FATAL SINA -Conto Clássico Insólito - Jean Richepin


 

FATAL SINA

Jean Richepin

(1849 – 1926)

Tradução de Jorge de Mendonça

(Séc. XIX)



Os esposos Guignard, que haviam casado por amor, desejavam apaixonadamente um filho. Como se o novo ser, tão ansiosamente esperado, quisesse apressar a realização destes votos, veio ao mundo antes do tempo. Sua mãe morreu, e seu pai, não podendo conformar-se com esta perda, enforcou-se num acesso de desespero.


*


Constance Guignard teve uma infância exemplar, mas desgraçada. Passou o tempo que esteve no colégio a sofrer castigos que não merecia, a levar palmatoadas que lhe não eram destinadas, e de cama nos dias em que havia alguma festa. Terminou os preparatórios com fama de hipócrita e reputação de velhaco. No concurso ao bacharelado, fez a tradução latina dum vizinho que foi admitido, enquanto que ele era expulso dos exames por ter copiado.


*


Princípios tão adversos tornariam má uma natureza vulgar. Constance Guignard, porém, tinha uma grande alma e, persuadido de que a felicidade é a recompensa da virtude, resolveu vencer a desgraça com o heroísmo.

Foi para uma casa comercial que ardeu no dia seguinte. Na maior força do incêndio, ao ver o desespero do patrão, precipitou-se entre as chamas para salvar a caixa. Com os cabelos queimados, o corpo coberto de feridas, conseguiu, arriscando a própria vida, arrombar o cofre e tirar dele todos os valores.

O fogo, porém, devorou-lhes entre as mãos. Quando saiu do enorme braseiro, foi agarrado por dois policiais e, um mês depois, era condenado a cinco anos de prisão por ter querido apoderar-se, protegido pelo incêndio, de haveres que não corriam perigo algum no cofre incombustível.


*


Houve uma revolta na prisão em que estava alojado. Querendo socorrer um guarda atacado, deita-o ao chão, do que resultou ser assassinado pelos revoltosos. Condenaram-no a vinte anos de degredo com trabalhos públicos. Convencido da sua inocência, evadiu-se, voltou à pátria com outro nome, pensou que havia desnorteado a fatalidade e recomeçou a fazer bem.


*


Um dia, num arraial, viu um cavalo desbocado que arrastava uma carruagem para o precipício. Arremessa-se para o animal, torce um braço, quebra uma costela, mas consegue impedir a queda inevitável. O cavalo volta para trás e vai cair no centro da multidão, onde esmaga um velho, duas mulheres e três crianças. A carruagem estava vazia.


*


Desgostoso com o resultado dos atos de heroísmo, Constance Guignard resolveu-se a praticar humildemente o bem e dedicou-se ao alívio de ocultas misérias. O dinheiro que mandava a pobres mulheres era dispendido na taberna pelos maridos; as roupas que distribuía aos operários, costumados ao frio, provocaram pneumonias; um cão abandonado, que recolheu, mordeu, num ataque de hidrofobia, seis pessoas da vizinhança; o substituto militar, que pagou a um pobre rapaz, vendeu ao inimigo as chaves de uma praça de guerra.


*


Constance Guignard pensou que o dinheiro é causa do mal e não do bem e que, em vez de espalhar benefícios, melhor seria concentrá-los sobre um único ser. Adotou uma órfã que não era bela, mas que possuía as mais raras qualidades e que educou com a ternura de verdadeiro pai. Foi tão bom, tão dedicado, tão amável para ela que, uma noite, a jovem, caindo-lhe de joelhos aos pés, confessou-lhe que amava. Diligenciou fazer-lhe compreender que sempre a havia considerado como filha e que se julgaria cúmplice dum crime cedendo à tentação que ela provocara. Demonstrou-lhe paternalmente que julgava amor o despertar das sensações, e prometeu-lhe obedecer àquele aviso da natureza procurando o mais breve possível um esposo digno dela. No dia seguinte, encontrou-a junto da porta do seu quarto com um punhal cravado no coração.


*


Desde então, Constance Guignard renunciou à missão de protetor e jurou que, dali para o futuro, para fazer o bem, limitar-se-ia a impedir o mal.

Algum tempo depois, descobriu, por acaso, a pista dum crime que um de seus amigos ia cometer. Poderia tê-lo denunciado à polícia; preferiu, porém, impedir o crime sem perder o criminoso. Ligou-se intimamente à ação que se preparava, conseguiu reunir todos os fios e esperou o movimento decisivo para fazer abortar o projeto. O velhaco porém, descobriu-lhe o pensamento e combinou as coisas de modo que, realizando-se o crime, escapou o criminoso e Constance Guignard foi preso.


*


A acusação do Ministério Público contra Constance Guignard foi um modelo de lógica. Narrou toda a vida do acusado, sua deplorável infância, a audácia da primeira tentativa de roubo, a odiosa cumplicidade da revolta, a evasão do Ultramar, o regresso à França com um nome suposto. A partir deste momento, o orador atingiu o grau mais elevado da eloquência judiciária, estigmatizou aquele hipócrita de bondade, o corruptor de esposas honestas, que para saciar más paixões dava dinheiro aos maridos para o dispenderem nas tabernas, o filho benfeitor que procurava. com ofertas prejudiciais, captar uma população doentia, aquele monstro oculto sob a máscara de filantropo. Profundou, com horror, a perversidade requintada do celerado, que recolhia os cães hidrófobos para os soltar depois; daquele demônio, amando o mal pelo mal, arriscando a própria vida a sofrear um cavalo — e para quê? Para ter a espantosa alegria de o ver arrojar-se sobre a multidão, e esmagar velhos, mulheres e crianças. Ah, aquele miserável era capaz de tudo! Sem dúvida alguma, tinha cometido crimes que nunca se descobririam. Havia mil razões para acreditar que fora cúmplice do substituto comprado por ele para trair a pátria, enquanto à órfã, que tinha educado e que fora encontrada morta à porta do seu quarto, que outro senão ele a teria assassinado? Esta morte era, sem dúvida alguma, o epílogo sangrento dum desses dramas infames, de vergonha, de crápula e de lodo, em que apenas se ousa pensar. Depois de tantas monstruosidades, não era necessário falar no último crime. Neste, apesar de o acusado negar com singular atrevimento, havia evidência absoluta. Era, pois, indispensável fazer pesar sobre aquele homem todo o rigor da lei. A punição era justíssima e o castigo seria moderado, fosse qual fosse.

Tratava-se não só dum grande criminoso, mas também de um desses gênios do crime, um desses monstros de hipocrisia e de malícia que, quase, fazem duvidar da virtude e desesperar da humanidade.

Perante uma tal acusação, o advogado de Constance Guignard não podia defendê-lo. Fez o que pôde, falou de casos patológicos, dissertou sabiamente sobre a nevrose ao mal, apresentou o réu como um monomaníaco irresponsável, e concluiu dizendo que tais anomalias se curavam num hospital de doidos e não sobre o cadafalso.

Constando Guignard foi condenado à morte por unanimidade.


*


Os homens virtuosos, a quem o ódio do crime tornava ferozes, tiveram transportes de alegria e aplaudiram freneticamente a sentença.


*


A morte de Constando Guignard foi como a infância, exemplar mas desgraçada. Subiu ao cadafalso sem medo e com serenidade, de rosto tranquilo como a sua alma, com a aparência do mártir por todos julgada como brutal atonia. No momento supremo, sabendo que o carrasco era pobre e chefe de família, declarou-lhe que lhe legava todos os seus bens em frases tão sinceras que o executor, comovido, só ao terceiro golpe separou do tronco a cabeça do seu benfeitor.


*


Três meses depois, um amigo de Constance Guignard soube, voltando duma viagem, o triste fim daquele honrado homem cujo merecimento só ele conhecia. Desejando reparar tanto quanto possível a injustiça da sorte, comprou a propriedade duma cova, encomendou um magnífico túmulo de mármore e escreveu um epitáfio para o seu amigo. No dia seguinte, morreu duma apoplexia fulminante. No entanto, como as despesas estavam pagas, o guilhotinado teve o seu túmulo. O artista encarregado de gravar o epitáfio corrigiu, por sua conta, uma letra pouco legível do manuscrito. E aquele coração de ouro, aquele home de bien1 desconhecido durante a vida, jaz com este perpetuo epitáfio:


AQUI JAZ CONSTANCE GUIGNARD

HOME DE RIEN2


Fonte: Universo Ilustrado/PT, 1878.

Notas:

1Homem de bem.

2Homem de nada.

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