A MÃO DO LOBISOMEM - Conto Clássico Humorístico de Horror - Paul L. Jacobs


A MÃO DO LOBISOMEM
Paul L. Jacobs
(1806 – 1884)

Os lobisomens vieram-nos, provavelmente, dos Caldeus e dos povos pastores que se viam obrigados a defender seus gados contra os lobos.  E o terror que esses animais infundiam, divagando, à noite, em volta dos currais, favorecia os malfeitores, que se disfarçavam em lobos furiosos para cometer roubos ou atos de vingança. Daqui provém esta superstição de todos os tempos e de todos os países, conhecida por nomes diferentes, e rodeada por circunstâncias mais ou menos estranhas: Luciano[1], Plínio[2], Virgílio[3] se ocuparam destas coisas. Finalmente, esses homens antropófagos, que andam de noite solitários e furiosos, tendo sinais característicos de lobo, se perpetuam ainda em muitos pontos da França.

Há anos que a aldeia de Ryans, que foi uma grande cidade, cinco léguas distantes de Bourges, tinha uma família de lobisomens, pobres trabalhadores, aos quais muitas vezes recusavam trabalho e pão, porquanto as pessoas acreditavam, há muitas gerações, nesta sina original que o pai a transmitia aos filhos. Os Gordes, que deviam sem dúvida esta má reputação a seus antepassados, não tinham um amigo nas campinas vizinhas. Atribuíam-lhes sempre as desgraças das quais o acaso era o único autor.

Se o incêndio consumia uma quinta, se os gados morriam, era acusado Simon Gorde, e consagrado à execração pública.

O cemitério e a cruz do lobo serviam de teatros noturnos à maldade dos Gordes, que ali se apresentavam ao luar, segundo diziam, para roer os ossos dos mortos e chupar o sangue dos vivos. Verdade é que, no inverno, os lobos desciam o monte de Sancerre e penetravam no cemitério para desenterrar os mortos; era também verdade que a cruz do lobo, que se achava na encruzilhada dos dois caminhos, tinha sido ensanguentada por um mendigo que ali tinha caído embriagado. Mas atribuíam todos esses acidentes à intervenção criminosa dos Gordes e dos lobisomens.

Todavia, esta pobre família não tratava de desmentir tão monstruosos preconceitos. Sabia muito bem a calúnia de que era vítima e, como não podia desmenti-la, sofria sem se queixar da posição em que se achavam; não aparecia nunca de dia, e ocupava-se nos seus trabalhos domésticos.

Habitavam estes infelizes uma pequena cabana, meio arruinada pelos temporais. Como essa habitação era separada das outras à entrada da cidade, todos evitavam passar por ali, principalmente quando o crepúsculo começava o terror naqueles ermos medonhos.

Apareceu na cidade uma epidemia causada pelos vapores pútridos das lagoas, em que se macerava o linho. Simon Gorde, o pai, foi o primeiro atacado, e ainda tinha o corpo morno quando sua mulher deu também a alma a Deus. E aquele, por desgraça, morreu sem médico, nem confessor. Simon Gorde, seu filho, abriu a cova e lançou-os nela. Um camponês que passava e viu essa cena persignou-se e fugiu, pensando que tinha visto a procissão dos diabos. No dia seguinte, houve geral contentamento na região com a notícia destas duas mortes, as quais todos atribuíam a um benefício do céu, e até já se preparavam para mandar tocar sinos e dizer missas em ação de graças.

Simon Gorde, tornando-se chefe de família, composta de duas irmãs de tenra idade, da irmã de seu pai e do irmão de sua mãe, viu-os partir todos para o cemitério no espaço de uma semana. Quando enterrou o último, hesitou se devia deitar-se ao lado dele para ali dormir um sono eterno. Não foi com lágrimas e suspiros que exprimiu a sua dor: foi em uma contemplação silenciosa, ao lado do túmulo de seus parentes. Durante três noites consecutivas, saiu da choupana para vir chorar ao lado da sepultura de seus antepassados, e havia três dias que não tomava o menor alimento.

O inverno tinha interrompido o trabalho dos campos, e Simon se tinha apresentado em vão aos proprietários locais para ganhar alguma coisa pelo seu trabalho. Respondiam com ameaças. Até lhe recusaram a esmola que é dada aos pobres. Injuriavam-no, desprezavam-no.

Devia expirar de inanição, ou livrar-se deste tormento por via de um suicídio. Haveria abraçado esta última resolução como um consolo, se não o apegasse a esse mundo um sentimento de amor. Sim, esse miserável tão desesperado, que estorvava a espécie humana, esse pária que já não tinha confiança em Deus, testemunha indiferente de seus males, esse homem isolado dos afetos sociais que compensam as penas da vida, sem mais outro apoio do que a sua consciência, amava. Eis porque lhe custava tanto acabar com a própria vida.
  
Simon Gorde seria o mais formoso rapaz daquelas plagas se as fainas e as privações, pelas quais passava, o não tivessem desfigurado e abatido consideravelmente. Apesar desta inquietação e desta tristeza, sempre se notava aquela nobreza selvagem que tanto distingue certos homens, mesmo debaixo dos andrajos da pobreza. Em suma, diferia tanto das pessoas de sua condição que parecia que só a inveja era causa desta perseguição: só as mulheres tinham dó dele e não o temiam.

Solanges, mulher de Claude Lorry, açougeiro de Aix d’Angillon, tinha reparado em Simon, certo dia, ao passar por ele a cavalo. Não teve medo. Ao contrário, voltou-se muitas vezes para observar melhor este estimável lobisomem. Simon Gorde percebeu aqueles olhares.

Eram nove horas da noite. Todos os habitantes estavam em suas casas ao serão. Porém, o desgraçado Simon, solitário na sua choupana, encostado ao lado da lareira, arranjava o lume para se entreter.  A fome, o frio, tudo o fazia pensar na triste posição em que se achava.

– Ah – dizia ele –, antes eu fosse lobisomem como eles dizem, não para lhes comer as carnes, mas para ressuscitar minha desgraçada família!

No meio destas meditações, o fogo ia-se apagando, e ele não teve outro remédio senão vasculhar os cantos da casa, e ver se achava algo que pudesse queimar. Encontrou, com efeito, algumas tábuas, tamancos velhos e outras coisas, e entre elas se deparou com uma caixa velha fechada, que nunca tinha visto antes.

Levado pela curiosidade, abriu-a cuidadosamente, e qual não foi a sua admiração quando encontrou todos os trajes de lobisomem: peles de lobo, luvas com unhas e uma máscara lupina.

Simon assustou-se à visão destes objetos, e recordou-se, então, de todas as histórias que tinha ouvido acerca de sortilégios. O desgraçado estava faminto. Lembrou-se, então, de procurar por um estratagema, alcançar alguma coisa de comer. Esta herança criminosa, que seus ancestrais lhe tinham deixado, lhe revelou o que deveria fazer. Pôs a máscara, calçou a luva misteriosa e partiu para a estrada. Porém, naquela época do ano, o caminho era pouco frequentado, e por isso Simon se fartou de viver sem proveito, quando, repentinamente, avistou uma carroça que seguia a estrada da aldeia. Era Claude Lorry, marido de Solanges, que levava carne para outra vila, viagem que costumava fazer todas as madrugadas.

Simon lembrou-se de duas coisas ao mesmo tempo: ir à casa onde, provavelmente, a mulher do açougueiro estaria só, ou atacar o marido para lhe arrancar algo de comer. A fome foi superior ao amor. Simon dirigiu-se à carroça e começou a uivar com tanta força que o supersticioso Claude ficou aterrorizado.

Simon tinha tido o cuidado de lançar mãos às rédeas do cavalo, para melhor se mostrar. Mal o viu, Claude exclamou:

– És tu, Simon Gorde? Por Deus, diz o que queres!

– Quero comer,  pois tenho fome.

Claude procurou, então, a melhor peça de carne e a entregou. E Simon teve o cuidado de mostrar muito bem a mão peluda de lobo, a fim de manter a ilusão.

O desgraçado açougueiro pagava todas as madrugadas a propina de carne ao lobisomem, porém isto causou-lhe tal impressão, e andava sempre tão triste e pensativo, que sua mulher instou com ele para que lhe dissesse o que tinha, e ele não teve outro remédio senão contar-lhe toda a história do lobisomem.

– É impossível! – replicou a mulher. – Não acredites em loucuras. Simon Gorde é um homem muito agradável, não pode ser lobisomem, e juro-te que só acreditaria se o visse transformado.

– Pois bem – replicou Claude –, virás comigo amanhã e estou certo que hás de encontrá-lo, e poderás certificar-te.

Com efeito, nessa madrugada partiu Solanges com seu marido, porque estava ansiosa por saber a verdade a respeito daquele a quem tanto amava.

Mal havia chegado a carroça ao local de costume, surgiu o lobisomem para buscar a pitança de sempre. Ao ouvir os primeiros gritos, Solanges ficou aterrorizada, e o seu espanto chegou ao auge quando viu a terrível mão peluda agarrando a carne. Soltou um grande grito, e Simon disse neste momento:

– Claude, tu não vieste só!

– Não, não vim – respondeu ele. – Minha mulher veio comigo. Mas não me faças mal, porque não te quero atraiçoar.

– Pois bem, tua esposa que desça da carroça. E se não me entregares a mulher, estejas certo que irás morrer!

Claude se viu, então, em grande apuro, e estava refletindo no que deveria fazer, quando o lobisomem saltou à carroça, agarrou Solanges, que tinha perdido os sentidos, e fugiu com ela para o prado. Claude ficou, também, desmaiado. O cavalo, todavia, acostumado a fazer aquele caminho, afastou-se do lobisomem, e seguiu andando. E o pobre açougueiro achou-se, sem saber como, no lugar do seu destino. Vendeu como pôde a carne, e voltou para casa, persuadido que não acharia a sua mulher.

Porém, qual foi a sua surpresa e admiração quando a viu deitada na cama, muito descansada, conquanto um tanto pálida!

O sacristão da aldeia era conselheiro natural de todos os habitantes. Claude foi ter com ele e contou-lhe toda a história. O sacristão, que era homem inteligente, aconselhou-o a se munir de um instrumento cortante e que com ele procurasse ferir o lobisomem, porque assim quebraria o encanto.

Claude assim o fez. E no dia seguinte, quando o lobisomem veio pedir a ração, descarregou-lhe tal golpe com um cutelo que lhe cortou imediatamente a mão.

Simon fugiu para o mato dando grandes urros. Claude veio para casa muito triunfante, mostrando a mão do lobo à mulher, que chorou amargamente, tão logo a viu. Por outro lado, o desgraçado do lobisomem, deitado na cama e embrulhado em seus trapos, gemia com dores quando, no dia seguinte, ao amanhecer, viu entrar na cabana uma mulher desgrenhada: era Solanges, que, aproveitando-se da ausência do marido, vinha cuidar do amante.

Estava-lhe ministrando os auxílios necessários, quando ouviu baterem à porta. Era o seu marido que, pensando ter quebrado o encantamento ao lobisomem, vinha gozar da sua vitória.

Solanges, não tendo outro meio de escapar, escondeu-se dentro dos farrapos que serviam de cama a Simon.

– Bom dia, amigo! – disse Claude, ao entrar. – Estás doente? Deixa-me ver a tua mão, que te quero tomar o pulso.

Simon apresentou-lhe a mão esquerda, e, como o açougueiro instava para que lhe apresentasse ao mesmo tempo a outra, Solanges, que estava escondida entre os farrapos, lançou a não direita de fora. Claude assustou-se tremendamente com esta aparição, porque tinha consigo a mão do lobisomem. E foi tal o seu terror que foi daí para casa e morreu no dia seguinte.

Passado um ano, Solanges tinha casado com Simon, que havia dado a sua demissão de emprego de lobisomem[4].

Ilustração: Paulo Soriano



[1] Luciano de Samósata (c. 125 -  c. 181), escritor sírio de expressão grega.
[2] O autor talvez se refira a Plínio, o Velho (23 – 79), escritor e naturalista romano.
[3] Públio Virgílio Maro (70 a.C. – 19 a.C), célebre poeta romado, autor das Éclogas, das Geórgicas e da Eneida.
[4] A presente narrativa foi publicada, sem qualquer referência à autoria, como era de costume à época, no periódico carioca O Brasil, edição de 8 de outubro de 1840, p. 1-3. O texto, todavia, é uma versão condensada, em português, de uma narrativa do autor e bibliófilo francês Paul L. Jacobs, pseudônimo de Paul Lacroix (1806-1884), colaborador de Alexandre Dumas, que integra a obra Médianoches, publicada originariamente em Paris pela Librairie de Dumont, no ano de 1835 (p. 136-169). O mesmo livro foi publicado em Bruxelas, Bélgica, igualmente em 1835, por AD Wahlen, Imp. – Libr. de la Cour (p. 83-102). Não nos foi possível, contudo, aferir a autoria da versão em português. Fizemos algumas adaptações textuais.


Share:

O BEBÊ DE TARLATANA ROSA - Conto Clássico de Horror - João do Rio



O BEBÊ DE TARLATANA ROSA
João do Rio
(1881 – 1921)
  
— Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...

E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.

Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto.

— É uma aventura alegre? — indagou Maria.

— Conforme os temperamentos.

— Suja?

— Pavorosa ao menos.

— De dia?

— Não. Pela madrugada.

— Mas, homem de Deus, conta! — suplicava Anatólio. — Olha que está adoecendo a Maria.

Heitor puxou um largo trago à cigarreta.

— Não há quem não saia no carnaval disposto ao excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio, é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranoicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma...

— Nem com um — atalhou Anatólio.

— Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a porneia da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodite.

— Muito bonito! — ciciou Maria de Flor.

— Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champagne aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio.

— Nossa Senhora! — disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. — Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias dos pedaços mais esconsos da Rua de S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes...

— Que tem isso? Não vamos juntos?

Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era uma desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em frascos d’álcool, que têm as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel d’arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem feito, tão acertado, que foi preciso observar para verificá-lo falso. Não tive dúvida. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro: — ai que dói! — Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma frequentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube mais chic e mais secante da cidade.

— E o bebê?

— O bebê ficou. Mas no domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado do chauffeur, no burburinho colossal, senti um beliscão na perna e uma voz rouca dizer: “para pagar o de ontem”. Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão perfeito. Ainda tive tempo de indagar: onde vais hoje?

— A toda parte! — respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.

— Estava perseguindo-te! — comentou Maria de Flor.

— Talvez fosse um homem... — soprou desconfiado o amável Anatólio.

— Não interrompam o Heitor! — fez o barão, estendendo a mão.

Heitor acendeu outro gianaclis, ponta de ouro, sorriu, continuou:

— Não o vi mais nessa noite, e segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.

Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.

— A quem o dizes!... — suspirou Maria de Flor.

— Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!

— É quando se fica mais nervoso!

— Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda a gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfurnadas dos fogos de bengala, caíam em sombras — sombras cúmplices da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de confetti. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semissombra das horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer cousa de impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo do Rossio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o bebê de tarlatana rosa.

Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.

— Os bons amigos sempre se encontram — disse. O bebê sorriu sem dizer palavra. — Estás esperando alguém? — Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. — Vens comigo?

— Onde? — indagou a sua voz áspera e rouca.

— Onde quiseres! — Peguei-lhe nas mãos. Estavam húmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.

— Por pouco...

Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: — “Aqui não!”. Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a arritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado o jardim. Diante da entrada que fica fronteira à Rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua, escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a Rua Luís de Camões, ficamos bem embaixo das sombras espessas do Conservatório de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente ruça com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vício naquela austeridade da noite.

— Então, vamos? — indaguei.

— Para onde?

— Para a tua casa.

— Ah! não, em casa não podes...

— Então por aí.

— Entrar, sair, despir-me. Não sou disso!

— Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda.

— Que tem?

— Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara.

— Que máscara?

— O nariz.

— Ah! sim! — E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer cousa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio.

Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que fazia mal. — Tira o nariz! — Ela segredou: — Não! não! custa tanto a colocar! — Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.

O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal-estar curioso, um estado de inibição esquisito.

— Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada.

— Disfarça sim!

— Não! — Procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinadamente — uma caveira com carne...

Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos.

— Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? aproveito. Foste tu que quiseste...

Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar, apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da Luxúria... Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semitreva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo a mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixos batendo, ardendo em febre.

Quando parei à porta de casa para tirar a chave, é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa...

Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes, e resumiu:

— Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem do carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.

E foi sentar-se ao piano.



Share:

O FANTASMA DE VALPO - Narrativa Clássica de Terror - Narrativa Verídica - Anônimo do séc. XIX




O FANTASMA DE VOLPO

Anônimo do séc. XIX


Eis aqui, finalmente, a aparição de uma alma do outro mundo, revestida de tais circunstâncias  que, ao menos desta vez, não há remédio senão dizer que spiritus qui vadit, redit[1].

“Na vila de Valpo, Esclavônia — diz a gazeta de Presburgo, copiada pelo Freyschutz de Hamburgo — aconteceu algo notável, sobre o qual o reverendo bispo de Fünfkirchen está procedendo a rigoroso exame.

Havia tempos que o castelo de Valpo era infestado de aparições. Cinco vezes sucessivas, e com intervalos muito curtos, havia aparecido ao coronel Von Koeth uma e a mesma visão. O fantasma aparecia sempre à meia-noite em trajes de mulher, com um vestido à turca de cetim cor-de-rosa, e um longo véu que lhe descia aos pés. A sua exigência era que o dono do castelo mandasse desenterrar os seus ossos e que os fizesse depositar em solo sagrado. Com isto, designava o lugar em que o cadáver tinha sido enterrado, dizia onde havia sido assassinada a pessoa a quem o dito cadáver pertencia e, concluía dizendo que mais vezes se tinha apresentado a diferentes pessoas, mas que a nenhuma tinha podido dizer o que queria, porque todas elas fugiam.

Como o relato era tão circunstanciado, mandou o coronel Von Koeth cavar no local designado e achou-se, efetivamente, a dois pés de profundidade, um esqueleto feminino, ferido com seis balas no peito.

No dia 14 de dezembro passado, foi o esqueleto depositado na capela do castelo. Mas o fantasma voltou na noite do dia 19 pedindo que, depois de lhe terem sido feitas as exéquias de costume, o transportassem para o cemitério público e depositassem num túmulo que indicou.

Assim se cumpriu. O fantasma voltou mais uma vez para agradecer este notável serviço e nunca mais reapareceu. Este fato acha-se confirmado com atestados das autoridades territoriais”.

Tradução de autor desconhecido
Fonte: Jornal do Commercio (RJ), edição de 28 de setembro de 1841.



[1] Espírito que vai, retorna.

Share:

O GATO PRETO - Conto Clássico de Terror - Edgar Allan Poe


O GATO PRETO
Por Edgar Allan Pöe
(1809 - 1849)
Tradução:  S. de M. (Séc. XIX)
  
Não espero nem peço que acreditem na extraordinária e, contudo, vulgar história que lhe vou narrar.  Na realidade, seria um louco se tal esperasse, num caso em que os meus sentidos repelem o seu próprio testemunho.  E, todavia, eu não sou um doido —e não estou sonhando, com certeza.  Mas, como devo morrer amanhã, quero hoje aliviar a minha alma.


O meu fim imediato é apresentar ao mundo —claramente, sucintamente e sem comentários —uma série de simples acontecimentos domésticos.

Pelas suas consequências, esses acontecimentos terrificaram-me, torturaram-me, aniquilaram-me. Entretanto, não tentarei aclará-los. Considero-os horríveis, ainda que a muitas pessoas possam parecer menos terríveis do que estranhos.

É possível que mais tarde haja uma inteligência mais serena que reduza o meu fantasma à situação comezinha de simples lugar comum —uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável que a minha, que nada mais achará nos acontecimentos que um conto com terror, do que uma sucessão ordinária de causa e efeitos naturalíssimos.

Desde a infância que era notado o meu caráter naturalmente humilde e bondoso.  A sensibilidade do meu coração era até então notória, que fizera de mim o joguete de meus companheiros.

A minha maior tendência era uma amizade louca pelos animais, de que possuía uma grande variedade, com que a minha família me presenteara.

Passava quase todo tempo com eles e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Esta particularidade de meu caráter aumentou com o desenvolvimento físico, de forma que, depois de homem, o entreter-me com animais era um dos meus maiores prazeres.

Aos que sentiram uma grande afeição por um cão fiel e inteligente, não necessito explicar a natureza ou a intensidade do gosto proveniente de tal afeição.  Há na amizade desinteressada do animal, no sacrifício de si próprio, o quer que seja que toca diretamente no coração do que tem frequentemente ocasião de verificar a vil amizade e fidelidade mesquinha do “homem natural”.

Casei-me, e considerei-me verdadeiramente feliz por encontrar em minha mulher uma disposição de caráter semelhante à minha.

Visto que eu gostava imenso dos animais domésticos, minha esposa não perdia nunca a menor ocasião de acrescentar o número dos que possuíamos.  Tínhamos pássaros, um peixe dourado, um lindo cão, coelhos, um saguim e um gato.

Este último era um animal notoriamente forte e belo, completamente preto, duma inteligência maravilhosa.

Sempre que falava da inteligência do gato, minha mulher, que no fundo era um pouco supersticiosa, fazia frequentes alusões à velha crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas.  Isto não quer dizer que ela acreditasse na lenda: se menciono o fato é, simplesmente,  porque  me ocorreu, neste momento, à memória.


Plutão —assim se chamava o gato —era o meu preferido, o meu camarada.  Só eu lhe dava de comer, e seguia-me sempre por toda a casa. Era mesmo com dificuldade que conseguia de impedi-lo de me seguir pelas ruas.

A nossa amizade durou muitos anos, durante os quais o conjunto do meu caráter e do meu temperamento —por intervenção do demônio da intemperança, com vergonha o confesso —sofreu uma alteração, radicalmente má.

Tornei-me dia a dia indiferente pelos sentimentos dos outros.  Empregava uma linguagem brutal sempre que falava de minha mulher. Por fim, cheguei mesmo a agredi-la.

Os meus pobres amigos naturalmente ressentiram-se da mudança do meu caráter.  Não somente eu os desprezava, mas também os maltratava.

Continuava, contudo, a ter por Plutão uma consideração que me impedia de o maltratar, enquanto que não sentia o menor escrúpulo em bater nos coelhos, no saguim e mesmo no cão, quando o acaso ou a amizade que tinham por mim faziam com que os encontrasse em frente do pé.

Como me tornasse cada vez mais intratável —que vício há que possa comparar-se ao álcool? –, o próprio Plutão, que envelhecia, e que, por isso, me incomodava com as suas carícias —o próprio Plutão —começou a conhecer os efeitos do meu péssimo caráter.

Uma noite, ao entrar em casa muito embriagado, de volta de um botequim onde habitualmente passava as noites, pareceu-me que o gato fugia de mim.  Agarrei-o; mas ele, atemorizado pela minha violência, feriu-me levemente na mão com os dentes.

Repentinamente, apossou-se de mim um furor de demônio.  Desconheci-me. A minha alma pareceu abandonar subitamente o corpo, e minha perversidade hiperdiabólica, saturada de gim, penetrou todas as fibras do meu ser.

Tirei da algibeira do colete um canivete e abri-o; agarrei o gato pelo pescoço e friamente fiz-lhe saltar um dos olhos da órbita.

Coro, sinto ferver-me o sangue, estremeço ao escrever esta inclassificável atrocidade!

Quando a razão me voltou com o dia, depois de terem desaparecido os vapores do meu deboche noturno, tive um sentimento, um misto de horror e remorso, pelo crime que praticara; mas era um fraco e equívoco sentimento, de que a alma não se ressentiu. Voltei de novo aos excessos alcoólicos, afogando bem depressa no vinho a lembrança do meu crime.

Entretanto, a cura do gato progredia lentamente.  A órbita do olho perdido apresentava, é verdade, um aspecto repelente, mas o animal não indicava dever sofrer para o futuro.

Andava pela casa como costumava, mas logo que me ouvia os passos, fugia aterrorizado.

De meu antigo caráter restava ainda o suficiente para que me afligisse com a evidente antipatia dum animal que eu dantes tanto gostara.

Mas esse sentimento foi em depressa substituído pela irritação.  E então apareceu, para complemento da minha queda fatal e revogável, o espírito da PERVERSIDADE.

Deste espírito não tem a filosofia a menor noção.  Todavia, tão certo como existir a minha alma, creio que a perversidade é uma das primitivas impulsões do coração humano, uma das primeiras indivisíveis faculdades ou sentimentos que dirigem o caráter do homem.

Quem se não surpreendeu cem vezes cometendo uma ação tola ou vil, pela simples razão de saber que não devia cometê-la?

Não temos nós uma frequente inclinação, apesar da excelência de nosso senso, para viola o que se chama a Lei, simplesmente por compreendermos que é a Lei?

O espírito de perversidade —disse eu — causou a minha ruína final. Senti o desejo ardente, insondável, da alma se torturar a si própria, de violentar a própria natureza —de fazer o mal pelo amor ao mal –, que me levou a continuar e, finalmente, a consumar o suplício que infligira ao pobre animal inofensivo.

Uma manhã, com toda a presença de espírito, passei um nó corredio em volta do pescoço do gato e pendurei-o ao tronco  de uma árvore.  Pendurei-o com os olhos rasos de lágrima, com o mais amargo remorso no coração. Pendurei-o  porque sabia que me amara, e porque sentia que o pobre animal nunca me dera razão de zanga. Pendurei-o porque sabia que, procedendo assim, cometia um pecado,  um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, ao  ponto de a colocar —se uma tal coisa fosse possível —para além da misericórdia do Deus Misericordioso e Terribilíssimo.

Na noite que se seguiu ao dia que se seguiu aquele cruel ato, fui acordado em sobressalto pelo grito de:  “fogo, fogo!”.  Os cortinados do meu leito eram pasto das chamas.

Toda a casa ardia.

Foi com muita dificuldade que escapamos ao sinistro, minha mulher, um criado e eu.

A perda foi completa.

Toda a minha fortuna foi destruída pelo incêndio, o que me fez cair num desespero profundo.

Não pretendo estabelecer uma ligação entre a atrocidade e o desastre: sou superior a essa fraqueza.

Narro apenas o encadeamento de fatos, de que não desprezarei um anel.  No dia que se seguiu ao incêndio, visitei as ruínas da casa.

As paredes tinham caído, à exceção de uma, que era um fraco tabique interior, situado, pouco mais ou menos, ao centro da casa, e contra o qual se arrumava a cabeceira do meu leito.

Este tabique resistira, em grande parte, à ação do fogo, fato que atribuí a ter ele sido rebocado recentemente.

Em volta do tabique apinhava-se uma multidão enorme, que parecia examinar minuciosa e atentamente uma certa parte dele.
As palavras  “extraordinário!”,  “singular!” e outros termos de idêntica significação excitaram a minha curiosidade.

Aproximei-me e vi, semelhante a um baixo-relevo esculpido na superfície branca da parede a figura de um gigantesco gato.

A imagem reproduzira-se com uma exatidão verdadeiramente maravilhosa.  Em volta do pescoço do gato havia uma corda.

Imediatamente ao ver esta aparição —porque não poderia considerar o fato senão como uma aparição –, o meu espanto e o meu terror foram extremos.    Mas, por fim, a reflexão auxiliou-me.

O gato, lembro-me perfeitamente, fora dependurado num jardim adjacente à casa.  Aos gritos de alarme, o jardim devia  ter sido imediatamente invadido pela turba, e o animal fora decerto dependurado por alguém, e atirado para o meu quarto pela janela aberta.  E tinham procedido assim para me acordarem, sem dúvida.  O desmoronamento das paredes comprimira a vítima da minha crueldade no estuque com que pouco tempo antes o tabique fora rebocado; a cal do tabique combinado com o amoníaco do cadáver tinham operado a imagem tal qual eu a vi.

Conquanto satisfizesse assim rapidamente a minha razão, senão também à consciência, relativamente ao fato surpreendente que acabo de contar,  nem por isso esse fato deixou de fazer na minha imaginação uma impressão profunda.

Durante muitos meses não me abandonou o fantasma do gato; e durante esse período nasceu na minha alma um meio sentimento que parecia ser, mas não era, o remorso.

Cheguei a deplorar a perda do gato e a procurar nas imundas tabernas, que frequentava habitualmente, um outro animal da mesma  espécie, e parecido com o que eu matara, para o substituir.

Era uma noite. Estando sentado, meio bêbado já, numa taberna imundíssima, atraiu-me subitamente a atenção um objeto preto, estendido sobre uns enormes tonéis de gim e rum, que enchiam a taberna.

Havia já uns minutos que eu olhava para o túnel e surpreendia-me por não ter ainda dado pela presença do objeto colocado sobre ele.

Aproximei-me e toquei-lhe com a mão.

Era um gato preto —um grande gato —do tamanho de Plutão, pelo menos, parecido com este, exceto num ponto.  Plutão não tinha um só pelo branco em todo corpo, enquanto o que estava sobre o tonel tinha uma mancha alarga e branca, mas de uma forma indecisa, que lhe cobria todo o peito.

Logo que lhe toquei, o gato levantou-se rapidamente, rosnou com força, esfregou-se na minha mão parecendo gostar muito das minhas carícias.

Era na realidade o animal que eu até então procurara inutilmente.

Pedi ao dono da taberna que me vendesse o gato, mas o homem declarou não lhe pertencer o animal; não o conhecia, nunca o vira até então.

Continuei a acaricia-lo e quando me preparava para voltar para casa, o gato mostrou-se disposto a acompanhar-me.

Consenti e, enquanto caminhava, baixava-me para o acariciar.

Logo que chegamos, o gato como que se achou em sua casa, tornando-se imediatamente muito amigo de minha mulher.

De minha parte, senti logo nascer uma grande antipatia pelo gato.

Sucedia justamente o contrário do que esperava; mas a verdade —não sei como nem por que se  dava este fato —era que a sua evidente amizade por mim quase me incomodava e aborrecia.

Lentamente, estes sentimentos de incômodo e de aborrecimento aumentaram até ao ódio.

Evitava o animal, e uma certa sensação de vergonha e a lembrança do  meu primeiro ato  de crueldade impediam-me de o maltratar.

Durante algumas semanas me abstive de lhe bater ou de o tratar violentamente; mas gradualmente —insensivelmente —comecei a olhá-lo com indizível terror, e a fugir  de sua odiosa presença, como dum hálito empestado.

O que aumentou sem dúvida o meu ódio pelo animal foi a descoberta que fiz, na manhã seguinte à noite em que eu o levei para casa que, como Plutão, o gato não tinha um dos olhos.

Esta circunstância, de resto, apenas fez com que minha mulher gostasse mais dele, porque, como já disse, ela possuía em alto grau essa ternura de sentimento que fora o meu traço característico e a contínua origem de meus prazeres mais simples e mais puros.

Todavia, a afeição do gato por mim parecia aumentar na razão direta da aversão que por ele sentia.

Sentia com uma obstinação que dificilmente faria compreender ao leitor.

Sempre que me sentava, saltava-me para os joelhos, acariciando-me excessivamente.

Se me levantava para andar, o gato metia-se por entre as minhas pernas, e quase  me deitava ao chão, ou então, enterrando as unhas compridas afiladas no meu fato, subia-me pelo corpo até ao peito.

Nesse momento, ainda que desejasse imenso matá-lo com uma só pancada, impedia-me de o fazer em parte a recordação do  meu primeiro crime, mas principalmente —devo confessá-lo —o verdadeiro terror que o animal me inspirava.

Esse terror não era positivamente o terror dum mal físico, e eu, entretanto, não saberia defini-lo doutra forma.

Quase me envergonho de confessar —mesmo nesta cela de criminoso –, sim, quase me envergonho de confessar que o terror e o horror que me inspiravam o gato  eram aumentados por uma das mais completas quimeras que é possível conceber.

Minha mulher chamara mais duma vez a minha atenção para a natureza da mancha branca de que falei e constituía a única diferença visível entre este gato e o que eu matara.

O leitor lembra-se sem dúvida de eu lhe haver dito que a mancha, apesar de grande, era primitivamente indefinida na forma; mas lentamente, por graus —por graus imperceptíveis, e que a minha razão se esforçou duramente muito tempo por considerar imaginários –, tomara  por fim uma rigorosa nitidez de contornos.

A mancha representava a imagem dum objeto que eu tremo de indicar, e era isso o que me fazia aborrecer e odiar o animal, e que me teria levado a me livrar dele, se a tal me atrevesse. Era, disse, uma imagem odiosa —de um sinistro objeto –, a imagem da Forca!  Oh, lúgubre e terrível máquina!  Máquina de Horror e de Crime.  De agonia e Morte!

E dali em diante fiquei sendo tudo o que é possível imaginar-se de mais miserável na Humanidade.

Um vil quadrúpede —de que eu facilmente matara um igual — um vil quadrúpede causar em mim —em mim, homem feito à semelhança do Deus Todo Poderoso —um tão grande e tão intolerável infortúnio!

Durante o dia, o gato não me deixava um só momento; e de noite, a cada instante, quando saía dos meus sonhos de indizível angústia, era para sentir no rosto o tépido hálito do animal, e o imenso peso —encarnação dum Pesadelo que me era impossível sacudir –, oprimindo-me eternamente o coração.

Sob a pressão de semelhantes tormentos, o pouco de bondoso que restava em mim sucumbiu.

Tornaram-se frequentes os maus pensamentos: os mais sombrios e os mais terríveis de todos os pensamentos.

À habitual tristeza de meu gênio juntou-se o ódio por todas as coisas e por toda humanidade.

Entretanto, minha mulher, que nunca se queixava, era o alvo, a mais paciente vítima das frequentíssimas e indomáveis erupções de fúria que me acometiam cegamente.

Um dia, por qualquer necessidade doméstica, acompanhou-se à cava da pobre casa em que a nossa pobreza nos obrigara a viver.

O gato seguia-me pela escada, e, metendo-se por entre as minhas pernas, por formas que me ia fazendo cair, exasperou-me até a loucura.

Peguei no machado e, esquecendo-me, na raiva que de mim se apossou, do pueril temor que me contivera a mão até então, vibrei ao animal um golpe que seria mortal, se o tivesse atingido, o que não sucedeu por ter  minha mulher me segurado o braço.

Esta intervenção exasperou-me diabolicamente: desembaracei o braço da mão com que ela me segurava e enterrei-lhe o machado na cabeça.

Minha mulher caiu instantaneamente morta, sem soltar um só gemido.

Cometido este terrível crime, resolvi, imediatamente e resolutamente, esconder o corpo.

Compreendi que não podia fazê-lo desaparecer de casa, tanto de dia quanto de noite, sem correr o perigo de ser observado pelos vizinhos.

Acudiram-me ao espírito muitos projetos.

Tive por um momento a ideia de cortar o corpo em bocados que destruiria pelo fogo.

Depois resolvi abrir uma cova no solo do porão.

Em seguida, pensei em deitar o corpo no poço do quintal.  Depois lembrei-me de o meter num caixote como quaisquer gêneros, e chamar um homem que o levasse para fora de casa.

Por fim, recorri a um expediente que me pareceu o melhor de todos.

Resolvi emparedar o corpo na cave, como os frades da idade média emparedavam, segundo se diz, as suas vítimas.

A cave tinha uma excelente disposição para semelhante desígnio.

As paredes, mal construídas, tinham sido recentemente rebocadas, impedindo a umidade que a camada de cal endurecesse.

Além disso, uma das paredes tinha um ressalto, causado por uma chaminé, que fora edificada por forma idêntica à das paredes.

Não duvidei de que me fosse fácil arrancar os tijolos naquele sítio, introduzir ali o corpo e colocar de novo os ladrilhos cuidadosamente, de sorte que ninguém pudesse descobrir nada de suspeito.

E não me  enganei no cálculo.

Com uma alavanca arranquei os tijolos com precaução e, depois de arrumar o corpo à parede interior, sentei-o nesta posição, até que, sem grande custo, pus tudo no seu primitivo estado.

Arranjando com todas as precauções inimagináveis cal e areia, fiz uma pouca argamassa com que reboquei cuidadosamente a parte da parede que desmanchara.

Quando acabei, vi com satisfação que a parede não levantaria as menores suspeitas, visto não apresentar o mais ligeiro indício de ter sido construída de novo.

Transportei para fora de casa, com o maior cuidado, o entulho, e varri a cave.

Em seguida, comecei a procurar o animal que causara tão grande desgraça porque, por fim, eu resolvera firmemente matá-lo.

Se eu o encontrasse nesse momento, o seu destino era fatal. Mas parece que o ardiloso animal, atemorizado pela violência da minha recente cólera, evitava cuidadosamente  aparecer-me enquanto me durasse a fúria.

É impossível descrever ou de imaginar a profunda, a completa sensação de sossego que a ausência do animal produziu em todo o meu ser.

Nunca mais  o senti de noite, sendo, portanto, a primeira noite —depois que trouxera o gato para casa —que dormi, descansada e tranquilamente.  Sim, eu dormi, apesar de ter a doer-me na consciência o assassínio que cometera!

A segunda e terceira noite passaram sem que o gato aparecesse.

Uma vez ainda respirei como homem livre.  O mostro aterrorizado abandonara de todo a casa! Eu não o veria mais!  A criminalidade da horrorosa ação inquietava-me pouquíssimo.

Tinham aberto uma espécie de devassa, que dera resultado.  Fora mesmo ordenada uma busca, mas naturalmente nada tinham podido descobrir.

Considerei segura a minha felicidade futura.

No quarto dia depois do assassínio, entraram-me inesperadamente em casa uns policiais, que procederam a uma nova busca.

Contando, de certo, com a impenetrabilidade do esconderijo, não senti temor.

Os policiais fizeram com que eu os acompanhasse nas buscas.

Nem um só canto da casa deixou de ser explorado.

Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram à cave.

Nem um só músculo se me contraía.

O meu coração batia regularmente, como dum homem que dorme tranquilamente.

Terminado tudo isso, olhei em volta e disse comigo mesmo:

—Aqui, ao menos, não perdi o meu trabalho.

Entrei na cave, cruzei os braços, e comecei a passar dum lado para o outro com toda naturalidade.

Os policiais estavam completamente satisfeitos e preparavam-se para sair.

Senti no coração um tão forte júbilo que me foi impossível reprimi-lo.

Tinha a necessidade absoluta de pronunciar uma palavra, pelo menos que significasse um triunfo, e que robustecesse nos policiais a convicção que tinham da minha inocência.

—Meus senhores —disse eu por fim, quando os policiais subiam as escadas –, sinto-me feliz por lhes ter dissipado as suspeitas.  Desejo-lhes a todos uma excelente saúde, e em tudo nada mais que delicadeza.  Esta casa é bem edificada, não acham, meus senhores? (No desejo, que se apoderou de mim, de dizer qualquer coisa com ares impertinentes, nem sabia o que dizia.) Pode dizer-se sem medo de errar que esta casa é admiravelmente bem edificada. Estas paredes —vão-se embora, meus senhores? —estão solidamente construídas!

E ao pronunciar estas palavras, por uma frenética petulância, bati uma forte pancada com uma bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede por detrás da qual estava o cadáver da esposa do meu coração.

Ah, que ao menos Deus me proteja e me livre do Arquidemônio.

Apenas o eco da pancada se repercutiu no silêncio da cave, uma voz respondeu por detrás da parede!  Um gemido meio velado e entrecortado, como o vagido de uma criança, que imediatamente se transformou num grito prolongado, sonoro e contínuo, completamente anormal e anti-humano —um uivo –, um ganido, misto de medo e esperança, como se pode ouvir no inferno, som terrível como se saído da garganta dos condenados às torturas infernais e dos demônios exultados pelas condenações.

Dizer-lhes os pensamentos que me atravessaram o cérebro seria loucura.

Senti-me desfalecer, encostei-me à parede fronteira.

Durante um momento, os policiais conservaram-se imóveis sobre os degraus da escada, assombrados de horror.


Um instante depois, uma dúzia de braços robustos puxavam encarniçadamente pela parte da parede da chaminé que dias antes eu rebocara de novo.


A parede caiu, por fim completamente, por uma só vez.


O cadáver, já bastante putrefato, e coberto de sangue coalhado, apareceu direto aos olhos dos policiais.


Sobre a cabeça do corpo, com a cabeça aberta e um único olho chamejante, estava o hediondo animal que me fizera praticar o assassínio, e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco!


Eu emparedara o gato conjuntamente com o cadáver de minha mulher!



Publicado originalmente no Diário do Maranhão entre os dias 1ª e  5 de maio de 1890.

Share: