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Mostrando postagens com o rótulo Conto Insólito

UM HOMEM AGRADECIDO - Conto Clássico Insólito - George Auriou

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UM HOMEM AGRADECIDO George Auriou (1863 – 1938) Tradução de autor anônimo do séc. XX Há tempos, tendo necessidade de um secretário, alguém me recomendou um sujeito que tinha uma perna de pau, aconselhando-me que o tomasse a meu serviço, pois que, entre muitas virtudes, possuía a de ser um homem extraordinariamente agradecido. À vista da informação, marquei hora no meu escritório e, no dia seguinte, muito cedo, lá se apresentou o candidato. Era um homem de meia idade, completamente calvo e… perneta. — Sou eu — disse, apresentando-se — a pessoa que lhe foi recomendada. — Muito bem, queira sentar-se. Informaram-me que o senhor tem viajado muito. — É verdade. — Por onde andou? — Em 1893, abandonei Paris para dirigir-me ao Canadá. Mas, ali chegado, tomei logo o rumo do Oeste americano. — E por que ficou calvo? Alguma enfermidade do cabelo? — Não, senhor; um nativo pele-vermelha arrancou-me a pele da cabeça, com cabelo e tudo. — Permaneceu muito tempo no Oeste? — Não. Em...

O SHOPPING CENTER - Conto Fantástico - Dolo Espinosa

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O SHOPPING CENTER Dolo Espinosa Tradução de Paulo Soriano O shopping center está abarrotado. Centenas de pessoas circulam por ele, deambulando entre as lojas como laboriosas formigas, cada uma absorta em seu próprio mundinho. Os funcionários atendem gentilmente, sorriem, recebem pagamentos e ouvem reclamações. Os clientes entram e saem, compram ou olham, protestam, reclamam e, às vezes, sorriem. Sentam-se nos restaurantes e comem, bebem, reclamam e, às vezes, sorriem. Quando aconteceu, ninguém percebeu a mudança. Alguns, no máximo, sentiram um arrepio que atribuíram ao ar-condicionado. Ninguém percebeu que o shopping inteiro havia sido arrancado da realidade e transportado para lugar nenhum. Quando alguém tenta sair, simplesmente volta a encontrar-se no interior, sem se lembrar de nada, como se tivesse acabado de chegar, como hamsters em uma roda infinita de compras e trabalho. Zumbis absortos em seus próprios mundinhos. Os funcionários atendem, sorriem e ouvem reclamaçõ...

JULGAMENTO DE ANIMAIS - Narrativas Clássicas Verídicas Insólitas - Edward Payson Evans e outros

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JULGAMENTO DE ANIMAIS Edward Payson Evans e outros Tradução de Paulo Soriano A PORCA JUSTIÇADA Edward Payson Evans (1831 – 1917) Em 10 de janeiro de 1457, uma porca foi condenada pelo “homicídio flagrantemente cometido contra Jehan Martin, de cinco anos, filho de Jehan Martin de Savigny”, e sentenciada a ser “pendurada pelas patas traseiras numa árvore submetida à jurisdição da senhora de Savigny.” Seus seis filhotes, encontrados manchados de sangue, foram incluídos na acusação como cúmplices; todavia, “na ausência de qualquer prova concreta de que tivessem ajudado a mãe a mutilar o falecido, foram devolvidos ao seu dono, sob a condição de que este prestasse fiança para o comparecimento dos bacorinhos, caso surgissem novas provas que tornassem assente a sua cumplicidade no crime da mãe.” Mais de três semanas depois, em 2 de fevereiro, ou seja, “na sexta-feira seguinte à festa de Nossa Senhora da Virgem”, os porquinhos foram novamente levados ao tribunal; mas, como o seu dono, J...

A MANCHA INDELÉVEL - Conto Clássico Insólito - William Dean Howells

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A MANCHA INDELÉVEL William Dean Howells (1837 – 1920) Tradução de Luciano Barreto Todos que haviam cruzado a porta antes de mim, haviam entregado suas cabeças, e eu as via colocadas em uma longa fileira de vitrines que estavam encostadas à parede, em frente. Seguramente nessas vitrines não entrava ar contaminado, pois as cabeças se conservavam em forma admirável, quase como se estivessem vivas, ainda que lhes faltasse o fluxo do sangue debaixo da pele. Devo confessar que o espetáculo me causou um medo súbito e intenso. Durante verdadeiro tempo senti-me paralisado pelo terror. Mas era o caso que ainda incapacitado para pensar e para atuar, eu estava ali: tinha passado o umbral e tinha que entregar minha cabeça. Nada poderia evitar essa macabra experiência. A situação era, em verdade, aterradora.  Parecia que não existia distância entre a vida que tinha deixado atrás, do outro lado da porta, e a que iria se iniciar nesse momento. Fisicamente, a distância seria de três metros,...

O RENASCIDO - Conto Clássico Fantástico - Manuel Lassa y Nuño

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O RENASCIDO Manuel Lassa y Nuño (1863 – 1938) Tradução de Paulo Soriano Os habituais frequentadores da taverna ficaram maravilhados ao ver abrir-se a porta, sem que ninguém tocasse a maçaneta, e, mais assombrados ainda se viram quando contemplaram um par de pés soltos, decepados, que avançavam com o movimento cadenciado de um homem andando.      Eram pés que andavam, que andavam sozinhos! Seguiam-nos uma multidão atônita e curiosa. Estampava-se em todos os rostos uma intensa emoção. Indagavam-se se seria aquilo um maquinismo, um artefato construído por algum mecânico embruxado. Mas não, aqueles pés pareciam humanos. Os homens mais audazes viram claramente que, dentro dos sapatos de couro resistente, assomavam cotos sanguinolentos. Aquilo não poderia ser um brinquedo mecânico; mais semelhava um despojo revelador de um crime terrível, como se a vítima desmembrada quisesse denunciar, com os seus pés, que se moviam por permissão divina, algum horrendo homicídio, cujo a...

O SILÊNCIO DAS SEREIAS - Conto Clássico Insólito - Franz Kafka

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O SILÊNCIO DAS SEREIAS Franz Kafka (1883 – 1923) Eis a prova de que há meios inadequados, quase infantis, que podem servir para a salvação. Para se proteger do canto das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e se amarrou ao mastro da embarcação. Embora todos soubessem que este recurso era ineficaz, muitos navegantes poderiam ter feito o mesmo, afora os que já haviam sido, desde longe, fisgados pelas sereias. O canto das sereias transpassava tudo e a paixão dos seduzidos desvencilhava prisões mais robustas que mastros e correntes. Ulisses, todavia, não pensou nisto, embora algo a respeito talvez já lhe tivesse chegado aos ouvidos. Confiou completamente naquele punhado de cera e no feixe das correntes. Satisfeito com seus pequenos estratagemas, navegou por entre as sereias com inocente alegria. Todavia, as sereias possuíam uma arma muito mais terrível que o canto: o seu silêncio. Malgrado isto não tenha acontecido, é possível que alguém tenha se salvado de seus cantos. Nã...

FATAL SINA -Conto Clássico Insólito - Jean Richepin

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  FATAL SINA Jean Richepin (1849 – 1926) Tradução de Jorge de Mendonça (Séc. XIX) Os esposos Guignard, que haviam casado por amor, desejavam apaixonadamente um filho. Como se o novo ser, tão ansiosamente esperado, quisesse apressar a realização destes votos, veio ao mundo antes do tempo. Sua mãe morreu, e seu pai, não podendo conformar-se com esta perda, enforcou-se num acesso de desespero. * Constance Guignard teve uma infância exemplar, mas desgraçada. Passou o tempo que esteve no colégio a sofrer castigos que não merecia, a levar palmatoadas que lhe não eram destinadas, e de cama nos dias em que havia alguma festa. Terminou os preparatórios com fama de hipócrita e reputação de velhaco. No concurso ao bacharelado, fez a tradução latina dum vizinho que foi admitido, enquanto que ele era expulso dos exames por ter copiado. * Princípios tão adversos tornariam má uma natureza vulgar. Constance Guignard, porém, tinha uma grande alma e, persuadido de qu...