A VOLTA DE IMREY - Conto Clássico de Terror - Rudyard Kipling



A VOLTA DE IMREY
Rudyard Kipling
(1865 – 1936)
Tradução de Alfredo Ferreira
(1865 – 1942)

The doors were wide, the story saith,
Out of the night came the patient wraith.
He might not speak, and he could not stir
A hair of the Baron's miniver.
Speechless and strengthless, a shadow thin,
He roved the castle to find his kin.
And oh! 'twas a piteous sight to see
The dumb ghost follow his enemy !

 The Baron

Imray levara a cabo o impossível. Sem avisar, sem motivo concebível, em plena mocidade, no limiar da carreira, preferira desaparecer do mundo. Quer dizer, da pequena estação indiana onde vivia.

Na véspera, estava vivo, com saúde, feliz e em grande evidência entre as mesas de bilhar de seu clube. Na manhã seguinte, desaparecera e nenhuma busca pôde revelar onde estava. Sumira dos lugares habituais. Não aparecera no escritório na hora costumeira e seu docar[1] não fora visto nas vias públicas. Por isso e porque estava embaraçando, em proporção microscópica, a administração do império indiano. Esse império parou um momento microscópico para investigar o destino de Imray. Dragaram lagoa, sondaram poço, enviaram telegrama em toda a extensão das ferrovias e ao porto marítimo mais próximo, 2000km afastado dali, mas Imray não apareceu no fundo das caçambas de dragagem, nem na extremidade das linhas telegráficas. Desaparecera e ninguém mais o viu no lugar. Então o serviço do grande império indiano seguiu adiante, porque não podia ficar atrasado, e Imray de um homem passou a ser um mistério, uma dessas coisas sobre as quais as pessoas falam durante um mês nas mesas dos clubes e depois esquecem totalmente. Suas espingardas, cavalos e carruagens foram leiloados. O oficial superior escreveu uma carta absurda à mãe dele, dizendo que Imray desaparecera de maneira absoluta, e o bangalô onde ele morava permaneceu vazio.

Depois de se terem passado três ou quatro meses de calor escaldante, meu amigo Strickland, da polícia, fez acordo com o proprietário indiano para alugar o bangalô. Isso foi antes de ficar noivo de senhorita Youghal (história já contada noutra ocasião), e quando se dedicava a investigar a vida nativa. Sua vida era bastante estranha, e os homens se queixavam de sua maneira e costume. Havia sempre comida em casa, mas não havia hora certa para refeição. Comia em pé — e andando de um lado a outro —qualquer coisa que encontrasse no bufê, e isso não é bom para um ser humano. O equipamento doméstico se limitava a seis rifles, três espingardas de caça, cinco selins e uma coleção de varas de pescar, maiores e mais fortes que as de pescar salmão. Tudo isso ocupava a metade do bangalô. A outra metade era reservada a Strickland e a Tietjens, uma enorme cadela da raça rampur, que devorava diariamente a ração de dois homens. Ela se fazia entender por Strickland com linguagem própria e sempre que perambulava fora, e via coisas que poderiam destruir a paz de sua majestade a rainha imperatriz, voltava a junto do dono, levando a informação. Strickland tomava imediatamente providência, e o fim do trabalho significava transtorno, multa e prisão a outras pessoas. Os nativos acreditavam que Tietjens era um espírito familiar e a tratavam com a grande deferência nascida do ódio e do medo. Um quarto do bangalô era reservado para seu uso exclusivo. Tinha um estrado para dormir, um cobertor e uma selha d’água. Quando, à noite, alguém entrava no quarto de Strickland, o seu costume era jogar o intruso ao chão e o segurar, latindo, até alguém chegar com luz. Strickland lhe devia a vida. Estava na fronteira, buscando um assassino local, que veio na madrugada cinzenta para o enviar muito além das ilhas Andamã. Tietjens agarrara o homem quando ele se arrastava a dentro da tenda de Strickland com um punhal entre os dentes. Depois de se provar o propósito assassino aos olhos da lei, foi enforcado. Desde aquela data, Tietjens usara uma coleira de prata maciça e um monograma bordado em seu cobertor, que era de lã de caxemira, porque Tietjens era uma cadela mimada.

Por nada seria capaz de se separar de Strickland. Uma vez, quando ele estava doente com febre, dera muito a fazer aos médicos, porque não sabia como tratar o dono e não queria permitir que alguém o fizesse. Macarnaght, do serviço médico indiano, teve de bater na cabeça da cadela com a coronha do revólver antes de ela compreender que devia dar lugar aos que pretendiam ministrar quinino.

Pouco depois de Strickland alugar o bangalô de Imray, meu serviço me levou até aquele porto e, naturalmente, encontrando os alojamentos do clube cheios, fui me hospedar na casa de Strickland. Era um bangalô confortável, com oito cômodos e cuidadosamente coberto de colmo alcatroado para evitar goteira. Abaixo do alcatrão do telhado corria um forro de pano que parecia um teto de estuque bem caiado. O proprietário o pintara de novo quando Strickland alugara o bangalô. Salvo os que sabem como são construídos os bangalôs indianos, ninguém suspeitaria que acima do tecido do forro havia o escuro vão de três abas de telhado, onde as vigas e a parte inferior do colmo alcatroado abrigavam toda espécie de rato, barata, formiga e outras coisas imundas.

Tietjens me recebeu na varanda com um latido semelhante às badaladas do sino da catedral de São Paulo, pondo as patas em meus ombros para mostrar que estava contente em me ver. Strickland procurara improvisar uma espécie de refeição que chamou de almoço e, imediatamente depois de a engolir, saíra a tratar dos negócios. Fiquei sozinho com Tietjens e meus negócios. O calor sufocante do verão cedera e se transformara no calor úmido da chuva. Não havia viração no ar aquecido, mas a chuva caía grossa sobre a terra e erguia uma névoa azulada ao respingar. Os bambus, abacateiros, sapotizeiros e mangueiras, no jardim, estavam imóveis, enquanto a chuva quente escorria sobre os troncos e as rãs começavam a coaxar entre a sebes de aloés.

Um pouco antes do escurecer, quando a chuva estava mais forte, sentei-me na varanda do fundo, escutando a chuva encachoeirar das biqueiras do telhado. Coçava-me, porque estava cheio de brotoeja. Tietjens veio a mim e pousou a cabeça em meu regaço, parecendo muito triste. Por isso, dei-lhe biscoito quando o chá ficou pronto, e tomei chá na varanda do fundo por causa do ligeiro frescor que se sentia ali. Os cômodos da casa estavam escuros às minhas costas. Podia sentir o cheiro da coleção de arreio de Strickland e do óleo das espingardas, e não tinha vontade de ir me sentar no meio daquelas coisas. Meu criado se aproximou, na luz crepuscular, com a roupa de linho colada ao corpo ensopado e disse que chegara um cavalheiro que desejava falar com alguém. A contragosto, mas somente por causa da escuridão dos quartos, fui à sala de visita vazia, dizendo ao criado para trazer-me uma luz. Com ou sem um visitante esperando, acreditei ver um vulto perto da janela, mas, quando chegou a luz, nada havia além da chuva grossa e do cheiro de terra molhada. Insinuei ao criado que não fora muito esperto, e voltei à varanda para conversar com Tietjens, que saíra à chuva, e a muito custo consegui fazê-la voltar para junto de mim, mesmo oferecendo biscoito e torrão de açúcar. Strickland voltou ensopado até os ossos, quase na hora do jantar. A primeira coisa que disse foi:

— Alguém esteve aqui?

Expliquei, desculpando-me, que meu criado me fizera ir até a sala de visita com rebate falso ou que algum desocupado tentara visitar Strickland, mas depois, mudando de ideia, se retirara sem deixar o nome. Strickland mandou servir o jantar sem fazer comentário, e, visto que era um jantar de verdade, inclusive com toalha branca posta, sentamo-nos à mesa.

Às 9h Strickland quis se deitar e eu também estava cansado. Tietjens, que estivera deitada sob a mesa, se levantou e foi à varanda mais abrigada assim que o dono seguiu para o quarto, que era junto do confortável aposento preparado para Tietjens. Se uma esposa quisesse dormir fora com aquela chuva forte, não teria importância, mas Tietjens era uma cadela, portanto, um animal melhor. Olhei para Strickland, esperando vê-lo chamar a cadela com um assobio. Sorriu de maneira estranha, como um homem sorriria depois de revelar uma tragédia doméstica.

— Ela faz isso desde que me mudei para cá. Deixemo-la aí.

A cadela era de Strickland, por isso nada observei, mas sentia tudo o que Strickland sofria por ser assim desprezado. Tietjens acampou no lado de fora da janela de meu quarto e eu ouvia um trovão após o outro rolar sobre o colmo do telhado e morrer longe. Os relâmpagos se espalhavam no céu como um ovo jogado se espalha numa porta de celeiro, mas a luz era azul-claro e não amarela e, olhando através de minhas cortinas de bambu entreabertas, eu podia ver a grande cadela em pé, desperta, na varanda, com o pelo das costas eriçado e as patas rígidas, tão esticadas como os cabos de aço de suspensão de uma ponte pênsil. Nos intervalos muito curtos da trovoada, eu tentava dormir, mas parecia que alguém precisava de mim urgentemente. Fosse quem fosse, tentava me chamar pelo nome, mas sua voz não era mais que rouco sussurro. A trovoada acabou, e Tietjens foi ao jardim e uivou ao luar nascente. Alguém tentou abrir a minha porta, andou dum lado a outro na casa, e parou, respirando alto, nas varandas. Exatamente quando eu ia adormecendo, pareceu-me ouvir um forte martelar e brados sobre minha cabeça ou à porta.
Corri ao quarto de Strickland e perguntei se estava doente e se me chamara. Estava deitado na cama, meio vestido, com o cachimbo entre os dentes. Disse:

— Imaginei que virias. Esteve caminhando na casa, há pouco?

Expliquei que vagueara na sala de jantar, na sala de fumo e mais dois ou três cômodos. Riu e me disse que voltasse à cama. Voltei e dormi até na manhã, mas, ao longo de todos meus sonhos inquietos, tinha a consciência de que estava fazendo uma injustiça a alguém não acendendo a seu desejo. O que eram esses desejos, não poderia dizer, mas alguém, ondeante, sussurrante, tateante, oculto e vago, me censurava por minha moleza e, meio acordado, eu ouvia o uivo de Tietjens no jardim e o crepitar da chuva.

Vivi naquela casa dois dias. Strickland ia ao escritório diariamente, deixando-me sozinho, durante oito ou dez horas, com Tietjens como única companhia. Enquanto a luz do dia durava, eu me sentia tranquilo e Tietjens também. Mas, no crepúsculo, eu e ela íamos ao terraço do fundo e procurávamos mútua companhia. Estávamos sozinhos na casa, que parecia entregue a um habitante com quem eu não desejava interagir. Nunca o via, mas podia ver as cortinas das portas entre os diversos cômodos se agitarem à sua passagem. Podia ouvir as cadeiras estalarem e os bambus se distenderem como se um peso acabasse de sair de cima. E podia sentir, quando ia buscar um livro na sala de jantar, que alguém estava esperando, na sombra da varanda da frente, eu me retirar. Tietjens tornava o crepúsculo mais excitante, olhando os quartos escuros com os pelos eriçados, e seguindo com o olhar os movimentos de algo que eu não podia ver. Nunca entrava nos quartos, mas os olhos se moviam atentamente. Isso era suficiente. Só quando meu criado vinha espevitar as lâmpadas, e deixar tudo claro e habitável, ela vinha ara junto de mim, e se sentava sobre os quartos traseiros, observando um homem invisível que se movia atrás de meus ombros. Os cachorros são companheiros alegres.

Expliquei a Strickland, com a maior delicadeza possível, que arranjaria alojamento para mim no clube. Apreciava muito sua hospitalidade, gostava de suas espingardas e varas de pescar, mas não me sentia bem com a atmosfera da casa. Ele ouviu calado até o fim e sorriu muito cansadamente, mas sem mofa, porque é um homem que sabe compreender as coisas.

— Fica. Descobre o que significa isso. Tudo o que me disseste eu já sabia desde que aluguei o bangalô. Fica e espera. Tietjens já me abandonou. Queres fazer o mesmo?

Eu já o ajudara num pequeno caso relacionado cum ídolo pagão que me levara às portas dum hospício, e não queria ajuda-lo mais em novas aventuras. Era um homem que procurava as situações desagradáveis com a mesma facilidade com que um homem normal vai a um jantar.

Portanto, expliquei, o mais claramente possível, que gostava muito dele e que teria muito prazer em vê-lo durante o dia, mas que não desejava dormir sob seu teto. Isso era depois do jantar, quando Tietjens saíra para se deitar na varanda.

— Por Deus! Não me admiro! — disse, com os olhos fitos no pano do forro — Olha aquilo!

As caudas de duas serpentes castanhas pendiam entre o forro e a cornija da parede. Lançavam grandes sombras à luz das lâmpadas:

— Se tens medo de víbora — disse ele —, é natural.

Tenho ódio e medo das serpentes porque, fitando-se os olhos duma cobra, ver-se-á que se sabe tudo e mais algo sobre o mistério da queda do homem, e que se sente toda a satisfação que o Diabo sentiu quando Adão foi expulso do Paraíso. Além do mais, a picada é, em geral, fatal, e as víboras costumam enrolar-se nas pernas das calças das pessoas.

— Deveria mandar fazer uma limpeza no colmo. Dá-me um caniço de pesca para derrubá-las. Elas se esconderão entre as vigas do telhado e não posso suportar a ideia de ficar com essas víboras lá em cima. Subirei ao forro. Caso eu as derrube, fica de lado e quebra-lhes a espinha com a vareta de limpar espingarda.

Eu não tinha vontade de ajudar Strickland naquele serviço, mas peguei a vareta e esperei na sala de jantar, enquanto Strickland trazia uma escada de jardineiro da varanda e a encostava à parede do aposento. As caudas das víboras se agitaram e desapareceram. Ouvíamos o ruído seco dos corpos compridos fugindo sobre o pano frouxo do teto. Strickland pegou uma lâmpada, enquanto eu tentava fazê-lo ver claramente o perigo de caçar víbora de telhado entre um pano de forro e a cobertura de colmo, fora a possibilidade de danificar a propriedade alheia rasgando o pano do forro.

— Tolice! Com certeza estarão escondidas junto das paredes, sob o pano. Os tijolos são frios demais para elas e o que lhes agrada é justamente o calor da sala.

Pôs a mão no canto do forro e o desprendeu da cornija. Cedeu com grande barulho de pano rasgado e Strickland meteu a cabeça na abertura, espreitando dentro do vão escuro das vigas do telhado. Apertei os dentes e levantei a vareta, porque não tinha idéia do que viria do alto.

— Hum! — Disse Strickland, cuja voz rolou e ecoou no telhado. — Há espaço para uma série de cômodo aqui no alto e alguém os ocupa!

— Víboras?

— Não. É um búfalo. Dá-me dois pedaços mais grossos de uma vara de pescar que o empurrarei. Está em cima da viga mestra do telhado.

Dei a vareta.

— Que ninho de mocho e serpente! Não admira que as víboras vivam aqui — disse, subindo mais a dentro do forro. Podia ver o ombro manejando a vareta. — Sai daí, sejas lá quem fores! Cuidado em baixo! Vai cair!

Vi o forro de pano, mais ou menos a meio da sala, se esticar com o peso de objeto volumoso, que o forçava a baixo, em direção à lâmpada acesa sobre a mesa. Puxei rapidamente a lâmpada para um lugar mais seguro e recuei um pouco. Então o pano se desprendeu das paredes, rasgou, abriu ao meio e deixou cair sobre a mesa algo ao qual não ousei olhar, até que Strickland desceu a escada e veio para junto de mim.

Não disse grande coisa, porque era homem de poucas palavras, mas pegou a ponta solta da toalha da mesa e a dobrou sobre o despojo caído. Disse, pousando a lâmpada:

— Parece que nosso amigo Imray voltou para casa. Oh! Também vieste. Não foi?

A toalha se agitou de leve e uma pequena víbora escorregou ao chão, onde foi cortada ao meio por uma pancada do caniço. Sentia-me mal demais para comentar algo digno de menção.

Strickland estava meditando e se serviu uma bebida. O que estava sob a toalha não deu mais sinal de vida. Perguntei:

— É Imray?

Levantou a ponta da toalha um instante e olhou.

— É Imray e tem a garganta cortada de orelha a orelha.

Então dissemos, ao mesmo tempo, a nós mesmos:

— Era por isso que andava vagueando na casa!

Tietjens, no jardim, começou a latir furiosamente. Um momento depois abriu, com o focinho, a porta da sala de jantar. Farejou e ficou imóvel. O pano rasgado do forro estava pendurado quase até a altura da mesa, e havia pouco espaço para nos afastarmos do despojo.

Tietjens avançou e se sentou. Os dentes surgiram sob as fuças arreganhadas e as patas da frente ficaram rígidas. Olhou o dono.

— É um caso complicado, minha velha. Um homem não sobe ao forro de seu bangalô para morrer e não conserta o forro depois. Pensemos no caso.

— Pensemos, mas nalgum lugar fora daqui.

— Excelente ideia. Apaga as lâmpadas. Vamos a meu quarto.

Não apaguei as lâmpadas. Fui ao quarto de Strickland na frente e deixei que se encarregasse daquele serviço. Depois me seguiu, acendemos os cachimbos e pensamos. Strickland pensou. Eu fumava desesperadamente porque estava com medo.

— Imray voltou — disse Strickland. — A questão agora é: quem matou Imray? Não fales! Tenho uma ideia. Quando aluguei este bangalô, fiquei com muitos dos criados de Imray, que era franco e inofensivo. Não era?

Concordei, embora o despojo que estava sob a toalha não parecesse uma coisa nem outra.

— Se eu chamar todos os criados, ele se unirão e mentirão como arianos. O que sugeres?

— Chamá-los um a um.

— O primeiro irá correndo contar a novidade a todos os companheiros. Devemos segrega-los. Achas que teu criado sabe algo sobre o caso?

— Pode ser, mas é improvável. Só está aqui há dois ou três dias. Qual é tua ideia?

— Não sei dizer. Como o homem escolheu o lado de cima do forro?

Ouvimos uma tosse forte do lado de fora da porta do quarto de Strickland. Isso significava que Bahadur Khan, seu camareiro, acordara e queria ajudar Strickland a se deitar.

— Então. Está uma noite muito quente. Não é?

Bahadur Khan, um grande maometano com 1,95m de altura, usando turbante verde, disse que estava uma noite muito quente, mas estava a cair muita chuva, a qual, por graça de sua honra, traria alívio à terra. Strickland disse, descalçando as botas:

— Assim será, se deus quiser. Tenho ideia, Bahadur Khan, de que trabalhas para mim, sem merecer censura, há muito tempo, desde que entraste a meu serviço. Quando foi isso?

— O filho dos céus já esqueceu? Foi quando Imray saíbe seguiu secretamente à Europa sem avisar. E até eu entrei ao honrado serviço do protetor dos pobres.

— E Imray saíbe foi à Europa?

— Assim se diz entre os que eram seus criados.

— E aceitarás seu serviço quando voltar?

— Seguramente, saíbe. Era um bom amo e tratava bem os dependentes.

— Isso é verdade. Estou muito cansado, mas caçarei cabrito-montês amanhã. Dá-me o pequeno rifle que costumo usar para cabrito montês. Está naquela caixa.

O homem se curvou sobre a caixa e entregou os canos, a culatra e a coronha a Strickland, que montou a arma, bocejando preguiçosamente. Depois estendeu a mão à caixa de arma, pegou um cartucho grosso e o meteu na culatra da carabina 360.

— E Imray saíbe foi à Europa secretamente! Isso é muito estranho, Bahadur Khan. Não achas?

— O que sei do costume dos homens brancos, filho dos céus?

— Bem pouco, na verdade. Mas ficarás sabendo mais em breve. Eu soube que Imray saíbe voltou da longa jornada e jaz na outra sala, esperando seu servo fiel.

— Saíbe!

A luz da lâmpada brilhou nos longos canos da carabina quando foi erguida à altura do peito largo de Bahadur Khan. Strickland disse:

— Verás! Leva uma lâmpada. O patrão está cansado e precisa de ti. Vai!

O homem segurou uma lâmpada e entrou na sala de jantar, seguido por Strickland, que quase o empurrava com a boca rifle. Olhou um momento o vão escuro do forro acima do pano rasgado.  Depois, a víbora contorcida no chão. E, por último, com o palor de cinza no rosto, o despojo sob a toalha da mesa. Strickland perguntou depois duma pausa:

— Viste?

— Vi. Sou barro nas mãos do homem branco. O que farão os outros?

— Enforcar-te dentro dum mês. O que mais poderiam fazer?

— Por matá-lo? Saíbe, considera. Vivendo entre nós, seus criados, pousou os olhos em meu filho, que tinha quatro anos.  E o enfeitiçou. Em dez dias morreu de febre. Meu filho!

— O que disse Imray saíbe?

— Disse que era um menino bonito, e lhe deu uma palmadinha na cabeça. Por isso meu filho morreu. E por isso matei Imray saíbe, no crepúsculo, quando voltara do escritório e estava dormindo. Depois o arrastei à viga do telhado e recompus tudo atrás. O filho dos céus tudo sabe. Sou um escravo do filho dos céus.

Strickland olhou para mim sobre os canos da arma e falou no mesmo tom empolado:

— És testemunha do que ele disse? Matou.

Bahadur Khan parecia cinzento à luz da única lâmpada: a necessidade de se defender se apresentou logo. Olhou para Tietjens, deitada calmamente em sua frente.

— Fui apanhado, mas o ofensor foi aquele homem. Lançou mau-olhado sobre meu filho e o matei e escondi. Só os que são servidos pelos demônios saberiam o que fiz.

— Foste esperto, mas deverias tê-lo amarrado à viga com corda. Porém, agora és quem ficará pendurado numa corda. Ordenança!

Um policial sonolento acudiu ao chamado de Strickland, seguido doutro. Tietjens se sentou, muito quieta.

— Leva-o ao posto policial. Há um caso contra ele.

— Então serei enforcado? — perguntou Bahadur Khan, sem fazer tentativa para fugir, mantendo os olhos cravados no chão.

— Se há luz solar e água corrente, sim!

Bahadur Khan recuou um grande passo, estremeceu e ficou imóvel. Os dois policiais aguardavam nova ordem.

— Ide!

— Nunca! Mas irei muito depressa. Já sou um homem morto.

Levantou o pé, e ao dedo mindinho, estava aferrada a cabeça da víbora meio morta, firmemente agarrada na agonia da morte.

— Venho duma raça de senhores da terra —Bahadur Khan disse, oscilando. — Seria uma desonra subir ao patíbulo. Portanto, escolho este caminho. Lembrai-vos de que as camisas de saíbe estão em perfeita ordem e que há um sabonete novo na saboneteira. Meu filho foi enfeitiçado e matei o bruxo. Por que seria enforcado? Minha honra está salva, e morro!

Após uma hora, morreu como morrem os que são mordidos pela pequena karait castanha. Os policiais o levaram e, também, o despojo que jazia sob a toalha da mesa, aos competentes destinos. Seria necessário para esclarecer o desaparecimento de Imray.

Strickland disse, muito calmo, ao se enfiar na cama:

— Isto é o século XIX. Ouviste o que aquele homem disse?

— Ouvi. Imray cometeu um erro.

— Apenas por não conhecer a natureza oriental e a coincidência de uma pequena febre palustre. Bahadur Khan estava com ele havia quatro anos.

Estremeci. Meu próprio camareiro estava comigo exatamente há quatro anos. Quando fui ao quarto encontrei meu homem, impassível como a efígie de cobre duma moeda, pronto para descalçar minhas botas, perguntei:

— O que aconteceu a Bahadur Khan?

— Foi mordido por uma víbora e morreu. O resto sabes.

— Quanto sabias a respeito do caso?

— Tanto quanto se pode inferir de alguém que vem no crepúsculo tomar satisfação.

—Devagar, saíbe. Deixa-me puxar essas botas.

Ia justamente adormecendo, exausto, quando ouvi Strickland gritar no outro lado da casa:

— Tietjens voltou ao lugar!

E voltara mesmo. A grande mastim estava majestosamente deitada em seu estrado e em seu cobertor, enquanto, no aposento contíguo, o forro de pano rasgado balançava, roçando a mesa.

Ilustração de William Strang.



[1] Espécie de carruagem de duas rodas.

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