NUM DOMINGO À NOITE - Conto Clássico de Horror - Rafael Barrett

NUM DOMINGO À NOITE

Rafael Barrett

(1876 – 1910)

Tradução de Paulo Soriano


E você, não nos conta nenhuma aventura amorosa, Sr. Martinez?

O famoso financista sacudiu, com o dedo mindinho adornado de brilhantes, as cinzas do magnífico charuto, sorriu com aquele desdém que confere ao seu rosto engordurado uma expressão de desencanto petulante, e nos disse:

Vou contar-lhes sobre a minha primeira aventura. Eu era então estudante, e a minha família me mandava, de Madri, uma mesada de cem pesetas. Mas eu já tinha todas as despesas pagas. As contas de alojamento, roupa, livros e matrículas eram cobertas por lá. As cem pesetas iam para o meu bolso. Não havia como aumentá-las, porque o meu pai entendia tanto de negócios quanto eu. O meu orçamento era dividido assim: quatro reais por dia para o café, com a gorjeta incluída; dois para o bilhar, entretenimento imprescindível; um para o bonde, quantia módica; três para o teatro, divertimento partilhado pela rapaziada. O resto era consagrado ao amor. Naqueles tempos, eu comprava o amor pronto, como se fosse camisa ou sapato. Agora, tenho-o sob medida.

Eu devorava com deleite, por mais estranho que possa parecer, os folhetins de Escrich1 e novelões de Dumas2 e Sue3, e sonhava com raptos e escaladas, desafios ao luar e frases generosas. Certa madrugada, em vez de ir deitar-me depois da sessão no ‘Levante’, onde nos encontrávamos, saí sozinho a vaguear, à maneira de Dom Quixote, à procura de donzelas para desencantar pelas ruas solitárias.

Fazia frio. Meus passos ecoavam nas calçadas lisas e reluzentes. As estrelas, alçadas às alturas do espaço, cintilavam, mais do que o de costume, através do ar imóvel e seco. Havia poesia dentro e fora de mim — ou, pelo menos, assim me parecia. Com todos aqueles livros na cabeça, achava-me disposto a redimir definitivamente a primeira pecadora que passasse por ali.

E, de repente, saindo de uma rua secundária, uma mulher cruzou à minha frente. Caminhava pressurosa, sem olhar para os lados — avançava como uma máquina. Usava o xale clássico de uma madrilenha comum, com os cabelos soltos e a saia farfalhando.

Eu a segui. Nossos passos ecoavam em uníssono, cada vez mais próximos. Percebi que seu rosto estava muito pálido. Os postes de luz, em intervalos, iluminavam aquela palidez como os relâmpagos iluminam uma paisagem tristonha. Já bem perto, quase a tocar nela, balbuciei à minha perseguida os tolos galanteios que vocês todos conhecem.

Ela não fez caso disto. Insisti. Nada. Insisti novamente. Eu não me resignava a desistir de minha aventura.

Então ela virou-se e cravou os olhos em mim. Olhos negros, um negro absoluto, sem fundo. E, com uma voz surda, uma voz sem timbre, como se se desbotasse, ela me perguntou:

“—Quer vir comigo, não é mesmo?

“— Sim.

“—Vamos.

E seguimos por vielas que eu nunca vira antes. A mulher mudou de direção. Metemo-nos em bairros pobres. Não dissemos uma palavra. Como um herói, sentia medo e orgulho. Apenas acompanhava a misteriosa dama que me prometia terríveis voluptuosidades.

A mulher deteve-se na frente de uma porta comprida e estreita. Tirou uma chave pesada. Abriu.

" — Entre!"

"Entrei.

“— Suba! — disse a voz fraca, ainda mais fúnebre naquele momento.

E subimos as escadas íngremes. Um andar. Dois. Três. Quatro. Eu me afogava na escuridão e uma estranha angústia se apoderava de mim.

“— É aqui — disse a mulher.

Senti um braço roçar-me, outra chave girar na fechadura e o rangido das dobradiças.

“— Tem fósforos?

“— Tenho.

“—Entre e acenda-o.

Entrei. Mal o fiz, ela fechou a porta, girou a chave duas vezes e me deixou sozinho ali dentro.

Estupefato, ouvi-a descer rapidamente as escadas, fechar a porta da rua e fugir. Sim, fugir como uma condenada!

Atordoado, acendi um fósforo.

Entre um velho catre e uma mesa quebrada, com os olhos muito abertos e a mandíbula caída, revelando o buraco negro da boca, jazia o cadáver de um homem, encharcado de sangue.

Foi tal o meu horror que não gritei. Fiquei como uma estátua e o fósforo apagou-se entre os meus dedos.

Não conseguia acender outro. Meus pés resvalavam naquela coisa pegajosa, enorme, que parecia encher o mundo.

Não sei quanto tempo estive ali, nem como descobri uma claraboia por onde escapei para o telhado, nem como não me matei entre as telhas, nem como fui parar num sótão, onde morava um sapateiro — que levou um grande susto, embora menor do que o meu —, nem como o convenci a me deixar sair para a rua, ao reino dos vivos, ao paraíso!”

Quando consegui sair, já amanhecia.”

Martínez calou satisfeito, e nenhum de nós disse nada.

Mas… e a mulher? — alguém perguntou finalmente.

Aquele crime nunca foi esclarecido.

Você não prestou depoimento?

Deus me livre! Nunca me meti nessas coisas. E desde aquela noite nunca mais li um romance.

E Martínez riu-se pesadamente, fazendo vibrar a sua barriga de banqueiro inabalável.


Ilustração: Craiyon.


Notas:

1Enrique Perez Escrich (1829 – 1897), escritor popular espanhol.

2Alexandre Dumas (1802 – 1870), escritor francês.

3Eugène Sue (1804 – 1857), escritor francês.

 

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