O IMPENITENTE - Conto Clássico de Terror - Aluísio de Azevedo

O IMPENITENTE
Aluísio de Azevedo
(1857 – 1913)

Conto-vos o caso como mo contaram.

Frei Álvaro era um bom homem e um mau frade. Capaz de todas as virtudes e de todos os atos de devoção, não tinha, todavia, a heroica ciência domar os impulsos de seu voluptuoso temperamento de mestiço e, a despeito dos constantes protestos que fazia para não pecar, pecava sempre. Como extremo recurso, condenara-se, nos últimos tempos, a não arredar pé do convento. À noite fechava-se na cela, procurando penitenciar-se dos passados desvarios; mas, só reprimir o irresistível desejo de recomeçá-los, era já o maior dos sacrifícios que ele podia impor à sua carne rebelde.

Chorava.

Chorava ardendo de remorsos por não poder levar de vencida os inimigos da sua alma envergonhada; chorava por não ter forças para fazer calar os endemoninhados hóspedes do seu corpo, que, dia e noite, lhe amotinavam o sangue. Quanto mais violentamente procurava combatê-los, tanto mais viva lhe acometia o espírito a incendiária memória dos seus amores pecaminosos.

E no palpitante cordão de mulheres que, em vertigem, lhe perpassavam cantando diante dos desejos torturados, era Leonília, com seus formosos cabelos pretos, a de imagem mais nítida, mais persistente e mais perturbadora.
Em que dia a vira pela primeira vez e como se fizera amar por ela, não o sei, porque esses monásticos amores só chegam a ser percebidos pelos leigos como eu, quando o fogo já minou de todo e abriu em labareda a lançar fumo até cá fora. À primeira faísca e às primeiras brasas, nunca ninguém, que eu saiba, os pressentiu nem deles suspeitou.

Certo é que, durante belos anos, Frei Álvaro, meia-noite dada, fugia aos muros do seu convento, e, escolhendo escuras ruas, cosendo-se à própria sombra, ia pedir à alcova de Leonília o que não lhe podia dar a solidão da cela.
Pertenceria só ao frade a bela moça? Não o creio.

E ele? seria só dela? Também não, pois reza a lenda donde me vem o caso que, em vários outros pontos da cidade Frei Álvaro era igualmente visto fora de horas, embuçado e suspeito, correndo sem dúvida em busca de profanas consolações daquele mesmo gênero.

Mas, no martírio da reclusão a que por último se votara, era seguro a lembrança de Leonília o seu maior tormento. E assim, aconteceu que, certa noite, à força de pensar nela, foi tal o seu desassossego de corpo e alma, que o frade não pôde rezar, nem pôde dormir, nem pôde ler, nem pôde fazer nada. Com os olhos fechados ou abertos, tinha-a defronte deles, linda de amor, a enlouquecê-lo de saudade e de desejo.

Então, desistindo da cama e dos livros, pôs-se à janela, muito triste, e ficou longo tempo a consultar a noite silenciosa. Lá fora a lua, inda mais triste, iluminava a cidade adormecida e no alto as estrelas pareciam que pestanejavam de tédio. Nada lhe mandava um ar de consolação para aquela infindável tortura de desejar o proibido.

De repente, porém, estremeceu, sem poder acreditar no que viam seus olhos.

Seria verdade ou seria ilusão dos seus atormentados desejos?... La embaixo, no pátio, dentro dos muros do convento, um vulto de mulher passeava sobre o lajedo.

Não podia haver dúvida!... Era uma mulher, uma mulher toda de branco, com a cabeça nua e os longos cabelos negros derramados.

Céus ! E era Leonília!... sim, sim, era ela, nem podiam ser de outra mulher aqueles cabelos tão formosos aquele airoso menear de corpo! Sim! era ela... Mas, como entrara ali?... Como se animara a tanto?

E o frade, sem mais ter mão em si, correu a tomar o chapéu e a capa e lançou-se como um doido para fora da cela.

Atravessou fremente os longos corredores, desgalgou escadaria de pedra e ganhou o pátio.

Mas o vulto já lá não estava.

O monge procurou-o, aflito, por todos os cantos. Não o encontrou.

Correu ao parapeito que dava do alto para a rua, sobre o qual se debruçou ansioso e, com assombro, desde novo o misterioso vulto, agora, lá fora, a passear embaixo, à luz do lampião de gás.

Já impressionado de todo, Frei Álvaro desceu de um relance as escadas do átrio, escalou as grades do mosteiro e saltou à rua.

O vulto já não se achava no mesmo ponto; tinha-se afastado para mais longe. Frei Álvaro atirou-se para lá em disparada, mas o vulto deitou a correr, fugindo na frente dele.

— Leonília ! Leonília! Espera! Não me fujas!

O vulto corria sempre, sem responder.

— Olha que sou eu! Atende!

Leonília parou um instante, voltou o rosto para trás, sorriu e fugiu de novo quando o monge se aproximava.

Afinal, já não corria, deslizava, como se fora levada pelas frescas virações da noite velha, que lhe desfraldavam as saias e os cabelos flutuantes.

E o monge a persegui-la, ardendo por alcançá-la.

— Atende! Atende, flor de minha alma! — suplicava já com a voz quebrada pelo cansaço. — Atende, pelo amor de Deus, que deste modo me matas, criminosa!

Ela, ao escutar-lhe as sentidas vozes, parecia atender, suspendendo o voo, não por comovida, mas por feminil negaça, a rir, provocadora, braços no ar e o calcanhar suspenso, pronta, mal o frade se chegasse, a desferir nova carreira.

E assim venceram ambos ruas e becos, quebrando esquinas, cortando largos e praças. O frade já tinha perdido a noção do tempo e do lugar e estava prestes a cair exausto quando, vendo a moça tomar certa ladeira muito conhecida deles dois, criou novo ânimo e prosseguiu na empresa, sem afrouxar o passo.

— Vai recolher-se a casa! — concluiu de si para si. — Não me quis falar na rua... Ainda bem!

Leonília, com efeito, ao chegar à porta da casa onde outrora o religioso fruía as consolações que o seu mosteiro lhe negava, enfiou por ela e sumiu-se sem ruído.

O frade acompanhou-a de carreira, mas já não a viu no corredor e foi galgando a escada. Encontrou em cima a porta aberta, mas a sala tenebrosa e solitária. Penetrou nela, tateando, e seguiu adiante, sem topar nenhum móvel pelo caminho.

— Leonília! chamou ele.

Ninguém lhe respondeu.

O quarto imediato estava também franqueado, também deserto e vazio, mas não tão escuro, graças à luz que vinha da sala do fundo. O religioso não hesitou em precipitar-se para esta; mas, ao chegar à entrada, estacou, soltando um grito de terror.

Gelara-lhe o sangue o que se lhe ofereceu aos olhos. Eriçaram-se-lhe os cabelos; invencível tremor apoderou-se do seu corpo inteiro.

A sala de jantar onde, tantas vezes feliz, ceara a sós com Leonília, estava transformada em câmara mortuária, toda funebremente paramentada de cortinas de veludo negro, que pendiam do teto, consteladas de lantejoulas e guarnecidas de caveiras de prata. Só faltava o altar. No centro, sobre uma grande mesa, também negra e enfeitada de galões dourados, havia um caixão de defunto. Dentro do caixão um cadáver todo de branco, cabelos soltos. Em volta, círios ardiam, altos, em solenes tocheiros, cuspindo a cera quente e o fumo cor de crepe.

O monge, lívido e trêmulo, aproximara-se do catafalco. Olhou para dentro do caixão e recuou aterrado.

Reconheceu o cadáver. Era da própria mulher que, pouco antes, o fora buscar ao convento e o viera arrastando até aí pelas ruas da cidade.

Sem ânimo de formular um pensamento, o frade deixou-se cair de joelhos sobre o negro tapete do chão e, arrancando do seio o seu crucifixo, abraçou-se com ele começou a rezar fervorosamente.

Rezou muito, de cabeça baixa, o rosto afogado em rimas. Depois ergueu-se, foi ter à essa, pôs-se nas pontas pés para poder alcançar com os lábios o rosto do cadáver e pousou nas faces enregeladas um extremo beijo amor.

Em seguida, olhou em derredor de si, desconfiado e tímido e, como não houvesse na sala uma só imagem sagrada em companhia da morta, desprendeu do pescoço o crucifixo e foi piedosamente dependurá-lo na parede, à cabeceira dela.

Mas, nesse mesmo instante, as tochas apagaram-se de súbito e fez-se completa escuridão em torno do impenitente. Foi às apalpadelas que ele conseguiu chegar até à porta de saída e ganhar a rua.

Lá fora, a noite se tinha feito também negra e os ventos se tinham desencadeado em fúria, ameaçando tempestade. O monge deitou a fugir para o mosteiro, sem ânimo de voltar o rosto para trás, como temeroso de que Leonília por sua vez o perseguisse agora até ao domicílio.

Quando alcançou a cela, tiritava de febre.

Acharam-no pela manhã, sem sentido, defronte do seu oratório, joelhos em terra, braços pendidos, cabeça de borco sobre um degrau do altar.

Só muitos dias depois, um dia de sol, conseguiu sair à rua, ainda pálido e desfeito. Seu primeiro cuidado foi correr aonde morava Leonília e rondar a casa em que a vira morta.

Encontrou-a fechada e com letreiro anunciando o aluguel.

— Está vazia, depois que nela morreu o último inquilino — explicou um vizinho.

— Há muitos dias? — quis saber o frade, e estremeceu quando ouviu dizer que havia uns oito ou dez.

— E o morador, quem era? - perguntou ainda.

— Era uma mulher. Chamava-se Leonília. Morreu de repente.

— Ah!

— Se quer alugar a casa, encontra a chave ali na esquina...

Frei Álvaro agradeceu, despediu-se do informante, foi buscar a chave, abriu a porta, entrou e percorreu toda a casa.

Só ele, além de Deus, soube a impressão que sentiu ao contemplar aquelas salas e aqueles quartos.

— Estranho caso! — disse consigo, sem ânimo de olhar de rosto para o temeroso abismo da dúvida. — Fui vítima de uma alucinação que coincidiu com a morte desta querida cúmplice dos meus pecados de amor...

E, enxugando os olhos, ia retirar-se, conformado com a dupla dor da saudade e do remorso, quando, ao passar rente de certa parede, estremeceu de novo.
Tinha dado com os olhos no seu crucifixo, do qual já nem se lembrava. Permanecia pendurado no mesmo ponto em que o monge o deixara na terrível noite.
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ERIPEIA E O CELTA - Conto Clássico de Horror - Eximí Opfalas


ERIPEIA E O CELTA
Eximí Opfalas

Quando os celtas invadiram a Jônia, raptaram grande número de mulheres que, no suntuoso Templo de Apolo, em Mileto, celebravam as tradicionais festas Tesmofórias, dedicadas a Deméter ou Ceres Tesmóforas, deusa agrária dos Jônios.

Entre elas foi raptada Eripeia, esposa de Xanto, o qual, inconsolável com a perda da mãe do seu dileto filho, vendeu tudo que possuía e partiu, através da Grécia e da Itália, em busca de Eripeia. Chegando às Gálias, conseguiu Xanto saber que sua esposa vivia em casa de Ligúrio, homem notável entre os celtas e em cuja morada pediu hospedagem.

Sua mulher, ao ver Xanto, abraçou-o e beijou-o efusivamente, como quem recebe um libertador. Isto fez com que seu marido logo procurasse Ligúrio, propondo-lhe resgatar a esposa por mil peças de ouro, importância sobremodo considerável. O honesto celta, porém, observou a Xanto que tal soma era excessiva para o resgate de uma mulher, aconselhando-o a dividi-la em quatro partes, das quais uma, apenas, se destinaria ao resgate, ficando as outras três para ele, Xanto, sua esposa e seu filho.  Xanto, agradecendo a gentileza, pagou logo o resgate, sem que esse seu ato, porém, fosse presenciado pela esposa, que, quando novamente a sós com ele, lhe censurou ter proposto resgate tão elevado, que supunha não poderia pagar, pois, se tal acontecesse, perderia a vida. Xanto explicou então a Eripeia como obtivera aquele ouro, confessando-lhe também que, além da soma que propusera pagar pelo resgate, seus homens traziam em suas botas outras tantas mil peças de ouro, para o que desse e viesse, pois não contava com a generosidade que encontrara em Ligúrio.

Eripeia calou-se; mas, quando pôde de falar ao celta novamente, narrou-lhe o que revelara Xanto; e, alegando não o querer nem ao filho, insinuou a Ligúrio apoderar-se do ouro que seu marido possuía.

Indignado ficou Ligúrio com aquela tão vil traição de Eripeia, que decerto desconhecia a alta conta em que os celtas tinham a hospitalidade. Mas, nada deixando transpirar dos seus intentos, na manhã seguinte, partiu ele acompanhando Xanto e seus homens, seguido de um escudeiro seu armado de espada e conduzindo Eripeia pelo seu próprio braço.

Chegando ao píncaro da serra, que naquela direção limitava suas terras, Ligúrio, segundo costume gaulês, declarou que, naquela despedida, deviam sacrificar uma vítima em holocausto aos seus deuses. E, mandando buscá-la, ordenou a Eripeia que a segurasse.

Mas, quando a pesada espada de Ligúrio baixou, a cabeça decepada não foi a do cordeiro, que Eripeia segurava, e sim a da própria mulher de Xanto...

Este, indignado, investe contra o Celta, que, enquanto se defende, conta-lhe a nefanda perfídia de Eripeia. E a Xanto, conformado, Ligúrio restitui o ouro que recebera pelo resgate que não se consumara.


Fonte: Careta, edição de 19 de outubro de 1938


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ARMADILHA - Conto de Terror - Tânia Souza


ARMADILHA
Por Tânia Souza

Para Celly Borges e Luiz Poleto

Por alguns instantes, apenas as batidas do meu coração rompem o silêncio enervante e ameaçador. Frio. O escuro ao meu redor. Lentamente respiro e procuro ouvir a respiração dos outros. E mais uma vez a voz suave, perigosamente suave, me indaga, quase implora:

— Conte, o que você fez?

No entanto, meus pensamentos estão confusos e não consigo pensar em algo coerente. Nem mover os dedos dos pés. Ficaram adormecidos pelas pancadas com a barra de ferro das últimas horas. Devem estar fraturados e abençoadamente não sinto a dor. Mas sinto o gosto acre do meu próprio sangue nos lábios rachados pelos socos. Tenho sede, muita sede e a desidratação me enfraquece. Ainda assim, consigo balbuciar:

— Um pouco de água...

Ah, a dor de volta, cruelmente a água salgada escorre pela minha cabeça e minha língua ávida tenta captá-la pesar do ardor dos ferimentos.

— Eu não fiz nada a ela... não sei onde está.

Esta voz rouquenha, que me arde a garganta, nascendo de um último resquício de forças, não parece minha.  Posso ouvi-los, minha resposta os enfurece. A calma dá lugar à ira. Chutes, pontapés... o refinamento foi embora. Existe muita raiva nas pancadas que recebo. O que você fez? Onde ela está? O que você fez? Velhas e repetitivas, as perguntas giram e me enjoam. O que eu fiz? Saberiam aqueles senhores entender sequer o que havia ocorrido? Ah, Kalinca, minha doce Kalinca. Nem eu o sei.

Depois o nada. Um longo e completo nada e penso em dormir.

Eles se foram.

*

— Temos testemunhas de que estavam juntos lá. Só precisa nos dizer.

A voz é amiga, macia, quase confortante; causa-me, no mais humano em mim, uma necessidade ferrenha de chorar e confessar meus segredos mais íntimos. Posso sentir o carinho na voz do meu inquiridor. Suave como as carícias de Kalinca.

— O que você fez com ela? Só precisamos saber onde ela está e depois... você poderá descansar.

Ele é o mais perigoso, os outros são como bestas, atacam desordenadamente, bufando, violentos e insanos. Este da voz macia se compraz, sorri com a dor, convence, quase seduz com a ideia de que a dor é tudo que precisamos. A tortura é uma arte que aprendi a conhecer muito bem.

Kalinca, ah, doce Kalinca, seus risos, sua dança. Querida Kalinca. Quase choro com as lembranças vivas dela.

— Não sei de nada. Me deixe ir — trêmulo, repetindo a mesma sentença como uma ladainha.

A dor.

Novamente a dor.

Com que requintes o homem sabia aplicá-la. Lenta, quase infinita, não intensa, não letal, apenas lenta e contínua dor.

O tempo deveria ser indefinido aqui, no entanto, apesar da venda nos olhos e dos horários irregulares, nos quais sou interrompido por diferentes torturadores, posso detalhar os minutos e segundos que passo aqui, nesta sala fétida. Desde a noite em que ela se foi.

Controle, meu controle está indo embora, um laivo de insanidade me espreita, sinto vontade de gargalhar. O escuro me ajuda a conter os instintos.

Tenho sede.

*

Mais uma vez o silêncio me machuca. Não sei onde eles estão, apenas o escuro da venda sobre meus olhos, a dor dos ferimentos e as noites roubadas. Desmaiei por algum tempo e a febre me consome. Minha boca sofre a falta de água, mas não há justiça nos métodos destes homens. O pai de Kalinca está aqui, todos os dias ele vem. Deve ser difícil para ele não poder me matar com as próprias mãos, somente a crença de que eu possa dizer onde ela está permite que eu ainda viva. Entretanto, não sei o que houve, tenho lembranças vagas sobre a última vez que a vi e a dor que tenho vivido embota meus sentidos, os delírios têm sido constantes em meio à sede, a fome e a dor.

Kalinca... A primeira vez que a vi, ela dançava e seus risos espalhavam-se pelo ar. Impossível não amá-la. Mas não contava que ela pudesse me amar.

Perseguiu-me, inexoravelmente, no furor do primeiro amor. Rica, bonita e determinada. O pai, literalmente, o dono da cidade. Tudo o que eu não precisava, portanto fugi. Mas sou homem e fraco, a pele jovem e fresca, o riso feliz, o semblante carinhoso diluíam minha resistência, em poucos dias após minha chegada na cidade eu já a amava. Foi quanto tudo aconteceu. Numa noite calma e sem luar, brisa leve nas árvores, fui convidado a uma festa. Ela estava lá, a atração foi irresistível e estivemos juntos por toda a noite. Por alguns dias, cedi ao seu fascínio singular.  No entanto, resolvi deixá-la. Comecei a fugir, fui rude, maltratei-a mais de uma vez, pois não acreditava no amor nem nos caminhos obscuros pelos quais nos levariam.

Certa noite, recluso em casa, preparando-me para um sono sem sonhos, ouvi os chamados no portão do velho sítio que escolhi por morada. Uma amiga de Kalinca implorava:

— Vem comigo, ela vai fazer algo horrível, por favor, só você pode ajudar! — As palavras vinham entrecortadas por soluços e lembrei-me da voz meiga dizendo que viver sem mim não seria vida. Segui o carro da moça temendo pela vida de minha querida, angustiado pelas lembranças das palavras bruscas que usei para afastá-la.

Dirigimos por uma estrada esburacada que levava a uma casa pequena na beira do rio. Desci e com a pele coberta pelo suor inquiri à jovem. Ela me dizia confusamente que, entristecida sem mim, Kalinca resolvera morrer, trancando-se ali com armas letais. Trêmulo, chamei por ela até que uma porta abriu-se levemente e entrei. Ela estava viva.

Uma armadilha! Do amor, do destino! A garota lá fora buzinou risonha e partiu. Eu estava preso junto a mais doce pessoa que conhecera. Que dizer? Amei-a com paixão. No entanto, quando mais tarde tentei sair, me descobri realmente preso. Eu deveria ter percebido, resquícios de morte e dor impregnavam o ar, mas tão concentrado estava em Kalinca que ignorei meus sentidos. A casa, servindo aos objetivos escusos do pai, era em verdade uma prisão, a única chave estava com a amiga e esta só viria depois de três dias. Depois de tentar sair de inúmeras formas, aceitei. Três dias. Pensei que seria o suficiente, mas não contava com o destino.

Foram três dias de alegria, de amor e risos, tudo estava preparado para nós dois e nada nos faltou. Eu nunca fora tão feliz. No entanto, ela não veio na terceira noite, nem na quarta, nem na quinta. Até que no sexto dia, a noite chegou e o medo me invadiu, se ela não viesse, seria tarde, muito tarde. A prisão forçada começava a inquietar minha amada, que chorosa pedia-me perdão. Eu guardava minhas apreensões em silêncio, angustiadamente, sentia a ameaça que nos rondava. Caminhava na minúscula sala como uma fera enjaulada. Sim, uma fera enjaulada, eis o que eu me tornara.

Ah, minha doce Kalinca. O que você fez?

*

Frio, sinto o frio cortando minha pele. Não sei onde estou. Deitado nesse canto obscuro de um esgoto fétido, as lembranças vão retornando. Eu ainda estaria lá, naquela sala minúscula? Sonho e realidade se confundem.

Lembro-me de estar vendado, dos dias de imobilidade forçada, da dor, da pressão e dos sentimentos confusos acumulados forjando uma intensa explosão interna. Nos meus delírios, podia sentir o controle perdido, a besta se aproximando, tênue, estendendo as garras imundas e tocando minha pele por dentro. Eu me lembro: uma risada debochada escapou pelos meus lábios feridos e me assustei com sua ferocidade. Foi o riso que os descontrolou, entretanto, já era tarde.

A fera estava à espreita, aguardando. Podia senti-la na febre que me consumira.

— Ela te amava sabia? Minha menina te amava... — eu sabia quem falava, apesar de não ver o rosto nas sombras, reconhecia a voz do banqueiro, sem orgulho, sem raiva, apenas em desespero contido, enquanto ele saia do aposento. — E eu não pude impedi-la. 

Sofri mais um ataque feroz. A dor já não importava nesse momento, apenas a febre, a fera. E eu ria debochadamente. Podia ouvi-los pela respiração ofegante, eram quatro.

— Querem saber onde ela está? — É sempre assim quando a fera vem, suplanta meus sentimentos e obscurece a razão. Deleitei-me com o suspense.

— Está aqui, comigo! Ela vive em mim, na minha carne, no sangue que me embriagou, na carne que me satisfez. — E eu ria, ria e ria enquanto o choque perante meus gritos paralisou os homens que por vários dias buscavam a resposta. — AH, MINHA DOCE E SABOROSA KALINCA.

Mas então a dor voltou, intensa, feroz. Os espasmos me contorciam, me dilaceravam, minha pele estava sendo rasgada, minhas unhas cravaram-se na minha própria carne e uivei. Uivei e o tecido que me cobria desapareceu enquanto os pelos me feriam, rasgando sua própria trilha nos meus poros, o sangue fervendo em instinto puro. Meu último pensamento foi a certeza de que a noite chegara: a lua nasceu e com ela, a fera me vencia mais uma vez.

*

Depois acordei aqui e sei que estão mortos. Simplesmente assim. Os homens daquela sala morreram.  Menos ele que me observava em outro aposento. Sei que ele fugiu quando a fera se soltou. Mas jamais irão crer nas palavras de um velho consumido pela dor da perda, desesperado para encontrar a filha desaparecida. Meu segredo está garantido, debalde ele me persiga, será apenas mais um em busca de uma vingança infrutífera.

Não, não tenho lembranças daquela noite, nem da noite em que Kalinca se perdeu. Quando a fera vem, quando ela vai surgindo devagar, a terra gira e o luar vai aparecendo, ah, posso sentir o veneno, o sabor, o prazer que ela usufruiu e algumas lembranças emergem. Mas, nunca tenho clareza sobre os fatos. Despertar coberto por sangue, cercado por carne dilacerada já não me surpreende. Um mito, um deus, uma lenda? Não, é apenas o que sou, o meu legado, a minha sina. Um lobo oculto na pele de um homem. Atravessando cidades, tentando encontrar uma existência normal até que o próximo luar liberte a fera que vive em mim.

Então, o lobisomem uivará mais uma vez e não sobrará carne alguma sobre os ossos.

*

Conto publicado originalmente na antologia Histórias Fantásticas Vol. I - Editora Cidadela

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COISA DE ARCAICAS TIAS - Conto de Terror - Natanael Gomes de Alencar



COISA DE ARCAICAS TIAS
Natanael Gomes de Alencar


I
   

Naquela sala, estava frio. Um frio do Alaska. Da Sibéria. A alma dela também. Fria. Picolé do bode-rubroanho. Mas simulava gentilezas. Seu nome — Penélia. Costureira conhecida. Muitos anos de batalha. Depois de um tempo, dera-se ao luxo de escolher pra quem costurar. Era muito procurada por grupos de escola de samba — mesmo tendo se apossado do que não era seu em uma delas - e de teatro. Naquele momento, falava com o homem, que tinha uma arma, chamada de Créssida. Uma Taurus 838c. Novinha. Pensara num funk pra arma. Novinha — palavra que lhe teimava quando pensava. Mas empacara. A Créssida era especial para aquele feito a vir. O homem sorvia um cafezinho e a ouvia. Ela falava. Ele escutava, reparando a parede com infiltrações. Dera um trabalho chegar naquela chácara. Quase fundira o motor. Ruas cheias de galhos, troncos, pedras e buracos.

Dona Penélia, mulher no auge da delicada fúria, profissional de mão cheia, era rija, volumosa, rosto amplo, olhos azuis como o mar e o céu juntos, vestida com um amplo vestido florido. Ele chegara com dureza desconfiada. Educado e temeroso. Vestia um terno fora de época. Tinha um bigode grosso e lustroso. Depois de cerca de meia hora falando de coisas triviais, alguns palpites sobre o que seria mais adequado vestir nas situações. Não que ele tivesse perguntado. Depois de discorrer sobre sua arte de alinhavar, ela entrou no assunto que lhe interessava: ela.

O tempo foi passando e meu nome se apagando. Mas nunca me importei com isso, sabe? Quando começou minha fama pouca, média, mediíssima talvez, eu morava no centro, e pra ganhar meu pão, além de fazer minhas costuras, vendia uns tapetes de tecido grosso, com desenhos de amor, aqueles amores de mito, de lenda. Vendi muito. Maidaconta. Durante uns oito anos. Minhas freguesas sempre foram muito apaixonadas.

Assim eu ia tomando conhecimento de suas paixões. Não precisava muito pra isso. Meu marido sabia da vida de todas. Sempre foi dado com todo mundo. Já eu não. Não sou de muita prosa. Sei fazer meu serviço, isso sim. Ninguém nunca reclamou. Tenho muita experiência como costureira. Das boas.

Quando fiz dezesseis, mãe achou que tava na hora. De especular outras  coisas. De visitar a Tríade. É que eu tinha umas tias no interior, de fora e de... dentro talvez... quer dizer: ainda tenho. Dentro aqui. Eram exímias fiandeiras. Teciam numa roca bem antiga. Moravam há décadas, diziam séculos, na fazenda Tríade. Onde os recursos, sabe, eram parcos. Mãe colocou na cabeça que eu tinha muito a aprender com elas. Quando decidiu, foi rápida. Me fez uma matulinha. Me deu benção. Fechou a porta. E eu casquei. No rumo delas. Parti pela estrada afora, sabe? Tão sozinha. Levando uns problemazinhos para as tias-vovozinhas. A casa delas era muito muito afastada da cidade. Longe pra encardir. Mas eu tava decidida decididíssima a cumprir a vontade de mãe.

Andei muito muitíssimo muito. Se eu não tivesse decidida... Mas eu tava. Queria fazer a vontade de mãe. Andei muito demais. Nunca andei tanto na vida. Subi morro, desci rio, atravessei pinguelas, coisa de louco. Meus pés ficaram uma ferida só. Mas cheguei. E no fim da caminhada elas tavam lá, todas na varanda, pulando feito crianças, a me esperar. Quase trupicando uma na outra. Feito arteiras arcaicas crianças. Foi só cruzar a ponte, vieram direto pro abraço. Nem pareciam da idade que tinham. Mãe dizia: “vão ser sempre jovens, tenham a idade que tiverem. Porém, chegam a parecer velhas, se velho for o estado de quem as veja.” Quem as visse diria que eram gêmeas. Mas não eram. Havia diferença de um ano entre elas. A mais velha e mais alta tinha o nome de Nona. A do meio e mais baixa era tia Décima. A baixíssima que o povo chamava de A Morta, tinha o nome verdadeiro de Findânia. Nomes bem esquisitos verdade. Verdade? Minha família é cheia de gente com nome esquisito esquisitíssimo. Tia Nona possuía o costume de chamar todos por fia, desde há muito, e acabou que ganhou na infância o apelido de Fia. Até se esquecia de seu mítico nome. Engraçado que justamente a que fiava ganhou o apelido de Fia...Então, mal entrei, sentei e comecei a tomar café, tia Fia me puxou de lado. Gostava de saber de recém-nascidos, de embuchamento: - Filhinha fia minha, vem cá, me conta sobre as grávidas. Quantas engravidaram na família nesses últimos dez anos? Segurei o fuso com o qual ela tecia. E respondi a ela que, nesses dez anos, só minha mãe e eu ficamos de bucho. Falei tudo. Que fiquei grávida com dez anos. Que meu bebê viveu só sete meses. Que era filho de um bandido que me atacou. Tia Fia nem quis saber. Foi apanhar roupa no varal. Tia Deci ficou matutando na minha história. Quando falei na morte do bandido, Tia Findânia foi a única que sorriu. Esta era chegada em morte. Uma gulosa de velório.

Tia Fia teve dez gestações. Mas não vingaram, falou Tia Deci, entrando com as roupas na mão. Na última, ainda tavam na cidade. Quando fez trinta e seis semanas, o marido, bicudo, louco de droga, atingiu ela com um chute. Matou o feto. Tia nem esperou a noitinha. O disgramado nem gritou. Sabia do seu merecimento. Tia era rápida no destecimento. Sem sangrar. Fosse Shy, o de Veneza, tiraria uma libra de carne sem derramar líquido. Tia Deci começou a falar. Dum amado que Fia teceu para ela. Moreno, baixo, atarracado, de início bom assim, mudou com o tempo, assado, e se mostrou, do armário saído um verme infame, afamado nos jornais como assassino de cinquenta e poucas mulheres. Conhecido como Cobra do Parque. Despertava medo e ódio. Tia Deci achou que ia conseguir mudá-lo. Tia Fia, de dó, mas só por causa da mana, desteceu e reteceu o jumento canibal várias vezes. Não adiantava. Voltava a cagar na cerca. Preso umas trocentas vezes. Tornou-se ele um dos detentos que mais recebiam cartas de amor na prisão; no primeiro mês detido, foram mais de mil. Tia Deci era uma delas, a mais apaixonada, pathos, casou-se a triste com ele na prisão. Condenado à prisão perpétua, por seus horrendos desfeitos, entre eles a morte da ricaça grávida Mipala Dio. Brutalmente asfixiespancada naquele hotel, como é mesmo o nome? Mesmo assim, depois de cinco anos de prisão, o facínora teve licença para aliançar o romance com Tia Deci, que tinha, veja só você, vinte, vinte aninhos.

Tia Findânia não aguentou !

Certas coisa a idade não desculpa. Que mulheres são essas que amam assassino? Como? Num é só a carência no mei das perna, né, Décima? Mas quem sou eu pra jogar pedras, né mesmo? Algumas de nós gosta de ser valente e diferente....os monstro tem sedução e os anjo são bunda mole...

Tia Deci se escondendo. E Tia Finda provocando.

“ É como estar com um ratinho numa gaiola. A gente sabe que eles tão presos e só vão comer na nossa mão. Não vamos sofrer traição. Se somos traídas e humilhadas pelo homem livre, não somos pelo homem preso.... Dá adrenalina, né, Deci?”

Tia Deci tava sufocada pela nhaca do assunto, mas Tia Finda continuou e declarou:

Então, tive de me meter. Cortei o fio. Redei o monstro do home da linha da vida dela.

Tia Fia quis colocar um tempero de piada na conversa. “— Você é tão jovem e já aperta bem o fuso, hein? Você gosta de fuso grandão ou pititim?”

E começava a rachar o bico, enquanto as outra tava tudo séria. Afinal eu só tinha dezesseis. E continuou nas gracinha:

“ Como chama a mulher que sabe onde seu marido tá todas as noites?........Vai dizer que ocê não sabe?....  Viúva. Entendeu? O marido tá sempre debaixo da terra! Pelo menos até virar cinza!

“Por que as mulher não quer mais se casar?....Responde, vai....Não sabe?..... Então, eu digo: porque não é justo! Imagine: por causa de algumas grama de lingüiça ter de levar o porco inteiro!” ....

Na época não entendi neca de pitibiriba.

Tia Deci, compreendendo a timidez de meus dezesseis, rapidamente passou a mão na frente de meu rosto e me vi de língua sem tramela.

E contei pras tia que, quando fiz dez ano, mãe vivia dizendo que eu tava com o diabo no corpo, com gastura pra furunfar e isso tava esquentando a piolhenta dela... Mas eu era só uma menina ispiculadeira de dez anos. Gostava das coisas da natureza. De espiar as flor, de terra, de mar. De sujar os pés na lama. Na vera, ainda gosto. No caminho pra cá, fiz tudo isso....

Mãe sempre foi de lua. Ou era muito boa, ou muito cruel. Eu com dez anos sofria muito, sem saber por causdequê. Quando fiz dezesseis, comecei a desconfiar. Do meu primeiro corrimento de sangue pelos nove ano, até mais “o meno” os dezesseis, ela deu de me olhar diferente.  Resmungava maidaconta pelos cantos, dizendo que mulher nasceu pra sofrer.

Quase todo dia, escutava mãe me dizer que eu tinha que ser acorrentada! Tinha que trancar a minha diabuceta com cadeado! E meu irmão? Num tinha que trancar o diamusquito dele também? Ele podia fazer tudo, desde pequeno. Quando fiz quinze, que mãe passou a me atazanar menos. Dizia que se arrependia de ter me arreliado tanto, e que a gente, filhas de Eva, tinha mais é que se acudir. Quando disse isso, as tias olharam uma pra outra, balançando a cabeça.

O Lico era meu único irmão. Andava sempre de banho tomado. Me dizia que o diabo odiava limpeza. Já santo não, adorava ficar limpinho, como minha pele! E passava o dedo. Um sem-vergonha! Desde menino, o falso vivia lendo livro religioso. Queria ser padre. Lia bíblia de crente e de católico. Sabia tudo decorado. Cabeça boa.

Meu pai dizia também que Lico era o mais inteligente, o melhor de nós. Eu ouvia calada. Porque eu sabia que era eu, pois eu lia livros de qualquer assunto, queria saber de todo livro. Não tinha preguiça de ler. Desde bem pequetitinha...

Os olhos de Lico me comiam como duas portas de inferno, escancaradas. Todos de casa fingiam que era outra coisa. E eu tapava as orelha pra não ouvir o barulho feroz do bicho dentro dele. Até as batidas do seu coração eu escutava. Quando falei isso, notei os olhos de deusa furiosa das tia.

Me olhava até com mais gana que os homens do bar. Se fazia de santo e de anjo. Do pau oco só se for. Casca fina e oca, só se for. Me despedaçava com suas sedes e toques, como se eu fosse uma qualquer.

Vivia regulando meus vestidinhos. Se eu tava de vestidinho até o joelho, ele achava que eu tenha de baixar mais. Mas eu vistia o que tinha pra vistir, uai! Toda hora, que se chocava comigo em casa, ia prum canto rezar...Como é que era mesmo a oração dele?...Ah, lembrei. Ele rezava assim: “Jesus, Maria, José, nossa família tua é! Sai, Satanás, pecado de mulher, desta família de fé!”

Eu Satanás? Eu? Ele que era o dianho, o capiroto, o amigo do gerente, o Sete-Peles. Falei pro pai do olho comprido dele nos meus peitinhos. E pai defendia o disgramado. Pai dizia que qualquer homem ia olhar. Até ele. Disse ainda que eu nasci pra atazanar os homens, que nem uma Pomba Gira!

Aposto que nem sabia o que era Pomba — Gira. Chegou até a me mandar pra Dona Bina Benzedeira. Pra ver se a pomba era dominada. Caiu do cavalo. Mãe Bina disse que eu não tinha nada. Falou que eu era só uma menina moça de peito crescendo, claro que os varão ia ficar tudo de tesoura amolada, doidinhos pra me descosturar!

Mãe Bina...  Mãe Bina fazia cada churrasco. Foi com ela que pai aprendeu. Quando aprendeu, começou a fazer churrasco quas’todo sábado. Nunca vi alguém mais chegado em carne que ele. Depois que meu irmão fez treze, não sei causdequê, pai começou a mandar ele pra casa da vó Nita. Sabia como manipular Lico. Mãe não dizia um “a”.

Meu irmão até que adorava ir pra vó. Tinha piscina, festa e bastante mocinha, quase todas primas de sangue. Que nem dava bola pra ele. Coitado...Quer saber: coitado nada. Lico merecia.

Dizia que que os churrascos de pai pareciam churrascos só pra gente velha. Lico dizia que só dava tribufu.  Meu pai tri e elas bufu. Ou meu pai fu e elas tribu...engraçado.

Quando ficava bêbado, humilhava muito minha mãe. E, chapado como um cão dos infernos, saía por aí, pelo mundão. Pulava de bar em bar e a cada bar aumentava os amigos. Depois terminava nos braços de alguma amorosa. Quando disse isso, tia Deci quis saber quem eram as amorosa...

Geralmente amigas de mãe. Elas vinham com papinho sonso:

“O coitado tava jogado na praça. Foi abandonado pelos amigos. Tive pena dele. Tadinho...
— Me pediu ajuda. Não atinava com o rumo. E a comadre sabe que eu tenho coração mole, né. Não deixo desamparado um conhecido. Jeito nenhum. A comadre sabe.
— Em mim, a bondade é natural, como diz Padre Fuentes.  Deixei ele dormir na garagem lá de casa um tiquinho. Mas lá é muito confortável. Tem um sofá que parece uma cama de casal quando abre. Não passou frio não, viu?”

Mãe respondeu uma vez: “é, não deve ter passado nenhum frio mesmo, deve ter usado cobertor de carne...das bem pelancudas, que são as que aquecem bem. Brigada por ter trazido. Não precisava. Mas a comadre podia ter telefonado, né?. Tchau

Pudesse, mamãe fazia farofa na hora com as tripas dela. Falar nisso. Tou com uma vontade de comer farofa de tripa de porca. Será que inda tem?

Disse pras tias que um ano antes de ir pra casa delas, quando fiz quinze, Lico se tornou mais atrevido, e a desculpa dele era a de me limpar dos demônio pra ser uma serva de Deus. Ele evinha pra cima todo cheio de carinho e conversa babujada. Pegou uma mania de me dar cafungada no cangote. Tentava passar a mão no meu rosto. E dizia que eu tinha a pele macia, que nem nuvem, como se olhasse nuvem de perto...Acho que ele gostava de levar tunda, porque teimava em repetir o mal feito. Falei pras tias que antes de ir pra casa delas, ouvi fala de Lico e de pai arapucando coisa ruim pra mim no quarto de Lico. Falei pra mãe e ela acho que por isso teve a ideia de eu pra cá tomar o rumo.  Ela até chorou. Antes nem.

Tia Deci passou a mão em meu rosto e eu me calei. Lembrava de tudo que foi confessado. Depois, serviram pra mim um chá. Um chá que me deixou tão feliz. Fiquei dois dias com elas um pouco mais. O bastante pra me firmarem em rituais de tenda vermelha, antigos, que me deram força de dentro-deusa-mãe-nossinhora. Disseram até segredos de mãe. Que pai foi tecido e destecido por Fia maidaconta. Muitas vezes. Como aconteceu com meu irmão desde que o senvergonha se soltou. Não dava porém mais jeito.

Quando voltei pra casa, foi como estivesse com todas as mulheres da família dentro de mim. Logo, logo, mãe começou a me ensinar segredos da costura. Principalmente dos cortes. E os churrascos foram aperfeiçoados com rituais invisíveis. Tias eram sábias de vingança medeia. E a cada churrasco remoçava mais.

Aquela estação passou. Chegou a vez de traçar um plano bem maturado, inspirado nas tias. Foi rápido, rapidíssimo. Foi de fácil execução. Fizemos uma janta especial pros nossos homens...não muito homens, né?  Mentimos que ninfas de eitos da família iriam fazer visita depois do jantar. Só disse pra eles ficarem mais emocionados. Dei a ideia de fazer tapeçaria com eles. Lemos muito sobre tal fazer alquímico. Tudo tinha de ser feito de um modo perfeito. Sem demoras. De maneira rápida rapidíssima, delicada delicadíssima.

Compramos muita bebida. Das fortes e fortíssimas.  Era preciso. Muita destilada. A hora passando, urubus volteando em cima, e os dois foram capotando aos poucos. Depois da meia noite, quando estavam roncando feito porco de banha, arrastamos eles pro porão, onde a tapeçagem foi tranqüila. Não tivemos medo. Além do mais, nossa chácara era isolada.

O tempo saltou mais um tanto. Mãe morreu. Muito depois dos homens. Mulher vive mais. Coisa das deusas. O tempo foi passando. Mãe morreu. Muito depois dos homens. Minhas primas devem de estar por aí em algum bosque. As tias? Como me separar delas, se estão despejadas dentro de mim, no interior de meu eu verdadeiro.
 
Durante algum tempo, morei longe da chácara. Numa casa do centro da cidade. Teci meu marido logo depois da morte de mãe.  Eu me sentia muito só. Precisava de um Príncipe, um bom homem. Galanteador. Respeitoso. Que pudesse ser um bom pai. E que fosse um homem vigoroso, ardente. Afinal, eu tinha o dom de tecer pessoas, já nascido comigo, dom revelado a mim pelas Tias.

Quando terminei de tecer ele, o home ficou embasbacado. Quis entender o meu dom. Expliquei a ele que era um dom de berço. Herdado de almas antigas.

Mas sua curiosidade não tinha limites. Me pedia que tecesse coisas, dinheiro, enfim, bens materiais. Apesar de ter falado pra ele várias vezes que só tinha o dom de tecer pessoas.

Dentro de um ano e meio, casamos. Lembro da gente ter dançado com aquela música tocando: “Me encontrou tão desarmada, que entreguei meu coração”. E os dias foram correndo. Perfeitos e intensos. Éramos muito felizes.

Me tornei uma boa costureira. Logo depois, veio o fato que mudou minha vida. O nascimento de nosso filho. Na primeira vez em que pegou Odisseu nos braços, disse que ele seria um campeão, um conquistador e que seus zóio ia botar as rapariga tudo no pé dele! O menino foi crescendo diferente, tinha uma alma de mulher. Uma boa. De mulher boa. Não de mulher má. Alma terna, pura, desde petitinha.

Uma vez, minha Odisséia tinha oito anos, a gente já tratava ela como menino. Foi prum, canto do quarto, pegou uma tesoura e ia cortar o próprio pintinho. Um ato de desespero. Foi até o pai que descobriu. Rastou o menino pro quarto e ficou um quinze minutos de prosa...

Noutra vez, ele tinha uns doze. No final de um jogo, todo mundo alegre no banheiro, e quando meu menino foi tirar o short, viu que tava de calcinha por baixo. Vestiu de novo o short. Mas todo mundo já tinha visto. Quando chegou em casa chorando, o pai tava esperando com seus amigos de bar. Não me lembro quem contou pra ele.

Arrastou o pobre pro quarto. E quando eu fui atrás e tentei entrar, bateu a porta na minha cara e trancou. Fiquei imaginando o que ele tava fazendo com minha Odisséia...O tempo passou mais um tanto. A gente voltou pra chácara. Meu filho virou uma moça bonita, equilibrando com o que já era por dentro. Uma mulher sensível. Merecendo ser mulher mais do que certas mulheres que andam por aí.

Teve um dia que minha Odisséia tava com um vestido bonito e meu marido até elogiou! Levou ela pro quarto e ficaram lá proseando um tempão. Nem me deixaram entrar... Passaram-se uns dois meses. Lembro que era Lua Nova. Não se pode preparar porcos em Lua Nova. Aprendemos. Enquanto a gente esperava a Lua de quarto - crescente, Odisséia ia se aperfeiçoando. Aprendeu a amolar e limpar todo tipo de arma branca.

Maneja agulhas como artista de circo. Minhas Tias por dentro davam conselho a ela. Odisséia treinou muito no porão. Como uma ninja. Virou uma verdadeira Mulher Maravilha. Fez também, de um tecido mais grosso, uns bonecos de areia pesados. E quando o pai tá longe, treina com eles de um canto pro outro. Arrasta eles daqui até o quintal. Daqui até o porão. Do porão até aqui. E marca direitinho o tempo. Fico espantada com a rapidez da danadinha

II

Meu marido não sabe que hoje vai ser um dia especial pra ele como foi pra elas. Todas tiveram um dia especial. Todos nós temos. Só esperar. E é fatal. Alguém sempre está à nossa espera. Em algum momento da vida, a gente chega na nossa casa e dá com alguém esperando... Esperei todas. Todas elas... Planejei minuciosamente...

A primeira foi com uma linha. Mergulhei a linha em cerol. Fiz um cerol bem feito. Bastante cola com bastante vidro moído (inconscientemente, bate os dedos na mão contrária pra tirar o excesso). Ela, a primeira, veio provar um vestido. Chegou de maneira bem-educada:

— Posso entrar?

— Pode. Não precisa nem sentar, que eu já tomo as medidas...

No começo do casamento, ele era cavalheiro. Tão. Mais da média. Muitíssimo.  Se aproximou de mim como a maioria. Gosto da maioria. Mas palavras doces dizem só pra nos enlaçar. Disse que tinha tara por costureiras. Gostava do momento de se tomar as medidas. A proximidade do hálito. A fita nas costas, no tórax. Quase no sexo. Era a sua tara. De início, eu era muito xucra. Ele disse que me ensinaria. Que eu não me preocupasse. E me guiou nas minúcias do coito. Com violência, mas me ensinou. Já era louca, fiquei mais louca por ele. Meu pathos. Já tava enormizando minha criação de pathos. Mas quando ele virou a cabeça por umas vagabundas do bairro, eu fiquei furiosa. Excitei os pathos todos. Aquelas prosti. Prusta. Puta. Uma delas, Brigite, tava todo dia aqui.

— Você engordou um pouco.

— Impressão sua. Tá velha. Com miopia de costureira. É a roupa que lhe dá ilusão.

Fiquei com gana de fazer uma besteira. Aprendi com ele. Professor de coisas de bestiário psicológico. Ele sempre foi um homem violento. Como meu pai. Me excitava com suas pegadas fortes. Comecei a gostar dos exageros...Ele gostava muito que eu ficasse de quatro... Deixava minha bunda toda vermelha...
.
— Vou abrir mais essa cava... Já resolveu se quer a gola imperial?

— Sim, mas sem recortes e sem pespontos. Mas vai logo que tou com pressa. Você ta ficando lerda. Não era assim.

Peguei a linha, me aproximei, bondosa e serviçal, e de imediato - “zap” - cortei
sua veia aorta... Sabe, gosto de fazer um serviço rápido. Sou uma costureira de muita perícia. Se me dá na cabeça fazer, faço. O trabalho sai daqui ó.
  
Desde o início, tive medo que as freguesas perguntassem das manchas em sua pele. É que ele adorava apanhar. Que eu enforcasse com umas argolas seu feroz fuso. Que eu o chicoteasse como ele me chicoteava. Sempre teve desculpa pra cada ferimento. Fui me adaptando às suas violências. Aprendi a comprar cremes pra facilitar as fantasias - estupros que ele me fazia. Se ele me olhava e a bunda não estava quase sangrando, me batia mais forte na próxima vez. Será que elas batiam nele também?

— Quer que eu mantenha a abertura tradicional ou você quer a lateral?

— Acho a tradicional mais discreta...Só 5cm de fenda, hein...

A segunda amante dele era minha melhor amiga. Como eu fui sonsa. Não teria percebido nada se... Um dia eu tava escovando o terno dele e encontrei...Eu sabia que era dela... Eu que vendi pra traíra. O meu melhor trabalho.

— Você sabe que pode dar um volume maior aos seios, não sabe, amiga?

— Sei... É disso que gosto. Deliro com a ideia de ressaltar o colo.

E o sutiã dela eu fiz com muito esmero. Comprei a melhor renda, numa cor Vermelho-paixão. Afinal, era minha amiga preferida. Ela queria um sutiã erótico. Fiz um na exata medida de abrigar os peitos dela. Eu nem imaginava que ela iria estrear com meu marido...Ele deve ter se babujado, achado uma delícia. Nem deve de ter percebido que eles eram quadrados, cheios de veias e estrias, parecendo gelatina. Minha opinião de costureira! Não de traída.
 Quantas vezes, minha mãe cuidou dela quando era menor. O pai e os primos abusavam dela direto. Cansei de apoiar a cabeça dela nos meus ombros. E agora a sem-vergonha dava pro meu marido......Verdade que pagava bem as costuras que eu lhe fazia.

— Quer passadores duplos na cintura?

— Não. Esta saia usarei sem cintos. O cós pode ser mais estreito.

 Sempre foi generosa. E sonsa. Aposto que ele rasgou com os dentes. Há tempos atrás, quando eu estava mais, ele costumava destroçar com os dentes minhas calcinhas e sutiãs. Planejei a morte dela uma semana antes. Inventei o pretexto de lhe dar uma peça íntima inigualável.  Uma peça erótica diferente. Uma novidade que eu criara inspirada numa modelo internacional. Ela caiu...

— Botões de madrepérola ou madeira?

— Madrepérolas, é claro. Quero as ombreiras embutidas.

A segunda fulana, da rua de trás, parecia ter um joelho no rosto. O seu nome era Débora. Tinha uma bunda um pouco torta, de silicone, fruto de uma cirurgia mal feita... Ele bolinava elas na minha frente... o desgraçado...Até que...tive a idéia de dar um fim nas duas. Comecei a arquitetar a morte delas. Brigite foi fácil. Gostava de viver aqui. De fofocar dos outros. De lamber com os olhos o que era dos outros. Outras. Até conseguir a satisfação. Nas minhas costas. Na frente. Em cima. Embaixo.

— Bolsos tipo faca podem deixar os quadris maiores...

— Não, se presos ao cós e pences. Mantenha-os, por favor. Que fedor! Tomou banho?

Ainda isso. A vaca. Me aproximei por trás e enfiei-lhe uma ponta de tesoura envenenada na nuca. Demorou pra que eu a retalhasse. Carne muito dura. Piquei a carne em blocos pequenos. E temperei bem.

A outra, do outro dia, fiquei pensando em reconsiderar. Ela chegou tão contente. Tão feliz. Mas desconsiderei a reconsideração.

— Vou ter que apertar mais aqui.

— Me parece que atrás também...

Peguei a agulha e finquei no meio de seu coração... Herdei de minha mãe o dom. Minha mãe matou todas as amantes de meu pai. Todas amigas. Minha mãe matava e eu ajudava a retalhar os corpos. Fizemos grandes churrascos. Ninguém desconfiou. Sempre gostaram do sabor da carne.

A derradeira que me deu muito trabalho. A atriz. Era a mais desconfiada. Tive de esperar um mês. Deixei-a no centro da sala, olhando uns modelos de vestido transparentes, e fui pegar uma régua de costura metálica que estava encostada no canto. Fiz tudo com cuidado.

— Vou ter que deixar mais largo aqui.

— A altura também. Quero abaixo dos joelhos. Assim.

Peguei, mensurei as pernas, com cuidado, e deslizei a régua, que eu tinha deixado qual uma afiada navalha e penetrei nos seus quadris. Quando ela desmaiou, esguichando sangue, Odisséia não demorou, deu um jeito de parar aquela cachoeira. Limpou tão bem! Que beleza! Minha filha amada! Nem parecia que alguém tinha morrido. Quando desnudamos o corpo, notamos uma coisa. Uma coisa que estava bem oculta. A mulher tinha um. Quando virou churrasco, foi a melhor parte. Dividimos pelo meio. Parecia uma auroreal e sádica lingüiça do açougue do Pepe. A melhor da região.

Nossa, está escurecendo, o meu marido está pra chegar. Hoje é o dia dele. Aniversário? Seu? Não? Dele? Pode ser. Ah, sim, eu quero que o senhor faça tudo rápido. Por isso a paga farta. O senhor não reclame. Dei a si tudo o que poupamos em barras de ouro. Certo?

O homem formal fica sem jeito, sem saber como proceder. A porta se abre, mas, entra... o invisível. O essencial aos olhos? Ninguém? Ih, ela é louca... Mas a porta se abriu sozinha. Quê?

— Olá, amor! Que bom que você chegou. Eu já vou preparar o seu jantar. — Beijou o ar e foi beijada por ele.

— Eu estava te esperando. — Pegada ao colo pelo ar. Pelo peso, o ar é potente.

O homem formal assustou-se.

— Ah, sim. Me solta. Deixa eu te apresentar. — É depositada no solo.

— Benzinho, este aqui é um freguês novo. Filho do seu Caronte.  — Sente a mão úmida do marido apertando a sua. Como?

 — Meu marido... quando ia falar o nome de novo é sustentada no colo.

— Eu tenho uma surpresa pra você, sabe? — O invisível, feliz pelo aguardado, gira com a esposa no colo. — Vamos na cozinha. Odisséia tem um chá pra você.  — Já voltamos, seu Bigode.


Misteriosamente, o assassino, contratado para matar a costureira e sua filha, depois que dessem um fim no homem-pai-marido, se encolheu na poltrona até ser sugado, sumir. Por mais que tentasse fugir, era impossível. Quem mandou aceitar o serviço num lugar tão escamoso?



Natanael Gomes de Alencar nasceu em Cubatão – SP. Na década de 90, conheceu e colaborou com a Mirante – revista literária santista da qual ainda faz parte - e com a Revista Pégaso (também santista). Ainda nessa década, foi membro da Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leôni, Petrópolis –RJ. Participou do Mapa Cultural Paulista, de alguns concursos regionais, e hoje faz parte da Casa do Poeta da Sociedade Amigos da Biblioteca – SAB - Municipal de Cubatão e declama poemas conhecidos e desconhecidos na TV Comunitária local – TV POLO.







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