COLHEITA NEGRA - Conto de Terror - Marcelo Muniz



COLHEITA NEGRA
(Marcelo Muniz -  classificado no Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror)


De longe pareciam penduricalhos. Amuletos indígenas tipo apanhador de sonhos. O velho carvalho careca, atrás da capela de São Ito, no alto do vilarejo, exibia seus enfeites como uma árvore de natal em agosto. Dispostos de forma aleatória, sete corpos nus jaziam pendurados entre os galhos. Braços emparelhados ao corpo, as mãos livres. Banquetas de madeira tombadas ao chão e garrafas vazias de uísque caseiro de milho espalhadas por todo o gramado irregular. Em cada corpo, uma letra entalhada na região do tórax feita por algum objeto cortante. Sangue escorria das lacerações em alguns pontos, e em outros, coagulado. Um anum preto tomava conta.

Com ajuda dos mais capazes e menos escandalizados, padre Ignácio comandava o resgate. E o primeiro corpo foi retirado.

— Padre, é os... — tentou dizer um morador. Suas mãos sujas de sangue.

— Sim, eu sei — interrompeu o homem santo, não chegando a ser rude, mas sua entonação não era a mesma das missas de domingo. Havia nervosismo em sua frase. ...Sullivans: Bernardo, Benício, Belchior, Belmudes, Bento, Benjamin e Benedito. Todos eles. Completou a frase em pensamento.

Fazia sol e ventava frio. Levou certo tempo até que todos fossem retirados com calma e o mínimo de dignidade. Seria mais rápido cortar as cordas, mas ninguém iria sugerir. A faca que Bento usou para fazer o serviço foi encontrada ao chão, próxima a ele. Com as cordas em seus pescoços, ele marca seus irmãos primeiro, depois em si, e se mata por último.

Havia um abismo entre o real e o nebuloso. Mesmo que ninguém fosse com as fuças dos Sullivans, queria-se saber o que acontecera. Moradores coçavam as cabeças se perguntando. Mulheres em prantos horrorizadas viravam os rostos das crianças curiosas contra seus vestidos.

Os corpos deitados, lado a lado, inebriavam os pensamentos do padre. Ele imediatamente mandou que cobrissem as partes íntimas, e só então, abençoou cada um com o sinal da cruz. Assustado? Sim. Mas manteve sua posição altruísta. Dobrou um braço sobre a barriga, o outro apoiado, levava a mão ao rosto cobrindo a boca. Mergulhou sobre as letras. Juntava sílabas, balbuciava palavras.

ME-DO... I-DO-NE... NO-ME... DO-MI-NE...


Elisabete sempre fora vaidosa. Gostava de vestidos e pentear os cabelos. Casou-se com Belarmino Sullivan, o mais velho. Foi o mais perto que conseguiu chegar de Bento, sua paixão avassaladora, já que Ana fora mais rápida e se casara com ele primeiro. Mas com a morte do marido, há quatro anos, Elisabete finalmente se viu dependente de Bento. O que era perfeito. Quem falou que o passado estava morto?  

Na escala sucessória, Bento era o mais velho agora, e no primeiro ano após a morte de seu irmão, fez todo o processo de plantio e colheita por caridade. Sua cunhada nunca teve (e nunca quis ter) o menor jeito com aquilo. No ano seguinte, eles transavam pelas costas de Ana. No terceiro, transavam, e ela pagava a ele parte do dinheiro que ganhava com a venda do milho na cooperativa. Ano passado, ele exigiu a metade da grana, e às vezes transavam. Elisabete acumulou dívidas e quase nada dentro de casa. Viu-se em desespero: este ano não teria como pagá-lo. Entrou em parafuso só em imaginar a hipótese de perder Bento novamente. E isso, ela não iria permitir. Pensaria noutra forma de pagá-lo.

Lucyla pediu à mãe para acompanhá-la na vigília. Afinal, havia completado dezesseis anos, tinha peitinhos e se considerava uma mulher. Porém ela não permitiu. As duas discutiram feio, Lucy foi para o quarto e bateu a porta. Elisabete bufou. Espiou o relógio na parede e viu que faltavam quarenta e sete minutos. Pensou em ficar. Esperar e desfazer tudo quando Bento chegasse. Mas estava nas mãos dele. Era bom estar. Sacudiu os pensamentos e por fim saiu, encostando a porta. Quando se convida o mal, ele vem.

23h01. Noite sem estrelas.

Lucy acordou de um pulo e sem tempo para entender. Sob a penumbra que a janela veneziana lhe dava, viu sete homens ao redor de sua cama. Belmudes arriou as calças e deitou por cima dela.

Em véspera de colheita, as mulheres se reúnem com padre Ignácio na capela em vigília pelo milho. A fonte de renda do vilarejo. Pedem fartura na vindoura e agradecem a recebida. Essa é a parte delas. Deveria ser. O pior sobra pra eles. É o que dizem enquanto arrumam embornais, separam cestos e bebem até cair.

Lucy se debate e é contida. Grita, porém a mão pesada e rústica de Belchior tapa sua boca. Consegue escapar uma perna, mas atinge um chute débil em Bernardo. E novamente é imobilizada. Belmudes cede lugar a Benedito, mais forte e bem mais bêbado. Sua habilidade em conectar-se à vagina era tal qual a uma velhinha enfiando a linha no buraco da agulha. Lucy sentia dores com estocadas brutas. Nunca um homem havia lhe tocado. Nem um beijo. Bento observava.

Já faz algum tempo que Ana, Raquel, Beatriz, Clara, Telma, Regina e Marta não se importam mais com o milho. Desgastadas, rejeitadas, mergulhadas em pensamentos aflitivos, desejavam um filho mais do que qualquer outra coisa. E ali, corações em súplicas silenciosas voltam-se aos céus, misturando-se aos gritos que ecoam em suas cabeças: Você só faz filha mulher! Maldita a hora que me casei com você! O milho é só a merda de um milho.

Depois de Benício terminar sua participação vomitando em tudo e caindo sentado; de Bernardo ter sido tão rápido quanto um coelho e Benjamin arregado, o posto de manter a menina de boca fechada ficou a cargo de Bento. Na troca, Lucy morde a mão de Belchior e ambos gritam, ela bem mais alto. Belmudes corre, apanha um travesseiro e pressiona contra o rosto da garota. Ela começa a sufocar, convulsiona o corpo em desespero e para. Bento retira o travesseiro, olha para ela como aquilo de que o animal carniceiro se apodera para comer. Coça a barba grisalha, ainda por fazer. Ela tremia muito e guinchava baixinho. Entre as coxas, espasmos e manchas de sangue tingiam o lençol. Olhos vermelhos, arregalados e cheios d’água pediam o fim do pesadelo. Ele então puxou sua camisola e rasgou-a em duas partes. Contemplava os pequenos seios rijos. Correu um dedo partindo do pescoço até a vagina depois o enfiou na boca.

Na cabeça de Elisabete, Bento era o seu homem. Mas Lucy, sua filha. E isso a corroía por dentro. Só uma menina. Inocente. Nova. Bonita. Cheirosa. Enciumou-se. Foi o preço. A forma que achou de prender e não perdê-lo e talvez conseguir um ou duas fodas.

Bento cuspiu na palma da mão e lubrificou o membro. Deitou seu corpo pesado e fedorento sobre o da garota segurando suas bochechas apertado.

— Se abrir esse bico pra alguém, sobrinha, mato você e a louca da sua mãe — cochichou em seu ouvido. — Agora capricha porque cê vai me dá um filho homem — e penetrou-a.

Padre Ignácio lia uma passagem e prendia a atenção das fiéis. Assim que pisou na igreja, Elisabete cambaleou. Sentiu tudo escurecer e girar. As mãos frias e a cor de sua pele indo do saudável ao branco opaco em segundos. Um forte odor de alecrim queimado inundou a capela. Do púlpito, uma figura lúgubre vinha em sua direção. Usava um fedora aba larga, jabô e casaca preta até o tornozelo. No lugar dos pés, Elisabete viu cascos retinindo. Viu olhos flamejantes por detrás da armação ovalada incendiar sua alma. Algo serpenteou por dentro do seu braço esquerdo, atacou o coração e ela desabou como uma árvore serrada nos braços do padre, assustando a todos.

Lá fora o milharal farfalhava feito uma plateia que aplaudia. Belchior não quis arriscar e mandou virar a garota de bruços. Ela chorava copiosamente, urrava contra o colchão até que desmaiou.

Quando partiram, o quarto ficou um chiqueiro. Fedia a uísque barato, suor e vômito. Ainda desacordada, Lucy recebe a mesma visita sombria que Elisabete. Ele a observa. Ajeita a menina de barriga para cima, depois deita a cabeça colando um ouvido em seu ventre e espera. Sussurra alguma coisa e então dá três batidinhas suaves com o indicador e o médio como se chamasse alguém. Não demorou e a resposta veio. Inaudível, mas um coraçãozinho batia.



Após enterrar a mãe, Lucy nunca mais saiu de casa. Não via ninguém. Não falava com ninguém. Não abria a porta para ninguém. Suas tias diziam que a garota precisava de cuidados médicos, mas pouco importava. Apenas padre Ignácio tinha acesso a ela. Religiosamente, levava mantimentos, roupas limpas, produtos de higiene e é claro, a palavra santa.

Numa certa manhã, quando deixava a casa em direção à capela, foi surpreendido por Raquel, mulher de Benedito.

— O que é que tá acontecendo naquela na casa, padre? Vamos, me diga, quero saber!

Padre Ignácio se refez do susto e disse:

— Nada. Não há com o que se preocupar, Raquel. Volte para casa. Estou apenas cuidando da menina — respondeu, mantendo a voz linear.

— Padre, não minta! Preciso saber a verdade — insistiu, passando de falsa preocupada a sarcástica. — O que acha que diriam se soubessem sobre os doces e brinquedos que você mantém naquele quartinho onde mora, hã?

Ele estacou. Como ela sabia sobre aquilo?

Impotente sob o manto da ameaça, não lhe restou alternativa.

— Lucy está grávida — confessou.

Raquel vacila com a revelação. O padre conta tudo. Ou quase tudo o que apurou de Lucy sobre a noite maldita. Raquel fez que não acreditou. Saiu andando, entrou em casa, mas bateu a porta.

À tarde, ao crepúsculo, hora em que os irmãos estão no galpão de ferramentas, bebendo e falando alto, Ana e as outras se dirigem à casa de Elisabete. Por debaixo do casaco, Telma trazia consigo um pé de cabra pequeno. Encaixou o instrumento entre o batente e a porta na altura da fechadura, forçando até ceder e entrarem. Lucy estava na cama da mãe, deitada em posição fetal. Magra, porém, bem cuidada. O padre não havia mentido. A barriga protuberante indicava algo próximo do sexto mês. Época do ocorrido. Choro. Revolta. Desespero. E um ódio visceral brotou em Clara, que possuída, toma o pé de cabra das mãos de Telma e desfere um golpe no crânio de Lucy, depois de chamá-la de vadia!

— O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ SUA BURRA, IDIOTA! — berrou Beatriz, aterrorizada arrancando-lhe a ferramenta. — Vamos sair daqui!

— Ana, depressa. Temos que ir embora, agora! — implorou Raquel.

Ana permanece imóvel.

— Não posso.

Ela saca uma navalha do bolso.

— Eu preciso saber.

Ana ajeita a menina que sangrava pelo crânio afundado e improvisa uma cesariana. Faz um pequeno corte horizontal na região pélvica. Passa por camadas de tecido e músculos até atingir o útero. Olhares arregalados. A figura de preto assistiu a tudo refestelado numa poltrona.

Um menino!

Após a cirurgia, envolveram Lucy e seu filho numa manta e os enterram no milharal.

Na manhã seguinte, Ana desperta de um sono fragmentado com dores nos seios. No dia seguinte, apanha uma espiga crua e rói. No terceiro, náuseas, vômitos e alterações de humor. A barriga incha a cada dia e fortes dores nas costas. Ao nono dia, gritos e urros. Embasbacado, Bento banca a parteira. Ninguém queria chegar perto de tal aberração. Foi assim também com Beatriz, Raquel, Clara, Telma, Marta e Regina: um lindo menino! Morto.

O fenômeno se repetiu mais duas vezes seguidas. Nove dias, um bebê Sullivan nascia. De repente parou.


...DEMÔNIO!

O padre gelou.

Com discrição, procurou na aglomeração e percebeu que, estranhamente, não vira as esposas dos falecidos. Tentou não alardear. Saiu furtivamente e desceu apressado até a parte baixa do vilarejo. Os irmãos eram vizinhos. Ele ignorou a primeira casa, que era a de Lucy, e irrompeu na segunda. Seu coração pulsava forte. Foi até o quarto e deu de cara com Ana. Tinha a garganta cortada e muito sangue na cama. O retrato do horror o fez sufocar. Ele arranca o colarinho clerical buscando encher os pulmões de ar. Agarra o crucifixo preso a uma corrente em seu pescoço, abençoa-a e sai aturdido em direção à casa de Belchior, desejando fervorosamente que tudo não passasse de um sonho ruim. Só que não. A história foi a mesma até a casa de Benjamin. Todas mortas! Ainda ontem as viu sentadas, ouvindo o sermão.

Ele orou.

— Pai nosso, que está nos céus, santificado seja o teu nome...

Dobrou os joelhos, fechou os olhos.

— Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia nos dá hoje...

Ergueu as mãos para o alto.

— E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores...

Então ele se lembrou de algo que o fez ter vontade de rir. Adeus, Raquel.

E foi isso o que ele fez.


Marcelo Muniz é Gerente de Organização Escolar na Secretaria de Estado da Educação- SP, Gestor Financeiro pela FATEC Internacional-PR. Em 2015 participou das coletâneas literárias Círculo do Medo, Nanquim e Marcas Eternas, todas da Andross Editora. Foi finalista do prêmio STRIX com o conto Mensagens de Texto pela coletânea Marcas Eternas.


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A VELHA DO DIABO - Conto de Terror - Bruno Oliveira




A VELHA DO DIABO
(Bruno Oliveira, classificado no Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror)


Nunca acreditei nessas coisas do além. Pra mim, espírito, assombração eram coisas da imaginação, da mente criativa demais ou da debilitada de menos. Pra mim, quem me dizia acreditar e ver essas coisas, era doida, gente de pouca fé, falastrona. O imaterial, pra mim, sempre foi algo de cunho filosófico, ou seja, era papo-cabeça, assunto trivial e descompromissado no campo das ideias; uma especulação gratuita sem o rigor acadêmico de estudos probatórios e sérios. Era uma diversão apenas, nada mais ou menos do que isso. Eu achava ridículo, sinceramente, quem me dizia sentir medo dessas coisas. Até entendia o motivo disso, afinal, quem crê, medo tem. O medo é essencial, para nós, seres vivos. É ele que nos mantém alertas, espertos, ou não, diante do perigo, do desconhecido. Tenho medo, admito, como todo o mundo têm, porém, não tenho medo dessas coisas, ou melhor, eu não tinha... Deveras, após a minha última contenda, comecei a temer essas coisas, pois eu vi o próprio diabo no corpo constipado da tia-avó da minha mulher! Ex-mulher, melhor dizendo. Depois do ocorrido, a separação foi inevitável. Legalmente ainda somos cônjuges, porém considero a lei dos homens inútil diante do fato que me sucedeu. Sou sozinho, mais uma vez. Naquela época, eu também o era quando conheci a minha ex-mulher. Nos conhecemos por meio de amigos em comum. Logo que fomos apresentados, nossos olhos se fixaram. A atração foi mútua e, até começarmos a trocar mais do que sorrisos e piscadelas, um bocado de meses se passou. Isso foi bom. Antes de engrenarmos em algo mais sério, nos tornamos amigos sinceros. Nosso papo era agradável. Falávamos de tudo um pouco. Tínhamos divergências em alguns assuntos, mas isso não diminuía o respeito entre a gente, ao contrário, de minha parte, eu a admirava mais por causa disso. Acho que todo relacionamento, pra durar, pra ser feliz, tem que se basear no papo, naquilo que um tem pra complementar no outro que não tem. Diálogo é tudo. Por isso, agora, entendo um detalhe curioso. Nas conversas que travávamos, ela, a minha ex-mulher, sempre desconversava quando o assunto era a sua tia-avó. Elas moravam juntas e, sempre que eu a interpelava sobre isso, ela era vaga, não entrava em detalhes. Eu não insistia muito no assunto por não ver, na época, nada demais. Também nunca fiquei encucado com isso. Eu achava a atitude dela até normal, afinal, aborrecimentos: quem é são, evita-os. Contudo, hoje entendo tudo. Havia ali uma mazela, uma dor escondida com carinho no coração. A tia-avó dela era o cão! Só me dei conta quando, depois de nos enlaçarmos, fomos morar na casa dela, com a tia-avó dela. Antes, eu já tinha conhecido a velha e, nesses poucos encontros, não notei nada demais na senhora. Ela parecia “fora da caixinha”, isto é, quando conversávamos com ela, ela dizia umas coisas meio sem sentido, coisas que nada tinham a ver com o assunto da conversa. A tia-avó dela falava muito da condição física dela. Ela sempre reclamava que estava muito doente e que sentia muita falta dos tempos de antigamente... Tudo para ela era dor. Aliás, ela vivia se queixando de horríveis dores pelo corpo. A velha tinha dor de cabeça, nas costas, na bacia e nas pernas. Doença, dizia ter várias. Só me lembro da osteoporose e do enfisema. Desse último, lembro bem porque, mesmo se dizendo enferma, ela ainda teimava em fumar um maço de cigarros todo santo dia. No mais, era apenas uma senhora idosa com suas manias e necessidades naturais. Mas tudo mudou quando eu e minha ex-mulher fomos morar junto dela. A velha se tornou outra quando começamos a dividir o mesmo teto. Se antes tudo era tolerável, a velha fez tudo ficar insuportável. Ela era teimosa demais! Não ouvia nada do que a gente lhe dizia, só falava, falava e discutia, não existia, na casa, harmonia. Tudo que fazíamos era um problema grave para a velha. Se comprávamos mantimentos para a casa com o dinheiro dela, ela reclamava, achava que tudo era muito caro, criava caso e gritava na nossa cara “seus burros!”. Porém, se gastássemos o nosso dinheiro, ela não falava nada, ficava quieta, fingia um agradecimento sincero. Comprar remédios para ela também era por aí. Só queria os de certos laboratórios e dizia que os outros de outros não prestavam. Várias vezes voltávamos na farmácia para trocar os emplastos, as pílulas e as ampolas que ela usava diariamente. Eu e minha ex fazíamos tudo isso para contribuir com a vida na casa, afinal, a residência era dela, da velha, e, como éramos recém-casados, pousar ali era o melhor a ser feito financeiramente, até que a minha ex e eu conseguíssemos uma morada própria. A vida na casa com a velha era um inferno! Entretanto, minha ex e eu fomos levando, aguentando tudo juntos, pois não tínhamos para onde ir. A velha, durante o dia, era irritante, inconveniente e má, contudo, o pior mesmo era à noite. Na casa, só havia um quarto. Esse era dela, somente da velha. Eu e minha ex dormíamos num sofá-cama maltrapilho na sala, que era ao lado do quarto da velha. Essa ia dormir cedo e, quando ia, trancava-se sozinha. E lá, só consigo mesma, exercitava o desagradável hábito de falar sozinha em voz alta. Da sala, dava para ouvi-la reclamar do dia e da gente. Era muito incômodo ouvi-la assim no seu monólogo. Parecia até uma confissão com alguém invisível ou uma forma de desabafo consigo mesma. Minha ex já estava acostumada, mas eu não achava normal aquilo. Quando a velha enfim se rendia ao sono, o nosso sossego durava pouco: a velha falava também durante os roncos! E falava muito. Falava em nosso idioma e em um que nunca ouvira. Geralmente esse bate-papo noturno era sobre o seu passado. A velha falava uns nomes, uns lugares e umas situações que não condiziam com o tempo presente. Minha ex me explicou depois sobre esses fatos passados. No entanto, sobre o idioma estrangeiro desconhecido, desconversou. Disse-me que eram só uns sons indistinguíveis que a tia-avó dela, e a gente também, emitimos quando dormimos profundamente. Não me satisfiz com a sua resposta, mas a acatei. Todas as noites eram essa tortura sonora. Após alguns meses, acabei me acostumando com essas coisas. Quem ama, consente. Porém, teve uma noite em que acordei de sobressalto. Estava eu quase me entregando de vez ao sono, quando os barulhos noturnos se tornaram mais graves e estranhos... Parecia até que havia um homem no quarto da velha! E essa gemia e balbuciava aquele idioma estrangeiro. Levantei do sofá-cama num salto. Minha ex ainda dormitava. Abri a porta do quarto, imaginando algo tipo assalto, mas vi algo absurdamente pavoroso: vi uma criatura escura toda escamada, de caninos inferiores salientes e de cabelos desgrenhados sobre uma velha pálida e sorridente! Fique paralisado. De medo, óbvio, e de horror. Só de lembrar, tremo todo. Diante do coito grotesco, congelei. Logo em seguida, uma força, vinda de sei lá onde, me empurrou pra fora do quarto. A porta se fechou num estrondo. Caí no chão da sala e, ainda ali, vi, na penumbra, a minha ex-mulher sentada encurvada na beirada do sofá-cama, salivando abundantemente algo negro e viscoso pela boca escancarada de forma anormal... Não sei bem como, de onde tirei forças, mas fui me afastando da cena asquerosa e insana. Fui me arrastando de costas até uma janela próxima enquanto aquela coisa me encarava torta e pulei. Desembestei nu pela rua e nunca mais voltei a ver aquelas mulheres. Quem ouve a minha história, não me acredita e ainda me diz que sou de ladainha. Mas é real. O tinhoso é real. Eu conheci a mulher dele!


Paulistano de Itaquera, Bruno Oliveira é formado em Letras, com pós em História da Arte pela Universidade Cruzeiro do Sul – UNICSUL. Publica seus textos no blog ALCOVA CRANIANA há quase nove anos.

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A COISA NA PORTA - Conto de Terror - Jorge Vieira



A COISA NA PORTA

(Jorge Vieira, classificado no Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror)


         Poucas pessoas são realmente capazes de apreciar a beleza da ignorância. Invejo os que sorriem tranquilos e que, obviamente, não passaram pelo que passei ou viram as coisas terríveis que vi. Nas horas vazias, quando meu pensamento voa livre, sou transportado para aquela casa onde vivi os momentos de mais puro terror. Ainda estremeço ao lembrar daquele som rítmico e abafado de batidas na porta.

         Dezenove anos se passaram desde o incidente no número 85 da Rua Oak e ainda tenho visões horrendas daquele lugar maldito.
         O inverno de 1966 foi particularmente severo com a população da pacata Pine Heights, uma cidadezinha no norte de New Hampshire, onde havia morado minha vida inteira e onde nunca mais pisaria. Na primeira semana de dezembro a neve já começava a forrar meu quintal com uma fofa camada de brancura imaculada. O noticiário na rádio prometia vinte e dois graus abaixo de zero, o que significava que estava na hora de abastecer a despensa para não ser pego desprevenido quando as ruas e estradas já estivessem fechadas devido ao clima.

         As lojas do centro da cidade estavam apinhadas de pessoas que tiveram a mesma brilhante ideia que eu, e uma viagem que duraria não mais que uma hora já se arrastava pela terceira. Após ficar esperando uma pequena eternidade naquela imensa fila do caixa, estava finalmente saindo do supermercado, já com tudo empacotado.

         Aproveitei a viagem para colocar as correntes nos pneus da minha caminhonete, cuja lataria já apresentava todos os sinais de idade avançada. Um pedaço da tintura alaranjada já havia se desprendido da lateral dando espaço para a ferrugem que se espalhava como ervas daninhas.

         O vento uivou durante todo o trajeto da volta. Embora o branco que pintava o topo dos pinheiros ao longo da rodovia conferisse a eles uma aparência serena, algo pesava no ar frio de dezembro. Mais de uma vez os pelos de minha nuca se eriçaram como se reagissem a algo hediondo e hostil, uma presença que quase podia ser vista.

         Cheguei algumas horas antes de escurecer e vi os Thompsons, meus vizinhos do lado, carregando suas malas até o carro. Eric e Lilly formavam com seus dois filhos a típica família americana, daquelas que vemos em anúncios de jornal e ouvimos nas radionovelas. Quando me mudei para Pine Heights, alguns anos após a guerra, eles foram os primeiros a me darem as boas-vindas. Pouco tempo depois de minha chegada, vieram seus filhos. Primeiro Edgar e, três anos depois, a Hannah. Trocamos acenos breves enquanto Eric contava sobre a visita que faria a sua sogra na Florida.

         — Ela nos chamou para passar o Natal por lá — disse entusiasmado, enquanto eu descarregava minhas compras da caminhonete. Não parecia muito contente de estar indo, porém eu estava muito mais interessado no que eu estava fazendo do que em escutar mais uma ladainha de Eric.

         Depois de uma série de “uhums” e “entendos” me despedi e entrei. Uma torrente de vento polar se esgueirou pelas minhas costas, levantando todos os pelos dos meus braços e nuca no momento em que cruzei a porta de entrada. O meu estômago afundou num mergulho suicida enquanto uma injeção de adrenalina corria alucinada por minhas veias. Uma respiração inquieta e errática se materializou em algum ponto atrás de mim. Respirei fundo e tentei reunir o pouco de coragem que me sobrara. Virei de uma vez.

         Nada.

         A porta ainda aberta enquadrava a varanda dos Fergusson à frente, onde uma rena de madeira posava solene, parcialmente escondida embaixo de uma generosa camada de neve. Que merda é essa?

         Saí e olhei ao redor, mas não havia nada para ser visto ali. A respiração sumira. Voltei para dentro e guardei todas as coisas na despensa. Finalmente estava preparado para o inverno. O dia não tardou a escurecer, e logo minha mente tratou-se de esquecer daquele calafrio de mais cedo, ocupando-se com assuntos mais mundanos e corriqueiros.

         Os dias estavam progressivamente mais frios e a neve começara a se acumular mais rápido do que eu podia retirá-la. Algumas crianças brincavam a algumas casas de distância. Construíram um boneco de neve de aspecto brincalhão mas o abandonaram para dar vazão à energia numa divertida guerra de bolas de neve.

         O Natal chegara solitário como sempre havia sido. Eu parti para a guerra muito cedo sem deixar mulher ou filhos para trás, e estes também não vieram quando tudo terminou. Na rádio finalmente anunciaram o fechamento das estradas após uma longa sessão de temas natalinos. A previsão de reabertura era março. Filhos da mãe! Ainda bem que me estoquei até as tampas de comida e água. A tão prometida nevasca parecia cada vez mais próxima. Para quem vive em Pine Heights, invernos intensos não são surpresa, mas aquele ano trazia consigo algo diferente, algo vil.

         A tempestade veio durante a noite do dia vinte e nove de dezembro. Os ventos violentos ameaçavam dobrar as janelas e portas em suas dobradiças. Eu cochilava sob o fogo da lareira quando o uivo da ventania me acordou. A casa rangia e relinchava como se a qualquer momento fosse ser arrancada de sua fundação. A temperatura caíra uns dez graus e nem mesmo a lareira e as diversas camadas de cobertores conseguiam me proteger do frio penetrante. A contragosto levantei e fui até a cozinha. Acendi o fogão e coloquei uma boa quantidade de água para ferver. Chá e uma bolsa de água quente eram as únicas coisas das quais eu precisava naquele momento. O vapor que exalava da panela desenhava estranhas formas no ar gélido. Um baque surdo veio de algum ponto no outro cômodo. A janela da sala se abrira com uma lufada impetuosa. Corri e fechei-a. Os pelos do meu braço se levantaram num só arrepio. Novamente, aquela respiração invisível começou em algum ponto logo atrás de mim. Fiquei imóvel. A respiração continuou. Eu era o único naquela casa, tinha que ser! Forcei minhas pernas a funcionar e voltei a cozinha, terminei de encher a bolsa e despejei o chá já pronto numa xícara. Subi apressado em direção ao meu quarto. Estava já no penúltimo degrau, ao topo da escada, já mais tranquilo…

         TUM ... TUM ... TUM …

         Cada músculo do meu corpo se enrijecera. O coração tentava ruidosamente abrir um buraco contra as costelas, quase sobrepujando a cacofonia que se alastrava lá fora. O horror mantinha cada pelo do meu corpo em pé. Os sons vinham da porta de entrada. Mas nesta tempestade?! Quem se atreveria a aventurar por aí?! Os pensamentos corriam pela minha cabeça num frenesi insano. Os segundos se transformaram em uma eternidade enquanto eu encarava a escuridão à minha frente. Ouvi a tempestade contra as janelas e as árvores da rua e, durante muito tempo, foi só isso que ouvi.

         Foi apenas o vento, menti. Estou enlouquecendo, contemplei com horror a possibilidade. Aos vinte e um anos me alistara para servir o país na segunda grande guerra. Vi de perto os horrores dos campos de concentração e desde cedo tive que me acostumar com a morte e com a crueldade do ser humano. Muitos morreram ao meu lado, das piores e mais grotescas formas imagináveis. Ainda assim, sempre mantive minha cabeça no lugar. Nunca permiti que os horrores inenarráveis que vivi durante aqueles fatídicos anos influenciassem minha sanidade. Mas ali, parado no penúltimo degrau da escada com os olhos cravados nas trevas, parecia que a qualquer momento minha mente sucumbiria, escorregaria para fora de alcance e se renderia. Me agachei e sentei no último degrau, abraçando os joelhos e ouvindo atentamente em busca daquelas batidas.

         Não sei dizer quanto tempo havia passado, mas os primeiros raios da manhã já se esgueiravam para dentro da casa. Um lampejo de vergonha iluminou meu rosto. Havia passado a noite acuado pelo medo, medo de quê?

         A borrasca continuava lá fora mas diminuíra de intensidade. Subi ao quarto e deitei, mas não dormi. Levantei não muito depois, ainda moído de cansaço. O resto do dia foi uma sucessão de estranhezas. No rádio estática, interrompida apenas pela ocasional transmissão de Santa Claus is coming to town (traduzindo, Papai Noel está vindo para a cidade), que já se impregnara em minha cabeça. Depois de ouvi-la por uma quinta vez desliguei o aparelho num acesso de raiva. Mais de uma vez pude jurar ter escutado sons estranhos atrás de mim, como vozes cochichando algo nefasto, porém sempre que virava para confrontar os intrusos não havia ninguém lá exceto a sensação de vergonha por estar tão paranoico.

         O temporal enfim havia dado trégua. Passei a tarde toda desobstruindo as portas e janelas da neve que já se acumulava a um metro e meio de altura. O risco de confinamento e o medo do isolamento eram ótimos motivadores. A tarde já estava no fim, assim como meu trabalho. Terminara todas as janelas e já havia começado a limpar a porta da frente. Mas ... que diabos é isso? Conforme apartava a neve, estranhas marcas surgiam recobrindo boa extensão do batente. As batidas da noite anterior soaram em minha cabeça em resposta à nova descoberta. Nenhuma criatura viva conhecida pelo ser humano era capaz de produzir tais marcas. Um padrão frenético, demente, conferia àqueles arranhões uma natureza macabra. Algo hediondo esteve na minha porta ontem à noite e queria desesperadamente entrar.

         A noite chegou pesada. O rádio voltara a transmitir sua programação regular. Aparentemente o tempo instável retornaria no dia seguinte. Entre as notícias e as radionovelas, colocavam os maiores sucessos musicais do natal. Dormi em algum ponto da reprise de Baby it’s cold outside...

         Estava num corredor que se estendia para além do alcance da vista. Andava trôpego, errante. As paredes sustentadas em ângulos impossíveis se contorciam ao meu redor num furor demente. Uma voz rouca feito trovão me dizia coisas ininteligíveis, mas sabia que me chamava. Me atraía e me mantinha caminhando. Após uma eternidade cambaleando, o corredor começava a alargar. A voz cada vez mais alta em minha cabeça, resmungava palavras atrozes num idioma que eu não era capaz de compreender. Meus pés me levavam em direção a uma bocarra nojenta a qual não via, mas ouvia claramente. Murmúrios infestavam meus ouvidos. Agouros de morte e destruição que se esgueiravam por entre os rugidos demoníacos que emanavam da coisa.

         O rádio ligara abruptamente me arrancando daquele sonho perverso. “Ele vê quando está dormindo. Ele sabe quando está acordado …” Aquela maldita música outra vez. A camiseta estava pressionada contra a pele ensopada em um suor gelado. “É melhor tomar cuidado. É melhor não chorar … Papai Noel está vindo para a cidade …” O rádio continuava regurgitando versos da canção. O frio lancinante emanava ondas de dor a todas as minhas extremidades. Sentei-me no sofá ainda atordoado do pesadelo enquanto o relógio marcava pouco mais de três da madrugada.


         TUM … TUM … TUM …


         A música parara. Merda! Num pulo me pus de pé enquanto encarava as sombras difusas lançadas contra o hall de entrada. Nada se ouvia exceto o vento lá fora.


         TUM … TUM … TUM …


         Desta vez a luz se apagara, me lançando nas trevas mais profundas. Levei alguns longos segundos para me acostumar a ausência de iluminação. Meu coração batia tão forte que tenho certeza de que podia ser ouvido à distância. Aquilo podia sentir o medo exalando de cada um dos meus poros. Aquilo gostava disso. Com passos inseguros tracei meu caminho até o hall, parando de frente para a porta de entrada de onde vinham os baques surdos. Tremia da cabeça aos pés.

         Uma respiração arfante vinha do outro lado da porta de madeira maciça. Parecia vir de algo titânico. Não soava humano.


         TUM … TUM … TUM …


         A terceira leva de batidas estremeceu toda a estrutura da casa. “Ele vê quando está dormindo. Ele sabe quando está acordado …” o rádio voltara a resmungar ao fundo. A casa inteira tremia, instável. Os pratos na cozinha eram lançados contra o chão de dentro de seus armários cujas portas abriam e fechavam freneticamente a cada solavanco da casa. O som úmido das conservas se despedaçando junto com as prateleiras da despensa. Panelas se chocavam umas contra as outras, juntando-se à sinfonia infernal. As janelas explodiram, espalhando cacos de vidro para todos os lados e dando passagem às violentas rajadas de vento e neve. Um brilho funesto emanava das frestas da porta, intensificando-se cada vez mais ao ponto de me fazer levar as mãos ao rosto para evitar que fosse ofuscado. Uma voz blasfema trovejava comandos numa língua esquecida de algum lugar ancestral além daquela porta. Eu não entendia o que dizia, mas sentia. Queria que eu abrisse a porta, que eu o deixasse entrar.


         — QUEM É VOCÊ? — tentei me sobrepor ao caos que se alastrava na casa. — QUE DIABOS VOCÊ QUER?


         Os ventos cessaram. Tudo ficou em silêncio. A casa parecia uma zona de guerra. Os móveis e louças jaziam em pedaços pela casa, revirados e forrados por uma camada espessa de cacos de vidro e neve. A única coisa que permanecia era aquele brilho fantasmagórico que emanava das frestas e iluminava feito holofote, lançando sombras desfiguradas sobre as paredes. Com um rangido macabro a porta se abriu. Fiquei momentaneamente cego com toda aquela luz que saia de dentro do portal. Quando ela finalmente dissipou pude abrir os olhos. Acreditei por um segundo ter visto a pomposa rena de madeira dos Fergusson exibindo-se graciosamente na varanda da casa à frente. Minha mente demorou a entender o que acontecia diante dos meus olhos. O terror veio como um soco no estômago. Não havia rena, nem casa, nem rua e nem nada.

         Estrelas morriam em explosões silenciosas espalhando nuvens de poeira espacial para todos os cantos, enquanto outras se formavam numa dança ancestral. Planetas distantes e desconhecidos desenhavam órbitas concêntricas ao redor de enormes buracos negros. O cosmos descortinava adiante. Com terror percebi que boa parte do que via estava sendo aos poucos consumido por uma entidade disforme, uma massa negra de bocas, dentes e olhos que se formavam e desapareciam. Tentar entender o que eu via era desafiar a própria sanidade. Eu só viria notar que havia urinado mais tarde. E então, senti. A imensidão de olhos e bocas e dentes olhava para mim. Aquilo sentia que eu estava ali. Ele, ou isso, sabia! A voz de trovão ecoou nos confins do universo.

         — EU SOU O DEVORADOR DE MUNDOS! … SOU O CAOS PRIMORDIAL … ESTAVA NO COMEÇO DE TUDO E SEREI O FIM DE TUDO!

         Aquelas palavras vibraram em minha mente. Num movimento desajeitado venci o medo e a distância até a porta. Batendo-a num estrondo. Escorei-me contra a madeira e me deixei escorregar até estar sentado. A respiração ofegante se acalmava dando espaço à estranha sensação de alívio que percorrera minhas veias. Ali permaneci até o amanhecer, quando recolheria minhas coisas e sumiria. Na manhã seguinte o jornal local exibia sua manchete em letras garrafais:


1966 Termina com desaparecimento estranho
         Damien Royce, 48 anos, continua desaparecido desde a noite do 30 de dezembro. A polícia ainda investiga o caso. Não há sinais de entrada forçada mas a casa do ex-soldado havia sido revirada e seus pertences levados. Há possibilidade de fuga voluntária, embora os motivos ainda sejam um mistério.


         O clima lá fora já é de festa. Ainda é dia trinta mas as celebrações sempre começam cedo com os franceses. 1985 foi um ano até que bom, não tenho muito do que reclamar. Todos estão querendo dar as boas-vindas ao ‘86. Mas não consigo evitar esse calafrio que sempre me dá nessa época do ano. Não importa quanto tempo passe aquilo que vi sempre irá me acompanhar. Que estranho?! Achei que tivesse fechado as janelas.

         Dezenove anos não são suficientes para apagar tudo da memória. Que barulho é esse? …

         Alguém aí? — Deve ser apenas um rato. O universo tem suas próprias maneiras de … “É melhor tomar cuidado. É melhor não chorar … Papai Noel está vindo para a cidade ...”, a música vem do rádio na sala. A respiração errática vem de algum ponto atrás.

         — Que brincadeira é essa? Quem está aí?


         TUM … TUM … TUM …


Nascido em 3 de dezembro de 1994, Jorge Vieira foi criado por sua mãe que sempre fez de tudo para colocar a educação em primeiro lugar para seu filho. Aos 6 anos mudou-se para A Coruña, uma cidadezinha localizada na Galiza (Norte da Espanha). Lá ele começou a desenvolver seu ávido interesse pela leitura. Numa cidade estranha e ainda tão novo, descobriu nos livros os amigos que não fizera na escola. Aos 8 retornou ao Brasil, onde se destacou nas aulas de português e inglês. Conviveu durante um período com sua avó, de quem herdou o gosto pelo horror. Agora, aos 23, Jorge cursa Letras e é professor de idiomas em uma escola especializada, na zona leste de São Paulo. Mantém a escrita como paixão desde sempre, escrevendo diversos contos de horror ainda não publicados e em processo de terminar o manuscrito de seu primeiro romance.

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TERRITÓRIO DE SANGUE - Conto de Terror - Davidson Abreu



TERRITÓRIO DE SANGUE

(Davidson Abreu, classificado no Concurso Literário Bram Stoker de Contos de Terror)


Ao final da década de 1880, em um vilarejo próximo aos Montes Cárpatos, sua pequena população vivia em relativa tranquilidade.

O principado da Transilvânia havia sido abolido e o território anexado ao Império Austro-Húngaro. O descontentamento do povo levou intelectuais a se manifestarem com o que ficou conhecido como o “Pronunciamento de Blaj”, que apesar dos esforços, rendeu apenas perseguição aos seus apoiadores.

A distância dos grandes centros e a preocupação com a sobrevivência através do duro trabalho no campo deixavam grande parte dos camponeses alheios às disputas políticas.

A segunda Revolução Industrial multiplicava seus frutos pelo mundo ocidental, atingindo principalmente os maiores portos e grandes cidades da Alemanha, Inglaterra e França, além dos Estados Unidos da América, contudo, parecia não chegar à parte Oriental da Europa, exceto por alguns avanços na malha ferroviária e ainda poucos pontos de telégrafos.

Enquanto os maiores centros urbanos se preparavam para substituição da iluminação a gás pela elétrica, a realidade naquele povoado, assim como seus vizinhos apresentava-se diferente, mantinham seus costumes como na Idade Média.

Ao anoitecer, da janela de sua casa, Ghena Shelley, uma linda garotinha de cabelos negros e olhos amendoados, observava um belo rapaz chegar ao vilarejo. Galopava um cavalo negro, bem vestido e com elegância ao cavalgar. Não era nada estranha a chegada de um forasteiro. O vilarejo fazia parte do caminho de viajantes, alguns ficavam por um tempo ou retornavam após sua passagem.

Havia vaga na estalagem. O rapaz percebeu certo medo no olhar dos aldeões, não da sua pessoa, talvez os ares noturnos não fossem amistosos. Logo quando a noite atingiu sua plena escuridão, as janelas e portas foram trancadas. Apenas os incautos se arriscavam a caminhar pelas ruas ou pelo campo.

— Quanto tempo pretende ficar, rapaz? —disse Hermann, proprietário da estalagem.

—Não tenho data. Até quanto render o fruto de meu trabalho. Exerço meu ofício em cidades, aldeias e vilas das proximidades, por isso precisarei sair antes do sol raiar, e retorno já com a lua e as estrelas iluminando meu caminho.

— E eu posso saber qual é esse ofício e o seu nome? — perguntou com a mesma desconfiança que inquiria quem vinha de fora.

— Sou Miklos, servo do Império, e o imperador precisa de olhos em seu reino, a fim de ver o desenvolvimento de seus concidadãos. Como vivem e quais suas necessidades.

— Ou estar avisado de uma revolta? — perguntou arqueando uma das sobrancelhas.

— Não há motivo para isso, meu bom homem. O imperador é justo e quer apenas a prosperidade de seu reino.

O velho Hermann, como quase todos ali, apesar do distanciamento, mantinha no coração o desejo do retorno da autonomia do principado, contudo, não quis prolongar o assunto.

— Hunf! — bufou. — Tenho um quarto nos fundos, por enquanto é o que tenho.

— Não há problema. Sou modesto e excelente pagador, só peço uma coisa. Minhas viagens são extremamente cansativas, não quero ser incomodado sob nenhum pretexto.

— Não será.

 — Diga-me uma coisa. Ao chegar aqui, notei que em algumas casas havia réstias de alho penduradas na janela ou crucifixos pregados do lado de fora da porta, é algum costume local?

— Bobagem. Vai comer? — disse, encerrando o assunto com uma pergunta.

—Não, obrigado. Apenas uma taça de vinho.

Em povoados a chegada de alguém não deixava de ser notícia, e para as moças sempre uma oportunidade de, quem sabe, um romance que as levaria pra conhecer o mundo, até então restrito.

A pequena Ghena era ainda uma criança, não nutria interesse por homens e não os atraía, fato que mudaria nos próximos anos. No entanto, Cássia, com seus longos cabelos louros como ouro e olhos azuis como o céu de verão, sentiu-se atraída por aquele jovem, que correspondeu com um olhar sedutor, e logo encontraria razões para ouvir a voz da bela moça e flertar.

Alguns dias passaram e a presença do rapaz deixou de ser novidade. Os hábitos locais começaram a ser compreendidos por ele.

A linda Cássia parecia estar acometida de alguma enfermidade. Intensa e arredia, era comum vê-la pelo campo ou dançando em algum festejo, contudo, nos últimos dias, estava reclusa. Seus pais tentaram ocultar o que acontecia, porém deixou de ser possível após seu corpo padecer.

A notícia de sua morte alvoroçou os pacatos cidadãos, não pelo fato da bela jovem ter deixado a vida em tenra idade e, sim, por seu estado. Abatida, magreza aparente, pálida como uma alma perdida, e o que mais os deixou temerosos foram as marcas em seu pescoço. Após o velório, um grupo de aldeões foi ao cadáver a fim de realizar um antigo e horripilante ritual. O coração da recente finada foi varado por uma estaca de carvalho, sua cabeça decapitada e a boca recheada com alho.

Miklos ficou atento aos acontecimentos, e a noite resolveu permanecer na taverna e ouvir o relato dos acontecimentos por quem se recuperava com vinho e cerveja dos acontecimentos.

— Fazia tempo que isso não acontecia. Maldito assassino —disse um camponês.

- Há gerações aceitamos isso calados — respondeu seu amigo.

— Posso pagar uma rodada para os senhores? — perguntou Miklos.

Os homens entreolharam-se e acenaram com a cabeça. Miklos pediu à moça que servisse uma garrafa de vinho.

— Suspeitam de quem cometeu essa atrocidade?

— Não há suspeita, rapaz. Sabemos exatamente — disse Anton, o enquanto bebia o vinho oferecido pelo forasteiro.

— Anton, é melhor não... — disse Vermon, seu gordo amigo.

— Por quê? — interrompeu Anton. —Você não realiza serviços para o Império? — apontou a caneca para Miklos. — Então leve isso a quem deveria tomar providências.

— Sim, mas do que estão falando?

 — Da nobreza, que nunca fez nada por nós e leva nossas vidas. Daquele que vive no castelo do despenhadeiro, teme a noite e tudo o que é sagrado, e ao cair das trevas sai à caça de vida humana. Drácula! — disse Anton.

— Então é verdade...? - disse Miklos.

— Sim, mais real do que eu e você. Fazia tempo que ele não atacava. Na verdade, nossa covardia ignorava muitas de suas vítimas que eram geralmente viajantes descuidados, rameiras e outras párias. O vampiro também parecia buscar suas presas em lugares distantes —disse Anton.

— Realmente, se o que dizem for verdade, é algo que eu não previa — concluiu Miklos.

— Sim é verdade, e deveria temer em suas viagens. Leve alho no bolso e uma cruz no pescoço — disse Vermon.

Miklos agradeceu pela conversa e se retirou, imaginando como seria um encontro com o temido Drácula, ainda que tivesse dúvidas quanto a sua existência. Não longe dali, a infante Ghena estava assustada, não se lembrava de ter visto algo semelhante acontecendo, ou era muito criança na época da última morte, passando despercebido.

Alguns expressavam sua indignação, cobravam atitudes de seus regentes e da igreja; entretanto, isso já havia acontecido antes. Com o passar dos dias, mesmo que entristecidos, a indignação se afastaria de seus corações, o medo de retaliação falaria mais alto e retornariam aos seus afazeres.

Parecia que tudo voltara ao normal, até que outra moça teve os mesmos sintomas de Cássia. A revolta pareceu gritar mais alto, assim como o medo. Temiam que o Conde quisesse mais que sangue, talvez estivesse à escolha de uma nova amante para acompanhá-lo em suas orgias de sangue, isso era fato, visto a delicadeza da marca das presas no pescoço da vítima, quase cirúrgica, sem dilaceramento.

O álcool no sangue potenciava a coragem, estratégias de revolta e vingança eram planejadas, muitas das quais desapareceriam com a chegada da ressaca. Miklos ouvia tudo com atenção, para ele parecia ser importante observar as reações daqueles rústicos homens.

As noites pareciam mais longas, janelas e portas foram reforçadas, até os poucos descrentes seguiam os antigos ensinamentos. Sabiam em seu íntimo que, apesar dos esforços, seria difícil evitar o antigo Lorde, caso assim ele tivesse empenho em sua caçada. Esperavam ter saciado sua sede de sangue ou partido para outro vilarejo em busca de uma amante, ainda que, na pior das hipóteses, outra bela mulher do vilarejo fosse atraída para seus braços. Tudo era possível em tempos de terror. Apenas não aguardavam o que viria a acontecer.

Algo inusitado ocorreu em uma noite gélida. Gritos acordaram os moradores assustados. Em um poste, que ficava próximo à porta da igreja, estava pendurado o formoso forasteiro do qual a cidade vinha se acostumando. Havia um gancho que prendia a gola de seu casaco, preso ao poste, que sustentava seu corpo acima do chão.

Seus braços estavam erguidos, abraçando o poste por trás, sendo que os punhos estavam unidos devido a um cravo de carvalho, endurecido pelo fogo, que varava seus pulsos, prendendo um ao outro. Duas outras estacas foram cravadas em suas pernas, em um ponto exato entre seus músculos, impedindo que ele as movimentasse. As estacas causavam dor e o deixavam imobilizado.

Ao ver os moradores, tomados de uma tímida coragem, saindo de suas casas e chegando perto, ele tentava em vão sair dali. Suas feições estavam alteradas, não só pela dor, mas por alguma metamorfose. Seus dentes caninos estavam salientes e afiados. O casaco foi aberto na parte da frente, deixando o peito desnudo e mostrando que foi feito uma marca com algo cortante em seu peito. Essa marca era a letra “D” do alfabeto.

Não restavam dúvidas: Ele era o vampiro que mordeu as belas moças e Drácula as vingou, deixando que os camponeses terminassem o serviço.

A vingança não tinha nenhum apelo moral ou heroico, e aquele povo sabia disso em seu íntimo. A questão resumia-se em territorialidade. Drácula jamais deixaria outro vampiro se estabelecer em seus domínios. Em geral, não nutria simpatia por outros de sua espécie, tolerava apenas os que o serviam.

O rapaz tinha certo poder, contudo não se equiparava ao dragão, mesmo em sua condição de desânimo perante sua casta aristocrática decadente em seu próprio território.

Parecia que as ações do vampiro forasteiro tinham sido bem orquestradas. Hospedou-se onde não havia resmas de alho, ficava longe do crucifixo pendurado na parede da taberna, apresentava-se simpático e discreto.
Agia de maneira inteligente. Quando necessitava de sangue, sempre atacava algum solitário viajante que passava por ali. O seguia até longe da vila e tinha o cuidado de esconder o corpo, ou deixá-lo a mercê dos lobos.

Ao contrário do que pensam, um vampiro não precisa se alimentar todas as noites. É claro que o sangue lhe proporcionava um prazer embriagante, podendo até mesmo causar um frenesi como o de um tubarão ao dar a primeira dentada e sentir o sabor do precioso líquido vermelho. Alguns vampiros mais sensíveis reagiam como se fossem um dependente de ópio quando vislumbrava sangue escorrendo. Desta forma, o rapaz poderia enganar a todos por muito tempo; contudo, não conseguiu se ocultar de Drácula.

Seria apenas ousadia do vampiro húngaro se estabelecer por ali ou imaginou que o Conde não se importaria? Após transformar a moça em vampira, o que faria?

Perguntas que jamais seriam respondidas.

Os cidadãos deram fim ao serviço iniciado por Drácula, ignorando seus apelos e cravando uma estaca no coração do jovem vampiro. O velho Hermann finalizou o ritual separando sua cabeça do corpo com um certeiro golpe de machado.

Ghena assistiu a tudo da janela de sua casa. Seu pai foi um dos mais atuantes em eliminar a criatura. Ela tinha idade o suficiente para entender o que havia ocorrido. Porém, devido à sua ingenuidade, manteve uma impressão de que a atitude de Drácula estava envolta de um heroísmo vingador. Logo essa ilusão seria desfeita, após ficar ciente sobre outras ações nada nobres do vampiro.

Esses e outros acontecimentos a tornaram forte e fizeram crescer um ódio torrencial contra os sugadores de sangue. Ainda assim, não poderia imaginar que, logo após a virada do século, viria a enfrentar Drácula, junto ao ilustre professor Van Helsing e outros guerreiros.



Davidson Abreu é autor de diversas obras, destacando-se o romance “A Vingança de Drácula – A Ressurreição do Dragão, editado pela Madras. Mantém, na internet, as seguintes páginas: davidsonabreu.blogspot.com e combatetatico.blogspot.com.





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