A MÃO DO MACACO - Conto Clássico de Terror - W. W. Jacobs




A MÃO DO MACACO

W. W. Jacobs
(1863 - 1943)
Tradução de Paulo Soriano


Romancista e contista inglês, W. W. Jacobs (1863 – 1943), malgrado tenha se dedicado precipuamente ao humor, é conhecido sobretudo pela obra “A Mão do Macaco”. Este conto — uma das mais famosas narrativas de terror já escrita — foi publicado originariamente na coletânea “A Dama da Barca”, de 1892, mas continua a atrair admiradores nos dias atuais, dentre eles o célebre romancista norte americano Stephen King.  Na breve narrativa, uma pata mumificada de macaco constitui-se num amuleto que tem o poder de conceder, a quem a possui, três desejos. Mas, por interferir na ordem natural dos acontecimentos, os desejos são satisfeitos a um alto — e terrível — preço.


Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas, na pequena sala de Laburnam Villa, os postigos estavam cerrados e o fogo ardia intensamente. Pai e filho jogavam xadrez. O primeiro tinha ideias próprias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em tão graves e desnecessários perigos que provocava comentários até mesmo da grisalha senhora que tricotava placidamente junto à lareira.

 – Escute o vento – disse o Sr. White que, percebendo tarde demais que cometera um erro fatal, cuidava benevolamente para que o filho não o percebesse.

 —Estou ouvindo — disse o último, examinado impiedosamente o tabuleiro, ao estender a mão.

 —Xeque.

 —Não creio que ele venha esta noite — disse o pai, com a mão a pousada sobre o tabuleiro.

 —Mate! —replicou o filho.

 —Este é o lado ruim de viver em um lugar tão remoto — o Sr. White vociferou, com uma súbita e inesperada violência. — De todos os lugares terríveis, distantes e lamacentos para se morar, este é o pior. O caminho é um lamaçal e a estrada é uma torrente. Não sei o que essa gente está pensando. Somente porque há apenas duas casas na estrada, eles não encontram motivo por que se importar.

—Não se preocupe, querido — disse, conciliatória, a mulher. — Da próxima vez, talvez você vença a partida.

O Sr. White ergueu os olhos bruscamente, a tempo de interceptar um olhar de cumplicidade entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios e ele escondeu um sorriso de culpa sob a barba fina e grisalha.

—Aí vem ele — disse Herbert White, quando o portão bateu barulhentamente e passos pesados se aproximaram da porta. O velho levantou-se com uma pressa hospitaleira. Ouviram-no cumprimentar o visitante, que retribuiu o cumprimento. A senhora White tossiu delicadamente quando o marido entrou na sala, seguido por um homem alto e corpulento, de olhos pequenos e face avermelhada.

—Major Morris — disse ele, apresentando-o.

O major apertou as mãos e, sentando-se no lugar oferecido, junto à lareira, observou satisfeito o anfitrião trazer uísque e copos, e pôr uma pequena chaleira de cobre no fogo.

Ao terceiro copo, os seus olhos tornaram-se mais brilhantes e ele começou a falar. O pequeno círculo familiar contemplava com vívido interesse este visitante de lugares distantes, enquanto ele empertigava os largos ombros na cadeira e falava de paisagens excêntricas e feitos audazes, de guerras, epidemias e povos estranhos.

—Vinte e um anos nisto — disse o Sr. White, voltando-se para a mulher e o filho. — Quando ele partiu, era um simples moço de armazém. Agora, olhem só para ele.

—Ele não parece ter-se saído mal — disse a Sra. White, educadamente.

 —Eu gostaria de visitar a Índia — disse o velho. — Somente para conhecer um pouco, você sabe.

—Aqui, você estará melhor — disse o Major, sacudindo a cabeça. Deixou o copo vazio sobre a mesa e, suspirando baixinho, sacudiu de novo a cabeça.

—Eu gostaria de ver esses templos antigos. Faquires, malabaristas — disse o velho. — O que foi mesmo que você começou a me contar, certo dia, acerca da mão de um macaco, ou coisa semelhante, Morris?

—Nada — disse abruptamente o militar. — Ao menos nada de que valha a pena ser ouvido.

—Mão de macaco? — indagou a Sra. White, curiosa.

—Bem, é apenas um pouco do que se pode chamar de magia — disse o major, bruscamente.

Os três ouvintes inclinaram-se para frente, interessados. Distraidamente, o visitante levou aos lábios o copo vazio, e, em seguida, baixou-o novamente. O anfitrião tornou a enchê-lo.

—Vejam —disse o major, mexendo no bolso. — É apenas uma pequena mão, comum, mumificada.

Ele tirou algo do bolso e exibiu aos presentes. A Sra. White recuou com um esgar. Seu filho, porém, examinou a mão mumificada com curiosidade.

—Mas o que é que há de especial nela? — perguntou o Sr. White, que a tomou da mão do filho e, depois de examiná-la, deitou-a sobre a mesa.

—Sobre ela, um velho faquir lançou um encanto — disse o major. — Um homem muito santo. Queria ele demonstrar que o destino determina a vida das pessoas e aqueles que nele interferem o fazem para a sua ruína. Ele lançou sobre essa mão um feitiço para que três diferentes pessoas pudessem formular três distintos pedidos.

O major falou de uma maneira tão impressionante que os seus ouvintes sentiram suas risadas soarem um tanto abaladas.

—Bem, então por que o senhor não faz os seus três pedidos? — indagou, astuciosamente, Herbert White.

O militar olhou para ele como as pessoas maduras costumam olhar para a juventude presunçosa.

—Eu já os fiz — disse calmamente o major, e o seu rosto maculado empalideceu.

—E os três pedidos formulados foram realmente atendidos? — perguntou a Sra. White.

—Foram —respondeu o major, e o copo chocou-se contra seus fortes dentes.

—E ninguém mais renovou os pedidos? — perguntou a velha senhora.

 —A primeira pessoa teve, sim, os seus desejos satisfeitos —respondeu. — Eu não sei quais foram os dois primeiros pedidos. Mas o terceiro desejo foi a morte. Foi dessa maneira que eu obtive a mão do macaco.

Sua entonação era tão solene que o silêncio caiu sobre o grupo.

—Se você conseguiu realizar todos os três pedidos, Morris, a mão não lhe serve mais para nada — disse, por fim, velho homem. — Por que, então, a conserva?

O militar abanou a cabeça.

—Por simples capricho, creio eu —disse ele, lentamente.

—Se pudesse fazer mais outros três pedidos — indagou o velho, olhando-o fixamente –, você os faria?

—Eu não sei — disse o outro. — Eu não sei.

O major tomou a mão do macaco, balançou-a entre os dedos polegar e indicador e, subitamente, lançou-a ao fogo. White, com um ligeiro grito, abaixou-se e arrancou-a de lá.

—Melhor seria que a deixasse queimar — disse o militar, solenemente.

—Se você não mais a quer — disse o velho —, dê-a para mim.
—Não —disse obstinadamente o amigo. — Eu a joguei no fogo. Se você quiser ficar com ela, não me culpe pelo que vier a acontecer. Lance-a novamente no fogo, como um homem sensato.

O outro sacudiu a cabeça e examinou de perto a sua nova pertença.

—Como é que se faz o pedido?

—Segure-a em sua mão direita e formule o pedido em voz alta — disse o Major. — Mas eu o advirto quanto às consequências.

—Parece as Mil e uma Noites —disse a Sra. White, levantando-se e começando a pôr à mesa. — Você não acha que poderia pedir quatro pares de mãos para mim?

O marido tirou o talismã do bolso e, em seguida, todos três caíram na gargalhada quando o major, com um olhar assustado no rosto, segurou-o pelo braço.

—Se quer mesmo fazer um pedido — disse ele rispidamente —, deseje algo sensato.

O Sr. White guardou novamente o amuleto no bolso e, arrumando as cadeiras, chamou o amigo à mesa com um aceno. Durante o jantar, o talismã foi, de certo modo, esquecido, e depois os três escutaram, encantados, o segundo capítulo das aventuras do militar na Índia.

—Se a história sobre a mão do macaco não for mais verdadeira do que as que ele nos contou — disse Herbert, quando a porta se fechou atrás do convidado, a tempo de ele apanhar o último trem —, então não devemos dar muito crédito a ela.

—Você deu alguma coisa pela mão? — perguntou a Sra. White, olhando atentamente para o marido.

—Uma bagatela —disse ele, corando levemente. — Ele não queria receber, mas eu o fiz aceitar. E ele insistiu novamente para que eu a jogasse fora.

—Sem dúvida — disse Herbert, com um horror fingido — vamos ser ricos, famosos e felizes. Pai, somente de início, peça para ser um imperador, e o senhor não mais será dominado por mamãe.

Ele correu em volta da mesa, perseguido por uma injuriada Sra. White, armada com uma capa de poltronas.

O Sr. White sacou a mão do macaco do bolso e olhou para ela com um ar de dúvida.

—Eu não sei o que pedir. Isto é um fato — disse ele lentamente. — Parece-me que tenho tudo o quanto quero.

—Se o senhor liquidasse o débito da casa, ficaria muito feliz, não é mesmo? — disse Herbert com a mão pousada no ombro do pai. —Bem, peça então duzentas libras. É justamente o que lhe falta.

O pai, com um sorriso envergonhado da própria credulidade, ergueu o talismã, enquanto o filho, com uma expressão solene, um tanto comprometida pela piscadela dirigida à mãe, sentou-se ao piano e extraiu alguns acordes grandiloquentes.

—Eu desejo duzentas libras — disse o pai em clara voz.

Um belo acode de piano felicitou as palavras, mas essas foram interrompidas por um grito estridente do velho homem. A mulher e o filho correram até ele.

—Ela se mexeu — disse ele, com um olhar de nojo para o objeto, que caíra ao chão. — Quando eu formulei o meu pedido, ela se contorceu em minhas mãos como uma cobra.

—Bem, eu não estou vendo o dinheiro — disse o filho, enquanto a apanhava e a punha sobre a mesa. — E aposto que nunca o verei.

—Deve ter sido imaginação sua, pai — disse a mulher, olhando-o ansiosamente.

—Não faz mal. Não houve nada. Mas, ainda assim, a coisa me abalou.
Sentaram-se perto da lareira novamente, enquanto os homens terminavam de fumar os seus cachimbos. Lá fora, o vento soprava ainda mais vigorosamente. O velho sobressaltou-se ao ouvir o som de uma porta batendo no andar superior. Um silêncio estranho e deprimente abateu-se sobre todos os três, e os envolveu até que o velho casal se levantou para dormir.

 —Espero que o Senhor encontre o dinheiro enrolado em um grande saco, bem no meio da cama — disse Herbert, ao dar-lhe boa noite —, e algo de terrível, agachado em cima do guarda-roupas, o espreite, enquanto o senhor embolsa o seu ganho fácil.

Ele permaneceu sentado, sozinho, na escuridão. Observava o fogo fenecer e via rostos formando-se nas chamas. A última cara era tão horrível, tão simiesca, que ele a contemplou com assombro. A imagem era de uma vivacidade tal que Herbert, com um sorriso inquieto, procurou na mesa um copo d’água para jogar sobre ela. Agarrou a mão do macaco, sentindo um breve calafrio. Então, limpou a própria mão no casaco e retirou-se para a cama.


II


Na manhã seguinte, enquanto tomava o café da manhã sob a luz do sol invernal, que pairava sob a mesa, Herbert riu de seus temores. Havia na sala um ar de prosaica higidez que faltara na noite anterior. E a mão do macaco, enrugada e suja, atirada negligentemente sobre o aparador, não inspirava nenhuma grande crença em suas virtudes.

—Eu creio que todos os velhos militares são iguais — disse a Sra. White. — Que ideia a nossa, de dar ouvidos a estas tolices! Como se pode acreditar, nos dias de hoje, em talismãs que nos concedem desejos? E se as duzentas lhe libras forem concedidas, o que de mau poderá lhe acontecer, pai?

—Será mau se as libras caírem do céu, bem encima da cabeça dele — disse Herbert, frivolamente.

—Segundo Morris, as coisas aconteciam com tanta naturalidade —disse o pai — que você, se o quisesse, poderia considerar uma simples coincidência.

—Bem, não lance mão do dinheiro antes que eu volte — disse Herbert, ao se levantar da mesa. — Temo que o senhor se transforme em um homem mau e avarento, e nós tenhamos que repudiá-lo.

A mãe sorriu, acompanhou-o até a porta e o viu afastar-se pela estrada. De volta à mesa, ela parecia divertir-se com a credulidade do marido. Mas isto não a impediu de correr à porta quando o carteiro bateu, nem de fazer referência a majores reformados beberrões, quando descobriu que o correio trouxera apenas a conta do alfaiate.

—Com certeza, Herbert fará outra observação irônica quando voltar — disse ela, quando se sentaram para jantar.

—Sem dúvida — disse o Sr. White, servindo-se de um pouco de cerveja. — Mas, seja como for, a coisa se contorceu na minha mão. Juro que sim.

—Você imaginou que ela se mexeu — disse a Sra. White, suavemente.

—Eu estou dizendo que ela se mexeu — o outro replicou. — Quanto a isto, não tenho dúvidas. Eu tinha acabado... O que houve?

A mulher não respondeu. Ela estava observando os movimentos misteriosos de um homem do lado de fora que, olhando indeciso para a casa, parecia tentar decidir-se a entrar. Numa conexão mental com as duzentas libras, ela percebeu que o estranho estava bem vestido e usava um reluzente chapéu de seda novo. Por três vezes, ele parou no portão e depois retrocedeu. Na quarta tentativa, pôs a mão sobre ele e, em seguida, com uma súbita resolução, abriu-o e avançou. No mesmo momento, a Sra. White colocou a mão atrás de si, desatou apressadamente o avental e colocou esta útil peça do vestuário sob a almofada de sua cadeira.

Ela conduziu o estranho — que parecia pouco à vontade — à sala. Ele a contemplou furtivamente, e ouviu, com ar preocupado, a velha senhora desculpar-se pela aparência da sala e pelo casaco do marido, uma vestimenta que ele geralmente reservava ao jardim. Ela, então, esperou, tão pacientemente quanto o seu sexo permitia, que ele abordasse o motivo da visita, mas ele permaneceu, a princípio, enigmaticamente calado.

 —Eu... Pediram-me que viesse — disse ele finalmente. Abaixou-se e extraiu um pedaço de algodão da calça. —Eu venho da parte de Maw & Meggins.

A velha senhora teve um sobressalto.

—Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, ofegante. — Aconteceu alguma coisa a Herbert? O que foi? O que foi?

O marido se interpôs:

 —Espere, espere, mãe — disse ele rapidamente. — Sente-se e não tire conclusões precipitadas. Certamente, o senhor não nos trouxe más notícias, não é mesmo? — disse o velho, olhando o outro, ansiosamente.

—Eu sinto muito... — começou o visitante.

—Ele está ferido? — interpelou a mãe.

O visitante inclinou-se, assentindo.

—Gravemente ferido — ele disse em voz baixa. —Mas já não mais sente dor.

—Oh, graças a Deus! — disse a senhora, apertando as mãos. —Graças a Deus! Graças...

Mas estacou subitamente, quando o terrível significado daquela afirmativa desmoronou sobre ela. Ela viu a confirmação de seus temores no rosto esquivo do outro. Então prendeu a respiração e, voltando-se para o pouco arguto marido, pôs a mão trêmula sobre ele. Houve um longo silêncio.

—Ele foi apanhado pela máquina —disse finalmente o visitante, em voz baixa.

—Apanhado pela máquina — repetiu, aturdido, o Sr. White.

Ele se sentou, olhando fixamente pela janela e, tomando a mão da mulher entre as suas, apertou-a, como costumava fazer nos tempos de namorados, há cerca de quarenta anos.

—Ele era o último filho que nos restava — disse ele, voltando-se para o visitante. — É difícil.

O outro tossiu e, levantando-se, caminhou lentamente até a janela.

 —A empresa me pediu que lhes transmitisse os sinceros pêsames pela grande perda — disse ele, sem olhar em volta. —Eu imploro que compreendam que sou apenas um empregado e apenas cumpro ordens.

Não houve resposta. O rosto da senhora estava lívido, os olhos fixos, a respiração inaudível. No rosto do marido havia um olhar que o seu amigo major poderia ter ostentado em seu primeiro conflito armado.

—Quero dizer que a Maw & Meggins se exime de qualquer responsabilidade — prosseguiu o outro. — Eles não admitem qualquer responsabilidade no evento, mas, em consideração aos serviços prestados por seu filho, pretendem ofertar-lhes uma certa quantia, a título de compensação.

O Sr. White largou a mão da mulher e, pondo-se de pé, dirigiu ao visitante um olhar de horror. Seus lábios secos articularam as palavras:

—Quanto?

—Duzentas libras — foi a resposta.

Sem atinar para o grito da esposa, o velho sorriu debilmente, estendeu a mão como um homem cego e caiu desfalecido, como um fardo, no chão.


III


No imenso cemitério novo, a umas duas milhas de distância, os velhos sepultaram o seu morto e voltaram para a casa, mergulhada na sombra e no silêncio. Tudo acabara tão rapidamente que, a princípio, eles mal se davam conta do que ocorrera. Permaneceram em um estado de expectativa, como se algo mais estivesse por acontecer — algo que lhes aliviasse aquele fardo, pesado demais para os seus velhos corações.

Mas os dias se passaram e a expectativa deu lugar à resignação — à resignação sem esperança dos velhos, às vezes tomada erroneamente por apatia. Algumas vezes eles sequer trocavam uma palavra, pois agora não tinham mais sobre o que conversar, e os dias eram longos e tediosos.

Foi cerca de uma semana depois que o velho, acordando subitamente de noite, estendeu a mão e viu que estava sozinho. O quarto estava escuro e o som de um choro lastimoso vinha da janela. Ele sentou-se na cama e ficou a escutar.
—Volte — disse ele, ternamente. — Você vai sentir frio.

—Está mais frio para o meu filho — disse a senhora, que chorou novamente.

Os sons de seus soluços desvaneceram no ouvido do marido. A cama estava quente e os seus olhos pesados de sono. Ele dormitou intermitentemente e depois caiu no sono, até ser acordado, com um sobressalto, pelo grito selvagem da mulher.

—A mão! — ela chorava descontroladamente. — A mão do macaco!

Ele se levantou, alarmado.

—Onde? Onde está? O que aconteceu? Ela transpôs, cambaleante, o quarto, achegando-se a ele.

—Eu quero a mão do macaco — ela disse em voz baixa. — Você a destruiu?

—Ela está na sala de estar, na prateleira — ele respondeu, surpreso. — Por quê?

Ela chorou e riu ao mesmo tempo e, inclinando-se, beijou-lhe o rosto.

—Somente agora pensei nisto — disse ela histericamente. — Por que não pensei nisto antes? Por que você não pensou nisto antes?

—Pensar em quê? — ele inquiriu.

—Nos dois outros desejos — ela respondeu rapidamente. — Nós só fizemos um pedido.

—Não acha que já foi o suficiente? — ele replicou, enraivecido.

—Não! — ela gritou, triunfante. — Faremos mais um. Desça e a pegue logo. Deseje que o nosso garoto viva novamente.

O homem sentou-se na cama e afastou os lençóis de seus membros trêmulos.

—Meu Deus, você está louca! — ele gritou, horrorizado.

—Pegue-a —disse ela, ofegante. Pegue-a depressa e faça o pedido... Oh, meu filho, meu filho!

O marido riscou um fósforo e acendeu uma vela.

—Volte para a cama —disse ele, hesitante. — Você não sabe o que está dizendo.

—Nós tivemos o primeiro desejo satisfeito — disse a senhora, febrilmente. — Por que não o segundo?

—Foi só uma coincidência — gaguejou o velho.

—Vá buscá-la e faça o pedido — gritou a mulher, tremendo de excitação.
O velho virou-se, olhou-se para ela e sua voz tremeu:

—Ele está morto há dez dias e, além disso... eu não queria que você soubesse, mas eu só consegui reconhecê-lo pelas roupas. Se ele estava terrível demais para que você o visse, imagine como não estará agora.

—Traga-o de volta! — gritou a velha senhora, e o arrastou até a porta. — Você acha que tenho medo do filho que criei?

Ele desceu na escuridão e tateou até a sala de estar e, depois, até a lareira. O talismã estava em seu lugar e um medo horrível de que o desejo ainda não formulado pudesse trazer de volta, em sua presença, o filho mutilado, antes que pudesse evadir-se da sala, apoderou-se dele. Prendeu a respiração ao perceber que havia perdido a direção da porta e, com a testa umedecida por um suor frio, deu a volta ao redor da mesa, encontrou a parede e tateou ao longo dela. Então se viu no corredor estreito com aquela coisa hedionda na mão.

Mesmo o rosto de sua mulher parecia mudado quando ele entrou no quarto. Estava pálido e ansioso e, para o seu temor, tinha uma aparência anômala. Sentiu medo dela.

 —Faça o pedido! — ela gritou, imperiosamente.

 —Isto é uma tolice. Uma perversidade — ele disse, hesitante.

—Peça! — repetiu a mulher.

Ele ergueu a mão.

—Desejo que o meu filho viva novamente!

O talismã caiu no chão e ele o olhou, amedrontado. Então afundou numa cadeira, trêmulo, enquanto a velha, com os olhos abrasados, foi até a janela e levantou a persiana. Ele permaneceu sentado até enregelar-se, olhando ocasionalmente para a figura da mulher, que espiava pela janela. O resto de vela, que ardera até a borda do castiçal de porcelana, lançava sombras pulsantes sobre o teto e as paredes até que, com um lampejo mais intenso, se apagou. O velho homem, com uma indescritível sensação de alívio pelo fracasso do talismã, rastejou de volta à cama e, um ou dois minutos depois, a velha senhora, silenciosa e apaticamente, deitou-se ao lado.

Nenhum dos dois falou. Permaneceram em silêncio, ouvindo o tique-taque do relógio. Um degrau rangeu, um rato correu, ruidosamente, a guinchar, pela parede. A escuridão era opressiva e, depois de continuar deitado por algum tempo, tomando coragem, o marido tomou uma caixa de fósforos e, acendendo um, desceu as escadas em busca de outra vela.

Ao pé da escada o fósforo acabou e ele parou outro para acender. No mesmo instante, uma batida, tão silenciosa e furtiva que mal se ouvia, soou na porta da frente.

Os fósforos caíram-lhe da mão. Ele ficou imóvel, com a respiração suspensa, até que a batida se repetiu. Então ele virou e fugiu rapidamente para o quanto, fechando a porta atrás de si. Uma terceira batida ressoou pela casa.
—O que foi isso? — gritou a senhora, levantando-se.

—Um rato — disse o velho, com a voz trêmula. — Um rato. Ele passou por mim na escada.

A mulher sentou-se na cama e ficou escutando. Outra batida — forte — voltou a ressoar.

—É Herbert! — ela gritou. — É Herbert!

Ela correu para a porta, mas o marido se antepôs, e, tomando-a pelo braço, segurou-a firmemente.

—O que você vai fazer? — sussurrou ele, com voz rouca.

—É meu filho! É Herbert! — ela gritou, lutando maquinalmente. — Eu me esqueci de que ele estava a duas milhas de distância. Por que você está me segurando? Solte-me. Preciso abrir a porta.

—Pelo amor de Deus, não o deixe entrar — gritou o velho, tremendo.

—Você está com medo de seu próprio filho! — ela gritou, debatendo-se.

—Largue-me! Estou indo, Herbert! Estou indo!

Houve mais uma batida e mais outra. A velha, com um súbito empurrão, soltou-se e saiu correndo do quarto. O marido seguiu-a até o patamar e, suplicante, chamou por ela, enquanto a mulher, voando, descia as escadas. Ele ouviu a corrente chacoalhar e a tranca de baixo ser deslocada lenta e rigidamente do encaixe. Então a voz da velha mulher soou, tensa e ofegante:
—A tranca! —gritou alto. — Desça. Eu não consigo puxá-la!

Mas o marido estava com as mãos e os joelhos no chão, tateando, procurando desesperadamente a mão do macaco. Se pelo menos ele conseguisse encontrá-la antes que aquela coisa lá fora entrasse! Batidas sucessivas reverberaram pela casa e ele ouviu o arrastar de uma cadeira quando a mulher a colocou no corredor, de encontro à porta. Ele ouviu o ranger da tranca ao ser deslocada lentamente e no mesmo instante encontrou a mão do macaco. Desesperadamente, formulou o seu terceiro e último pedido.

As batidas cessaram subitamente, embora os seus ecos ainda ressoassem pela casa. Ele ouviu a cadeira ser arrastada para trás e a porta se abrir. Um vento frio subiu até a escada e o longo e alto gemido de decepção e tristeza da mulher lhe deu coragem para correr até ela e, em seguida, até o portão. O cintilar do lampião do outro lado da rua alumiava uma estrada calma e deserta.



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