Postagens

Mostrando postagens de Novembro, 2020

O VAMPIRO - Conto Clássico de Horror - Rubén Valenti

Imagem
  O VAMPIRO Rubén Valenti (Início do séc. XX) Tradução de Paulo Soriano   Era uma noite como outra qualquer. No céu, vagavam nuvens silenciosas, havia um pouco de lua e reluziam inúmeras estrelas. Um andarilho taciturno vagava ao léu pelas ruas da grande cidade, inundadas pela turba que voltava para casa ou se preparava para uma noitada de prazer. Ao passar o caminhante por uma igreja, viu, encostada ao muro e próxima à porta, uma mulher de cujo corpo emagrecido pendiam andrajos sujos à guisa de vestimenta. Trazia nos braços uma criancinha de peito, débil, pálida e enfermiça, que sugava, exausto e lasso, famelicamente a auréola do seio materno, tentando desesperadamente extrair algumas gotas de leite. A mendiga, extenuada pela fome, estendia a mão com desesperança aos que passavam por ela, pedindo, pelo amor de Deus, com a voz baixa e consumida, uma esmola. Vãmente, inutilmente, pois ninguém a ajudava, apesar da expressão de agonia que ia, paulatinamente, desanimando a

A VERDADEIRA IMAGEM - Conto de Terror - Flávio de Souza

Imagem
A VERDADEIRA IMAGEM Flávio de Souza   1 Quem já suou frio numa noite quente pode imaginar o que senti quando cheguei ao local da cena que vi pela tela do monitor... Tudo começou de maneira corriqueira. Minha jornada de trabalho já estava quase no fim. O dia já ameaçava raiar e eu precisava fazer apenas mais uma ronda para finalizar o expediente. Apesar do cansaço causado pela monotonia, parecia que a noite de trabalho terminaria bem. Quase sempre a ausência de dificuldades era a marca principal numa alternância de canecas de café e sessões coruja na TV. Eu desempenhava a função de agente de segurança num condomínio de casas de alto padrão, um oásis de aparente tranquilidade para aqueles que podiam pagar. Os muros altos e as guaritas tratavam de isolar a loucura extrema que fervilhava no restante da cidade. Era um bom emprego. Bem, pelo menos o fato de poder trabalhar armado servia para aplacar um pouco a frustração de não ter conseguido ser um policial de fato, embora,

O DEMÔNIO SEDUTOR - Narrativa Clássica de Terror - Caesarius von Heisterbach

Imagem
O DEMÔNIO SEDUTOR Caesarius von Heisterbach (c. 1180 – c. 1240)   Um padre de Bonn, chamado Arnald, que viveu no século XII, tinha uma filha extremamente bela. O homem devotava à filha o maior cuidado, pois os cônegos de Bonn tinham por ela grande afeição. Sempre que ele saía, o padre a trancava, sozinha, num pequeno quarto. Um dia, estando a jovem assim reclusa, o Diabo apareceu-lhe sob a forma de um belo jovem e pôs-se a fazer-lhe a corte. A moça, que estava na idade em que o coração fala mais alto, deixou-se logo seduzir e concedeu ao amante demoníaco tudo o que ele desejava. Extraordinariamente constante em seu assédio, o Diabo não deixava de vir e passar todas as noites com sua linda amante. Por fim, ela engravidou e o seu estado era tão visível que foi forçada a confessar ao pai. Ouvindo aquela confidência, o pai chorou amargamente. Comovido e aflito, o padre não teve dificuldade em descobrir que sua filha havia sido enganada por um demônio íncubo. Por isso, prontamen

LIGEIA - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe

Imagem
  LIGEIA Edgar Alan Pöe (1809 – 1949)   Há nisto uma vontade que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade e a sua força? Porque Deus não é mais que uma grande vontade, penetrando todas as coisas com a intensidade que lhe é própria. O homem só cede aos anjos e só se submete por completo à morte pela fraqueza da sua pobre vontade. — Joseph Glanville     Eu juro pela minha alma que não me lembro quando, nem onde vi, pela primeira vez, Lady Ligeia. Passaram-se longos anos desde esse dia e um grande sofrimento debilitou a minha memória. Ou talvez eu não possa recordar-me, porque, realmente, o temperamento da minha amada, a sua rara cultura, a sua espécie de beleza tão singular e tão plácida, e a aliciante e subjugadora eloquência das suas palavras musicais e profundas, tenham penetrado no meu coração de maneira tão sub-reptícia, constante e furtiva, que eu não dei conta disso.  No entanto, suponho que a encontrei pela primeira vez, e que depois voltamos a ver-nos muitas outras, numa

OS GATOS DE ULTHAR - Conto Clássico de Terror - H. P. Lovecraft

Imagem
OS GATOS DE ULTHAR H. P. Lovecraft (1890 — 1937) Tradução de Paulo Soriano   Há, numa terra muito estranha, uma lei inflexível: nenhuma pessoa pode matar um gato. Em Ulthar, antes que os cidadãos proibissem a matança de gatos, viviam um velho camponês e sua mulher, que se divertiam capturando e matando os gatos dos vizinhos. Mas, um certo dia, uma caravana de estranhos peregrinos entra na velha cidade, trazendo consigo a vingança e a terrível maldição... “Os Gatos de Ulthar” são uma breve narrativa de H. P. Lovecraft (1890 — 1937) que, de discípulo de Allan Pöe, veio a se tornar o mais original e revolucionário dos escritores de terror dos últimos cem anos: Lovecraft é o criador de uma terrificante mitologia própria, que conhecemos por “horror cósmico”.   Diz-se que em Ulthar, que se situa além do rio Skai, nenhum homem pode matar um gato; creio nisto ao olhar o que se senta, a ronronar, diante do fogo. Porque o gato é enigmático, íntimo das coisas estranhas que os homens