DEIXA OS MORTOS EM PAZ - Conto Clássico de Terror - Ernst Raupach


DEIXA OS MORTOS EM PAZ
Ernst Raupach
(1784-1852)

Walter suspirava dolorosamente pelo falecimento de sua amada esposa Brunilda. Era meia-noite e ele estava junto ao túmulo, no momento em que o espírito que urra nas tempestades lança suas malditas legiões de monstros. Lamenta-se todas as noites junto à cripta, sob as árvores geladas, apoiando a cabeça na lápide de sua esposa.

Walter era um poderoso cavaleiro da Burgúndia. Havia-se casado com Brunilda em sua juventude, quando os dois se amavam loucamente, mas a morte a arrebatou de seus braços. Ele ainda sofria, apesar de estar novamente casado com uma linda mulher chamada Swanhilde, que era o oposto de sua mulher: dama loira, de olhos verdes e de faces rosadas, e que lhe legara um filho homem e uma menina.

Walter não encontrava descanso: ainda amava Brunilda e desejava com toda a alma tê-la junto a si. Ele constantemente comparava sua esposa viva com a morta. Swanhilde notou a mudança no marido e se desesperava para cumprir a sua vontade. Mas nada adiantava, já que a obsessão de Walter era ter Brunilda novamente, e essa ideia fixa, constante, apoderara-se de sua alma. Toda noite, visitava ele o túmulo de sua linda esposa e perguntava, com tristeza:

— Irás dormir eternamente?

Lá estava Walter, estendido sobre o túmulo.

Soava meia-noite quando um feiticeiro das montanhas entrou no cemitério para colher as ervas que só crescem nas sepulturas e que são dotadas de um terrível poder. Aproximou-se daquele sepulcro em que Walter chorava e perguntou:

— Por que, infeliz, estás atormentado assim? Não te deves atormentar pelos mortos, pois também morrerás um dia. Quando tu choras por eles, não os deixa descansar.

— O amor é a maior força do universo e eu amei aquela que aqui agora apodrece. Quisera que ela voltasse para mim — respondeu Walter, com pesar e loucura.

— Acreditas que irás despertá-la com teus lamentos? Não vês que estás a perturbar-lhe o repouso?

— Vai-te daqui, ancião! Tu não conheces o amor! Se eu pudesse abrir a terra com minhas mãos e trazer minha querida Brunilda de volta à vida, eu o faria a qualquer preço! — Walter gritou.

— Ignorante! Não sabes o que dizes. Tu estremecerias de horror ante a ressuscitada. Não sabes que o tempo degrada os corpos? Teu amor se converteria em ódio.

—Antes caíssem as estrelas do firmamento. Eu arrebentaria meus músculos e ossos se ela ressuscitasse. Jamais poderia odiá-la.

—Tu falas com o coração aquecido e a cabeça fervente. Não te quero desafiar a devolvê-la: logo verias que eu não estou mentindo — disse o velho.

—Ressuscitá-la? — Walter gritou, jogando-se aos pés do mago. — Se és capaz de tal maravilha, faça-o! Faça-o por essas lágrimas, pelo amor que quase não vive mais sobre a Terra. Farias a melhor obra de bem em tua vida.

—Calma! Se decidires que assim há de ser, volta à meia-noite. Mas eu te aviso: deixa os mortos em paz!

Walter voltou para casa, mas não pôde conciliar o sono. No dia seguinte, em plena meia-noite, esperava o feiticeiro junto à sepultura.

— Meditaste sobre o que eu te disse? — perguntou ancião.

— Sim, eu pensei sobre isso. Devolve-me a dona de meu coração, eu imploro. Poderei morrer esta noite se não cumprires a tua promessa.

— Bem — disse o velho —, continua meditando e volta aqui amanhã à meia-noite. Eu te darei o que pedes, mas lembra-te: deixa os mortos em paz!

Na noite seguinte, o feiticeiro apareceu e disse:

— Espero que tenhas pensado bem sobre a situação. Devolver uma pessoa morta à vida não é uma brincadeira. Será a última vez que te digo: deixa os mortos em paz!

— Chega! Minha amada não terá paz nessa cova gelada. Tens que devolvê-la para mim. Assim me prometeste! — Walter gritou cheio de ansiedade.

—Lembra-te: não poderás separar-te dela até a morte, mesmo que a repugnância e o ódio se apoderem de teu coração! Só haveria um meio assustador de alcançá-lo, mas não creio que tu queiras ouvir falar disto.

— Velho tolo, devolve-me Brunhilda! Como eu poderia odiar o que eu mais amava? — Walter uivou desesperadamente.

—Está bem. Já que assim queres, assim será! Afasta-te!

O feiticeiro fez um círculo ao redor do túmulo e uma tempestade eclodiu. Levantou os braços para o céu e começou a gritar frases em uma língua que não era humana. As corujas começaram a voar das árvores. As estrelas se ocultaram atrás das nuvens. A lápide que cobria o túmulo começou a se mover e alcançou a superfície. No buraco, o velho atitou várias ervas, enquanto continuava a murmurar com os olhos vazios. Um vento rápido e gelado emergiu do sepulcro ao mesmo tempo em que centenas de vermes escalavam a terra. De repente, as nuvens se abriram e a lua banhou a sepultura vazia. Sobre ela, o feiticeiro derramou sangue fresco contido em uma caveira e exclamou:

—Bebe, tu que dormes, esse sangue quente para que o teu coração possa bater novamente.

Como um vulcão em erupção, Brunilda se levantou, empurrada por uma força invisível da noite eterna em que foi enterrada. Tinha os cabelos negros como a tempestade, olhos azuis e uma pele muito branca. O velho feiticeiro a tomou pelas mãos e a conduziu a Walter.

—Recebe de volta a tua amada! Espero que nunca voltes a precisar de minha ajuda! Mas, caso precises, me encontrarás nas noites de lua cheia nas montanhas, onde os caminhos se cruzam.

Dizendo isto, afastou-se a passo lento.

—Walter —exclamou Brunilda—, leva-me logo ao castelo nas montanhas!

Walter saltou sobre o cavalo e, tomando a sua amada, galopou em direção às montanhas solitárias, onde tinha m castelo oculto. Ali havia vivido com Brunilda. Só o velho criado os viu chegar. Foi ameaçado de imediato pelo patrão, o qual lhe ordenou guardar silêncio.

—Aqui ficaremos bem —dsse Brunilda—, até que meus olhos possam ver a luz novamente.

Enquanto residiam no castelo, os poucos criados ignoravam por completo que sua antiga ama houvesse ressuscitado. Só o velho serviçal sabia a verdade e era quem lhes levava água e comida. Nos primeiros sete dias, viveram à luz das velas, com todas as cortinas cerradas. Nos sete seguintes, abriram as janelas mais altas, de modo que só entrava a tênue claridade do amanhecer ou do anoitecer. Walter nunca se apartava de sua querida Brunilda. Não obstante, sentia um calafrio que o impedia de tocá-la, cuja origem desconhecia. Tão grande, todavia, era o seu amor, que não se importava com isto. Estava certo de que assim era melhor que outrora. A sua esposa ainda era mais bela do que quando estava viva pela primeira vez, sua voz era mais doce, as suas palavras fluíam com emoção e toda ela o fascinava até a loucura.

Brunilda constantemente falava dos amores que tiveram no passado, fazendo a Walter emocionantes promessas que prontamente se realizariam: seu amor seria o mais profundo amor que o mundo já conhecera. Assim, embriagava seu amado de esperanças para o futuro. Somente quando falava do afeto que sentia por ele deixava que transparecesse o aspecto terreno das coisas; amiúde, discorria sem cessar sobre assuntos espirituais, eternos e proféticos.

Todos os dias dormiam juntos. Walter sentia a necessidade de abraçar a sua esposa, a ela unir-se em carne como antigamente, mas Brunilda se afastava bruscamente da cama e lhe explicava:

—Não querido, assim não! Como poderia eu, que regressei da morte para estar contigo, ser tua amante enquanto tens uma torpe mulher, que se faz chamar por tua esposa?

Walter havia enlouquecido e estava disposto a tudo. Um dia, arrebatado pela paixão, abandonou o castelo e cavalgou furiosamente por entre os bosques e as montanhas, até que chegou a sua casa, onde sua esposa Swanhilde e os seus filhos o receberam com carinhos e lindas palavras. Mas nada pôde acalmá-lo nem reprimir a sua cólera. Disse à sua esposa que o melhor era que se separassem, para que cada um ponderasse as coisas com calma e constatasse se havia realmente amor recíproco ou não. Swanhilde, cheia de compreensão, concordou.

No dia seguinte, Walter havia obtido a escritura de separação, cujos termos diziam que a mulher deveria regressar à casa de sus pais. As crianças ficariam no castelo. Então, Swanhilde lhe disse:

— Suspeito que me deixas pelo amor de Brunilda, de quem não podes esquecer. Eu te vi ir ao cemitério e rondar o seu sepulcro. Não me digas, Walter, que ousaste juntar os mortos com os vivos. Isto causaria a tua destruição!

Walter rememorou que fora aquilo mesmo o que lhe havia sentenciado o feiticeiro, mas não o percebera. Fez redecorar o palácio ao gosto de sua nova dona. A ressuscitada ingressou pela segunda vez em sua mansão como esposa. Walter disse a todos os criados do palácio que era uma nova noiva que trouxera de terras distantes, mas os moradores do castelo notavam a estranha semelhança que havia entre a senhora e a sua antiga ama Brunilda. Suas almas se encheram de assombro, pois esperavam o pior e, entre os serviçais, corria o rumor de que seu amo havia exumado a antiga esposa de sua tumba e com poderes mágicos a fizera viver novamente.

A nova senhora nunca usava outro vestido que não fosse a sua túnica cinza pálida; nunca usava joias de ouro, como as outras grandes damas, mas turvos adornos de prata — à guisa de cinturão — e brincos; pérolas opacas cobriam o seu peito. Brunilda só saía ao anoitecer, e tratava com severidade todos os criados que a rodeavam. Era uma mulher cruel, que castigava sem pretexto e por prazer. Tinha o poder de vida e morte sobre todos.

Outrora, o castelo estava repleto de alegria. Agora, porém, seus moradores tinham a face emaciada pelo medo. Estremeciam cada vez que cruzavam com Brunilda. Muitos criados caíram enfermos e morreram. Os que a miravam nos olhos se convertiam em escravos de seus caprichos. A maioria tentou fugir do castelo. Somente alguns poucos eram poupados, os idosos.

Os poderes que o feiticeiro conferira a Brunilda com o alimento humano recompuseram o seu corpo putrefeito. Apenas uma mágica bebida podia conservá-la com vida, uma maldita opção: sangue humano, bebido ainda quente de veias jovens.

Brunilda já nutria o desejo de beber o sangue de Walter, mas teria de esperar a noite de lua cheia. Uma tarde, repleta de ansiedade, vagava pelo bosque e se encontrou com um pequerrucho de faces rosadas. Com carícias e presentes, atraiu a criança e a levou a um sítio distante da vista humana para sugar o sangue de seu peito. Depois desta atitude hedionda, ninguém mais permaneceu a salvo de seus ataques. Todo humano que se aproximava dela era narcotizado com a fragrância de seu hálito. Crianças, jovens e donzelas murchavam como flores. Os pais ficaram aterrorizados diante daquela praga que arruinava a vida de seus filhos.

Logo começaram a circular rumores. Acreditavam que era ela a causadora da peste mortífera, mas nas vítimas não havia indício algum que a incriminasse, e ninguém a tinha visto produzindo aquelas aberrações. Veio, então, o remédio radical: os pais abandonaram a vila, deixando as suas casas vazias e as terras incultas. O castelo ficou desolado e a vila também: somente permaneciam os anciãos decrépitos e suas esposas.

Somente Walter não via a morte a seu redor. Estava entregue à sua paixão, acima de todas as coisas, por Brunilda, que o amava com uma ternura que nunca antes havia demonstrado. Até agora não havia precisado de seu sangue. Mas ela não deixava de notar, com pesar, que suas fontes de vida agora se esgotavam. Logo já não mais haveria sangue fresco e jovem, salvo o de Walter e seus filhos. Ao regressar ao castelo, Brunilda sentira aversão pelas crianças — porque gerados por uma estranha — e os relegara aos cuidados de uma velha serviçal. Mas a necessidade logo fez com que conquistasse o amor dos infantes. Deixava-os dormir em seu peito; contava-lhes histórias, brincava com eles e os fazia dormir com o olhar e o hálito.

Lentamente ia extraindo das crianças o fluxo vital que a mantinha bela e viva. Pouco a pouco, as forças dos pequenos iam desaparecendo, seus risos alegres haviam-se transformado em sorrisos débeis. As amas estavam preocupadas e temiam que todos os rumores fossem verdade. Não se atreviam a dizer nada ao patrão. O filho homem morreu primeiro. Depois, sua irmãzinha o acompanhou à sepultura. Walter se encheu de pesar pela morte de seus filhos, e a sua tristeza irritou extremamente Brunilda, que o repreendia, dizendo:

—Por que se lamentar tanto? Seguramente, tu te recordas da mãe das crianças. Ou já estás farto de mim? — dizia-lhe a bela mulher, com os olhos injetados de ódio.

Walter era um escravo. Perdoou as ofensas de sua esposa e lhe pediu desculpas. Logo voltavam a viver a loucura do amor da morte. Contudo, somente ele restara para saciar a sede daquela besta infernal. As criadas eram demasiadamente velhas e o seu sangue não lhe servia aos propósitos. Brunilda sabia disto, mas não se importava. Sabia que, morto Walter, conquistaria outros homens e iria a novas vilas em busca de sangue jovem.

À noite, enquanto Walter dormia profundamente, ela mergulhava os caninos em seu peito. Walter ressentia-se da falta de sangue e saía para longos passeios nas montanhas procurando recompor a sua saúde. Atribuía aquela debilidade à falta de alimentação. De nada suspeitava. Um dia, estava caído à sombra de uma árvore e um pássaro estranho passou voando, deixando cair uma raiz seca, rosácea, a seus pés. Tinha um aroma delicioso e irresistível. Mastigou-a. Sentindo que sua boca se enchia de amargo fel, lançou fora a raiz que poderia tê-lo salvado do feitiço em que o mergulhara a esposa.

Nesta mesma tarde, Walter regressou ao castelo. O mágico perfume de Brunilda não surtiu efeito algum sobre o homem e pela primeira vez em muitos meses dormiu um sono natural. Começou a sentir uma aguda dor no peito, abriu os olhos e viu a mais horrenda e aterradora imagem de sua vida: os lábios de Brunilda sugando o sangue quente que saía de seu peito. Gritou de horror e Brunilda se afastou com o sangue a escorrer-lhe da boca.

—Demônio! É assim como me amas? — rugiu Walter.

— Te amo como amam os mortos — respondeu, com frieza, a mulher.

—Monstro sanguinário, agora entendo tudo! Tu mataste os meus filhos! Tu és a peste de que o povo falava!

—Eu não os assassinei. Tive que sacrificar suas vidas para satisfazer teus prazeres. És tu o assassino! — gritou Brunilda com os olhos gelados.

As sombras ameaçadoras de todos os mortos foram convocadas ante os olhos de Walter pelas terríveis e verdadeiras palavras de Brunilda.

— Querias amar uma morta, deitar-te com ela. Que esperavas?

—Maldita! — gritou e correu para fora do quarto enquanto se maldizia.

Ao amanhecer, Walter despertou nos braços de Brunilda. Uma longa cabeleira negra envolvia seu corpo, a fragrância de seu hálito o condenava ao estupor. Em seguida, esqueceu-se de tudo e se dedicou ao prazer com a morta em vida. Quando o efeito do feitiço passou, o terror era dez vezes mais forte. Como era dia, Brunilda dormia. O homem se refugiou nas montanhas, longe da vampira. Mas era em vão! Quando acordou, estava nos braços de Brunilda, compreendendo que assim seria para sempre.

Todavia, intentava fugir todos os dias, lutando contra a morte. Walter se refugiou em um dos recantos mais sombrios do bosque, onde a luz nunca chega. Escalou uma rocha enquanto chovia intensamente, e, no formamento, as nuvens formavam os rostos das vítimas de sua esposa. Neste instante, a lua emergiu das altas montanhas e aquela visão lhe trouxe à memória o feiticeiro. Dirigiu-se resoluto ao lugar onde os caminhos se juntam. Não estava longe. Quando chegou, encontrou o ancião sentado numa rocha, cheio de paz. Walter gritou, atirando-se ao chão:

—Salva-me, por piedade, desse monstro que só sabe semear a morte!

— Compreendes agora o quão era importante a minha advertência de deixar os mortos descansar? — disse-lhe o ancião.

—Por que não impuseste aos meus olhos todos os horrores que iriam suceder, todos os assassínios e a maldades que se estariam desencadeando? — perguntou Walter, soluçando.

—Por acaso escutavas algo que não fosse a tua própria voz, tua paixão desmedida?

— É verdade. Mas agora te peço, pelo que mais prezas, que me ajudes — suplicava Walter, agonizando.

— Bem, direi o que deves fazer. É terrível. Somente nas noites de lua cheia um vampiro dorme um sono humano. Neste momento, perde todos os seus poderes e nessa noite... deverás matá-la! Empregarás uma afiada estaca que eu mesmo te darei. Renunciarás para sempre a ela, jurando não voltar a invocar novamente a sua lembrança, nem mencionar o seu nome. Do contrário, a maldição se repetirá, está claro? — perguntou o ancião, falando com autoridade.

— Assim o farei, nobre feiticeiro. Farei tudo o que me disseres para livrar-me deste monstro. Mas quando será lua cheia?

— Faltam 15 dias.

— Oh, impossível! Os poderes da vampira me arrastarão até ela e ela me matará.

— Eu te esconderei nesta gruta. Aqui ficarás os quinze dias. Neste tempo, terás teto e comida. Por nenhum motivo deves assomar-te fora daqui. Voltarei na noite de lua cheia.

Walter passou o tempo combinado na gruta, sem sair do lugar, pois o imenso temor que sentia paralisava seus membros. Todas as noites Brunilda aparecia em sonhos, chamando por seu nome, prometendo-lhe que tudo ia mudar, pedindo-lhe que voltasse. Desse modo, assombrava-o, mergulhando Walter na loucura. Até que, enfim, chegou a lua cheia.

O feiticeiro entrou na caverna iluminado pelo astro e tomou Walter pelo braço. Caminharam ao castelo no meio da noite. Todas as portas do palácio se abriram sem que fosse preciso tocá-las, tal era a magia do feiticeiro. Chegaram ao aposento de Brunilda. Ela dormia, bela, formosa, com um sono leve. Quem poderia pensar que aquela adorável criatura era um pavoroso vampiro?

Walter tinha os olhos cheios de amor. Levantou a estaca por sobre a cabeça e, desferindo um tremendo golpe, mergulhou-a no peito da vampira, atravessando-a completamente, enquanto gritava:

— Condeno-te para sempre!

Brunilda abriu os olhos e lhe disse:

— Comigo te condenas.

O homem colocou a mão sobre o peito da mulher, pronunciando o que lhe havia dito o ancião:

— Jamais evocarei o teu amor; jamais pronunciarei o teu nome... eu te condeno.

— Muito bem — disse o feiticeiro —, tudo acabou. Agora devemos devolvê-la ao lugar que lhe pertence e de onde nunca deveria ter saído. Jamais esqueças de teu juramento. Não voltarás a me ver — e, dizendo isto, desapareceu, num átimo, ante os olhos do homem.

A terrível defunta estava outra vez em sua tumba, mas a sua imagem perseguia Walter sem descanso, convertendo a sua vida em uma eterna luta. A morta lhe dizia o tempo todo:

— Perturbaste o meu sono eterno para assassinar-me?

Walter deveria sempre responder: “Condeno-te para sempre”. Mas a imagem não se ia e aquele esconjuro permanecia sempre retido em seus lábios. Vivia afligido pelo medo de despertar um dia e ver-se nos braços da vampira. Além disto, as imagens das vítimas de Brunilda se lhe apareciam, gritando-lhe:

— Comigo te condenas.

O castelo de Walter estava deserto e em ruínas, como se a guerra e a peste houvessem passado por ele. Em meio à sua solidão, quis pedir perdão a Swanhilde e voltar com ela, mas a bela dama sabia que seus filhos haviam morrido e desprezava o antigo marido com rancor. Assim, Walter, acompanhado somente por um cão, vagava dia e noite pelos arredores do castelo.

Certa manhã, viu passar vários corcéis cavalgando. À frente ia uma mulher montada num cavalo negro. Atrás dela vinham, alegremente, damas e cavalheiros. Walter os chamou e, depois de saudá-los com cortesia, os convidou a almoçar no castelo. Com gosto, aceitaram. Parecia que a vida havia retornado ao castelo. Tudo era júbilo e prazer. Walter insistiu para que ficassem com ele uma semana. Já havia contratado um exército de criados que atendia a todos os caprichos de cada um dos convidados, e estes não hesitaram a dizer-lhe que sim. Walter sentia tanta confiança na mulher do cavalo negro que lhe participara a experiência que tivera com Brunilda. Ela o consolou com todas as espécies de palavras e frases de afeto. Assim transcorreram os dias, até que pediu a estranha em casamento. Ela aceitou imediatamente. Sete dias depois, celebrou-se a boda com uma grande festa, que durou quatro dias e noites.

O castelo se viu envolto em um selvagem desenfreio de álcool e luxúria. Parecia que o demônio em pessoa assistia àquela celebração orgíaca. Quando a deitou sobre o leito, ela transformou os próprios braços em uma gigantesca serpente. Com os seus sete anéis, a víbora envolveu o corpo do pobre homem, triturando-lhe os ossos, enquanto um incêndio deflagrava-se na alcova.

Logo o castelo ficou em chamas, a torre desmoronou, sepultando sob os seus escombros o agonizante Walter e, quanto estava ele a ponto de morrer, uma voz estrondeante gritou:

Deixa os mortos em paz!


Versão em português, a partir de uma tradução condensada do espanhol, de Paulo Soriano.



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A MULHER VAMPIRO - Conto Clássico de Terror - E. T. A. Hoffmann



A MULHER VAMPIRO
E. T. A. Hoffmann
(1776 - 1822)


O conde Hipólito tinha voltado das suas extensas viagens, a fim de tomar posse da rica herança do pai, que morrera pouco tempo antes. O solar da família era situado numa das mais pitorescas regiões, e as rendas do patrimônio permitiam embelezá-lo custosamente. O conde resolveu reproduzir ali tudo o que durante as suas viagens o impressionara vivamente pela magnificência e bom gosto. Chamou uma nuvem de artistas e de operários, que começaram logo a embelezar, ou para melhor dizer, a reconstruir o castelo, rasgando ao mesmo tempo um parque do mais grandioso estilo, onde se encravaram, como dependências, a igreja paroquial e o cemitério.

Possuidor dos conhecimentos necessários, o conde dirigiu em pessoa os trabalhos e entregou-se completamente a esta ocupação.

E assim decorreu um ano, sem que lhe passasse pela ideia ir brilhar, como lhe aconselhava um tio velho, na sociedade da capital, sob os olhares das meninas casadoiras, afim de desposar a melhor, a mais bela e a mais nobre de todas.

Estava, uma manhã, sentado à mesa desenhando o plano duma nova construção, quando lhe anunciaram uma parente de seu pai.

Ao ouvir o nome da baronesa, Hipólito recordou-se logo de que o pai se lhe referia sempre com a mais profunda indignação, de mistura com certo receio. Sem explicar o perigo que havia na convivência, afastara sempre dela as pessoas que lhe eram caras. Se teimavam em pedir-lhe explicações, o conde respondia que havia coisas em que era melhor não falar.

O certo é que na capital circulavam certos boatos a respeito de um processo criminal muito singular, em que a baronesa estivera envolvida e em consequência do qual se havia separado do marido e fora obrigada a retirar-se para o campo. Todavia, o príncipe perdoara-lhe.

Hipólito experimentou uma sensação desagradável à aproximação da pessoa detestada pelo pai, apesar de desconhecer as razões dessa aversão. Os deveres da hospitalidade, que se respeitam principalmente no campo, impunham-lhe, porém, a necessidade de receber a importuna visita.

A baronesa estava longe de ser feia, mas nunca pessoa alguma produzira no conde repugnância tão manifesta.

Ao entrar, a baronesa cravou no dono da casa um olhar incendiado, mas logo baixou os olhos, e pediu-lhe desculpa da sua visita nos termos mais aviltantes de rasteira humildade. Lastimou que o pai do conde, possuído das mais extraordinárias prevenções inspiradas maldosamente pelos seus inimigos, a tivesse odiado de maneira tão acirrada. Apesar de ter caído em profunda miséria, chegando quase a padecer de fome, o conde nunca a socorrera. Ia agora refugiar-se numa cidade da província, tendo acabado de receber inesperadamente uma pequena quantia. Rematou dizendo que não pudera resistir ao desejo de ver o filho do homem, a cujo ódio irreconciliável sempre correspondera com profunda estima.

Estas palavras, pronunciadas com o acento tocante da verdade, conseguiram comover o conde, para o que também muito contribuiu a presença da graciosa e encantadora menina que acompanhava a baronesa. Calou-se esta finalmente, mas o conde pareceu não reparar em tal, e ficou silencioso e contrafeito. A baronesa pediu-lhe então desculpa duma falta em que o embaraço a fizera incorrer e apresentou-lhe a sua filha Aurélia.

Corando como um rapaz dominado por suave embriaguez, o conde suplicou-lhe que lhe permitisse reparar os agravos do pai, devidos certamente a uma inadvertência, oferecendo-lhe hospitalidade no castelo. Ao certificar-lhe as suas boas disposições, pegou-lhe na mão e estremeceu de terror. Sentiu-lhe os dedos gelados, sem vida, ao mesmo tempo que o vulto descarnado da baronesa, que fixava nele uns olhos embaciados, tomava o aspecto de um cadáver vestido de brocado.

— Valha-me Deus! Que contrariedade! E logo nesta ocasião! — exclamou Aurélia.

E com voz terna, que se insinuava na alma explicou que a sua desgraçada mãe tinha às vezes ataques de catalepsia, mas que estas sincopes passavam de pronto sem auxílio de remédios.

O conde retirou com dificuldade a mão que a baronesa apertava nervosamente e, no arroubamento dum amor nascente, pegou na de Aurélia, cobrindo-a de beijos.

Chegara à idade madura, mas experimentava agora pela primeira vez uma forte paixão, tornando-se-lhe impossível dissimular o que sentia, tanto mais que era animado pela graça encantadora com que Aurélia lhe acolhia as amabilidades.

A baronesa voltou a si passados alguns minutos, sem se recordar do que lhe tinha acontecido. Afirmou ao conde que se sentia honrada com aquele convite, e que este procedimento lhe apagava para sempre da lembrança a injusta conduta do pai de Hipólito.

Foi assim que o viver íntimo do fidalgo mudou subitamente. Chegava a crer que um favor especial do destino lhe trouxera a única pessoa que podia, como esposa, dar-lhe a suprema ventura.

A velha observou sempre a mesma conduta. Silenciosa, séria, reservada, deixava a propósito transparecer uma alma cheia de paz e de bons sentimentos. O conde acostumara-se àquele rosto singularmente pálido e enrugado, e aquela aparência de espectro, e atribuía tudo à má saúde da sua hóspeda e ao gosto que ela tinha por sombrios passatempos. Com efeito, os criados contaram-lhe que a baronesa dava passeios noturnos pelo parque, para os lados do cemitério.

Sentiu-se envergonhado por se ter deixado arrastar, no começo, pelas prevenções do pai, e o tio velho despendeu em vão a inesgotável facúndia, exortando-o a renunciar ao sentimento que o dominava e a relações que um dia poderiam desgraçá-lo. Convencido de que Aurélia o amava, pediu-a em casamento. É fácil de imaginar o quanto a baronesa ficou encantada com esta proposta, que a arrancava à miséria e lhe assegurava uma existência feliz.

A palidez desaparecera do rosto de Aurélia anuviado por uma expressão de invencível pesar, e as delícias do amor deram-lhe aos olhos suave brilho e às faces frescura e colorido.

Um acontecimento funesto retardou, porém, o cumprimento dos desejos do conde. Na manhã do dia da boda, encontraram a baronesa estendida e sem movimento no parque, a pouca distância do cemitério, com o rosto contra o chão. O conde acabava de levantar-se e pusera-se à janela, pensando com embriaguez na felicidade que ia gozar, quando trouxeram a baronesa para o castelo. Pensou que se tratava dum ataque cataléptico, como era costume, mas todos os meios empregados para a chamar à vida foram inúteis. Estava morta!

Aurélia não se entregou a violenta angústia. Parecia consternada e atônita por causa deste imprevisto golpe do destino, mas não verteu urna única lágrima.

O conde, temendo melindrá-la, observou-lhe, com precaução e delicadeza infinitas, que era necessário pôr de parte as conveniências e apressar o mais possível o casamento, não obstante a morte da baronesa, afim de evitar maiores transtornos. Ao ouvi-lo, Aurélia deitou-lhe os braços ao pescoço e, derramando muitas lágrimas, exclamou:

— Sim, pela minha salvação, consinto!

O conde atribuiu esta exaltação à desconsoladora ideia de que, órfã e sem asilo, Aurélia não tinha para onde ir e que o decoro lhe não permitia ficar no castelo. Teve o cuidado de colocar junto de Aurélia, até ao dia fixado para a cerimônia, uma aia, matrona respeitável.

No entanto, Aurélia estava numa agitação singular, proveniente mais da angústia cruciante que a perseguia incessantemente, do que do desgosto causado pela morte da mãe.

Um dia, quando conversava amorosamente com o conde, ergueu-se de súbito, pálida, num mortal terror, e banhada em lágrimas refugiou-se-lhe nos braços como se quisesse fugir a um perseguidor invisível. Exclamou:

— Não, nunca, nunca!

Depois do casamento, que não foi perturbado por nenhum contratempo, é que a perturbação e a ansiedade de Aurélia pareceram dissiparem-se.

Como bem se compreende, o conde suspeitou de que no coração de sua esposa existisse alguma causa desconhecida, que a atormentava. Contudo, foi bastante delicado para não a interrogar enquanto a viu aflita, mas depois, com grandes rodeios, perguntou-lhe o que produzira aquela extraordinária disposição de espírito. Aurélia significou-lhe que ia com vivo prazer patentear o coração ao esposo da sua alma. O conde, surpreendido, soube que a perturbação de Aurélia provinha do procedimento criminoso da mãe.

— Há nada mais horrível, perguntou ela, do que vermo-nos obrigados a aborrecer, e odiar a nossa própria mãe?

Provaram estas palavras que o pai e o tio do conde não se haviam enganado, e que a baronesa captara este último por meio de requintada hipocrisia.

O castelão nem tentou ocultar que a morte da baronesa lhe parecia mercê da Providência, mas Aurélia declarou-lhe que fora precisamente a morte da mãe que a enchera de pressentimentos sombrios, e que o receio de que não poderia ainda triunfar, lhe dizia que a mãe havia de ressuscitar algum dia, para vir precipitá-la num abismo, depois de arrancá-la dos braços do seu amado esposo.

E falou das recordações que tinha conservado da sua infância.

Eram estas: um dia, ao acordar, achou a casa em completa desordem. Abriam-se e fechavam-se as portas com estrondo, ouviam-se gritos soltados por vozes desconhecidas. Quando o sossego se restabeleceu, a ama de Aurélia pegou-lhe ao colo e levou-a para uma vasta sala onde estava muita gente. Sobre uma grande mesa, no meio da casa, viu estendido um homem, que brincava sempre muito com ela e lhe dava bolos, e a quem a pequena chamava papai. Estendeu-lhe os braços para o beijar, mas aqueles lábios, que tinha conhecido quentes e cheios de vida, estavam gelados. Desatou a chorar sem saber porquê. Dali a ama levou-a para uma casa desconhecida, onde ficou por muitos dias. Passado tempo a mãe foi buscá-la de carruagem e levou-a para a capital.

Completava Aurélia dezesseis anos, quando se apresentou em casa da baronesa um homem a quem ela recebeu com alegria e familiaridade, como antigo conhecimento. Multiplicaram-se as visitas e dentro em pouco operou-se considerável mudança na vida da baronesa. Em vez de morar numa água-furtada, de vestir pobremente, de passar mal, foi habitar uma casa esplêndida no melhor bairro da cidade, passou a ter fatos[1] magníficos, e mesa lauta, sendo seu inseparável comensal o desconhecido, e, finalmente, não faltava a nenhum divertimento público.

Só Aurélia não participava da melhoria que, segundo era fácil de conhecer, provinha do desconhecido. Não vestia melhor do que dantes e estava sempre fechada no quarto, ao passo que a mãe ia às festas com o tal homem.

Este, apesar de já ter ultrapassado os quarenta anos, parecia muito mais novo. Bonito de semblante e esbelto de figura, nem por isso deixava de repugnar a Aurélia, porque às vezes era ordinário e desastrado de maneiras, contradizendo assim as pretensões que tinha a homem amável e afidalgado.

Por este tempo, começou a deitar à mocinha certos olhares, que lhe infundiam inexplicável horror.

Até então a mãe nunca lhe falara a respeito dele. Limitara-se a dizer-lhe o seu nome e que o barão era um parente afastado, possuidor de colossal fortuna. Outra vez, gabou-lhe os dotes físicos e perguntou à filha que tal o achava e, como esta não ocultasse a repugnância que tinha por ele, acoimou-a de tola e dardejou-lhe um olhar de meter medo, mas passou depois a tratá-la com agrado, deu-lhe bons vestidos, e levou-a aos divertimentos. O intitulado barão manifestava tanta solicitude e um tal desejo de agradar a Aurélia, que se lhe tornou verdadeiramente insuportável, tanto mais que ela um dia presenciou, cheia de mágoa, uma cena escandalosa, que lhe tirou todas as dúvidas acerca das relações da mãe com o barão. Este, meio ébrio, apertou-a nos braços, mostrando-lhe claramente as suas intenções abomináveis. O desespero deu forças à donzela que repeliu o miserável com vigor, fazendo-o cair para trás, e correu a fechar-se no quarto.

A baronesa declarou à filha, com frieza e terminantemente, que se deixasse de esquisitices fora de propósito, pois era o titular quem fazia todas as despesas da casa. Como não estava para recair na miséria de outros tempos, aconselhou-a a ceder à vontade do barão, o qual, em caso de recusa, já ameaçara deixá-las. Longe de se impressionar com as lágrimas e queixumes de Aurélia, a velha recebeu-os às gargalhadas e com zombaria provocante. Gabou-lhe impudicamente uma ligação, que lhe ofereceria todas as voluptuosidades mundanas, servindo-se de termos tão abomináveis e vergonhosos que Aurélia ficou aterrorizada.

Julgando-se perdida, só viu recurso na fuga imediata. Achou meio de apanhar a chave da porta da rua, e à meia noite, depois de fazer uma trouxa com as coisas mais indispensáveis, encaminhou-se para a antecâmara, que se achava debilmente alumiada. Julgava que a mãe estaria dormindo e ia já para sair, quando alguém subiu precipitadamente a escada e empurrou a porta. Soltos os cabelos grisalhos e vestida com uma camisola suja, que deixava a descoberto os braços e o peito, a baronesa entrou na antecâmara e foi cair aos pés de Aurélia. O suposto barão perseguia-a, armado com um bordão nodoso, e bradando:

— Espera, filha maldita de Satanás, bruxa do inferno, espera que já vou dar-te a refeição de núpcias!

E, arrastando-a pelos cabelos para o meio da casa, começou a maltratá-la cruelmente, espancando-a com o bordão.

A baronesa desatou a gritar desesperadamente e Aurélia, quase desfalecida, abriu a vidraça e clamou por socorro. Por acaso ia passando uma patrulha policial e acudiu logo.

— Prendam-no! — bradou aos soldados a baronesa, louca de aflição e de raiva. Prendam-no! Olhem-lhe para o ombro, que está a descoberto! É Urian!

Assim que ela pronunciou este nome, o sargento comandante da patrulha deu um grito e disse:

— Olá! Apanhei-te finalmente!

Os guardas agarraram o desconhecido e levaram-no, a despeito da resistência que empregava para desvencilhar-se.

Não obstante a violência do que se tinha passado, a baronesa percebeu o que a filha estivera prestes a fazer. Agarrou-a brutalmente por um braço, empurrou-a para o quarto e fechou a porta à chave, sem dizer palavra.

No dia seguinte saiu e só voltou tarde de noite. Entretanto, Aurélia, ali encerrada, não viu nem ouviu pessoa alguma, e padeceu as torturas da fome e da sede. Nos dias seguintes não recebeu muito melhor tratamento. A mãe deitava-lhe por vezes uns olhos cintilantes de cólera e parecia meditar qualquer projeto sinistro. Afinal recebeu, certa noite, uma carta que pareceu alegrá-la, e disse a Aurélia:

— Foste tu, criatura disparatada, a causa de tudo isto, mas agora, felizmente, tudo vai bem e Deus queira que evites o terrível castigo, que o demônio te reservava.

Dali por diante tornou-se mais complacente, e Aurélia, que desde que Urian se fora já não pensava em fugir, passou a gozar de mais ampla liberdade.

Passado tempo, estando sozinha, sentada no seu quarto, ouviu um grande barulho na rua.

A criada de quarto entrou precipitadamente e disse-lhe que a polícia levava preso o filho do carrasco de .... O facínora, acusado do crime de roubo à mão armada, fora, tempos antes marcado a ferro em brasa e era levado para a cadeia quando conseguiu fugir à escolta. Desta vez não lograria escapar, certamente.

Aurélia teve um sinistro pressentimento e correu à janela. Adivinhara. Era o suposto barão que ia passando algemado e amarrado a uma carroça. Transferiam-no para outra prisão, a fim de cumprir a pena a que o tinham condenado. Ao ser alvejada pelo furioso olhar que o malvado ergueu para ela, ao mesmo tempo que lhe fazia um gesto de ameaça, Aurélia sentiu-se esmorecer e foi cair numa poltrona.

A baronesa ficava muito tempo fora de casa e deixava a filha ao abandono, pensando tristemente nas desventuras que ainda lhe estariam iminentes.

A criada de quarto entrara para o serviço depois da cena noturna, e, sabendo que o ladrão tivera relações íntimas com a ama, disse um dia a Aurélia que lastimava sinceramente a senhora baronesa, por ter sido enganada tão indignamente por aquele infame. Aurélia bem sabia o que havia de pensar a este respeito. Parecia-lhe impossível que os guardas, que tinham prendido Urian em casa da baronesa, não ficassem cientes das verdadeiras relações que existiam entre ambos, pois que ela lhes dissera o nome do criminoso e indicara o sinal infamante que ele tinha no ombro.

Segundo dizia a criada nas suas palavras ambíguas, falava-se muito àquele respeito. Andava de boca em boca a atoarda de que a justiça fizera uma severa sindicância e que ameaçara a baronesa com a prisão, porque o filho do carrasco tinha revelado casos verdadeiramente extraordinários.

A pobre Aurélia era obrigada a reconhecer a depravação da mãe, visto que, depois daquele terrível acontecimento, ela continuava ainda a residir na capital.

A baronesa viu-se enfim reduzida à necessidade de sair de uma cidade onde estava exposta a infames suspeitas, aliás muito bem fundadas, e de fugir para lugar distante. Durante esta viagem é que tinha ido ter ao castelo do conde.

Aurélia considerava-se sumamente venturosa e ao abrigo de receios, mas qual não foi o seu espanto quando, num dia em que manifestava à mãe a alegria que o céu lhe concedera, esta, com os olhos cintilantes, exclamou desabridamente:

— Foste a causa da minha desgraça, criatura adjeta e maldita; mas ainda que a morte me leve repentinamente, a vingança virá surpreender-te no meio da tua imaginária felicidade. É nestes acessos nervosos, cuja origem remonta ao teu nascimento, que os artifícios de Satanás...

A mulher do conde calou-se de repente, e, abraçando-se ao marido, pediu-lhe que a dispensasse de repetir as palavras que a mãe pronunciara numa crise de furor insensato. Sentia o coração esfacelar-se, ao recordar as medonhas ameaças daquela possessa do demônio, ameaças que excediam todos os horrores imagináveis. O conde consolou a esposa o melhor que pôde, sem, contudo, esquivar-se a ter medo.

Quando sossegou um pouco mais, não deixou de reconhecer que os crimes da baronesa, apesar de ela já ter falecido, haviam lançado uma sombra funesta numa existência futura cheia de felicidade.

Passado pouco tempo, Aurélia foi mudando sensivelmente. A palidez do rosto e o olhar extinto pareciam indicar doença, mas ao mesmo tempo os seus modos extraordinários e inquietos faziam suspeitar novo mistério. Afastava-se de todos, até do marido; fechava-me no quarto ou buscava os sítios mais solitários do parque; quando aparecia, trazia os olhos vermelhos de chorar, o rosto desfigurado, denunciando o pesar que a devorava.

Em vão o conde se esforçou por indagar as causas que punham a mulher naquele estado. Aurélia caiu em profundo abatimento, de que saiu somente depois de consultar uma celebridade médica.

O homem de ciência foi de parecer que a grande irritabilidade nervosa da condessa e os seus incômodos de saúde podiam fazer conceber a esperança de que ia ter fruto aquele casamento venturoso. Um dia, durante o jantar, aludiu ao estado de Aurélia. Esta, a princípio, não deu atenção à conversa do doutor com o conde, mas aplicou depois o ouvido, quando ouviu falar nos singulares caprichos que as mulheres tinham quando grávidas, e a que não podiam resistir sem prejuízo da sua saúde e até da saúde do filho. Fez então ao médico perguntas sobre perguntas, e este não se cansou de lhe citar muitos fatos, alguns altamente burlescos.

— Contudo, acrescentou ele, há também exemplos de desejos desregrados, que levaram diversas mulheres a ações verdadeiramente horríveis. Por exemplo, a mulher dum ferreiro sentia irresistível desejo de comer carne do marido, fez esforços baldados para se dominar, mas um dia em que o viu entrar em casa embriagado, atirou-se a ele com uma faca, e feriu-o tão cruelmente, que o desgraçado expirou poucas horas depois.

Mal o doutor acabava de pronunciar estas palavras, a condessa desmaiou, e as convulsões que se seguiram ao desmaio acalmaram-se com grande dificuldade. O médico reconheceu que andara mal contando semelhante aventura na presença duma senhora tão impressionável.

Pareceu, todavia, que esta crise tivera salutar influência no estado da condessa, dando-lhe algum sossego, mas pouco depois caía ela novamente num acesso de profunda melancolia.

Brilhavam-lhe os olhos com estranho fulgor e o rosto cobria-se-lhe de palidez mortal, sempre crescente. O conde tornou a inquietar-se com a saúde da esposa. Havia no seu estado uma coisa inexplicável: não tomava o mínimo alimento, manifestando invencível horror por todas as iguarias, especialmente pela carne. Quando se servia qualquer prato desta substância, era obrigada a levantar-se da mesa, dando evidentes sinais de nojo.

Foi improfícua toda a ciência do médico, porque Aurélia não quis nunca tocar em remédios, apesar das súplicas do marido.

Passaram-se semanas e meses sem que a condessa tomasse alimento algum. O mistério continuava impenetrável e o médico era de opinião que havia ali qualquer coisa que frustrava o saber humano. Afinal despediu-se, apresentando um vago pretexto, mas o conde percebeu claramente que o estado da esposa parecera muito perigoso e enigmático ao hábil clínico e que ele não quisera tratar por mais tempo duma inexplicável doença, que reputava absolutamente impossível de curar.

Imaginem-se as desagradáveis disposições em que estaria o infeliz. A desgraça, porém, ainda havia de ir mais longe. Um criado velho aproveitou um momento, em que o encontrou sozinho, para o avisar de que a condessa saía todas as noites do castelo e recolhia de madrugada. O conde estremeceu e lembrou-se de que, havia tempos, ao soar a meia noite, se apossava dele uma extraordinária sonolência. Atribuiu-a a qualquer narcótico, que a condessa lhe ministrasse sem ele dar por isso, para poder sair clandestinamente do quarto de cama, que tinham em comum infringindo o estabelecido na sua classe. Aguilhoado pelas mais terríveis suspeitas, Hipólito recordou-se da sogra e do espírito mau de que ela estivera possuída, e que talvez houvesse passado para a filha. Lembrou-se também do filho do carrasco e suspeitou de qualquer ligação adultera.

A noite seguinte ia desvendar-lhe o mistério abominável, causa única do estado singular de Aurélia.

Tinha ela por hábito ir deitar-se depois de fazer o chá, que só o conde bebia. Teve este o cuidado de não o tomar naquela noite, meteu-se na cama, leu como de costume, e não sentiu a sonolência habitual. Ainda assim, deixou cair a cabeça no travesseiro e fingiu que dormia profundamente. A condessa levantou-se então, sem fazer o mínimo ruído, aproximou uma luz do rosto do marido, examinou-o por momentos, e saiu devagarinho do quarto.

Todo a tremer, o conde ergueu-se, embuçou-se numa capa e seguiu a mulher cautelosamente. Esta já ia longe, mas, como fazia luar, avistava-se distintamente o seu vestido branco. Atravessou o parque e dirigiu-se para o cemitério, desaparecendo por trás do muro. Hipólito seguiu-a, quase de corrida; achou aberta a porta e entrou.

Viu à claridade do luar um espetáculo medonho.

A curta distância, aparições hediondas acocoravam-se no chão, formando círculo. Eram velhas seminuas, de cabelos desgrenhados, dilacerando com os dentes, como feras, o cadáver dum homem.

E Aurélia estava no meio delas!... Com que pungente angústia e profundo horror o desgraçado fugiu àquela cena infernal! Correu ao acaso pelas alas do parque, e só caiu em si quando, de madrugada, se encontrou em frente da porta do castelo. Subiu rápida e maquinalmente a escadaria, atravessou as salas e entrou no quarto. A condessa parecia dormir serenamente.

Tanto não fora sonho ela sair do castelo, que estava ainda úmida do orvalho a capa. Ainda assim tentou persuadir-se de que tinha sido joguete duma alucinação.

Sem esperar que a esposa despertasse, foi dar um passeio a cavalo. A beleza da manhã, os aromas dos bosques, o gorjeio das aves fizeram-lhe esquecer os fantasmas noturnos.

Voltou mais tranquilo ao castelo e sentou-se à mesa com a mulher. Quando, porém, serviam um prato de carne cosida e a condessa quis retirar-se mostrando repugnância, o conde reconheceu a realidade dos fatos de que fora testemunha, e exclamou com violência:

— Ah! Mulher abominável e diabólica! Bem sei de que provém a tua aversão pelo comer dos homens. É nas sepulturas que te vais banquetear!

Mal ouviu estas palavras, Aurélia atirou-se a ele rugindo, e mordeu-o no peito, com a fúria duma hiena. O marido repeliu violentamente a possessa, que expirou no meio de atrozes convulsões.

Veio a enlouquecer, o desgraçado.

Tradução de autor lusitano desconhecido, possivelmente do final do século XIX ou início do século XX.

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A VAMPIRA DE BAGDÁ - Conto Clássico de Terror - Collin de Plancy



A VAMPIRA DE BAGDÁ
Collin de Plancy
(1794 – 1881)

Num subúrbio de Bagdá, no século XIV, vivia um velho comerciante, que acumulara uma fortuna considerável, e tinha por herdeiro dessas grandes posses um filho por ele muito amado. O ancião havia decidido dar ao herdeiro como esposa a filha de um de seus confrades, também comerciante, com o qual mantinha laços de amizade em razão de suas frequentes viagens.

Embora muito rica, essa jovem era muito feia. E o amável Abou-Hassan — assim se chamava o filho do velho mercador —, a quem foi mostrado o retrato da mulher a ele destinada, pediu um tempo para decidir sobre aquele casamento.

Certa noite, enquanto caminhava sozinho, sob a suave luz da Lua, nos campos vizinhos a Bagdá, o rapaz ouviu uma voz melodiosa, que entoava alguns versos do Alcorão, acompanhada de uma guitarra. Ele atravessou o bosque que ocultava a jovem cantora e se viu ao pé de uma casa de campo, em cuja varanda, sombreada pela erva movediça, havia uma mulher incrivelmente sedutora.

Ele não se fez notar senão por sinais de respeito e amor. Mas a janela se fechou novamente e ele retornou bem tarde para a casa paterna, sem saber se fora realmente visto.

Na manhã seguinte, após a oração da alvorada, voltou ao sítio onde havia visto a encantadora moça, por quem o jovem já ardia com um amor inexcedível. Ele fez mil perguntas e descobriu, com alguma dificuldade, que a sua beldade tinha dezessete anos; que não era casada; que era filha de um sábio homem que não tinha ouro para dar ela, mas que a educara nas mais sublimes ciências. Essa revelação inflamou-o ainda mais.

Desde então, tornou-se impossível o casamento planejado pelo pai. Ele foi ao encontro do velho homem, dizendo:

—Pai, o senhor sabe que até agora sempre lhe fui obediente.  Mas hoje eu ouso implorar-lhe que me conceda uma esposa de minha escolha.

Então expôs ao pai a repugnância que sentia pela mulher que lhe fora proposta e o seu amor pela sedutora desconhecida.

O ancião fez algumas objeções. Mas, vendo que o filho era arrastado por uma fatalidade irresistível, não mais impôs empecilhos à sua felicidade.

O jovem procurou o velho sábio e pediu a filha em casamento. Os dois amantes se viram. Idolatraram-se, e o casamento foi realizado.

Para expressar a felicidade do jovem, seria preciso senti-la. Ao final de três meses, embriagado pelos mais ternos prazeres, Aboul-Hassan, tendo despertado no meio da noite, percebeu que a sua jovem esposa havia deixado o leito conjugal.  A princípio, pensou que um acidente imprevisto — ou uma indisposição repentina — havia motivado aquela ausência, mas resolveu esperar. Todavia, Nadilla — este era o nome da jovem — não voltou até uma hora antes do raiar dia. Aboul-Hassan, que começava a ficar impaciente — notando que ela voltava com um ar assustadiço e passos misteriosos —, fingiu estar dormindo e, sem demonstrar qualquer ansiedade, resolveu aclarar o incidente um pouco mais tarde.

Nadilla nada falou sobre a sua ausência noturna. E, na noite seguinte, após as carícias mais ternas, escapou gentilmente dos braços do marido, que pensava estar dormindo, e saiu conforme habitualmente o fazia.

Aboul-Hassan apressou-se a vestir-se. Seguiu-a de longe e fez desvios bastante longos. Finalmente, viu a mulher entrar num cemitério; ele fez o mesmo. Nadilla mergulhou numa grande tumba, iluminada por três lâmpadas funerárias. Qual não foi a surpresa de Abul-Hassan quando viu sua bela jovem esposa, a quem ele amava tanto, rodeada por vários ghouls[1], que lá se reuniram lá todas as noites para seus deleites terríveis!

Desde as bodas, ele notara que sua esposa não comia nada à noite. Mas ele não extraiu dessa observação qualquer consequência infeliz.

Ele logo viu um desses ghouls trazendo um cadáver ainda fresco, ao redor do qual todos os outros se acercaram. A ideia que lhe ocorreu foi a de dissipar essas estriges hediondas. Mas ele não era forte o bastante: decidiu devorar a própria indignação.

O cadáver foi cortado em pedaços e os ghouls o comeram, entoando canções infernais. Então enterraram os ossos e se separaram depois de se beijarem.

Aboul-Hassan, que não queria ser visto, voltou apressadamente para a cama, onde fingiu dormir até de manhã.

Durante o dia, ele nada comentou sobre o que tinha visto. Contudo, quando veio a noite, instou a sua jovem esposa a compartilhar consigo uma leve refeição.  Nadilla, como sempre, escusou-se com uma desculpa.  Aboul-Hassan insistiu por um longo tempo e, finalmente, exclamou, com raiva:

—Você prefere ir jantar com os ghouls

Nadilla não respondeu, empalideceu, tremeu de raiva e, silenciosamente, foi dormir com o marido.

No meio da noite, imaginando que ele mergulhara em profundo sono, ela disse, com uma voz sombria:

—Agora, hás de expiar a tua curiosidade sacrílega. 

Ao mesmo tempo, ela se ajoelhou no peito dele, agarrou-o pela garganta, abriu-lhe uma veia e se preparou para beber-lhe o sangue. Tudo isso foi obra de um momento.

O jovem homem, que não estava dormindo, escapou violentamente dos braços daquela fúria e, brandindo um golpe de adaga, deixou-a morrendo ao seu lado.

Imediatamente, ele gritou por socorro. Pensou o ferimento que tinha na garganta e, no dia seguinte, a jovem ghouleh[2] foi sepultada.

Contudo, três dias depois, no meio da noite, ela reapareceu ao marido, lançou-se sobre ele e tentou sufocá-lo novamente. A adaga de Aboul-Hassan era inútil em suas mãos. Ele somente encontrou a salvação numa rápida fuga.

Aboul-Hassan abriu o túmulo de Nadilla, que foi encontrada como se estivesse viva e parecia respirar em seu caixão. 

 Seguiu à casa do sábio, que passava por pai dessa mulher infeliz. Ele confessou que sua filha, casada dois anos antes com um oficial do califa, tendo cedido à devassidão mais infame, havia sido morta pelo marido. Mas que ela havia reencontrado vida em seu sepulcro; que ela voltou para a casa de seu pai; em uma palavra, que ela era uma mulher vampiro. 

O corpo foi exumado. Foi queimado em uma pira de madeira perfumada. Suas cinzas foram jogadas no Tigre. E a Arábia foi libertada de um monstro...

Versão em português: Paulo Soriano.



[1]  Ghoul:  ente demoníaco, necrófago, da mitologia árabe.
[2] Feminino de ghoul.

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