A TATUAGEM - Conto Clássico Insólito - Saki


A TATUAGEM
Saki (Hector Hugh Munro)
 (1870-1916)
Tradução de Paulo Soriano

— O jargão artístico dessa mulher me cansa — disse Clovis a seu amigo jornalista.  — Adora dizer que certos quadros “crescem sobre nós”, como se fossem uma espécie de fungo.

— Isso me lembra — disse o jornalista — a história de Henri Deplis. Eu já lhe contei alguma vez?

Clovis negou com a cabeça.

— Henri Deplis era por nascimento um nativo do Grão-Ducado de Luxemburgo. Em razão de uma reflexão mais madura, converteu-se em caixeiro-viajante. Suas atividades frequentemente o levavam além dos limites do Gão-Ducado e, estando numa pequena cidade do norte da Itália, chegaram-lhe notícias de que havia recebido um legado de um parente distante, que havia falecido.

Não era um grande legado, ao menos do modesto ponto de vista de Henri Deplis. Ainda assim, o impeliu a umas extravagâncias aparentemente inofensivas. Em particular, o levou a patrocinar a arte local, representada pelas agulhas de tatuagens do Signor Andreas Pincini. O Signor Pincini era, talvez, o mais brilhante mestre de tatuagem que a Itália havia conhecido, mas estava decididamente empobrecido, e pela soma de seiscentos francos empreendeu alegremente a tarefa de cobrir as costas de seu cliente, desde a clavícula até a cintura, com uma brilhante representação da Queda de Ícaro. O desenho, quando finalmente desenvolvido, causou uma ligeira desilusão no Sr. Deplis, que havia imaginado que Ícaro era uma fortaleza tomada por Wallenstein[1] na Guerra dos Trinta Anos, mas ficou mais que satisfeito com o trabalho executado, que foi aclamado por todos os que tiveram o privilégio de vê-lo como a obra-prima de Pincini.

Foi o seu maior esforço e o último. Sem sequer esperar o pagamento, o ilustre artesão deixou este mundo e foi enterrado em uma tumba ornamentada, cujos querubins alados proporcionavam pouco campo de aplicação para o exercício de sua arte favorita. Ficava, todavia, a viúva de Pincini, a quem eram agora devidos os seiscentos francos. Em sequência, veio à tona a grande crise na vida de Henri Deplis, caixeiro-viajante. O legado, sob o peso de numerosas cobranças, havia minguado a uma proporção insignificante, e quando uma premente fatura de vinho e diversas outras coisas correntes haviam sido pagas, restava pouco mais de quatrocentos e trinta francos para oferecer à viúva. A dama estava justamente indignada. Não tanto, como explicou voluvelmente, devido à sugestão de suprimir-se da dívida cento e setenta francos, mas sobretudo pelo intuito de diminuir o valor da reconhecida obra-prima do seu marido falecido. Em uma semana, Deplis se viu obrigado a reduzir a sua oferta a quatrocentos e cinco francos, o que atiçou a indignação  da viúva, convolando-a em fúria. Cancelou a venda da obra de arte e, alguns dias depois, Deplis se inteirou, consternado, de que a viúva a doara a obra-prima à municipalidade de Bérgamo que, agradecida, a aceitou. Deixou a vizinhança o mais discretamente possível e se sentiu genuinamente aliviado quando seus negócios os levaram a Roma, onde esperava que sua identidade e a da famosa obra de arte pudessem perder-se de vista.

Mas Deplis carregava nas costas o peso do gênio do defunto. Certo dia, ao aparecer no fumegante corredor de um banho a vapor, foi imediatamente obrigado a vestir as roupas. Partia a ordem do proprietário, um italiano do Norte, que se recusou enfaticamente a permitir que a celebrada Queda de Ícaro fosse exibida em público sem a permissão da municipalidade de Bérgamo. O interesse público e a vigilância oficial aumentaram quando a questão foi mais amplamente conhecida, e Deplis já não mais podia tomar um simples banho no mar ou num rio nas tardes mais tórridas, a menos que se cobrisse até a clavícula com um grande traje de banho. Depois, as autoridades de Bérgamo conceberam a ideia de que a água salgada podia ser prejudicial à obra de arte e engendraram um perpétuo interdito que impedia ao atormentado caixeiro-viajante banhar-se no mar em qualquer circunstância. Este se sentiu ardentemente agradecido quando a firma, da qual era empregado, o destinou a um novo ramo de atividades na região de Bordeaux. Seu agradecimento, todavia, cessou na fronteira franco-italiana. Um imponente destacamento de forças oficiais impediu a sua partida, lembrando-o, severamente, de que uma lei específica proibia a exportação de obras de arte italianas.

Esse fato deu origem a uma reunião diplomática entre os governos italiano e luxemburguês, e em um dado momento a conjuntura europeia enturvou-se com a possibilidade de problemas. Mas o governo italiano se manteve firme. Declinou absolutamente das peripécias e mesmo da existência de Henri Deplis, caixeiro-viajante, e permaneceu inflexível em sua decisão de que a Queda de Ícaro (obra do falecido Pincini, Andreas), atualmente propriedade da municipalidade de Bérgamo, não devia jamais abandonar o país.

O alvoroço arrefeceu com o tempo, mas o infeliz Deplis, que estava constitucionalmente em condições de retrair-se, encontrou-se novamente, alguns meses mais tarde, no centro de uma furiosa controvérsia. Certo especialista em arte de nacionalidade alemã, que obtivera da municipalidade de Bérgamo a permissão para inspecionar a famosa obra-prima, declarou que era um Pincini falso, provavelmente obra de um discípulo que o mestre havia acolhido nos anos de sua decadência. A declaração de Deplis sobre o assunto carecia, obviamente, de valor, porquanto estivera sob a influência dos habituais narcóticos durante o longo processo de agulhar a estampa. O editor de uma revista italiana de arte refutou as opiniões do especialista alemão e se propôs a demonstrar que a vida privada do expert não se adequava a nenhum critério moderno de decência. A totalidade da Itália e Alemanha se entrelaçou na disputa, houve cenas tempestuosas no parlamento espanhol, e a Universidade de Copenhague outorgou uma medalha de ouro ao especialista alemão (enviando depois uma comissão para examinar as suas provas in situ), enquanto que dois estudantes poloneses em Paris se suicidaram para mostrar o que pensavam sobre o assunto.

Entretanto, o miserável portador humano da obra de arte não ia melhor do que antes, e não surpreende que caísse nas fileiras dos anarquistas italianos. Pelo menos quatro vezes foi escoltado até a fronteira como um perigoso e indesejável estrangeiro, mas era sempre trazido de volta com a Queda de Ícaro (atribuído a Pincini, Andreas, princípios do século XX). E depois, num certo dia, em um congresso anarquista de Gênova, um camarada trabalhador, no calor do debate, derramou uma ampola de líquido corrosivo em suas costas. A camisa vermelha que usava mitigou os efeitos, mas o Ícaro ficou arruinado a ponto de tornar-se irreconhecível. Seu agressor foi severamente admoestado por atacar um companheiro anarquista e foi condenado a sete anos de prisão por destruir um tesouro de arte nacional. Mal abandonou o hospital, Henri Deplis foi obrigado a cruzar a fronteira como um estrangeiro indesejável.

Nas ruas mais tranquilas de Paris, especialmente na vizinhança do Ministério de Belas Artes, pode-se encontrar, às vezes, um homem deprimido e ansioso que, se perguntado pelas horas, responderá com um sotaque ligeiramente Luxemburguês. Abriga a ilusão de que é um dos braços perdidos da Vênus de Milo, e espera convencer o governo francês a comprá-lo. Em todos os outros assuntos, creio que ele está razoavelmente são.





[1] Albrecht von Wallenstein (1583 - 1634), general boêmio, lutou em favor de Fernando II, imperador do Sacro-Império Romano-Germânico, na Guerra dos Trinta Anos (1618 - 1648).

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PRESENTE A UM ENFORCAMENTO - Conto Classico Sobrenatural - Ambrose Bierce


PRESENTE A UM ENFORCAMENTO
Por Ambrose Bierce
(1842 - 1913?)
Tradução de Paulo Soriano


Um velho homem chamado Daniel Baker, que vivia em Lebanon, Iowa, era suspeito, por seus conterrâneos, de haver assassinado um vendedor ambulante que obtivera permissão para passar a noite em sua casa.

Isto aconteceu em 1853, quando tal espécie de mercancia era mais comum no Oeste do que hoje, e cercava-se de um perigo considerável. O vendedor atravessava, com a sua maleta, por todo tipo de estradas solitárias, e era obrigado a confiar nas pessoas do campo para ganhar hospitalidade.

 Isto o levava a interagir com tipos estranhos, alguns dos quais não eram de todo escrupulosos em seus métodos de ganhar a vida, sendo o assassinato um meio aceitável a tal escopo. Ocasionalmente, acontecia de um vendedor ambulante, com a maleta diminuída e a bolsa acrescida, acorrer à solitária habitação de algum biltre e depois jamais se ter notícias de seu paradeiro.

Assim foi o caso do “velho Baker”, como ele sempre era chamado. (Esses nomes são dados nos povoados do Oeste apenas a pessoas idosas que não são estimadas; para o descrédito geral nas sociedades locais, agrega-se uma reprovação especial, alusiva à idade.) Um vendedor ambulante chegou à casa dele e jamais foi visto novamente – isto era tudo o que se sabia.

Sete anos depois, o Reverendo Cummings, ministro batista bastante conhecido naquela parte do País, passava, certa noite, pela fazenda de Baker. Não estava muito escuro: havia um resquício de lua em algum lugar acima do véu luminoso da neblina que se estendia sobre a terra. Sempre de bom humor, o Sr. Cummings estava a assoviar uma canção, que ele ocasionalmente interrompia para uma amigável palavra de encorajamento a seu cavalo.

Quando chegou a uma pequena ponte que cruzava uma ravina seca, notou que sobre ela havia um homem de pé, claramente delineado sobre o fundo cinza de uma floresta enevoada. O homem levava alguma coisa atada às costas e portava um pesado cajado: era, obviamente, um vendedor ambulante. Havia em sua postura um quê abstração, como ocorre nos sonâmbulos. O Sr. Cummings deteve o cavalo ao chegar diante dele. Cumprimentou-o com cortesia e o convidou a subir na carroça — “se estiver indo na mesma direção que a minha” —, acrescentou. O homem ergueu a cabeça, olhou-o diretamente no rosto, mas não respondeu e nem esboçou qualquer movimento. O ministro, com uma amável persistência, repetiu o convite. Então o homem estendeu a mão direita e apontou para baixo, enquanto permanecia de pé no limite extremo da ponte. O Sr. Cummings olhou em direção à ravina, que era para onde o homem apontava; mas, nada vislumbrando de especial, voltou a olhar para ele. O homem havia desaparecido.

O cavalo, que durante todo o tempo estivera extraordinariamente inquieto, emitiu nesse instante um relincho de terror, e pôs-se a fugir em disparada. Quando conseguiu recuperar o controle do animal, o ministro já estava no topo da colina, cem jardas adiante. Olhou para trás e viu novamente a figura, no mesmo lugar, conservando a mesma atitude que antes observara. Então, pela primeira vez, foi dominado pela sensação do sobrenatural, e fugiu para casa a toda velocidade, conforme queria o seu cavalo.

Ao chegar em casa, contou sua aventura à família e, na manhã seguinte, acompanhado por dois vizinhos, John White Corwell e Abner Raiser, retornou ao local. Eles encontraram o corpo do velho Baker pendurado pelo pescoço numa das vigas da ponte, exatamente embaixo do local onde estivera a aparição. Uma espessa camada de poeira, levemente umedecida pela névoa, cobria o chão da ponte, mas  se viam apenas as pegadas do cavalo do Sr. Cummings.

Ao descer o corpo, os homens deslocaram a terra fofa e quebradiça da encosta, com o que revelaram ossos humanos que já estavam quase descobertos pela ação da água e do gelo. Os ossos foram identificados como pertencentes ao vendedor ambulante desaparecido. No duplo inquérito instaurado pelo júri, constatou-se que Daniel Baker morreu pelas próprias mãos, quando acometido por insanidade temporária, e que Samuel Morritz fora assassinado por uma pessoa – ou pessoas – cuja identidade era desconhecida.

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A VINGANÇA DO SENHOR DE VERMANDOIS - Conto Clássico de Horror - Pedro María Olivé



A VINGANÇA DO SENHOR DE VERMANDOIS
Pedro María Olivé
(1767 – 1843)
Tradução de Paulo Soriano


Imaginem um antigo castelo situado em meio a um bosque sombrio e melancólico. Suas altas ameias dominam as árvores frondosas. Vê-se uma ponte levadiça sustentada por fortes correntes. Adiante está a praça de armas, onde os cavaleiros costumam exercitar-se em combates simulados. Um majestoso silêncio reina nesta solidão. Sente-se um certo pavor ao entrar neste recinto.

Tudo anuncia a morada isolada de um dos antigos cavaleiros. De fato, é o castelo de Eudes, senhor de Vermandois.

Acompanha-o nesta fortaleza a sua esposa Gabrielle de Levergies, mais conhecida por sua formosura que por seu ilustre nascimento.

Esta senhora fora, muitas vezes, o objeto de grandes e magníficas festas. O castelo ressoava então com vozes de alegria: tudo era música e dança. Lá se reunia a brilhante juventude da Provença.

O magnífico Eudes acolhia os seus hóspedes com esplendor. Estes se divertiam por muitos dias em festas e torneios.

Gabrielle, acompanhada das damas de seu feudo, a tudo assistia numa formosa galeria. Mas, agora, Gabrielle nela não mais assoma. Recolhida nos mais solitários rincões, apenas chora e suspira. Já não ressoam no castelo mais que seus suspiros e lamentos. Gabrielle não vê mais o seu amado, o elegante jovem Raoul de Couci, ao qual consagrou a sua primeira e única paixão. Razões de estado, circunstâncias cruéis e inevitáveis, obrigaram-na a dar a sua mão ao conde de Vermandois. Mas quem poderá mudar os corações? O de Gabrielle é e será sempre do amável Raoul.

Raoul marchou, seguido de um brilhante exército, para as remotas regiões da Ásia. Em seu peito se distingue a cruz vermelha, símbolo da cruzada.

Ah, o quão terna foi a despedida destes dois amantes! Raoul se aparta do caminho, disfarça-se. Somente um criado o acompanha. Penetra por bosques sombrios. Aproxima-se silenciosamente, com o passo trêmulo, do castelo. O farfalhar das árvores o inquieta. E o crocitar do mocho agourento o enche de pavor. Uma luz vacilante o conduz ao pé de uma ameia. Abre-se uma janela. Ele distingue, entre as sombras, a silhueta da bela Gabrielle.

Eles querem falar-se e choram. O coração bate no peito e anuncia sinistros presságios.

— Ah, eu te perco para sempre! — disse a dama. — Esta é a minha última despedida. Não voltarei a ver-te mais. Irás atravessar pélagos imensos, a sulcar os mares desconhecidos. Quanto perigos te aguardam! Estremeço somente em imaginá-los. As penas de uma longa viagem, a perfídia dos gregos, a peste, os males que assaltam os exércitos em tão extensas travessias. Ah, quão poucos são os que retornam de uma expedição em que o perigo equivale à glória! E tu serás um desses poucos? Tua coragem, teu espírito, tua honra irão arrastar-te aos mais sangrentos combates. Buscarás as ações mais perigosas... Ah, querido Raoul, tu não consideras que a minha vida  se subordina à tua.

Gabrielle não pôde prosseguir. As ideias terríveis transtornam os seus sentidos. Treme, agita-se, desmaia.

O jovem senhor de Conci contempla a sua dama no limiar da morte. Hesita em seguir para a guerra. Seus olhos, fixos em Gabrielle, anunciam a terrível agitação de seu peito, a profunda meditação em que se abisma.

— Não! — disse resoluto e com ar intrépido. — O amor não me fará faltar à minha honra e à minha glória. Marchemos à guerra.

Sem aguardar que Gabrielle voltasse a si, sem olhar para ela, separa-se pressuroso daquelas paragens. A ideia da honra o ampara. Não dá lugar a reflexões contrárias. O coração é arrancado de seu peito, despedaçado. Ele se vê morrer, mas segue em frente.

Já estava Gabriel na Ásia, mas conservava consigo a imagem de Gabrielle. Sente o castelo próximo de si. Parece-lhe que apenas deu alguns passos. Permanece no mesmo transtorno, na mesma agitação. Em nada a suas paixões arrefeceram.

Busca, furioso, os combates. Lança-se aos maiores perigos para acabar com uma vida que é apenas um tormento cruel.



Voltemos a Gabrielle.

Suas criadas lhe dão prontos e eficazes socorros. Recobra os sentidos. Abre os olhos, que procuram Raoul e não o encontram. Cai de novo em seu desmaio.

— Por que não me deixais morrer? — disse ela aos que, interessados em sua saúde, buscam e solicitam seu alívio.  — Vida de um contínuo padecer não é vida. É mil vezes mais dolorosa que a morte!

Realmente, desde então Gabrielle passa seus tristes dias num contínuo padecer, num eterno suspirar. Retirada no mais escuro e lúgubre quarto do castelo, longe de suas gentes, parece sepultada em vida.

Compraz-se em renovar ideias que aumentam e agravam o seu mal. Suas criadas a surpreendem ora a contemplar e banhar de lágrimas o retrato de Raoul, ora a percorrer os lugares em que costumava falar-lhe. Outras vezes, viam-na assomada à grade da fatal despedida. Seus olhos, eclipsados por ternas lágrimas, seguem a trilha que se perde na profusão do bosque e creem descobrir o objeto de suas ânsias.

Eudes estava, há algum tempo, ausente do castelo. Quando volta, as cruéis suspeitas dilaceram o seu coração. Não encontra em sua mulher a antiga alegria. Gabrielle dissimula, mas, ainda assim, Eudes vislumbra em sua esposa um fundo de melancolia e dor.

Já havia tido ligeiros indícios do amor de Gabrielle e Raoul. Sabe que este, seguindo às cruzadas, não passou distante do castelo. Um vassalo disse-lhe que vira Raoul percorrer disfarçado os bosques que rodeiam a fortaleza, aproximar-se das ameias e falar com uma dama.

O coração de Eudes arde de ciúmes. Espiona todos os passos, todas as ações de sua esposa. E a surpreende banhada de lágrimas. Acha-a, muitas vezes, assomada à grade da janela que domina o caminho seguido pelos cruzados.

Quer esclarecer ainda mais as suas desconfianças. Fala-se dos cruzados, das expedições à Ásia. Inventam-se tristes notícias: umas vezes diz-se que os gregos acabaram com eles; noutras, assegura-se que os principais cavaleiros pereceram em um combate. Alguém se refere, como se por casualidade, ao cavaleiro de Conci. Gabrielle escuta com atenção, põe-se pálida, perturba-se. Retira-se para derramar livremente as suas lágrimas, para desafogar o seu peito com ternos suspiros.

Eudes firma-se em suas ideias. Seus espiões enchem os caminhos e, às vezes, ele percorre, sozinho, no silêncio da noite, os arredores do castelo.

Certa noite, vê um escudeiro, que, tomando uma trilha e ocultando-se na densidade dos bosques, aproxima-se do castelo. Segue-lhe os passos. Vê que este rodeia as muralhas e fita, com atenção, as janelas.

Eudes junta a sua gente, cerca o escudeiro e o captura. E o conduz a uma sala onde, sob a luz, reconhece nele o pajem do senhor de Couci. Manda que o revistem. Com ele encontram uma carta e um pequeno cofre de prata.

Eudes, agitado de furor, rompe impacientemente o selo e lê o seguinte:

“Ah, minha querida Gabrielle! Tuas suspeitas eram  demasiadamente certas. Raoul não existe mais. Ditoso instante o de minha despedida, que não pude prolongar por séculos eternos. Ó, honra fatal! Ela me arrancou de teus braços. Rendeu o meu amor. Eu te deixei a morrer. Meu coração não podia estar sem ti. Parecia que o arrancavam de meu peito. Caminhava sem saber para onde. O escudeiro guiava os meus passos. Queria voltar para resgatar a minha vida. Havia perdido o uso de meus sentidos. Sentia uma angústia espantosa.

Assim me achei na Ásia. Mas — ai, Gabrielle! — um mar imenso me separava de ti. Eu pude fugir de tua companhia, mas minha imaginação, meu coração, meus sentidos estavam todos no fatal castelo de Vermandois. Eu ouvia as tuas palavras; via-te.

Volto aos combates, busco os perigos, persigo uma morte que me liberte de uma odiosa existência... Ah, já a achei. Fui ferido mortalmente. Combati com honra. Logrei aplausos. Fui visto como um herói. O nome de Gabrielle foi a senha fatal que fez tremer o campo inimigo. Imagem bela e amável, tu foste fatal para o exército turco. Meu furor, meu amor, o nome de Gabrielle sacrificaram milhares de inimigos.

Meu braço não tombaria definitivamente antes de derramar abundantemente o sangue inimigo.

Estou coberto de feridas mortais. Mas morrerei amando Gabrielle. Como poderia privar-te de um coração que sempre foi teu? Que ache em ti a sua sepultura. Quem melhor o estimará? Meu escudeiro fez-me um solene juramento de apresentá-lo aos teus pés.

Recebe com o meu coração as preciosas joias, ditosos presentes que recebi de tuas mãos. Elas têm sido meu único consolo de tua terrível ausência. Estão tingidas de meu sangue. Eram o meu brilhante adorno no dia do combate. E não se separarão de mim até que haja exalado o último suspiro.

Amada Gabrielle, as pálidas sombras da morte giram ao meu redor. Minhas ideias se confundem. Posso apenas escrever-te o último adeus. Faleço e...”

Furioso, Eudes arrebata o cofre das mãos do mensageiro. Seus cruéis ciúmes se comprazem em meditar a atroz vingança. Olha com um sorriso cruel as provas que confirmam e esclarecem as suas suspeitas.

A infeliz Gabrielle ignora a fatal catástrofe. Certas notícias felizes chegam a Gabrielle. Dizem que Raoul triunfara perante os inimigos. Mas são notícias falsas que, inventadas pela crueldade de Eudes, estendem uma luz de alegria em sua alma abatida.

Eudes prepara um banquete para comemorar — segundo finge — o triunfo dos cruzados. Gabrielle sorri pela primeira vez. Seu esposo a obsequia, dispensa-lhe carinhosa atenção, exibe-lhe uma face serena... Mas, que face! É um véu que cobre uma negra e terrível tempestade.

Depois de servidas as aves mais delicadas e refinadas, põe-se sobre a mesa um magnífico prato, maravilhosamente adornado e trabalhado, coroado de flores. Diante dele, desparece a confusa multidão de iguarias. Este prato, em cuja redoma se veem grinaldas de flores formando emblemas amorosos, e no qual o cinzel representava os principais triunfos do amor, chama a atenção de Gabrielle. Ela se entretém, com o esposo, em simplesmente contemplar, em admirar o primor do artista, em explicar os emblemas e as representações. Eudes elogia o primoroso trabalho de duas medalhas: uma representa os ciúmes de Juno; a outra, Vênus, Marte e Vulcano. De nada desconfia a inocente dama.

Eudes levanta a redoma. Uma deliciosa fragrância embalsama a atmosfera. O apetite se excita novamente.

— O cozinheiro — disse — esgotou nesta salada todo o primor de sua arte. É o mais fino prato que já produziu. Asseguro que te parecerá muito saboroso ao degustá-lo, e não cansará o teu paladar. A carne é das que mais te agradam, está cortada em pedaços pequenos e misturada com as mais aromáticas e saborosas ervas.

— Realmente — disse Gabrielle, que come da carne fatídica sem qualquer receio —, jamais provei de um prato que me agradasse tanto.

— É claro que te agradou — disse Eudes, lançando-lhe um olhar feroz, que a aterroriza e faz estremecer. — Comeste o coração de teu amante... Raul morreu em combate. E deixou como prova de seu amor o próprio coração e as joias que um dia lhe deste. Aqui as tem.

Dizendo isto, lançou sobre a mesa o cofre e a carta.

Gabrielle cai em profundo desmaio, fatal precursor da morte. Volta a si, mas jura que jamais tomará algum alimento na vida. Em poucos dias expira nos mais cruéis tormentos.

Em seu sepulcro foram enterradas, também, as joias de Raoul. Gabrielle tem em sua mão a carta fatal, que não deixou de ler e banhar em lágrimas até o seu último instante.

Esta cena cruel aterrorizou aquele que a havia causado. O próprio Eudes estremeceu de pavor ante a  própria atroz vingança. Horrorizou-se de si mesmo. Os remorsos despedaçaram o seu coração e lhe causaram em pouco tempo uma morte acompanhada dos mais funestos delírios.



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O BAÚ - Narrativa Clássica de Horror - Anônimo do séc. XIX



O BAÚ
Anônimo do séc. XIX

Isto foi há cinquenta ano.

Naquela época,  ninguém amava o que era velho e da terra, e era uma dor de coração ver como os baús eram relegados aos  sótãos e aos  cantos mais obscuros,  como se fossem os mais indesejados trastes de casa.

 O tempo dos baús tinha passado e a maior parte deles se achavam ignobilmente transformados em tulhas de aveia junto das estrebarias. 

Adélia, linda e muito jovem moça, acabava de sair do convento: seus pais lhe deram parte do seu próximo casamento; que o noivo, os vestidos, as joias estavam prontos, e os parentes convidados.

Pensando nos vestidos, nas joias, nas plumas, Adélia era feliz. Chegou o dia das núpcias: grande era a alegria da família, da mocinha  e de suas amigas. A festa foi bela e suntuosa: o povo, ao ver passar os noivos, e os pobres ao receber a esmola, exclamavam:

— Que lindo par! Deus os abençoe, Deus os faça felizes!

 Felizes! Sim. Vocês logo saberão.

Um dia de casamento é sempre longo, e as horas correm penosamente. A jovem esposa propôs a suas amigas, para se divertirem, diversas brincadeiras próprias da sua idade... Vamos ao esconde-esconde...

— Eu  tenho um esconderijo em que ninguém me achará — disse Adélia a si mesma.

E eis a bela e fresca noiva subindo a escada da água-furtada, abrindo e fechando a porta do forro; levantando a custo a pesada tampa de um enorme baú e metendo-se dentro com o seu vestido de cetim branco, seu véu branco, muito contente de se ter lembrado de tão seguro esconderijo... Suas amigas não a acharão... Não...

Mas a pesada tampa se fechou sobre ela. Quem virá descobri-la? Ninguém. As companheiras de Adélia a procurarão por longo tempo, bem longo... Puseram-se, enfim a gritar por ela na escada, nos corredores, à porta de todos os quartos:

—Adélia, apareça, a  brincadeira terminou!  E a sua mãe e o seu marido a esperam no salão.

Era assim: todo mundo a esperava; em breve, todo o mundo se pôs em alerta, e começou a procurá-la e a gritar:

—Adélia! Adélia!....

Talvez a pobre moça talvez ouvisse todo esse ruído, todas essas vozes; mas não podia sair do baú. A tampa, ao cair, se tinha fechado, cerrando as presilhas. E as lindas mãos da noiva, ornadas de anéis e diamantes, não podiam abrir o caixão que ia ser seu sepulcro. O quanto ela  não gritaria? Mas a espessura do velho baú lhe tinha sufocado a voz, e ninguém pôde imaginar que, desgraçadamente, a jovem noiva tivesse ali se encerrado.

Passaram semanas, meses e anos: Adélia não apareceu, e sua mãe ficou inconsolável. O marido de um dia não sentiu uma dor tão profunda. Esta estranha desaparição deu, por um longo tempo, muito que falar.

Depois que voltou a moda dos baús, aquele foi tirado do sótão e trazido, com outros móveis, para o pátio, a fim de serem vistos, apreçados e vendidos.  O baú era bom.... vai-se a abrir para ver o seu estado por dentro. Alguns ossos, resto de um esqueleto de mulher, pedaços de cetim branco, uma coroa de folhas de laranjeira, alguns diamantes e anéis enfiados em dedos descarnados.... eis o que restava da jovem e bela noiva.

Fonte: “Novo Correio das Modas”, 1854.
Adaptação textual: Paulo Soriano.

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O VAMPIRO - Conto Clássico de Terror - Anônimo do século XIX



O VAMPIRO
Anônimo do século XIX

Há duzentos anos, numa aldeia da Boêmia, existia uma bela jovem pertencente a uma família de um lavrador. De nome Maria, tinha um bom coração. Amava os pais, aos quais, desde a tenra infância, tratava de ser útil, encarregando-se voluntariamente de várias atividades domésticas. Por este motivo, também era estimada da sua família e da gente do povoado. As mães a citavam como um exemplo de amor filial, e de um procedimento digno de toda a consideração.

Maria tinha 18 anos quando chegou à sua aldeia um estrangeiro jovem e de boa presença, parecendo ser de alguma cidade, em razão do seu vestuário; pois, ainda que simples, era elegante, e as suas maneiras afáveis e corteses diferiam muito das que se usavam na aldeia. Maria, sagaz como era, não deixou de notar esta diferença e, desde esse momento, uma sorte funesta pareceu adejar sobre o seu destino.

O estrangeiro estabeleceu sua morada junto à casa dos pais de Maria, e, desta maneira, muitas vezes a encontrava. Não deixava de olhar para ela de uma maneira singular e tão estranha que fez cismar a pobre moça. Maria nunca tinha sentido, da parte dos moços da aldeia, quando para ela olhavam, a influência ou atração que sobre ela exercia o jovem estrangeiro, o que lhe deu, depois, desejos de chorar e, algumas vezes, de rir, sem saber por quê, sofrendo fortes palpitações do coração.

Passado algum, tempo, Hantz (era este o nome do estrangeiro) se animou a falar com a linda jovem e, desde então, ela não podia dormir. E se, devido ao cansaço, fechava os olhos, terríveis sonhos vinham agitar-lhe o sono. Era sempre o estrangeiro quem neles figurava, mas de uma maneira bem diferente: às vezes aparecia-lhe como um anjo do céu enviado para lhe oferecer a felicidade; outras vezes, como um demônio do inferno, que subia à terra expressamente para causar-lhe a perdição e levá-la consigo para as penas eternas. Então, a infeliz Maria lutava com esta horrível visão. Acordava sobressaltada, pálida e inundada de suor glacial; depois, era atacada de febre que lentamente lhe fazia desbotar as faces e os lábios, seguindo-se profunda tristeza que a consumia, ao mesmo tempo que angústias mortais lhe devoravam o coração. Enfim, Maria, pálida, magra e triste, já não parecia a mesma. Pobre moça!

Por muito tempo, ela lutou contra o seu destino. Encomendou novenas, rezou, invocou os santos, jejuou semanas inteiras. Nada disto, porém, lhe valeu, e a infeliz julgou que o céu a tinha abandonado e caiu em desespero.

Certa tarde, ao cair do sol, ela vinha sozinha da vila próxima. Andava depressa para que a escuridão a não apanhasse no caminho, visto que uma nesga de lua já nascia por sobre os morros distantes. Porém, lançando a vista para um pinheiral próximo do caminho, pareceu-lhe que um enorme fantasma lhe seguia os passos. Vislumbrou um misterioso espectro, que olhava para ela com olhos em chamas. Cheia de pavor, pôs-se a examinar, trêmula, aquela entidade fantástica. Procurando distinguir na escuridão aqueles contornos confusos, conseguiu ver bem distintamente que tinha dois chifres na cabeça, a língua vermelha e comprida, garras nas pontas dos dedos e os pés fendidos. Assustada, continuou a andar aceleradamente, conservando na imaginação a desmedida e horrenda figura que lhe aparecera.

De repente, ouviu uma voz suave que a chamava, e voltando-se, viu Hantz junto a si.

Ele disse, então:

—Maria, não te assustes! Não sabes que eu te amo, e que só desejo te ver feliz?

Neste momento, a lua cheia flutuava sobre o cume da montanha vizinha e,  com a sua luz, a infeliz Maria  já não via o horrendo fantasma que lhe parecera ter língua vermelha, grandes orelhas e garras.

A sorte já pesava sobre o seu destino. Perdeu o juízo e respondeu:

— Hantz, eu não estou com medo, e eu creio....

Hesitou, e nada mais pôde dizer.

Hantz, contudo, percebeu a sua perturbação e disse-lhe:

— Maria, eu bem sei que tu me amas, e deves ficar certa que, pelo céu ou pelo inferno, seremos felizes.

A estas palavras, a jovem estremeceu, e continuou a caminhar para sua casa acompanhada pelo estrangeiro, que. três dias depois, a pediu em casamento.

Seus pais, sabendo que Maria estava disposta a casar-se com aquele moço, cujo comportamento era exemplar, consentiram, e dali a 25 dias, a pedido do noivo, foi o casamento celebrado exatamente quando era lua cheia.

Maria, depois do casamento, parecia muito satisfeita. Todavia, ainda vivia incomodada, porque começou a ter sonhos horrorosos pela preocupação que tinha, motivada pela blasfêmia de Hantz, e por ele ter retardado o seu casamento até o dia da lua cheia. Isto lhe causava preocupações.

De repente, Hantz ficou triste, uma palidez mortal lhe cobriu o rosto e perdeu inteiramente as forças. Não quis consultar um médico, e quando a pobre moça lhe perguntava, chorando, qual era a sua doença, a resposta era um sorriso. Enfim, depois de constante padecimento, antes da lua cheia, Hantz morreu.

A sua morte foi muito sentida pelos parentes de Maria que, pela sua parte, ficou inconsolável por espaço de três dias, findos os quais, com admiração de todos, ela pareceu quase aliviada das suas penas.

Tinham já passado três ou quatro meses sem que Maria desse sinal algum de padecimento. Empregava-se no serviço da casa, seguindo a sua marcha antiga, exceto, porém, em ir à missa e em rezar, o que seus pais muito estranhavam. Nunca lhe ouviram falar em Hantz, e isto provava que ela já o havia esquecido. Mas, quando mal esperavam, ela começou a emagrecer e a tornar-se pálida a ponto de a considerarem tísica, visto que não apresentava sintoma de outra moléstia.

Sua mãe observou, ou pelo menos assim lhe parecia, que ela, ao levantar-se da cama, estava mais débil e mais abatida do que de tarde, principalmente no tempo da lua cheia. Incitada pelos cuidados de mãe, fez um pequeno buraco na porta do quarto de Maria, a fim de se convencer pelos seus olhos e ouvidos se a sua filha querida rezava de noite, ou, enfim, qual era o motivo do seu padecimento. Durante as primeiras noites em que espiou pelo buraco da porta, não observou coisa alguma extraordinária, e já as suas desconfianças se haviam desvanecido quando, uma noite...

Seriam onze horas e três quartos. Maria já se tinha deitado e a lua, saindo de uma nuvem, lançava os seus argênteos raios que, passando pela janela aberta, iluminavam o quarto. Então a mãe ouviu um gemido, depois uma voz débil, que dizia, sem dúvida sonhando:

— Oh, Hantz! Oh, meu amigo! Eu sou a tua esposa querida. Eu te amo.... Oh, sim! Eu te amo.... E, não obstante, me parece que as tuas caricias me fazem gelar o coração e me matam....

Depois, ela deu um doloroso e longo suspiro, e a mãe nada mais ouviu. Então olhou pelo buraco da porta e viu....

Qual não foi o terror que invadiu a sua alma! Esfregou os olhos, beliscou os braços para se capacitar de que não sonhava, e viu.... um vampiro!

Ela logo o reconheceu: era Hantz. Não aquele Hantz pálido, magro e descarnado pela enfermidade como estava no dia em que morreu, mas um Hantz robusto, fresco e vermelho como o tinha visto no tempo da sua perfeita saúde. Aquele espectro era Hantz, morto e enterrado no cemitério da aldeia havia mais de três meses....

Ela viu o cadáver redivivo em pé, junto à cama da sua filha e debruçado sobre ela, aplicando-lhe os lábios ao pescoço. Viu uma gota de sangue sobre o pescoço de Maria, que corria dos lábios trêmulos do espectro.

A pobre mulher, vendo isto, deu um grito espantoso e caiu desmaiada. Ao estrondo da queda, o pai de Maria, e toda a gente da casa acudiram. Levantaram a infeliz mãe, arrombarão a porta do quarto e nele só acharão o inanimado corpo de Maria!

Chamou-se o médico imediatamente. Este, porém, depois de fazer o necessário exame, declarou que não havia meio algum de lhe restituir a vida, porque não tinha uma só gota de sangue no corpo. E, por duas nódoas roxas que se avistavam no pescoço, iguais às que deixam as sanguessugas, conheceu-se a verdade do médico.

A mãe da infeliz Maria recuperou a consciência, mas, como contava o que tinha visto pelo buraco da porta, todos julgavam que estava louca.

Muitos dias depois deste acontecimento, a linda Joanna, vizinha e amiga dos parentes de Maria, foi atacada da melancolia em tudo igual à de que padecia a sua camarada. Tratou-se de espiar da mesma maneira por um buraco que se fez na porta, e viu-se o fantasma de Hantz a chupar-lhe, também, o sangue das artérias do pescoço, como asseverara a mãe de Maria.

O padre foi imediatamente chamado, e Joanna lhe confessou que, havia algum tempo, o espectro a visitava todas as noites, principalmente pela lua cheia, mas que nenhum mal lhe fazia. Contudo, como no pescoço já se divisassem duas nódoas roxas, o padre lhe rezou os exorcismos. Mas de nada valerão essas orações da Igreja: Joanna morreu poucos dias depois, sem lhe ficar no corpo uma só gota de sangue.

 Igual fim tiveram mais cinco moças do vilarejo. Então o povo, amotinando-se, tomou o expediente de desenterrar o corpo de Hantz, a fim de ver se poderia cessar tão horroroso mal. Todavia, como a exumação realizou-se durante a lua cheia, achou-se a sepultura vazia.

Um doutor tanto pensou, tantos tratos deu ao juízo, que descobriu que os vampiros somente tinham o poder infernal de sair das suas covas durante a lua cheia. Conseguintemente, esperaram pelo minguante, cuja chegada se esperou com impaciência. E quando a lua apresentou uma diminuta parte do seu disco, correrão então a abrir a sepultura, e nele acharão o tal facínora que sossegadamente dormia com o sorriso nos lábios e com todas as aparências da melhor saúde. Atravessaram-lhe o ventre com uma estaca com tão boa vontade que nunca mais se levantou. Foi queimado e as cinzas lançadas ao vento. Este exemplo intimidou, sem dúvida, os outros vampiros daquelas terras, porque nunca mais se ouviu falar em semelhante flagelo.


Fontes: “Novo Correio das Modas”, 1854 e, em menor grau, “Archivo Popular”, 6 de agosto de 1842. O texto, cujo excerto reproduzimos, é uma das primeiras narrativas sobre vampiros em língua portuguesa, embora, provavelmente, se trate de uma tradução. Fizeram-se adaptações textuais.

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A VALSA E A MORTALHA - Conto Clássico de Terror - Domingos Manoel de Oliveira Quintana



A VALSA E A MORTALHA
Domingos Manoel de Oliveira Quintana
(Sec. XIX)

I

Quem é aquele vulto que se debruça, em hora tão avançada, sobre a borda de um abismo insondável e que parece medir-lhe a profundidade?

Vejamos de perto.

É uma jovem de dezoito anos, pura e cândida, que chora. Chama-se Helena. É bela e poderia ser feliz.

Junto a si há uma vestimenta fatal que a jovem contempla soluçando. Irá vesti-la. É uma mortalha.

À beira do abismo, a jovem mulher dirige a Deus uma prece por sua alma. Pede-lhe que não desampare o seu pobre e velho pai, que amanhã chamará em vão pela querida filha. Feita a oração, resta-lhe, apenas, lançar-se no abismo e desparecer para sempre.

Sente, porém, um rumor na folhagem. Volta-se, confusa, e vê aparecer um estanho que é tão jovem quanto ela. Ambos ficam surpresos, porque procuravam o desfiladeiro para o mesmo fim.

Chamava-se Ernesto. Era um jovem esbelto, pálido, de olhos expressivos, cabelos negros e lábios breves. Criado ao lado da bela Adelina, sob os mesmos cuidados e as mesas impressões, e dirigidos por iguais sentimentos, ambos conheceram, bem depressa, que uma corrente mais forte que a simples amizade prendia a um o coração do outro.

Mas Adelina o rejeitou, pois Ernesto não era glorioso o bastante para desposá-la. Ela queria um amante herói.

Na noite anterior, houve um festejo no palácio de um patriota, a flor da nobreza guerreira.

Entre os jovens cavalheiros, havia um que reunia em si todos os predicados para satisfazer a ambição da inconstante Adelina. Era jovem, belo, tinha a fama de herói e um nome glorioso. Bem depressa eles se avistam, o cavalheiro não se separa mais de sua dama, Adelina só vê o seu herói.

A nova conquista do cavalheiro circula todo o salão e é repetida de boca em boca. Fala-se já em um próximo casamento, e esta notícia corre até por fora do baile, e vai entrar em um solitário caramanchão onde Ernesto lastima-se, em silêncio, por não poder dançar com a sua Adelina.

Com essa notícia cruel, ele ergue-se como se tocado por um choque elétrico. Não quer ouvir mais nada. Entra, apressado, no baile e procura Adelina.

A orquestra tocava nesse momento uma calorosa valsa, e os pares passavam girando à sua frente, embriagados de delícias, respirando o mesmo ar, enlaçados voluptuosamente.

Ernesto chegou à sua amada.

— Adelina — disse ele —, dança comigo esta valsa?

O cavaleiro soltou uma gargalhada.

— Logo — respondeu-lhe Adelina, rindo também.

—Logo? Logo quando?

— Quando você for do outro mundo.

— Sim, meu caro — disse-lhe também o estranho. — Quando você for do outro mundo. Mas, até lá, tenha paciência.

E afastaram-se de Ernesto, rindo às gargalhadas.

Ernesto ficou como se ferido por um raio. Duas grossas lágrimas caíram-lhe dos olhos, lançadas pela dor e pela raiva. Depois, tomou uma resolução desesperada. Fugiu do baile, não apareceu todo o dia em casa e, à noite, dirigiu-se ao abismo fatal, onde encontrou-se com a desventurada Helena.

— Ela vai ser, em breve, a esposa de Justiniano — disse ele, após narrar a Helena a sua história.

— Justiniano? — exclamou helena, ao ouvir esse nome.

— Sim, é esse o seu novo amante.

Helena ergueu-se pálida. Derramava uma torrente de lágrimas.

— Justiniano devia conduzir-me, hoje, ao altar. Ai de mim! Agora compreendo tudo!

— Ele? — perguntou Ernesto.

— Sim, o traidor. E eu o amava tanto! Cedi ao seu amor!

— Oh, desgraçado!

— Mas me prometeu que eu seria, hoje, a sua mulher. Esta manhã, escrevi-lhe. Ele me respondeu: “Helena, torne-se digna do que eu te remeto; então, venha reclamar os seus direitos.” O que ele me remetia, senhor, era esta mortalha. Justiniano repudiava a pobre Helena porque já amava uma outra mulher!

Houve um momento consagrado às lágrimas.

— Só me resta morrer! — murmurou Helena.

E dirigiu-se, resoluta, à boca do abismo.

— Espere, irmã — disse Ernesto. — Eles vão se unir na vida para se esquecerem de nós. Unamo-nos, pois, na morte para cuidarmos somente deles!
— Unamo-nos! — disse Helena, dando-lhe a mão que ele apertou na sua.
Avançaram então um passo e desapareceram no fatal abismo.


II


Um ano depois deste fúnebre acontecimento, as portas de um magnífico palácio se abriam para dar entrada a inúmeros convidados, que num baile de máscaras deviam festejar o casamento de Justiniano e Adelina.

 Um sussurro geral ergueu-se de todos os lados quando apareceu um novo cavalheiro, e sua fantasia era tão sinistra que as pessoas recuavam quando ele passava.

Era alto, magro em extremo, trajando roupas cor de sangue e, pendendo-lhe do chapéu, duas negras plumas caiam-lhe até os ombros. Por entre as aberturas da sua máscara, também negra, não apareciam indícios da existência de uns olhos que devessem brilhar à luz do dia. E quem por essas aberturas quisesse interrogar o olhar do cavalheiro, somente interrogaria, em vez de uns olhos, duas covas escuras que, sem luz, apareciam sob a máscara do desconhecido.

Não se sentia dele nem um arfar do peito, nem um frouxo respirar, e nem um só estremecimento muscular. Andava, cruzava os braços, e não fazia mais nada.

Pouco a pouco, o temor converte-se em admiração.

— É um convidado de bom gosto que se disfarça excelentemente — diziam alguns. Outros, porém, o julgavam estrangeiro, e quase todos concordavam que não seria fácil adivinhar quem era o misterioso cavaleiro.

As damas, movidas pela curiosidade, disputavam para saber quem seria a primeira a penetrar o incógnito e revelar seu nome à multidão. Algumas, mais desembaraçadas, já o haviam convidado para um passeio, ou para uma contradança. Mas cavalheiro permanecia sempre impassível, nem parecia ouvi-las!

Nesse instante, Justiniano apareceu ao lado de Adelina; ambos sem máscaras para serem conhecidos, e trajando belas fantasias. Justiniano representava um altivo turco e Adelina uma gentil pastora da Alsácia.

A multidão saudou-os com entusiasmo. Os noivos tornaram a pôr as suas máscaras, a orquestra rompeu em uma calorosa valsa, e os pares enlaçados engolfaram-se nas delícias da dança arrebatadora.

Adelina viu, então, um cavalheiro oferecer-lhe o braço em silêncio, como que a convidando a participar com ele daquela dança, a cujos encantos os velhos chamam de loucura.

 Ela, só cuidando da sua ventura, louca de alegria leviana, aceitou esse mudo convite e, nos braços do seu cavalheiro, confundiu-se nos delírios de uma valsa ofegante, por entre a diversidade dos valsistas.

 Seu par era o cavalheiro sinistro!

Com o braço esquerdo, ela cingiu a sua cintura e, alçando o direito, apertou em sua mão a mão esquerda do cavalheiro.

Adelina estremeceu.

A mão que ela apertava era mirrada e fia, e a cintura que cingia com seu braço parecia a de um esqueleto!

Quis gritar.... a voz prendeu-se garganta.

Uma das portas do salão, que se abria para um jardim, estava deserta. O cavalheiro, sempre valsando, por lá saiu com a sua dama... Ninguém percebeu isto, a dança lhes atraía as atenções.

Mísera Adelina! Ela vai quase sem sentidos, falta-lhe ar, e o temor agita os seus delicados membros. Passam o jardim, internam-se por um bosque emaranhado, e a valsa continua sempre, subindo ou descendo um penhasco, saltando ou pulando, por serras ou vales!

Pararam, enfim, à borda de um abismo.

O cavalheiro estreita-a em seus braços, pretende beijá-la amorosamente e, nesse instante, a sua máscara cai aos pés de Adelina, que solta um grito pavoroso.

A cabeça do seu cavalheiro era uma caveira horrenda, que movia uma grande queixada buscando proferir frases que ela, a custo, percebia.

—Adelina — disse-lhe, então o horrível esqueleto, sentando-se e fazendo-a sentar-se a seu lado — dança comigo esta valsa?

E prosseguiu, simulando um diálogo:

— Logo.

— Logo? Logo quando?

— Quando você for do outro mundo.

Os dentes da caveira rangeram a estalar. Adelina quiz fugir, e o horrendo fantasma segurou-a pelos cabelos.

— Piedade, Ernesto! — murmurou a mísera, caindo de joelhos.

— Não! Não!

E o fantasma precipitou-a no fundo do abismo.

Era meia noite.


IV


A essa mesma hora dava-se por findo o baile no palácio de Justiniano. Pouco a pouco, os salões tornam-se desertos: apenas uma ou outra sombra fugitiva via-se escoar sutilmente do recinto. Nem mais um som de instrumento musical, nem mais um espirituoso gracejo através de uma máscara de seda.

A dama que conduzira a noiva ante o altar procura no salão a encantadora pastora da Alsácia para leva-la ao leito nupcial. Reconheceu esse traje em alguém que passava, e convidou-a a segui-la. Na porta da câmara, a pastora, ainda sem tirar a máscara, inclinou-se, e a oficiosa dama, julgando que ela a despedia, retirou-se dizendo-lhe:

— Boa noite, minha filha.

E deixou-a só.

Entrementes, após livrar-se do mordomo inoportuno, Justiniano pôs-se a meditar.

Seu pensamento é um mar de delícias, e seu coração um porto de esperanças. Adelina está para o seu amor como a vaga para o oceano.
O cavalheiro entrou na alcova.

— Ela está dormindo! — diz ele, contemplando o vulto envolvido nos lençóis.

Justiniano aproximou-se do leito.

O coração quer saltar-lhe do peito, a extrema ventura o faz palpitar violentamente.

— Oh, Adelina! Oh, meu anjo, acorde.... Sou eu, o seu Justiniano.

Sempre o mesmo silencio. Nem um só movimento anunciou que suas palavras tivessem sido ouvidas. Ele dirige-se, então, a uma harpa para despertar a sua noiva, cantando uma melodia que compusera para ela.

Um pequeno bilhete está metido entre as cordas.

Justiniano vai lê-lo. Ele diz assim: “Helena, torne-se digna do que eu te remeto; então, venha reclamar os seus direitos.” Ele reconhece aquela letra, empalidece, e uma ideia cruel o preocupa. Justiniano corre para o leito conjugal. Quer ocultar o seu temor e os seus remorsos nos braços da sua noiva.

Eis que os lençóis se agitam, caem por terra.

Um esqueleto horrível ergue-se e senta-se no leito.

O jovem recua horrorizado e quer fugir. Mas é inútil: o ressequido fantasma já o tem seguro em seus braços, e lhe apresenta uma mortalha manchada de sangue.

— Olhe, você me pertence! — disse-lhe o espectro com voz sinistra. — E eu venho reclamar os meus direitos!

— Helena! — exclamou o desgraçado, caindo sem sentidos.

—Sou a sua noiva! Venha....

E levou-o de rastros até o abismo fatal.

Chegados ali, precipitou-o, e o fez rolar até o fundo, onde ele se fez em pedaços.

No outro dia, ninguém soube dizer o que era feito dos noivos.


Fonte: “Correio das Modas”, 1854. A presente edição é uma versão condensada e adaptada do original.

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