RELATO DE UM TAXISTA DA MADRUGADA – ME LEVE PARA CASA! Conto de Nilvio Alexandre Fernandes Braga



RELATO DE UM TAXISTA DA MADRUGADA –

ME LEVE PARA CASA!

Nilvio Alexandre Fernandes Braga

 

Olá, depois de ouvir alguns relatos de colegas taxistas, tomei coragem e hoje contarei o meu a vocês.

Não tenho orgulho nenhum; na verdade, me envergonho muito, não pelo ocorrido, mas da forma que ocorreu. Por mais estranha que pareça, essa história realmente aconteceu e contarei a vocês, mesmo que seja desconfortável relatá-la...

Como já revelei acima, sou taxista, trabalho em uma grande cidade do Brasil. Esse fato foi há mais de uma década, mas mudou minha vida, em vários sentidos. Bem, vamos lá.

Já havia dormido dentro do carro mesmo, fazia pouco que tinha acordado de uma soneca restaurativa, e resolvi rodar. Saí dirigindo pela cidade, não a esmo, pois, como um bom taxista, sei os horários e as ruas certas para rodar e pegar alguns clientes. Era por volta das 4h da madrugada, uma bela noite de lua cheia, mas fria, muito fria, e mesmo com o ar quente do carro ligado dava para sentir o congelamento das juntas. Era daquelas noites em que o frio congelante vinha de baixo para cima, subindo lentamente dos pés à cabeça...

A rádio repetia frequentemente, entre uma música e outra, que estava 6 graus. Como se já não fosse suficiente sentir o frio, precisavam nos avisar para abalar o nosso estado psicológico.

Todavia, a gente se acostuma com o frio. Na verdade, nos acostumamos com qualquer coisa, principalmente na noite. Sempre dizemos que sobreviver na madrugada é para poucos, e está aí uma afirmação verdadeira. Somos seres adaptáveis e essa é a razão de termos evoluído. Bem, não estou aqui para falar sobre isso e sim contar a história ocorrida.

Continuemos, então.

Peguei uma passageira na porta de um hospital, uma senhora de idade avançada, que chorava, chorava copiosamente. Ela me fez sinal e parei. Desci, educadamente abri a porta e disse para ela que não tivesse pressa, mas ela, passando um lenço no rosto,  esboçou um sorriso. Entregou-me um papel onde constava o endereço de uma funerária.

Bem, já era experiente naquela época, não perguntei nada, apenas aguardei que ela entrasse no carro e segui o caminho indicado, pois já sabia qual era a história triste daquela senhora de rosto umedecido: ela perdera um ente querido, não tinha quem a ajudasse naquele momento e estava indo resolver a papelada do funeral.

Mantive meu silêncio e respeito. Era uma corrida curta, coisa de 5, 7 minutos aproximadamente.

Porém, na quadra onde deixaria a senhora chorosa, vi, na esquina, um vulto estranho, algo se esgueirando na calçada. Apertei bem o olhar e notei que era uma velha... Vocês sabem aquela descrição básica de bruxa velha? Cabelos longos, grossos,  branco-acinzentados e lisos, muito magra, quase que esquálida, parecia ter mais de 100 anos.

Antes que você me pergunte como notei tanto em alguém em uma passagem rápida, eu respondo: experiência, zelo, cuidado, e atenção plena. Como disse, a madrugada é para os fortes: é fácil de ser assaltado ou até mesmo ser morto, qualquer descuido pode ser fatal. Então, sempre — quando eu digo sempre, é sempre mesmo —, na quadra onde vou estacionar para largar um cliente, eu cuido de cada detalhe.

Aquela peculiar imagem ficou na minha mente até eu chegar ao meio da quadra, onde deixei a passageira. Era normal ver moças nas esquinas naquele horário, mas não senhoras de idade tão avançada assim, ainda mais naquele frio!

Parei na gente da funerária. Educadamente, agradeci o pagamento e  perguntei se ela queria que eu aguardasse. Foi a vez de ela agradecer: disse que não precisava, pois um filho, que logo chegaria da cidade vizinha,  iria pegá-la ali.  Então nos despedimos.

Não havia nem manobrado o carro para voltar ao ponto e o telefone tocou. Era da central, uma chamada para buscar um passageiro com urgência no Hospital Municipal, uma chamada prioritária; traduzindo:  pagariam uma bonificação para mim e para a empresa se fizéssemos o atendimento da forma contratada de urgência, sem atrasos! Ótimo — eu pensei —, afinal, madrugada, tempo bom e trânsito livre, o que poderia me impedir de chegar na hora marcada?

Dei a volta no quarteirão e passei na esquina onde antes estava aquela senhora de aparência estranha. Ela não estava mais lá, mas vi que ela caminhava lentamente, já no meio da outra quadra. Diminuí a marcha e passei lentamente por ela. Notei que ela se abaixava, se contraía. Era como se ela sentisse dor. Pensei em parar. Na verdade, parei o carro. Quando estava pensando em baixar a janela e perguntar se ela queria ajuda, a central falou no rádio: “carro 74, você tem 5 minutos para chegar ao ponto de embarque!”

Olhei para aquela velha, que agora me fitava com seus estranhos olhos grandes, esbranquecidos e vazios, e sua boca retorcida e cheia de dentes amarelados, parecia falar algo para mim, mas eu não escutei, mas acho que ela falava “casa”.

Jesus do céu, eu pensei, ela parecia um zumbi. Lembrei de um amigo que costumava falar: “essa morreu e esqueceram de avisar!”. Ela parecia ter uns 200 anos, o que fazia ali naquele frio? Só podia ser maluca, não tinha outra explicação. Ainda não havia decidido se ela “merecia” minha ajuda, quando o rádio bipou e lembrei da chamada prioritária, e eu não podia perder essa, pois fazia muita diferença no bônus de final de mês!

Aquela senhora feia estava quase abrindo a porta, quando engatei a marcha e rumei ao hospital onde me esperavam. Ainda consegui ver, ao olhar pelo retrovisor, a velha senhora encostada num poste bruxuleante; ela olhava para baixo, como se tivesse desistido de alguma coisa. Lembro ter pensado: “a vida dela parecia com aquela luz tremulante, logo em uma daquelas apagadas, não voltaria mais!”.

Lá no início disse que não me orgulhava nada do que havia feito. Bem, agora já sabem um pouco por que eu senti vergonha de mim mesmo. Fui mesquinho, mas eu era assim, egoísta; ou, talvez, tenha sido meu instinto de sobrevivência querendo me proteger...até hoje não sei.

Então, segui meu caminho até o hospital e logo já nem lembrava da velha feia. Cheguei ao ponto de embarque na hora ajustada, veio ao meu encontro um rapaz com cara de poucos amigos, me apresentei e ele apenas me pediu para que o levasse o mais rápido possível à funerária. Era na mesma a que eu acabara de ir levar a senhora chorona. Comentei o fato ao rapaz, que foi logo me dizendo que provavelmente foi a mãe dele que eu havia levado. Fiz a descrição dela e ele confirmou que era ela. Me contou que o pai dele havia morrido há poucas horas, naquele hospital onde os pegara, e que tinha pedido para a mãe o esperar ali, que era só o tempo de chegar, pois vinha de outra cidade, não tinha carro, pegara um táxi de lá para cá, mas a mãe dele sempre foi impulsiva e não esperava por ninguém, nem por ele, e fez um comentário sarcástico: “nem sei como ela deixou meu pai morrer na frente dela!” e deu uma triste risadinha. Mesmo que o comentário tenha sido sem graça, até que foi bom, pois, inicialmente, eu o achei com cara de brabo, nervoso, mas depois vi que era semblante de tristeza e preocupação.

Me explicou que fez o que pôde, pois precisava ajudar a mãe nesse momento tão triste. Eu apenas consenti, balançando a cabeça para baixo e para cima, pois sei que os passageiros falam e falam, mas pouco querem escutar, ainda não mais em um momento de dor como aquele. Além de quê, também nunca me importei com a dor dos outros...

Como havia falado, eu já não lembrava da velha feia, mas, ao entrar na rua da funerária, na hora me veio aquela imagem horrenda à cabeça.

Quando passei pelo poste em que a tinha visto da última vez, não a enxerguei ali; a luz que antes piscava agora estava apagada.

Será que aconteceu o mesmo com velha?  E sorri com meu próprio sarcasmo.

Porém, mesmo sem a luz da lâmpada, apenas com o luar, parecia haver uma impressão próxima daquele poste, algo como uma mancha escura no ar, como se fosse uma sombra, uma parte mais escura que o escuro, estranho, muito estranho...

Chegamos, me despedi do rapaz, dei meus pêsames e pedi para ele pegar leve com a mãe dele. Não sei por quê, mas resolvi falar que, se estava difícil para ele, imagina para ela, que era a esposa?! Ele olhou firmemente para mim, parecia que ia dizer: “não se meta!!”, mas não, vi que os olhos dele marejaram e ele forçou um sorriso e falou: “Obrigado pelo conselho, você tem toda a razão, e também vou te dar um, cara: te cuida por essas noites da vida, nunca se sabe quem anda nesse banco ai atrás!” e se foi para dentro do prédio. Achei estranho aquele comentário, mas, com certeza, era verdadeiro.

Manobrei, déjà vu, e sorri com o canto da boca, mas não o era; afinal, o telefone não tocou dessa vez e também não daria o azar de ver aquela velha horrível se arrastando pela rua, ou...

Quando passei pelo poste, um enorme susto: a lâmpada acendeu de repente, muito forte, firme e clara, e para surpresa maior ainda, aquela sombra escura, que eu tinha notado antes, era uma mulher, mas não a velha grotesca, e sim uma linda jovem, toda de preto, com longos cabelos negros amarrados, que deixavam ainda mais à mostra seu belo rosto branco, muito branco. Pensei: deve ser gótica, dark, sei lá o quê?, dessas que usam roupas pretas e não pegam sol!

Ela fez sinal; eu parei, claro! Ela veio sorrindo para o carro e eu também sorri: até que, enfim, uma visão agradável, depois de tantos passageiros chorosos e tristes, e, pior, aquela assombração que havia visto por ali!

Nada melhor que uma bela visão para esquecer uma feia, cheguei a rir com a mudança! Pois imaginava ver ali aquela senhora horrenda e não essa moça de aparência tão bela.

Ela entrou no banco de trás, acendi a luz interior do carro. Ela sorriu: dentes brancos, grandes e alinhados; sorri também e perguntei para onde ela queria ir, e ela me falou o endereço e seguimos.

Desliguei a luz interna, liguei o taxímetro e parti. Já disse era uma noite muito fria, mas naquela hora parecia que o aquecedor do carro não funcionava, além de do nada ter começado um cheiro estanho, um cheiro acre e pútrido. Imaginei que fosse algo no sistema de ventilação do carro que havia estragado, cheguei a comentar, mas ela apenas resmungou algo inteligível. Imaginei que ela estivesse dormindo, pois no interior do carro estava escuro e eu já nem enxergava mais a moça, até porque ela se sentou atrás de mim, escorou a cabeça na janela e soltou os longos cabelos negros que ficaram à frente de seu lindo rosto. Pensei: “ela deve estar dormindo”.

Liguei uma música baixinha e não falei mais nada. Segui a viagem com calma, pois já começava a baixar aquela cerração habitual da madrugada.

Parei o carro, bem na frente da casa indicada por ela no início da viagem. Achei estranho, parecia um grande mausoléu.

 

 

Me dei conta que conhecia aquela rua, aquele bairro. Tinha me mudado dali há muito; saí dali ainda criança, mas morei ali até uns 10, 11 anos.

Eu realmente conhecia bem aquelas ruas e aquelas velhas casas, então me lembrei de que ali havia uma velha casa vazia há anos, que, quando passávamos ali, meus pais me assustavam, dizendo que aquela era uma casa assombrada por uma velha senhora que havia morrido, que morava sozinha, quase nunca saía, não tinha ninguém e que, em uma noite fria de inverno, quando já estava caducando, saiu a caminhar pela cidade e se perdeu. De alguma forma, não soube mais voltar para casa e ninguém a ajudou. Ela não tinha a quem recorrer e ninguém que passou por aquela velha deu importância, até que ela aparentemente se deitou na rua e esperou a morte chegar.

Ela foi encontrada no centro da cidade, deitada, encolhida em uma sarjeta. A causa da morte foi apurada pela polícia e eles constaram que ela morreu de hipotermia. A minha mãe sempre acabava a história com o seguinte comentário:

“A pobre coitada morreu de frio e ninguém nessa cidade ajudou! Meu filho, ai de ti se tu, quando crescer, for mesquinho e egoísta como as pessoas dessa cidade foram com ela, se tu fizer um tipo de coisa ruim assim, tu vai se ver comigo!” Depois do comentário, minha mãe, com cara séria, fazia o movimento com a mão, como se puxasse minha orelha.

E pela aparência das janelas quebradas e dos muros e grades destruídos pelo tempo, ninguém mais tinha ido morar ali. Então, quando fui me virar para perguntar para a moça se ela tinha me dado o endereço correto...

O susto... essa parte é complicada de descrever... Eu quase infartei. Não era mais moça quem estava ali. Vocês já devem saber quem estava sentada no banco de trás de meu táxi, quando eu cheguei naquela casa, não?

Sim, era a velha asquerosa quem estava ali. Eu quase quebrei o painel do carro com minhas costas, ao bater ali com o pulo que dei para trás ao ver aquilo. O tempo parou, ela me olhava fixamente com aqueles olhos mortos, esbranquecidos, que pareciam ver dentro de mim. E o pior é que parecia que eu via o que ela via… Um vazio, um nada.

além daquele olhar, o sorriso, a boca —isso até hoje ainda está na minha mente —, aquele sorriso (se é que aquilo era um sorriso), os dentes podres, negros, alguns quebrados. Ao lembrar, eu chego a sentir  o cheiro de podre que vinha daquela boca!

Agora sabia por que desde antes estava sentindo aquele cheiro de coisa morta dentro do carro: vinha dela, não apenas de dentro dela, mas dela, todo o corpo estava apodrecido, era como se ela estivesse se decompondo na minha frente!

Não sei quanto tempo durou aquilo, eu não sei se gritei e, se gritei, não ouvi, pois na minha cabeça havia apenas a gargalhada dela: alta, estridente, como se estivesse engasgando na própria saliva!

Eu a vi descendo do carro, me fitava o tempo todo, seus olhos pareciam estar mirando os meus, mas agora o olhar dela não parecia mais me machucar e sim parecia querer me agradecer...

Como naquela vez que quase parei para ela entrar, ela, novamente, mexia a boca falando algo, mas dessa vez eu consegui ouvir, ela dizia “minha casa!”, e assim, passando pelo portão da velha casa, ela assumiu novamente o  vulto da moça que entrara no táxi pouco tempo antes, e, dessa forma,  sumiu na escura cerração.

Eu acordei caído no banco do carona. Não sei quanto tempo fiquei assim, naquela rua erma e fria. Meu pavor era tanto que apenas liguei o carro e saí o mais rápido que pude..

Acabou!

Acho que para ela sim, que finalmente foi levada para casa, mas para mim não acabou ali.

Os anos se passaram e eu mudei muito após esse fato. Pode parecer uma história de louco, eu mesmo me tratei com psicólogo e com psiquiatra por anos para entender o que realmente aconteceu, pois eu sei que aconteceu, , mesmo com os médicos afirmando o contrário.

Posso garantir a vocês, eu vi o rosto da morte e sei como ela é horrível, eu sei o cheiro que ela tem, e mesmo tendo a deixado a mulher morta naquela casa abandonada, ela não me abandonou nunca mais: aquele rosto permanece gravado, tatuado na minha mente.

Mas, mesmo assim, de toda a visão horripilante que tive ao olhar para ela, o mais horrível não foi a velha senhora se desmanchando, mas sim o vazio, o nada, o imenso vazio da morte que eu enxerguei através daqueles olhos mortos.

Eu vi o outro lado e eu nunca mais conseguirei esquecer, por mais que eu tente!

Amigos, somos todos passageiros nesta vida e, quem sabe, um dia serei eu a pedir essa última corrida, então sentarei no banco de trás de um táxi, serei o passageiro de uma viagem que me leve para casa. Só espero que o motorista deixe que eu entre no carro!

 

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ACAUÃ - Conto Clássico de Terror - Inglês de Sousa



ACAUÃ

Inglês de Sousa

(1853 -1918)

 

O capitão Jerônimo Ferreira, morador da antiga vila de São João Batista de Faro, voltava de uma caçada a que fora para distrair-se do profundo pesar causado pela morte da mulher, que o deixara subitamente só com uma filhinha de dois anos de idade.

Perdida a calma habitual de velho caçador, Jerônimo Ferreira transviou-se e só conseguiu chegar às vizinhanças da vila quando já era noite fechada.

Felizmente, a sua habitação era a primeira ao entrar na povoação pelo lado de cima, por onde vinha caminhando, e por isso não o impressionaram muito o silêncio e a solidão que a modo se tornavam mais profundos à medida que se aproximava da vila. Ele já estava habituado à melancolia de Faro, talvez o mais triste e abandonado dos povoados do vale do Amazonas, posto que se mire nas águas do Nhamundá, o mais belo curso d'água de toda a região. Faro é sempre deserta. A menos que não seja algum dia de festa, em que a gente das vizinhas fazendas venha ao povoado, quase não se encontra viva alma nas ruas. Mas se isso acontece à luz do sol, às horas de trabalho e de passeio, à noite a solidão aumenta. As ruas, quando não sai a lua, são de uma escuridão pavorosa. Desde as sete horas da tarde, só se ouve na povoação o pio agoureiro do murucututu ou o lúgubre uivar de algum cão vagabundo, apostando queixumes com as águas múrmuras do rio.

Fecham-se todas as portas. Recolhem-se todos, com um terror vago e incerto que procuram esconjurar, invocando:

— Jesus, Maria, José!

Vinha, pois, caminhando o capitão Jerônimo a solitária estrada, pensando no bom agasalho da sua fresca rede de algodão trançado e lastimando-se de não chegar a tempo de encontrar o sorriso encantador da filha, que já estaria dormindo. Da caçada nada trazia, fora um dia infeliz, nada pudera encontrar, nem ave nem bicho, e ainda em cima perdera-se e chegava tarde, faminto e cansado. Também, quem lhe mandara sair à caça em sexta-feira? Sim era uma sexta-feira, e, quando depois de uma noite de insônia se resolvera a tomar a espingarda e a partir para a caça, não se lembrara que estava num dia por todos conhecido como aziago, e especialmente temido em Faro, sobre que pesa o fado de terríveis malefícios.

Com esses pensamentos, o capitão começou a achar o caminho muito comprido, por lhe parecer que já havia muito passara o marco da jurisdição da vila. Levantou os olhos para o céu a ver se se orientava pelas estrelas sobre o tempo decorrido. Mas não viu estrelas. Tendo andado muito tempo por baixo de um arvoredo, não notara que o tempo se transtornava e achou-se de repente numa dessas terríveis noites do Amazonas, em que o céu parece ameaçar a terra com todo o furor da sua cólera divina.

Súbito, o clarão vivo de um relâmpago, rasgando o céu, mostrou ao caçador que se achava a pequena distância da vila, cujas casas, caiadas de branco, lhe apareceram numa visão efêmera. Mas pareceu-lhe que errara de novo o caminho, pois não vira a sua casinha abençoada, que devia ser a primeira a avistar. Com poucos passos mais, achou-se numa rua, mas não era a sua. Parou e pôs o ouvido à escuta, abrindo também os olhos para não perder a orientação de um novo relâmpago.

Nenhuma voz humana se fazia ouvir em toda a vila; nenhuma luz se via; nada que indicasse a existência de um ser vivente em toda a redondeza. Faro parecia morta.

Trovões furibundos começaram a atroar os ares. Relâmpagos amiudavam-se, inundando de luz rápida e viva as matas e os grupos de habitações, que logo depois ficavam mais sombrios.

Raios caíram com fragor enorme, prostrando cedros grandes, velhos de cem anos. O capitão Jerônimo não podia mais dar um passo, nem já sabia onde estava. Mas tudo isso não era nada. Do fundo do rio, das profundezas da lagoa formada pelo Nhamundá, levantava-se um ruído que foi crescendo, crescendo e se tomou um clamor horrível, insano, uma voz sem nome que dominava todos os ruídos da tempestade. Era um clamor só comparável ao brado imenso que hão de soltar os condenados no dia do Juízo Final.

Os cabelos do capitão Ferreira puseram-se de pé e duros como estacas.

Ele bem sabia o que aquilo era. Aquela voz era a voz da cobra grande, da colossal sucuriju[1] que reside no fundo dos rios e dos lagos. Eram os lamentos do monstro em laborioso parto.

O capitão levou a mão à testa para benzer-se, mas os dedos trêmulos de medo não conseguiram fazer o sinal da cruz. Invocando o santo do seu nome, Jerônimo Ferreira deitou a correr na direção em que supunha dever estar a sua desejada casa. Mas a voz, a terrível voz aumentava de volume. Cresceu mais, cresceu tanto afinal, que os amidos do capitão zumbiram, tremeram-lhe as pernas e caiu no limiar de uma porta.

Com a queda, espantou um grande pássaro escuro que ali parecia pousado, e que voou cantando:

—Acauã, acauã[2]!

Muito tempo esteve o capitão caído sem sentidos. Quando tornou a si, a noite estava ainda escura, mas a tempestade cessara. Um silêncio tumular reinava; Jerônimo, procurando orientar-se, olhou para a lagoa e viu que a superfície das águas tinha um brilho estranho como se a tivessem untado de fósforo. Deixou errar o olhar sobre a toalha do rio, e um objeto estranho, afetando a forma de uma canoa, chamou-lhe a atenção. O objeto vinha impelido por uma força desconhecida em direção à praia para o lado em que se achava Jerônimo. Este, tomado de uma curiosidade invencível, adiantou-se, meteu os pés na água e puxou para si o estranho objeto. Era com efeito uma pequena canoa, e no fundo dela estava uma criança que parecia dormir. O capitão tomou-a nos braços. Nesse momento, rompeu o sol por entre os animais de uma ilha vizinha, cantaram os galos da vila, ladraram os cães, correu rápido o rio perdendo o brilho desusado. Abriram-se algumas portas. À luz da manhã, o capitão Jerônimo Ferreira reconheceu que caíra desmaiado justamente no limiar da sua casa.

No dia seguinte, toda a vila de Faro dizia que o capitão adotara uma linda criança, achada à beira do rio, e que se dispunha a criá-la, como própria, conjuntamente com a sua legítima Aninha.

Tratada efetivamente como filha da casa, cresceu a estranha criança, que foi batizada com o nome de Vitória.

Educada da mesma forma que Aninha, participava da mesa, dos carinhos e afagos do capitão, esquecido do modo por que a recebera.

Eram ambas moças bonitas aos 14 anos, mas tinham tipo diferente.

Ana fora uma criança robusta e sã, era agora franzina e pálida. Os anelados cabelos castanhos caíam-lhe sobre as alvas e magras espáduas. Os olhos tinham uma languidez doentia. A boca andava sempre contraída, numa constante vontade de chorar. Raras rugas divisavam-se-lhe nos cantos da boca e na fronte baixa, algum tanto cavada. Sem que nunca a tivessem visto verter uma lágrima, Aninha tinha um ar tristonho, que a todos impressionava, e se ia tomando cada dia mais visível.

Na vila dizia toda a gente:

— Como está magra e abatida a Aninha Ferreira, que prometia ser robusta e alegre.

Vitória era alta e magra, de compleição forte, com músculos de aço. A tez era morena, quase escura, as sobrancelhas negras e arqueadas; o queixo fino e pontudo, as narinas dilatadas, os olhos negros, rasgados, de um brilho estranho. Apesar da incontestável formosura, tinha alguma coisa de masculino nas feições e nos modos. A boca, ornada de magníficos dentes, tinha um sorriso de gelo. Fitava com arrogância os homens até obrigá-los a baixar os olhos.

As duas companheiras afetavam a maior intimidade e ternura recíproca, mas o observador atento notaria que Aninha evitava a companhia da outra ao passo que esta a não deixava. A filha do Jerônimo era meiga para com a companheira, mas havia nessa meiguice um certo acanhamento, uma espécie de sofrimento, uma repulsão, alguma coisa como um terror vago, quando a outra cravava-lhe nos olhos dúbios e amortecidos os seus grandes olhos negros.

Nas relações de todos os dias, a voz da filha da casa era mal segura e trêmula; a de Vitória, áspera e dura. Aninha, ao pé de Vitória, parecia uma escrava junto da senhora.

Tudo, porém, correu sem novidade, até ao dia em que completaram 15 anos, pois se dizia que eram da mesma idade. Desse dia em diante, Jerônimo Ferreira começou a notar que a sua filha adotiva ausentava-se da casa frequentemente, em horas impróprias e suspeitas, sem nunca querer dizer por onde andava. Ao mesmo tempo que isso sucedia, Aninha ficava mais fraca e abatida. Não falava, não sorria, dois círculos arroxeados salientavam-lhe a morbidez dos grandes olhos pardos. Uma espécie de cansaço geral dos órgãos parecia que lhe ia tirando pouco a pouco a energia da vida.

Quando o pai chegava-se a ela e lhe perguntava carinhosamente:

— Que tens, Aninha?

A menina, olhando assustada para os cantos, respondia em voz cortada de soluços:

— Nada, papai.

A outra, quando Jerônimo a repreendia pelas inexplicáveis ausências, dizia com altivez e pronunciado desdém:

— E que tem vosmecê com isso?

Em julho desse mesmo ano, o filho de um fazendeiro do Salé, que viera passar o Saõ João em Faro, enamorou-se da filha de Jerônimo e pediu-a em casamento. O rapaz era bem-apessoado, tinha alguma coisa de seu e gozava de reputação de sério. Pai e filha anuíram gostosamente ao pedido e trataram dos preparativos do noivado. Um vago sorriso iluminava as feições delicadas de Aninha. Mas um dia em que o capitão Jerônimo fumava tranquilamente o seu cigarro de tauari à porta da rua, olhando para as águas serenas do Nhamundá, a Aninha veio se aproximando dele a passos trôpegos, hesitante e trêmula, e, como se cedesse a uma ordem irresistível, disse, balbuciando, que não queria mais casar.

— Por quê? — foi a palavra que veio naturalmente aos lábios do pai, tomado de surpresa.

Por nada, porque não queria. E, juntando as mãos, a pobre menina pediu com tal expressão de sentimento, que o pai enleado, confuso, dolorosamente agitado por um pressentimento negro, aquiesceu, vivamente contrariado.

— Pois não falemos mais nisso.

Em Faro, não se falou em outra coisa durante muito tempo, senão na inconstância da Aninha Ferreira. Somente Vitória nada dizia. O fazendeiro do Salé voltou para as suas terras, prometendo vingar-se da desfeita que lhe haviam feito.

E a desconhecida moléstia da Aninha se agravava a ponto de impressionar seriamente o capitão Jerônimo e toda a gente da vila.

“Aquilo é paixão recalcada”, diziam alguns. Mas a opinião mais aceita era que a filha do Ferreira estava enfeitiçada.

No ano seguinte, o coletor apresentou-se pretendente à filha do abastado Jerônimo Ferreira.

— Olhe, seu Ribeirinho — disse-lhe o capitão —, é se ela muito bem quiser, porque não a quero obrigar. Mas eu já lhe dou uma resposta nesta meia hora.

Foi ter com a filha e achou-a nas melhores disposições para o casamento. Mandou chamar o coletor, que se retirara discretamente, e disse-lhe muito contente:

— Toque lá, seu Ribeirinho, é negócio arranjado.

Mas, daí alguns dias, Aninha foi dizer ao pai que não queria casar com o Ribeirinho.

O pai deu um pulo da rede em que se deitara havia minutos para dormir a sesta.

— Temos tolice?

E, como a moça dissesse que nada era, nada tinha, mas não queria casar, terminou em voz de quem manda:

— Pois agora há de casar, que o quero eu.

Aninha foi para o seu quarto e lá ficou encerrada até ao dia do casamento, sem que nem pedidos nem ameaças a obrigassem a sair.

Entretanto, a agitação de Vitória era extrema.

Entrava a todo o momento no quarto da companheira e saía logo depois com as feições contraídas pela ira.

Ausentava-se da casa durante muitas horas, metia-se pelos matos, dando gargalhadas que assustavam os passarinhos. Já não dirigia a palavra a seu protetor nem a pessoa alguma da casa.

Chegou, porém, o dia da celebração do casamento. Os noivos, acompanhados pelo capitão, pelos padrinhos e por quase toda a população da vila, dirigiram-se para a matriz. Notava-se com espanto a ausência da irmã adotiva da noiva. Desaparecera, e, por maiores que fossem os esforços tentados para a encontrar, não lhe puderam descobrir o paradeiro. Toda a gente indagava, surpresa:

— Onde estará Vitória?

— Como não vem assistir ao casamento da Aninha?

O capitão franzia o sobrolho, mas a filha parecia aliviada e contente. Afinal como ia ficando tarde, o cortejo penetrou na matriz, e deu-se começo a cerimônia.

Mas eis que na ocasião em que o vigário lhe perguntava se casava por seu gosto, a noiva põe-se a tremer como varas verdes, com o olhar fixo na porta lateral da sacristia.

O pai, ansioso, acompanhou a direção daquele olhar e ficou com o coração do tamanho de um grão de milho.

De pé, à porta da sacristia, hirta como uma defunta, com uma cabeleira feita de cobras, com as narinas dilatadas e a tez verde-negra, Vitória, a sua filha adotiva, fixava em Aninha um olhar horrível, olhar de demônio, olhar frio que parecia querer pregá-la imóvel no chão. A boca entreaberta mostrava a língua fina, bipartida como língua de serpente. Um leve fumo azulado saía-lhe da boca, e ia subindo até ao teto da igreja. Era um espetáculo sem nome!

Aninha soltou um grito de agonia e caiu com estrondo sobre os degraus do altar. Uma confusão fez-se entre os assistentes. Todos queriam acudir-lhe, mas não sabiam o que fazer. Só o capitão Jerônimo, em cuja memória aparecia de súbito a lembrança da noite em que encontrara a estranha criança, não podia despegar os olhos da pessoa de Vitória, até que esta, dando um horrível brado, desapareceu, sem se saber como.

Voltou-se então para a filha e uma comoção profunda abalou-lhe o coração. A pobre noiva, toda vestida de branco, deitada sobre os degraus do altar-mor, estava hirta e pálida. Dois grandes fios de lágrimas, como contas de um colar desfeito, corriam-lhe pela face. E ela nunca chorara, nunca desde que nascera se lhe vira uma lágrima nos olhos!

— Lágrimas! — exclamou o capitão, ajoelhando ao pé da filha.

— Lágrimas!  — clamou a multidão tomada de espanto.

Então convulsões terríveis se apoderaram do corpo de Aninha. Retorcia-se como se fora de borracha. O seio agitava-se dolorosamente. Os dentes rangiam em fúria. Arrancava com as mãos o lindo cabelo. Os pés batiam no soalho. Os olhos reviravam-se nas órbitas, escondendo a pupila. Toda ela se maltratava, rolando como uma frenética, uivando dolorosamente.

Todos os que assistiam a esta cena estavam comovidos. O pai, debruçado sobre o corpo da filha, chorava como uma criança.

De repente, a moça pareceu sossegar um pouco, mas não foi senão o princípio de uma nova crise.

Inteiriçou-se. Ficou imóvel. Encolheu depois os braços, dobrou-os a modo de asas de pássaro, bateu-o por vezes nas ilhargas, e, entreabrindo a boca, deixou sair um longo grito que nada tinha de humano, um grito que ecoou lugubremente pela igreja:

— Acauã!

— Jesus! — bradaram todos caindo de joelhos.

E a moça, cerrando os olhos como em êxtase, com o corpo imóvel, à exceção dos braços, continuou aquele canto lúgubre:

— Acauã! Acauã!

Por cima do telhado, uma voz respondeu à de Aninha:

— Acauã! Acauã!

Um silêncio tumular reinou entre os assistentes. Todos compreendiam a horrível desgraça. Era o Acauã!

 



[1] Sucuri, serpente constritora.

[2] O acauã, na mitologia amazônica, é uma ave de mau agouro e o seu canto anuncia adversidades. É uma ave de rapina e ataca, de preferência, cobras.


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O ASSASSINO - Conto Clássico de Terror - Hendrik Conscience



O ASSASSINO

Hendrik Conscience

(1812 – 1883)

 

Perto da aldeia de Overgoor está situada uma fazenda, que fora em certo tempo ocupada pelo fazendeiro Dries van den Hout, homem trabalhador e econômico que, tendo começado a sua vida com pouca coisa, chegara a ter cavalariças, estábulos e uma numerosa criação.

Além disso, o fazendeiro Dries gozava de muita simpatia e era considerado uma das melhores pessoas do lugar.

Na sua fazenda havia um empregado muito negligente, que gostava mais de dormir do que de trabalhar e tanto assim que o seu maior prazer era estar continuamente a bocejar e a espreguiçar-se.

No verão, então, a vida do pobre rapaz era intolerável. Sus, como se chamava ele, nunca se levantava à hora da chamada para o serviço pela madrugada.

Às 3 horas da manhã, quando o relógio da fazenda enchia toda a casa do tilintar odioso do seu despertador, Sus dormia. E, se estava acordado, não se levantava. Fingia não ter ouvido o sinal. Esperava que o fazendeiro o viesse arrancar do leito com palavras injuriosas e um valente par de socos que, bem depressa, lhe tirava o gosto de bocejar e de espreguiçar-se.

Quando Sus trabalhava no campo, resmungava todo o dia, maldizendo quantos sinos e campainhas havia — instrumentos que só foram feitos para o tormento do trabalhador.

Para ele, era certo que os relógios — sobretudo os despertadores — não foram inventados por nenhum moço de fazenda; isso, sem dúvida, devia ser invenção de algum fazendeiro.

Certo domingo, em que Sus ficara só em casa, executou um plano sobre o qual vinha pensando há muito tempo. Subiu a uma cadeira, à altura do relógio e, com uma pinça, quebrou três ou quatro dentes de uma roda. Agora, o relógio não andaria mais. Ele poderia dormir, tranquilamente, até que o fazendeiro despertasse por si mesmo.

Quando o fazendeiro chegou e viu o relógio parado, experimentou fazê-lo andar. Contudo, não o conseguindo, decidiu mandá-lo à aldeia, onde devia ser reparado. Sus pensou que, enquanto o relógio demorasse no conserto, ele teria pelo menos quinze dias para dormir sossegadamente.

O moço preguiçoso não contou, porém, com o galo da fazenda — um galo como poucos: o seu canto era longo e vibrante como um sino, tinha as patas e os esporões de um verdadeiro galo de briga, e não consentia que um quarto de légua ao redor outro galo cantasse mais alto.

Ele havia batido e enxotado da fazenda todos os galos da vizinhança, que tremiam ouvindo o seu canto retumbante.

Pois bem: na falta de relógio, o fazendeiro resolvera guiar-se pelo seu fiel animal. Sus, naquela noite, deitou-se certo de que não seria incomodado; mas, apenas os primeiros alvores da manhã surgiram no Oriente, o galo soltou o seu canto ruidoso. Eram duas horas.

Um grito ameaçador despertara Sus do seu sono.

— Ah! Sus, preguiçoso, o galo já cantou!

Sus sentiu o fazendeiro aproximar-se do seu leito para lhe aplicar os dois socos do costume, e saltou da cama atordoado.

Todo aquele dia Sus proferira pragas contra o pobre animal, desejando mesmo que um grão de milho se lhe atravessasse na garganta e o sufocasse.

Em todo caso, naqueles três dias que se seguiram, Sus levantou-se cedo. Ficara, porém, alimentando um grande ódio ao inocente animal, e de boa vontade já lhe teria apertado o pescoço, se não fosse o receio de ser surpreendido.

Na tarde do quinto dia, Sus recolheu-se ao leito logo depois da ceia. Para o seu pesar, não conseguira dormir aquela noite. Para causar dano a seu patrão, o mau rapaz comera em demasia.

Rolando no leito, Sus fazia penosos esforços para adormecer, e sofria pensando que, dormisse ou não dormisse, era preciso levantar-se às 2 horas. O sangue fervia-lhe nas veias. Subitamente, ocorreu-lhe a ideia de se vingar daquele que lhe causava tão grandes desgostos. Levantou-se, empalmou resolutamente uma faca afiada, e desceu, com precaução, ao quintal.

A noite estava profundamente escura; o inferno parecia favorecer seu sanguinário plano.

 Sus pôs o ouvido um instante à porta do fundo para se certificar de que o fazendeiro dormia, passou ainda uma veza lâmina da faca na palma da mão, como para afiá-la, e dirigiu-se ao galinheiro.

Um horrível sorriso lhe contraía a máscara. O celerado antegozava o crime que o devia vingar.

Todavia, foi tremendo que ele entrou no galinheiro, esgueirando-se por uma abertura que ele conhecia.

 O galo estava no seu poleiro, a cabeça entre as asas.

O pobre animal não suspeitava do perigo que o ameaçava; dormia tranquilamente, sonhando, talvez, com a franguinha que ele vira na véspera no terreno da fazenda vizinha.

Sus sabia bem o lugar onde o galo se empoleirava. Podia, portanto, no meio das trevas, agarrá-lo sem hesitação. Contudo, ficou algum tempo a refletir como havia de segurá-lo e o matar sem que ele pudesse soltar um grito.

De repente, ouviu uma voz e empalideceu de terror. Fora um rouxinol que cantara numa arvore vizinha.

Sus praguejou uma sangrenta ameaça contra o amoroso cantor, que assim perturbava o repouso da noite, e deu um passo à frente para consumar a sua vingança.

Vibrando de ódio e de inquietação, aproximou-se cautelosamente do fundo do galinheiro, agarrou com a mão esquerda o pescoço do galo, a ponto de estrangulá-lo, e, com a direita, atravessou-lhe o corpo com a faca. Nesse instante, uma voz formidável feriu os ouvidos do celerado e o sangue lhe gelou nas veias. Era o sino da aldeia que tocava à meia noite. Aquele som reboava lugubremente.

O criminoso, tomado de inexprimível agitação, arrancou algumas penas do corpo da vítima, espalhou-as ao redor e saiu correndo do galinheiro, levando o cadáver. Parou no fundo do jardim e respirou com esforço, como um homem oprimido pelo medo. Em seguida, escondeu o corpo do galo numa moita e foi lavar, no rio, o sangue que lhe sujava as mãos.

No dia seguinte, o fazendeiro devia pensar que o galo fora comido por uma raposa. Sus voltou à casa, possuído de terror e presa de mortal emoção; atirou-se ao leito, abatido pela fadiga e pelo remorso.

A sua punição, porém, não tardou. A voz da consciência não lhe permitia conciliar o sono. Quando ia adormecendo, cheio de cansaço, uma crise nervosa lhe sacudia o corpo e o despertava em sobressalto.

Por fim, um sono pesado, um doloroso entorpecimento, pior do que a febre, se apoderou dele.

Naquela manhã, eram já quatro horas e um silencio de morte reinava na fazenda. O fazendeiro foi o primeiro a despertar e se admirou da claridade que enchia o seu aposento.

Levantou-se apressadamente, correu ao galinheiro e lá encontrou o chão coberto das penas do seu fiel animal.

Sus fora arrancado do leito e acusado pelo desaparecimento do galo. Diante da acusação, ele empalideceu, pôs-se a tremer, mas negou obstinadamente o fato.

Contudo, o fazendeiro resolveu despedi-lo e entregá-lo à Justiça.

Durante o dia, enquanto não chegava o guarda campestre ou os soldados que o deviam conduzir à prisão, Sus fora tão barbaramente espancado que desfalecera.

À noite, como não houvessem chegado os soldados, o fazendeiro consentiu que Sus dormisse na fazenda.

O infeliz rapaz deitara-se vestido.

Após uma longa insônia e um constante remordimento da sua consciência, caíra em mortal agitação.

Parecera-lhe ouvir ao seu lado o galo cantar com uma voz tão retumbante como se fosse a voz de vinte galos juntos.

Sus pulou da cama precipitadamente, julgando já ser muito tarde; mas ainda era noite.

Profundamente perturbado, ele voltou ao leito e adormeceu de novo...

Mas, apenas fechou os olhos, pareceu-lhe ouvir ainda a voz do galo que, em tristes e lamentáveis regougos, deplorava a sua desgraça.

Quando Sus abriu os olhos, os cabelos se eriçaram e um suor frio correu-lhe por todo o corpo. Recuou espantado, as mãos estendidas sobre o leito.

Diante dele, no meio de uma grande fogueira de altas labaredas, se achava o inocente animal assassinado, com o bico aberto e os olhos faiscantes. A faca estava lá, atravessando-lhe o peito, e da ferida jorrava muito sangue, que lhe salpicava a face como uma chuva vingativa. Ele sentia que cada gota de sangue que caía lhe atravessava as roupas e queimava-lhe as carnes.



Mais morto do que vivo, olhava fixamente a sua vítima e via que o fantasma abria desmesuradamente o bico e se aproximava dele para lhe rasgar o peito.

Então, atacado de inexprimível ansiedade e de um pavor imenso, deu um grito pungente e fugiu do quarto e da fazenda, internando-se no bosque, antes que o fazendeiro tivesse tido tempo de se informar do que se passara.

Sus esteve fora durante oito dias. Quando, no fim desse tempo, o guarda campestre o encontrou e o levou a fazenda, verificou-se que o desgraçado estava louco.

 

Tradução de autor desconhecido.

Fonte: “A Leitura para Todos”, edição de setembro de 1912

 


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O PERIGO DAS PROFECIAS - Conto Clássico de Cruel - Humberto de Campos



O PERIGO DAS PROFECIAS

Humberto de Campos

(1886 – 1934)

 

Quando se divulgou pela cidade a notícia de que Alexandre da Gama assassinara a mulher com sete punhaladas, ninguém atinou com o motivo daquele crime. Sabia-se, apenas, que os dois haviam passado a tarde fora de casa, e que, na volta, se haviam empenhado numa discussão, que terminou naquela desgraça.


Um repórter conseguiu, porém, descobrir tudo. Supersticiosos os dois, tinham o Alexandre e a esposa convencionado procurar uma cartomante, para sondarem o poço misterioso do seu destino.


— Toma: leva dez mil réis para a consulta — dissera o Alexandre.


 E metendo, por seu turno, dez mil réis no bolso do colete, ganhara a rua, combinando um encontro às seis em ponto, em frente à casa da bruxa. À hora aprazada encontraram-se.


 — Que te disse ela? — indagou o rapaz, ansioso. 


— Boas coisas — informou a Rosita.


— Disse-te que ias ter filhos?


— Disse.


— Quantos?


— Três.


— Como?


— Três — confirmou a rapariga.


 O Alexandre ficou vermelho.


 — E como é — rugiu — que ela me disse que eu só teria um?


 Horas depois, dava-se o crime.



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A IMAGEM NO FUNDO DOS OLHOS - Conto Clássico Fantástico - Maurice Renard



A IMAGEM NO FUNDO DOS OLHOS

Maurice Renard

(1875 – 1939)

 

O que lhes vou narrar aconteceu ao mais célebre dos oculistas franceses quando não era ainda o professor Fagus, mas, simplesmente, o doutor Fagus. Certo dia, ele teve que tratar de Frederico Arcier, homem rico e poderoso, cognominado na França “o rei do papel”.

Arcier escrevera-lhe, como eu ou o leitor, para obter uma entrevista.

E a hora da consulta chegou.

Antes de abrir a porta que comunicava o seu gabinete com a sala de espera, Fagus não pôde evitar um movimento de orgulho ao pensar no considerável personagem que aguardava a sua decisão. Sentia-se muito altivo por ter trabalhado tanto, e ser tão útil aos seus semelhantes que uma espécie de monarca recorria agora às suas luzes.

O milionário entrou. Era um perfeito gentleman, de trinta a quarenta anos.

Fagus notou-lhe o ar fatigado, a coloração de cera branca, as dolorosas rugas. Recordou-se, imediatamente, de que o poder industrial de Arcier era uma herança e que “o rei do papel” herdara a sua coroa do velho Arcier, de Arcier, o parvenu, que a conquistara com o suor do seu rosto. Fred nada tinha de lutador. Porém, naturalmente, a atenção do ocultista concentrou-se nos olhos do recém-chegado. Eles estavam tão fixamente abertos que faziam pensar nos olhos de uma ave noturna ou — o que é mais horrível — em dois olhos de vidro. Habitava neles um horror perpétuo. Tudo quanto Arcier olhava parecia amedrontá-lo. No entanto, o homem de ciência nada tinha de terrível; compreendera que um ser muito miserável estava diante dele, e toda a sua bela alma estava estampada em seu semblante.

Sem preâmbulo, numa voz em que se misturavam a angústia, a vergonha e o amargo desejo de uma misteriosa libertação, Arcier explicou-se. Foi, a princípio, em um grito surdo esta confissão e esta súplica:

— Só tenho esperanças no senhor. Salve-me!

Braços pendentes, mãos abertas, parecia sacrificar-se.

 —Eis aí — continuou ele, fazendo esforço e como se confessasse uma falta abjeta. —Tenho nos olhos, no fundo dos olhos, uma imagem indelével... Uma imagem como a que fica impressa na retina quando fixamos a vista ao Sol.

— Escotoma —disse Fagus.

— É isto. Uma imagem semelhante à que se acha nos olhos dos assassinados, nos olhos dos que morreram de morte violenta, e cuja retina conservou a última visão...

Fagus não pestanejava.

 — O senhor não ri? — admirou-se o milionário. — Não zomba de mim?

— Não, disse Fagus.

— Ah! — replicou Arcier, cujos traços distenderam-se. —Se o senhor soubesse quantos incrédulos encontrei entre os oculistas a que me dirigi! Nenhum compreendeu. Nenhum acreditou em mim. E nada, nada viram nos meus olhos! Uns mofaram! Outros, enviaram-me aos neurologistas... Desgraçados! Escute, doutor: examine-me bem, e diga-me a verdade, pelo que tem de mais caro. Porque não posso continuar a viver com esta imagem no fundo dos olhos. Estou condenado a vê-la por toda a parte e sempre. Ela se interpõe horrorosamente contra mim e o mundo. Vejo-a com os olhos abertos, com os olhos fechados, mesmo á noite. Só o sono a faz desaparecer. Mas ai! O sono! Compro-o a custo de sacrifícios; e muitas vezes revejo em sonho a coisa infernal.

—Há quanto tempo tem esta mancha nos olhos? — Perguntou Fagus, tranquilamente.

— Oh, não é uma mancha! É uma imagem, uma cena instantânea. Não falta nada ali: cenário, personagens, cores, sombras, relevo, detalhes monstruosos... E quando quero olhar, não importa o que, não importa quem, é sempre a imagem que está “no ponto", não o objeto ou o ser que eu queria ver, e que me aparecem indecisos, através da odiosa fantasmagoria...

— Há quanto tempo? — Insistiu Fagus.

— Há treze meses. Há treze meses que essa imagem de danação me vela o universo e possui meus olhos... Para curar-me, seria necessário apagá-los. Ai! É uma rude confissão a que lhe faço! Apagá-los, não é? E estive prestes a terminar com eles, quando me falaram no senhor. Então, condescendi.

— Extingui-los? — disse gravemente Fagus.  — E se isso não bastasse?

O outro baixou os olhos, depois levantou-os acanhadamente para o médico:

Não posso viver com esta imagem no fundo dos olhos.

Logo continuou, com terror:

É preciso que eu tenha no senhor uma confiança de que eu próprio me admiro para dizer-lhe isso.

— Peço-lhe a sua inteira confiança, replicou-lhe Fagus. — Ela é  indispensável. Diga-me: de que natureza é a imagem?

Arcier desviou o assunto.

—É — disse ele —, como o senhor bem supõe, a viva reprodução de uma coisa que me apareceu imprevistamente, um espetáculo que me surpreendeu violentamente e que eu divisei no tempo de um relâmpago, no tempo que me foi preciso para afastar uma cortina e desmaiar de horror, uma visão mais insustentável para mim que o brilho do sol, e mais terrível que a aparição de um punhal levantado ou de um revólver engatilhado.

*

Enquanto ele assim falava, retardando com todo o seu poder a narrativa pedida, Fagus considerava-o.

Arcier estava de frente para a janela. Desta vez, ele parecia fixar "voluntariamente" a imagem, submetê-la ao seu olhar e deleitar-se com ela amargamente. Sua palidez aumentara, os traços endurecidos acusavam sobremaneira as rugas; via-se, por momentos, crisparem-se-lhe os músculos das faces, alargando a parte inferior do rosto, muito estreita em relação à superior. Rosto de sensual, de impulsivo, de um afetivo. Mas Fagus prendia-se aos olhos. Suas pupilas não cessavam de contrair-se e dilatar-se. A íris era parda, bem pigmentada. O branco da esclerótica dava para amarelo, e vasos vermelhos a ensanguentavam.

Esses olhos, estranhamente duros e secos, os cílios longos e cerrados os teriam suavizado com uma bela sombra, se as pálpebras rígidas e não pestanejando nunca, não parecessem presas por invisíveis pegadores. Sobre eles as sobrancelhas negras, desenhadas com força, uniam-se, fazendo um só traço enrugado rio centro. Rosto de nervoso e de ciumento.

No entanto, o rei do papel se interrompera.

Um clarão equívoco quebrantava-lhe as pupilas.

— Mas — disse ele — para que descrever-lhe a imagem? Se o senhor for mais sábio do que os outros, irá vê-las sozinho. Senão, para que informá-lo?

— Seja —respondeu Fagus. — Vou, pois, examiná-lo por minha vez. Mas advirto-o de que a imagem, se eu a vir, aparecerá minúscula e invertida. Nada distinguirei, sem dúvida! E, depois, estou contrariado com a sua desconfiança.

— Perdoe-me — implorou o pobre milionário. — Se o senhor soubesse...

— Faça o favor de entrar, disse simplesmente Fagus.

Penetraram na câmara escura.

— O senhor não mede nem a acuidade nem o campo visual? — perguntou o consultante.

Fagus reprimiu um sorriso.

—Não. É  inútil... Vejo que tem o hábito... E não farei mesmo o exame lateral. O oftalmoscópio, imediatamente.

*

A câmara escura estava iluminada por uma lâmpada elétrica encapuzada por um refletor. Arcier sentou-se, dando as costas para a lâmpada. Fagus elevara o oftalmoscópio à altura da sua vista. A lente côncava concentrava nos olhos de Arcier os raios da lâmpada. Pelo orifício que a atravessava no centro, Fagus examinava aquele olho inundado de luz.

Houve um silencio em que a sombra e a claridade dominavam todas as coisas.

A lâmpada mudou várias vezes de lugar. O operador examinava os dois olhos alternadamente. Sua fisionomia permanecia impenetrável. Ouvia o coração de Alcier bater rapidamente.

Entretanto, sem se apressar, apanhou uma lente e dobrou o oftalmoscópio.

Alcier perguntou:

— Não vê nada?

Nenhuma resposta. O exame continuava.

Afinal, o doutor levantou-se e se pôs a passear.

Depois, sentou-se a uma mesa, com as mãos na testa:

— Nada?

Sempre mudo, Fagus remexeu em um cofre, de onde tirou uma lâmpada elétrica e substituiu a lâmpada incolor por uma vermelha.

— Ah! Isso é novo! — disse Arcier.

Recomeçou o exame a lente.

— Estou vendo — disse Fagus.

Respondeu-lhe um grito de alegria abafado.

Porém, ele prosseguiu:

—Vejo a imagem, em negativo. Um escotoma afeta a sua púrpura  retiniana. A luz — uma luz intensa — decompôs a macula lutea, o ponto sensível da sua retina, absolutamente como uma chapa fotográfica. Quero dizer: de uma maneira persistente. Porque, para que haja visão, é necessário que haja decomposição da púrpura. Somente no caso de uma visão comum, a púrpura se regenera instantaneamente; ao passo em que, no caso de um escotoma, fica decomposta algumas vezes por pouco tempo, algumas vezes...

— Algumas vezes para sempre. Sei! Mas diga: vê a imagem? Claramente?... Ah! Bendita seja esta luz vermelha! E abençoado seja o senhor!

— Extremamente curioso — murmurava Fagus. — Os seus olhos funcionaram exatamente como um binóculo estereoscópico. É uma perfeita imagem fotográfica... Vejo a curva de uma cortina levantada para um espaço brilhantemente iluminado. Vejo...

*

Não terminou.

O rei do papel escondia o rosto nas mãos.

Basta! Suplico-lhe. Não! Não! Cale-se!

A claridade vermelha emprestava-lhe uma lividez de cera.

Ele disse, ainda, em voz rouca:

"Ela" e "ele", o senhor e eu, somos os únicos a conhecer esta abjeção... Compreende agora que essa imagem precisa desaparecer, embora deva eu desaparecer com ela...

Fagus empurrou-o para fora da câmara escura. Depois, falou:

— Diga-me primeiro o que se passou logo após...

Ela fugiu — respondeu Arcier, desviando-se.

— Quero dizer: o que se passou com o senhor, logo depois da aparição.

—Ai! — disse o desgraçado num suspiro de alívio. — Eu caí como uma massa. Encontraram-me sem sentidos. Quando voltei a mim, no dia seguinte, a imagem estava lá. Ela ainda está...

— Depois?

— Procurei ocupar-me com os meus negócios, tomar a direção das minhas usinas... Mas a imagem, a imagem! Minha vista permanecia impregnada dessa infâmia! O mais horrendo instante do meu passado continuava presente para mim... Quis distrair-me. Lancei-me nas festas mais loucamente que nunca. Pratiquei os mais duros esportes... Porém, eu estava já gasto para tudo isto... E eis-me aqui. E estou só no mundo, com esta imagem no fundo dos olhos... Há treze meses ela não mudou. Está sempre do mesmo modo nítida. É de crer que, adiantando-me, vou poder tocá-la, segurá-la, bater-lhe!...

Arcier estendia as mãos vibrantes. Seus olhos secos refletiam uma dor aguda.

Peça-me tudo que quiser! — replicou ele. — Mas faça o impossível para apagar isto!

Fagus disse, como se não tivesse ouvido:´

Vamos ensaiar um tratamento. E tenho muita esperança.

— É verdade?

Arcier apertou os braços do doutor, que se desprendeu, mansamente.

Creio que o senhor encontrará a cura — disse ele. — Mas será preciso vir ao hospital onde dirijo o serviço de oftalmologia. Tenho lá uma instalação, um dispositivo idealizado por mim, que já me tem dado excelentes resultados, e que prepararei para o senhor, de uma maneira muito especial. Se quiser, começaremos amanhã.

— Ah, o mais cedo possível!

— Venha às dez horas. Reservarei ao senhor quarenta minutos pela manhã e à noite.

Durante quanto tempo?

Ah! Isto... 

O rosto de Arcier coloria-se de um desusado calor. Assim que ele partiu, Fagus seguiu para o hospital. No dia seguinte, um pouco antes das dez horas, uma limusine de um luxo sombrio e sóbrio parava em frente ao edifício. Dela desceu o rei do papel.

Depois de alguns minutos de espera no cubículo do porteiro, um interno de blusa branca veio procurá-lo.

— O doutor Fagus está às suas ordens — disse ele. — Faça o favor de seguir-me.

*

Ele guiou então o milionário pelos meandros do imenso estabelecimento, velho hospício quase abandonado, depois reconstruído segundo os princípios de higiene moderna. No caminho, desculpava-se o interno da vetustez do lugar: pátios sinistros, antigas galerias, corredores tristes.

A indigência pintava-se nos muros caiados.

Nas portas, alinhavam-se inscrições glaciais: termos patológicos, tabelas de serviço, nomes de médicos. Atravessavam enfermeiras. Era hora da visita. O cheiro dos antissépticos enchia a atmosfera. Cruzavam enfermeiras e freiras que iam à sua lida quotidiana. Arcier experimentava ali a sensação dos ricos, que são sempre desagradavelmente surpreendidos quando a ocasião lhes apresenta o lado coletivo na vida dos pobres. Ser doente à dúzia, tratado em grosa, morrer em série! Arcier estremecia.

— E pena que estejamos tão mal alojados — dizia o interno. — Estão uns sobre outros. O gabinete do doutor Fagus é inacreditavelmente apertado. O senhor vai ver a nova instalação, como é pequena e pouco cômoda! Separada do resto, além disto! É tempo de mudar-nos!... Chegamos.

Acabavam de entrar numa longa sala inteiramente branca, onde se alinhavam pequenos leitos de um e de outro lado, formando uma aleia, no fim da qual lia-se sobre uma porta, em gordas letras vermelhas, pintadas de fresco: "Oftalmologia", e, por baixo: “Doutor Fagus".

O interno bateu, e disse em voz alta:

— É o Sr. Arcier, doutor.

Daí a pouco a porta se abriu e Fagus, aparecendo, entregou ao interno uma mulher, cujos olhos estavam ocultos por uma atadura.

— Às suas ordens, senhor — disse o doutor.

Arcier viu-se então em uma câmara escura. Porém, esta diferia de todas as outras. Nesse cubo de um negro profundo, acreditava-se estar no interior de um aparelho fotográfico gigantesco: no meio da parede oposta à porta, uma espécie de reduto cilíndrico mergulhava na sombra como que para algum objetivo colossal.

A pedido de Fagus, o milionário colocou óculos verdes e sentou-se no centro da "cabine", em frente ao orifício do grande tubo. Fez-se a escuridão. Arcier, intrigado, cheio de esperança, esperava um ruído que lá, do fundo do tubo, revelasse... o quê? Fez-se ouvir, efetivamente, um ruído. E o que apareceu imediatamente foi um disco de brancura absoluta. Arcier, olhando por cima dos óculos, viu que na realidade esse disco era vermelho e de um vivo esplendor. Pensou: “os complementares”, e perguntou:

— Que luz é esta?

— É segredo por algum tempo ainda — respondeu Fagus. — Saiba somente que não são os raios visíveis que operarão... Continue a olhar pelos óculos.

Dez minutos depois, Fagus substituiu os óculos verdes por óculos azuis. O disco tornou-se então de um amarelo intenso. Mais tarde, os óculos foram vermelhos e o disco verde. E azul quando eles eram amarelos. E sempre, quaisquer que fossem as cores, Arcier viu o mesmo sol cândido onde se inscrevia a imagem impiedosa.

A primeira sessão acabou ao fim de três quartos de hora. Era este todo o tratamento a que Arcier devia submeter-se duas vezes por dia.

Ele voltou, portanto, à tarde. Conduziram-no ainda à porta da câmara negra. Porém, uma irmã inteiramente vestida de branco disse-lhe com uma angélica doçura:

— Não pode entrar agora, meu senhor. O doutor Fagus está ocupado com um outro cliente. E preciso esperar. O senhor pode ficar aqui. Não tenha receio, os nossos doentes não são contagiosos. São crianças escrofulosas. Quer uma cadeira?

Fred Arcier era desses reis a quem se não faz esperar. Um pouco aborrecido, aceitou a cadeira; e a freira deixou-o, com uma graciosa cortesia.

O milionário seguiu-a com o olhar. Ela ia de um a outro leito. Esses leitos não se moviam, e a tranquilidade da sala tornava-se emocionante quando se pensava que havia ali vinte criancinhas. Arcier tivera sempre horror às crianças por causa da sua turbulência. Ele não compreendia essa tranquilidade. Dormiriam?

Mas alguém, justamente, perturbou a calma. Elevou-se um gemido. A irmã acorreu, rápida. Arcier aproximou-se curioso, e viu então o que ele jamais vira: sofrer uma criança.

O pobre pequeno tinha um rosto muito abatido, muito magro; abria uns olhos imensos, de uma profundidade imaginável, e o sofrimento dava-lhe um ar tão grave, tão desesperado que, pesando o seu crânio, parecia alojar a alma de um velho carregado de experiência e de tristeza.

— Mamãe! — gemia ele.

Oh, esses pequenos inteiramente sós! Doentes e longe de suas mamães! A irmã, na verdade, fazia-se maternal como podia; dizia-lhes bonitas coisas ternas; acariciava-os gentilmente; mas os seus carinhos não deixavam de ser autoritários e, afinal, não era "mamãe", não é mesmo?

Então — dizia ela —, é ainda essa feia perna? Isso vai passar, vamos!... Como você é choramingas, Virgem Maria!

Mas o pequeno, chorando grandes lágrimas, não ouvia mais. Seu mal torturava-o e dava-lhe tais contrações que comoveriam o coração mais duro.

Oh, minha irmã!

Arcier observava essa dor com estupefação, como um prodígio detestável. Ele ali estava, com as mãos juntas...

Não é este o mais digno de lástima? O meus doentinhos interessam-lhe, senhor?

A criança acalmara-se. Arcier seguiu a religiosa, que continuava a sua ronda. Ela apresentou-lhe uma a uma as suas crianças. Todos, sem nada fazer, sem nada dizer, abriam para um mesmo sonho os olhos muito longos e muito pensativos. Alguns estavam irremediavelmente enfermos. Outros morreriam em breve. Pareciam saber disto e sonhar com as venturas que não conheceriam.

Com o coração repleto de compaixão, Arcier não ousava falar. Havia neles algo de divino que o intimidava. Que dizer, a esses pequenos, que fosse bastante suave, bastante belo, bastante grande?... Ah, ser rei de França, ao invés de ser “rei do papel”! Passar, passar diante deles abençoando-os com o sinal da cruz! Dizer: “O rei te abençoa, Deus irá curá-lo” e curá-los um pouco efetivamente, com uma palavra e com um gesto...

Repercutiu um chamado:

— Senhor Arcier, estou às suas ordens!

Arcier reconheceu a voz de Fagus.

— Dê-me licença, minha irmã — disse ele. — Até logo.

O disco de luz surgiu no fundo do tubo negro como um astro de safira. Na sombra azulada, Fagus surpreendeu um brusco movimento.

— Que há? — interrogou o ocultista.

Arcier só pôde falar no fim de um instante. A imagem tinha empalidecido.

No dia seguinte, Arcier foi mais cedo.

Carregava um grande saco de viagem.

Chamando a irmã confidencialmente, ele abriu o saco e a fez ver o que continha. A boa criatura ficou maravilhada.

— É muito belo, senhor! Como eles vão ficar felizes!

Efetivamente, foram quase todos felizes. Quando o milionário fez a volta da sala, cada um tinha recebido o seu brinquedo: esta uma boneca falante, este um boneco de engonço, aquele um cavalo coberto de pelo verdadeiro, aqueloutro livro de gravuras inteiramente douradas. E Arcier não se cansava de contemplar a transfiguração que acabava de operar e ouvia com embevecimento risos que trinavam.



*

Entretanto, umas crianças permaneciam indiferentes. Algumas delas manejavam o seu lindo brinquedo como se não compreendessem que ele era divertido. Outros davam a impressão de ser demasiado velhos para brincar. Outros, enfim, pareciam já saídos deste mundo e apenas distinguiam formas confusas.

Arcier foi à cabeceira de um deles. A criança, severa, virava, revirava e apalpava entre os dedos frágeis uma miniatura de moinho de vento. O pobre homem não sabia o que fazer para distraí-lo. Estava abatido também por esse respeito que tanto sofrimento lhe impunha. Tinha medo de não saber falar a essa criancinha tão fraca e tão venerável, e temia magoá-la, por descaso...

Arcier fez um grande esforço de memória, cobrou ânimo e disse:

— Era uma vez um moleiro...

A criança se pôs a considerá-lo atentamente. O narrador prosseguiu:

— ...um moleiro que só tinha por fortuna...

— ... um moinho, um burro e um gato! — disse por traz dele uma voz suave.

Arcier voltou-se e viu Fagui, que sorria.

— Vamos, senhor — falou ele —, continue o "Gato de Botas”! Quando terminar, venha procurar-me. Tenho tempo esta manhã.

Nesse dia, a imagem empalideceu mais ainda.

Passaram-se, assim, as semanas que seguiram. Arcier dividia em duas partes a sua estada no hospital: uma consagrada aos meninos doentes, outra ao seu tratamento.

Mas, em breve, a sua piedade transformou-se em caridade, exercendo-se sobre um raio maior. Das crianças estendeu-se a outros doentes, que ele quis visitar. E este homem, a quem o abismo de suplícios acabava de revelar-se, empenhava-se de toda a sua alma em socorrer tantas misérias.

Em resumo, ele tinha necessidade manifestar por atos o reconhecimento de que transbordava. Porque, dia a dia, a imagem maldita ia-se apagando. A luz do disco maravilhoso parecia consumi-la pouco a pouco. Ela desmaiava e se ensombrava progressivamente.

Dentro em pouco, era apenas s uma silhueta cinzenta cada vez mais diáfana e continuamente mais confusa. A hora em que o último vestígio se apagaria, como vela, um resto de fotografia numa chapa exposta ao sol, soaria. Em dados momentos — por exemplo, na iluminação comedida da sala dos pequenos, quando Acier lhes contava "Pele de Burro" ou a “Gata Borralheira” —, a imagem não era mais visível, e para revê-la era preciso que o milionário pensasse nela.

Ah, esses contos maravilhosos eram por vezes impotentes contra o sofrimento e o destino. Havia principalmente um menino que desolava Arcier. A esse, ninguém podia tirar do seu mutismo pungente. Nada, nem mesmo o suplício do curativo que dos vizinhos arrancava horríveis gritos. E Arcier, que se teria deixado crucificar para salvá-lo, apenas sabia tomar-lhe a mão e olhá-lo longamente, para provar-lhe bem que não estava só, e que havia alguém ali para socorrê-lo, e que o amavam ternamente.

Ora, aconteceu que, uma tarde, quanto a irmã renovava-lhe as compressas, o rei do papel, que lhe mantinha a mãozinha, via aumentarem-se e turvarem-se ainda mais os olhos do inocente mártir. A irmã, prática das cousas da morte, afastou-se imediatamente e benzeu-se. O homem, sobressaltado, interrogava-a com o olhar. Ela rezava. Arcier, tendo compreendido, não se movia, perdido na contemplação dos olhos embaciados. Um pesar infinito comprimia-lhe a garganta. Sentiu uma espécie de dor nas têmporas. Seu queixo se pôs a tremer. Sem abandonar a mão morta, ele apoiou a fronte no leito. Mas, como no dia do "Gato de Botas”, ouviu-se uma voz. Pobre pequeno!

Fagus tocou-lhe no ombro.

Acier ergueu-se, com um dedo na boca, mostrando ao médico as outras crianças. Tinha lágrimas nos olhos.

— Vem? — disse Fagus, indicando a câmara negra.

Então — e quando Fagus conta a história, afirma que nunca esquecerá isto, viva cem anos ou mais —, então viu Acier, com os olhos ainda banhados em pranto, esforçar-se por olhar no vácuo, como para procurar ali alguém que houvesse desaparecido por encanto. Enxugava os olhos, esfregava-os, batia rapidamente as pálpebras para aclarar a vista. Depois, voltava à fantástica inspeção. Acabou por voltar-se para Fagus. Ele assemelhava-se, não se sabe como, a um personagem de vitrail, um radiante miraculado.

Fagus estendeu-lhe a mão, sabendo o que acabava de se produzir.

—Ai! — murmurou ele. — As lágrimas, choradas ou não, está aí tudo! As lágrimas — objetou o milionário. — As lágrimas e sua luz misteriosa!

A irmã puxava o lençol sobre o pequeno cadáver.

—“Minha” luz, “Minha” luz.. — disse Fagus. — É “A Luz”, simplesmente.

 

Tradução de autor desconhecido.

Fonte: “Leitura para Todos”, edição de novembro de 1922.

 


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