ROBERTO DE SOUSA CAUSO COMENTA AS "NARRATIVAS FANTÁSTICAS DO MALLEUS MALEFICARUM"


ROBERTO DE SOUSA CAUSO COMENTA AS "NARRATIVAS FANTÁSTICAS DO MALLEUS MALEFICARUM"

O livro de Paulo é um projeto muito original, que aparece com uma ótima apresentação gráfica: Narrativas Fantásticas do Malleus Maleficarum ou O Martelo das Feiticeiras: Manual Inquisitorial de Caça às Bruxas, no qual Paulo seleciona, traduz e apresenta os textos da infame obra medieval de Heinrich Kramer & Jakob Sprenger publicada em 1487 (século 15).

O livro era mesmo um manual de caças às bruxas, de como identificar e processar as supostas feiticeiras da Idade Média, e certamente a sua difusão fez mal a muitas mulheres (e alguns homens) daquele período.

Traduzindo do inglês e espanhol, o dinâmico Paulo Soriano traz ao público brasileiro alguns trechos desse livro de interesse histórico, às vezes mais adaptados do que meramente traduzidos, que formam narrativas e que ilustram como as pessoas de então compreendiam as ideias da bruxaria e do pacto com o diabo.

 O livro saiu pela editora baiana Mondrongo (Rua Almirante Barroso, 262, Centro, Itabuna-BA, CEP 45600-283, contato@mondrongo.com.br) em 2019.


Roberto de Sousa Causo


(Para ler as duas primeiras narrativas, clique aqui)

(Para adquirir o livro, clique aqui)


Share:

ELIZABETH BATHORY, A CONDESSA SANGUINÁRIA - Narrativa Verídica - Autor Anônimo do séc. XIX



ELIZABETH BATHORY, A CONDESSA SANGUINÁRIA
Autor anônimo do séc. XIX

Sempre os escritores, cronistas de todas as épocas, têm mencionado diferentes tipos de homens-monstros, cada qual mais horrendo, exemplos lamentáveis à queda do ser humano na bestialidade, vizinha da loucura e fruto de taras misteriosas e poderosas. A lista é imensa e entre esses espíritos deformados citaremos o  "Vampiro de Dusseldorf", o "Estripador de Londres", o "Barba Azul", francês, e, mais recentemente, o "Vampiro" inglês, cujos crimes horrorizaram o mundo inteiro.

Entretanto, não só entre os homens surgem degenerados. Há também as mulheres-monstros e entre elas citamos Elizabeth Bathory, cuja história passamos a contar. Elizabeth Bathory veio ao mundo em 1560 e pertenceu a uma das famílias mais poderosas do Oriente europeu.

Seus pais lhe deram o nome de Cutkeled; porém, tendo os seus antepassados, no século XIII, emigrado da Suécia para a Hungria e adotado o sobrenome de Bathory (derivado de Batur, povo que lhes havia dado a coroa húngara), foi este último nome que Elizabeth adotou. Os Bathory foram muito úteis ao monarca húngaro, tanto na paz quanto na guerra, e, no correr de várias gerações, governaram a seu bel-prazer a província da Transilvânia.

Entre os Bathory, houve generais, bispos e magistrados, alcançando essa família o máximo de sua glória com Estêvão, nascido em 1533 e morto em 1586, sendo príncipe da Transilvânia e rei da Polônia.

Porém, entre os Bathory não somente houve eminentes figuras por seu valor e inteligência, com também os degenerados; assim, por exemplo, uma certa condessa Bathory, que era bissexual e matou o próprio marido, Estêvão — um tio do príncipe e rei do mesmo nome e que, em toda a sua vida, se mostrou excêntrico, fazendo questão de viajar em trenó fosse no inverno ou no verão. Também os pais de Elizabeth foram degenerados e sanguinários. De fato, George e Ana Bathory, pais do monstro que hoje focalizamos, praticaram os maiores crimes contra a piedade e a decência.

ELIZABETH CASA COM UM MEMBRO DE OUTRA FAMÍLIA DE DEGENERADOS

Sendo ainda uma criança, Elizabeth casou com um jovem viúvo, Frank Nadasky, descendente de nobilíssima família e cujos domínios se estendiam por dezessete cidades, pois os fatos que narramos ocorreram em plena Idade Média.

Thomas, pai de Frank, era governador real da Hungria, o que fazia dele o homem mais poderoso, do reino, depois do monarca. O casamento foi realizado no dia 8 de maio de 1575, tendo sido um grande evento, pois o rei Maximiliano enviou um de seus mais influentes generais para que o representasse na cerimônia. No curso de dez anos, o casal teve quatro filhos. Sendo Frank um verdadeiro  gigante, toda a sua vida foi dedicada à guerra, tendo morrido em 1.604, à idade de 49 anos, quando combatia contra os turcos.

Morto seu esposo, a condessa de Csejthe viveu praticamente em reclusão, em virtude de ter um caráter extravagante e não se sentir estimada pelos personagens que se moviam em seu redor. Tinha a monomania de trocar várias vezes por dia de vestido e de penteado, embora — como já foi dito — vivendo quase reclusa e raramente saindo do castelo residencial.

Um dia em que uma das aias lhe fazia o centésimo penteado, sofreu repentina hemorragia nasal e com o seu sangue manchou o rosto da condessa. Esta pediu um lenço para limpar e com ele esfregou o rosto. Quando se mirou num espelho, para verificar se inda estava manchado, descobriu que a sua pele aparecia lisa e suave com um alabastro. Foi então que nasceu em seu espírito enfermo a ideia louca de banhar se a miúdo em sangue humano,  fim de conservar "uma pele fina e  aveludada, como a de ura a criança recém-nascida", segundo as suas próprias palavras.

600 JOVENS ASSASSINADAS

Mandou fazer uma "imagem" de ferro, instrumento de martírio, que esteve em voga na Idade Média e que consistia em um molde do corpo humano porem tendo em sua parte interior seis garfos, colocados estrategicamente,  isto é: quando a jovem  condenada era ali colocada e se fechava esse "molde", as pontas aceradas feriam mortalmente a vítima deixando jorrar o sangue aos borbotões por um canal que estava ligado a uma tina, onde Elizabeth tomava os seus banhos de beleza.

Os principais cúmplices da condessa foram Daroula, que começou a trabalhar no castelo de Csejthe em 1594, quando a condessa tinha 34 anos, e o jovem Ujacri, aliás Ficsko, que recebeu instruções de Elizabeth no sentido de descobrir e levar-lhe mocinhas, de preferência órfãs, a fim de evitar ulteriores reclamações.
À medida que o tempo transcorria, foram cúmplices dos assassinatos ordenados pela condessa as serviçais Ilona Joo, enfermeira e viúva de Steve Nagy; Catharina Beniksky, Joana Boda, lavadeira, e, a partir de 1606, a viúva Dorotheia Szentes.

A princípio, era muito fácil encontrar mocinhas que quisessem ir trabalhar no castelo; porém, à medida que o tempo transcorria, foi divulgada a notícia de que a condessa as matava para banhar-se em seu sangue. Daí por diante, para conseguir essas vítimas, era preciso apelar para o rapto.

Uma vez no castelo, essas mocinhas eram incumbidas de serviços domésticos, enquanto não chegava o seu turno de ser sacrificadas, o que era feito sob o pretexto de que haviam comido uma fruta ou roubado uma moeda. Não devemos esquecer que, na Idade Média, os barões eram senhores da forca e do machado, explicando isto o fato da condessa de Csejthe poder assassinar impunemente 600 camponesas, antes de ser presa e condenada.

Os primeiros a chamar a atenção das autoridades sobre o que ocorria no castelo de Csejthe foram os sacerdotes, que, com o risco de sua vida, falaram publicamente dos crimes da condessa; porém sua denúncia, por muitos anos, não foi tomada em consideração, em virtude de ser Elizabeth senhora e dona absoluta da cidade de Csejthe e gozar do privilégio de dispor, ao seu arbítrio da vida de seus súditos.

Uma vez processada., uma das testemunhas de acusação, João Ujvary, declarou que a condessa, pessoalmente, matara 36 jovens, todas órfãs e solteiras e que, quando menos uma vez, assassinara uma menina, utilizando o seu, sangue para tomar um banho de beleza; depois, com a carne, mandou fazer uns filés, com os quais, à noite, obsequiou alguns jovens senhores que foram visitar o castelo. E, segundo o reverendo João Ponekinu, que foi outra testemunha da acusação, a condessa  ria perdidamente, apertando as pernas da imagem de ferro e, em extremo sádica, gestava de, à hora justa do martírio, ir queimar os pés das infelizes criaturas com papel embreado e arrancar-lhes as carnes com tenazes, mastigando-as gulosamente.

Quando a condessa enfermava, os assassinatos das jovens servidoras eram comentados em sua própria alcova, e, quando viajava, levava em sua companhia várias jovens, que jamais, voltavam à cidade de Csejthe, pois que a condessa as matava  para banhar-se com o seu sangue. A condessa tinha um castelo em Viena e, em certa ocasião,  tendo que comparecer a um baile, mandou. matar seis mocinhas, que gritaram muito, provocando verdadeiro alvoroço na vizinhança.

ENTEADO QUE DESCONFIA DA MADRASTA

Um dia, de improviso, chegou ao castelo de Csjthe o conde Nicolau Zrynvi, enteado e inimigo da condessa.  Nesse justo instante, Elizabeth sacrificava ficava seis moças e, para evitar suspeitas do conde, mandou arrojar os cadáveres debaixo de uma cama, fechando a a porta com chave dupla.

Ao fim de poucos dias, daquele aposento exalava um fétido insuportável; a  condessa ordenou que, à noite, os cadáveres fossem retirados e sepultados no curral do castelo, de onde, horas depois, um cão pertencente ao conde extraiu um deles!

O conde Zrynyi logo abandonou o castelo e desenvolveu todos os esforços para que a condessa fosse castigada. Tudo, porém, sem êxito, em virtude de os barões da Idade Média se mostrarem sempre muito zelosos de seu prestígio, não desejando cercar-se de escândalos.

Porém os criados continuaram comentando, muitas moças conseguiram fugir a tempo e o rei Matias ordenou a prisão e encarceramento da condessa tento para castigá-la quanto para apoderar-se de sua enorme fortuna.

Os barões se opuseram; porém, finalmente, o conde George Thurzo, governador real da Hungria e único com jurisdição sobre ela, foi ao castelo com o objetivo de prender a condessa. Elizabeth, sabendo que o governador estava prestes a chegar, tentou valer-se de um encantamento, o qual lhe fora vendido por uma feiticeira "para evitar perseguições da justiça". Tratava-se de um "encantamento" com a ajuda de 93 gatos pretos, que, como feras, matariam os seus perseguidores. Porém estava sem sorte, pois não pôde encontrar a "receita" escrita num pergaminho e acabou mesmo sendo presa.

A prisão foi realizada em 13 de dezembro de 1610 e, ato contínuo, foi julgada por um júri formado por quatorze notáveis da vila de Csejthe.

Terminado o julgamento, João Ujvary foi sentenciado a ser decapitado pelo machado do verdugo e, uma vez isso feito, corpo e cabeça arrojados numa fogueira. Ilena Joo e Dorotheia Szentes foram condenadas à morte, porém lenta. O verdugo cortou-lhes, um a um, os dedos das mãos, que ia lançando à fogueira e, finalmente, foram ambas levadas para a fogueira, onde pereceram "a fogo lento".

Catharina Beniksky, que revelara piedade pelas mulheres assassinadas, foi condenada a passar no cárcere o resto de sua existência.

Quanto à condessa Csejthe, a fim de evitar o confisco dos seus bens pelo rei e a mancha que cairia sobre toda a sua família, foi declarada louca e encarcerada num local onde, situado em seu próprio castelo, através de estreita fenda, recebia alimentos e roupa limpa.

Não se lhe permitia falar com quem quer que fosse, perdeu o juízo ao fim de poucos meses de prisão. Ao final,  morreu quatro anos mais tarde, sem auxílios médicos nem espirituais A mulher-monstro de Csejthe morreu repentinamente no dia 21 de agosto de 1614, e nos quatro pontos cordiais de seu castelo foram levantados torreões "para que recordassem à posteridade que nele tinham sido cometidos inúmeros crimes.


 Fonte: “Eu Sei Tudo”, abril de 1950.




Share:

UM CONDENADO À MORTE - Narrativa Clássica de Horror - Autor anônimo do séc. XX



UM CONDENADO À MORTE
Autor anônimo do séc. XX

Prisão de La Santé, em Paris.

A sétima divisão,  afeta  a grande vigilância, acha-se no terceiro andar e contém as quatro celas malditas — 3, 5, 7 e 9. Nelas são encerrados aqueles que a Justiça condenou à pena de Talião, enquanto esperam que lhes seja concedido ou negado o pedido de graça que dirigiram ao presidente da República.

Essas celas pouco diferem das outras que constituem a sétima divisão: sólidos ferrolhos e fechaduras, como só existem nas prisões, imobilizam as portas. Pela rótula, entreaberta, avista-se um leito e uma mesa de ferro presos ao muro, e uma cadeira acorrentada ao assoalho por um dos pés. São os únicos moveis dos mortos-vivos que não podem ter nenhum objeto ao alcance das mãos. Numa concavidade da parede, brilha uma torneira do cobre concebida de tal maneira que seria impossível utilizá-la como suporte para uma corda, no caso de um preso querer enforcar-se.

Conhecido o veredito do júri, que lhe aplica a pena capital, é o condenado transportado para a Conciergerie, cuja porta de ferro abre-se, simbólica, para recebê-lo. Irá ele notar, ao penetrar na carceragem, um famoso banco onde, às vezes, senta-se o guarda fatigado, e onde ele também virá sentar-se para que o carrasco — Monsieur Paris, como é conhecido — lhe faça a última toalete, deixando-lhe a nuca bem raspada para o gélido contacto com a guilhotina! Ao lado, o livro vermelho em que o guarda assina e entrega ao preso que vai executar. Havia, antigamente, nesse lugar, uma tábua cheia de pregos batidos e sobre a qual o que ia morrer pousava os pés. Cada prego — e eram mais de cem — representa uma execução, mas essa triste peça de museu foi retirada. Notará ainda a capela com suas cruzes de cobre e onde é rezada a oração dos mortos. Após um itinerário sinistro, passando por pontes levadiças e intermináveis caminhos de ronda, chega, enfim, à cela de segurança, fria e gelada, onde vários homens atiram-se sobre ele e, despindo-o. enfiam-lhe uma camisa de força com que passará a primeira noite.

Durante as poucas semanas de vida que lhe restam, terá dois argolões de ferro nos tornozelos — presos entre si por uma curta corrente e, durante as noites, dormirá com os pulsos algemados. Às sete horas da manhã — hora regulamentar —, entra um guarda que o desperta e lhe retira as algemas, entregando-lhe os objetos indispensáveis à toalete, guardados num armário que se encontra do lado de fora, no corredor. Tomaram a precaução de algemar os condenados à morte, durante a noite, desde que eles tentaram enforcar-se com os lençóis, para fugir à guilhotina. A justiça, que os condenou à morte, zela, desde então, ciosamente, por suas vidas! Entregam-lhe depois uma tigela de sopa e cigarros, que o próprio carcereiro acende, se deseja fumar.

Às nove e meia começa o passeio diário: com os braços acorrentados, é seguido por três homens para prevenir qualquer revolta. O pátio onde passeia lembra uma sinistra fossa de ursos dominada por um promontório do qual outros guardas vigiam a marcha entravada do maldito. Um dos carcereiros segura-o por uma corrente, como se fosse uma fera que se leva para tomar ar. É um espetáculo horrível: o homem, acorrentado, caminha quase que sem refletir, limitando-se a exigir um cigarro, se terminou o seu, e deseja fumar ainda. Por vezes, uma nuvem, que chega e desaparece, despeja-lhe um desejo de fugir.

—Pensa, chefe, que seria impossível evadir-me?

— Quer, então, escalar muros de dezessete metros de altura?

E, enquanto o passeio continua,  dois detentos — dois ladrões, sob as ordens de um guarda —, lá em cima, lavam e põem ordem em sua cela. Outros guardas vêm e examinam-na toda, revistando as roupas, o colchão, os papéis existentes sobre a mesa. Quando se reintegra à jaula, às l0 horas, encontra, servido, com copioso almoço. E depois, monótono, o dia continua.

Na cela n. 5 foi encerrado Gounod, que assassinara seu tio, um porteiro, para roubar-lhe as economias. Após haver fechado o cadáver em uma mala de vime, tentou despachá-la em uma das estações de trem parisienses. Descoberto, foi julgado e condenado à morte. Na prisão, sentia um satânico prazer em dar, aos guardas, detalhes sobre seu crime:

—Foi um custo para fazer a cabeça entrar na mala. Dava-lhe pontapés nas orelhas com toda a força — mas, nada! O busto distendia-se como uma mola. Pensei em cortar-lhe as pernas e eu o teria feito se não conseguisse fechar a tampa.

Assim conversava até sua última noite. Os guardas ignoravam que a execução fora marcada para o dia seguinte. Um brigadeiro de serviço, fazendo a ronda, comunicou-lhes, em voz baixa. Era meia-noite e Gounod permanecia acordado. Com a fisionomia tensa, atrás da rótula, procurava penetrar o sentido da conversa dos três homens. De repente, questionou:

—O quê? O quê? Escute, chefe, é a meu respeito que estão falando? Então "o truque" é para breve?

Um dos guardas apiedou-se.

— Ora, não seja tolo. Então pensa que não há outro assunto que nos interesse?

E, vindo até ao guichê, com o rosto apenas separado do de Gounod pela pequena grade, disse:

—Ao contrário, julgo que o presidente assinou a graça. Seu advogado dirá amanhã. Mas eu, em seu lugar, procuraria dormir.

Foi uma explosão de alegria. O assassino desejava saber quando a graça fora assinada, quando lhe seria comunicada e outros detalhes.

Dormia ainda quando, às 4 e meia da madrugada, um grupo composto do capelão da prisão, do carrasco e seus ajudantes, dos guardas e personagens oficiais, parou em frente à cela. Uma chave rangeu na fechadura e a porta abriu-se. O barulho despertou Gounod, que gritou, compreendendo:

— Ah, canalhas! Miseráveis!

Uma luta breve e Gounod, dominado, foi transportado para a carceragem onde lhe fizeram a última toalete, e Deibler, o carrasco, atou-lhe as mãos por detrás das costas e, com as mesmas cordas de cânhamo, paralisou-lhe o movimento das pernas.

Um grande silêncio caiu sobre a prisão, interrompido, apenas, pelo ruído de uma pena correndo sobre a página do livro vermelho em que o carrasco assina a recepção do condenado.

Quase às 5 horas, a carreta, que o levara, chegava ao bulevar Arago. Guardas e curiosos, em grupo compacto, rodeiam o cadafalso. A guilhotina destaca-se, no dia que surge, de um vermelho escuro, como que revestida de sangue coagulado da base ao capitel.

A carreta parou e o capelão desceu, com uma cruz nas mãos, seguido por Gounod, que dois guardas sustinham. Deixou-se abraçar pelo padre e, virando o rosto quando este apresentou-lhe o crucifixo para que o beijasse, gritou, raivoso:

— Vamos, acabemos com isso!

Os homens da guilhotina carregaram-no. O capelão quis segui-lo mas, não notando um degrau, tropeçou e caiu.

Quando o levantaram, já a grande lâmina saíra da bainha. Uma ligeira fumaça, escapando-se do sangue quente, esvoaçava sobre a cesta que recebe as cabeças dos executados.


Tradução de autor desconhecido.
Fonte: Gazeta de Notícias (RJ), edição de 7 de junho de 1942.

Share:

UM CERTO ANIMAL- Conto Insólito - Elias Antunes



UM CERTO ANIMAL

Elias Antunes
(Taguatinga/BR)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)


— Passo o dia a refletir sobre o que eu possa ser. À noite, quando se descuidam, saio de meu esconderijo para observar a Lua pelas pequenas aberturas da máscara de pano. Moro na lama, na lama e no exílio de meus dias. Conheço quase que exclusivamente a noite. Minha casa não passa de um laboratório. Chamam-me o homem-elefante-das-terras-quentes, ou o homem-dragão. Meu desfigurado corpo é alvo das lentes obstinadas da ciência e transformou-se em ponto turístico desta cidade beira-rio (beira-lama seria mais correto). Uma certa parte da semana fazem fila para observarem meu corpo. Talvez saibam que escapulo de vez em quando e não se importam, pois sabem que não irei longe. Estudam meu corpo e meus hábitos com um cuidado antigo. Não há espelhos em minha casa, para que não me ofenda com minha imagem, ou para que não me perca dentro de mim mesmo. A comida chega em vasilhames de alumínio. Às vezes choro. Tento organizar uma civilização, onde os seres humanos são animais estranhos e as casas, laboratórios. Talvez as diferenças e discriminações não existam nesse país. Escondo os projetos dos cientistas. Pedi a eles para me darem uma certa privacidade. Fizemos um pacto. Pensam que sou híbrido ou algo parecido. Vocês podem ter uma vaga noção. Tenho a pele negra e grossa como casco de tatu, os ossos estufados e desiguais. Toda minha feiúra causa espanto. Não compreendiam que debaixo das carnes malfadadas estava um homem. Traziam capim para eu comer. Tinha medo de que ao invés de palavras saíssem bramidos de minha boca. A realidade sobrepuja-me. Conhecer um monstro pelo lado de dentro... Fazem experiências comigo. Vivo nos livros. Vocês devem estar perguntando: como aprendeu a ler? Mas se esquecem de que um grupo de cientistas agora dão-me tudo de que preciso e ensinaram-me a ler. Mesmo desobedecendo a ordens, saio de casa, mas somente na madrugada, quando ninguém poderá me reconhecer, coberto pela máscara de pano. Os poucos transeuntes tomar-me-ão por bêbedo ou mendigo. Caminho sobre as tábuas do porto, provocando um barulho elefantino com meus pés grossos e redondos. Pensam que sou um fantasma de algum bicho morto. Os estivadores recolhidos nos casebres deploráveis saem para o trabalho. Volto ao laboratório. As pessoas dizem as piores coisas a meu respeito: que sou uma metamorfose não terminada; algum deus castigado; um mimetismo; um dragão fora de moda. Penso na morte e não posso entrever diferenças entre morrer na humilhação, dando o corpo aos crucificadores ou aos magarefes ou à podridão. A morte seria uma libertação. Sei que muitos apontam o dedo de longe, dizendo: aquela é a casa do homem-dragão, ganhando dinheiro fácil com minha desgraça. Vou ao porto olhar a lua e esquecer minha condição miserável. Fujo de mim mesmo. Compreendo que devem haver outros. Levanto-me na hora exata, lavo o rosto, a tromba, como, escrevo poemas, penteio os poucos cabelos sem espelho e deixo-me examinar por um punhado de cientistas. A pequena tromba que se insinua no lugar do nariz, os ossos estufados e desiguais como as paredes de um edifício em escombros, as pernas grossas e mancas, as patas de elefante não podem representar o que realmente sou. Não sou um monstro, um canibal, mas não sei mais de que isso. Sei somente que a pequena tromba que se insinua no lugar do nariz, os ossos estufados e desiguais, as pernas grossas e mancas, as patas de elefante não podem demonstrar o que sou. Quando vou ao porto vejo alguma sombra de gaivota que me traz calma. Perco-me em pensamentos. Tudo volta à velha rotina e isso me alegra. Somente quando os cientistas vêm-me ver sinto-me melhor e chego a abanar o rabo como um cão. Desculpem-me: esqueci-me de dizer sobre o rabo: na verdade é apenas mais um capricho e não deve exceder os 20 centímetros.

Share:

A LENDA DO CASAL CHATERVEELL - Conto de Terror - Max Miranda



A LENDA DO CASAL CHATERVEELL
Max Miranda
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)


Estranhos envolvidos numa alma insone. Manhã fria: quem não acordou ali, morto permanece. O silêncio escorre entre as primeiras listras luminosas, inacabadas luzes. A casa cabia poucas frestas. Úmida. Amanhece, e um fio de palavras distantes ocupa o vento, rasteja até aos ouvidos de hóspedes e humildes. O casal acorda. Não anuncia o despertar. O lugar, sempre aos pés do medo, se encarrega de abrir os olhos de todos. Os dois descem a escadaria. “Sorrir é uma desgraça”. Ele concorda com um sinal forçoso nos lábios. No último degrau, pronuncia: “Seres de Chaterveell, não morram por amor. Saibam, atiro a morte aos amantes dos maus desejos”. Terminou a fala e sentaram num sofá vinho de respingos vermelhos. Vozes aumentam. Agitação e desequilíbrio na sala. Ninguém imagina o fim da manhã ou o começo da noite. Um barulho deixa a atmosfera indecisa. Não podem correr os convidados. Não há saída. Há agonia.

O som parece um bicho acuado, invadido na mata escura, e as árvores gritam de dor. Muito barulho. Todos querem correr, mas as pernas obedecem somente ao medo. “Não sabemos das respostas”, comenta uma humilde, desgraçada entorpecida, cheia de manchas de sangue, numa na cadeira de cinco pernas, ao lado do casal. A fúria velada deles escuta corações, e quer saber dos desesperos ainda mais de perto.

“A miserável demais morre queimada, furada por chifres, esmagada por bichos alados. E facões de aço dão fim à cabeça. Esse é meu terror salivado aqui na casa de chamas brutas”, perturba a bela Chaterveel. “Cansei de ver, quero participar. Sejamos”, e aponta aos coitados. “A maldade aplicada descarna. Maltrato com prazer. Homens e mulheres rolam no fel dia após dia. Seremos os doentios adoradores do corpo”, ele completa a loucura.

“A Alma do prazer está em nós. Vamos aliviar nossas penas, seres de carne! Não amem nada agora, comam!”. A leitura sempre pela manhã fresca, na casa dos Chaterveell. O mausoléu é abraçado por enormes trepadeiras. Janelas e grandes portas rangidas – gritam para abrir. A matança acontece nas sacadas principais. O quarto do casal Chaterveell é um infinito mistério. Quem passa pela casa dos Chaterveell, jamais sobrevive sem as ordens da morte. Os amantes são os fiéis protetores e serviçais. “Trabalha, ser. Assim sustentamos a vida que lhe és digna”, mais um trecho marcado no Livro do Fogo. Suas letras saltam selvagens como labaredas. Ninguém desafia a inteligência do casal. Sabedoria é a seta em brasa que fura o coração dos amantes. Tinham a chance de convidar o gado para cear no Salão dos Ecos do Prazer.

Ali gemem os mais suculentos corpos da região. Taças medievais são cálices sagrados de sangue. As gotas que escorrem são aparadas. Como bebiam! Os convidados permanecem de olhos arregalados, encantados pelo caldeirão de prazer-morte que é o mausoléu. Um lugar de almas desoladas, barrigas furadas e vermes vorazes. Mais uma vez se abre o Livro do Fogo, e nojos: “Podemos até procurá-los, mas nada encontraremos nestes cérebros. Uma vírgula no contrato está errada! Procurem as falhas, contem uns aos outros e depois subam. Uma escada espera no final do Corredor dos Quadros Negros”. Um caminho que abriga uma coleção de imagens. Molduras escuras aparam um rosto que sorri maldosamente. Um olho chora nuvens de chuvas. Um corrimão de espinhos entalhado em prata. Um rio e dois peixes sendo devorados pelo prazer da água. A vida no corredor ensina a andar. Era uma louca passagem passar por ali.

Os Chaterveell se recolhem. E recolhem para escrever as palavras em cada corpo: matavam, esmagavam lentamente. O beijo flutua em aspirais no lustre cristalino do quarto. Amam como se a vida lhes tivesse dado um prêmio: são deuses raros! Acordam e logo era acesa a chama da casa. Aquela noite jura uma madrugada de peles frescas e sangues puros. Os cálices eram polidos à fina seda. Os chamados para a ocasião chegam. Sempre com olhos nos cantos.

“E nós, rei e rainha, catamos olhares que se parecem bolhas desorientadas”. Começaram a leitura, e quem abre a primeira página era o escolhido. Ele leu: “Eu – a voz parece ter engolido um fonema desconhecido – assino o pacto que nossas presas abrirão caminho para o sangue percorrer o cálice. Brindamos!”. 

O gole inicial é da inquietante Veell. O seguinte é dele, o detentor do ódio e medo, Chater, que inunda a boca de vontade.

Bebem e se animam dançar “A Pena dos Vivos”: uma música que lhes foi oferecida por um amigo. Dançam como se uma única pena tivesse se deslocado do voo leve do pássaro negro. Uma valsa da eternidade. Os corpos parecem sumir no ar e o cheiro da força da carne foi espalhado. Todos. Amanhece, viram as costas, fecham as portas maiores e tudo que restou foram sobras de sussurros que invadem as paredes. Mais uma vez o casal Chaterveell vence a batalha do ser. “Querido amor, quando não seremos os últimos?”. Esta é a raridade, querida. Jamais outros! Somos o entendimento mais próximo dos fracos. “Morreremos? Não, comecemos a cavar”. Fecharam o Livro, apagam a lareira, cobrem-se com sangue.


Share:

ASSALTANTES ONÍRICOS - Conto Fantástico - Raphael Reys



ASSALTANTES ONÍRICOS
Raphael Reys
(Montes Claros/BR)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)

Vivi por vinte e cinco anos viajando com mais freqüência pelo Norte, Meio Norte, Nordeste, Minas Gerais onde ouvi, vi e acompanhei fatos de paranormalidade e manifestação de sabedoria nativa ou intuitiva.

Os fatos citados nessa crônica foram obtidos do depoimento de inúmeros e distintos moradores ou viajantes ao longo do trecho no qual ocorreram as vias- de- fato.

Acontecem coisas nesse louco mundo de múltiplas manifestações que não dá para entender conforme a razão habitual. Nada melhor do que as estradas da vida para nos confrontar com ocorrências insólitas!

Os nossos carmas são programações visando a nos propiciar experiências retificadoras entre muitas. A métrica, entretanto, pode e deve ser alterada para um melhor e mais salutar resultado desde que a ela nos intuímos.


Enquanto dormimos, a alma alça voo e toma rumos inesperados. Separa-se do corpo e, sem o lastro que o mantém no mundo das manifestações, volita pelo mundo espiritual imediato e costuma ler no livro do destino as nossas retificações cármicas a serem cumpridas como metas da nossa evolução.

Ribamar era representante comercial, com residência em Fortaleza, Capital do Ceará, dormindo sob a amplidão do céu de Iracema e sonhando, um sonho recorrente, que repetia com a lua crescente. A sua área de atuação comercial se estendia até a ilha de São Luiz (a ilha do amor) e Capital do Maranhão, não sem antes passar por Teresina, entroncamento de acesso ao Norte, via Timom-MA.

Já há vinte e cinco anos percorria as mesmas trilhas comerciais. Nas suas idas e vindas, passava pelo entroncamento de Codó, no interior maranhense, a conhecida cidade representante espiritual de Ebó, a pátria do vodu, na África - Mãe.

Por lá ele não parava, pois sabia ser lugar habitual de morada de rameiras de estrada, assaltantes e bandidos de todas as espécies, inclusive quadrilhas em ações marginais diuturna nas estradas. A impunidade dominava os poderes vigentes e as autoridades eram sempre corrompidas. Uma terra sem lei!

Há dez anos, e sempre quando a lua era crescente, lhe ocorria o mesmo sonho, ou seria premonição? Busco situar o terror do seu pesadelo na atmosfera daquele entroncamento fatídico. O enredo do sonho recorrente consistia em quatro mascarados interceptarem o seu veículo no quilômetro 17, exatamente entroncamento daquela cidade com a BR o assaltava e o deixava ferido de morte. Tudo muito ao vivo e em cores.

O pesadelo se repetia sempre com a mesma métrica, o tema do medo inenarrável surgindo do sonho. Assustado com as possíveis premonições passou a usar no estado onírico a vontade e a sugestão mental buscando alterar o enredo.

No quadro criado e desenvolvido pela força de sua mente, ele descia do carro e em legítima defesa disparava sequencialmente nos quatro meliantes, os liquidando. Na realidade passou a treinar intensivamente no clube de tiro em Fortaleza, especializando-se em todas as modalidades de alvo.

Por centenas de vezes o seu Deimon fazia repetir a premonição, os assaltantes voltavam em sonho e se anexavam ao seu destino cármico e ele usava a vontade, alterando o desfecho fatídico. Estes fatos eram do conhecimento de todos os viajantes e representantes dos três estados, onde Ribamar atuava. O Ceará, o Piauí e o Maranhão.

Nas rodinhas de bebida nos finais de tarde e fins de semana, os colegas de profissão, riam do assunto, outros comentavam vários fatos de natureza premonitória dos quais tiveram conhecimento ou mesmo vivência. Todos no trecho sabiam dos sonhos de Ribamar!

O destino foi contundente e cármico! Como um sedento de água, os assaltantes vieram no real e o assalto tão esperado aconteceu em 1982, seguindo o enredo onírico e preconizado. Ribamar era uma vítima potencial de assaltantes de estrada, pois transportava recebimentos de clientes em espécie e em cheques.

Reagindo, conforme a projeção feita em sonho, desceu do veículo e disparou em sequência, já previamente pensada e repassada no estado onírico e esquematizada repetidamente em sua mente, eliminando os quatro bandidos. Simetricamente fez os disparos acertando os meliantes na cabeça. Tiro após tiro. Um buraco em cada testa.

O exercício da vontade e as premonições alteraram a roda do seu destino! O anjo girou a roda do destino a seu favor!

Foi absolvido em julgamento, por legítima defesa. Ademais, os fatos premonitórios eram do conhecimento popular, a ação criminosa era constante no local e os bandidos mortos tinham extensa ficha criminal.


Share:

PRÓXIMO AO CADAFALSO - Conto de Horror - Carlos Eduardo Cabral



PRÓXIMO AO CADAFALSO
Carlos Eduardo Cabral
(São Paulo/SP)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)

Amanhecer, eu saúdo a beleza dos teus raios: tão quentes e afáveis, coisa que a noite nunca foi. Em prantos eu te vejo pela última vez, me abençoe, pois, vou de encontro ao meu destino; “O mal não descansará”, Hipnos1 me recusa acoite nesta que será minha última noite da minha vida malfadada; com a ajuda vinho eu ponderei sobre meus atos, eu bebo em honra a Mefistófeles2 com seus serviçais, e isso é muito melhor entre amigos, mas, para onde eles foram?,ninguém para compartilhar comigo meu último cálice! Então, bebo em homenagem aos que dividem comigo o meu pesar; badale, irmão, badale, por mim o sino de esperança e fé! Badale o sino da minha danação, estou próximo da forca.

Consternado eu recito este epitáfio, meu canto do cisne3, minha lápide, o derradeiro adeus do meu coração; nas colinas de Tyburn4, bem lá no alto está o cadafalso, onde somente os abutres assistirão o findar da minha vida desregrada; contemplo a bela vista de minha Gólgota5, e a forca clareada pela lua; o carpinteiro deve estar orgulhoso de sua criação ser a ferramenta do meu infortúnio. Eu sou o pária, o perdidoso, sou o subjugado, o escolhido; que viveu uma vida pecaminosa que o tentador6 fez de criado. Logo, não tardará minha hora, e agora a escuridão foge sorrateiramente e vejo com clareza o lugar do meu triste passamento.

O vigário rezará pela minha alma errante, tenho por certo que ele perderá seu tempo; eu: um pecador, aparvalhado, um pobre diabo ou ainda, uma vítima das circunstâncias, que bem sabe que queimar no inferno não é nenhum contento, mas com certeza eu gozei minha vida. O carrasco aperta o nó em volta do meu pescoço, sensação arquejante e desconfortável que será a premissa de minha redenção ou malogro; a barca de Caronte7 aguarda ansiosa esse pagão, que viveu como viveu, e não leva dessa vida senão, o coração derrotado e cheio de malícia. Vida que não foi vida, foi uma sucessão de escorregadelas e desgostos. “Vais tarde, sombra de um homem! ser escuso e vil, não deixarás saudade e nem viúva; nem uma lágrima será derramada em tua homenagem.” – esta fora minha reflexão final – é dada a ordem para minha execução e é cumprida, só sinto o ardume e contração de minha traqueia, meu músculos desordenados debatendo-se rejeitando tal sina; a visão turva que passa a enegrecer doridas ilusões de árduo porvir, batalhas ainda não travadas, viver fugitivo, renegado Morro como vivi: abjurando a fé cristã e tudo o que é santo.

“Se existe um Deus... que ele salve minha alma... se eu possuir uma!”. Foi meu último enunciado expurgado que deixo como um legado aos seguidores do Pentateuco8.

----------------------------------
1 Deus grego do sono.
2 O nome Mefistófeles, desde a Idade Média, se refere a uma das muitas entidades demoníacas.
3 A expressão o “canto do cisne” é utilizada para classificar os últimos grandes momentos de alguém. Isto porque durante muito tempo acreditou-se, erradamente, que os cisnes entoavam o mais belo som produzido à face da Terra imediatamente antes de morrerem.
4 Principal local de execuções públicas em Londres, entre os séculos XII e XVIII.
5 Calvário (em aramaico Gólgota) é o nome dado à colina que onde Jesus foi crucificado. Calvária em latim. O termo significa “caveira”, referindo-se a uma colina ou platô que contém uma pilha de crânios ou a um acidente geográfico que se assemelha a um crânio.
6 O Diabo
7 Era uma figura mitológica do mundo inferior que transportava os recém-mortos na sua barca através do rio Aqueronte até o local no Hades que lhes era destinado.
8 Do grego, "os cinco rolos", é composto pelos cinco primeiros livros da Bíblia ou o velho testamento.


Share:

A HISTÓRIA DE MINHA LOUCURA - Conto de Horror - Augusto Galery



A HISTÓRIA DE MINHA LOUCURA
Augusto Galery
(São Paulo/BR)
(Conto finalista do I Concurso Literário “Contos Grotescos” – Prêmio Edgar Allan Pöe)


Trancafiado, enfim. Desta cela cinzenta e acolchoada, vejo apenas noites sem lua. Ou sou eu que estou cego? O abuso de remédios quase me impede de ficar em pé, o que é bom, pois me mantém longe da eletricidade que atravessa os limites de minha prisão.

É claro que não estou dopado por acaso. O intuito também não é minha recuperação. É bem mais perverso: querem que eu esqueça minha história, passando assim a não ser. Não-ser. Só o ser ameaça, eles bem sabem. É por isso que é tão importante manter minha memória.

Não que eu consiga recuperá-la por completo. Minha infância é um borrão, no qual mais adivinho coisas, nas imagens espelhadas, do que realmente me lembro. Adolescência, faculdade, trabalhos, tudo é noite escura e floresta negra.

Mas eu me lembro bem dela. É por isso que ela continua mandando os remédios para dentro de minha cela. Pois é a ela que devo esquecer.

Manter viva minha história, mesmo que seja a história de uma loucura.
Eu a vi por muito tempo, da janela de meu apartamento. Provavelmente tinha a minha idade – algo em torno dos cinquenta. Seus cabelos seriam tão grisalhos quanto os meus, se nela ainda não fosse viva a chama do desejo da juventude. Ela os pintava de vermelho. Sua pele, diferente da minha, mantinha um frescor de hidratante. Suas mãos eram finas e seus dedos – tão semelhantes aos meus – eram longos e inquietos.

No começo, eram apenas olhares esparsos trocados há um vão de distância: a rua entre nossos prédios. Eu a via quando ela passava por sua janela. Ela não notava, a princípio, mas nunca sem deixar de notar em algum nível. Pois ela sabia exatamente – mais do que eu – o dia em que primeiro a vi.

A verdade é que, em algum lugar dentro de mim, eu esperava vê-la. Sabia que ela passaria naquele ponto aberto entre cortinas, naquele exato instante em nada especial. Eu a vi. Ela me viu.

Mas é fato: tê-la visto marcou mais a ela do que a mim. Para mim, era apenas uma vizinha desconhecida que, por coincidência, passava na janela quando eu mirava a cidade.

E ela passou a me acusar de persegui-la! Paranoica! Sei que os médicos concordariam comigo! O que, de fato, não muda em nada minha prisão.

Acabo de ver um raio cortar as grades de minha cela. Passou rápido, mas ainda ouço seu estalo.

Aos poucos, notei que ela se escondia atrás da cortina. Começou a perder a coragem de se colocar sob minhas vistas. Como se estivesse nua. Como seu eu pudesse penetrá-la com meu olhar.

Foi isso que me incomodou.

O medo dela. Atiçou minha raiva. Foi por isso que a persegui, aquela vez, na rua. Ela entrou em pânico. Gritou, chamou um guarda, mas eu corri e me escondi no aberto da multidão, que se fechou sobre mim como um oceano.

Sei o que você está pensando, agora: que eu realmente persegui a velha e que o louco sou eu. Não é verdade. Depois que ela acionou a polícia, resolvi manter distância. Mas não podia mais passar em frente à minha janela. Ela estava sempre lá, me observando. Comprou até binóculos! Seu medo era tanto que eu comecei a temer.

Demorei a entender porque eu a temia. Havia algo no medo dela que ultrapassava o medo. Que, aos poucos, se tornava desejo.

No princípio, achei que ela me desejava. Sexualmente, entende? Mas não era isso... Ela desejava... como dizer isso sem parecer louco?... Ela desejava a mim. Ser quem eu era. Tornar-se eu... Tornar-se... Tornar-se?... São as drogas. Já não lembro meu nome. Não importa, o que importa é ser. E ser é ter história. Então, por favor, me ouça.

Passavam os dias e o olhar dela era tão incidente que eu sentia náuseas ao passar em frente à janela. Resolvi que era necessário pôr um fim naquilo. Ela não atendia minhas ligações. Podia vê-la, pela janela, olhando para o telefone que tocava (eu gesticulava para ela: pegue o telefone, pegue a porcaria do telefone!). Ao mesmo tempo, o medo me impedia de ir até seu apartamento.

Não sei como ela fez. O desejo pode mesmo ser potente. Ou ela sabia bruxaria. Não tinha cara de bruxa. Talvez a faxineira gorda, ou a vizinha prostituta. Podiam saber macumba, sei lá. Estou parecendo louco, mais uma vez? Você tem que acreditar: no meu caso, é apenas stress pós-traumático. Se fosse ao contrário, você estaria, agora, tentando me convencer de que não é louco. Coloque-se em meu lugar.

Passei a sentir uma espécie de formigamento embaixo da pele. Como se minha alma estivesse lutando para se agarrar às células. Foram dias de uma sensação que me causava enjoos e febre. Não conseguia sair para comprar remédios. Eu a ouvia rastejando por minha carne, se agarrando em meus ossos para subir por minha espinha. Lutava ensandecido! Joguei-me contra a parede, tentei ficar submerso na banheira, induzi o vômito para ver se a expelia de mim.

Então a coceira passou e tudo voltou ao normal. Foi a primeira noite de sono em paz que tive desde que a tinha visto pela primeira vez.

E a última.

Quando acordei, algo estava diferente. Eu via através de meus olhos, mas não era eu.

Ela havia conseguido.

Quis correr para o espelho, mas tive que esperá-la se arrastar, se apalpar (ela tocou meu... meu órgão... nós dois incrédulos com o fato...). Quando, enfim, chegamos em frente ao espelho, foi o corpo dela que vimos.

Eu não sei o que deu errado. Estávamos no apartamento dela. Ao invés dela invadir meu corpo, fui eu que parei no corpo dela. Continuava me sentindo homem (quando ela acariciou seu rosto, eu senti a aspereza do rosto por barbear). Mas o espelho refletia seu corpo.

Ela olhou para baixo e gritou. Eu vi os seios siliconados mas já sem viço. Nossos corpos haviam se fundido? Ou simplesmente nossas almas ocupavam os dois corpos ao mesmo tempo?

Para nossa sorte, ela desmaiou. Eu a vi cair, sem consciência. Estava, novamente, em frente à minha janela.

Depois disso, sentia uma insegurança tão grande que passei a andar armado. Claro que isso não fazia sentido: eu atiraria em mim mesmo se ela fizesse aquilo de novo? E, de qualquer forma, eu não tinha o menor controle sobre os meus movimentos...

Raiva e medo juntos podem ser destrutivos. Não tão poderosos quanto o desejo, mas entenda: eu parecia estar no limite de minha sanidade.

Passei a dormir no telhado de meu prédio. Sempre apontando uma arma para a janela dela, esperando que ela aparecesse. Se eu a mataria? Eu deveria dizer que não, para que você acreditasse em minha inocência. Mas a verdade é que, tomado de ódio e terror, eu a teria matado se tivesse a chance. A mira de minha arma andava como um vagalume sem asas pelas paredes e chão da casa dela.

Mas ela sabia disso. De alguma forma, nossas almas tinham se ligado fortemente. Ela evitava passar pela janela ou mesmo sair de casa. Mas isso só fortaleceu meu desejo de estourar-lhe as entranhas. Em minhas visões – que, tenho certeza, ela compartilhava – eu via a bala entrando por suas costas e saindo pela barriga, com seus intestinos acompanhando o vácuo do tiro e se espalhando pelo carpete velho e careca. Em meus melhores devaneios, pedaços de fígado derrubavam o vaso horroroso com flores pintadas que ficava ao lado do telefone.

De novo, me defendo: você não faria o mesmo? As pessoas matam os ladrões que invadem suas casas. Eu deveria ter o mesmo direito quando alguém tenta invadir meu corpo!

Mas eu não a matei. Cheguei muito perto disso. Tão perto que ela ligou para as filhas. Horas depois, eu percebi que podia senti-la mesmo através das paredes. Enchi-me de coragem e da crença de que uma arma daquelas podia atravessar a parede e matá-la do outro lado.

Ela se desesperou. Saiu correndo do apartamento, desceu as escadas e saiu à rua.

Era a chance perfeita!

Mas, naquele exato momento, uma ambulância parou na calçada em frente. Depois entendi que não foi uma coincidência: uma das filhas acionou o serviço de emergência. Três enfermeiros desceram e, com muito custo, dominaram a velha.

Eu não podia atirar. Tinha medo de atingir um dos rapazes. Não queria matar um inocente.

Ela foi levada embora.

Senti um vazio imenso, confesso.

Não pude mais dormir. O sono era agitado. Sonhava com ela em alguma clínica, conversando com os médicos. Enfim, no final do terceiro dia, sonhei que tomava remédios.

E acordei aqui, nessa célula de grades cinzentas. Preso numa parte do cérebro da velha, que tenta me esquecer.

Como seu eu fosse apenas uma alucinação.

Como se eu não tivesse uma história...

Share: