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REMORSO - Conto Clássico de Loucura e Horror - Luiz Orlowsky

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REMORSO Luiz Orlowsky [1] (Séc. XX)   Ali estava ele, gordo, pachorrento, com aquela papada presa à base dos ouvidos que nem uma rede, onde se balançava flacidamente meio quilo de banha. Tudo luzia nele. E principalmente a calvície lhe emprestava à cara uma forma monstruosamente rotunda e cheia. Mantinha-se calado, mas eu lhe ouvia a estrepitosa gargalhada, encendo a casa que nem um desabamento. Como seria bom vê-lo sempre assim, reduzido ao silêncio. Não. Seria melhor não ver jamais aqueles olhos esbugalhados se avolumarem assustadoramente quando grunhiam ferozes: —Depressa, rapaz! Avia-te com isso! Esses criados são uma súcia de ladrões! Roubando o meu dinheiro! E saía mastigando as últimas sílabas até que as portas fechassem sua avareza lá na biblioteca, onde continuava excomungando toda a classe das serventes, numa voz rouca e áspera. Quando aquela exaltação acabava por lhe dar um ataque cardíaco, meu ódio se estendia satisfeito num sofá de molas. Mas quando tudo passava sem qu...

MUJINA - Conto Clássico de Terror - Koizumi Yakumo

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MUJINA Koizumi Yakumo (Lafcadio Hearn) (1850 – 1904) Tradução de Paulo Soriano Na estrada Akasaka, em Tóquio, há uma encosta chamada Kii-no-kuni-zaka, que significa Encosta da Província de Kii. Ignoro por que motivo é chamada assim. Vê-se, de um lado da encosta, um antigo fosso, muito profundo e muito largo, cujas verdes margens se elevam a uma zona de jardins. Do outro lado da estrada, estendem-se os longos e altaneiros muros de um palácio imperial. Antes que postes de luz e riquixás se tornassem comuns, esse bairro era muito solitário após o crepúsculo, e os pedestres que se movimentavam em horas tardias desviavam-se milhas de seu caminho para evitá-lo após anoitecer. Dizem que uma M ujina — uma mulher sem rosto — vagava livremente por lá. O último homem que viu a Mujina foi um velho mercador do bairro de Kyobashi. Esta é a sua história. Uma noite, tarde da noite, o mercador subia apressadamente o Kii-no-kuni-zaka, quando viu uma mulher agachada junto ao fosso, sozin...

DE PROFUNDIS CLAMAVI - Narrativa Clássica de Horror - Pedro Escamilla

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DE PROFUNDIS CLAMAVI 1 Pedro Escamilla (? – 1895) Tradução de autor anônimo do incio do séc. XX I Remontemo-nos ao dia em que Luísa se sentiu acometida, no hospital, daquele ataque, que a fez passar por morta. Afortunadamente, hoje não são frequentes mais semelhantes casos. Luísa, vitima de um acesso cataléptico, poucas horas depois, teve manifestos todos os sinais evidenciadores da morte. Foi retirada do leito que ocupava e trasladada com outros cadáveres para o necrotério do hospital, de onde deviam transferi-la no dia seguinte para o cemitério. A infeliz, com toda a consciência de seu ser, não podia fazer o menor movimento, nem exalar o mais débil grito, que provasse o erro dos que até ali a tinham conduzido. Passou a noite e quase lodo o dia seguinte no necrotério. Ao cair da tarde, um homem foi trasladando os cadáveres para um carro. Pouco depois, Luísa sentiu o desigual movimento das rodas do carro fúnebre e ouviu o canto monótono e triste do cocheiro. Porque par...

INOCÊNCIA ULTRAJADA - Conto Clássico de Horror - Tony d'Ulmès

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INOCÊNCIA ULTRAJADA Tony d'Ulmès (1870 – 1937) A mochila às costas, eu excursionava pela Normandia em busca de lugares pitorescos. Villerville, lindo recanto da embocadura do Sena, agradou-me plenamente. Aluguei, por uma quinzena, uma casinha situada em rua bordejada de vilas graciosas, ocupadas no verão e inteiramente fechadas e silentes até o presente mês de junho. Ainda não se via um único estrangeiro, salvo uma anciã de minhas relações, Madame Morei. Tipo de mulher extraordinária, nascera com verdadeira alma de soldado. No trágico ano de 1870, assinalara-se por atos de bravura inauditos. Dizia-se, mesmo, que estrangulara um prussiano com as próprias mãos. De caráter independente, amiga da solidão, ali fora instalar-se com a criada, em habitação isolada, na estrada de Criquebeuf. Foi ao chegar à casa, certa manhã, que tive um encontro inesquecível. Diante de mim, a estrada se estendia, branca, marginada de trigais verdes. Nada se remexia, nenhum sussurro ao m...