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Mostrando postagens de Dezembro, 2020

CARTA DE UM LOUCO - Conto Clássico Fantástico - Guy de Maupassant

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  CARTA DE UM LOUCO Guy de Maupassant (1850 – 1893) Tradução de Paulo Soriano   Meu caro doutor, coloco-me em suas mãos. Faça o que quiser comigo. Vou lhe narrar, bem francamente, o meu estranho estado de espírito, e o senhor poderá avaliar se não seria melhor que eu fosse tratado, durante algum tempo, numa casa de repouso, em vez de abandonar-me às garras das alucinações e dos sofrimentos que me atormentam. Aqui está a longa e precisa história da singular enfermidade de minha alma. Eu vivia, como todo mundo, contemplando a vida com os olhos abertos e cegos de todo homem, sem me surpreender e sem compreender o que via. Vivia como vivem os animais, como todos vivemos, realizando todas as funções da existência, examinando e acreditando ver, acreditando saber, acreditando conhecer o que me cercava, quando, certo dia, percebi que tudo é falso. Foi uma frase de Montesquieu que, de repente, iluminou meu pensamento. Ei-la “Um órgão a mais ou a menos em nossa máquina nos teri

UM FATÍDICO CASAMENTO - Narrativa Clássica de Terror - Montague Summers

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  UM FATÍDICO CASAMENTO Montague Summers (1880 – 1948) Tradução de Paulo Soriano     Uma história do século XVIII conta a história de uma família tártara, de uma casa da mais alta importância, que vivia em Pequim, e cujo filho era noivo de uma dama de linhagem igualmente antiga e aristocrática. No dia do casamento, como é o costume chinês, a noiva foi levada à casa do noivo numa liteira cerimonial, e esta, de acordo com as tradições, estava cuidadosamente fechada, com os reposteiros cerrados. Acontece que, no instante em que a liteira passava por um velho túmulo, um súbito vento, forte e fugaz, levantou uma densa nuvem de poeira. Quando o cortejo chegou ao destino, saíram da liteira duas noivas idênticas em todos os detalhes.   Era impossível, a essa altura, interromper as núpcias.  Mais tarde, à noite, os mais penetrantes gritos foram ouvidos na câmara nupcial. Quando a porta foi arrombada, o marido caiu inconsciente no chão, enquanto uma das noivas jazia, deitada, com os olhos

AS RELÍQUIAS DE BREITENBURG - Conto Clássico Fantástico - Charles Dickens

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  AS RELÍQUIAS DE BREITENBURG Charles Dickens (1812 – 1870)   Quando minha mãe era uma garotinha de oito ou nove anos e vivia na Suíça, o conde R. de Holstein mudou-se, por causa de sua saúde, para a cidade de Vevey, onde alugou uma casa com a intenção de ali permanecer por dois ou três anos. Em seguida, travou conhecimento com meus avós maternos, e esse relacionamento resultou em amizade. Eles se reuniam constantemente e mantinham uma crescente afinidade entre si. Conhecendo as intenções do conde quanto à sua permanência na Suíça, a minha avó ficou muito surpresa quando, numa certa manhã, recebeu um breve bilhete do conde, informando que se via obrigado a retornar com urgência à Alemanha, nesse mesmo dia, para tratar de assuntos inesperados. Na carta, ele acrescentava que sentia muito por ter de partir, embora as circunstâncias o compelissem fazê-lo. Terminava a missiva despedindo-se dos amigos e esperando que tivesse a ocasião de encontrá-los novamente. O conde deixou Vevey n

CHANG KUEI E A MORTA-VIVA - Narrativa Clássica de Terror - Montague Summers

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  CHANG KUEI E A MORTA-VIVA Montague Summers (1880 – 1948) Tradução de Paulo Soriano   No ano de 1751, um mensageiro chamado Chang Kuei foi enviado às pressas de Pequim com um despacho governamental urgente. Tarde da noite, depois de passar por Liang Hsiang, sobreveio uma violenta tempestade, cujas rajadas de vento apagaram completamente sua lamparina. Felizmente, ele percebeu, a alguma distância, uma humilde estalagem e para lá se dirigiu, pois era absolutamente impossível prosseguir na escuridão. A porta foi aberta por uma jovem mulher, que o conduziu ao albergue e levou seu cavalo até um pequeno estábulo contíguo. Naquela noite, ela o recebeu em sua cama, prometendo colocá-lo no caminho certo ao amanhecer. Mas, na verdade, o mensageiro só acordou muitas horas depois. Ao despertar, entorpecido de frio, viu, para a sua surpresa, que estava deitado sobre uma tumba situada em meio a denso matagal, enquanto seu cavalo jazia amarrado a uma árvore vizinha. O documento somente

PARA QUE NÃO HAJA CONFUSÃO! - Conto Clássico Fúnebre - Villiers de L'Isle Adam

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  PARA QUE NÃO HAJA CONFUSÃO! Villiers de L'Isle Adam Tradução de Paulo Soriano   Ao Sr.  Henri de Bornier  “ Lançando não se sabe onde seus globos tenebrosos .” C. Baudelaire   Numa manhã cinzenta de novembro, eu descia, apressado, pelas docas. Uma garoa fria umedecia a atmosfera. Os sombrios transeuntes, sob a réstia de guarda-chuvas deformados, cruzavam-se. O amarelado Sena transportava seus navios mercantes como escaravelhos desordenados. Nos conveses, o vento fazia voar abruptamente os chapéus, que seus donos disputavam no espaço com atitudes e contorções cuja contemplação é sempre tão dolorosa a um artista. Minhas ideias estavam pálidas e nebulosas; a preocupação com uma reunião de negócios, aceita no dia anterior, assombrava minha imaginação. O tempo urgia: decidi abrigar-me sob um dossel de um portão de onde eu poderia, convenientemente, chamar um cabriolé. Naquele instante vi, bem ao meu lado, a entrada de um edifício quadrangular, de aspecto burguês.

A MENSAGEM - Audioconto de Suspense - Eduardo Dal Zotto Schmidt

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A MENSAGEM Eduardo Dal Zotto Schmidt    O filme de terror que Martha e Julia estavam assistindo termina, mas não a tensão daquela noite. Cai a energia, vem a escuridão, toca o telefone... Começa o horror...  Para uma melhor experiência, apague as luzes e coloque os fones de ouvido...     Sobre Eduardo Dal Zotto Schmidt:  Nascido em abril de 1987 na cidade de Porto Alegre. Aos 14 anos, mudou-se para Florianópolis onde começou a praticar esportes, em especial, voleibol. Esta caminhada o direcionou a uma formação superior em Educação Física e Gestão de Esporte. Aficionado por filmes, jogos, livros e séries de suspense/terror, desde muito jovem se mostrava interessado por elementos temáticos, foco da narrativa e enredo. Em 2019 surgiu a oportunidade de trabalhar com locução de eventos esportivos. No ano seguinte, começou, por  hobby , um canal no Youtube chamado  Thriller TV , no qual posta contos do seu gênero favorito, com narração e efeitos sonoros para uma maior imersão de qu

UM VAMPIRO DA CHINA - Narrativa Clássica de Terror - Montague Summers

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UM VAMPIRO DA CHINA Montague Summers (1880 – 1948) Tradução de Paulo Soriano   O vampiro chinês, Ch'ing Shih , é considerado um demônio que, ao tomar posse de um corpo morto, preserva-o da corrupção devido ao seu poder predatório, com o qual se aproveita de outros cadáveres ou de pessoas vivas. Os chineses acreditam que um homem tem duas almas: a Hun , ou alma superior, que compartilha da qualidade dos bons espíritos; e a P'o , ou alma inferior, que geralmente é maligna e pode ser classificada entre os Kuei , ou seja, espíritos malignos. Acredita-se que, enquanto qualquer parte do corpo, mesmo que seja apenas um pequeno osso, permanece íntegra, a alma inferior pode utilizá-la para se tornar um vampiro. Se, particularmente, o Sol ou a Lua brilham intensamente sobre um corpo insepulto, o P'o , então, adquire energia hábil a produzir e obter sangue humano, com o que amplia a sua vitalidade vampírica. Quanto à aparência, o monstro chinês é muito semelhante ao vamp

A SAGA DOS FANTASMAS DE BEETSTERZWAAG - Conto Tradicional Holandês

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A SAGA DOS FANTASMAS DE BEETSTERZWAAG Conto tradicional holandês   As coisas não iam bem na charneca de Olfertsveld e todos em Beetsterzwaag sabiam quem eram os responsáveis pela assombração que assolava o lugar: eram os terríveis espectros de dois advogados. Durante anos, eles haviam patrocinado causas escusas, pois sabiam, exatamente, onde as brechas da lei eram mais estreitas ou mais largas. Assim, ajudavam os bandidos a escaparem da lei e criavam ciladas para pessoas honestas. Eram dois irmãos que trabalhavam juntos e moravam na mesma casa. Quem passava por ela à noite, podia escutá-los a delirar, porque discutiam os arrazoados suspeitos que fariam e brindavam um ao outro até adormecer. Certa feita, beberam tanto que não acordaram no dia seguinte. Sabendo da morte dos irmãos, disseram as pessoas de Beetsterzwaag: — Agora não seremos mais incomodados por eles! Mas estavam equivocados: eles não sabiam que os advogados ainda estavam na região de Beetsterzwaag, refugiados

SUPERSTIÇÃO - Conto de Terror - Belén Fernández Crespo

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SUPERSTIÇÃO Belén Fernández Crespo Tradução de Paulo Soriano   O bosque, aterrorizado, havia emudecido. No denso silêncio, ressoava o badalar do sino como um uivo brutal. Apavorado, com o coração latejando forte nos ouvidos, José Piñero lutava por respirar. Já sentia o calor das velas acariciando suas costas. Alçou-se ao limite de suas forças. Somente alguns metros o separavam de sua salvação no próximo cruzamento, ao final da senda. Via-se, como em sonhos, a abraçar o cruzeiro, agarrando-se a ele com férrea força, acordado em seu quarto com a certeza de que tudo havia siso um ridículo pesadelo. Saíra sozinho, passada a meia-noite, desprezando conselhos e advertências; rira-se da “superstição” estúpida. Ignorou todas as instruções para se proteger. A garra brutal rasgou sua camisa e o paralisou com seus dedos gelados. Derrotado, José caiu de bruços no chão. Fechou os olhos, tentando salvar-se, mas uma força sobrenatural o virou e o forçou a abri-los e contemplar o espectro de órbitas v