão. A luta tinha lhe causado mais do que ferimentos. Após todo o esforço feito, o veneno no sangue sugado minutos antes tinha atingido seu efeito máximo no novo corpo, paralisando-o e levando-o ao chão, onde ficou quase imóvel.
Com um leve toque, Luan empurrou o copo de uísque da mesa ao lado para cima do vampiro caído aos seus pés. Em seguida, com um pouco mais de força, fez o mesmo com a garrafa sobre a mesa, arrebentando-a no impacto contra a cabeça do outro e encharcando-o com a bebida. Por fim, levantou-se com dificuldade e, já com menos do veneno e mais do antídoto do outro copo no corpo, afastou-se alguns passos, acendeu outro cigarro, não envenenado, e encheu os pulmões. Deu uma tragada apenas e lançou o cigarro aceso na direção do corpo caído, imóvel, sobre o piso de madeira também encharcado de uísque. E o fogo atacou, ainda mais impiedosamente que os mastins ou o próprio vampiro.
Um alarme de incêndio tocou, Luan saiu da casa em chamas e caminhou pela rua, apoiado em duas muletas previamente deixadas perto da porta. A certa distância, parou e tirou do bolso do casaco uma velha caderneta. Abriu em uma página contendo uma lista de palavras sob o título “COISAS QUE MATAM” e escreveu, logo abaixo das linhas onde estavam anotadas “LUZ DO SOL”, “PERDER A CABEÇA” e “FOGO”: “ÚISQUE E CIGARROS”.


Nascido e criado na cidade de Uberaba, no interior de Minas Gerais, Gustavo Henrique Silva Peres formou-se em Direito pela Universidade de Uberaba em 2002 e transformou-se em servidor público do IBAMA em 2004, quando se mudou para Brasília e passou a ter oportunidades de conhecer pessoas e lugares incríveis do Brasil inteiro que antes só podia conhecer por histórias. Especializou-se em Desenvolvimento Sustentável e Direito Ambiental pela Universidade de Brasília em 2006. Conheceu mais algumas pessoas e lugares incríveis também fora do Brasil nos anos seguintes, em viagens a lazer ou estudos. Entre 2013 e 2015 estudou um pouco de espanhol em Barcelona, de inglês em Londres e iniciou um Mestrado em Estudos Ambientais em Buenos Aires. Mas sua grande paixão sempre foi por histórias, que fizeram dos RPGs seu passatempo predileto desde os 16 anos até hoje.  



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O SACRIFÍCIO PARA O CHUPA-CABRA - Conto de Terror - Henrique Santos



O SACRIFÍCIO PARA O CHUPA-CABRA
(Henrique Santos, Menção Honrosa do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror)

Quando criança, eu costumava sentar na calçada junto com os adultos e com os velhos para ouvir suas histórias e lendas. Como eu queria que eles estivessem mentindo! O curioso nisso tudo é que, para o meu azar, eu não aprendia as valiosas lições que nelas continham. Na hora de meu deitar, quase sempre eu ia dormir com medo. Acho que por que no fundo eu sabia que essas terras têm dessas coisas. O interior onde eu moro é cheiro de segredos, e eu descobri isso da pior forma possível.
Foi naquela maldita noite, depois de brincar com os amigos. Eu estava indo para o curral com meu vô, que andava lentamente com a ajuda da bengala, quando ele me começou a me contar uma história que tinha acontecido com ele:
Meu filho, existe muita coisa que você não sabe. Algumas delas, graças a Deus, a gente pode evitar; outras, não há como fugir. É o caso do chupa-cabra.
Desconfiado e já começando a ter medo, eu perguntei:
Como assim, vô?
A noite e seus animais guardam inúmeros segredos. Seus bichos são perigosos e obscuros. Eles guardam os mistérios da noite. Alguns são trazidos pelas fases da lua, como a de hoje; outros, pelos homens. Por isso, respeite a noite e nunca faça mal às suas criaturas.
Explica melhor, vô.
Nunca mate um morcego ou uma coruja, aliás não mate nenhum animal à noite, nem pra comer.
Por quê? —perguntei gaguejando.
Mistérios dessas terras, meu filho. A morte deles traz os bichos das sombras, além de mal agouro!
Quais bichos, vô?
Espantalhos, lobisomens, carrancas, visagens, almas de bicho, chupa-cabras e outras criaturas que você nunca ouviu falar.
Deus me livre, vô! E esses bichos matam?
Podem matar sim, dependendo do que você fez. Eles são muito perigosos.
Mas, vô, o senhor realmente já viu algum bicho desses? —perguntei querendo não acreditar nessas coisas.
Sim. Uma vez eu atraí um chupa-cabra para essas terras por ter matado uma coruja.
Como foi isso, vô?
Meu filho, o interior do Ceará é repleto de mistérios e coisas sombrias. Eu sabia que não era bom matar corujas, pois meu pai já tinha me avisado. Mas eu era teimoso. Uma vez eu e os filhos do Zé das tapiocas saímos para caçar passarinhos para vender na feira de domingo. Lembro como se fosse hoje. Era tardinha, acho que seis horas, a hora do anjo, e o céu estava vermelho cor de sangue, o que já é um mal sinal. Foi nesse momento que avistamos uma coruja pousar no toco da cerca de arame farpado. Eu e os outros estávamos atentos com baladeiras nas mãos. Lembro de todos terem hesitado em atirar nela, mas eu, querendo mostrar coragem, mirei na alva coruja e sem demoras atirei. A pedra foi certeira. De longe se viu apenas ela caindo e uma pena voando com o vento. "Acertei!", eu gritei. Logo fomos à procura dela. Pelo tiro, ela com certeza tinha morrido, mas mesmo assim dava pra tentar vender pro Seu Luís, o macumbeiro.
E aí, o que aconteceu depois, vô?
Procuramos ela, mas não encontramos nada. O que era estranho, pois todos viram que ela tinha caído próximo ao toco onde estava. Mesmo assim continuamos a procura. Nesse instante o céu sangrento já tinha dado lugar à noite de lua, mas a gente ainda estava procurando a rasga-mortalha em meio ao matagal. Foi aí que à nossa frente, a uns 10 metros de distância, vimos algo se mover por trás dos matos do outro lado do riachinho. Logo ficamos animados, pois a gente já estava desistindo da procura. Porém, nossa alegria durou pouco, porque o que estava no mato nos observando era outra coisa. Meu Deus! Essas coisas existem! Me arrepio só de lembrar. De trás do mato saiu uma coisa com cerca de 2 metros de altura, branca, sem braços ou pernas, com olhos grandes e pretos e com o que parecia ser um bico curvado na frente. Na hora a gente pensou que era algum dos meninos vestido com um manto branco fazendo alguma brincadeira, mas a coisa, quando se moveu em nossa direção, flutuou no ar atravessando o riachinho e pousou no outro lado. Todos nós ficamos imóveis e com olhos arregalados. Aquilo foi pavoroso. O grito em seguida foi inevitável. Assim que pensamos em correr, a coisa abriu suas asas brancas e imensas e veio voando em nossa direção. Nós corremos como nunca. Graças a Deus ela não conseguiu pegar ninguém.
Essa coisa era o chupa-cabra?
Não. Assim que eu contei pro pai, ele disse que era uma alma de bicho que a gente tinha visto.
Alma de bicho?
As almas de bicho são criaturas da noite que marcam as pessoas que fazem mal a algum animal, segundo meu pai disse já aflito no momento em que confessei o que eu tinha feito. A aflição dele logo deu lugar à fúria. Levei uma surra por ter feito o que não devia, mas o que mais me doeu foi o desespero dos meus pais, temendo o que estaria por vir. A mãe na mesma hora me levou para a rezadeira que tentou de tudo para tirar a mira da alma de bicho de mim, mas não conseguiu: eu continuava marcado. Na fazenda, o pai, no curral, queimou palha benta de Dia de Ramos e chifre de boi para afastar os bichos da noite ou coisa pior. Em cada porta e janelas, ele com carvão desenhou uma grande cruz.
E o senhor, vô?
Eu era apenas um menino ingênuo e teimoso. Estava completamente perdido sem saber o que fazer, aliás nem sabia o que estava acontecendo. Eu só entendi que algo ruim ia acontecer comigo e que os adultos sabiam dos mistérios dessas terras, mas não contavam às crianças. Em nenhum momento meu pai falou que pelo o que fiz à coruja, eu iria atrair um chupa-cabra, até por que uma revelação dessa me deixaria mais em pânico.
E depois?
As horas foram se passando. Eu e a mãe já estávamos em casa com o pai. Já era bem tarde, e não tinha mais o que fazer: só esperar que Deus ouvisse as nossas preces. O pai e a mãe estavam no quarto e eu na rede da sala, foi quando terminei de rezar que avistei um cassaco, um bicho que o povo da cidade chama de gambá. Ele estava imóvel entre os caibros de carnaubeiras do telhado me olhando e mostrando com raiva os dentes. O mais estranho é que ele tinha olhos vermelhos como chamas, parecia um demônio me agourando. Imediatamente gritei pelo pai. Com meu grito, o animal fugiu para as sombras soltando um odor insuportável pela casa. Quando meu pai veio, disse que depois de matar um animal da noite, um outro aparece para reconhecer quem fez a maldade. Era o primeiro sinal. Quando o pai terminou de falar, meu nariz começou a sangrar e logo em seguida vomitei no chão mesmo, pois não deu tempo nem de sair da rede. Nesse momento, a mãe correu para me abraçar. Os dois já estavam desesperados com a situação, porque não tinham mais como me ajudar. "Passar mal é o segundo sinal", disse o pai. Quando a mãe foi fazer um chá enquanto o pai rezava um ofício secreto de Nossa Senhora que ele escondia atrás do quadro da Virgem, ouvimos um grande mugido de dor vindo do curral. O pai desesperadamente pagou a espingarda, abriu a porta de trás e saiu correndo para lá, e eu mesmo passando mal também fui. Como você pode ver, o curral fica longe da casa, então depois de alguns minutos chegamos lá e vimos a pobre vaca coberta por morcegos que sugavam seu sangue. A infeliz corria para todos os lados e se roçava nas paredes do curral para espantar aqueles ratos com asas, mas quanto mais ela matava alguns, mais apareciam para chupar seu sangue. Na hora, peguei um cabo para espantar os morcegos, mas o pai me impediu, dizendo que era o terceiro sinal, o sacrifício de um animal da pessoa que tinha feito o mal a um bicho da noite. O boi e a ovelha estavam descontrolados. Não havia morcegos neles, mas eles pareciam sentir que algo sombrio estava acontecendo. O pai, mesmo chorando com pena da vaca, retirou os outros dois bichos e trancou a porta do curral com a vaca dentro.
Meu, Deus!
A culpa me corroía por dentro. Tudo aquilo era minha culpa. Depois da gente voltar para casa, lembro de ter visto o pai de cabeça baixa com as mãos no rosto e cotovelos na mesa da cozinha. Ele estava desesperado. Minha mãe envolvendo minha cabeça em seus braços, rezava chorando. Alguns instantes depois, ela perguntou para o pai sobre a ovelha e ele disse que já tinha amarrado ela aos pés do espantalho. Nesse momento, um forte vento passou pela casa e todas as lamparinas se apagaram misteriosamente. O sopro da escuridão, como ela disse aterrorizada. Era o quarto e último sinal. O pai se levantou nervoso com o susto e perguntou "viu se está tudo trancado, Odecilha?” e ela respondeu que sim. Eu estava apavorado, aflito e com pena de meus pais. Não sabia o que estava para acontecer. Foi aí que meu pai disse "ele vai tentar entrar na casa!”. Ouvindo isso, perguntei de uma vez quem estava vindo e foi quando ele enfim me revelou que um chupa-cabra tentaria entrar em casa para me pegar. Foi difícil conceber a ideias que essas coisas existem. Fiquei sem saber como reagir. O medo tinha me dominado por completo. “Você está usando o seu escapulário?", o pai perguntou; eu, balançando a cabeça nervoso e gaguejando de medo, respondi que sim. Em seguida, ele trancou minha mãe no quarto e não deixou que ela me levasse para lá. “Você sabe que ele não pode fugir”, ele gritou. Instantes depois do vento, algo bateu na porta da cozinha e começou a tentar quebrá-la. “Ele chegou, meu filho! Deus tenha piedade de nós!”. Rapidamente eu e o pai corremos para a cozinha. Cada vez que a criatura batia na porta, minha mãe, no quarto, fazia uma prece a Deus. Olhei para o pai e vi suas mãos tremendo segurando a velha espingarda. Sua respiração estava como a minha, muito ofegante, assim como o coração que parecia que ia explodir de tão forte que batia no peito. “Não posso atirar”, ele confessou. Pelo que entendi, se ele tirasse, o animal ficaria descontrolado e poderia tentar entrar pelo telhado, o que seria o meu fim. Segundos de pânicos depois, o bicho parou de tentar quebrar a porta e começou a colocar seu focinho nas brechas. Dava para ouvir a respiração e o rosnar da criatura. O chupa-cabra estava sentindo o meu cheiro. Ele sabia que eu estava lá, com medo e com culpa. Coisa assustadora! Nunca havia passado por tanto pânico na minha vida. Lembrar daquela escuridão da casa e do som do rosnar daquela criatura na porta é perturbador. Depois de alguns instantes o monstro se distanciou da porta. “As cruzes funcionaram”, disse o pai um pouco mais aliviado. Eu, em estado de choque, nem tinha notado que tinha pegado uma faca para me defender e que estava com as pernas bambas.
O chupa-cabra tinha ido embora, vô?
Não. O silêncio só durou alguns instantes, pois logo ouvimos o berro de dor da ovelha. O pai foi correndo para a porta da sala, entregou espingarda para mim e disse que no momento em que a ovelha parasse de berrar, ele iria abrir a porta e eu tinha que sair, ficar de cara com o mostro, dar um grande grito encarando a fera e tirar para cima, pois só dessa forma o chupa-cabra saberia que tinha levado a vida da ovelha no lugar da minha e assim iria voltar para as sombras de onde veio. Era um tipo de ritual, coisas que os velhos conhecem e escondem dos netos. “Não há outra forma de me livrar da fera”, dizia o pai gritando. Tendo ouvido isso, fui tomando coragem para fazer tal ato. Segundos depois, a ovelha parou de berrar. O pai gritando comigo, rapidamente abriu a porta; eu então me benzi, segurei firme a espingarda e corri em direção ao espantalho onde estava presa a ovelha. Chegando lá pude ver a poucos metros de mim aquela criatura monstruosa de cor escura, orelhas pontudas, focinho longo, com grandes olhos vermelhos e garras estraçalhando o resto da ovelha...
Nesse momento, chegando em frente ao curral, o vô interrompeu sua história e ficou em silêncio. Sua expressão logo mudou, suas mãos começaram a tremer e ele deixou cair sua bengala. "O que foi, vô?". Ele não respondeu, só apontou para cima da porta do curral e então eu vi um grande cassaco de olhos vermelhos me encarrando. O vô lentamente se virou para mim e já lacrimejando viu meu nariz sangrar. Eu, apavorado, já vomitando de cabeça baixa, vi o vô devagar abrir o curral, acender a luz e pôr as mãos na cabeça em desespero. Sua vaca estava sendo atacada por morcegos. “O que você fez?”, ele gemendo perguntava pra mim sem parar. Eu, já chorando de medo e remorso, implorei o perdão e a ajuda dele, foi quando passou um forte vento e a única luz do curral misteriosamente queimou. Tudo ficou na total escuridão. Até a lua se escondera nas nuvens carregadas. Chorando desesperado e ainda passando mal, eu gritava pelo vô que eu ouvia chorar e soluçar à minha frente. Com a tontura e o pânico, perdi as forças das pernas e caí de joelhos, foi quando senti um rosnar quente e ofegante atrás de mim e ouvi logo à minha frente a voz rouca e triste do vô dizendo “me perdoa, meu filho, mas eu vendi a última ovelha”.


Luiz Henrique Cardoso dos Santos, que assina simplesmente Henrique Santos, é um escritor de contos e romances, formado em Letras Português e Literaturas e especialista em Ensino de Literatura. Em 2016 venceu o Concurso Literário da SEDUC-CE, tendo seu primeiro romance O Segredo do Cemitério São João Batista publicado. Em maio de 2017 teve seu conto Almas da Lua publicado na Antologia de Contos A Arte do Terror Vol. 4. Em novembro do mesmo ano teve os contos Mamãe e A Sinfonia Amaldiçoada que Criei publicados na Antologia de Contos A Arte do Terror Vol. 5.

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LANÇAMENTO DA FREE BOOKS EDITORA: A MULHER VAMPIRO DE E. T. A. HOFFMAN



A MULHER VAMPIRO de E.T. A. HOFFMANN
(Em e-PUB, MOBI e PDF)


Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776 — 1822), nascido Ernst Theodor Wilhelm Hoffmann, é um dos pais da literatura gótica. Além de escritor, era músico, compositor e desenhista. Autor de clássicos como “O Homem da Areia” e “O Elixir do Diabo”, exerceu imensa influência na literatura fantástica do século XIX, atraindo a admiração de escritores estrangeiros como Charles Nodier, Gérard Nerval, Alexandre Dumas, Allan Pöe, Charles Baudelaire, Puchkin, Gogol, Gustavo Bécquer, dentre muitos outros.

Na presente obra, Conde Hipólito enamora-se de uma parente nobre, porém empobrecida. Após o casamento, a jovem mulher passa por transformações tais que despertam a desconfiança do marido. Agora pálida, melancólica, ela sente repugnância por alimentos e parece fugir todas as noites do castelo, voltando apenas de madrugada... “A Mulher Vampiro” — de E. T. A. Hoffmann, um dos maiores nomes da literatura fantástica de todos os tempos —, conto inspirado nas Mil e Uma Noites[1], é um clássico da literatura gótica alemã.




O objetivo de Free Books Editora Virtual consiste em publicar e disponibilizar gratuitamente obras em prosa de autores brasileiros ou estrangeiros em língua portuguesa.

Além disto, publicamos obras clássicas, escritas por grandes mestres da Literatura Universal.  As nossas traduções são originais ou de tradutores cuja obra está em domínio público.



[1] Vide o conto “A História de Sidi Noman”, em “Histórias de Terror da Idade Média” de EDIÇÕES TRIUMVIRATUS.



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A JUSTIÇA DO SULTÃO MURAD - Lenda - Conto de Horror - Anônimo do séc. XIX



A JUSTIÇA DO SULTÃO MURADE
Anônimo do séc. XIX

No reinado do sultão Murade I[1], vendo-se um turco sem mulher e sem filhos, e querendo ir de romaria a Meca, julgou que a ninguém melhor podia confiar o que de mais precioso tinha do que a um hoggia, isto é, doutor em leis. Entregou-lhe, pois, algumas joias dentro de um saquinho, e pediu que as tivesse em boa guarda até a sua volta, com a condição de ficar delas herdeiro, se durante a projetada viagem ele viesse a falecer.

O peregrino voltou felizmente de Meca e, querendo receber de volta o que havia confiado ao hoggia, exigiu a fiel entrega do seu depósito; mas o doutor, com sangue frio imperturbável, lhe respondeu que nada sabia do que o outro pretendia, deixando-o, assim, sobremodo surpreendido com uma réplica de todo inesperada.

Como o negócio se tratara só entre eles, dissimulou o peregrino o seu pesar e, passados alguns dias, procurou o grão-vizir[2], a quem relatou o que ocorrera.

Vendo o grão-vizir que o negócio era delicado, e que o doutor negaria facilmente o que ninguém presenciara, respondeu ao peregrino que por alguns dias tivesse paciência, prometendo que levaria o seu o seu caso ao grão-senhor[3]. Este, informado da questão, ordenou ao vizir que, com cautela, investigasse o caso em profundidade; que mandasse procurar o doutor e fizesse amizade com ele, e que lhe desse esperança de ocupar cargos elevados em seu sultanato.

Alguns dias se passaram, enquanto o grão-vizir representava o seu papel. O doutor o fez chamar junto de si. O vizir louvou-lhe o talento e a conduta. Embalando-o com promessas, deu-lhe a esperança de que, um dia, poderia prostrar-se aos pés do Sultão, pois não seria justo que um espirito tão sublimado permanecesse oculto a sua alteza o grão-senhor.

O doutor, encantado com tal discurso, julgou-se já na maior grandeza, sobretudo desde que viu que o vizir o faria seu hoggia ou, como nós diremos, seu mordomo.

Mas não pararam aqui as coisas. O vizir, por ordem secretamente recebida do grão-senhor, mandou que o doutor lhe desse conta de quantos casos criminais acontecessem. O grão-senhor, ouvido o relatório do hoggia, lhe perguntava a sua opinião além do o castigo que o culpado mereceria pelo crime comprovado, sendo sempre a execução da pena realizada em conformidade com a sentença apresentada pelo hoggia, a quem o sultão havia nomeado magistrado-relator, e a quem dera emprego em sua casa.

Cinco ou seis meses haviam decorrido sem que se mostrassem indícios da apropriação indébita. Mas cumpre ter em vista que o peregrino dera ao grão-senhor exata descrição dos objetos que havia guardado no saquinho. Entre outros, fez ele especial menção a um tes-buch de primorosíssimo coral. Este tes-buch é uma espécie de rosário de noventa contas, que serve aos muçulmanos para repetirem certas palavras, tiradas de sentenças do Alcorão. Este rosário se divide em três partes de trinta e três contas cada uma, que são separadas por um cordão, e tem por pingente um grande coral, seguido de uma esfera de igual matéria e de espantosa magnitude. Os turcos devotos levam sempre um rosário domo este na mão quando vão visitar alguém, sobretudo quando se dirigem a grandes autoridades.

Um dia em que o hogia levou este rosário ao palácio do sultão, o grão-senhor viu perfeitamente o objeto, e julgando, com razão, que talvez fosse o do queixoso, louvou, na presença do doutor, a sua rara beleza. Submisso, o doutor se apressou a oferecer-lhe a joia, e o grão-senhor a aceitou com sinais de gratidão. Mas não lhe bastava um só indicio; outros queria ter. Como sabia que no saco havia um anel, obra de antigo e excelente mestre (os turcos, quando atiram com o arco, trazem o anel no polegar), esperou por outra ocasião para melhor descobrir a velhacaria, e provar cabalmente o crime praticado. Proporcionou-a o sultão, dias depois: mandando vir um dos seus pajens, que manejava bem o arco, foi à praça de Girit, onde também tomou um, porquanto não havia no império quem, no exercício do arco e da flecha, o excedesse em força ou destreza. Ao dobrar o arco, queixou-se porque o anel machucava-lhe o dedo, bem certo de que o doutor, que ali se achava, e lhe já tinha oferecido o seu rosário, não deixaria de adulá-lo, presenteando-o com o anel que subtraíra ao peregrino.

— Será possível — disse o grão-senhor — que já não haja artista que faça um anel tão perfeito como o finado Mohamed?

O doutor, a quem faltava agudeza para conhecer a trama que lhe urdiam, querendo insinuar-se mais nas boas graças do sultão, logo declarou possuir um anel daquele artista, que havia muito conservava, e que, se a sua alteza isso agradasse, incontinenti lhe traria.

Aceitou-o o grão-senhor e, retirando-se o doutor do palácio, mandou logo chamar o vizir e o peregrino. Com o rosário na mão, como quem orava, esperou para ver se o peregrino o conhecia.  Este reconheceu-o prontamente, bem como o seu anel. E, mandado vir o doutor, o sultão perguntou-lhe a pena que merecia aquele se apropriasse de bem cuja guarda lhe fora confiada.  Tão longe lhe estava da lembrança o que fizera no passado que, para mostrar grande justiça e severidade, logo disse que tal transgressor mereceria ser pisado vivo em um gral[4]. A estas palavras, o imperador o fez prender, mandou que guardas armados fizessem buscas em sua casa, e sendo encontrado tudo que pertencera ao peregrino, o doutor foi punido segundo a própria sentença que proferira. Para este efeito, furou-se uma pedra em figura de gral, onde o hoggia foi lançado nu e pilado vivo pela mão do algoz. Este gral ainda existia ainda há duzentos anos, época em que foi visto por Tavernier[5].

Fonte: Museo Universal, n. 2, 15 de julho de 1837.


[1] Terceiro soberano do Império Otomano, e primeiro a adotar o título de sultão, reinou entre 1359 e 1389.
[2] Primeiro-ministro do Império Otomano.
[3] Ou seja, o sultão.
[4] Recipiente côncavo que serve para triturar ou pulverizar ingredientes com pilão.
[5] Jean-Baptiste Tavernier (1605 – 1689) foi um aventureiro francês e pioneiro do comercio com a Índia.

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LEIA A COLETÂNEA: VAMPIROS, LOBISOMENS E OUTROS ENTES MONSTRUOSOS




VAMPIROS, LOBISOMENS E OUTROS ENTES MONSTRUOSOS 

A presente coletânea reúne os contos vencedores do Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror, promovido por Free Books Editora Virtual e Blog Contos de Terror.

O certame, de abrangência internacional, visou a homenagear o brilhante escritor irlandês no 170º ano de seu nascimento. O regulamento do concurso, publicado em novembro de 2017, conclamou escritores do mundo todo a concorrerem com contos sobre vampiros, lobisomens ou outros entes monstruosos.

​Verá o leitor, ao percorrer os olhos sobre estas páginas virtuais, o quão foi exitoso o nosso concurso, do qual participaram quase duas centenas de autores de três continentes. Em nossas páginas, encontrará o leitor obras inspiradas, exuberantes em estilo e criatividade, que vão do horror mais pungente ao mais refinado humor. 
FREE BOOKS EDITORA VIRTUAL


O objetivo de Free Books Editora Virtual consiste em publicar e disponibilizar gratuitamente obras em prosa de autores brasileiros ou estrangeiros em língua portuguesa.

Além disto, publicamos obras clássicas, escritas por grandes mestres da Literatura Universal.  As nossas traduções são originais ou de tradutores cuja obra está em domínio público.
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O MONSTRO DE LULWORTH COVE - Conto de Terror - Adnelson Campos



O MONSTRO DE LULWORTH COVE

(Adnelson Campos, Menção Honrosa no Concurso Bram Stoker de Contos de Terror)


O velho senhor aguardava pacientemente a chegada do bisneto que fora até a praça de cinemas comprar ingressos. Parecia indiferente ao tumulto gerado pelas pessoas que lotavam o lugar. A lembrança do filme assistido há poucos minutos deu lugar a imagem da fera de boca aberta e com os dentes cheios de sangue saltando em sua direção.
O pensamento foi interrompido pelo abanar dos bilhetes. O gesto do rapaz provocou um sorriso imediato no bisavô.
- Pronto, aqui estão!
- Muito obrigado, meu filho!
- Vô, me diz uma coisa, não é exagerado assistir um mesmo filme oito vezes?
- Ele me traz boas lembranças e é a oportunidade de resgatar um pouco do amor que já ocupou este desgastado coração.
- Então a Rose DeWitt lhe despertou paixão?
- Ela me fez lembrar certa pessoa.
- Espere aí, esta pessoa não é a minha bisavó?
- Você ainda viveu pouco, meu filho. Não há como comandar o coração, escolher o sentimento que temos pelas pessoas. Os muitos anos passados ao lado de sua bisavó foram felizes, mas antes dela, conheci uma garota, numa viagem entre a Inglaterra e a América do Sul. Em 1913, um ano depois do naufrágio do Titanic.
- Esta história está ficando interessante. Desculpe-me, mas sempre achei o senhor um pouco frio e não imaginaria uma história de paixão do Sr. Liam O’Connell.
- Talvez por que esta história não seja mais de terror do que de amor.
- Sempre senti inveja de quem teve a oportunidade de ouvir histórias sobrenaturais, contadas a luz de velas ou de uma fogueira pelo pai ou pelo avô.
- Só que a minha não é invencionice e talvez seja melhor que você não a conheça.
O rapaz continuou a acreditar que fosse confusão mental do velho. Talvez os filmes assistidos repetidas vezes lhe dificultassem diferenciar o real do imaginário.
- Está tarde, vô. O shopping vai fechar. E isto já não é mais hora de criança como o senhor estar na rua. Vamos descansar, quem sabe a Kate Winslet aparece no seu sonho.
- O nome dela era Christina Fisher.
- Que coincidência! É uma parte do nome da minha garota: Joyce Christina Fisher Baltimore.
- Talvez não seja uma mera coincidência.
- Da forma que falou, até senti um arrepio!
- Talvez seja melhor que você conheça a história. Você lembra do lugar onde seu pai morou, à beira mar?
- Sim, nunca entendi por que decidiram mudar. Eu gostava tanto do lugar!
- Me leve até lá!
- Mas vô, são muitas horas de viagem, só chegaremos ao amanhecer.
- É melhor que o Sol já tenha nascido até lá. Será mais seguro.
- Minha mãe vai me matar por isso! O que eu não faço pelo senhor!
O’Connell estava ansioso e preocupado com a informação do bisneto. Não resistiu ao cansaço. Acordou com o rapaz lhe oferecendo um copo de café e rosquinhas. O velho resmungou alguma coisa em relação ao copo, preferia sua velha caneca.
Liam pediu que fossem até a enseada. A areia pedregosa e escura lembrava uma praia, que frequentava quando criança em Lulworth Cove. Talvez por isso o pai de Liam O’Connell houvesse escolhido o lugar para morar. A casa deles, mais simples ficava no final da praia, a esquerda de quem do mar olha. Bem no meio da praia havia uma casa de tijolos à vista, bem construída no melhor estilo inglês.
- Veja, garoto! Esta casa de tijolos a vista era a do pai de Christina. O velho Fisher fez jus ao sobrenome, abriu uma companhia pesqueira e durante um bom tempo levou uma bela vida, até que todos descobrissem o segredo que guardavam.
- Eu lembro da casa, quando pequeno. O jardim era mais vistoso, não havia muros. A grama era muito bem cuidada. Veja! Agora lá funciona um restaurante. Quer dar uma olhada?
Liam assentiu com a cabeça. Apanhou a bengala e caminhou lentamente, apoiando-se no braço do bisneto.
- Lá havia um balanço. Da rua eu acompanhava o vai-e-vem de Christina e seus longos cabelos, quase ruivos, soltos ao vento. Me assustava quando a fera rosnava.
- Então isto era o que o aterrorizava. Um simples cão?
- Não um simples cão. Acredito que preciso voltar no tempo, contar-lhe o que aconteceu a partir daquele verão de 1913. Mas antes vamos entrar.
O jovem bateu à porta. Uma velha senhora atendeu, informando que o restaurante ainda estava fechado. Liam se desculpou e disse que o jovem estava prestando um favor a um velho em seus últimos momentos de vida e que gostaria de satisfazer um desejo de infância, de conhecer a mansão dos Fisher por dentro.
- Então o senhor conhece a mansão faz muito tempo?
- Desde 1915, quando a construção foi finalizada.
- Era vizinho? – questionou a mulher.
- Desde que chegamos da Inglaterra.
- Puxa! Tanta gente conhece a casa hoje em dia. Por favor, entrem. Só desculpem pela falta de arrumação. Ontem atendemos até tarde.
O ambiente era decorado como no começo do Século XX. Os móveis perfeitamente conservados, as pinturas na parede eram da mesma época. Os olhos cansados de O’Connell fixaram-se no porta-retratos que repousava no anteparo sobre a lareira. O jovem repetiu os gestos do bisavô, olhando a fotografia com o queixo caído.
Na imagem colorida, uma jovem aparentando idade entre dezesseis e dezessete anos, usando um vestido vermelho com detalhes dourados sentava-se na praia de cascalho escuro. Parecia pensativa. Os longos cabelos, quase ruivos, lhe cobriam parte do rosto, soprados pelo vento. A pele clara das pernas e braços deixados a mostra pelo vestido evidenciavam o frio que dominava o ambiente, mesmo num dia claro de aparente verão.
- Esta é Christina Fisher, uma das filhas do homem que construiu a casa. O senhor a conheceu? – perguntou a velha senhora.
- A senhora deve estar enganada, este é um retrato de minha namorada, Joyce. Acho que a fotografia foi tirada aqui mesmo. Vejam o cascalho escuro e o mar calmo!
- Não, meu garoto, a senhora tem razão. Esta é a praia de Lulworth Cove, no sul da Inglaterra. Reconheço o rochedo ao fundo.
- Espere aí, nessa época já haviam fotografias coloridas?
- Poucas, mas haviam. A senhora pode fechar a porta por um instante e depois acender a luz?
A mulher fez como Liam pediu. Ela já sabia qual seria o resultado. Com a luz artificial a imagem perdeu o colorido, recuperando suas cores quando a luz natural voltou ao ambiente.
- Esta era a técnica que pouquíssimos conheciam na época, tão comum hoje.
- Mas a roupa não é um pouco ousada para a época? – insistiu o rapaz.
- A coragem de Christina era algo que impressionava a todos, a beleza também. As mulheres são mais lindas aos dezessete. Christina era ainda mais especial.
- O que a senhora sabe mais sobre os Fisher? – perguntou o jovem.
- Não muita coisa. Contam que a bela jovem era amaldiçoada, possuía uma cruz a carregar. Melhor não falar mais sobre isso. Dizem que os fantasmas de Christina, seu pai e dos outros dois irmãos ainda rondam a casa. Outros dizem que o monstro ainda surge em determinadas épocas do ano e quando ele vem, pessoas começam a desaparecer e somente são encontrados os ossos, frescos e roídos por dentes afiados. Há quem diga que no quarto do filho mais velho de Fisher, em noites de Lua Nova, escorre sangue pela parede.
- Pelo jeito gostavam de apavorar as crianças em sua época vovô!
- Acredite, meu jovem. Havia algo de estranho nesta família.
- Vamos Henry! Obrigado, senhora! Foi muito gentil em nos permitir a entrada.
- Não há de que! Qual o seu nome mesmo?
- Liam O’Connell
- O’Connell? Foi um O’Connell que arruinou a vida dos Fisher. Como teve coragem de voltar aqui?
- A história tem várias versões, depende de quem a conta. Pretendo agora contar a minha para o meu bisneto. Tenho certeza que não a convencerei do contrário, já não consegui mudar a opinião de outros na juventude. Mesmo assim, obrigado.
O’Connell respirou fundo a brisa que soprava do mar e começou a contar a história que dividira com poucos, até então. O rapaz ouvia tudo atentamente, sem imaginar que sua vida seria impactada pelas revelações de seu bisavô.
Liam completara seus dezoito anos. Depois da morte da mãe, ele, o pai e dois irmãos mais novos resolveram tentar a vida na América. Não sabiam, mas a decisão foi acertada, pois no ano seguinte explodiria a Primeira Guerra Mundial, evento que modificou a vida de muitas pessoas da família que lá ficaram.
Embarcaram em um navio da Royal Mail Lines. Liam e sua família trocaram parte da passagem por serviços, enquanto a Família Fisher, duas irmãs gêmeas e um rapaz mais velho, viajou como convidada da Companhia Marítima, tendo em conta a influência de Fisher entre os agentes marítimos da época. O novo negócio de Fisher na América do Sul traria vantagens para a Inglaterra também.
Liam ajudava na arrumação das cabines, assim, conheceu a maior parte dos passageiros. Visitou quase todos os lugares do navio, menos dois pontos. A cabine dos Fisher e um dos boxes do compartimento de cargas. Vários marinheiros diziam que à noite, no compartimento de cargas podia se ouvir uivos e arranhões nas chapas de aço da estrutura. Havia ordens expressas do capitão de que ninguém se aproximasse do local.
A única pessoa que entrava no local era Christina Fisher. Levava uma cesta e provavelmente alimentava a criatura que lá ficava. Foi numa dessas ocasiões que Liam a viu pela primeira vez. Depois disso, sempre que possível, esperava, escondido atrás de algumas caixas, pela passagem da garota. Embora tenha ensaiado várias vezes, nunca teve coragem de abordá-la durante o período da viagem. Num desses momentos, a garota o percebeu, lhe direcionou o olhar e sorriu. Foi o bastante para confirmar o sentimento dele.
Na véspera da atracagem no porto de destino, houve um incidente a bordo. Um dos marinheiros que tomava conta dos compartimentos de carga havia desaparecido. Quase todos desconfiavam de queda ao mar. Tiveram certeza de que não foi o que ocorreu quando encontraram sua roupa estraçalhada e manchada de sangue dentro de um dos botes salva vidas. Num outro barco, encontraram ossos roídos. Havia pelos longos no local também. Acreditaram que algum cão subira a bordo, quando o navio ainda estava atracado no porto. Um cão não poderia ter feito todo aquele estrago. Também não havia uma fera embarcada. Era o que se imaginava. Procuraram e nada encontraram.
Quando desembarcaram, o jovem O’Connell pensou que nunca mais fosse reencontrar Christina. Se enganou, se tornaram vizinhos, estudando na mesma escola. A menina falava pouco, se escondia por detrás dos longos e lindos cabelos. Se isolou quando as primeiras mortes aconteceram. Nunca mais cruzou o olhar com O’Connell.
Nesta época, Liam auxiliava o padre na igreja da vila. O Padre João Bosco era um estudioso de fenômenos sobrenaturais, segundo ele, causados pela presença do Diabo na vida da comunidade. Era um exorcista.
Rastreando as pistas chegou a uma conclusão: o demônio aparecera na figura de um cão. O Sinistro havia escolhido a pacata enseada para espalhar o terror. Cada descoberta ele dividia com Liam. Segundo João Bosco, ele tentou estabelecer um vínculo entre os novos moradores do lugar e o monstro. Desconfiou dos O’Connell, mas eles eram católicos fervorosos. Já os Fisher, pareciam guardar segredos. O padre escreveu uma carta para a igreja de Lulworth Cove. Recebeu uma resposta.
Segundo o relato do vigário octogenário, coisas estranhas aconteciam no lugar há séculos. Suspeitava-se que existisse um lobisomem, pelas características de como fazia suas vítimas. Mas não combinava com os relatos de livros antigos, em que a mistura de homem e lobo surgia nas noites de lua cheia. Todos os crimes aconteciam em noites sem lua. Quem avistou a criatura, a identificou como um cão enorme. Havia suspeitas, porém nunca conseguiram provar nada contra uma família tradicional. Porém, quando decidiram deixar a cidade e se mudar para a América do Sul, as mortes nunca mais aconteceram.  Os filhos de Adam Fisher eram amaldiçoados, segundo o padre inglês.
O padre João Bosco não tinha mais dúvidas e passou a tramar armadilhas para dar fim aos Fisher e garantir a volta da tranquilidade à Enseada. Liam tentava convence-lo do contrário, o sentimento que nutria pela jovem Christina o empurrava neste sentido. Não havia maldade no rosto dela.
O padre João Bosco explicou para ele sua teoria. “A jovem Christina possui um fardo a carregar, a missão dela é cuidar do cão. Ela não tem opção. Já a outra, a gêmea, ela tem pacto com o sinistro. Um dia vai gerar o monstro que perpetuará a espécie”. Liam questionou como uma mulher e um cão poderiam gerar descendentes. Bosco afirmou que o cão não era sempre cão, nem sempre o demônio. Era o irmão mais velho. Se transformava quando chegava a Lua Nova. A única forma de libertar a todos, era cravar no peito do primogênito de Fisher uma bala de prata, depois nos descendentes eventualmente gerados, pois todos carregavam a maldição.
Bosco fundiu algumas peças de prata em forma de bala e carregou os cartuchos em sua espingarda. E armou emboscada. Porém, quando iria atirar, foi visto pelo filho de Fisher, que repentinamente transformou-se na fera e agora parecia incontrolável. O cão gigante, apanhou o padre e o fez em pedaços. Enquanto era estraçalhado, ele gritava palavras de exorcismo, até que o sangue o sufocou e o calou de vez. O velho Fisher, que também presenciava a cena, começou a correr. De nada adiantou, com apenas algumas patadas, foi nocauteado e dilacerado pela fera descontrolada.
Liam apanhou a arma e fez pontaria. Quando o monstro saltou em sua direção, apertou o gatilho e por sorte, atingiu o alvo. O cão transformou-se em homem e caiu inerte.
Depois daquele dia, a irmã de Christina desapareceu. Christina culpou Liam pela desgraça da família e nunca permitiu que ele explicasse o que havia acontecido. Ela fechou-se na casa o máximo que pode, nunca se relacionou com ninguém, não deixou descendentes, morreu aos 81 anos, em 1987. Dizia o padre de Lulworth Cove, que a cada duas gerações os Fisher teriam entre seus descendentes uma nova fera. Christina não queria dar continuidade a maldição. Porém, sua irmã não tinha o mesmo pensamento e garantiu a descendência dos Fisher.
- Espere aí! Quer dizer que a minha Joyce pode ser uma descendente dos Fisher?
- Isto, meu filho. Talvez uma bisneta de Joyce Fisher, irmã de Christina.
- Vejamos. Se um novo monstro nasce a cada duas gerações...
- Sim, um filho da sua Joyce pode ser um novo cão sangrento.
- Vô, eu iria contar no jantar de hoje à noite. Eu e Joyce...vamos ter um filho!


Adnelson Campos é adminis­trador, especialista em gestão empresarial pela ESAG/UDESC e especialista em Gestão e Audi­toria Ambiental pela FUNIBER. Trabalha na Petrobras desde 1986, onde exerceu diversas fun­ções gerenciais. Atualmente é ge­rente de manutenção da Unidade de Industrialização do Xisto em São Mateus do Sul (PR). Casado com Denise, pai de Lucas, Viní­cius e Helena, começou a escre­ver histórias de ficção em 2012, com diversos textos selecionados e publicados em antologias impres­sas e digitais. É autor do livro “Histórias que as estrelas contam – um pouco de astronomia para adolescentes”. www.adnelsoncampos.com.br




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