UM CERTO ANIMAL- Conto Insólito - Elias Antunes



UM CERTO ANIMAL

Elias Antunes
(Taguatinga/BR)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)


— Passo o dia a refletir sobre o que eu possa ser. À noite, quando se descuidam, saio de meu esconderijo para observar a Lua pelas pequenas aberturas da máscara de pano. Moro na lama, na lama e no exílio de meus dias. Conheço quase que exclusivamente a noite. Minha casa não passa de um laboratório. Chamam-me o homem-elefante-das-terras-quentes, ou o homem-dragão. Meu desfigurado corpo é alvo das lentes obstinadas da ciência e transformou-se em ponto turístico desta cidade beira-rio (beira-lama seria mais correto). Uma certa parte da semana fazem fila para observarem meu corpo. Talvez saibam que escapulo de vez em quando e não se importam, pois sabem que não irei longe. Estudam meu corpo e meus hábitos com um cuidado antigo. Não há espelhos em minha casa, para que não me ofenda com minha imagem, ou para que não me perca dentro de mim mesmo. A comida chega em vasilhames de alumínio. Às vezes choro. Tento organizar uma civilização, onde os seres humanos são animais estranhos e as casas, laboratórios. Talvez as diferenças e discriminações não existam nesse país. Escondo os projetos dos cientistas. Pedi a eles para me darem uma certa privacidade. Fizemos um pacto. Pensam que sou híbrido ou algo parecido. Vocês podem ter uma vaga noção. Tenho a pele negra e grossa como casco de tatu, os ossos estufados e desiguais. Toda minha feiúra causa espanto. Não compreendiam que debaixo das carnes malfadadas estava um homem. Traziam capim para eu comer. Tinha medo de que ao invés de palavras saíssem bramidos de minha boca. A realidade sobrepuja-me. Conhecer um monstro pelo lado de dentro... Fazem experiências comigo. Vivo nos livros. Vocês devem estar perguntando: como aprendeu a ler? Mas se esquecem de que um grupo de cientistas agora dão-me tudo de que preciso e ensinaram-me a ler. Mesmo desobedecendo a ordens, saio de casa, mas somente na madrugada, quando ninguém poderá me reconhecer, coberto pela máscara de pano. Os poucos transeuntes tomar-me-ão por bêbedo ou mendigo. Caminho sobre as tábuas do porto, provocando um barulho elefantino com meus pés grossos e redondos. Pensam que sou um fantasma de algum bicho morto. Os estivadores recolhidos nos casebres deploráveis saem para o trabalho. Volto ao laboratório. As pessoas dizem as piores coisas a meu respeito: que sou uma metamorfose não terminada; algum deus castigado; um mimetismo; um dragão fora de moda. Penso na morte e não posso entrever diferenças entre morrer na humilhação, dando o corpo aos crucificadores ou aos magarefes ou à podridão. A morte seria uma libertação. Sei que muitos apontam o dedo de longe, dizendo: aquela é a casa do homem-dragão, ganhando dinheiro fácil com minha desgraça. Vou ao porto olhar a lua e esquecer minha condição miserável. Fujo de mim mesmo. Compreendo que devem haver outros. Levanto-me na hora exata, lavo o rosto, a tromba, como, escrevo poemas, penteio os poucos cabelos sem espelho e deixo-me examinar por um punhado de cientistas. A pequena tromba que se insinua no lugar do nariz, os ossos estufados e desiguais como as paredes de um edifício em escombros, as pernas grossas e mancas, as patas de elefante não podem representar o que realmente sou. Não sou um monstro, um canibal, mas não sei mais de que isso. Sei somente que a pequena tromba que se insinua no lugar do nariz, os ossos estufados e desiguais, as pernas grossas e mancas, as patas de elefante não podem demonstrar o que sou. Quando vou ao porto vejo alguma sombra de gaivota que me traz calma. Perco-me em pensamentos. Tudo volta à velha rotina e isso me alegra. Somente quando os cientistas vêm-me ver sinto-me melhor e chego a abanar o rabo como um cão. Desculpem-me: esqueci-me de dizer sobre o rabo: na verdade é apenas mais um capricho e não deve exceder os 20 centímetros.

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A LENDA DO CASAL CHATERVEELL - Conto de Terror - Max Miranda



A LENDA DO CASAL CHATERVEELL
Max Miranda
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)


Estranhos envolvidos numa alma insone. Manhã fria: quem não acordou ali, morto permanece. O silêncio escorre entre as primeiras listras luminosas, inacabadas luzes. A casa cabia poucas frestas. Úmida. Amanhece, e um fio de palavras distantes ocupa o vento, rasteja até aos ouvidos de hóspedes e humildes. O casal acorda. Não anuncia o despertar. O lugar, sempre aos pés do medo, se encarrega de abrir os olhos de todos. Os dois descem a escadaria. “Sorrir é uma desgraça”. Ele concorda com um sinal forçoso nos lábios. No último degrau, pronuncia: “Seres de Chaterveell, não morram por amor. Saibam, atiro a morte aos amantes dos maus desejos”. Terminou a fala e sentaram num sofá vinho de respingos vermelhos. Vozes aumentam. Agitação e desequilíbrio na sala. Ninguém imagina o fim da manhã ou o começo da noite. Um barulho deixa a atmosfera indecisa. Não podem correr os convidados. Não há saída. Há agonia.

O som parece um bicho acuado, invadido na mata escura, e as árvores gritam de dor. Muito barulho. Todos querem correr, mas as pernas obedecem somente ao medo. “Não sabemos das respostas”, comenta uma humilde, desgraçada entorpecida, cheia de manchas de sangue, numa na cadeira de cinco pernas, ao lado do casal. A fúria velada deles escuta corações, e quer saber dos desesperos ainda mais de perto.

“A miserável demais morre queimada, furada por chifres, esmagada por bichos alados. E facões de aço dão fim à cabeça. Esse é meu terror salivado aqui na casa de chamas brutas”, perturba a bela Chaterveel. “Cansei de ver, quero participar. Sejamos”, e aponta aos coitados. “A maldade aplicada descarna. Maltrato com prazer. Homens e mulheres rolam no fel dia após dia. Seremos os doentios adoradores do corpo”, ele completa a loucura.

“A Alma do prazer está em nós. Vamos aliviar nossas penas, seres de carne! Não amem nada agora, comam!”. A leitura sempre pela manhã fresca, na casa dos Chaterveell. O mausoléu é abraçado por enormes trepadeiras. Janelas e grandes portas rangidas – gritam para abrir. A matança acontece nas sacadas principais. O quarto do casal Chaterveell é um infinito mistério. Quem passa pela casa dos Chaterveell, jamais sobrevive sem as ordens da morte. Os amantes são os fiéis protetores e serviçais. “Trabalha, ser. Assim sustentamos a vida que lhe és digna”, mais um trecho marcado no Livro do Fogo. Suas letras saltam selvagens como labaredas. Ninguém desafia a inteligência do casal. Sabedoria é a seta em brasa que fura o coração dos amantes. Tinham a chance de convidar o gado para cear no Salão dos Ecos do Prazer.

Ali gemem os mais suculentos corpos da região. Taças medievais são cálices sagrados de sangue. As gotas que escorrem são aparadas. Como bebiam! Os convidados permanecem de olhos arregalados, encantados pelo caldeirão de prazer-morte que é o mausoléu. Um lugar de almas desoladas, barrigas furadas e vermes vorazes. Mais uma vez se abre o Livro do Fogo, e nojos: “Podemos até procurá-los, mas nada encontraremos nestes cérebros. Uma vírgula no contrato está errada! Procurem as falhas, contem uns aos outros e depois subam. Uma escada espera no final do Corredor dos Quadros Negros”. Um caminho que abriga uma coleção de imagens. Molduras escuras aparam um rosto que sorri maldosamente. Um olho chora nuvens de chuvas. Um corrimão de espinhos entalhado em prata. Um rio e dois peixes sendo devorados pelo prazer da água. A vida no corredor ensina a andar. Era uma louca passagem passar por ali.

Os Chaterveell se recolhem. E recolhem para escrever as palavras em cada corpo: matavam, esmagavam lentamente. O beijo flutua em aspirais no lustre cristalino do quarto. Amam como se a vida lhes tivesse dado um prêmio: são deuses raros! Acordam e logo era acesa a chama da casa. Aquela noite jura uma madrugada de peles frescas e sangues puros. Os cálices eram polidos à fina seda. Os chamados para a ocasião chegam. Sempre com olhos nos cantos.

“E nós, rei e rainha, catamos olhares que se parecem bolhas desorientadas”. Começaram a leitura, e quem abre a primeira página era o escolhido. Ele leu: “Eu – a voz parece ter engolido um fonema desconhecido – assino o pacto que nossas presas abrirão caminho para o sangue percorrer o cálice. Brindamos!”. 

O gole inicial é da inquietante Veell. O seguinte é dele, o detentor do ódio e medo, Chater, que inunda a boca de vontade.

Bebem e se animam dançar “A Pena dos Vivos”: uma música que lhes foi oferecida por um amigo. Dançam como se uma única pena tivesse se deslocado do voo leve do pássaro negro. Uma valsa da eternidade. Os corpos parecem sumir no ar e o cheiro da força da carne foi espalhado. Todos. Amanhece, viram as costas, fecham as portas maiores e tudo que restou foram sobras de sussurros que invadem as paredes. Mais uma vez o casal Chaterveell vence a batalha do ser. “Querido amor, quando não seremos os últimos?”. Esta é a raridade, querida. Jamais outros! Somos o entendimento mais próximo dos fracos. “Morreremos? Não, comecemos a cavar”. Fecharam o Livro, apagam a lareira, cobrem-se com sangue.


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ASSALTANTES ONÍRICOS - Conto Fantástico - Raphael Reys



ASSALTANTES ONÍRICOS
Raphael Reys
(Montes Claros/BR)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)

Vivi por vinte e cinco anos viajando com mais freqüência pelo Norte, Meio Norte, Nordeste, Minas Gerais onde ouvi, vi e acompanhei fatos de paranormalidade e manifestação de sabedoria nativa ou intuitiva.

Os fatos citados nessa crônica foram obtidos do depoimento de inúmeros e distintos moradores ou viajantes ao longo do trecho no qual ocorreram as vias- de- fato.

Acontecem coisas nesse louco mundo de múltiplas manifestações que não dá para entender conforme a razão habitual. Nada melhor do que as estradas da vida para nos confrontar com ocorrências insólitas!

Os nossos carmas são programações visando a nos propiciar experiências retificadoras entre muitas. A métrica, entretanto, pode e deve ser alterada para um melhor e mais salutar resultado desde que a ela nos intuímos.


Enquanto dormimos, a alma alça voo e toma rumos inesperados. Separa-se do corpo e, sem o lastro que o mantém no mundo das manifestações, volita pelo mundo espiritual imediato e costuma ler no livro do destino as nossas retificações cármicas a serem cumpridas como metas da nossa evolução.

Ribamar era representante comercial, com residência em Fortaleza, Capital do Ceará, dormindo sob a amplidão do céu de Iracema e sonhando, um sonho recorrente, que repetia com a lua crescente. A sua área de atuação comercial se estendia até a ilha de São Luiz (a ilha do amor) e Capital do Maranhão, não sem antes passar por Teresina, entroncamento de acesso ao Norte, via Timom-MA.

Já há vinte e cinco anos percorria as mesmas trilhas comerciais. Nas suas idas e vindas, passava pelo entroncamento de Codó, no interior maranhense, a conhecida cidade representante espiritual de Ebó, a pátria do vodu, na África - Mãe.

Por lá ele não parava, pois sabia ser lugar habitual de morada de rameiras de estrada, assaltantes e bandidos de todas as espécies, inclusive quadrilhas em ações marginais diuturna nas estradas. A impunidade dominava os poderes vigentes e as autoridades eram sempre corrompidas. Uma terra sem lei!

Há dez anos, e sempre quando a lua era crescente, lhe ocorria o mesmo sonho, ou seria premonição? Busco situar o terror do seu pesadelo na atmosfera daquele entroncamento fatídico. O enredo do sonho recorrente consistia em quatro mascarados interceptarem o seu veículo no quilômetro 17, exatamente entroncamento daquela cidade com a BR o assaltava e o deixava ferido de morte. Tudo muito ao vivo e em cores.

O pesadelo se repetia sempre com a mesma métrica, o tema do medo inenarrável surgindo do sonho. Assustado com as possíveis premonições passou a usar no estado onírico a vontade e a sugestão mental buscando alterar o enredo.

No quadro criado e desenvolvido pela força de sua mente, ele descia do carro e em legítima defesa disparava sequencialmente nos quatro meliantes, os liquidando. Na realidade passou a treinar intensivamente no clube de tiro em Fortaleza, especializando-se em todas as modalidades de alvo.

Por centenas de vezes o seu Deimon fazia repetir a premonição, os assaltantes voltavam em sonho e se anexavam ao seu destino cármico e ele usava a vontade, alterando o desfecho fatídico. Estes fatos eram do conhecimento de todos os viajantes e representantes dos três estados, onde Ribamar atuava. O Ceará, o Piauí e o Maranhão.

Nas rodinhas de bebida nos finais de tarde e fins de semana, os colegas de profissão, riam do assunto, outros comentavam vários fatos de natureza premonitória dos quais tiveram conhecimento ou mesmo vivência. Todos no trecho sabiam dos sonhos de Ribamar!

O destino foi contundente e cármico! Como um sedento de água, os assaltantes vieram no real e o assalto tão esperado aconteceu em 1982, seguindo o enredo onírico e preconizado. Ribamar era uma vítima potencial de assaltantes de estrada, pois transportava recebimentos de clientes em espécie e em cheques.

Reagindo, conforme a projeção feita em sonho, desceu do veículo e disparou em sequência, já previamente pensada e repassada no estado onírico e esquematizada repetidamente em sua mente, eliminando os quatro bandidos. Simetricamente fez os disparos acertando os meliantes na cabeça. Tiro após tiro. Um buraco em cada testa.

O exercício da vontade e as premonições alteraram a roda do seu destino! O anjo girou a roda do destino a seu favor!

Foi absolvido em julgamento, por legítima defesa. Ademais, os fatos premonitórios eram do conhecimento popular, a ação criminosa era constante no local e os bandidos mortos tinham extensa ficha criminal.


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PRÓXIMO AO CADAFALSO - Conto de Horror - Carlos Eduardo Cabral



PRÓXIMO AO CADAFALSO
Carlos Eduardo Cabral
(São Paulo/SP)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)

Amanhecer, eu saúdo a beleza dos teus raios: tão quentes e afáveis, coisa que a noite nunca foi. Em prantos eu te vejo pela última vez, me abençoe, pois, vou de encontro ao meu destino; “O mal não descansará”, Hipnos1 me recusa acoite nesta que será minha última noite da minha vida malfadada; com a ajuda vinho eu ponderei sobre meus atos, eu bebo em honra a Mefistófeles2 com seus serviçais, e isso é muito melhor entre amigos, mas, para onde eles foram?,ninguém para compartilhar comigo meu último cálice! Então, bebo em homenagem aos que dividem comigo o meu pesar; badale, irmão, badale, por mim o sino de esperança e fé! Badale o sino da minha danação, estou próximo da forca.

Consternado eu recito este epitáfio, meu canto do cisne3, minha lápide, o derradeiro adeus do meu coração; nas colinas de Tyburn4, bem lá no alto está o cadafalso, onde somente os abutres assistirão o findar da minha vida desregrada; contemplo a bela vista de minha Gólgota5, e a forca clareada pela lua; o carpinteiro deve estar orgulhoso de sua criação ser a ferramenta do meu infortúnio. Eu sou o pária, o perdidoso, sou o subjugado, o escolhido; que viveu uma vida pecaminosa que o tentador6 fez de criado. Logo, não tardará minha hora, e agora a escuridão foge sorrateiramente e vejo com clareza o lugar do meu triste passamento.

O vigário rezará pela minha alma errante, tenho por certo que ele perderá seu tempo; eu: um pecador, aparvalhado, um pobre diabo ou ainda, uma vítima das circunstâncias, que bem sabe que queimar no inferno não é nenhum contento, mas com certeza eu gozei minha vida. O carrasco aperta o nó em volta do meu pescoço, sensação arquejante e desconfortável que será a premissa de minha redenção ou malogro; a barca de Caronte7 aguarda ansiosa esse pagão, que viveu como viveu, e não leva dessa vida senão, o coração derrotado e cheio de malícia. Vida que não foi vida, foi uma sucessão de escorregadelas e desgostos. “Vais tarde, sombra de um homem! ser escuso e vil, não deixarás saudade e nem viúva; nem uma lágrima será derramada em tua homenagem.” – esta fora minha reflexão final – é dada a ordem para minha execução e é cumprida, só sinto o ardume e contração de minha traqueia, meu músculos desordenados debatendo-se rejeitando tal sina; a visão turva que passa a enegrecer doridas ilusões de árduo porvir, batalhas ainda não travadas, viver fugitivo, renegado Morro como vivi: abjurando a fé cristã e tudo o que é santo.

“Se existe um Deus... que ele salve minha alma... se eu possuir uma!”. Foi meu último enunciado expurgado que deixo como um legado aos seguidores do Pentateuco8.

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1 Deus grego do sono.
2 O nome Mefistófeles, desde a Idade Média, se refere a uma das muitas entidades demoníacas.
3 A expressão o “canto do cisne” é utilizada para classificar os últimos grandes momentos de alguém. Isto porque durante muito tempo acreditou-se, erradamente, que os cisnes entoavam o mais belo som produzido à face da Terra imediatamente antes de morrerem.
4 Principal local de execuções públicas em Londres, entre os séculos XII e XVIII.
5 Calvário (em aramaico Gólgota) é o nome dado à colina que onde Jesus foi crucificado. Calvária em latim. O termo significa “caveira”, referindo-se a uma colina ou platô que contém uma pilha de crânios ou a um acidente geográfico que se assemelha a um crânio.
6 O Diabo
7 Era uma figura mitológica do mundo inferior que transportava os recém-mortos na sua barca através do rio Aqueronte até o local no Hades que lhes era destinado.
8 Do grego, "os cinco rolos", é composto pelos cinco primeiros livros da Bíblia ou o velho testamento.


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A HISTÓRIA DE MINHA LOUCURA - Conto de Horror - Augusto Galery



A HISTÓRIA DE MINHA LOUCURA
Augusto Galery
(São Paulo/BR)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)


Trancafiado, enfim. Desta cela cinzenta e acolchoada, vejo apenas noites sem lua. Ou sou eu que estou cego? O abuso de remédios quase me impede de ficar em pé, o que é bom, pois me mantém longe da eletricidade que atravessa os limites de minha prisão.

É claro que não estou dopado por acaso. O intuito também não é minha recuperação. É bem mais perverso: querem que eu esqueça minha história, passando assim a não ser. Não-ser. Só o ser ameaça, eles bem sabem. É por isso que é tão importante manter minha memória.

Não que eu consiga recuperá-la por completo. Minha infância é um borrão, no qual mais adivinho coisas, nas imagens espelhadas, do que realmente me lembro. Adolescência, faculdade, trabalhos, tudo é noite escura e floresta negra.

Mas eu me lembro bem dela. É por isso que ela continua mandando os remédios para dentro de minha cela. Pois é a ela que devo esquecer.

Manter viva minha história, mesmo que seja a história de uma loucura.
Eu a vi por muito tempo, da janela de meu apartamento. Provavelmente tinha a minha idade – algo em torno dos cinquenta. Seus cabelos seriam tão grisalhos quanto os meus, se nela ainda não fosse viva a chama do desejo da juventude. Ela os pintava de vermelho. Sua pele, diferente da minha, mantinha um frescor de hidratante. Suas mãos eram finas e seus dedos – tão semelhantes aos meus – eram longos e inquietos.

No começo, eram apenas olhares esparsos trocados há um vão de distância: a rua entre nossos prédios. Eu a via quando ela passava por sua janela. Ela não notava, a princípio, mas nunca sem deixar de notar em algum nível. Pois ela sabia exatamente – mais do que eu – o dia em que primeiro a vi.

A verdade é que, em algum lugar dentro de mim, eu esperava vê-la. Sabia que ela passaria naquele ponto aberto entre cortinas, naquele exato instante em nada especial. Eu a vi. Ela me viu.

Mas é fato: tê-la visto marcou mais a ela do que a mim. Para mim, era apenas uma vizinha desconhecida que, por coincidência, passava na janela quando eu mirava a cidade.

E ela passou a me acusar de persegui-la! Paranoica! Sei que os médicos concordariam comigo! O que, de fato, não muda em nada minha prisão.

Acabo de ver um raio cortar as grades de minha cela. Passou rápido, mas ainda ouço seu estalo.

Aos poucos, notei que ela se escondia atrás da cortina. Começou a perder a coragem de se colocar sob minhas vistas. Como se estivesse nua. Como seu eu pudesse penetrá-la com meu olhar.

Foi isso que me incomodou.

O medo dela. Atiçou minha raiva. Foi por isso que a persegui, aquela vez, na rua. Ela entrou em pânico. Gritou, chamou um guarda, mas eu corri e me escondi no aberto da multidão, que se fechou sobre mim como um oceano.

Sei o que você está pensando, agora: que eu realmente persegui a velha e que o louco sou eu. Não é verdade. Depois que ela acionou a polícia, resolvi manter distância. Mas não podia mais passar em frente à minha janela. Ela estava sempre lá, me observando. Comprou até binóculos! Seu medo era tanto que eu comecei a temer.

Demorei a entender porque eu a temia. Havia algo no medo dela que ultrapassava o medo. Que, aos poucos, se tornava desejo.

No princípio, achei que ela me desejava. Sexualmente, entende? Mas não era isso... Ela desejava... como dizer isso sem parecer louco?... Ela desejava a mim. Ser quem eu era. Tornar-se eu... Tornar-se... Tornar-se?... São as drogas. Já não lembro meu nome. Não importa, o que importa é ser. E ser é ter história. Então, por favor, me ouça.

Passavam os dias e o olhar dela era tão incidente que eu sentia náuseas ao passar em frente à janela. Resolvi que era necessário pôr um fim naquilo. Ela não atendia minhas ligações. Podia vê-la, pela janela, olhando para o telefone que tocava (eu gesticulava para ela: pegue o telefone, pegue a porcaria do telefone!). Ao mesmo tempo, o medo me impedia de ir até seu apartamento.

Não sei como ela fez. O desejo pode mesmo ser potente. Ou ela sabia bruxaria. Não tinha cara de bruxa. Talvez a faxineira gorda, ou a vizinha prostituta. Podiam saber macumba, sei lá. Estou parecendo louco, mais uma vez? Você tem que acreditar: no meu caso, é apenas stress pós-traumático. Se fosse ao contrário, você estaria, agora, tentando me convencer de que não é louco. Coloque-se em meu lugar.

Passei a sentir uma espécie de formigamento embaixo da pele. Como se minha alma estivesse lutando para se agarrar às células. Foram dias de uma sensação que me causava enjoos e febre. Não conseguia sair para comprar remédios. Eu a ouvia rastejando por minha carne, se agarrando em meus ossos para subir por minha espinha. Lutava ensandecido! Joguei-me contra a parede, tentei ficar submerso na banheira, induzi o vômito para ver se a expelia de mim.

Então a coceira passou e tudo voltou ao normal. Foi a primeira noite de sono em paz que tive desde que a tinha visto pela primeira vez.

E a última.

Quando acordei, algo estava diferente. Eu via através de meus olhos, mas não era eu.

Ela havia conseguido.

Quis correr para o espelho, mas tive que esperá-la se arrastar, se apalpar (ela tocou meu... meu órgão... nós dois incrédulos com o fato...). Quando, enfim, chegamos em frente ao espelho, foi o corpo dela que vimos.

Eu não sei o que deu errado. Estávamos no apartamento dela. Ao invés dela invadir meu corpo, fui eu que parei no corpo dela. Continuava me sentindo homem (quando ela acariciou seu rosto, eu senti a aspereza do rosto por barbear). Mas o espelho refletia seu corpo.

Ela olhou para baixo e gritou. Eu vi os seios siliconados mas já sem viço. Nossos corpos haviam se fundido? Ou simplesmente nossas almas ocupavam os dois corpos ao mesmo tempo?

Para nossa sorte, ela desmaiou. Eu a vi cair, sem consciência. Estava, novamente, em frente à minha janela.

Depois disso, sentia uma insegurança tão grande que passei a andar armado. Claro que isso não fazia sentido: eu atiraria em mim mesmo se ela fizesse aquilo de novo? E, de qualquer forma, eu não tinha o menor controle sobre os meus movimentos...

Raiva e medo juntos podem ser destrutivos. Não tão poderosos quanto o desejo, mas entenda: eu parecia estar no limite de minha sanidade.

Passei a dormir no telhado de meu prédio. Sempre apontando uma arma para a janela dela, esperando que ela aparecesse. Se eu a mataria? Eu deveria dizer que não, para que você acreditasse em minha inocência. Mas a verdade é que, tomado de ódio e terror, eu a teria matado se tivesse a chance. A mira de minha arma andava como um vagalume sem asas pelas paredes e chão da casa dela.

Mas ela sabia disso. De alguma forma, nossas almas tinham se ligado fortemente. Ela evitava passar pela janela ou mesmo sair de casa. Mas isso só fortaleceu meu desejo de estourar-lhe as entranhas. Em minhas visões – que, tenho certeza, ela compartilhava – eu via a bala entrando por suas costas e saindo pela barriga, com seus intestinos acompanhando o vácuo do tiro e se espalhando pelo carpete velho e careca. Em meus melhores devaneios, pedaços de fígado derrubavam o vaso horroroso com flores pintadas que ficava ao lado do telefone.

De novo, me defendo: você não faria o mesmo? As pessoas matam os ladrões que invadem suas casas. Eu deveria ter o mesmo direito quando alguém tenta invadir meu corpo!

Mas eu não a matei. Cheguei muito perto disso. Tão perto que ela ligou para as filhas. Horas depois, eu percebi que podia senti-la mesmo através das paredes. Enchi-me de coragem e da crença de que uma arma daquelas podia atravessar a parede e matá-la do outro lado.

Ela se desesperou. Saiu correndo do apartamento, desceu as escadas e saiu à rua.

Era a chance perfeita!

Mas, naquele exato momento, uma ambulância parou na calçada em frente. Depois entendi que não foi uma coincidência: uma das filhas acionou o serviço de emergência. Três enfermeiros desceram e, com muito custo, dominaram a velha.

Eu não podia atirar. Tinha medo de atingir um dos rapazes. Não queria matar um inocente.

Ela foi levada embora.

Senti um vazio imenso, confesso.

Não pude mais dormir. O sono era agitado. Sonhava com ela em alguma clínica, conversando com os médicos. Enfim, no final do terceiro dia, sonhei que tomava remédios.

E acordei aqui, nessa célula de grades cinzentas. Preso numa parte do cérebro da velha, que tenta me esquecer.

Como seu eu fosse apenas uma alucinação.

Como se eu não tivesse uma história...

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O CUCO - Conto Fantástico - Daniela Marino



O CUCO
Daniela Marino
(Santos/BR)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)


Onze badaladas e um susto. É a segunda vez que o cuco resolvia funcionar desde que o trouxera para casa há mais de dois anos. Sempre odiei este relógio, desde quando minha avó era viva.

Curioso pensar que ela se fora exatamente às onze horas da noite de um dia 11 de novembro: 11 do 11 às onze horas.

Agora, olhando para o imponente relógio, eu tento me lembrar como foi que acabei ficando com este trambolho no meio da minha sala.

Nunca acreditei nessas estórias de espíritos, mas já tinha ouvido falar de relógios que paravam de funcionar quando seus proprietários morriam. Até aí, nada de mais, se não fosse o fato de que o cuco da minha avó não só havia parado de tocar, mas que todo dia onze de novembro às onze horas o infeliz resolvia trabalhar. Suas badaladas podem ser ouvidas a um quarteirão, causando arrepio em todo mundo que as ouve.

Há muitos anos atrás, cheguei a morar com minha avó e na época, o tal cuco funcionava perfeitamente, para o meu desespero e infelicidade. Anunciava as horas com precisão e com aquelas badaladas ensurdecedoras. Várias vezes cheguei a cobrir o relógio com um cobertor na tentativa de abafar o som e poder dormir, mas a velhinha acordava cedo e no dia seguinte sempre reclamava do cobertor que eu havia deixado no relógio.

Soltei fogos quando finalmente consegui sair do apartamento de minha avó para morar com meu marido. Só teria que ouvir o relógio quando a visitasse.

Infelizmente, eu era uma das poucas pessoas que a visitavam e sendo a primeira neta, tão logo ela se deu conta que um dia não estaria mais neste plano, me convenceu a ficar com uma chave do apartamento e me fez prometer que quando ela se fosse eu não deixaria nenhum parente entrar para pegar suas coisas. Sempre fora muito apegada a seus pertences e em especial aquele relógio. Por anos eu fui responsável por sua manutenção e por mais que eu rezasse para que algum dia alguém me dissesse que o cuco não iria mais funcionar, não teve jeito, a engenhoca continuava lá, firme e forte.

Minha avó chegou a escrever num pedaço de papel o que ela achava ser um testamento, deixando a velha máquina de costura para minha tia e o relógio para mim.

Obviamente, eu não estava muito tentada a cumprir a promessa de cuidar do cuco quando ela se fosse.

Pouco antes de morrer, minha avó começou a agir estranhamente.Dizia que meu avô a visitava em sonhos e que em um dos sonhos chegou a comentar que queria seu cobertor de volta.Oras,não me perguntem que cobertor era esse,o que eu sei é que dona Eunice estava convencida que havia me dado o tal cobertor e que meu avô a perturbava dizendo que não devia ter me dado sua coberta favorita.Insistiu durante meses que havia me dado um cobertor marrom e que eu devia ter dado a outra pessoa,por isso meu avô a atormentava todas as noites:

—Filha, se você não queria o cobertor, não devia ter aceitado! – ela dizia

E não adiantava eu dizer que não sabia do que se tratava, pois mesmo depois de meses, embora não comentasse comigo, fiquei sabendo que comentava com minha tia que eu devia ser uma cabeça de vento por não lembrar das coisas.

—Onde já se viu? Menina tão nova. Eu tenho 85 anos e nunca me esqueço de nada.

Minha tia brincava dizendo que se eu não ficasse com o relógio, dona Eunice viria puxar meu pé à noite, assim como meu avô fazia com ela por conta do maldito cobertor.

O tempo passou e minha avó acabou adoecendo. Foi para o hospital e em seu leito de morte me fez prometer mais uma vez que cuidaria das coisas que havia me pedido.

Em seu enterro reencontrei parentes que não via há muito tempo, inclusive meus tios, filhos da falecida.

Por ocasião de sua morte, nem pensei em promessa alguma. Entreguei as chaves do apartamento a um dos tios e deixei que cuidassem do inventário.

O cuco havia parado de funcionar, marcando onze horas. Era uma verdadeira raridade e por incrível que pareça, muita gente queria ficar com ele, mas sugeri que meu tio Antônio ficasse com a peça, uma vez que ele mesmo havia presenteado sua mãe com o relógio. Fiquei feliz ao pensar que não ouviria as badaladas tão cedo e que não teria que encarar aquele objeto sinistro. Ingenuidade a minha!

Assim que meu tio levou o relógio, percebeu que deveria enviá-lo a um relojoeiro para conserto. O relógio não passou dois dias na relojoaria e voltou sem esperanças:

—Me desculpe, seu Antônio, mas esta porcaria não tem conserto. Acho que deveria se desfazer desta geringonça. Enquanto estava na oficina, o cuco não parou de tocar, onze badaladas, de hora em hora, mesmo sem que eu desse corda. Devia mandar benzê-lo.

Meu tio achou graça e resolveu colocá-lo em sua sala. Sua vida não seria a mesma após a chegada do relógio. O maldito cuco passou a tocar de hora em hora, sempre onze badalas. Seu filho mais novo, Pedro, de apenas nove anos, passou a ter alucinações com a bisavó. Dizia que ela saía de dentro do relógio e perguntava:

—Por quê? Por quê?

Os negócios do meu tio começaram a ir de mal a pior, mas seus irmãos faziam disso tudo motivo de piada. Até que certa noite, já cansado do barulho tão irritante do cuco, resolveu acertá-lo com uma paulada. Nada aconteceu ao relógio. Nem rachou, muito pelo contrário, as badaladas pareciam cada vez mais altas.

Tio Toninho, como eu o chamava, não sabia mais o que fazer. Seu filho chorava o dia inteiro e não passava mais pela sala. Insistia que sua bisa continuava lhe perguntando “Por quê? Por quê?” até que notara algo no interior do relógio. Era um bilhete, assinado por minha avó. Um testamento, como ela chamava, no qual ela escrevera suas intenções em relação ao tão estimado objeto. Estava claro o que meu tio deveria fazer: deveria entregar o relógio a quem lhe era de direito. Eu!

E foi assim que o cuco veio parar no meio da minha sala. Meu marido não gostou muito da idéia, mas a verdade é que desde que o relógio chegou, não tocou uma só vez, a não ser pelos dias onze de novembro às onze horas da noite.

Meu priminho está melhor, diz que sua bisa não o visitou mais e meu tio conta que após ter se livrado do relógio, sua mãe o visitara em sonho para dizer “obrigada”.   

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A ARMADILHA DA SOLIDÃO - Conto de Horror - Davi M. Gonzales


A ARMADILHA DA SOLIDÃO
Davi M. Gonzales
(São Caetano do Sul/BR)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)


Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos.
Aldous Huxley — As portas da percepção, 1954.

As pessoas queixam-se da solidão. Acreditam conhecer as maneiras pelas quais uma alma se esvazia, tornando-se inerte. A pior das solidões, entretanto, é justamente a das almas desejosas de vida e que são amputadas precocemente para apenas vegetar, impotentes na corrente dos acontecimentos.

Naqueles dias, fui chamado de a grande promessa e, quando me graduei no curso de psicanálise aplicada, meus mestres criaram uma expectativa sem precedentes sobre a tese que eu defenderia. E realmente seria um trabalho inédito e brilhante, pensado e preparado por longos meses. Meu brilhantismo nessa área concedia-me a rara faculdade de literalmente adivinhar os pensamentos e reações das pessoas, mesmo conhecendo-as apenas superficialmente. E com toda a certeza, essa habilidade seria dispensável para compreender que seria taxado de louco ao revelar a tese que preparava...

Louco? Pois bem, podemos discorrer um pouco a respeito da loucura: conceitualmente, a sanidade depende apenas do referencial. De quem observa e percebe diferenças nos padrões de comportamentos e valores. Ser diferente é ser louco. Iguais é o que se espera que sejamos.

Parece simples? Não se engane.

Existem procedimentos clínicos que visam diagnosticar os diversos tipos de doenças mentais. São contudo imprecisos e levam para os centros de tratamento muitas pessoas sãs, que acabam recebendo terapias inúteis e muitas vezes até cruéis. O método por mim proposto era completamente seguro, tanto no diagnóstico como na definição do tratamento a ser aplicado. E para comprovar essa minha tese, o primeiro passo seria levantar as estatísticas e atestar definitivamente os enganos e os danos causados pelos métodos convencionais. Esse, aliás, foi o problema principal com o qual me deparei: todos as informações são sigilosas, já que podem comprometer as instituições e os profissionais envolvidos.

Então surgiu Susanne: jovem, bonita e assistente do diretor, o célebre doutor H.P. Elioth, uma autoridade na pesquisa e tratamento das doenças mentais. Susanne era profissionalmente medíocre, mas esperta o suficiente para ajudar-me com os elementos que eu tanto necessitava. Em pouco tempo nos tornamos namorados e as informações começaram a surgir.

Após dois longos meses tudo estava pronto e poria em prática a última fase do projeto: iria ao sanatório e provocaria minha própria internação. Convenceria o renomado especialista da minha indiscutível loucura e, dessa forma, desbancaria todos os métodos utilizados — o golpe final nas antigas concepções — e depois, triunfalmente, mostraria a maneira correta de se fazer. Seria um marco na história do tratamento das doenças mentais. Seria reconhecido por toda a comunidade científica.

Tomei então algumas providências: tratei de mudar o visual — uma precaução que visava dificultar meu reconhecimento, na eventualidade de encontrar algum colega. Preparei também uma procuração junto a meus familiares, já que viviam no exterior, autorizando Susanne a tomar as decisões de cunho familiar em relação ao meu tratamento — pensei nisso como uma precaução para o caso de ter dificuldades em sair do sanatório. Então, tive que explicar a ela que faria uma espécie de experimento prático. Fiquei surpreso com sua reação: imediatamente saiu em defesa do Dr. Elioth, temerosa que isso pudesse desacreditá-lo, prejudicando sua carreira. Foi difícil convencê-la e muito a contragosto ela disse que ajudaria.

Liguei e marquei um horário. E logo me vi diante daquele médico, olhos penetrantes, fala calma e compassiva. Tracei alguns sintomas que pudessem ser diagnosticados como algum tipo de esquizofrenia: falei das vozes que costumava ouvir, das estranhas perseguições e de como era permanentemente vigiado. Sentia-me apreensivo com aquela situação, mas era confiante o suficiente para manter o controle. O mais difícil já havia passado e, agora, voltava a comportar-me normalmente — deixava de lado as encenações e aguardava as conclusões brilhantes dos psiquiatras que acompanhavam meu caso.

Esporadicamente, Susanne me visitava e trocávamos algumas palavras, com muita discrição. Passados alguns dias, avaliei que tudo corria exatamente como eu havia delineado — logo teria meu trabalho concluído e sairia dali. Até então não contava com a pequena turbulência que se apresentaria. Turbulência? Não sei se posso chamar exatamente de turbulência o que houve naquele dia, mas certamente foi o início de tudo.

Aguardava pacientemente minha sessão semanal com o analista e me encontrava sozinho na sala, pois o doutor estava atrasado. Mas quem entrou pela porta não foi o médico e sim um dos pacientes — Jeremias. Naquela manhã, notei que estava muito diferente — trazia no rosto um estranho ar de triunfo... Seus olhos brilhavam e suas vestimentas eram também muito diferentes do habitual: usava o terno e gravata, tinha os cabelos aparados e muito bem penteados com gel, além de um barbeado impecável. Disfarcei a surpresa e em tom amigável comentei que ele estava muito alinhado.

A princípio, Jeremias abriu um sorriso largo, para logo em seguida demonstrar certo nervosismo:

— Bom que notou meu caro. — Depois de pensar por alguns segundos, continuou: —Certamente já ouviu falar dos kamikazes japoneses. Sabia que quando saíam para a última batalha, traziam por baixo do uniforme sua melhor roupa, aquela com a qual iriam morrer?

Um frio percorreu minha espinha e simultaneamente olhamos, eu e Jeremias, para a larga janela aberta bem a nossa frente. Estávamos no oitavo andar. Ele correu em direção à janela. Eu pulei e agarrei seus pés. Foi tudo muito rápido: Jeremias era forte e desvencilhou-se com facilidade.

Cheguei à janela ainda a tempo de assistir sua queda livre... Meu pavor foi interrompido apenas pela fisgada que senti no ombro esquerdo — dois enfermeiros acabavam de entrar na sala e certamente não presenciaram a cena toda. Quando acordei, estava em uma sala do sanatório onde nunca havia estado antes. A camisa de força incomodava e logo surgiu o médico com seu bloco de notas.

Não tive escolha, contei tudo. E a única resposta que obtinha era claro ou eu entendo. Eu sabia bem como era aquilo: o médico concentrava-se apenas nas reações do paciente — o que dizia era totalmente irrelevante. Não sei por quanto tempo fiquei isolado naquela sala. Foram dias de desespero e solidão, e só pensava em encontrar uma saída. Pensava também em Susanne. Por que não vinha? Estava preparada para uma emergência desse tipo — eu havia planejado tudo...

Um dia Susanne veio. Estava acompanhada do Dr. Elioth e pediu, docemente, que não me preocupasse com nada — cuidaria de mim. Quando deu as costas eu gritei, mas ela apenas sorriu e se foi. Jamais esqueci aquele sorriso... Jamais esqueci o pânico que me tomou conta, quando percebi que me preparavam para uma cirurgia. Conhecia alguns dos procedimentos. E enquanto ia perdendo a consciência ouvi um dos médicos referindo-se à Lobotomia. Lobotomia — o mais cruel dos tratamentos. Consiste na remoção cirúrgica dos canais nervosos que unem os lóbulos direito e esquerdo do cérebro. Foi usada durante algum tempo em epiléticos e loucos perigosos e logo abandonada, por ser muito arriscada.

Quando acordei, sentia-me muito bem. Uma incrível sensação de leveza no corpo. Absolutamente nenhuma dor, nenhum sentido, nada — era como se o corpo flutuasse acima da cama. Aos poucos fui recuperando a audição. E tudo o que consegui perceber, dali por diante, foram as vozes das pessoas que entravam na sala. Não havia nenhum outro sentido além da audição, não conseguia saber se continuava respirando, ou em que posição me encontrava na cama.

Não sei precisar quantos daqueles terríveis dias se passaram, até que em uma ocasião reconheci a voz de Susanne. Acompanhada pelo Dr. Elioth, ela ria e fazia gracejos e, aproveitando a ausência dos enfermeiros, transaram ali mesmo na minha frente — podia ouvir suas respirações ofegantes... Após esse incidente, nunca mais apareceu. E eu, continuei exatamente no mesmo estado. Apenas ouvindo os dias se passarem.

É esta a minha solidão. Algo muito próximo da morte, onde o tempo é cruelmente dilatado, para que eu possa relembrar todos os acontecimentos que me levaram ao fim. E você, caro leitor? Acredita realmente saber o que é a solidão?

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A REZA - Conto de Terror - Vicente da Silva Junior



A REZA
Vicente da Silva Junior
(Araraquara/BR)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)

 Todos os homens pensam ser bons. A tarefa de sempre inocentar a si mesmo é simples. Todos os homens pensam ser bons. Até descobrirem, da pior forma, que não são... O Mal habita naturalmente as almas dos seres humanos como uma doença silenciosa e mortal. E, em constante espreita, aguarda pacientemente o momento certo de mostrar literalmente "as garras" em assustadores casos específicos em que é propositalmente invocado.

Roma, Itália, 1287 dC, ao nascer do sol, um velho padre foi ao chão, morto e com o corpo aos pedaços após uma árdua e obrigatória batalha contra o que sabia não poder vencer. O grande rosário ensanguentado enrolado nas mãos dilaceradas, os pedidos de piedade e a fé fragilizada não foram armas suficientes para conceder a vitória sobre a gigante sombra negra de aparência medonha e indefinidas. Abundantes lágrimas decorrentes de dor intensa haviam escorrido e tornado o rosto um ponto de encontro entre o bem inexistente e o mal presente, representado pelo sangue claro na face. Sangue de tom rosa em virtude da mistura com o líquido proveniente dos olhos. "A rosa maligna e fatal". Os altíssimos gritos agudos da criatura durante a guerra de somente uma noite haviam ecoado por toda a abadia, como um ensurdecedor hino maldito, mas nenhum dos vários outros missionários ali presentes tivera coragem de ir em seu socorro. Principalmente por saberem que o ser saíra por sua própria vontade, de dentro de si mesmo, do fundo da sua alma apodrecida pelos enganos cometidos através do tempo. Após a barbárie o demônio alado desapareceu por entre os corredores escuros e frios do imenso templo, como uma horrível e sombria nuvem movida por um furacão, carregando consigo uma espécie de carta arrancada do cadáver...

Tudo começou quando ele, o velho pároco, encontrou um antigo pergaminho de origem desconhecida. A descoberta dera-se numa tumba repleta de esqueletos humanos e de animais de vários tipos e gravuras horríveis em todas as paredes, há muito lacrada pelos seus superiores religiosos póstumos em virtude dos cultos proibidos ali praticados por seguidores de bruxaria negra, sempre perseguidos com fúria e intolerância pelo Vaticano. Isso tudo estava explicado no próprio sombrio documento escrito em sangue e em dialeto pagão extinto. Mesmo sob rígidos conselhos dos próximos para que não desse continuidade ao mau explícito, o velho prosseguiu convicto. Tomado pela natural necessidade que os homens têm em tentar desvendar os mistérios do além "antes da hora", prosseguiu. Trabalhou arduamente durante dias e longas noites insones na difícil tradução e, após a compreensão, seguiu à risca todos os tenebrosos passos.

Tratava-se os dizeres de uma espécie de "reza negra". Um tipo de autoexorcismo que prometia livrar o cultuador de todos os "maus interiores", se por acaso o mesmo os possuísse. Algo como um remédio preventivo que expurgaria por completo qualquer vestígio da passagem ou presença maligna e conduziria uma alma pura rumo à eternidade. Só não estavam mencionados no assustador documento quais seriam as consequências inimagináveis no caso da existência real do mau na alma, por menor que fosse, e de como seria a "expulsão"... E, infelizmente, todos os seres humanos são alvos fáceis "dele". Todos têm, constantemente, suas chances de se tornarem discípulos das sombras. Mesmo que somente em rápidos pensamentos ruins, pequenos atos momentâneos egoístas e deslizes negativos diários. Todos são imperceptivelmente tentados minuto a minuto. A diferença é que o bem se dissolve rapidamente na jornada da vida, como uma simples colher de açúcar derramada no oceano na inútil tentativa de adoçá-lo. Mas o mau é forte e deixa suas raízes. Ele vai se acumulando com o rodar dos ponteiros e torna-se forte, como uma fera diariamente bem alimentada que vem se desenvolvendo junto aos rodar desses mesmos ponteiros e que, num certo momento de acúmulo completo, liberta-se para iniciar a vingança sobre seu próprio criador.

Esse foi o grave erro do padre. Foi traído exatamente pelo "auto-julgamento bom" e pelo "esquecimento" de certos detalhes. A participação direta e conivência absoluta com a absurda Inquisição que tantos inocentes vitimou, a arrogante e desnecessária superioridade em inúmeros casos diante de humildes, o constante uso indevido do poder e da autoridade suprema e assim por diante. Mas, reconhecer falhas e assumir erros é uma virtude que poucos possuem... E, certo da bondade total que pensava possuir e em busca da purificação total, libertou o seu verdadeiro ser do fundo das suas entranhas. Certo da inocência e da provação a qual não temia, abriu as portas do seu inferno pessoal e deparou-se com o mesmo ser que o trucidou após uma longa e sangrenta noite de tortura como forma de acerto de contas com o passado.

Uma das "cláusulas" do pergaminho ordenava que uma cópia exata dos dizeres fosse feita pelo usuário do momento, em seu próprio idioma e em vermelho, e que tal deveria ser escondida num lugar secreto antes do início do ritual com a original. O obediente religioso equivocado havia cumprido à risca também tal determinação, sem medir consequências.

Araraquara/SP, Brasil, 2009 dC, um riquíssimo empresário de origem Italiana, enfurecido por algumas perdas inesperadas no mercado financeiro, arrebentou com as próprias mãos numa noite uma linda escrivaninha de madeira nobre, onde traçava constantemente seus rumos comerciais. O móvel era uma relíquia e fazia parte do acervo da tradicional família há várias gerações. E, para o seu espanto, entre as lascas restantes percebeu uma espécie de fundo falso muito bem planejado. Desse espaço oculto retirou um estranho papel antigo, escrito em Latim com letras "vermelhas". Tomado por curiosidade máxima mandou que especialistas o traduzissem. Mais uma vez conselhos para não "caminhar por entre o desconhecido" se fizeram presentes, dados pelos mesmos estudiosos tradutores, assim como fora com o padre em Roma, e mais uma vez as advertências foram ignoradas pela certeza da "bondade máxima presente na alma"...

Tratava-se o homem um poderoso empresário, como já dito, porém, "um empresário"... Dono de fortuna construída de forma estranha em certos aspectos, centenas de empregados nem sempre tão bem tratados e demais tristes atributos presentes nas vidas dos donos do poder. Algumas míseras "esmolas" dadas casualmente e a presença constante nas missas dominicais para uma boa imagem pública deram a nova convicção errônea de "pureza" para aquele que igualmente nada conhecia de si mesmo.

Madrugada de 31 de outubro, sozinho na sua mansão o poderoso homem, na tentativa de "limpar o que de certo não existia", blasfemou e vociferou as tais mesmas assustadoras palavras. E, assim como fora na outra situação, rapidamente tenebrosos gritos indefinidos de altíssimo timbre ecoaram por todo o quarteirão e o sangue novamente arrancado verteu abundante. Como um voraz predador devorando sua presa. Mais uma vítima da própria consciência inexistente. Assim como também fora determinada na outra situação, uma nova cópia exata do tal pergaminho ficara segura em seu cofre particular. Muito bem escondida para, um dia, ser novamente posta em prova por qualquer que tenha a facilidade de se julgar "bom". Pois esse era o real poder e intenção do maligno documento, juntar todos os cacos do mal guardados nas lembranças através da "reza", como um horrível quebra-cabeças, potencializar e personificá-los na forma uma grotesca criatura assassina, com sede de sangue de proporção exata a quantidade de cicatrizes na alma suja do seu criador e libertador.

Com raríssimas exceções infelizmente só existem dois tipos de pessoas nesse há muito nojento mundo: as que conhecem realmente seus podres internos e nada temem posteriormente em virtude dos seus erros, quaisquer que sejam as proporções; e as de memória propositalmente fraca... As tentações fazem parte da vida das pessoas assim como o oxigênio, invisível mas presente em todos os lugares. Até o Cristo em pessoa foi tentado quando esteve aqui... E em incontáveis casos ceder a tais tentações passa a ser tão corriqueiro quanto o próprio respirar. Fraco é aquele que permite seus pensamentos controlarem suas ações, e forte é o que faz suas ações dominarem seus pensamentos. Por tal, muitos serão ainda os dilacerados pelos seus demônios pessoais em meio a mistura "rosa" de lágrimas e sangue, após cumprirem convictos as determinações citadas no encontrado pergaminho da... "reza", pois o mal existe e não teme o tempo.


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