A MORTE DE EDGAR ALLAN POE - Narrativa Verídica - Narrativa Fúnebre - John Joseph Moran



A MORTE DE EDGAR ALLAN PÖE
(Memorando Oficial da morte de Edgar A. Pöe)
  John Joseph Moran
(Séc. XIX)

Edgar A. Pöe foi levado ao "Washington Hospital” em um carro a 7 de outubro de 1849.

Acharam-no estendido em um banco situado defronte de uma casa de negócio da esquina de Hight Street.

Estava ele em completo estado de estupor, causado quer pelo álcool, quer pela absorção de um narcótico (ópio), o que não se pode dizer ao certo.

Um homem que passava, vendo muitas pessoas reunidas ao redor de um indivíduo que jazia estendido, aproximou-se e reconheceu o Pöeta. Isto aconteceu ao raiar do dia.

Um agente de polícia mandou chamar um carro e o fez conduzir a este hospital, do qual sou diretor.

Teve lugar a sua entrada às 10 horas da manhã.

Edgar Pöe foi para um quarto particular onde, despido, foi examinado minuciosamente. Eu nenhuma noção anterior tinha de seus hábitos, vida e situação financeira.

Nem a sua roupa nem a sua respiração exalavam cheiro algum alcoólico. Não tinha delírio, nem agitação. A cútis estava lívida, apenas alguns roncos se exalavam da garganta. Parecia estar dormindo.

O seu estado era febril: aplicaram-lhe panos embebidos em água morna, sinapismos nos pés, nas coxas e no ventre, e gelo na cabeça.

Mandei correr as cortinas das janelas e tratei de dar-lhe a posição que me pareceu mais confortável para o seu estado. Coloquei uma enfermeira à cabeceira, com ordem de chamar-me ao menor movimento que o enfermo fizesse.

Meia hora depois, mais ou menos, ela chamou-me e eu entrei no quarto no mesmo momento em que o enfermo tirava o lençol de cima de si, abria os olhos e exclamava:

— Onde estou?

Cheguei uma cadeira para junto de seu leito, tomei-lhe a mão entre as minhas, apartei-lhe os magníficos anéis de seus cabelos pretos e perguntei-lhe como se achava.

— Muito mal, disse.

— Sente alguma dor? Sente dor no estômago?

— Sim.

— Tem sede?

— Não.

— A cabeça lhe dói? — perguntei, levando a minha mão à sua cabeça.

— Sim.

— Desde quando está doente?

— Não sei dizer.

— Onde mora?

— No hotel de Pratt Street, em frente a um depósito.

— Tem alguma mala, carteira, ou qualquer outro objeto que deseje a seu lado?

— Sim, uma maleta com papéis e manuscritos meus.

— Se deseja, irei buscá-la.

Dando-me o tratamento de doutor, agradeceu-me e pediu-me que lhe dissesse onde estava.

 — Está em casa de amigos.

— O meu melhor amigo seria aquele que me fizesse saltar os miolos com um tiro de pistola.

— Sossegue, Sr. Pöe. Aqui faremos nós todo o possível para protegê-lo e mitigar-lhe os sofrimentos.

— Oh! Quão miserável sou, senhor, quando contemplo a minha degradação e minha ruína, quando penso no que tenho sofrido e perdido; no pesar, na miséria a que reduzi os meus parentes. Quisera desaparecer em um abismo, repelido por Deus e pelos homens, como escoria da sociedade. Meu Deus, que terrível posição!  Para a alma imortal não há resgate!

— Sr. Pöe, fique calmo e tome esta poção, que lhe deixará tranquilo e lhe dará vigor.

Estendeu a mão para tomar a vasilha e a enfermeira levantou-lhe a cabeça. Depois de ter bebido, cerrou os olhos, como se quisesse dormir.

Fiquei a seu lado escutando o melhor que pude a sua respiração e tratando de fundar o meu diagnóstico nessas observações. Eu estava sob a impressão do que me tinham comunicado os que o haviam visto estendido na esquina da rua e que o julgavam sob o império do alcoolismo crônico, porém, eu nenhuma data tinha a respeito do tempo que houvera transcorrido desde a absorção dos licores, não justificando de modo algum os sintomas presentes esta suposição.

O enfermo não tinha estremecimentos nervosos, seus dedos estavam tranquilos, e ele respondia com certeza às perguntas que eu lhe fazia. Seu semblante estava lívido, os olhos não estavam injetados de sangue, as pulsações eram fortes e frequentes. Permaneceu neste estado perto de uma hora e abriu de novo os olhos.

Perguntei-lhe se desejava aguardente, não tanto com o fim de estimulá-lo, como para ver se com esta proposta seus apetites de bebedor despertavam.
Abriu excessivamente os seus grandes olhos e fitou-os em mim com uma tal expressão que me vi forçado a desviar a vista.

— Senhor — disse-me ele —, se o líquido contido nesse vaso devesse transportar-me imediatamente aos Campos Elísios, não o beberia, não o aproximaria a meus lábios. O Sr.  não sabe os tormentos que ele pode causar.

— Eu devo fazer-lhe tomar uma bebida opiada para que tenha um pouco do sono e de repouso.

— São esses os dois precursores do inferno e da perdição.

— Sr. Pöe, é absolutamente necessário que fique calmo e evite qualquer motivo de excitação. O seu estado é muito delicado e qualquer exaltação lhe trará imediatamente a morte.

— Doutor, estou tão mal assim? Não há mais esperanças?

— As probabilidades estão contra você.

— Oh, quando verei a minha querida Virginia?  Quisera também ver a minha cara Lenore!

— Irei buscar as pessoas que você deseja ver.

Nada sabendo eu sobre a sua família, perguntei-lhe:

— Tem família?

— Não, minha esposa, minha querida Virginia, é morta. Existe a  minha sogra.  Oh, como o meu coração palpita por ela!  O negro anjo da morte completou a sua obra. Fui lançado à tempestade sem bússola e sem farol... Doutor, escreva à minha sogra Maria Clemm. Diga-lhe que o seu Eddie está aqui. Não, é muito tarde, demasiado tarde! Devo acabar com as reservas e dizer-lhe o segredo que consome o meu coração e rasga-me a alma. Dentro de dez dias eu deveria casar-me.

 (Aqui fez pausa e soluçou.)

— O senhor quer que lhe traga a sua noiva? —perguntei-lhe, pensando que ela morava na cidade.

— É muito tarde! Muito tarde!

— Oh, não! — respondi. — Posso mandar já a minha carruagem.

— Não. Eescreva a ambas. Participe-lhes, ao mesmo tempo, a minha enfermidade e a minha morte.

— Diga-me os endereços.

— Madame Schelton, em Norfolk, Virgínia; Maria Clemm, em Lowell, Massachusetts.

Nesse momento, suas faces se coraram, as veias das fontes incharam, os olhos vagaram confusamente e a cabeça inclinou-se para diante. Mandei renovar a aplicação do gelo à cabeça e as preparações quentes aos pés. Fiz tomar outra vez um gole da poção calmante. Depois, notando que a minha presença, bem como a da enfermeira pareciam incomodá-lo, ocultei-me e também esta por detrás da cama. Tendo eu sabido que um certo Nelson Pöe era seu parente distante, mandei-o chamar e a uma família Reynolds, que residia perto do hospital.

Nelson Pöe e as Sras. Reynoldes acudiram imediatamente ao meu chamado.

Edgar Pöe esteve perto de uma hora em estado de torpor: tomando-lhe o pulso, encontrei-o muito fraco, agitado, irregular, dando 120 pulsações por minuto. Voltei para mandar-lhe dar um estimulante e um febrífugo.

Pöe reanimou-se um pouco e pregou os olhos em mim. Pus-me perto da cama e notei, pela averiguação de todos os sintomas, que a vida pouco a pouco se extinguia. Mandei-lhe dar caldo com algumas gotas de amoníaco. Neste momento entrou o Dr. Jolin Monkur, e logo que olhou para Edgard Pöe, disse:
 — Doutor, ele está quase morrendo.

— Sim, creio que tudo está consumado.

Examinou, então, minuciosamente o Pöeta e, enumerados todos os sintomas que se tinham desenvolvido desde a manhã, foi, como eu, de opinião, que Pöe sucumbia a uma afecção nervosa, sobrevinda em consequência de privações, cujo nome médico é encefalite.

 O meu colega aconselhou o uso de vinho, caldo e os cordiais, e aplicação de gelo à cabeça. Muitas vezes Pöe levou a mão à boca, como se tivesse desejo de beber água. Mandei dar-lhe um pedaço de gelo. Depois, uma pequena colherada de água que engoliu com dificuldade, porém, em seguida, tomou caldo sem dificuldade alguma. Neste momento, tornou a si, e abriu os olhos. Parecia ter dificuldade em falar.

— Doutor, tudo está consumado. Escreva: Eddie não mais existe.

Eddie era o nome filial que a Sra. Clemm, sua sogra, lhe dava.

— Permita, Sr.  Pöe, que eu lhe previna que o seu fim está próximo. Tem alguma recomendação a fazer a seu respeito ou a seus amigos?

Ele murmurou:

— Adeus! Até a eternidade.

— Pense em seu Salvador — respondi eu. — Ele   terá piedade de você como de toda a humanidade. Deus é misericordioso!

 — As abobadas do Céu me aniquilam! Repouso, deixe-me passar. Deus escreveu os seus decretos legíveis na face de todas as criaturas humanas. Os demônios apoderam-se de um corpo... por prisão têm as turbulentas vagas do negro desespero.

— Espere e tenha confiança nele.

— Assassino de mim mesmo, entrevejo o porto, mas há ali rodomoinho. Onde está o guia, a barca de salvação?... Barco de fogo, mar de cobre! Calmaria em todas as partes, em nenhuma um porto de salvação!

Seus olhos se elevaram ao céu de tal maneira que apenas se viam os globos brancos: fez alguns movimentos convulsivos e, após um tremor geral, tudo se concluiu.

Isto ocorreu por volta da meia-noite de 7 de outubro de 1849. 

Soube pelo porteiro do hotel Pratt Street que Pöe tinha chegado a 5, que o vira tomar o trem para Philadelphia, e que os condutores encarregados dos bilhetes o tinham encontrado desmaiado no vagão das bagagens. Chegando à estação do Havre de Grace, o condutor conduziu-o ao trem que o levou a Baltimore. Chegou à noite, e ninguém o viu, até o momento em que foi encontrado no canto da rua Light Street. Sem dúvida, tinha andado errando toda a noite pelas ruas de Baltimore.

Alguns instantes depois de sua morte, recebi uma maleta que remeti, por intermédio do Sr. Nelson Pöe, à sua sogra, Sra. Maria Clemm. Conservo as cartas que ela me dirigiu, agradecendo os cuidados prestados a seu querido Eddie durante a sua enfermidade. Depois de sua morte, foi o corpo de Edgar Pöe lavado, vestido em terno de tecido preto e exposto em uma grande sala da Universidade, imediata ao hospital, onde numerosos amigos e admiradores do defunto vieram tributar-lhe a última homenagem de respeito. Cinquenta senhoras receberam cada uma madeixa desses magníficos cabelos negros. O corpo esteve exposto o dia todo.

Na manhã de 9, foi sepultado no cemitério Westminster, situado na esquina de Fayette e Greene Street, em Baltimore; era este o lugar de inumação da família Pöe.

Os seus restos mortais foram acompanhados à sepultura pelos mais distintos habitantes de nossa cidade em artes e literatura. Porém, ausente desta imensa multidão de gente, estava, sem dúvida, a pessoa que mais sinceramente chorava por Edgar Pöe: a Sra. Maria Clemm, sua sogra, que também era a sua tia, porque ele era casado com a prima de primeiro grau.

Pöe não estava desfigurado: todas as suas feições conservavam-se calmas, em seus lábios parecia desenhar-se um sorriso e todos aqueles que o viram, exclamaram: “Que semblante tão pacifico!”. O rosto tinha conservado a sua cor, parecia que ele dormia. Era Edgar Pöe um homem bonito; trajava com esmero e gosto tal que difícil seria igualá-lo. Seu semblante era admiravelmente moldado, a testa proeminente e espaçosa, igualando em proporção à do grande Napoleão Bonaparte, de quem tenho um busto em minha casa. Sua cútis alva, cabelos pretos como a asa do corvo, e com tendência a se anelarem. Os dentes admiráveis e os olhos pardos. O seu talhe era de cinco pés e dez polegadas. Suas mãos eram tão delicadas como as de uma mulher.

A mortalha foi enfeitada por minha mulher e algumas senhoras amigas suas que consideraram como uma honra contribuir com esta homenagem ao ilustre poeta.

Um cavalheiro europeu, de passagem por Baltimore, que o tinha visto alguns momentos antes de sua morte, chorou pelo poeta, dizendo que ele sido o maior crítico e poeta americano. Ele tinha lido todas as suas obras, e quanto saía das mãos de Edgar Pöe, ele admirava com assombro.

J. J. Moran, M. D.— Medico em chefe durante sete anos da Universidade da Washington, hospital Broadway, na cidade de Baltimore, Maryland.

Tradução de Autor desconhecido.
Fonte: “O Globo”(RJ), edição de 24 de fevereiro de 1876

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O TELEGRAMA - Conto Cruel - Mário Terrabatava



O TELEGRAMA
Mário Terrabatava

O Sr. Ono convocou ao seu escritório dois de seus mais valorosos subalternos.

O Sr. Yamamoto era inteligente e sagaz. Cumpria as suas tarefas com rapidez e precisão. Mas não poria a mão no fogo por ele.

 O Sr. Fujimura era o mais antigo, dedicado e fiel de seus funcionários. Não era tão brilhante e competente quanto Yamamoto, mas era confiável.

Yamamoto era jovem e solteiro. Vivia com o pai, comerciante de chá. Fujimura já passara dos cinquenta anos. Era casado e pai de oito filhos, quatro deles ainda pequenos.

O Sr. Ono passara a noite em claro, mas não conseguira tomar a decisão. Agora, diante daqueles homens, teria que deliberar. A diretoria ordenou que dispensasse um dos dois.

Os dois funcionários, silenciosos, esperavam a decisão.

— Senhores — disse o Sr. Ono —, vocês sabem que eu não tenho outra opção. Devo dispensar um de vocês. Eu sofro muito com isso... Temo ser injusto... Vivemos tempos difíceis... A decisão que tomo... A escolha que faço, nada tem de pessoal...

Neste instante, o Sr. Ono foi interrompido pela Srta. Saito.

— Sr. Ono, chegou um telegrama urgente da matriz.

— Srta. Saito, aguarde um momento.

— Chefe, é um expediente urgente da diretoria.

— Nada é mais urgente que a deliberação que estou tomando agora. Estes homens merecem respeito. Não lhes quero prolongar a agonia.

A Srta.  Saito entregou o telegrama e se retirou.

— Sr. Ono, seria bom que o senhor lesse o telegrama —aconselhou gentilmente  o experiente Fujimura. – Pode ser algo importante e inadiável.

— Ele pode esperar, amigo – respondeu o chefe. — Preciso encerrar logo tudo isto.

Se dependesse do coração do Sr. Ono, o leal Fujimura permaneceria na empresa. O que seriam dele, esposa e filhos menores? Como conseguiria um novo emprego, com a idade avançada, naqueles difíceis tempos de pós-guerra? Mas estes mesmos tempos difíceis exigiam presteza e eficiência, não lealdade.

Havia lágrimas nos olhos do Sr. Ono quando ele anunciou:

— Lamento, Sr. Fujimura. Lamento muito.

Os homens apertaram as mãos. Fujimura e Yamamoto saíram da sala sem se olhar.

Somente então o Sr. Ono lançou os olhos no telegrama. Leu-o duas, três vezes.

Correu para a porta. Precisava alcançar Fujimura imediatamente.

Neste mesmo instante, chegaram os gritos ao seu gabinete.

 — Oh, não! —  O Sr. Ono deixou escapar dos lábios este uivo lastimoso.

É que o Sr. Fujimura acabara de se jogar da janela do 8º andar.

Desesperado, o Sr. Ono correu à janela. Viu o corpo do fiel funcionário estatelado no chão. Ao debruçar-se, chocado e cheio de remorso, deixou cair o telegrama. Após flutuar pachorrentamente no ar, o papel pousou com delicadeza na poça formada pelo sangue que ainda fluía, aos esguichos, do ouvido estourado do infeliz suicida.

“FAVOR DESCONSIDERAR ORDEM ANTERIOR PT AMBOS FUNCIONARIOS DEVERÃO SER MANTIDOS QUADROS EMPRESA PT PERMANECIA IMPRESCINDIVEL PT. HORI TAKETO VG DIRETOR DE PESSOAL”, dizia o telegrama.

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OLOFIN E A IMORTALIDADE - Conto Fantástico - Conto Tradicional Iorubá



OLOFIN E A IMORTALIDADE
(Conto tradicional Iorubá)

No princípio dos tempos, Olofin — o criador do mundo —fez o homem e a mulher e lhes concedeu a vida.

Olofin engendrou a vida, mas se esqueceu de criar a morte.

Os anos se passavam e os homens e as mulheres envelheciam cada vez mais, mas não morriam. Assim, a terra se encheu de pessoas velhas que tinham milhares de anos e continuavam governando de acordo com as suas antigas leis.

Tanto imploraram os mais jovens que um dia seus clamores chegaram aos ouvidos de Olofin. E Olofin viu que o mundo não era tão bom quanto ele havia planejado e sentiu que ele mesmo estava velho e cansado demais para consertar aquilo que tão mal lhe havia saído.

Então Olofin convocou Iku para se encarregar da resolução do problema. Iku compreendeu que deveria acabar com o tempo em que as pessoas nunca morriam. Fez, então, com que chovesse sobre a terra durante trinta dias e trinta noites sem parar. E tudo ficou submerso. Somente as crianças e os mais jovens puderam subir nas árvores altaneiras e galgar as montanhas mais elevadas.

A Terra inteira se converteu num grande rio sem margens. Os jovens souberam então que a terra estava mais limpa e mais bela e correram a dar graças a Iku, porque este havia acabado com a imortalidade.

Versão em português de Paulo Soriano


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O NOVO CORAÇÃO - Conto Cruel - Mário Terrabatava


O NOVO CORAÇÃO
Mário Terrabatava

Wilhelm Bjørnson von Heiden, banqueiro e industrial, presidente da sociedade clandestina Fraternidade Ariana Farroupilha, finalmente ganharia um novo coração.

Recebeu o telefonema às 7:00h da manhã.  Às 8:00h, o seu helicóptero particular pousava no heliponto do hospital.  Naquele mesmo dia, à tarde, era um homem transplantado.

A recuperação daquele ariano de “puríssimo sangue”, descendente de prussianos e noruegueses, foi surpreendente. Sem dúvida, atribuía aquela capacidade de regeneração à pujança natural de sua estirpe viking.

Quando, porém, voltou à sua mansão, ficou vivamente contrariado e temeu pela própria saúde. Soube que o seu condomínio de alto luxo admitira uma família negra abastada. Algo inadmissível.

Mandou que os seus investigadores descobrissem o valor da compra do imóvel e pagou por este o dobro aos recém-chegados. Enxotou-os para bem longe, sem se preocupar com as despesas.

— Negros, semitas e asiáticos que procurem os seus lugares. Custe o que custar. — disse.

À medida que recuperava a saúde, mais se convencia da supremacia racial branca. Certamente, o jovem que lhe doou o coração era um genuíno ariano.

Mandou os seus investigadores a uma nova missão: descobrir a família do doador que lhe salvara a vida. De posse do nome e endereço da mãe do jovem falecido, convidou-a para um jantar de agradecimento em sua mansão.

Chegou o dia do ansiado encontro.

Von Heiden aguardava na luxuosa sala de visitas.

Quando o lacaio fez a porta abrir, e introduziu no requintado recinto a viúva de meia-idade, o cidadão ariano teve uma síncope. Levou a mão ao peito e desmaiou. Mas o seu novo coração era forte demais para levá-lo à morte.

Mesmo assim, von Heiden preferiu a morte a abrigar no peito aquele coração “hediondo”. A sua honra ultrajada e o seu ódio profundo não admitiam. O presidente da Fraternidade Ariana Farroupilha sentia uma imensa vergonha diante de seus pares e uma indizível repulsa de si mesmo.

Dois dias depois da terrível descoberta, von Heiden, o odioso milionário, estourou os miolos. Era o de um homem negro o saudável coração que ousava bater em seu nefando peito "ariano".


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DELÍRIO ÍGNEO - Conto de Terror - Paulo Soriano


DELÍRIO ÍGNEO
Paulo Soriano

Para Henry Evaristo.

Do alto da esplanada do paço do arcebispado, de onde podia divisar a ampla praça das execuções, agora despovoada, o frade Heinrich Kramer escutava, com o peito apertado, o silêncio deprimente que se seguira ao espetáculo da imolação. E respirava o ar impuro, infecto, impregnado de fumaça humana.

Àquela hora, não mais se viam as chamas escarlates, que vorazmente percorriam as achas de madeiras, e se elevavam ao poste de suplício para consumir, vagarosamente, as carnes impuras da condenada, atada à trave, em corpo e alma, por pregos e arames vigorosos. A negra fumaça, de odor adocicado pela carne calcinada, não mais se erigia em uma coluna convulsa e espiralada, antes de atirar-se ao ar noturno, e espraiar-se sobre o céu de Mainz como uma bruma escura e fuliginosa.

Não, a imolada não gritava mais, lacerada pela fornalha que cuspia grossos rolos de fumo negro. E nem mais se exasperava a turba inclemente, que assistia à execução como se imersa num delírio doce, num transe frenético e narcótico.

Após a execução, um quê de remorso embaçava aqueles corações empedernidos, substituindo o prazer embriagante, haurido do sofrimento alheio, por uma sensação de desconforto, como o mal-estar e a depressão que advêm após a ingestão de substâncias entorpecentes, oriundas das Índias.

         O frade Kramer também padecia dessa sensação, dessa inquietação opressora que se depositava em sua alma como a fuligem dos mártires da Inquisição. Mas, no seu caso, havia particularidades. É que o erudito inquisidor, o dominicano culto e inflexível, embora cuidadoso na análise das provas, condenara a garota sem que houvesse, no seu espírito de julgador, a certeza absoluta quanto à culpabilidade da acusada. Mas, era certo, a maioria das provas pesava contra ela. E a confissão — a rainha das provas — havia sido obtida sem que fosse necessário recorrer a expedientes de torturas mais atrozes. Sim! A jovem confessou que, a um pensamento seu, do nada brotavam as chamas infernais, que grandes estragos traziam à região, reduzindo a pó os celeiros a duras penas provisionados pelos camponeses. Confessou, ainda, que as chamas vinham, de fato, das regiões mais aterradoras do Inferno, onde Lúcifer, o seu mestre poderoso, reinava absoluto. Finalmente, quando o ferro em brasa se aproximou de seus encantadores olhos castanhos, declarou, aos gritos, que criancinhas indefesas eram consumidas pelos fogos roubados a Satanás, tudo em troca de prazeres lascivos com os íncubos indecentes.

         Não, não poderia haver dúvidas. Com um certo alívio n’alma, o frade Kramer se recolheu à minúscula cela, dedicada aos clérigos humildes, onde, ainda angustiado, orou a Deus, em busca de paz e esclarecimento. Enquanto desfiava suas preces ao Criador, com as mãos soldadas ao velho terço ensebado, vinha a refrigerante certeza de que a purificação fora necessária; assaltava-o, pois, a sensação de que o Todo Poderoso aprovava as suas ações em defesa da humanidade, voltadas que eram contra a disseminação dos malefícios insidiosos dos demônios; dominava-o, enfim, a leveza d’alma que apascenta aqueles que se esmeram no cumprimento de seu dever.

         Mas, mal silenciaram os lábios que se elevavam ao Senhor; mal se diluíra aquela desesperada sintonia com o divino; mal retornara Frei Kramer à solidão amarga e desesperadora de sua alma, e novas e terríveis excogitações cravaram-se na consciência do frade inquisidor, tão terríveis e tão sufocantes que o homem se  pôs a suar abundantemente. Um calor absurdo, insuportável, invadiu a sua cela, cujas paredes adquiriam a coloração de ferro em brasa.

         Então, seres disformes tomaram-no pelas mãos e conduziram-no por um corredor abobadado, erigido em rochas incandescentes. Um átrio se abriu à frente. Uma legião de demônios circulava e evoluía entre as labaredas abissais, olhando para ele com sorrisos ferozes e zombeteiros. Rios caudalosos de lava borbulham. Vapores sulfurosos emanavam das rochas candentes. E uma luminescência rubra, que brotava dos rochedos ferventes, atirava para todos os lados clarões de brasa, perpassando a atmosfera que fervia e se esvaía em seu próprio delírio, ao som de músicas profanas e excêntricas danças macabras.

         Foi aí que o frade Kramer percebeu que os demônios, com seus bailados animalescos e sorrisos de escárnio, vinham ao seu encontro. Heinrich Kramer retrocedeu. Olhou para trás, onde deveria estar a abertura do corredor fulgurante. Mas, às suas costas, outros seres infernais, ainda mais terríveis, evoluíam ao som da música profana e impediam a sua fuga.

         Agarraram-no com mãos causticantes e o ataram a um trono de ferro, perpassado por lâminas pontiagudas. Sim, ali estava, sob tortura, o frei Heinrich Kramer, o homem escolhido, em 9 de dezembro do Ano da Encarnação de Nosso Senhor de 1484, para protetor da humanidade, por decreto de Inocêncio VIII!

         A mais abominável daquelas criaturas, a que tinha poços abismais à guisa de olhos, onde cintilavam pequenas línguas chamejantes, trazia nas mãos um exemplar do Malleus Maleficarum e, num idioma absurdo, somente dominado por seres incriados, como anjos e demônios — um misto de latim, grego e sânscrito, mas com inflexões absurdamente aramaicas —, punha-se a acusar o frade franciscano, com os dedos em riste saindo, como víboras, dos paramentos abjetos, semelhantes àqueles majestosamente ostentados pelos inquisidores.

         Um concílio de demônios desempenhava a função de jurado e todos aqueles entes hediondos assentiam e murmuravam horrorizados, numa farsa excêntrica e ignóbil, a cada acusação mais veemente, que sobressaía sobre as demais expressões injuriosas.

         Veio, então — em sequência um ritual de tortura desnecessária, que fez o padre contorcer-se de pavor, tremer e urrar — o tétrico veredicto, pronunciado pelo mais horrendo dos demônios, o dos olhos sem fim. Àquela altura, o demônio retornava calma e magnanimamente às profundezas de onde viera, satisfeito com o dever cumprido, e sem uma sombra de remorso a anuviar suas faces medonhas. Ia de mãos dadas com a vítima, a pobre moça que, sob a ordem de Heinrich Kramer, ardera, naquela mesma noite, sob os céus impiedosos de Mainz. A moça ainda olhou para trás, desvencilhou-se do terrível demônio, e ensaiou, suntuosamente, para o frade Kramer, um gesto obsceno, urdido com ambas as mãos — a palma de uma descendo sobre o punho semisserrado da outra —, e lhe lançou um sensual sorriso de galhofa, antes de mergulhar definitivamente nas labaredas infernais, onde Satanás, em festa, a esperava.

         Prenderam, afinal, o sacerdote a um poste ígneo, cuja consistência era a de uma enorme língua de fogo, ereta e palpável. Então vieram as múltiplas chamas, que engolfaram o frade Kramer e fizeram-no arder como uma pira gigantesca.

         Sim, o frade Kramer estava em chamas. As bolhas na pele inflavam e explodiam, aspergindo, na atmosfera fumegante, os humores corpóreos, que eram imediatamente absorvidos pelas chamas. A derme rugosa e corrupta descolava-se do corpo, escorrendo para o chão, em postas flácidas e deslizantes, como se não mais se ajustasse à estrutura humana em que, até então, tão bem se amoldava. Mesmo assim — e uma vez liberto do poste ígneo —, o frade Kramer, convolado em carne viva, infiltrou-se pelo corredor abobadado, deixando atrás de si uma nuvem de fumaça negra, que escapulia do seu corpo como uma sombra em movimento e se projetava contra os espectros ruivos dos demônios ensandecidos. Atirou-se ao catre e pôs-se a debater em seu leito simples de padre dominicano, consumido pelas chamas e pela dor indizível.

         No dia seguinte, não haveria julgamento. O arcebispo de Meinz viu-se na contingência de convocar o frade James Sprenger para reconduzir os trabalhos do Santo Ofício. Isto porque, quando as vésperas já envelheciam, e, em comitiva, os demais clérigos buscaram o frade Kramer, em seu catre, para a audiência de inquirição, encontraram, sobre o leito, a figura grotesca de um homem calcinado, dobrado em si mesmo, reduzido a cinza por chamas ardentes e invisíveis. Sim! O hábito do frade Kramer permanecia intacto. E íntegros estavam os lençóis nos quais se envolvera, ao adormecer. Não havia sinais de fontes externas de calor e nem o fogo se alastrara naquele antro infeliz. Apenas uma sombra baça, de fuligem gordurosa, e que evolara das carnes em chamas, desenhara-se no teto da cela, reproduzindo fielmente o corpo desarticulado e a fisionomia desesperada do inquisidor, enquanto ele morria. Sim, congelada no tempo, até hoje se pode contemplar, mas não sem horror, naquele teto ancestral, a estampa dos agônicos estertores do padre culto e pio, de cujas mãos saíram o Malleus Maleficarum. Mas o frade, até hoje lembrado por sua fidelidade à causa da Igreja, ardera até a completa combustão, como e as chamas viessem de dentro de seu organismo...ou mesmo do inferno flamejante que devastara a sua pobre consciência!


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O FILHO - Conto Clássico de Horror - Horacio Quiroga



O FILHO
Horacio Quiroga
(1878 – 1937)
Tradução de Paulo Soriano


— Sim, papai — repete o garoto.

É um poderoso dia de verão nas Missões, com todo sol, calor e calma que a estação pode proporcionar. A natureza, plenamente aberta, sente-se satisfeita consigo mesma.

Com o sol, o calor e o calmo ambiente, o pai abre também o seu coração à natureza.

— Tenha cuidado, garoto — diz ao filho, condensando nessa frase todas as recomendações, e o seu filho a entende perfeitamente. 

— Sim, papai — responde a criança, enquanto pega a escopeta e carrega de cartuchos os bolsos da camisa, fechando-os com cuidado.

— Volte na hora do almoço — observa ainda o pai.

— Sim, papai — repete o garoto.

Equilibra a escopeta na mão, sorri ao pai, beija-o na cabeça e parte. O pai o segue por um instante com os olhos, e volta aos afazeres do dia, feliz com a alegria do seu menino.

Sabe que o filho é educado desde a mais tenra infância no hábito e na precaução ao perigo: pode manejar um fuzil e caçar qualquer coisa. É alto para a idade, mas tem apenas treze anos. E parecia ter menos, a julgar pela pureza dos olhos azuis, ainda frescos de surpresa infantil.

O pai não precisa desviar os olhos dos afazeres, porque segue com a mente a marcha do seu filho.

Ele já cruzou a picada vermelha e agora segue direto para o mato, através do caminho aberto entre as touceiras de capim.

Para caçar no mato — caça de pelo — é preciso mais paciência que o seu filhote pode render. Depois de atravessar essa ilha de mato, o filho contornará os limites de cacto até o charco, procurando pombos, tucanos ou certo casal de garças que Juan, amigo dele, descobrira há alguns dias.

Somente agora o pai esboça um sorriso à lembrança da paixão cinegética das crianças.

Às vezes, caçam somente um jacu-touro, um surucuá — até menos ainda — e regressam triunfantes: Juan à fazenda, com o fuzil de nove milímetros, que ele lhe deu de presente; o filho, à meseta, com a grande escopeta Saint-Étienne, calibre 16, ferrolho quádruplo e pólvora branca.

Também com ele era assim. Aos treze anos, daria a vida para ter uma escopeta. Seu filho, naquela idade, já tem uma, e o pai sorri. 

Todavia, não é fácil para um pai viúvo, sem outra fé ou esperança que não a vida de seu filho, educá-lo como ele o tem feito, livre em seu curto raio de ação, seguro de seus pequenos pés e mãos desde que tinha quatro anos, consciente da imensidão de certos perigos e da insuficiência de suas próprias forças.

Esse pai teve de lutar bravamente contra o que ele considerava seu egoísmo. Uma criança facilmente calcula mal, pisa no vazio e se perde um filho!

O perigo subsiste sempre para o homem em qualquer idade; mas sua ameaça arrefece se, desde pequeno, o filho é acostumado a contar apenas com as próprias forças.

Deste modo tem o pai educado o filho. E, para consegui-lo, teve de resistir não apenas ao próprio coração, mas também aos tormentos morais; porque esse pai, de estômago e vista débeis, sofre, já há algum tempo, de alucinações. 

Viu, materializadas em dolorosa ilusão, as recordações de uma felicidade que não mais deveria brotar da nulidade em que se enclausurara. A imagem de seu próprio filho não escapou a esse tormento. E viu o garoto rolar, coberto de sangue, no momento em que percutia, no torno da oficina, uma bala parabellum; mas, na verdade, a criança apenas limava a fivela do cinturão de caça. 

Um acontecimento terrível... Mas hoje, com o ardente e vital dia de verão, que parece uma herança do amor a seu filho, o pai se sente feliz, tranquilo e seguro do futuro. 

Neste instante, não muito longe, soa um tiro.

— É a Saint-Étienne... — cogita o pai, ao reconhecer a detonação. Dois pombos a menos na mata...

Sem mais atentar ao ínfimo acontecimento, o homem se abstrai de novo em seu trabalho.

O Sol, já muito alto, continua a subir. Para onde quer que se olhe — pedra, terra, árvores —, o ar rarefeito, como em um forno, vibra com o calor. Um profundo zumbido, que toca a plenitude, e impregna a atmosfera até onde a vista alcança, concentra nessa hora toda a vida tropical. 

O pai consulta o pulso: doze horas. Então, levanta os olhos para a mata. Seu filho já deveria estar de volta. Na mútua confiança que depositaram um no outro — o pai de têmporas prateadas e a criança de treze anos —, não há lugar para mentiras. Quando o filho responde: “sim, papai”, cumprirá com a palavra. Ele disse que voltaria antes do meio-dia, e o pai sorriu ao vê-lo partir. Mas não voltou.

O homem retoma os afazeres, esforçando-se em concentrar a atenção em sua tarefa. É mesmo fácil, tão fácil, perder a noção do tempo dentro da mata, e sentar-se um pouquinho no chão, enquanto se descansa, imóvel, não é?

O tempo passou. São doze e meia. O pai sai da oficina e, ao apoiar a mão no balcão de mecânico, ressoa, do fundo de sua memória, o estampido de uma bala parabellum.

Instantaneamente, pela primeira vez, já passadas três horas, dá-se conta de que, depois do tiro da Saint-Étienne, não ouviu nada mais. Não ouviu rolar o pedregulho sob um passo conhecido. Seu filho não voltou e a natureza se acha imóvel na margem do bosque, a esperá-lo. Oh! Um caráter tranquilo e uma cega confiança na educação de um filho não são suficientes para afugentar o espectro da fatalidade que um pai de vista fraca vê erguer-se dos confins da mata. Distração, esquecimento, demora fortuita: nenhum desses insignificantes motivos, que podem retardar a chegada de seu filho, encontra acolhida naquele coração.

Um tiro... Só um tiro ecoou, e há muito tempo. Depois do estampido, o pai não mais ouviu um ruído, não mais viu um pássaro, ninguém perpassou a clareira para anunciar-lhe que, ao cruzar uma cerca, uma grande desgraça...

Sem chapéu e sem facão, o pai ganha caminho. Transpõe a clareira de touceiras, entra no mato e contorna o muro de cactos, mas sem achar o menor sinal de seu filho. 

Mas a natureza continua estática. E quando o pai percorre as sendas de caça conhecidas e, em vão, explora o charco, adquire a certeza de que cada passo que dá o leva, fatal e inexoravelmente, ao cadáver do filho.

Nenhuma censura a ser feita, é lamentável. Só a realidade fria, terrível e consumada: seu filho morreu ao cruzar uma cer... 

Mas, onde, em que lugar? Há tantas cercas ali, e é tão, tão sujo o matagal! Oh, muito sujo! Por pouco que ele se descuide ao cruzar os fios com a escopeta na mão...

O pai reprime um grito. Viu levantar-se no ar... Oh, não é o seu filho, não! E volta-se para outro lado, e para outro e outro ainda...

Nada se ganharia em ver a cor de sua pele e a angústia em seus olhos. Esse homem ainda não chamou pelo filho. Embora o seu coração clame por ele aos gritos, a boca continua muda. Sabe bem que o tão só ato de pronunciar o seu nome, de chamá-lo em voz alta, já será a confissão da morte do filho. 

— Meu garotinho! — escapa-se-lhe de repente. E se a voz de um homem enérgico é capaz de chorar, tapemos os ouvidos por misericórdia, ante a angústia que clama naquela voz. 

Ninguém respondeu. Pelas picadas rubras de sol, envelhecido dez anos, segue o pai, procurando pelo filho que acabara de morrer.
— Meu filhinho!  Meu menininho! — clama ele num diminutivo que irrompe do fundo de suas entranhas.

Já antes, em plena felicidade e paz, esse pai sofrera uma alucinação, em que seu filho rolava com a fronte traspassada por uma bala de cromo-níquel. Agora, em cada rincão sombrio do bosque, ele vê chispas de arame. E, ao pé de um poste, com a escopeta descarregada ao lado de si, ele vê seu...

— Garotinho! Meu filho!

As forças que permitem entregar um pobre e alucinado pai ao mais atroz pesadelo também têm um limite. E o nosso sente que as suas forças se lhe escapam, quando vê repentinamente assomar, de uma vereda lateral, o seu filho.

Para um garoto de treze anos é bastante ver, a cinquenta metros, a expressão de seu pai, sem facão, dentro da mata, para apressar o passo com os olhos úmidos.

— Garoto... — murmura o homem. E, exausto, deixa-se cair sentado na areia alvejante, cingindo com os braços as pernas de seu filho.

A criança, assim enlaçada, fica de pé; e, como compreende toda a dor de seu pai, lhe acaricia lentamente a cabeça:

— Pobre papai...

Enfim, o tempo passou. Já eram quase três horas. 

Agora juntos, pai e filho empreendem o regresso a casa. 

— Por que você não se guiou pelo Sol para saber a hora? — murmura ainda o primeiro.

— Eu me guiei, papai. Mas, quando ia voltar, vi as garças de Juan e fui atrás delas.

— O que você me fez passar, garoto!

— Paizinho... — murmura também o garoto.

Depois de um longo silêncio:

— E as garças... Matou-as? — pergunta o pai.

— Não.

Detalhe sem importância, afinal.  Sob o céu e o ar incandescentes, a descoberto pela clareira de touceiras, o homem volta a casa com seu filho, sobre cujos ombros, quase tão altos quanto os seus, repousa o seu feliz braço de pai. Regressa encharcado de suor e, embora alquebrado de corpo e alma, sorri de felicidade.

***

Sorri de alucinada felicidade... Pois esse pai segue sozinho.

Afinal, ele não encontrou ninguém, e seu braço se apoia no vazio. Porque atrás dele, ao pé de um poste, com as pernas erguidas, enredadas no arame farpado, seu adorado filho jaz ao sol, morto desde as dez horas da manhã. 


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